Poemas neste tema
Morte e Luto
Renato Rezende
[Flores]
Só nos libertamos à medida que não somos esmagados.
Desde que morri, não tenho vontade de fazer nada.
Que eu saiba, não há nenhum caso na família.
Não tenho que ser: Sou.
Fui longe demais para voltar.
Se você espera, você espera para sempre.
É preciso estar presente, mas não apegado.
É preciso que a linguagem não agarre.
Vou repetindo: espaço, espaço chamado sala, espaço chamado quarto, objeto no espaço chamado cama, objeto no espaço chamado cortina, objeto sobre objeto no espaço chamado livro, livro sobre mesa que esta mão (minha) levanta...
Há em mim uma zona de cegueira, de cansaço, de descaso.
minha mão—minha—meu, mão
eu sou eu mesmo sem minha mão?
Deve ser muito doido ser gente.
Tem gente que demora muito para nascer.
Já é hora de me tornar quem realmente sou.
Dei de dormir com a luz acesa.
Assim, enquanto durmo, minha mente parece acesa.
É minha a luz acesa.
Desconfio que seja.
Eu sou você?
Preencher completamente a minha forma—viver ao máximo.
Melhor perder todos os medos.
A poesia está além do dia.
O homem não nasce, passa a vida nascendo.
Há flores que desabrocham no outono, no inverno.
Palavras dão corpo.
Desde que morri, não tenho vontade de fazer nada.
Que eu saiba, não há nenhum caso na família.
Não tenho que ser: Sou.
Fui longe demais para voltar.
Se você espera, você espera para sempre.
É preciso estar presente, mas não apegado.
É preciso que a linguagem não agarre.
Vou repetindo: espaço, espaço chamado sala, espaço chamado quarto, objeto no espaço chamado cama, objeto no espaço chamado cortina, objeto sobre objeto no espaço chamado livro, livro sobre mesa que esta mão (minha) levanta...
Há em mim uma zona de cegueira, de cansaço, de descaso.
minha mão—minha—meu, mão
eu sou eu mesmo sem minha mão?
Deve ser muito doido ser gente.
Tem gente que demora muito para nascer.
Já é hora de me tornar quem realmente sou.
Dei de dormir com a luz acesa.
Assim, enquanto durmo, minha mente parece acesa.
É minha a luz acesa.
Desconfio que seja.
Eu sou você?
Preencher completamente a minha forma—viver ao máximo.
Melhor perder todos os medos.
A poesia está além do dia.
O homem não nasce, passa a vida nascendo.
Há flores que desabrocham no outono, no inverno.
Palavras dão corpo.
990
José Manuel Mendes
não voltarás
não voltarás
olhando as ruas
na vidraça nua os zimbros
da terra ocre
moras secreta nestes barros
tua flauta canta nas montanhas
pedras e trepadeiras se enroscam
perto do teu rosto
e são de
água
sabes plantar o odor
dos frutos
tangerina limão
pássaras orvalho
a nervura das manhãs
e o lume dos poemas
quente metalurgia
das palavras
como ontem (tu eras morta)
prolonga-te nestas mãos
no maio das rotas
de abril
tecidas
olhando as ruas
na vidraça nua os zimbros
da terra ocre
moras secreta nestes barros
tua flauta canta nas montanhas
pedras e trepadeiras se enroscam
perto do teu rosto
e são de
água
sabes plantar o odor
dos frutos
tangerina limão
pássaras orvalho
a nervura das manhãs
e o lume dos poemas
quente metalurgia
das palavras
como ontem (tu eras morta)
prolonga-te nestas mãos
no maio das rotas
de abril
tecidas
527
Renato Rezende
[Furniture]
Vamos para os Alpes franceses na primavera? Vamos para a França nos tempos medievais? Vamos nos deitar na grama, entre rosas, tendo um castelo ao fundo e suaves nuvens sobre nós?
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
750
Renato Rezende
] Corpo [
Partindo do princípio, eu desisto
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO
1 017
Renato Rezende
[Azul]
Sou uma coisa morta.
