Nação e Patriotismo
Adélia Prado
Desenredo
e a letra de certas pessoas que esforço por imitar.
Dos meus, só eu conheço o mar.
Conto e reconto, eles dizem ‘ahn’.
E continuam cercando o galinheiro de tela.
Falo da espuma, do tamanho cansativo das águas,
eles nem lembram que tem o Quênia,
nem de leve adivinham que estou pensando em Tanzânia.
Afainosos me mostram o lote: aqui vai ser a cozinha,
logo ali a horta de couve.
Não sei o que fazer com o litoral.
Fazia tarde bonita quando me inseri na janela, entre meus
[tios,
e vi o homem com a braguilha aberta,
o pé de rosa-doida enjerizado de rosas.
Horas e horas conversamos inconscientemente em
[português
como se fora esta a única língua do mundo.
Antes e depois da fé eu pergunto cadê os meus que se
[foram,
porque sou humana, com capricho tampo o restinho de
[molho na panela.
Saberemos viver uma vida melhor que esta,
quando mesmo chorando é tão bom estarmos juntos?
Sofrer não é em língua nenhuma.
Sofri e sofro em Minas Gerais e na beira do oceano.
Estarreço de estar viva. Ó luar do sertão,
ó matas que não preciso ver pra me perder,
ó cidades grandes, estados do Brasil que amo como se os
[tivesse inventado.
Ser brasileiro me determina de modo emocionante
e isto, que posso chamar de destino, sem pecar,
descansa meu bem-querer.
Tudo junto é inteligível demais e eu não suporto.
Valha-me noite que me cobre de sono.
O pensamento da morte não se acostuma comigo.
Estremecerei de susto até dormir.
E no entanto é tudo tão pequeno.
Para o desejo do meu coração
o mar é uma gota.
Ruy Belo
Peregrino e hóspede sobre a terra
é onde pago o bem com sofrimento
é onde num momento tudo tenho
O meu país agora são os mesmos campos verdes
que no outono vi tristes e desolados
e onde nem me pedem passaporte
pois neles nasci e morro a cada instante
que a paz não é palavra para mim
O malmequer a erva o pessegueiro em flor
asseguram o mínimo de dor indispensável
a quem na felicidade que tivesse
veria uma reforma e um insulto
A vida recomeça e o sol brilha
a tudo isto chamam primavera
mas nada disto cabe numa só palavra
abstrata quando tudo é tão concreto e vário
O meu país são todos os amigos
que conquisto e que perco a cada instante
Os meus amigos são os mais recentes
os dos demais países os que mal conheço e
tenho de abandonar porque me vou embora
pois eu nunca estou bem aonde estou
nem mesmo estou sequer aonde estou
Eu não sou muito grande nasci numa aldeia
mas o país que tinha já de si pequeno
fizeram-no pequeno para mim
os donos das pessoas e das terras
os vendilhões das almas no templo do mundo
Sou donde estou e só sou português
por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez
"Transporte no Tempo" (1973)
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 30 e 31 | Editorial Presença Lda., 1981
Florbela Espanca
Saudade
Da noss’alma de sonho e de tristeza,
Andas de roxo sempre, sempre calma
Doce filha da gente portuguesa!
Em toda a terra do meu Portugal
Te sinto e vejo, toda suavidade
Como nas folhas tristes dum missal
Se sente Deus! E tu és Deus, saudade!...
Andas nos olhos negros, magoados
Das frescas raparigas. Namorados
Conhecem-te também, meu doce ralo!
Também te trago n’alma dentro em mim,
E trazendo-te sempre, sempre assim,
É bem a Pátria q’rida que eu embalo!
Luís Gama
Sortimento de Gorras para a Gente do Grande Tom
Corsino Fortes
De boca concêntrica na rota do sol
E da mensagem povo no tambor da ilha
Todas as coisas ficaram públicas na boca da república
As rochas gritaram árvores no peito das crianças
O sangue perto das raízes
E a seiva não longe do coração
E
Os homens que nasceram da estrela da manhã
Assim foram
Árvore & Tambor pela alvorada
Plantar no lábio da tua porta
África
mais uma espiga mais um livro mais uma roda
Que
Do coração da revolta
A Pátria que nasce
Toda a semente é fraternidade que sangra
*
A espingarda que atinge o topo da colina
De cavilha & coronha
partida partidas
E dobra a espinha
como enxada entre duas ilhas
E fuma vigilante
o seu cachimbo de paz
Não é um mutilado de guerra
É raiz & esfera no seu tempo & modo
De pouca semente
E muita luta.
