Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Alexandre Guarnieri
cotidianometria
fitter, healthier and more productive
a pig in a cage on antibiotics
Radiohead (OK Computer, 1997)
suje as digitais de tinta /
não sorria na fotografia / cabelo cortado
apare quaisquer outros pelos /
dentifrício, desodorante / e necessário o asseio
remova óculos ou lentes / renove o ânimo
mantenha a cabeça a um determinado ângulo
sopre o bafômetro / prenda o fôlego
língua para fora, barriga para dentro
inspire, expire / (sexo oral à la marilyn manson)
nunca deixe para amanhã, faça hoje mesmo
submeta-se ao exame / não perca mais tempo
preencha corretamente os dados /
sempre recadastre-se no prazo
silicone nos seios / correção de septo
as quatro cópias no cartório / melhor prevenir
do que remediar / beba mais água, evite o álcool
livre-se da gordura hidrogenada
(opte pela salada crua) / não esqueça a data
se confesse com marcelo rossi
ao som do padre fábio de melo
guarde-se para o rapaz certo / sexo
só depois do casamento / não gaste água,
mas escove os dentes sempre
mocinhas vestem-se com decência
respeite a fila / pague em dia
seja condescendente diante da ignorância alheia
tome o remédio / tudo no horário
vá ao cinema (assista a um filme inédito)
em caso de vida ou morte: aperte o botão vermelho
a pig in a cage on antibiotics
Radiohead (OK Computer, 1997)
suje as digitais de tinta /
não sorria na fotografia / cabelo cortado
apare quaisquer outros pelos /
dentifrício, desodorante / e necessário o asseio
remova óculos ou lentes / renove o ânimo
mantenha a cabeça a um determinado ângulo
sopre o bafômetro / prenda o fôlego
língua para fora, barriga para dentro
inspire, expire / (sexo oral à la marilyn manson)
nunca deixe para amanhã, faça hoje mesmo
submeta-se ao exame / não perca mais tempo
preencha corretamente os dados /
sempre recadastre-se no prazo
silicone nos seios / correção de septo
as quatro cópias no cartório / melhor prevenir
do que remediar / beba mais água, evite o álcool
livre-se da gordura hidrogenada
(opte pela salada crua) / não esqueça a data
se confesse com marcelo rossi
ao som do padre fábio de melo
guarde-se para o rapaz certo / sexo
só depois do casamento / não gaste água,
mas escove os dentes sempre
mocinhas vestem-se com decência
respeite a fila / pague em dia
seja condescendente diante da ignorância alheia
tome o remédio / tudo no horário
vá ao cinema (assista a um filme inédito)
em caso de vida ou morte: aperte o botão vermelho
626
Marco Lucchesi
Santa Cruz
Constança foi ao céu me visitar
seu vestido era verde
como as pedras
de Itacoatiara
trazia nos olhos
um canarinho
um buquê de flores
e os seios de minha mãe
soprou em meus pulmões
como quem salva um
afogado
nas terras ínvias do coração
inundadas
de pranto e algaravia
deitou ali todas as flores
como se fosse o Éden
num céu terrivelmente
azul
(havemos
todos de ressuscitar
um dia sob esse mesmo
azul )
o vento de meus pulmões
canta e silencia
recua e avança
não escondo minhas lágrimas
Jesus também chorou
no Jardim das Oliveiras
a vida é um arquipélago
de amor atormentado
uma Roma
que se debate em delírios
enquanto espera
a chegada dos bárbaros
ou a vinda
fulminante do Messias
seu vestido era verde
como as pedras
de Itacoatiara
trazia nos olhos
um canarinho
um buquê de flores
e os seios de minha mãe
soprou em meus pulmões
como quem salva um
afogado
nas terras ínvias do coração
inundadas
de pranto e algaravia
deitou ali todas as flores
como se fosse o Éden
num céu terrivelmente
azul
(havemos
todos de ressuscitar
um dia sob esse mesmo
azul )
o vento de meus pulmões
canta e silencia
recua e avança
não escondo minhas lágrimas
Jesus também chorou
no Jardim das Oliveiras
a vida é um arquipélago
de amor atormentado
uma Roma
que se debate em delírios
enquanto espera
a chegada dos bárbaros
ou a vinda
fulminante do Messias
826
Marco Lucchesi
Como dizer Villaça
Como dizer Villaça
os medos
que devastavam teu coração?