Não há nada que eu possa perder agora
que já não tenha perdido antes.
Agora que eu morri posso dizer que sempre tive mesmo a saúde frágil.
Agora que morri posso assumir que sempre fui uma mulher.
Agora que morri posso simplesmente amar.
Viver ficou muito mais fácil agora. Eu deveria ter morrido antes.
Eu amo
Eu amo
Estonteantemente
Aparado, lavado, vestido, perfumado,
o corpo é imaginário
Desista de ser: seja
Nós damos o que não temos
(Conversa longa com uma moça. Mora longe, vem de balsa. Seu corpo mexe, sua boca mexe, seus lindos olhos negros mexem. Entusiasmada, me falava sobre a necessidade do escritor escrever para o seu tempo; eu, olhos perdidos, sem conseguir fazer a conexão, mal a ouvia.)
Atravessei o túnel a pé—o clarão e o azul do mar ao fundo, adiante.
Eu vivo de milagres
Eu nunca fiz nada.
A vida de qualquer um é muita, é o suficiente. A vida.
Para quem escrevo?
Importa quem fala? Precisamos sempre saber?
"Escreva!"
Seja atraído para o que ama, como um inseto para uma lâmpada.
Quebre a coluna.
Um ponto de luz que se abriu
Azul
Dedicar-me completamente ao outro
Porque o outro sou eu.
Encandilar
Quero ser mastigada:
Oh, Deus.
Ponha-me sobre o Tempo
Sempre quis uma vida maior do que a que cabia em mim.
Oh, Deus.
Quero seu pé no meu peito.
(O interesse pelo mundo
é proporcional ao interesse
pelo corpo)
O buraco é sempre mais embaixo
E agora caio
O que fazer com esse corpo?
[UM CORPO DE LUZ]
Não há nada que eu possa perder agora
que já não tenha perdido antes.
Agora que eu morri posso dizer que sempre tive mesmo a saúde frágil.
Agora que morri posso assumir que sempre fui uma mulher.
Agora que morri posso simplesmente amar.
Viver ficou muito mais fácil agora. Eu deveria ter morrido antes.
Eu amo
Eu amo
Estonteantemente
Aparado, lavado, vestido, perfumado,
o corpo é imaginário
Desista de ser: seja
Nós damos o que não temos
(Conversa longa com uma moça. Mora longe, vem de balsa. Seu corpo mexe, sua boca mexe, seus lindos olhos negros mexem. Entusiasmada, me falava sobre a necessidade do escritor escrever para o seu tempo; eu, olhos perdidos, sem conseguir fazer a conexão, mal a ouvia.)
Atravessei o túnel a pé—o clarão e o azul do mar ao fundo, adiante.
Eu vivo de milagres
Eu nunca fiz nada.
A vida de qualquer um é muita, é o suficiente. A vida.
Para quem escrevo?
Importa quem fala? Precisamos sempre saber?
"Escreva!"
Seja atraído para o que ama, como um inseto para uma lâmpada.
Quebre a coluna.
Um ponto de luz que se abriu
Azul
Dedicar-me completamente ao outro
Porque o outro sou eu.
Encandilar
Quero ser mastigada:
Oh, Deus.
Ponha-me sobre o Tempo
Sempre quis uma vida maior do que a que cabia em mim.
Oh, Deus.
Quero seu pé no meu peito.
(O interesse pelo mundo
é proporcional ao interesse
pelo corpo)
O buraco é sempre mais embaixo
E agora caio
O que fazer com esse corpo?
[UM CORPO DE LUZ]
752
Renato Rezende
Para Uma Cruz Na Estrada
Carrego dentro de mim, esquecido
o filho dos meus pais,
o que um dia foi amado,
o que foi querido.
Acho que vindo do mar, de longe
por detrás do monte, escuto um ai:
Lá vai nosso filho
com sutilezas de menina.
Aonde ela vai
tão bem vestida?
-- Encontrar-se
com uma bala perdida.
Lá vai nosso filho
no Elevado.
