Poemas neste tema
Amor Romântico
Silvaney Paes
Enchente
Quisera
Deus Chovesse...
Para não ser solitário riacho
Ser rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Capaz de apenas com um trago
Arrasta-la em meus braços
Buscando o antigo regaço
Quisera Deus Chovesse...
E já sendo o rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrario do triste riacho
Abrir caminho, espaço.
Para encontrar nesse corpo
O deleite do abraço
Quisera Deus Chovesse...
E sendo rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrário do tímido Riacho
Fugir contigo nos braços
Para num longínquo destino
Perder-me em teu lácio.
Quisera Deus só chovesse...
Para fingir ser rio turvo
Incauto
Revolto e Bravo.
Até conquistar os teus beijos,
Para num remanso tranqüilo
Deleitando-me no abraço
Ser de novo teu manso Riacho.
Chorarei por ti meninas,
Pássaros presos nas matas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a que mata,
Fria águia.
Chorarei por vós meninas,
Ratos revirando as latas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a Gata,
A que caça nas latas.
Chorarei por vós meninas,
Prostitutas das praças.
Lamentarei por mim meninas,
Sou muitas praças,
Aquela que paga.
Chorei por vós meninas,
Escravas de suas casas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a dona da casa,
Senhora de Escravas.
Chorarei por vós meninas,
Mais só chorarei.
Diante de vós sou Fraca,
Sociedade parca,
Sou vossa Mãe Pátria.
Deus Chovesse...
Para não ser solitário riacho
Ser rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Capaz de apenas com um trago
Arrasta-la em meus braços
Buscando o antigo regaço
Quisera Deus Chovesse...
E já sendo o rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrario do triste riacho
Abrir caminho, espaço.
Para encontrar nesse corpo
O deleite do abraço
Quisera Deus Chovesse...
E sendo rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrário do tímido Riacho
Fugir contigo nos braços
Para num longínquo destino
Perder-me em teu lácio.
Quisera Deus só chovesse...
Para fingir ser rio turvo
Incauto
Revolto e Bravo.
Até conquistar os teus beijos,
Para num remanso tranqüilo
Deleitando-me no abraço
Ser de novo teu manso Riacho.
Chorarei por ti meninas,
Pássaros presos nas matas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a que mata,
Fria águia.
Chorarei por vós meninas,
Ratos revirando as latas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a Gata,
A que caça nas latas.
Chorarei por vós meninas,
Prostitutas das praças.
Lamentarei por mim meninas,
Sou muitas praças,
Aquela que paga.
Chorei por vós meninas,
Escravas de suas casas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a dona da casa,
Senhora de Escravas.
Chorarei por vós meninas,
Mais só chorarei.
Diante de vós sou Fraca,
Sociedade parca,
Sou vossa Mãe Pátria.
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1
Silvaney Paes
Amor de Amigo
Amigo,
Parece que algo lhe sobra no peito!
Creio careças de meu abraço
Sei que não devo,
Mais haverei de faze-lo
Amigo
Reparaste se há alguém olhando?
Pois parece que estás chorando!
Vem, esconde-se aqui em meu ombro
Embora acho que também não devo.
Amigo,
Chega! Enxuga esse pranto nos panos.
Não podem vê-lo deitado em meu ombro.
Verão isso com assombro
E acharão que nós somos...
Amigo,
Sei que viestes buscando um colo,
Lamento muito, mais também não posso,
Mais eu porei minha mão em teu ombro
E veja nela o afago e o colo.
Amigo,
Terei que falar bem baixinho.
Pois não posso ouvir o teu pranto
E que ninguém nos ouça pelos cantos,
Mais quero que saibas que te amo
Amigo
Parece que algo lhe sobra no peito!
Creio careças de meu abraço
Sei que não devo,
Mais haverei de faze-lo
Amigo
Reparaste se há alguém olhando?
Pois parece que estás chorando!
Vem, esconde-se aqui em meu ombro
Embora acho que também não devo.
Amigo,
Chega! Enxuga esse pranto nos panos.
Não podem vê-lo deitado em meu ombro.
Verão isso com assombro
E acharão que nós somos...
Amigo,
Sei que viestes buscando um colo,
Lamento muito, mais também não posso,
Mais eu porei minha mão em teu ombro
E veja nela o afago e o colo.
Amigo,
Terei que falar bem baixinho.