Agostinho Neto
Antigamente era
Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom
Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança
A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos
Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo
Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo
E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados
Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.
Maria Manuela Margarido
Serviçais
desde a grota.
Os moleques sonham cazumbis
nas lajes do secador.
Lenta, a narrativa
dos serviçais sentados
no limiar da esperança
é palanca negra a derrubar
paliçadas e fronteiras,
palanca a devorar a distância,
a regressar a Angola,
aos muxitos do Sul;
é chuva grossa
empapando os campos de Cabo Verde
a germinar o milho da certeza.
Trazem na pele tatuada
a hierarquia das relíquias
alimentando-se de um sangue
desprezado
que elege os magistrados
da morte.
Amanhã os clamores da resta
acordarão as longas avenidas
de braços viris
e a terra do Sul
será de novo funda e fresca
e será de novo sabe
a terra seca de Cabo Verde,
livres enfim os homens
e a terra dos homens.
Domingos Caldas Barbosa
Doçura de Amor
Sempre o mesmo gosto fosse,
Mas um Amor Brasileiro
Eu não sei porque é mais doce.
Gentes, como isto
Cá é temperado,
Que sempre o favor
Me sabe a salgado:
Nós lá no Brasil
A nossa ternura
A açúcar nos sabe,
Tem muita doçura,
Oh! se tem! tem.
Tem um mel mui saboroso
É bem bom, é bem gostoso.
As ternuras desta terra
Sabem sempre a pão e queijo,
Não são como no Brasil
Que até é doce o desejo.
Gentes, etc.
Ah nhanhá venha escutar
Amor puro e verdadeiro,
Com preguiçosa doçura
Que é Amor de Brasileiro.
Gentes, etc.
Os respeitos cá do Reino
Dão a Amor muita nobreza,
Porém tiram-lhe a doçura
Que lhe deu a Natureza.
Gentes, etc.
Quanto a gente tem nhanhá
Que lhe seja bem fiel,
É como no Reino dizem
Caiu a sopa no mel.
Gentes, etc.
Se tu queres qu'eu te adore
À Brasileira hei de amar-te,
Eu sou teu, e tu és minha,
Não há mais tir-te nem guar-te.
Gentes, etc.
Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).
In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15)
NOTA: Nhanhá: tratamento dado às meninas e às moças pelos escravos. Sem tir-te nem guar-te: sem aviso prévio, sem cerimôni
Manuel Botelho de Oliveira
À Ilha de Maré - Termo desta Cidade da Bahia
Jaz em oblíqua forma e prolongada
A terra de Maré toda cercada
De Netuno, que tendo o amor constante,
Lhe dá muitos abraços por amante,
(...)
As plantas sempre nela reverdecem,
E nas folhas parecem,
Desterrando do Inverno os desfavores,
Esmeraldas de Abril em seus verdores,
E delas por adorno apetecido
Faz a divina Flora seu vestido.
As fruitas se produzem copiosas,
E são tão deleitosas,
Que como junto ao mar o sítio é posto,
Lhes dá salgado o mar o sal do gosto.
As canas fertilmente se produzem,
E a tão breve discurso se reduzem,
Que, porque crescem muito,
Em doze meses lhe sazona o fruito.
E não quer, quando o fruito se deseja,
Que sendo velha a cana, fértil seja.
(...)
As romãs rubicundas quando abertas
À vista agrados são, à língua ofertas,
São tesouro das fruitas entre afagos,
Pois são rubis suaves os seus bagos.
As fruitas quase todas nomeadas
São ao Brasil de Europa transladadas,
Porque tenha o Brasil por mais façanhas
Além das próprias fruitas, as estranhas.
E tratando das próprias, os coqueiros,
Galhardos e frondosos
Criam cocos gostosos;
E andou tão liberal a natureza
Que lhes deu por grandeza,
Não só para bebida, mas sustento,
O néctar doce, o cândido alimento.