o mosteiro errante
ao qual pertencias
e para o qual não sabias voltar
monge sem mosteiro
saltimbanco de um
circo místico
o perene abandono
de deus
e dos homens
sob cuja
sombra inquieto
te guardavas
esse crepúsculo de amores
não vividos
e tua anfíbia
condição de céu
e terra pecado
e salvação
essa memória
impenitente
era teu inefável luminoso labirinto
a luz
de que surgiam
os mortos
para tomar café
todas as tardes
na praia do flamengo
teu coração
feroz
e compassivo
e os mortos devastados
redivivos pelo deus cruel
e solitário da memória
das sentenças
de Abelardo aos livros
de Gilberto Amado
das cartas de Alceu
aos poemas
de Drummond
um deus que não sabia
nada de si mesmo
preso às teias de um fatal esquecimento
a tirania sagrada
que impuseste para esconder
as formas frágeis de teu rosto
tuas palavras tendiam
ao silêncio transformadas
de há muito em estrelas
e um anjo precisaria
arrancá-las de teus olhos
antes que se dissolvessem
na luz
das coisas
fundas que alcançavas
mas ele não veio
e te salvaste apenas
das atrocidades do mundo
não do abismo
de tua vasta
mortal delicada inocência
os medos
que devastavam teu coração?
o mosteiro errante
ao qual pertencias
e para o qual não sabias voltar
monge sem mosteiro
saltimbanco de um
circo místico
o perene abandono
de deus
e dos homens
sob cuja
sombra inquieto
te guardavas
esse crepúsculo de amores
não vividos
e tua anfíbia
condição de céu
e terra pecado
e salvação
essa memória
impenitente
era teu inefável luminoso labirinto
a luz
de que surgiam
os mortos
para tomar café
todas as tardes
na praia do flamengo
teu coração
feroz
e compassivo
e os mortos devastados
redivivos pelo deus cruel
e solitário da memória
das sentenças
de Abelardo aos livros
de Gilberto Amado
das cartas de Alceu
aos poemas
de Drummond
um deus que não sabia
nada de si mesmo
preso às teias de um fatal esquecimento
a tirania sagrada
que impuseste para esconder
as formas frágeis de teu rosto
tuas palavras tendiam
ao silêncio transformadas
de há muito em estrelas
e um anjo precisaria
arrancá-las de teus olhos
antes que se dissolvessem
na luz
das coisas
fundas que alcançavas
mas ele não veio
e te salvaste apenas
das atrocidades do mundo
não do abismo
de tua vasta
mortal delicada inocência
724
Cida Pedrosa
ladainha para alberto da cunha melo
para a alma do poeta que se foi
eu rogo ao poema que componha o silêncio
para a alma do sertanejo que se foi
eu rogo ao poema que se empalhe em chuva
para a alma da criança que se foi
eu rogo ao poema que confeite a vida
para a alma da negra que se foi
eu rogo ao poema que se emplume em pássaro
para a alma do pobre que se foi
eu rogo ao poema que petrifique o pão
para a alma do revolucionário que se foi
eu rogo ao poema que ampute o sonho
para a alma do músico que se foi
eu rogo ao poema que dedilhe o chão
para a alma do filho que se foi
eu rogo ao poema que psicografe a falta
para a alma do palhaço que se foi
eu rogo ao poema que reinvente a cor
para alma da mulher que se foi
eu rogo ao poema que alcance as asas
para a alma do poema que se foi
eu rogo à poesia que borde os sentidos
para a alma do verso que se foi
eu rogo à palavra que se parta em várias
para a alma da palavra que se foi
eu rogo ao poeta que se ajoelhe e crie
eu rogo ao poema que componha o silêncio
para a alma do sertanejo que se foi
eu rogo ao poema que se empalhe em chuva
para a alma da criança que se foi
eu rogo ao poema que confeite a vida
para a alma da negra que se foi
eu rogo ao poema que se emplume em pássaro
para a alma do pobre que se foi
eu rogo ao poema que petrifique o pão
para a alma do revolucionário que se foi
eu rogo ao poema que ampute o sonho
para a alma do músico que se foi
eu rogo ao poema que dedilhe o chão
para a alma do filho que se foi
eu rogo ao poema que psicografe a falta
para a alma do palhaço que se foi
eu rogo ao poema que reinvente a cor
para alma da mulher que se foi
eu rogo ao poema que alcance as asas
para a alma do poema que se foi
eu rogo à poesia que borde os sentidos
para a alma do verso que se foi
eu rogo à palavra que se parta em várias
para a alma da palavra que se foi
eu rogo ao poeta que se ajoelhe e crie
973
Maria Lúcia Dal Farra
Loucura
A órbita da loucura é imensa.