Pois não posso ouvir o teu pranto
E que ninguém nos ouça pelos cantos,
Mais quero que saibas que te amo
Amigo
1 218
1
Mariazinha Congílio
Autorização
Se for
preciso
Pode mentir para mim.
Não se preocupe.
Console-se sabendo
Que por toda a minha vida
Tenho afirmado
Inverdades
Ou -pior ainda-
Tenho silenciado
Covardemente.
É justo que seja castigada.
Pode mentir para mim.
Mas
se algum dia você sentir
que já não me quer
conscientemente
plenamente
se perceber que o amor
está partindo
de mansinho
sorrateiramente
como fumaça
Se isso acontecer
Diga a verdade.
Você não deve mentir para mim.
preciso
Pode mentir para mim.
Não se preocupe.
Console-se sabendo
Que por toda a minha vida
Tenho afirmado
Inverdades
Ou -pior ainda-
Tenho silenciado
Covardemente.
É justo que seja castigada.
Pode mentir para mim.
Mas
se algum dia você sentir
que já não me quer
conscientemente
plenamente
se perceber que o amor
está partindo
de mansinho
sorrateiramente
como fumaça
Se isso acontecer
Diga a verdade.
Você não deve mentir para mim.
915
1
Silvaney Paes
Apenas Cartas
Sumir
de ti
Já não mais posso.
E se mesmo assim de mim sumir
Já não suporto.
Desse amar que nunca vi
Já não mais posso.
De um sofrer que já senti
Não mais suporto
De não tocar o que não vi
Será que posso
Amar um sonho?
Não posso
Já não suporto.
Se não sumir de mim
Verás que posso.
Amar, amar somente posso
Pois sofrer sem ti
Já não suporto.
de ti
Já não mais posso.
E se mesmo assim de mim sumir
Já não suporto.
Desse amar que nunca vi
Já não mais posso.
De um sofrer que já senti
Não mais suporto
De não tocar o que não vi
Será que posso
Amar um sonho?
Não posso
Já não suporto.
Se não sumir de mim
Verás que posso.
Amar, amar somente posso
Pois sofrer sem ti
Já não suporto.
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1
Paulo Mendes Campos
Amor Condusse Noi Ad Nada
Quando o olhar adivinhando a vida
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida
As mãos que se procuram ficam presas
Os dedos estreitados lembram garras
Da ave de rapina quando agarra
A carne de outras aves indefesas
A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece
O rosto a outro rosto desafia
A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece
E triste volta a si com sede e fome.
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida
As mãos que se procuram ficam presas
Os dedos estreitados lembram garras
Da ave de rapina quando agarra
A carne de outras aves indefesas
A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece
O rosto a outro rosto desafia
A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece
E triste volta a si com sede e fome.
1 098
1
José Carlos Souza Santos
Moço Bonito
obs: neste poema, o poeta se traveste
em mulher, para cantar o que vai
no peito da amada.
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
chega junto dos meus olhos
quero ver a tua luz
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
me deixe ver a poeira do caminho
trazida nas mãos e nos bolsos
e nos gestos cansados que percebo
por baixo
do verde nesses olhos tristes
Chega mais perto
moço bonito,
quero ver os signos tatuados
no teu rosto,
quero ver os caminhos desandados
enquanto não me alcançaste em tua busca
Me deixa tocar teu corpo
quero senti-lo, vibrar no toque
da minha mão renascida em você...moço bonito,
Me deixa roçar tua boca
do gosto de pêssego esquecida, pois
não me tinha revelado ainda em fruto, em mel
antes de me alcançar madura, para o teu gosto...
moço bonito.
Em troca disso tudo
te deixo renascer na seiva da minha lava,
te deixo amanhar o amanhã que descobristes
depois de caminhos tantos,
me faço em ouro negro nos olhos
p´ra combinar com a esperança
que vejo brilhar nos teus
moço bonito,
Me toma e me leva,
me vista de sonhos...moço bonito,
faça dos nossos passos
a asa de um passarinho,
me dê o canto da tua voz na minha floresta
nunca ouvido,
me diga palavras doces em sussurros de cachoeiras
murmuradas.
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
em mulher, para cantar o que vai
no peito da amada.