Aonde ele vai
tão bem penteado?
-- Ser atropelado.
Ser negro, marginal, mendigo
travesti, bêbado, deficiente físico
caminhar ao lado da estrada
sob a tempestade
vestido num saco de lixo
e desaparecer imortalizado
entre os índices de sinistros.
(Para um dia retornar, pródigo
nos braços do Cristo).
Rio de Janeiro, 21 de janeiro 1998
o filho dos meus pais,
o que um dia foi amado,
o que foi querido.
Acho que vindo do mar, de longe
por detrás do monte, escuto um ai:
Lá vai nosso filho
com sutilezas de menina.
Aonde ela vai
tão bem vestida?
-- Encontrar-se
com uma bala perdida.
Lá vai nosso filho
no Elevado.
Aonde ele vai
tão bem penteado?
-- Ser atropelado.
Ser negro, marginal, mendigo
travesti, bêbado, deficiente físico
caminhar ao lado da estrada
sob a tempestade
vestido num saco de lixo
e desaparecer imortalizado
entre os índices de sinistros.
(Para um dia retornar, pródigo
nos braços do Cristo).
Rio de Janeiro, 21 de janeiro 1998
941
Renato Rezende
O Bicho
Me misturo ao mundo absurdo,
como do mundo, e me pergunto
onde mais encontrar comida
que sustente espírito e músculos.
Que sustente espírito e tudo
que de mim quer fugir do mundo.
No turbilhão da vida
penso na morte.
Será que na hora da morte
vou querer a vida?
Sou uma alma em sua jaula.
Rio de Janeiro, 8 de outubro 1997
como do mundo, e me pergunto
onde mais encontrar comida
que sustente espírito e músculos.
Que sustente espírito e tudo
que de mim quer fugir do mundo.
No turbilhão da vida
penso na morte.
Será que na hora da morte
vou querer a vida?
Sou uma alma em sua jaula.
Rio de Janeiro, 8 de outubro 1997
685
Renato Rezende
Lápis-Lazúli
Uma pergunta insiste no fundo da mente, até que, uma manhã, ele tem coragem de olhá-la
de frente. Assim, como quem não quer nada, ele volta-se para si mesmo:
POR QUÊ A VIDA VALE A PENA SER VIVIDA?
Durante uma semana inteira, a pergunta vomitada do lado de fora, como se fosse um lápislazúli no meio do asfalto.
Ele foi se acostumando com a pedra. Ela não mordia, não queimava.
E a resposta veio sem dor:
A vida não vale a pena ser vivida. A vida não é. A Morte vale a pena ser vivida; a Morte,
que mora dentro, AGORA – cons-tan-te-pul-sar-de-êx-ta-se. Não existe nada, lugar nenhum,
pessoa alguma, que de fato exista.
de frente. Assim, como quem não quer nada, ele volta-se para si mesmo:
POR QUÊ A VIDA VALE A PENA SER VIVIDA?
Durante uma semana inteira, a pergunta vomitada do lado de fora, como se fosse um lápislazúli no meio do asfalto.
Ele foi se acostumando com a pedra. Ela não mordia, não queimava.
E a resposta veio sem dor:
A vida não vale a pena ser vivida. A vida não é. A Morte vale a pena ser vivida; a Morte,
que mora dentro, AGORA – cons-tan-te-pul-sar-de-êx-ta-se. Não existe nada, lugar nenhum,
pessoa alguma, que de fato exista.
1 088
Renato Rezende
Ruínas
Algo me prende ainda
à vida
e espero que passe.
Algo me prende à vida—é o amor
e a arte;
e espero que logo passem.
à vida
e espero que passe.
Algo me prende à vida—é o amor
e a arte;
e espero que logo passem.
1 144
Renato Rezende
O Cofre
Quando morrer quero ir pro Céu.
E sei que vou. E sei que vou.
Cumprir a vida e voltar à Casa.
Voltar à Casa. Voltar à Casa.