Aviso às incautas criaturas
tanto quanto
aos navegantes sem rumo.
Nela se movem constelações superiores
ilimitadas águas
e as mãos com que Deus nos acena
(segundo a segundo)
com a sua graça.
Consolos prontos a redimir o mundo
palavras ausentes de escrita
ali se asilam
e mais
o risco do iminente abissal.
É tão amplo o rosto da loucura
que podem caber nele
quaisquer
das nossas muitas faces
– inclusive esta com que agora me empenho
em apreendê-lo.
Aviso às incautas criaturas
tanto quanto
aos navegantes sem rumo.
Nela se movem constelações superiores
ilimitadas águas
e as mãos com que Deus nos acena
(segundo a segundo)
com a sua graça.
Consolos prontos a redimir o mundo
palavras ausentes de escrita
ali se asilam
e mais
o risco do iminente abissal.
É tão amplo o rosto da loucura
que podem caber nele
quaisquer
das nossas muitas faces
– inclusive esta com que agora me empenho
em apreendê-lo.
706
Mailson Furtado Viana
crônica de um homem de fé
não era de frequentar igrejas
mas era crente nalguma coisa
na volta do trabalho
na barraca de cachorro-quente
um senhor discursava
preâmbulos do fim do mundo
o juízo final se aproxima
sentiu medo
ao chegar em casa
perguntou à mulher
como se rezava o pai-nosso
mas era crente nalguma coisa
na volta do trabalho
na barraca de cachorro-quente
um senhor discursava
preâmbulos do fim do mundo
o juízo final se aproxima
sentiu medo
ao chegar em casa
perguntou à mulher
como se rezava o pai-nosso
646
Carlos Soulié do Amaral
Tragédia da monja
Incendiou-se a virilha da monja
a santa monja piedosa e pura.
O hábito que usava ela despiu
e do que era sem saber saiu
imaculada, ainda que em fervura.
Então, correndo pela capela
barroca e bela,
a monja atônita esculpiu pavor
na face de todos os santos
que não sentiam sua dor.
Em seu transe transbordado
ganhou o espaço do paço.
Nem mesmo invocou a Virgem,
nem mesmo invocou Jesus.
No ardente e pânico terror
das brasas que jamais imaginara,
a monja foi correndo, quase alada,
tombar, sem lérias e sem leros,
nos braços do poeta que sonhara
o pecado de tê-la como amada.
Deslumbrado, o poeta deslumbrou
a monja com os ímpetos mais feros,
cobrindo-a de calafrios
nas aras do altar de Eros.
Apagou-se então o incêndio
num susto de duplo mistério:
santa e vate se perderam
num embate de virilhas
entre ardores e arrepios
no paço do monastério:
santa e vate se encontraram
na história de maravilhas
de um conto que me contaram.
a santa monja piedosa e pura.
O hábito que usava ela despiu
e do que era sem saber saiu
imaculada, ainda que em fervura.
Então, correndo pela capela
barroca e bela,
a monja atônita esculpiu pavor
na face de todos os santos
que não sentiam sua dor.
Em seu transe transbordado
ganhou o espaço do paço.
Nem mesmo invocou a Virgem,
nem mesmo invocou Jesus.
No ardente e pânico terror
das brasas que jamais imaginara,
a monja foi correndo, quase alada,
tombar, sem lérias e sem leros,
nos braços do poeta que sonhara
o pecado de tê-la como amada.
Deslumbrado, o poeta deslumbrou
a monja com os ímpetos mais feros,
cobrindo-a de calafrios
nas aras do altar de Eros.
Apagou-se então o incêndio
num susto de duplo mistério:
santa e vate se perderam
num embate de virilhas
entre ardores e arrepios
no paço do monastério:
santa e vate se encontraram
na história de maravilhas
de um conto que me contaram.
669
Paulo Teixeira
Monge na orla do mar
I
Com a santidade de quem se deixou ficar
sobre um chão de cal apagada,
olha a amplidão do espaço à sua frente
num cabo lançado sobre o mar.