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
chega junto dos meus olhos
quero ver a tua luz
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
me deixe ver a poeira do caminho
trazida nas mãos e nos bolsos
e nos gestos cansados que percebo
por baixo
do verde nesses olhos tristes
Chega mais perto
moço bonito,
quero ver os signos tatuados
no teu rosto,
quero ver os caminhos desandados
enquanto não me alcançaste em tua busca
Me deixa tocar teu corpo
quero senti-lo, vibrar no toque
da minha mão renascida em você...moço bonito,
Me deixa roçar tua boca
do gosto de pêssego esquecida, pois
não me tinha revelado ainda em fruto, em mel
antes de me alcançar madura, para o teu gosto...
moço bonito.
Em troca disso tudo
te deixo renascer na seiva da minha lava,
te deixo amanhar o amanhã que descobristes
depois de caminhos tantos,
me faço em ouro negro nos olhos
p´ra combinar com a esperança
que vejo brilhar nos teus
moço bonito,
Me toma e me leva,
me vista de sonhos...moço bonito,
faça dos nossos passos
a asa de um passarinho,
me dê o canto da tua voz na minha floresta
nunca ouvido,
me diga palavras doces em sussurros de cachoeiras
murmuradas.
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
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1
Silvaney Paes
Segredo
Tenho que lhe contar um segredo,
Vivo algo estranho e novo,
Que de tão grande já não me cabe no peito,
Sobra-me muito e dividir parece o único jeito,
Contudo, psiu... Escute bem baixinho,
Mesmo quando parecer estar aos gritos
Este segredo só contigo eu divido.
- Não vai acreditar...
Acho que estou apaixonado,
E esse meu amor é somente uma criança
No melhor viço de seus anos,
Ainda não vi o seu rosto, nunca a toquei,
Ou provei do seu gosto,
Tudo que tenho é a melodia de uma voz,
Que vez por outra, ouço.
Não fique chocado...
Ela não freqüentou muito o colégio,
Não sabe nada de prosa ou verso
De literatura, de teatro ou de outras artes,
E assim mesmo ela pinta quadros,
Fala de seus sonhos com tanta naturalidade,
E o que espera da vida para ser feliz
É de uma simplicidade que neste mundo não cabe.
- Acredite...
Quando ela me fala,
Sinto em suas palavras tanto verdade
Que acho poder vislumbrar sua alma,
E nisso carrega tanta graça, que toca,
Quando declara querer vestir de meu abraço,
Comer de meus afagos
E saciar sua sede em meus beijos,
Embora, nunca perguntou de minha boca.
- Às vezes fico confuso...
O meu amor tem muitos medos,
Dúvidas, receios,
Mas noutro dia declarou uma certeza:
A de um amor que faz de todo o medo, nada.
E em sua simplicidade me fala tantas coisas,
Que estou desnorteado, perdido,
Enfeitiçado, acho...
- Fiquei espantado...
Sabe o que noutro dia também me falou?
Que essa coisa de idade, de afinidades da carne,
De libido, desejo mesmo como ela falou,
Tudo não passa de uma grande bobagem.
Que ficaria comigo de qualquer jeito
Mesmo que fosse só para fazer afagos,
Beijar o rosto, cercar de cuidados,
Ficar abraçados e colocar nisso tanto afeto
Que nunca mais poderíamos sair de perto.
- Será?...
Eu não como mais direito,
Vivo com um aperto no peito,
Um desejo incontido de está perto,
Cercado de estranhas sensações,
Como a de se está irremediavelmente preso
Mas de não querer de nenhum modo ser liberto,
E por nunca ter vivido algo desse jeito
Acabo tendo que consulta-lo:
"-Será que estou apaixonado?..."
Vivo algo estranho e novo,
Que de tão grande já não me cabe no peito,
Sobra-me muito e dividir parece o único jeito,
Contudo, psiu... Escute bem baixinho,
Mesmo quando parecer estar aos gritos
Este segredo só contigo eu divido.
- Não vai acreditar...
Acho que estou apaixonado,
E esse meu amor é somente uma criança
No melhor viço de seus anos,
Ainda não vi o seu rosto, nunca a toquei,
Ou provei do seu gosto,
Tudo que tenho é a melodia de uma voz,
Que vez por outra, ouço.
Não fique chocado...
Ela não freqüentou muito o colégio,
Não sabe nada de prosa ou verso
De literatura, de teatro ou de outras artes,
E assim mesmo ela pinta quadros,
Fala de seus sonhos com tanta naturalidade,
E o que espera da vida para ser feliz
É de uma simplicidade que neste mundo não cabe.
- Acredite...