De várias cores são os cajus belos,
Uns são vermelhos, outros amarelos,
E como vários são nas várias cores,
Também se mostram vários nos sabores;
E criam a castanha,
Que é melhor que a de França, Itália, Espanha.
(...)
Tenho explicado as fruitas e legumes,
Que dão a Portugal muitos ciúmes;
Tenho recopilado
O que o Brasil contém para invejado,
E para preferir a toda a terra,
Em si perfeitos quatro AA encerra.
Tem o primeiro A, nos arvoredos
Sempre verdes aos olhos, sempre ledos;
Tem o segundo A, nos ares puros
Tem tempérie agradáveis e seguros;
Tem o terceiro A, nas águas frias,
Que refrescam o peito, e são sadias;
O quarto A, no açúcar deleitoso,
Que é do Mundo o regalo mais mimoso.
(...)
Esta Ilha de Maré, ou de alegria
Que é termo da Bahia,
Tem quase tudo quanto o Brasil todo,
Que de todo o Brasil é breve apodo;
E se algum tempo Citeréia a achara,
Por esta sua Chipre desprezara,
Porém tem com Maria verdadeira
Outra Vênus melhor por padroeira.
Imagem - 00090001
In: OLIVEIRA, Manuel Botelho de. Música do Parnasso. Pref. e org. do texto Antenor Nascentes. Rio de Janeiro: INL, 1953. v.1. (Biblioteca popular brasileira, 2
Gulamo Khan
Mocambicanto I
zambezeiam pela memória
das almadias do silêncio
nem o zumbido da cigarra
me entontece
nem o troar do tambor
me ensurdece
as vozes que são
sulcos das nossas esperanças
Oh pátria
mocambiquero-te
neste alumbramento
e amar-te
devo-o à carne e ao nervo
deglutidos em revolta.
Da enxada e do martelo
é o verso escrito na palma
da tua mão punho fechado
que nas alavancas das horas
faz refulgir o aço
analfabetamente parido
Cavador maldito
pronto a decepar o tronco
deste imbondeiro tão pária
carcomido pelas talecuas
sugadoras do seu sangue
e o veneno da nhoca cuspideira
queimando as migalhas bélicas
postadas de cócoras no caminho
dos simples
assim altivo ergues o teu nome
num pais ainda
de nadas e famélicos
desbravando os crápulas bem como os satanhocos.
Sei da Pátria
o nome erguido
a estrela tatuada
no corpo do Indico
uma timbila
canção guerreira
Ary dos Santos
Retrato de Sophia
Senhora dona águia água égua
inglesa num jardim de potros gregos
mordiscando beleza rega cega
do regador de Inês em seus sossegos.
De muitos anos colhes o magro fruto
que depressa transformas em compota
receita tão bem feita que de há muito
nos açucara o travo da chacota.
Porém quando por vezes és de pedra
não mármore mas árvore mas dura
do fundo do teu mar levanta-se a cratera
da nossa lusitana sepultura
José de Anchieta
Brazil
andava mui cego e torto,
vós o metereis no porto
se lançar de si a cobiça
que de vivo o torna morto.
Quae sine iustitia prauo Brasilia cursu
ibat et obliquum, caeca, tenebat iter,
nunc directa, tuae iusto moderamine uirgae,
seruabit, tuis rectis, iusque piumque uisu.
In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954
Paulo Eiró
Verdades e Mentiras
Meu Deus! Se eu visse, neste véu da pátria,
Gracioso ondear pendão vermelho,
Aos filhos dos Carvalhos e dos Cláudios
Refletir seu renome, como espelho;
Tambores da república tocando
Nas praças a rebate...
Oh sonho, o mais querido, o mais dourado
Dos meus sonhos de vate!
Os ecos do futuro mais felizes
Estrugirão ao vozear sublime,
Que o povo eleva em fraternal abraço,
Que seus votos legítimos exprime.
Não há de irradiar em minha fronte
Essa aurora de glória?
Cantar não poderei os pátrios louros
Nos campos de vitória?
Morrer pudera, então, em terra livre,
Sob um poder que só do povo emana,
Santo desígnio que as nações meditam,
Elo final da liberdade humana!