Minha família guarda uma cama para mim
num quarto que é meu, com coisas que, embora há muito abandonadas
ainda são minhas, e se alegrariam com minha presença;
livros que jamais reli, velhas cartas, velhos poemas,
desenhos velhos,
uma caixa só de fotografias, coisas que, se desaparecessem
me deixariam perplexo e mudo, como se eu tivesse morrido um pouco.
Sei que desaparecem pouco a pouco,
assim como eu também morro. Mas, por enquanto,
lá estão elas
num armário de um quarto onde estou (não estando);
e esse saber me reconforta.
Lá está o banho quente
do meu corpo agora cansado.
Lá está a comida gostosa, à vontade
para quem está com fome agora, num hotel sujo
sem coragem de sair à rua, um refúgio
que mais parece um esconderijo, mas que facilmente poderia ser
um Palácio iluminado.
Olhando a chuva fina, contra a lua dourada
penso na vida que é minha
e se mascara em tantas vidas.
A casa da minha família
não é mais a minha casa.
Qualquer lugar, o mundo estranho
se torna o bom quarto, a cama, o travesseiro
para o coração arrombado,
como um velho cofre, de cobre, que pulsa
apesar de tudo
e que no fundo ainda pula
de alegria.
Rio de Janeiro, 19 de novembro 1998
E sei que vou. E sei que vou.
Cumprir a vida e voltar à Casa.
Voltar à Casa. Voltar à Casa.
Minha família guarda uma cama para mim
num quarto que é meu, com coisas que, embora há muito abandonadas
ainda são minhas, e se alegrariam com minha presença;
livros que jamais reli, velhas cartas, velhos poemas,
desenhos velhos,
uma caixa só de fotografias, coisas que, se desaparecessem
me deixariam perplexo e mudo, como se eu tivesse morrido um pouco.
Sei que desaparecem pouco a pouco,
assim como eu também morro. Mas, por enquanto,
lá estão elas
num armário de um quarto onde estou (não estando);
e esse saber me reconforta.
Lá está o banho quente
do meu corpo agora cansado.
Lá está a comida gostosa, à vontade
para quem está com fome agora, num hotel sujo
sem coragem de sair à rua, um refúgio
que mais parece um esconderijo, mas que facilmente poderia ser
um Palácio iluminado.
Olhando a chuva fina, contra a lua dourada
penso na vida que é minha
e se mascara em tantas vidas.
A casa da minha família
não é mais a minha casa.
Qualquer lugar, o mundo estranho
se torna o bom quarto, a cama, o travesseiro
para o coração arrombado,
como um velho cofre, de cobre, que pulsa
apesar de tudo
e que no fundo ainda pula
de alegria.
Rio de Janeiro, 19 de novembro 1998
728
Renato Rezende
Águas
Passam pássaros longínquos
no alto da órbita azul de Copa.
Desde a praia eu os olho.
Não
haverá mais nada a fazer.
O corpo flutua sobre as águas
claras, que aos poucos
entram pelo nariz, pela boca,
sem que sequer sinta ou se mova.
Nada passado pelas retinas,
ou pelos ouvidos, degustado,
nada escrito,
nenhum sentido
terá serventia.
no alto da órbita azul de Copa.
Desde a praia eu os olho.
Não
haverá mais nada a fazer.
O corpo flutua sobre as águas
claras, que aos poucos
entram pelo nariz, pela boca,
sem que sequer sinta ou se mova.
Nada passado pelas retinas,
ou pelos ouvidos, degustado,
nada escrito,
nenhum sentido
terá serventia.