Quando ela me fala,
Sinto em suas palavras tanto verdade
Que acho poder vislumbrar sua alma,
E nisso carrega tanta graça, que toca,
Quando declara querer vestir de meu abraço,
Comer de meus afagos
E saciar sua sede em meus beijos,
Embora, nunca perguntou de minha boca.
- Às vezes fico confuso...
O meu amor tem muitos medos,
Dúvidas, receios,
Mas noutro dia declarou uma certeza:
A de um amor que faz de todo o medo, nada.
E em sua simplicidade me fala tantas coisas,
Que estou desnorteado, perdido,
Enfeitiçado, acho...
- Fiquei espantado...
Sabe o que noutro dia também me falou?
Que essa coisa de idade, de afinidades da carne,
De libido, desejo mesmo como ela falou,
Tudo não passa de uma grande bobagem.
Que ficaria comigo de qualquer jeito
Mesmo que fosse só para fazer afagos,
Beijar o rosto, cercar de cuidados,
Ficar abraçados e colocar nisso tanto afeto
Que nunca mais poderíamos sair de perto.
- Será?...
Eu não como mais direito,
Vivo com um aperto no peito,
Um desejo incontido de está perto,
Cercado de estranhas sensações,
Como a de se está irremediavelmente preso
Mas de não querer de nenhum modo ser liberto,
E por nunca ter vivido algo desse jeito
Acabo tendo que consulta-lo:
"-Será que estou apaixonado?..."
835
1
Jonas da Silva
Paisagens da Carne
O teu corpo lirial, do alvor de Sete-estrelo,
É uma verde floresta em cuja sombra e solo
Passam deusas pagãs de aljava a tiracolo,
Há rouxinóis de aroma em teu loiro cabelo.
Muita vez sob a ação de infernal pesadelo
Se transforma o teu vulto em paisagens do polo
E cuido ver na alvura hibernal do teu colo
A refração do luar nas montanhas de gelo.
E na alucinação de apaixonado creio
Ver dois ursos, do Sol aos mortiços lampejos,
Dois ursos de rubis nos botões do teu seio.
E do gelo polar entre as pratas e espelhos
Vejo ao longe os viris esquimaus dos meus beijos
Lança em punho, em caçada a esses ursos vermelhos
É uma verde floresta em cuja sombra e solo
Passam deusas pagãs de aljava a tiracolo,
Há rouxinóis de aroma em teu loiro cabelo.
Muita vez sob a ação de infernal pesadelo
Se transforma o teu vulto em paisagens do polo
E cuido ver na alvura hibernal do teu colo
A refração do luar nas montanhas de gelo.
E na alucinação de apaixonado creio
Ver dois ursos, do Sol aos mortiços lampejos,
Dois ursos de rubis nos botões do teu seio.
E do gelo polar entre as pratas e espelhos
Vejo ao longe os viris esquimaus dos meus beijos
Lança em punho, em caçada a esses ursos vermelhos
951
1
Herberto Sales
Bruma Rubra
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome da indermida nudez de tuas formas,
que em seus túmidos relevos
são meu repasto e minha bilha.
Na bruma rubra,
buscando teu corpo
em ti me encontro.
E contigo parto em noturna cavalgada,
num dorcel de linho e plumas.
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome de tua alma.
busco teu corpo,
na fome da indermida nudez de tuas formas,
que em seus túmidos relevos
são meu repasto e minha bilha.
Na bruma rubra,
buscando teu corpo
em ti me encontro.
E contigo parto em noturna cavalgada,
num dorcel de linho e plumas.
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome de tua alma.
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1
Reinaldo Ferreira
Que de nós dois
Que de nós dois
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
1 966
1
Reinaldo Ferreira
Se flores jamais me deres
Se flores jamais me deres,
Se eu rir e tu não rires,
Se quando eu chegar fugires
Ninguém dirá que me queres!
Se tu ocultar puderes
O que há nesses olhos teus
E que é tão igual nos meus
Ninguém dirá que me queres!
Se alguma vez tu puseres
A minha mão tua mão
Sem que estremeças, então
Ninguém dirá que me queres!
E se o que te dei me deres
A minha trança e três flores
Não pode haver mais rumores
Ninguém dirá que me queres!
Se eu rir e tu não rires,
Se quando eu chegar fugires
Ninguém dirá que me queres!
Se tu ocultar puderes
O que há nesses olhos teus
E que é tão igual nos meus
Ninguém dirá que me queres!
