Poemas neste tema
Criatividade e Inspiração
Nelson Motta
barato zen
louco de fumo diante da tv
contemplo a tela iluminada e penso
na ânsia de criar, de ir adiante
que tantome consome e angustia
e sinto que a vida não se faz
somente pela ação e movimento
enquantome abrigo em meu silêncio
e deixo que a tv me hipnotize
nesse momento tonto e inativo
nada é urgente, nada é necessário
além de aceitar serenamente
a hora de não ser
e de ser nada.
não tendo mais
tempo nem saco
para tanto papo
o príncipe de saudades
do tempo em que era sapo.
contemplo a tela iluminada e penso
na ânsia de criar, de ir adiante
que tantome consome e angustia
e sinto que a vida não se faz
somente pela ação e movimento
enquantome abrigo em meu silêncio
e deixo que a tv me hipnotize
nesse momento tonto e inativo
nada é urgente, nada é necessário
além de aceitar serenamente
a hora de não ser
e de ser nada.
não tendo mais
tempo nem saco
para tanto papo
o príncipe de saudades
do tempo em que era sapo.
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1
Reinaldo Ferreira
A emoção é como um pássaro
A emoção é como um pássaro:
Quando se prende já não canta.
Mas se a gente a liberta,
Qualquer janela aberta
Lhe serve para fugir.
O poeta é aquele que numa praça
S. Marcos de Veneza transcendente,
E de todas as praças, praça ainda,
Aguarda na manhã que se insinua
Ou na tarde que finda
O voo que há-de vir.
Ele estende a mão,
Abre-a espalmada
Ao céu,
Que à anunciação de tudo ou nada
A emoção virá ou não
- Sem emoção, toda a poesia é nada -
Fiel à Anunciação que está marcada
Na sua condição.
Quando se prende já não canta.
Mas se a gente a liberta,
Qualquer janela aberta
Lhe serve para fugir.
O poeta é aquele que numa praça
S. Marcos de Veneza transcendente,
E de todas as praças, praça ainda,
Aguarda na manhã que se insinua
Ou na tarde que finda
O voo que há-de vir.
Ele estende a mão,
Abre-a espalmada
Ao céu,
Que à anunciação de tudo ou nada
A emoção virá ou não
- Sem emoção, toda a poesia é nada -
Fiel à Anunciação que está marcada
Na sua condição.
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1
Venúsia Neiva
Flor Azul
era uma flor desmaiada
e, ao vento, tinha gesto de pássaro
que foge ao frio.
era azul e nasceu nos primeiros véus da noite.
ninguém a viu.
ninguém sentiu o seu estranho perfume.
só eu que amo as coisas misteriosas e fugaces.
e ela se evaporou nas brumas do meu sonho.
ó poesia!
ó musa!
ó inatingível!
e, ao vento, tinha gesto de pássaro
que foge ao frio.
era azul e nasceu nos primeiros véus da noite.
ninguém a viu.
ninguém sentiu o seu estranho perfume.
só eu que amo as coisas misteriosas e fugaces.
e ela se evaporou nas brumas do meu sonho.
ó poesia!
ó musa!
ó inatingível!
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1
Vitor Casimiro
Por Que Se Faz Perguntas Sobre Poesia?
Me pergunto como deve ser a poesia
Deve ela ser doce ou deve ser fria?
Pergunto como quem não quer nada:
Que tal engajada?
Já sei, Já sei, curta e métrica
Objetiva expressão numérica.
Pensando bem, isso não interessa
A poesia não tem pressa.
Talvez revolucionária, concreta
Curva esférica em linha reta
Será que isso importa?
Acho que não. A poesia já nasceu torta.
Melhor: Deve ser sonora!
Espalhada mundo afora
Deve ela ser doce ou deve ser fria?
Pergunto como quem não quer nada:
Que tal engajada?
Já sei, Já sei, curta e métrica
Objetiva expressão numérica.
Pensando bem, isso não interessa
A poesia não tem pressa.
Talvez revolucionária, concreta
Curva esférica em linha reta
Será que isso importa?
Acho que não. A poesia já nasceu torta.
Melhor: Deve ser sonora!