Permanece hirto como osso temporal
depois que o tempo passou. Presciência a sua,
imóvel, neste fundo brenhoso da noite.
Pergaminho enrugado onde lesse os sinais,
o mar fumega frases obscuras para o céu.
As gaivotas ouvem-se gritando em roda,
indo, esmoleres do escuro e das horas.
Mas nem o oceano revolto nem o céu baço
espelham verdades que lhe sirvam, hoje,
com o seu rosto de ave nocturna perscrutando
sobre um manto de basalto que lhe pesa
à imposição do Seu dono e Senhor.
Enquanto a brisa lhe cristaliza as faces,
espera que nessa fenda escura do espaço
um astro apareça e brilhe. Apoia a cabeça na mão -
pudesse e desejava para o sono a eternidade.
Com a santidade de quem se deixou ficar
sobre um chão de cal apagada,
olha a amplidão do espaço à sua frente
num cabo lançado sobre o mar.
Permanece hirto como osso temporal
depois que o tempo passou. Presciência a sua,
imóvel, neste fundo brenhoso da noite.
Pergaminho enrugado onde lesse os sinais,
o mar fumega frases obscuras para o céu.
As gaivotas ouvem-se gritando em roda,
indo, esmoleres do escuro e das horas.
Mas nem o oceano revolto nem o céu baço
espelham verdades que lhe sirvam, hoje,
com o seu rosto de ave nocturna perscrutando
sobre um manto de basalto que lhe pesa
à imposição do Seu dono e Senhor.
Enquanto a brisa lhe cristaliza as faces,
espera que nessa fenda escura do espaço
um astro apareça e brilhe. Apoia a cabeça na mão -
pudesse e desejava para o sono a eternidade.
711
Golgona Anghel
O mundo é estranho, Sandy
«O mundo é estranho, Sandy!»
O nosso é parecido com a palavra agora.
Das mãos nasce-nos uma espécie de nostalgia trémula
que na versão alemã traduziram por dipsomania.
Quando temos sede abrimos um rio
de esperas na noite dentro
e arregaçamos as calças até aos joelhos.
Não se dê que a madrugada
nos surpreenda com as cheias.
Estou com esta doença agora, but it’s ok.
I close my eyes and drift away;
I softly say a silent pray.
Não ligues nem comentes,
just press play:
«O mundo é estranho, Sandy! O nosso é parecido.»
O nosso é parecido com a palavra agora.
Das mãos nasce-nos uma espécie de nostalgia trémula
que na versão alemã traduziram por dipsomania.
Quando temos sede abrimos um rio
de esperas na noite dentro
e arregaçamos as calças até aos joelhos.
Não se dê que a madrugada
nos surpreenda com as cheias.
Estou com esta doença agora, but it’s ok.
I close my eyes and drift away;
I softly say a silent pray.
Não ligues nem comentes,
just press play:
«O mundo é estranho, Sandy! O nosso é parecido.»
1 062
Hélia Correia
7.
Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
1 177
Tomas Tranströmer
Arcos Românicos
Turistas amontoados no lusco-fusco da grande
igreja românica.
Nave após nave se abria sem perspectiva.
Algumas chamas de velas tremulando.
Um anjo cujo rosto não vi abraçava-me
e o murmúrio dele trespassava-me o corpo:
“Não tenhas vergonha de seres um ser humano, tem orgulho!
Em ti se abre uma nave após outra sem fim.
Nunca serás concluído, e é assim que tem de ser.”
Lágrimas cegavam-me
enquanto éramos levados para a intensa piazza iluminada
na companhia de Mr. e Mrs. Jones, Herr Tanaka e Signora Sabatini;
em cada um deles nave após nave se abria sem fim.
igreja românica.
Nave após nave se abria sem perspectiva.
Algumas chamas de velas tremulando.
Um anjo cujo rosto não vi abraçava-me
e o murmúrio dele trespassava-me o corpo:
“Não tenhas vergonha de seres um ser humano, tem orgulho!
Em ti se abre uma nave após outra sem fim.
Nunca serás concluído, e é assim que tem de ser.”
Lágrimas cegavam-me
enquanto éramos levados para a intensa piazza iluminada
na companhia de Mr. e Mrs. Jones, Herr Tanaka e Signora Sabatini;
em cada um deles nave após nave se abria sem fim.
