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Poemas neste tema

Infância

Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

CANÇÃO DA MANHÃ

como os estranhos pássaros nascidos em tua boca
como os rios que te correm entre os olhos
como   as   esmeraldas   que   formam   as   asas   dos   teus ombros
como os longos ramos da árvore de sono do teu braço
como o grande espaço em que o teu corpo repousa
deitado na tua própria mão
como a tua sombra idêntica à nuvem
que se encontra no mar

assim é a presença que de ti tenho
nas noites em que o fogo se acende
nas montanhas longínquas e fulgurantes
quando os meus passos me projetam
para os mais elevados cumes solitários
quando o sangue canta
através do aço vibrante do meu corpo
levando-me ao longo do caminho de flores rubras
que tu plantaste

assim é o desejo de te encontrar
nascida nas minhas mãos
erguida como torre de catedral perdida
envolta na minha boca
caminhando comigo
pela estrada que nossos pés abrirão triunfantes

Deixa que eu quebre tudo que tenho e que terei
tudo o que é de todos e que só a mim pertence
deixa-me quebrar o cavalo que me deste
na noite do nosso primeiro encontro
deixa-me partir a bola o cão o espaço
deixa-me quebrar a minha casa e a minha cama
a minha única cama. . .
não o,uero que me contem a aventura
nem que me dêem almofadas
não quero que me ofereçam sombras
só por mim construídas e logo abandonadas
nem sequer esquinas de ruas
não quero a vida
sei claramente que a não quero
a não ser que ela esteja partida quebrada
quebrada por mim e por ti

e a minha infância
essa dou-ta
inteira muito longa e cruel
deixa que dela me fique apenas
essa crueldade
e que nela só eu siga
ignorando o que me deste
e que
martelo ou pedra
eu continue partindo quebrando
esfacelando dilacerando
o teu corpo que já não está ao meu alcance
deixa-me ser anatomicamente autêntico
sem êrro
sangrando
perdido para sempre
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Francesca Angiolillo

Francesca Angiolillo

As jóias da coroa

Como quase toda menina eu queria
ser princesa eu já não era
loura como Cinderela
minha irmã sim e espevitada
chegara ao mundo resolvida
eu não sabia o que fazer
daquela massa castanha
nem lisa nem crespa sobre a cabeça
e acreditava que talvez a cobiçada coroa
de strass
de miss
operasse um pequeno milagre ao encimar
minhas incertezas infantis
então a cada carnaval a cada ida
às lojas de fantasias no centro da cidade
dava-se uma renovada decepção
a diminuta coroa ficava ali
na mesa envidraçada
com seu brilho de mentira

Um dia
numa celebração de aniversário talvez
meu pai nos fez umas coroas
eram de papel cartão preto
adornadas com purpurina no lugar
das pedras e com volutas douradas
feitas a caneta

A caneta era especial
importada só ele usava
e tudo na coroa traía o traço
que era dele totalmente
que era o mesmo
de seus quadros nas paredes
era a marca de sua mão

Eu não sabia quanto aquela coroa
que levei tristemente à minha
cabeça castanha
era real
tão mais real que o diadema prateado
com pequeninas pedras
esquecido na vitrina

No círculo de papel preto
se encerrava o futuro
não o lar imaculado mas a aranha
pequenina se escondendo
num canto do armário
as meias cobrindo os pés
na hora de dormir numa casa
não aquecida
em mais um inverno austral
ao lado de um homem
o herdeiro
mais legítimo
daquela ideia
de príncipe
que fora possível encontrar
e que me dera um descendente
louro de olhos azuis
repetindo no rosto
seus traços castanhos

O cartão escuro era o que fazia
as joias da coroa luzirem mais
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Renato Rezende

Renato Rezende

Bicho de Goiaba

No tacho de cobre/ vermelho
era eu mesmo me derretendo.

Todos os dias, o dia.

Aqui estou eu, de repente, o mesmo,
no ermo recanto das flores
da infância de mim mesmo.
Aqui estou eu, como num sonho
ou num porto-fragmento
do que já fui, perdido no tempo.

Irrompo aos gritos a casa ensolarada
e tudo brilha e está em seu lugar
enquanto gira ao redor do nada.

Aquelas manhãs na fazenda
ainda existem, não se perderam, estão lá
agora,
você que é o sempre ausente.

Mas espere
ainda há esperança, e por mais um dia
por dádiva dos deuses
que giram todos os dias
a roda do destino
eu apareço, inteiro.

As terras
ainda estão aqui, generosas
e fecundas, vermelhas.
Ainda não vendemos
nossa memória, nem mesmo o medo
de menino sozinho no quarto escuro...

e já acaba o óleo da lamparina
papai e mamãe dormem
do outro lado da enorme casa
e a sombra bruxeleia na parede escura,
no forro passeiam gambás
aranhas e baratas
infestam o chão a esta hora.
O banheiro
está do outro lado do mundo
no fim do corredor
imenso de assoalho vermelho.
Se acordo meu pai
ele vai ficar bravo e vai ser pior.
Fazer xixi na cama
é até gostoso
(o prenúncio
de um prazer maior),
é quentinho
e com este calor logo seca, ninguém nota.
Meu irmão dorme na cama ao lado
e estas duas camas parecem agora dois barcos
que se separam no enorme mar do tempo.
Tenho medo
de ficar sozinho.
E se meus pais morrerem?

(Ensaio na madrugada o sofrimento da desgraça
que durante a vida inteira espero que aconteça).