Se alguma vez tu puseres
A minha mão tua mão
Sem que estremeças, então
Ninguém dirá que me queres!
E se o que te dei me deres
A minha trança e três flores
Não pode haver mais rumores
Ninguém dirá que me queres!
2 025
1
Gilberto Gil
A linha e o linho
É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando, ponto a ponto, nosso dia-a-dia
E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O ziguezague do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa da paixão
A sua vida, o meu caminho, nosso amor
Você a linha, e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado a casa, a estrada, a
correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando, ponto a ponto, nosso dia-a-dia
E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O ziguezague do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa da paixão
A sua vida, o meu caminho, nosso amor
Você a linha, e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado a casa, a estrada, a
correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza
3 878
1
Ana Júlia Monteiro Macedo Sança
É Urgente o Amor
A luz que a chama me prende
No caminho rude que meus pés me levam
E que meus olhos alcançam distâncias...
Mesmo no insólito, continuo resistindo
As notícias chegadas de todo o canto da terra
Ao encontro implacável do homem com a natureza
O sopro frio do vento, enrijecendo os caracteres
No perfil duro e fixo de cada ser
Milhares de lágrimas repartidas em cada pálpebra...
É urgente e necessário que se combata o mal
É tempo de solidarizar e construir o bem
Ainda é tempo de inventar o Amor.
No caminho rude que meus pés me levam
E que meus olhos alcançam distâncias...
Mesmo no insólito, continuo resistindo
As notícias chegadas de todo o canto da terra
Ao encontro implacável do homem com a natureza
O sopro frio do vento, enrijecendo os caracteres
No perfil duro e fixo de cada ser
Milhares de lágrimas repartidas em cada pálpebra...
É urgente e necessário que se combata o mal
É tempo de solidarizar e construir o bem
Ainda é tempo de inventar o Amor.
1 210
1
Ana Júlia Monteiro Macedo Sança
Só o Amor
Entre o fumo do cigarro
E o sorriso de uma boca
Nasce o luar
Numa seara de espuma
Quem nunca amou
Como sabe porque se ama?
O próprio dia quando acorda de manhã
Trazendo sementes virgens
Transpondo a face da minha alma
Enche de formas e sons envolventes
A cada passo a esperança que renasce.
Fossem minhas, tudo o que eu amo
As palavras sepultadas na minha boca
Na cadência simétrica dos lábios
O gesto parado ...
Ah! sonhos que partiram
Lembranças que ficaram
Esse fogo aprisionado
Sejam mudos, apagados
E apenas eu a pressenti-los.
Ah! fontes desvairadas
Onde o rumor das águas,
É melodia e amor
Trago comigo o cantar diário
O ritmo de quem possui um elixir.
Ah! orgulho que queima
Dói,
Sangra e até corrói,
Quantas serão precisas
Para estrangular essa fúria
Quantas vozes para segurar
conter essa força?!
Só o Amor
E o sorriso de uma boca
Nasce o luar
Numa seara de espuma
Quem nunca amou
Como sabe porque se ama?
O próprio dia quando acorda de manhã
Trazendo sementes virgens
Transpondo a face da minha alma
Enche de formas e sons envolventes
A cada passo a esperança que renasce.
Fossem minhas, tudo o que eu amo
As palavras sepultadas na minha boca
Na cadência simétrica dos lábios
O gesto parado ...
Ah! sonhos que partiram
Lembranças que ficaram
Esse fogo aprisionado
Sejam mudos, apagados
E apenas eu a pressenti-los.
Ah! fontes desvairadas
Onde o rumor das águas,
É melodia e amor
Trago comigo o cantar diário
O ritmo de quem possui um elixir.
Ah! orgulho que queima
Dói,
Sangra e até corrói,
Quantas serão precisas
Para estrangular essa fúria
Quantas vozes para segurar
conter essa força?!
Só o Amor
969
1
Renato Russo
Monte Castelo
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria
É só o amor, é só amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece
Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria
É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder
É um estar-se preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É um ter com quem nos mata a lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor
Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem
Agora vejo em parte
Mas veremos face a face
É só o amor, é só amor
Que conhece o que é verdade
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria
É só o amor, é só amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece
Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria
É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder
É um estar-se preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É um ter com quem nos mata a lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor
Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem
Agora vejo em parte
Mas veremos face a face
É só o amor, é só amor
Que conhece o que é verdade
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria
7 815
1
Silva Ramos
Nós
Eu e tu: a existência repartida
Por duas almas; duas almas numa
Só existência. Tu e eu: a vida
De duas vidas que uma só resuma.