683
Nelly Sachs
MAS QUEM
Mas quem bateu a areia de vossos sapatos,
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –
Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –
Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
725
Nelly Sachs
OH, AS CHAMINÉS
Oh, as chaminés
Sobre as moradas da morte, engenhosamente imaginadas,
Quando o corpo de Israel se elevou, desfeito em fumaça
Pelo ar –
Uma estrela, como limpador de chaminés, o acolheu
E enegreceu
Ou foi um raio de sol?
Oh, as chaminés!
Caminhos de liberdade para o pó de Jeremias e Jó –
Quem vos imaginou e construiu, pedra sobre pedra,
O caminho para os fugitivos-fumaça?
Oh, as moradas da morte,
Convidativamente arranjadas
Para o anfitrião, outrora hóspede –
Ó dedos,
Assentando o limiar da entrada,
Como faca entre a vida e a morte –
Ó chaminés,
Ó dedos,
E o corpo de Israel na fumaça, pelo ar!
Sobre as moradas da morte, engenhosamente imaginadas,
Quando o corpo de Israel se elevou, desfeito em fumaça
Pelo ar –
Uma estrela, como limpador de chaminés, o acolheu
E enegreceu
Ou foi um raio de sol?
Oh, as chaminés!
Caminhos de liberdade para o pó de Jeremias e Jó –
Quem vos imaginou e construiu, pedra sobre pedra,
O caminho para os fugitivos-fumaça?
Oh, as moradas da morte,
Convidativamente arranjadas
Para o anfitrião, outrora hóspede –
Ó dedos,
Assentando o limiar da entrada,
Como faca entre a vida e a morte –
Ó chaminés,
Ó dedos,
E o corpo de Israel na fumaça, pelo ar!
798
António Cabrita
AUTO-RETRATO NUM CAMPO DE RÂGUEBI
Intercepta-me o espelho, o mais eficaz placador de râguebi. Eis-me inteiro na carne
amassada que a prata me devolve. Salva-me o olhar, surrado mas nada merencório
pois amanhã colherá sol – e chuva – e pernas morenas.
O que o tempo dispensa é a conversa fiada, a crença de que um seio
possa erguer um amor de alvenaria, ao abrigo de aguaceiros,
enquanto nos confia a paciência e a calva luz do humor
que vai desanuviando em nós a falta de Deus.
amassada que a prata me devolve. Salva-me o olhar, surrado mas nada merencório
pois amanhã colherá sol – e chuva – e pernas morenas.
O que o tempo dispensa é a conversa fiada, a crença de que um seio
possa erguer um amor de alvenaria, ao abrigo de aguaceiros,
enquanto nos confia a paciência e a calva luz do humor
que vai desanuviando em nós a falta de Deus.
689
Nelly Sachs
Em vão
queimam as epístolas
na noite das noites
na fogueira da fuga
porque o amor se liberta de seu arbusto de espinhos
flagelado em martírio
e começa já com línguas de fogo
a beijar seu céu invisível
quando a vigília lança sombras sobre o muro
e o vento
trêmulo de presságios
com o nó de forca do perseguidor soprado ao vento
reza:
Espera
até que as letras retornem para casa
do deserto chamejante
e sejam alimento de santas bocas
Espera
até que a geologia espiritual do amor
se rache
e que seu tempo arda
e que incandescendo de bem-aventurados sinais
torne a encontrar seu verbo de criação:
lá sobre o papel
que canta a morrer:
Era
no princípio
Era
Amado
Era –
na noite das noites
na fogueira da fuga
porque o amor se liberta de seu arbusto de espinhos
flagelado em martírio
e começa já com línguas de fogo
a beijar seu céu invisível
quando a vigília lança sombras sobre o muro
e o vento
trêmulo de presságios
com o nó de forca do perseguidor soprado ao vento
reza:
Espera
até que as letras retornem para casa
do deserto chamejante
e sejam alimento de santas bocas
Espera
até que a geologia espiritual do amor
se rache
e que seu tempo arda
e que incandescendo de bem-aventurados sinais
torne a encontrar seu verbo de criação:
lá sobre o papel
que canta a morrer:
Era
no princípio
Era
Amado
Era –
786
Nelly Sachs
É UM ESCURO COMO
É um escuro como
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
741
Nelly Sachs
É UM ESCURO COMO
É um escuro como
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
762
Ivan Bunin
Mulher de pedra
Grama seca e morta de braseira,
Estepe sem limite, mas ao longe medra o azul.