Rompe o dia.
Assisto
pela janela encardida a delicadeza da aurora
e com pijamas saio lá fora.
Estou na varanda. Ouço pássaros novos
e vacas rumo aos currais de outrora.
Do pomar irrompe um porco
que como tudo agora é puro mistério e delicadeza
banhado de luz dourada.
A doçura é tanta
que acuado volto para cama.

O que mais dança
no centro do meu peito?
Antigas penteadeiras
de madeira de lei
ou mármore de carrara.
Jarras de prata, tachos
de cobre
onde ferve a minha carne
mexida pela preta velha
que pica e cospe tabaco
junto ao seu fogão de cinzas e lenha.
Posso vê-la, de longe
varrendo pétalas e poeira
sobre as pedras do terreiro.
-- Aí! D. Paula!
Esse pirão é feito de água ou leite?
-- De água, fiô, de água.
Espelhos.
Piso de tábua larga.
Ping-pong com besouros.
Sapos de línguas longas.
Cavalos mangalarga
desembestados no pasto largo.
Briga de bois bravos
a despedaçar o curral.
E os homens munidos com varas e paus.
-- Ôôo! Pierrô! Eiaa! Apolo!
E depois a calmaria
da tarde de rolinhas
aninhando-se no enorme pau-d'alho
as borboletas com grande olhos
o pôr do sol.
O pôr do sol mais belo
e mais longo do mundo.
Mas ainda há tempo para mais um mergulho
na piscina de água corrente
onde antigamente era lavadouro de café.
Ainda há tempo
para uma espiga de milho quente,
para um copo de leite,
um punhado de jabuticabas,
um roubo de pitangas,
uma guerra de cevada.

Ainda há tempo, antes
que caia novamente a noite...

Que venham! Que venham!
No mar do naufrágio de agora
os escombros dos dias plenos.

(Hoje queremos apenas
que as crianças cresçam
e ganhar muito dinheiro).


Ribeirão Preto, Natal 1997
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Renato Rezende

Renato Rezende

A Mangueira

Sob o sol há sempre perda e esse pé
de manga na calçada da ladeira
me lembra agora a infância passada
descalça na ensolarada fazenda.
Meu pai a cavalo! As brincadeiras
no curral entre as vacas, as batalhas
de cevada quente, a terra vermelha,
a cachoeira em prata, o terreiro de café!

O sol parecia eterno.

Mas tudo passa. A cega mangueira
sozinha (longe da mata) na subida
íngreme desta alameda escondida
das avenidas do Rio de Janeiro
também parece me reconhecer, lenta
e perplexa --e como que se abaixa.
Aproximo-me. Sem que ninguém veja
longamente beijo sua antiga casca.

Velha amiga! Foi apenas ontem
que sem medo subia em seus galhos.
Durante o dia com fome dos seus frutos
como o sol dourados e doces;
ou na preguiçosa tarde sob sua sombra
observando os pássaros do mato.
E de noite contra seu tronco, sedento
do fruto proibido, os beijos escondidos
(na brincadeira de esconde-esconde), a boca
rosada da jovem moça da colônia...

No céu riscavam estrelas cadentes...

Lembra? Foi mesmo ontem! E hoje
nos reencontramos de novo!
Mas, amiga, não estaria eu sendo tolo
e dourando (de novo) a pílula do passado?
Fala a verdade, responde... uma rajada
de vento farfalha as suas folhas:
Isto é o lado bom, a grande vantagem
do tempo, que passa, e passando
recolore o já vivido com nova graça....

Que bom que isso aconteça, e é certo
que assim seja. Mas quando, amiga, onde
o sol que enfim nos espera, que vai dourar
o que sempre somos agora? Cá estamos,
você --permita-me-- abandonada e seca
eu, abandonado e longe, náufragos à deriva
em nossos corpos --de nossas próprias vidas.
Vivemos ainda da seiva dos velhos sonhos.

(Os velhos sonhos de ser tudo e todos
além do fogo-tempo e seus círculos).


Rio de Janeiro, 18 de julho 1997
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Renato Rezende

Renato Rezende

Os Antepassados

Meu tio José gostava de ficar
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.


Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
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Luci Collin

Luci Collin

DE SOMBREAÇÃO

quando eu vivia na casa da rua anis
os cômodos e os exemplos eram imensos
calor abatumado na água-furtada
os insetos tergiversavam
e as rãs e os sorrisos eram de cristal holoédrico

uma mão regia os contratempos
os cometas eram inexplicáveis
as uvas de cera eram jacobinas
o amuo era sustado com água vegetomineral

elogio à lerdeza e à pantofagia
baralhando as notícias do jornal
um quelônio às vezes emergia da horta
para surpresa dos anões estáticos
para desespero da tia-avó manquitola
para a emoção do mamoneiro 

quando viviam todos na casa e ainda eu
os genuflexórios levavam a alturas máximas
e eram temíveis as quedas e as vertigens súbitas
e eram temíveis as asas enferrujadas
e eram temíveis os olhos búricos

os sapatos haviam conhecido todas as ruas
as sacolas haviam carregado curiosos pesos
os compassos haviam desenhado todos os círculos
os ombros haviam acumulado elegias

eu dançava para que as  acácias brotassem
eu dançava para que o doce desse ponto
eu dançava para que os vértices coincidissem
eu dançava pela alma dos afogados


me impressionavam as hagiografias
me impressionavam as vidas das criadas
a prataria escurecendo me impressionava
as joias na caixa me impressionavam muito
os dentes podres

a tabuada era um tratado de versificação
os espelhos tinham valsas embutidas
o tule sinonimizava voto e desejo
os desvãos do corpo eram grandezas incertas

e grudada nos rostos e colada às mãos e à pele
e às vozes mais delicadas mais desaplaudidas
ia      insistia     afincava
a aula magna do tempo
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