1 004
Renato Rezende
Alhures
Sinto de uma vez por todas que minha vida—a vida—acabou. Durou o suficiente, e foi
muito, e foi bem vivida. Nos dias de hoje, os homens sobrevivem em muito ao apogeu físico e
mental. O certo é morrer cedo, com menos de quarenta anos no máximo. Mas esta morte que a mim
mesmo decreto não é física. Não, continuarei respirando o ar deste planeta, bebendo a água e me
alimentando dos frutos da terra até que o corpo, por si só, definhe e morra. Não fugirei tampouco
dos avanços da medicina, dos remédios, das operações, dos transplantes, da quimioterapia. É
preciso ser um homem de seu tempo, afinal. Essa minha vida que acaba é outra, mais íntima. Tudo
que havia para ser visto já foi visto, tudo que havia para ser gozado já foi gozado. Não procurarei
repetir, com um corpo cada vez mais decrépito, os prazeres que teve meu corpo jovem. Minha
parcela de amor também já foi o suficiente. Renuncio ao nadar no rio do tempo, todos juntos em
direção ao mar. Caio fora. Solto as mãos daqueles que comigo compartilhavam esse nosso tempo, a
causa da geração, os infinitos diálogos e trocas com as pessoas que cruzaram e cruzam minha vida,
as aventuras de todos os tipos, as viagens de todos os tipos, adeus às moedas, aos tigres, às areias.
Enfim, a tudo que se apreende com olhos, ouvidos, tato; os sentidos. Essa é a vida que acabou,
como alguém que sai do rio, levanta-se na margem sozinho, dá adeus e dirige-se para as montanhas
azuis, lá no fundo. Isso origina uma nova vida. Mas que vida é essa, que começa? Aparentemente,
nada mudou: corpo, cidade, linguagem. Mas no íntimo nada é mais fixo como antes. Tudo em volta
lembra a morte. Nenhum poder é verdadeiro. A vida que começa é a vida de uma máscara vazia.
Não, vazia não: um infinito repleto de luz.
muito, e foi bem vivida. Nos dias de hoje, os homens sobrevivem em muito ao apogeu físico e
mental. O certo é morrer cedo, com menos de quarenta anos no máximo. Mas esta morte que a mim
mesmo decreto não é física. Não, continuarei respirando o ar deste planeta, bebendo a água e me
alimentando dos frutos da terra até que o corpo, por si só, definhe e morra. Não fugirei tampouco
dos avanços da medicina, dos remédios, das operações, dos transplantes, da quimioterapia. É
preciso ser um homem de seu tempo, afinal. Essa minha vida que acaba é outra, mais íntima. Tudo
que havia para ser visto já foi visto, tudo que havia para ser gozado já foi gozado. Não procurarei
repetir, com um corpo cada vez mais decrépito, os prazeres que teve meu corpo jovem. Minha
parcela de amor também já foi o suficiente. Renuncio ao nadar no rio do tempo, todos juntos em
direção ao mar. Caio fora. Solto as mãos daqueles que comigo compartilhavam esse nosso tempo, a
causa da geração, os infinitos diálogos e trocas com as pessoas que cruzaram e cruzam minha vida,
as aventuras de todos os tipos, as viagens de todos os tipos, adeus às moedas, aos tigres, às areias.
Enfim, a tudo que se apreende com olhos, ouvidos, tato; os sentidos. Essa é a vida que acabou,
como alguém que sai do rio, levanta-se na margem sozinho, dá adeus e dirige-se para as montanhas
azuis, lá no fundo. Isso origina uma nova vida. Mas que vida é essa, que começa? Aparentemente,
nada mudou: corpo, cidade, linguagem. Mas no íntimo nada é mais fixo como antes. Tudo em volta
lembra a morte. Nenhum poder é verdadeiro. A vida que começa é a vida de uma máscara vazia.
Não, vazia não: um infinito repleto de luz.
1 019
Renato Rezende
Deconstrução da Amada
O corpo da amada
não parece ser carne
como os outros;
e mesmo o que ela come e caga
está impregnado
por uma aura sagrada
como se fosse tudo olhos
amorosos, e alma.
Mas passa.
Uma vez morta e enterrada
a amada é esse punhado
de ossos e dentes
na minha palma.
Não adianta nada
comer com calma
as medulas que restam.
No entanto, todos os dias
chupo os dentes e suas cáries.
Já não têm o gosto
ácido da boca
e sua saliva, sua língua,
angústias e palavras;
cada um deles é uma coisa
como qualquer outra coisa.
não parece ser carne
como os outros;
e mesmo o que ela come e caga
está impregnado
por uma aura sagrada
como se fosse tudo olhos
amorosos, e alma.