Espalhada mundo afora
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1
Ednólia Fontenele
Busca
Procuro um poema novo
derramando sangue
cheirando mal
falando de paixões eróticas
de crimes violentos.
Procuro um poema
com a cor do sol,
o brilho da tua pele,
com sabor de língua.
Procuro um poema
perverso como eu,
triste, mas contestador.
Quero mais sal na comida,
mais prudência na vida,
evitar o espelho na saída,
sorrir na despedida
e sem dor nenhuma
negar essa paixão.
derramando sangue
cheirando mal
falando de paixões eróticas
de crimes violentos.
Procuro um poema
com a cor do sol,
o brilho da tua pele,
com sabor de língua.
Procuro um poema
perverso como eu,
triste, mas contestador.
Quero mais sal na comida,
mais prudência na vida,
evitar o espelho na saída,
sorrir na despedida
e sem dor nenhuma
negar essa paixão.
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1
Rodrigo Carvalho
Poema
Este poema não tem pretensão nenhuma.
Este poema não quer ser nada.
Não quer dizer nada.
Este poema pode até ser provisório
— apenas enquanto não se pensa em nada —.
Este poema,
nem quer ser poema!
Sei que ele quer explodir,
invariável,
mudo.
Creio apenas que quer
romper os dedos de minhas mãos,
e cair, teimoso,
dando vida,
à uma folha abstrata de papel.
Mas este poema não tem resistência alguma,
como folhas, soltas ao vento,
frio,
sem pecados...
Salvador, 20 de dezembro de 1996
Este poema não quer ser nada.
Não quer dizer nada.
Este poema pode até ser provisório
— apenas enquanto não se pensa em nada —.
Este poema,
nem quer ser poema!
Sei que ele quer explodir,
invariável,
mudo.
Creio apenas que quer
romper os dedos de minhas mãos,
e cair, teimoso,
dando vida,
à uma folha abstrata de papel.
Mas este poema não tem resistência alguma,
como folhas, soltas ao vento,
frio,
sem pecados...
Salvador, 20 de dezembro de 1996
896
1
Raquel Naveira
Bicho Esquisito
Poeta é cão perdigueiro
Farejando tudo:
Até no lixo
Encontra cacos de estrela.
Poeta é inseto de antena,
Captando sons,
Imagens,
Mensagens telepáticas.
Poeta vive procurando rastros,
Códigos cifrados,
Hieróglifos em rosetas.
Poeta vive deixando trilhas,
Caindo em armadilhas,
Desvencilhando-se de teias.
Poeta vive catando sinais,
Atento a gestos, a gosmas,
A gemidos no vento.
Poeta é bicho esquisito,
Meio cachorro,
Meio mosquito,
E com mania de perseguição.
Farejando tudo:
Até no lixo
Encontra cacos de estrela.
Poeta é inseto de antena,
Captando sons,
Imagens,
Mensagens telepáticas.
Poeta vive procurando rastros,
Códigos cifrados,
Hieróglifos em rosetas.
Poeta vive deixando trilhas,
Caindo em armadilhas,
Desvencilhando-se de teias.
Poeta vive catando sinais,
Atento a gestos, a gosmas,
A gemidos no vento.
Poeta é bicho esquisito,
Meio cachorro,
Meio mosquito,
E com mania de perseguição.
1 692
1
Joaquim Namorado
Mania das Grandezas
Pois bem, confesso:
fui eu quem destruiu as Babilônias
e descobriu a pólvora...
Acredite,
a estrela Sírius, de primeira grandeza,
(única no mercado)
deixou-me meu tio-avô em testamento.
No meu bolso esconde-se o segredo
das alquimias
e a metafísica das religiões
— tudo por inspiração!
Que querem?
Sou poeta
e tenho a mania das grandezas...
Talvez ainda venha a ser Presidente da República...
fui eu quem destruiu as Babilônias
e descobriu a pólvora...
Acredite,
a estrela Sírius, de primeira grandeza,
(única no mercado)
deixou-me meu tio-avô em testamento.
No meu bolso esconde-se o segredo
das alquimias
e a metafísica das religiões
— tudo por inspiração!
Que querem?
Sou poeta
e tenho a mania das grandezas...
Talvez ainda venha a ser Presidente da República...