Porém passam-se dias, volvem anos,
E sempre tronos, sempre soberanos!
Brasil, caro Brasil,
Letargo eterno abaterá teus brios?
Na arena americana, tu só, mudo,
Os braços cruzarás, beijando os ferros?
Deixarás que avassale, estrague tudo
Esse de cortesãos gado servil?
Deixarás, terra outrora grande e livre,
Ostentar seu domínio vergonhoso
Corte madrasta e vil?
Cortes! Cortes! Covis do velho Caco,
Que os latrocínios abarrotam de ouro,
Sólio em que imperas, oh sistema vácuo,
Labéu do mundo, do Brasil desdouro!
Destrui esse dédalo risível,
Da cobiça de alguns sórdido altar:
Em século de luzes, povo altivo
Dispensar pode um anjo tutelar.
1854
Poema integrante da série Primícias Poéticas, 1853/1854.
In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
Thiago de Mello
39 Anos de um Cidadão Brasileiro
Dia 31 de março,
confiro meus documentos.
Cidadão brasileiro,
legítimo: sei que a lei
mudou, mas não mudou tanto.
Alguma coisa ainda vale
no chão amado da infância,
chão com cheiro de marirana
e flor de cajueiro,
chão por onde hoje campeia,
solta e grossa,
a botina rombuda.
Está na certidão:
natural do Amazonas,
barrancos do Bom Socorro.
(...)
Pois brasileiro, caboclo,
39 anos. Feitos ontem.
É. Mas não chegou ninguém,
remando de canoa. Ninguém veio
pelas águas dos remansos,
— curimatãs, tucumãs —
ninguém chegou lá de longe
varando a noite do vento
para amanhecer na festa
do meu dia aniversário.
(...)
Pois brasileiro casado,
e pai de dois filhos homens.
O menor ficou tão longe,
nem sabe o lugar que tem
no fundo azul do meu peito.
o outro vem vindo comigo:
é o bem maior de uma vida
que se acabou já faz tempo,
nem parece que passou.
Com este menino conto,
todos podemos contar.
(...)
Folha corrida não há.
A de serviços é pouca,
nem sei se vale. O que vale
é este papel esquecido,
todo comido de tempo,
que só me acende desgostos
e durezas dos meus dias
de serviço militar.
Provo que sou reservista,
dei muito tiro no muro,
desmontei muito fuzil,
decorei o regulamento,
bom mesmo era rastejar
no cheiro fresco da lama.
Fiz meias-voltas, volver,
fiz tudo para entender
a alma daquele tenente:
estava sempre engomado,
limitava-se ao comando,
nunca nenhuma palavra
de gratuita convivência.
Às vezes vinha a cavalo,
solene e só, silencioso
na altura do seu desprezo.
Foi o ser mais solitário,
o mais feroz que eu já vi.
(...)
De eleitor, além do título
— que de repente se ameaça
de nenhuma serventia —
guardo a alegria de sempre
ter escolhido sozinho,
mas guardo a pena de nunca
ter dado o amor do meu voto
a um homem do povo e ao povo
num homem: assim como Arraes.
A profissão é a de poeta
ou de empinador de papagaios
o que vem a dar no mesmo.
(...)
Deixando o ser livre limpo,
chegaram os cantos que eu amo.
De todos os que mais valem,
são os poemas sobre a rosa
na parede da prisão,
é a canção da rebeldia
dos fonemas da alegria,
é o canto companheiro
chegando do ao coração,
é a toada pro menino
que vai levando o pendão.
Por isso estou aqui com a minha vida,
na cordilheira longe do meu povo,
do qual jamais tão perto estive tanto.
Cidadão brasileiro,
natural do Amazonas,
39 anos, casado,
eleitor e reservista,
pai de dois filhos e poeta,
que ficou desempregado.
Nunca no entanto tive tanto trabalho,
trabalho o tempo inteiro e não me canso
porque trabalho cantando
na construção da manhã:
manhã geral de amor que vai chegar.
Santiago do Chile,
31 de março de 1965
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Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
Martins Fontes
A Água Toda Secou até nos Olhos
O rio vai morrer, sem que nada o socorra,
sem que ninguém, jamais, bendiga o moribundo.
Morre na solidão, no silêncio profundo,
e o malárico mal o mantém em modorra.