Mas passa.
Uma vez morta e enterrada
a amada é esse punhado
de ossos e dentes
na minha palma.
Não adianta nada
comer com calma
as medulas que restam.
No entanto, todos os dias
chupo os dentes e suas cáries.
Já não têm o gosto
ácido da boca
e sua saliva, sua língua,
angústias e palavras;
cada um deles é uma coisa
como qualquer outra coisa.
937
Renato Rezende
Corte
[ ]
La vraie vie
est absente.
] [
Mas onde
é isso?
Na Abissínia?
Na morte?
[EU NÃO VOLTO!]
La vraie vie
est absente.
] [
Mas onde
é isso?
Na Abissínia?
Na morte?
[EU NÃO VOLTO!]
962
Renato Rezende
Aroma
a S.M.A.
Atravesso o jardim, mas páro
para cheirar as flores.
Logo não sentirei perfume algum
porque estarei morto --
ainda estarei neste jardim
mas não terei um corpo.
Nova York, 12 de julho 1996
Atravesso o jardim, mas páro
para cheirar as flores.
Logo não sentirei perfume algum
porque estarei morto --
ainda estarei neste jardim
mas não terei um corpo.
Nova York, 12 de julho 1996
1 188
Renato Rezende
Os Antepassados
Meu tio José gostava de ficar
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
963
Renato Rezende
O Sono
Sob o azul escurecendo
e as nuvens que correm o ar
como se fossem finalmente
voltar
à casa
a tarde no Rio
passa rápida
levando do dia
o que ele teve de fácil e claro.
Numa janela,
dentro de um quarto
(vamos dizer, em Botafogo
ou no Leblon
de frente ao mar),
alheios à tarde que se faz rosa e ouro,
dois corpos dormem
um sobre o outro,
no descanso
depois do amor.
(Esse ato gera novos corpos).
Um corpo sobre outro
carne sobre carne
ossos sobre ossos
no sono
que é prenúncio da morte.
Um dia estaremos mortos,
mas por enquanto
estamos aqui
estamos aqui, presentes
e o mundo é ainda nosso.
Rio de Janeiro, 8 de abril 1997
e as nuvens que correm o ar
como se fossem finalmente
voltar
à casa
a tarde no Rio
passa rápida
levando do dia
o que ele teve de fácil e claro.
Numa janela,
dentro de um quarto
(vamos dizer, em Botafogo
ou no Leblon
de frente ao mar),
alheios à tarde que se faz rosa e ouro,
dois corpos dormem
um sobre o outro,
no descanso
depois do amor.
(Esse ato gera novos corpos).
Um corpo sobre outro
carne sobre carne
ossos sobre ossos
no sono
que é prenúncio da morte.
Um dia estaremos mortos,
mas por enquanto
estamos aqui
estamos aqui, presentes
e o mundo é ainda nosso.
Rio de Janeiro, 8 de abril 1997
989
Renato Rezende
História
Ontem revi o livro História do Brasil
que quando menino estudei no ginásio.
Havia uma foto da família real: Dom Pedro II,
a Princesa Isabel, o Conde D'Eu. Essas pessoas
realmente existiram, um dia, e hoje estão mortas.
A noite, relendo Orlando Furioso
pensei nesse jovem Roland, morto
em 778, numa emboscada basca
contra os francos de Carlos Magno.
Esse anônimo Roland, que sem suspeitar
inspirou a Chanson, o Innamorato, o Furioso.
Hoje estou aqui, sob a luz, mas a vida
com suas razões fugidias, é arisca, e já
(sorrateiramente) a sombra se aproxima.
Virgínia, 9 de maio 1995
que quando menino estudei no ginásio.
Havia uma foto da família real: Dom Pedro II,
a Princesa Isabel, o Conde D'Eu. Essas pessoas
realmente existiram, um dia, e hoje estão mortas.