Há restos cavalares de caveira.
E novamente – a Mulher de Pedra.
Como seu vulto raso é sonolento!
E quão grosseiro é o corpo primordial!
Estou com medo de ti... E tu, timidamente
Me sorris.
Oh! tição selvagem de antiga escuridão!
Foi a ti que adoraram? foi a ti?
– Não Deus nos fez. Não de suas mãos.
Nós fizemos os deuses, servil o coração.
Estepe sem limite, mas ao longe medra o azul.
Há restos cavalares de caveira.
E novamente – a Mulher de Pedra.
Como seu vulto raso é sonolento!
E quão grosseiro é o corpo primordial!
Estou com medo de ti... E tu, timidamente
Me sorris.
Oh! tição selvagem de antiga escuridão!
Foi a ti que adoraram? foi a ti?
– Não Deus nos fez. Não de suas mãos.
Nós fizemos os deuses, servil o coração.
807
Giorgos Seferis
Comentários
Já escurecera na sacada
junto a nós uma urgência esvoaçava
nos dois corações, bem aninhada,
uma confissão correspondida.
Vã, murchou a voz. Enxame de erros
nossos lábios, e nas profundezas
do corpo, Deus, só estava acesa
nossa espera da benção pedida.
Dentro da casa os sonhos zumbiam
e da luz da tarde até o ímã
dos cabelos teus, tudo trazia
à memória o anjo inalcançável
de para com os anéis subitâneos
de chofre caídos, dos abanos
no pensamento que, o mesmo orando,
líamos, evangelho inefável.
Mulher que na minha alma te hospedas
tua surpresa é o que me resta
formosa mulher amada, nesta
tarde que absurdamente definha,
e os teus olhos de círculos negros
e a noite e seu calafrio ligeiro…
Quimera, espada do meu silêncio,
curva-te e entra outra vez na bainha.
junto a nós uma urgência esvoaçava
nos dois corações, bem aninhada,
uma confissão correspondida.
Vã, murchou a voz. Enxame de erros
nossos lábios, e nas profundezas
do corpo, Deus, só estava acesa
nossa espera da benção pedida.
Dentro da casa os sonhos zumbiam
e da luz da tarde até o ímã
dos cabelos teus, tudo trazia
à memória o anjo inalcançável
de para com os anéis subitâneos
de chofre caídos, dos abanos
no pensamento que, o mesmo orando,
líamos, evangelho inefável.
Mulher que na minha alma te hospedas
tua surpresa é o que me resta
formosa mulher amada, nesta
tarde que absurdamente definha,
e os teus olhos de círculos negros
e a noite e seu calafrio ligeiro…
Quimera, espada do meu silêncio,
curva-te e entra outra vez na bainha.
651
António Cabrita
ANTERIOR À CARNE
Eis o passe-vite: um Deus trabalha em ti,
ilegalmente. Não se deslinda o que o atrai
às junções, a ideia fixa, mas o teu corpo
é o seu placebo, o seu sistema de radares.
Que guerra o move, exterior ao monte de feno
onde dormitas? Que afago atraiu o abelhão
que flamejou num intenso negrume a mão?
E porquê esta, inocente, que nunca depenou
perdiz? Fala-se do Tempo, um crânio
que se locomove a vapor
contra a evidência galopante das imagens.
O abismo alça-se, dentro,
anterior à carne. Fuck!
ilegalmente. Não se deslinda o que o atrai
às junções, a ideia fixa, mas o teu corpo
é o seu placebo, o seu sistema de radares.
Que guerra o move, exterior ao monte de feno
onde dormitas? Que afago atraiu o abelhão
que flamejou num intenso negrume a mão?
E porquê esta, inocente, que nunca depenou
perdiz? Fala-se do Tempo, um crânio
que se locomove a vapor
contra a evidência galopante das imagens.
O abismo alça-se, dentro,
anterior à carne. Fuck!
646
Mauro Mota
INSTANTÂNEO
No pátio da igreja de São Sebastião,
depois da missa cantada e da comunhão,
Dona Santinha, em perfeito estado de graça,
com o véu, o livro e o terço na mão,
murmurava a um grupinho que Padre João
estava, na sacristia, se derretendo
para a filha mais nova do sacristão.
depois da missa cantada e da comunhão,
Dona Santinha, em perfeito estado de graça,
com o véu, o livro e o terço na mão,
murmurava a um grupinho que Padre João
estava, na sacristia, se derretendo
para a filha mais nova do sacristão.