2 125
1
Nauro Machado
O Parto
Meu corpo está completo, o homem - não o poeta.
Mas eu quero e é necessário
que me sofra e me solidifique em poeta,
que destrua desde já o supérfluo e o ilusório
e me alucine na essência de mim e das coisas,
para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,
trazer-me à tona do poema
com um grito de alarma e de alarde:
ser poeta é duro e dura
e consome toda
uma existência.
Mas eu quero e é necessário
que me sofra e me solidifique em poeta,
que destrua desde já o supérfluo e o ilusório
e me alucine na essência de mim e das coisas,
para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,
trazer-me à tona do poema
com um grito de alarma e de alarde:
ser poeta é duro e dura
e consome toda
uma existência.
4 842
1
Sérgio Mattos
Imagem Pura
Num mundo indiferente e sem formas,
uma obsessão inacabada,
emergindo de uma pálida significação,
se alinhava em meu espírito
em busca duma imagem pura:
uma obsessão inacabada,
emergindo de uma pálida significação,
se alinhava em meu espírito
em busca duma imagem pura:
828
1
Micheliny Verunschk
Premissa Perdida da Paracelsus
A alquimia das cozinhas
Se assemelha
À alquimia de escrever
E esta, por sua vez
À alquimia de pintar:
Digo do tempero ( A têmpera )
Das palavras,
Seus cheiros de orégano e coentro
E ainda das claras aquarelas
Batidas em neve
( Os conté, alvaiades e aguadas,
Seus doces e seus vinagres... )
Digo da transmutação
E também da mimésis camaleônica
Que tudo transforma,
Tudo com(funde):
Alimento,
Letra,
Tinta...
Se assemelha
À alquimia de escrever
E esta, por sua vez
À alquimia de pintar:
Digo do tempero ( A têmpera )
Das palavras,
Seus cheiros de orégano e coentro
E ainda das claras aquarelas
Batidas em neve
( Os conté, alvaiades e aguadas,
Seus doces e seus vinagres... )
Digo da transmutação
E também da mimésis camaleônica
Que tudo transforma,
Tudo com(funde):
Alimento,
Letra,
Tinta...
955
1
Marta Gonçalves
Palavras
O vegetal que me cerca e envolve meu corpo arreia as correntes dos braços. Deixaremos vidros quebrados nas manhãs e o sol brotará sementes de milho. Chegará a época de recriarmos o solo da terra, de aleitarmos a infância. Deve existir uma mudança cósmica neste pó que habitamos. Sorveremos água das pedras e as montanhas que nos cercam perderão a chave. Ao abrir as portas, a palavra chegará na ponta do mar. A areia quente das praias vai sorver borboletas. Descobrirão que a poesia chega no vento. Ela precisa de olhos além do infinito. O poeta não deve sair de sua solidão. Quieto em seu canto, armazena a alquimia. Existem palavras que são lâminas cortando veias. E essas veias sangrarão as faces nodosas. Destruiremos o lodo, mas a erva continuirá crescendo nas noites. Jogaremos margaridas brancas, poucos estenderão as mãos para colhê-las.
1 032
1
António Manuel Couto Viana
Segredo
Fiz uma estátua de neve
(Mas há sol no meu pais!)
A mentira que se escreve
É a verdade com que a fiz.
Pus-lhe uma flor entre os dedos,
Para ver se os aquecia
— Não sei revelar segredos
Sem que floresças, poesia!
Para seres casto, sê breve
— Aonde a estátua de neve?
(Mas há sol no meu pais!)
A mentira que se escreve
É a verdade com que a fiz.
Pus-lhe uma flor entre os dedos,
Para ver se os aquecia
— Não sei revelar segredos
Sem que floresças, poesia!
Para seres casto, sê breve
— Aonde a estátua de neve?
1 624
1
José de Paula Ramos Jr.