A enfermidade faz que da boca lhe escorra
o limo, feito fel, viscoso e nauseabundo.
E o terror se lhe vê das órbitas ao fundo.
Paralítico jaz na estreitez da masmorra.
Tu só, tu, meu Irmão, que a miséria não vence.
Que suportando a sede, a fome, a febre, o frio,
sem que prêmio nenhum teu martírio compense.
Poeta, herói, semideus, sabes o desvario,
a sobre-humana dor, a bravura, cearense,
de quem se suicidou, vendo morrer o rio.
Publicado no livro Guanabara (1936).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.47-48. (Nossos clássicos, 40
Gonçalves de Magalhães
Ode à Despedida de Mr J B Debret
Ao som da lira que a saudade empunha;
Verdade, e gratidão guiam meu canto,
Não sórdida cobiça
Debret, digno Francês, Pintor preclaro,
Caro Amigo; Homem firme, sábio Mestre,
Eu te agradeço os bens, que tu fizeste
A mim, e à Pátria minha.
De um bom filho é dever ao pai ser útil;
Mas de homem o dever é ser a todos:
Assaz útil nos fôste, assaz nos deste
De homem, de amigo provas.
Saudosa a tua Pátria ora te chama,
E para receber-te estende os braços;
Chama-te a Pátria, não hesites, cumpre
Os deveres de filho.
Deixa embora o Brasil, que tanto prezas;
Não mais encares suas belas cenas;
Sei que ele é sedutor, que tem encantos
Que os alvedrios prendem.
Sei quanto no meu peito a Pátria impera,
Que mais o meu amor subir não pode;
Como pois poderei aconselhar-te
Que a tua Pátria deixes?
Ah não! não se dirá, que um Brasileiro
A tanto se atreveu; embora, embora
Não honre o teu pincel a nossa história,
Nem as nossas paisagens.
Tu conheces meu peito, assaz tu sabes
Que honra, e virtude assim n'alma me gritam.
Indócil coração eu não possuo,
Indiferente a tudo.
Morno pesar me enluta, e me profliga
Agora que o Brasil, e a mim tu deixas.
Ah não condenes que entrecorte o canto
Com ais, e com suspiros.
Em nossos corações agradecidos
Tu soubeste, oh Debret, gravar teu nome,
E neles viverás, enquanto as Artes
Amadores tiverem.
(...)
Sim, oh Debret, será teu nome eterno;
E quando outro penhor tu nos não desses,
Um Araújo só bastante fôra
Para honra tua, e nossa.
(...)
Mas outros deixas monumentos vivos;
Existem os Carvalhos, e os Arrudas,
Que a muda Natureza em breves quadros
Mimosos representam.
Oxalá que eu também sem desonrar-te
Que teu discíp'lo fui dizer pudesse;
Mas ao menos direi, sou teu amigo,
E basta-me tal glória.
Se este fraco tributo de amizade
For aos olhos do Mundo apresentado,
Conheça o quanto a gratidão domina
No peito Brasileiro.
Imagem - 00410006
Publicado no livro Poesias (1832).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
Bruno de Menezes
Marujada
gageiro subindo no mastro de proa,
piloto crioulo cantando a manobra
na cadência da onda, ao rumor da mareta.
É um brigue lendário... A "Nau Catarineta"...
Um cruzador do Império...
— "Seu imediato!
— Pronto seu comandante!
— Mande suspendê ferro que são
hora da partida!..."
E as fragatas em coro tatuadas gingando...
suspendem o ferro mesmo sustêm a força da amarra.
(1) "Alerta marinhêro
vâmo o terro levantá
as hora não chegada
do "Tupi" si arritirá".
E o rufo batuca na lufa-lufa a vela estrebucha ao vento
[que bufa...
Navio pirata... Veleiro corsário em mar alto...
Barca onde só vem mestiço.
Regamboleios de fragatas no arrastão da marujada
meia-lua em ronda longa escorregando no convés.
Pintados de entrudo! Oficiais e a marinhagem!
Revolta tumulto a bordo... O imediato posto a ferros...
Os trovões os relâmpagos o vento,
o mar brabo e a invocação à Virgem Mãe dos Navegantes:
(2) "Sinhor do Mar
Rainha das Ondas
livrai-nos da morte
nas ondas do mar...