629
Tomas Tranströmer
Um artista no Norte
Eu Edward Grieg passeei-me como um homem livre entre os homens.
De trato fácil li jornais viajei por aqui e por ali.
Regi a orquestra.
O auditório com as luzes cintilando de triunfo como um navio
de comboios
quando se põe em marcha.
Levei-me para aqui para me fechar no silêncio.
É pequeno o meu estúdio.
O piano aninhado como a andorinha no beiral.
O mais das vezes as belas e íngremes encostas nada dizem.
Não há saída possível
mas às vezes uma pequena fresta abre-se
e uma luz incide directamente do assombro.
Reduzir!
E as pancadas dos martelos na montanha vêm
vêm
vêm
vêm numa noite de primavera ao nosso quarto
disfarçadas de batimentos do coração.
Um ano antes de morrer lançarei quatro hinos para chegarem até Deus.
Mas é aqui que tudo começa.
Uma canção do que está próximo.
Do que está próximo.
O nosso campo de batalha
onde nós os Ossos dos Mortos
lutamos para nos tornarmos vivos.
De trato fácil li jornais viajei por aqui e por ali.
Regi a orquestra.
O auditório com as luzes cintilando de triunfo como um navio
de comboios
quando se põe em marcha.
Levei-me para aqui para me fechar no silêncio.
É pequeno o meu estúdio.
O piano aninhado como a andorinha no beiral.
O mais das vezes as belas e íngremes encostas nada dizem.
Não há saída possível
mas às vezes uma pequena fresta abre-se
e uma luz incide directamente do assombro.
Reduzir!
E as pancadas dos martelos na montanha vêm
vêm
vêm
vêm numa noite de primavera ao nosso quarto
disfarçadas de batimentos do coração.
Um ano antes de morrer lançarei quatro hinos para chegarem até Deus.
Mas é aqui que tudo começa.
Uma canção do que está próximo.
Do que está próximo.
O nosso campo de batalha
onde nós os Ossos dos Mortos
lutamos para nos tornarmos vivos.
659
Mauro Mota
MINHA N. S. DA ESPERANÇA
Eu corri, todo ansioso, a recebê-la
numa manhã sem sol, de cerração,
e ela entrou, como o brilho duma estrela
do céu, para alumiar meu coração.
Tornou-se muito minha amiga então,
Era tão linda! ai quem me dera tê-la
junto a mim! mas já foi, já partiu pela
tarde do meu jardim — rosa em botão! —
É debalde, minh’alma, que lhe gritas.
Neste mundo não há quem a defina
com seu vestido branco e verdes fitas.
Teu brado, na distância, não a alcança.
Pois fiquei a pensar que essa menina
era Nossa Senhora da Esperança…
numa manhã sem sol, de cerração,
e ela entrou, como o brilho duma estrela
do céu, para alumiar meu coração.
Tornou-se muito minha amiga então,
Era tão linda! ai quem me dera tê-la
junto a mim! mas já foi, já partiu pela
tarde do meu jardim — rosa em botão! —
É debalde, minh’alma, que lhe gritas.
Neste mundo não há quem a defina
com seu vestido branco e verdes fitas.
Teu brado, na distância, não a alcança.
Pois fiquei a pensar que essa menina
era Nossa Senhora da Esperança…
590
Tomas Tranströmer
O som
O melro soprou o seu canto nos ossos dos mortos.
De pé, debaixo de uma árvore, sentíamos o tempo descer e descer.
O pátio da escola e o pátio da igreja encontraram-se e espraiaram-se
um no outro como duas tempestades no mar.
O som dos sinos da igreja elevou-se , levado pela alavanca suave
do planador.
Deixaram para trás um silêncio poderoso na terra
e os passos calmos de uma árvore, os passos calmos de uma árvore.
De pé, debaixo de uma árvore, sentíamos o tempo descer e descer.
O pátio da escola e o pátio da igreja encontraram-se e espraiaram-se
um no outro como duas tempestades no mar.
O som dos sinos da igreja elevou-se , levado pela alavanca suave
do planador.
Deixaram para trás um silêncio poderoso na terra
e os passos calmos de uma árvore, os passos calmos de uma árvore.
658