A um Poeta
para Frederico Barbosa
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
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1
José Eustáquio da Silva
Opinião
opinião do poeta sem letras:
a poesia começa quando a sentimos e termina quando a escrevemos
opinião do poeta letrado:
a poesia começa quando a sentimos e se eterniza quando a escrevemos
opinião da poesia:
eu não começo, não termino e não eternizo.
sou apenas poesia...
opinião do leitor:
a poesia começa quando a sentimos e termina quando a escrevemos
opinião do poeta letrado:
a poesia começa quando a sentimos e se eterniza quando a escrevemos
opinião da poesia:
eu não começo, não termino e não eternizo.
sou apenas poesia...
opinião do leitor:
869
1
Al Berto
O Pequeno Demiurgo
escrevo barco e uma quilha fende o vastíssimo mar
e as árvores crescem dos espaços enevoados
entre olhar e olhar movem-se
animais presos à terra com suas plumagens de ferro
e de orvalho de ouro quando a lua se eclipsa
comunicando-lhes o cio e a nómada alegria de viver
penso outono ou inverno
e o lume resinoso dos pinhais escorre sobre o rosto
sobre o corpo em tímidos gestos
eis o tempo
do capricórnio reduzido ao esconderijo tatuado
na asa mineral da ave em pleno vôo e digo nuvens
relâmpago erva águas
homem
movimento do susto oceanos sal exaustos corpos
transumantes paixões digo
e surge irrompe escorre ergue-se move-se vive
morre
mas não julguem ser trabalho simples nomear
arrumar e desordenar o mundo
para que não se apague esta trémula escrita
preciso do sonho e do pesadelo
da proximidade vertiginosa dos espelhos e
de pernoitar no fundo de mim com as mãos sujas
pelo árduo trabalho de construir os gestos exactos
da alegria que por descuido deus abandonou ao cansaço
no fim do sétimo dia
e as árvores crescem dos espaços enevoados
entre olhar e olhar movem-se
animais presos à terra com suas plumagens de ferro
e de orvalho de ouro quando a lua se eclipsa
comunicando-lhes o cio e a nómada alegria de viver
penso outono ou inverno
e o lume resinoso dos pinhais escorre sobre o rosto
sobre o corpo em tímidos gestos
eis o tempo
do capricórnio reduzido ao esconderijo tatuado
na asa mineral da ave em pleno vôo e digo nuvens
relâmpago erva águas
homem
movimento do susto oceanos sal exaustos corpos
transumantes paixões digo
e surge irrompe escorre ergue-se move-se vive
morre
mas não julguem ser trabalho simples nomear
arrumar e desordenar o mundo
para que não se apague esta trémula escrita
preciso do sonho e do pesadelo
da proximidade vertiginosa dos espelhos e
de pernoitar no fundo de mim com as mãos sujas
pelo árduo trabalho de construir os gestos exactos
da alegria que por descuido deus abandonou ao cansaço
no fim do sétimo dia
6 202
1
Luís Filipe Maçarico
Alentejo
Alentejo terra de vento e silêncio
onde o Homem semeia a Palavra
Alentejo terra de sonho e sofrimento
onde o poema tem sede de flores
e rios. Como quem faz um pão,
escrevo à sombra das tuas oliveiras.
E canto o vôo altivo das cegonhas.
Esta leveza de viver em ruas brancas...
(Mértola, 1994)
onde o Homem semeia a Palavra
Alentejo terra de sonho e sofrimento
onde o poema tem sede de flores
e rios. Como quem faz um pão,
escrevo à sombra das tuas oliveiras.
E canto o vôo altivo das cegonhas.
Esta leveza de viver em ruas brancas...
(Mértola, 1994)
1 224
1
Helena Ortiz
Poesia Viva
precisou que te fosses
para que a poesia
renascesse em mim
enquanto estiveste ao meu lado
ela existia
tinha um corpo que dançava
olhos que abraçavam
mãos que me erguiam
e chamava-se Alice
para que a poesia
renascesse em mim
enquanto estiveste ao meu lado
ela existia
tinha um corpo que dançava
olhos que abraçavam
mãos que me erguiam
e chamava-se Alice
1 138
1
Gabriela Cunha Melo Cavalcanti
Liberta
Num tempo enchuvarado de ritmos martelados procurei a organização como meio de inspiração. Quis dar à vida a rigidez formal da técnica requintada negando a liberdade revolucionária, rebelde, burguesa, pouco prática.
Do que me adiantaria, servir-me da palavra, fazê-la objeto autônomo, cultuá-la como beleza; serena e equilibrada?
