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Poemas neste tema

Memórias e Lembranças

Felipe d’Oliveira

Felipe d’Oliveira

História Leal dos Meus Amores

Eu tive a iniciação para a alegria
num tempo primitivo de paisagem,
em que, num fundo aberto de baía,
da argila das montanhas, emergia
a forma azul de um ídolo selvagem.

Entrei na imensidade dessas águas,
de alma feliz, cantando em tons de trova...
E ao batismo de um sol chispando fráguas
eu jurei esquecer antigas mágoas
numa esperança ideal de vida nova...

A vida, então, logo me deu meu fado,
— meus maus desígnios e meus bons misteres —
e, no decurso desse tempo andado,
os homens quase todos tenho odiado
e tenho amado todas as mulheres.

Foste a primeira que amei, perdida...
E desse amor de insânias e segredos,
conservo ainda na boca ressequida
a saciedade farta e umedecida
dos teus beijos acídulos e azedos.

Depois, glorifiquei, como um profano,
a luxúria pagã do meu instinto,
ritmando, num delírio parnasiano,
os meus beijos lascivos de Romano
numa boca de Vênus de Corinto.

...Meu alabastro engrinaldado de ouro,
não peço mais que tu não me abandones...
Foste, no meu destino, um mau-agouro:
endoudeceu-me o teu cabelo louro,
nessa linda cabeça à Burne Jones...

E ao fim de tanto anseio, ao fim de tanto
intenso desvairar, de intensa febre,
tu me mandaste esse teu vulto santo,
que eu não celebro em versos neste canto,
por não haver um ritmo que o celebre.

A curva não modela, a linha, esquiva,
não esboça, e não canta o plectro raro
teu nervoso perfil de sensitiva,
como apanhar não pode uma objetiva
o infinito de um céu lúcido e claro...


Publicado no livro Vida extinta (1911).

In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.39-4
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Marcus Accioly

Marcus Accioly

Prosação

— Senhores, vou lhes contar
Uma conversa ligeira
Que tive, faz muito tempo,
Num dia de quarta-feira
Do mês de outubro de um ano,
Do qual não me lembro a data,
Na mais agreste caatinga,
Depois da zona da Mata.
Havia fome na terra
E o povo se retirava
Levando os últimos bichos
Que a seca aos poucos matava.
Para esquecer essas coisas
Fui palestrar com Quintão,
Um cego que tinha fama
De sábio, em todo Sertão.

— "Já desde que tempo é tempo
E o mundo é mundo, que eu ouço
Muitas histórias contadas
Por retirantes, seu moço.
Histórias que falam sempre
Das secas com seus rigores,
Dos homens virando lendas
Na boca dos cantadores.
Histórias que a gente encontra
Escritas, de outra maneira,
Em verso e não mais em prosa,
Nesses folhetos de feira.
Histórias que são as mesmas
Que a gente sabe de cor,
Mas finge que nunca sabe
Para escutá-las melhor.

— Dessas estórias, lhe digo,
Me causa admiração
A vida do Padre Cícero
E a lenda de Lampião
Que tinha o corpo fechado
E um olho cego que via,
Por isso fechava o outro
Para fazer pontaria.
Pois que bastava somente
Para enxergar o perfil
Da tropa que o perseguia,
O olho do seu fuzil.
E que bastava o soldado
Sentir seu faro real,
Para vestir-se de terra
Após vestir seu punhal.

— Não sei se é lenda ou verdade,
Seu moço, falo por mim,
A lenda sempre começa
Quando uma história tem fim.
Pois se a história nos conta
Que Virgulino nasceu,
A lenda logo acrescenta
Que Lampião não morreu.
Além da história e da lenda
Existe o sonho do povo,
Que entre o que houve e não houve
Inventa tudo de novo.
Por isso a lenda é mais certa
Do que o sonho e a história,
Pois Lampião anda vivo
Dentro de cada memória.

(...)

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Poema integrante da série Sertão-Sertões - Canto II.

In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.118-119. (Tempoesia, 18)

NOTA: Poema composto de 13 estrofes de 16 verso
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Alberto de Oliveira

Alberto de Oliveira

Velha Fazenda - III

— "... Vi um por um, oh! provação tremenda!
Nunca me há de esquecer aquele dia!
Debandar os escravos da fazenda.

A esta, em idos tempos de alegria,
Chamara, porque as tinha, de "Esperança",
"Desengano" melhor lhe chamaria.

Ah! dor nenhuma, como a da lembrança
Da ventura que foi, na desventura
Ferir mais fundo o coração alcança!

Tanta grandeza há pouco! e eis que da altura
Do meu sonho resvalo e me subverto
Chão adentro em rasgada sepultura!

Ergo-me, tonto ainda, olho — o deserto!
Falo — silêncio! movo os braços — nada!
Somente a solidão ao peito aperto.

Minha "Esperança" desesperançada!
Com que ouvidos te ouvi então o rouco
Arrastado mugido da boiada!

Pus-me a chorar, como criança ou louco,
(Esta fraqueza, amigo, não te encubro)
Pus-me a chorar. Naquele mês, em pouco,

A flor do cafezal, filha de Outubro,
Reclamando a colheita, a rir-se agora,
Já mudada se achava em fruto rubro.

Naquele mês a várzea se melhora
Com a estação mais regrada e água da serra;
Ao sol pompeando, todo caule enflora;

Viça o vesco faval, com o humor que encerra;
Os grãos amojam nas espigas de ouro;
Racha com as grossas túberas a terra.

Mas com que mãos colher tanto tesouro?
As mãos Maio as levou, levando o escravo,
Maio agora tornado sestro agouro.

Meu mal, assim pensando, aflito agravo;
Nas terras, nas lavouras em abandono
Em desesperação os olhos cravo.

Depois, a pouco e pouco, um meio sono
Me vem. Olho estas cousas com fastio,
E deixo-as ir, como se vai sem dono

Barco largado na tensão do rio."


Publicado no livro Poesias, 1904/1911: terceira série (1913). Poema integrante da série Natália.

In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
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Castro Alves

Castro Alves

Quando eu Morrer

Eu morro, eu morro. A matutina brisa
Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.
JUNQUEIRA FREIRE


Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.

Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro o boca libertina.

Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.

Tem os fogos — errantes — por santelmo.
Tem por velame — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário...

Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...

Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...

Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."

Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
...Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!...

São Paulo, março de 1869.


Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
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