É a cerração... Vida de bordo numa sala
que palpita de emoção e a maresia faz tremer.
A embarcação joga sem rumo...
Pintados de entrudo!
Rodelas de carmim... brancuras de alvaiade...
O comandante de espadim dragonas gorro e apito
... tinha a melhor fragata!
Mas na hora em que na adriça,
cessada a tempestade,
a bandeira subia garbosa no mastro,
eles pensavam que era certo e davam vivas ao Brasil!
Publicado no livro Batuque: poemas (1939).
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.229-230. (Lendo o Pará, 14
Cacaso
Lar Doce Lar
Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio.
Publicado no livro Na corda bamba: poesia (1978).
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.63
NOTA: O poema é a primeira estrofe do poema "Fábula", de 1965, publicado em A PALAVRA CERZIDA. Com o segundo verso alterado para 'onde estou é meu exílio' faz parte do refrão de "Grão de Milho", canção em parceria com Francis Him
Fagundes Varela
A William Christie
Entre as brumas do norte aviventada
A quem a pátria recusou bafejos
E o sol um raio que aquecesse o rosto!
Dize, filho da sombra, — onde aprendeste
A voar como as águias?... Em que terras
Te cresceram as penas borrifadas
Nas lagoas impuras da Bretanha?
Que céu dourado, — que estações benditas,
Que meigas flores, — que harmonias santas
Alentaram-te o cérebro? — Que sonhos
Te passaram na mente? — Que riquezas
O teu berço natal mostrou-te aos olhos?
Que doce inspiração roçou-te n'alma
E deu-te crenças, te cobriu de orgulho,
Do santo orgulho que revela o mérito?
Pisaste uma nação, — nação tão grande
Que a loucura perdoa-te! — Cuspiste
Na face dessa que afogara em vagas,
Em rios de ouro teu país ingrato!
Procuraste lançar um véu de sombras
Sobre essa terra que fascina o globo
Ao clarão dos diamantes, e piedosa
Teus irmãos agasalha junto ao peito!
Basta de humilhações!... dize a teus amos
Que a terra de Cabral está cansada
De ultrajes suportar! — Que a seus clamores
No seio das florestas ressuscita
Um mundo de guerreiros que não teme
O troar dos canhões; — que um povo ardente
Se levanta inspirado à voz dos bardos
Do pendão auriverde à sombra amiga!
Quereis ouro e riqueza?... Ah! nós vos damos,
É em nome da Irlanda miserável
Que sucumbe de fome! — É por piedade
Dos filhos do Levante que se estorcem
Entre sangue e veneno! — É pelos tristes
Que soluçam nos ferros, — pelos gênios
Que morrem na miséria e no abandono,
Pela virtude sem defesa e amparo!...
Vai, teu país é poderoso e ousado,
Teus vasos cobrem a amplidão dos mares,
Teus soldados são célebres e fortes,
Teus canhões são medonhos, — ferem certo.
A nós isto que importa? — se atrevidos
A nossas praias aportarem, loucos,
Cada província é um povo de guerreiros,
Cada guerreiro um destemido Anteu!
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Publicado no livro O estandarte auriverde: cantos sobre a questão anglo-brasileira (1863).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.9
Gregório de Matos
Embarcado Já o Poeta
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
(...)
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
e magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
(...)
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará:
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita sem entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
Bento Teixeira
Canto de Proteu
A fama dos antigos co'a moderna
Fica perdendo o preço sublimado:
A façanha cruel, que a turva Lerna
Espanta com estrondo d'arco armado;
O cão de três gargantas, que na eterna
Confusão infernal está fechado,
Não louve o braço de Hércules Tebano,
Pois procede Albuquerque soberano.
Vejo (diz o bom velho) que, na mente,
O tempo de Saturno renovado,
E a opulenta Olinda florescente
Chegar ao cume do supremo estado.
Será de fera e belicosa gente
O seu largo distrito povoado;
Por nome terá Nova Lusitânia,
Das Leis isenta da fatal insânia.
As rédeas terá desta Lusitânia
O grão Duarte, valoroso e claro,
Coelho por cognome, que a insânia
Reprimirá dos seus, com saber raro.