P"ra que saber do Parnassoaliás, já diria Olavo :"Nem sei se as pedras podem viver sem alma" Em nome do quê, esta impassibilidade, essa frieza em favor da objetividade? Seremos mais felizes metrificados? Assim feito robôs, já programados? Sou, antes, avessa às regras, libertade mim mesma, escrava do sangue, dos nervos de alguém.
Do que me adiantaria, servir-me da palavra, fazê-la objeto autônomo, cultuá-la como beleza; serena e equilibrada?
P"ra que saber do Parnassoaliás, já diria Olavo :"Nem sei se as pedras podem viver sem alma" Em nome do quê, esta impassibilidade, essa frieza em favor da objetividade? Seremos mais felizes metrificados? Assim feito robôs, já programados? Sou, antes, avessa às regras, libertade mim mesma, escrava do sangue, dos nervos de alguém.
962
1
Félix Aires
Soneto Artificial
Do alto do meu sonho inadiável, do cimo da
impressão que conduz em prol de novo estilo,
às vezes, vejo a Musa — uma Vênus de Milo,
outras vezes, porém, uma pobre quasímoda!
A lira — o coração — a jóia que esmerilo,
tímida, pronuncio aqui no verso — tímida;
o metaplasmo ajuda a isto, alcança o arrimo da
antítese que vem para servir de asilo.
Hei de também vencer! O caminho mais reto dos
trabalhos vou a seguir, vendo que se desaba do
esforço que porfio, a rigidez dos métodos.
E fico, noite e dia, alerta, neste afã:
— segunda, terça, quarta, e quinta, e sexta, e sábado,
domingo... E vencerei? — Vencerás, amanhã!
impressão que conduz em prol de novo estilo,
às vezes, vejo a Musa — uma Vênus de Milo,
outras vezes, porém, uma pobre quasímoda!
A lira — o coração — a jóia que esmerilo,
tímida, pronuncio aqui no verso — tímida;
o metaplasmo ajuda a isto, alcança o arrimo da
antítese que vem para servir de asilo.
Hei de também vencer! O caminho mais reto dos
trabalhos vou a seguir, vendo que se desaba do
esforço que porfio, a rigidez dos métodos.
E fico, noite e dia, alerta, neste afã:
— segunda, terça, quarta, e quinta, e sexta, e sábado,
domingo... E vencerei? — Vencerás, amanhã!
778
1
Fernando Mendes Vianna
O Poeta
Porque as flores florem e o flume flui,
e o vento varre a fúria vã das ruas,
eu desenfurno tudo quanto fui
e me corôo com meus sóis e luas.
Porque o vôo das aves é meu vôo,
e a nuvem é alcáçar que não rui,
paro o mó do pensamento onde môo
a vida, e abro no muro que me obstrui
a áurea, ástrea senda, a porta augusta.
Que me importa se a clepsidra corrói
as praças das infâncias em ruínas?
Poemas são meninos e meninas
ao sol do Pai, que tudo reconstrói.
Poeta é flor e flume em terra adusta.
e o vento varre a fúria vã das ruas,
eu desenfurno tudo quanto fui
e me corôo com meus sóis e luas.
Porque o vôo das aves é meu vôo,
e a nuvem é alcáçar que não rui,
paro o mó do pensamento onde môo
a vida, e abro no muro que me obstrui
a áurea, ástrea senda, a porta augusta.
Que me importa se a clepsidra corrói
as praças das infâncias em ruínas?
Poemas são meninos e meninas
ao sol do Pai, que tudo reconstrói.
Poeta é flor e flume em terra adusta.
1 241
1
Cleonice Rainho
Mickey
(No seu cinqüentenário)
Pequenino camundongo
dengoso e faceiro
de orelhas enormes,
boca de riso franco
e narinas que sopram
alegria e calor humano.
Ratinho catita,
garrido, elegante,
que troca de roupa
a qualquer hora,
em qualquer lugar,
onde se desenrole
o pano da fantasia.
Amigo querido
da gente pequena.
Rei de sua turma,
namora Minie,
anima o Pateta,
abraça Horácio,
atiça o Pluto,
adora Clarabela
e, com todos eles,
vive aventuras,
sente emoções
e faz estripulias,
representando
incríveis papéis.