A noite, relendo Orlando Furioso
pensei nesse jovem Roland, morto
em 778, numa emboscada basca
contra os francos de Carlos Magno.
Esse anônimo Roland, que sem suspeitar
inspirou a Chanson, o Innamorato, o Furioso.
Hoje estou aqui, sob a luz, mas a vida
com suas razões fugidias, é arisca, e já
(sorrateiramente) a sombra se aproxima.
Virgínia, 9 de maio 1995
986
Renato Rezende
Ensaio
Deitado na cama, sozinho, escrevo
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:
Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.
Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.
Nova York, 10 de março 1996
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:
Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.
Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.
Nova York, 10 de março 1996
991
Zulmira Ribeiro Tavares
A mancha de cor
Se com o passar dos anos vamos perdendo os pelos que nos faziam orgulhosos por sua fricção animal e sua vizinhança dos capinzais na boa estação,
E, ainda, se vamos perdendo a água que nos deixava luminosos como sinaleiras, como elas atentos e úteis — isso ainda não é sério.
Podemos avançar nas perdas.
Mas, quando os dias se excedem, espichamo-nos como as sombras do poente, somos ginastas rastejadores, as sombras são nossos pijamas de elástico e fumo, elas nos levam estirados na direção do sol desaparecido dentro de sua mancha de cor.
Nossas sombras são sombras estradeiras.
Somos estradeiros com as sombras e corremos para nada dentro da mancha de cor.
E, ainda, se vamos perdendo a água que nos deixava luminosos como sinaleiras, como elas atentos e úteis — isso ainda não é sério.
Podemos avançar nas perdas.
Mas, quando os dias se excedem, espichamo-nos como as sombras do poente, somos ginastas rastejadores, as sombras são nossos pijamas de elástico e fumo, elas nos levam estirados na direção do sol desaparecido dentro de sua mancha de cor.
Nossas sombras são sombras estradeiras.
Somos estradeiros com as sombras e corremos para nada dentro da mancha de cor.
731
Renato Rezende
O Anjo Na Calçada
Douradas, rosas, azuis
na calçada
duas pétalas de flor
como asas,
borboleta
crucificada
Boston, setembro 1990
na calçada
duas pétalas de flor
como asas,
borboleta
crucificada
Boston, setembro 1990
1 052
Renato Rezende
Ao Redor do Fogo
O fogo consome
a madeira
na lareira ardente.
Enquanto um outro fogo
chamado tempo
nos consome
-- mais lentamente.
Nova Jersey, fevereiro 1996
a madeira
na lareira ardente.
Enquanto um outro fogo
chamado tempo
nos consome
-- mais lentamente.
Nova Jersey, fevereiro 1996
1 127
Ricardo Aleixo
E rir à solta e não morrer
Poder morrer
Ainda no ventre
da mulher
que me pariu.
E não ter
morrido lá.
Poder morrer
de algum veneno
que alguém
insuflou num fruto
que eu menino
colheria enquanto
brincava sozinho.
E não morrer.
Poder morrer
Adolescente sob
as patas distraídas
de uma esquina
de domingo.
E rir à solta e
não morrer.
Poder morrer
num dia quente,
tudo já seco
por dentro, e a
cidade e o mundo
alheios. Não morri
num dia assim.
Poder morrer
de tantas formas
e não ter morrido
nunca nenhum
desses tantos anos
que eu vivo
aqui entre
os humanos.
Ainda no ventre
da mulher
que me pariu.
E não ter
morrido lá.
Poder morrer
de algum veneno
que alguém
insuflou num fruto
que eu menino
colheria enquanto
brincava sozinho.
E não morrer.
Poder morrer
Adolescente sob
as patas distraídas
de uma esquina
de domingo.
E rir à solta e
não morrer.
Poder morrer
num dia quente,
tudo já seco
por dentro, e a
cidade e o mundo
alheios. Não morri
num dia assim.
Poder morrer
de tantas formas
e não ter morrido
nunca nenhum
desses tantos anos
que eu vivo
aqui entre
os humanos.
713