Outro Troiano Pio, que em Dardânia
Os Penates livrou e o padre caro;
Um Públio Cipião, na continência;
Outro Nestor e Fábio, na prudência.
O braço invicto vejo com que amansa
A dura cerviz bárbara insolente,
Instruindo na Fé, dando esperança
Do bem que sempre dura e é presente;
Eu vejo co`o rigor da tesa lança
Acossar o Francês, impaciente
De lhe ver alcançar uma vitória
Tão capaz e tão digna de memória.
(...)
In: TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia. Introd. estabelecimento do texto e comentários Celso Cunha e Carlos Duval. Rio de Janeiro: INL, 1972. p.37-39. (Coleção de literatura brasileira, 6)
NOTA: O "Canto de Proteu" é composto de 72 oitava
Murillo Mendes
São Francisco de Assis de Ouro Preto
Solta, suspensa no espaço,
Clara vitória da forma
E de humana geometria
Inventando um molde abstrato;
Ao mesmo tempo, segura,
Recriada na razão,
Em número, peso, medida;
Balanço de reta e curva,
Levanta a alma, ligeira,
À sua Pátria natal;
Repouso da cruz cansada,
Signo de alta brancura;
Gerado, em recorte novo,
Por um bicho rastejante,
Mestiço de sombra e luz;
Aposento da Trindade
E mais da Virgem Maria
Que se conhecem no amor;
Traslado, em pedra vivente,
Do afeto de um sumo herói
Que junta o braço do Cristo
Ao do homem seu igual.
Publicado no livro Contemplação de Ouro Preto (1954).
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
Murillo Mendes
Canção do Exílio
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959
NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
José Albano
Canção a Camões
Claríssimo Camões, me apareceste
No cimo do Parnaso alcantilado;
E eu, posto num enlevo duradouro,
Gravei na mente essa visão celeste
Que em numeroso verso aqui traslado;
Estavam ao teu lado
Duas Musas de cândido semblante,
Calíope que sopra na canora
Trombeta retumbante
Cujo clangor os ecos apavora;
E Euterpe que da rude e agreste avena
Tira uma melodia pura e amena.
Esta afina o instrumento donde parte
Um longo e suavíssimo gemido
Cuja tristeza eu também sinto e entendo,
E de improviso Amor vem a esta parte
E traz nas mãos teu coração ferido
Donde vermelhas gotas vão correndo.
Com ele vem o horrendo
E escuro Fado que jamais se cansa
De atormentar um generoso peito,
Alevantando a lança
Que atravessou teu coração desfeito —
E enquanto lentamente vão passando,
Ri-se o Fado cruel, geme Amor brando.
Emudecendo a frauta, eis se derrama
O som da horrível tuba que o repouso
Subitamente rompe do ar vizinho;
E eu vejo o Capitão Vasco da Gama,
Aquele grão Lusíada famoso
Que descobriu das Índias o caminho;
E (ó destino mesquinho!)
Vejo a mísera Inês tão meiga e amante,
Longe de Pedro, saudosa dele,
Lamentar-se diante
Del-rei que ao duro sacrifício a impele:
De Vasco o Tejo está lembrado ainda,
Chora o Mondego a Inês lânguida e linda.
(...)
Cessa o clangor e eu vejo ainda em sonho
Descer do empíreo angélica figura,
De ouro tingindo as nuvens e de rosa.
E no semblante plácido e risonho
Leio a felicidade branda e pura
De quem muito sofreu e agora goza:
É Natércia formosa,
Ó bom Luís, exemplo de amadores,
É tua alma gentil, encanto e vida,
Amor de teus Amores,
Sempre adorada e nunca possuída,
Ei-la que vem da luminosa parte
Para verdes mirtos coroar-te.
(...)
Publicado no livro Canção a Camões e Ode à Língua Portuguesa (1912).
In: ALBANO, José. Rimas: poesia reunida e prefaciada por Manuel Bandeira. Pref. Bernardo de Mendonça. 3.ed. acrescida de perfis biográficos, estudos críticos e bibliografia. Rio de Janeiro: Graphia, 1993. p.113-115. (Série Revisões, 3)
NOTA: Poema composto de 7 estrofe