Já cinqüentão
está jovem, menino
e será imortal
pela criatividade
do Papai Walt Disney.
Pequenino camundongo
dengoso e faceiro
de orelhas enormes,
boca de riso franco
e narinas que sopram
alegria e calor humano.
Ratinho catita,
garrido, elegante,
que troca de roupa
a qualquer hora,
em qualquer lugar,
onde se desenrole
o pano da fantasia.
Amigo querido
da gente pequena.
Rei de sua turma,
namora Minie,
anima o Pateta,
abraça Horácio,
atiça o Pluto,
adora Clarabela
e, com todos eles,
vive aventuras,
sente emoções
e faz estripulias,
representando
incríveis papéis.
Já cinqüentão
está jovem, menino
e será imortal
pela criatividade
do Papai Walt Disney.
1 489
1
Cleonice Rainho
Canção
Chove e da janela
vejo as andorinhas
no poleiro dos fios
grossos da água
de muitos dias.
De asas molhadas
sacodem-se,
bicam e se encolhem
tristinhas.
Estou com duas blusas,
queria jogar-lhes uma
e sem poder
conto os fios.
São cinco — uma pauta
e as gotas dágua
caem como notas
de uma canção.
vejo as andorinhas
no poleiro dos fios
grossos da água
de muitos dias.
De asas molhadas
sacodem-se,
bicam e se encolhem
tristinhas.
Estou com duas blusas,
queria jogar-lhes uma
e sem poder
conto os fios.
São cinco — uma pauta
e as gotas dágua
caem como notas
de uma canção.
1 061
1
Castro Alves
O Vôo do Gênio
À ATRIZ EUGÊNIA CÂMARA
Um dia, em que na terra a sós vagava
Pela estrada sombria da existência,
Sem rosas — nos vergéis da adolescência,
Sem luz destrela — pelo céu do amor;
Senti as asas de um arcanjo errante
Roçar-me brandamente pela fronte,
Como o cisne, que adeja sobre a fonte,
As vezes toca a solitária flor.
E disse então: "Quem és, pálido arcanjo!
Tu, que o poeta vens erguer do pego?
Eras acaso tu, que Milton cego
Ouvia em sua noite erma de sol?
Quem és tu? Quem és tu?" — "Eu sou o gênio",
Disse-me o anjo "vem seguir-me o passo,
Quero contigo me arrojar no espaço,
Onde tenho por croas o arrebol".
"Onde me levas, pois?.. . " — "Longe te levo
Ao país do ideal, terra das flores,
Onde a brisa do céu tem mais amores
E a fantasia — lagos mais azuis. . . "
E fui... e fui... ergui-me no infinito,
Lá onde o vôo dáguia não se eleva...
Abaixo — via a terra — abismo em treva!
Acima — o firmamento — abismo em luz!
"Arcanjo! arcanjo! que ridente sonho!"
— "Não, poeta, é o vedado paraíso,
Onde os lírios mimosos do sorriso
Eu abro em todo o seio, que chorou,
Onde a loura comédia canta alegre,
Onde eu tenho o condão de um gênio infindo,
Que a sombra de Molière vem sorrindo
Beijar na fronte, que o Senhor beijou. . . "
"Onde me levas mais, anjo divino?"
— "Vem ouvir, sobre as harpas inspiradas,
O canto das esferas namoradas,
Quando eu encho de amor o azul dos céus.
Quero levar-te das paixões nos mares.
Quero levar-te a dédalos profundos,
Onde refervem sóis... e céus... e mundos...
Mais sóis... mais mundos, e onde tudo é rneu...
"Mulher! mulher! Aqui tudo é volúpia:
A brisa morna, a sombra do arvoredo,
A linfa clara, que murmura a medo,
A luz que abraça a flor e o céu ao mar.
Ó princesa, a razão já se me perde,
És a sereia da encantada Sila.
Anjo, que transformaste-te em Dalila,
Sansão de novo te quisera amar!
"Porém não paras neste vôo errante!
A que outros mundos elevar-me tentas?
Já não sinto o soprar de auras sedentas,
Nem bebo a taça de um fogoso amor.
Sinto que rolo em báratros profundos...
Já não tens asas, águia da Tessália,
Maldições sobre ti... tu és Onfália,
Ninguém te ergue das trevas e do horror.
"Porém silêncio! No maldito abismo,
Onde caí contigo criminosa,
Canta uma voz, sentida e maviosa,
Que arrependida sobe a Jeová!
Perdão! Perdão! Senhor, pra quem soluça,
Talvez seja algum anjo peregrino...
... Mas não! inda eras tu, gênio divino,
Também sabes chorar, como Eloá!
"Não mais, ó serafim! suspende as asas!
Que, através das estrelas arrastado,
Meu ser arqueja louco, deslumbrado,
Sobre as constelações e os céus azuis.
Arcanjo! Arcanjo! basta... já contigo
Mergulhei das paixões nas vagas cérulas...
Mas nos meus dedos — já não cabem — pérolas —
Mas na minhalma — já não cabe — luz!...
Um dia, em que na terra a sós vagava
Pela estrada sombria da existência,
Sem rosas — nos vergéis da adolescência,
Sem luz destrela — pelo céu do amor;
Senti as asas de um arcanjo errante
Roçar-me brandamente pela fronte,
Como o cisne, que adeja sobre a fonte,
As vezes toca a solitária flor.
E disse então: "Quem és, pálido arcanjo!
Tu, que o poeta vens erguer do pego?
Eras acaso tu, que Milton cego
Ouvia em sua noite erma de sol?
Quem és tu? Quem és tu?" — "Eu sou o gênio",
Disse-me o anjo "vem seguir-me o passo,
Quero contigo me arrojar no espaço,
Onde tenho por croas o arrebol".
"Onde me levas, pois?.. . " — "Longe te levo
Ao país do ideal, terra das flores,
Onde a brisa do céu tem mais amores
E a fantasia — lagos mais azuis. . . "
E fui... e fui... ergui-me no infinito,
Lá onde o vôo dáguia não se eleva...
Abaixo — via a terra — abismo em treva!
Acima — o firmamento — abismo em luz!
"Arcanjo! arcanjo! que ridente sonho!"
— "Não, poeta, é o vedado paraíso,
Onde os lírios mimosos do sorriso
Eu abro em todo o seio, que chorou,
Onde a loura comédia canta alegre,
Onde eu tenho o condão de um gênio infindo,
Que a sombra de Molière vem sorrindo
Beijar na fronte, que o Senhor beijou. . . "
"Onde me levas mais, anjo divino?"
— "Vem ouvir, sobre as harpas inspiradas,
O canto das esferas namoradas,
Quando eu encho de amor o azul dos céus.
Quero levar-te das paixões nos mares.
Quero levar-te a dédalos profundos,
Onde refervem sóis... e céus... e mundos...
Mais sóis... mais mundos, e onde tudo é rneu...
"Mulher! mulher! Aqui tudo é volúpia:
A brisa morna, a sombra do arvoredo,
A linfa clara, que murmura a medo,
A luz que abraça a flor e o céu ao mar.
Ó princesa, a razão já se me perde,
És a sereia da encantada Sila.
Anjo, que transformaste-te em Dalila,
Sansão de novo te quisera amar!
"Porém não paras neste vôo errante!
A que outros mundos elevar-me tentas?
Já não sinto o soprar de auras sedentas,
Nem bebo a taça de um fogoso amor.
Sinto que rolo em báratros profundos...
Já não tens asas, águia da Tessália,
Maldições sobre ti... tu és Onfália,
Ninguém te ergue das trevas e do horror.
"Porém silêncio! No maldito abismo,
Onde caí contigo criminosa,
Canta uma voz, sentida e maviosa,
Que arrependida sobe a Jeová!
Perdão! Perdão! Senhor, pra quem soluça,
Talvez seja algum anjo peregrino...
... Mas não! inda eras tu, gênio divino,
Também sabes chorar, como Eloá!
"Não mais, ó serafim! suspende as asas!
Que, através das estrelas arrastado,
Meu ser arqueja louco, deslumbrado,
Sobre as constelações e os céus azuis.
Arcanjo! Arcanjo! basta... já contigo
Mergulhei das paixões nas vagas cérulas...
Mas nos meus dedos — já não cabem — pérolas —
Mas na minhalma — já não cabe — luz!...
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