Vida de dois, em cada um vivida,
Vida de um só vivida em dois; em suma:
A essência unida à essência, sem que alguma
Perca o ser una, sendo à outra unida.
Duplo egoísmo altruísta, a cujo enleio
No próprio coração cada qual sente
A chama que em si nutre o incêndio alheio.
Ó mistério do amor onipotente,
Que eternamente eu viva no teu seio,
E vivas no meu seio eternamente.
Por duas almas; duas almas numa
Só existência. Tu e eu: a vida
De duas vidas que uma só resuma.
Vida de dois, em cada um vivida,
Vida de um só vivida em dois; em suma:
A essência unida à essência, sem que alguma
Perca o ser una, sendo à outra unida.
Duplo egoísmo altruísta, a cujo enleio
No próprio coração cada qual sente
A chama que em si nutre o incêndio alheio.
Ó mistério do amor onipotente,
Que eternamente eu viva no teu seio,
E vivas no meu seio eternamente.
1 363
1
Roberto Freire
Pra quem ainda vier a me amar
Quero dizer que te amo só de amor. Sem idéias, palavras,
pensamentos. Quero fazer que te amo só de amor. Com sentimentos, sentidos,
emoções. Quero curtir que te amo só de amor. Olho no olho, cara a cara,
corpo a corpo. Quero querer que te amo só de amor.
São sombras as palavras no papel. Claro-escuros projetados pelo
amor, dos delírios e dos mistérios do prazer. Apenas sombras as palavras no
papel.
Ser-não-ser refratados pelo amor no sexo e nos sonhos dos amantes.
Fátuas sombras as palavras no papel.
Meu amor te escrevo feito um poema de carne, sangue, nervos e sêmen.
São versos que pulsam, gemem e fecundam. Meu poema se encanta feito o amor
dos bichos livres às urgências dos cios e que jogam, brincam, cantam e
dançam fazendo o amor como faço o poema.
Quero a vida as claras superfícies onde terminam e começam meus
amores. Eu te sinto na pele, não no coração. Quero do amor as tenras
superfícies onde a vida é lírica porque telúrica, onde sou épico porque
ébrio e lúbrico. Quero genitais todas as nossas superfícies.
Não há limites para o prazer, meu grnade amor, mas virá sempre
antes, não depois da excitação. Meu grande amor, o infinito é um recomeço.
Não há limites para se viver um grande amor. Mas só te amo porque me dás o
gozo e não gozo mais porque eu te amo. Não há limites para o fim de um
grande amor.
Nossa nudez, juntos, não se completa nunca, mesmo quando se tornam
quentes e congestionadas, úmidas e latejantes todas as mucosas. A nudez a
dois não acontece nunca, porque nos vestimos um com o corpo do outro, para
inventar deuses na solidão do nós. Por isso a nudez, no amor, não satisfaz
nunca.
Porque eu te amo, tu não precisas de mim. Porque tu me amas, eu não
preciso de ti. No amor, jamais nos deixamos de completar. Somos, um para o
outro, deliciosamente desnecessários.
O amor é tanto, não quanto. Amar é enquanto, portanto. Ponto.
pensamentos. Quero fazer que te amo só de amor. Com sentimentos, sentidos,
emoções. Quero curtir que te amo só de amor. Olho no olho, cara a cara,
corpo a corpo. Quero querer que te amo só de amor.
São sombras as palavras no papel. Claro-escuros projetados pelo
amor, dos delírios e dos mistérios do prazer. Apenas sombras as palavras no
papel.
Ser-não-ser refratados pelo amor no sexo e nos sonhos dos amantes.
Fátuas sombras as palavras no papel.
Meu amor te escrevo feito um poema de carne, sangue, nervos e sêmen.
São versos que pulsam, gemem e fecundam. Meu poema se encanta feito o amor
dos bichos livres às urgências dos cios e que jogam, brincam, cantam e
dançam fazendo o amor como faço o poema.
Quero a vida as claras superfícies onde terminam e começam meus
amores. Eu te sinto na pele, não no coração. Quero do amor as tenras
superfícies onde a vida é lírica porque telúrica, onde sou épico porque
ébrio e lúbrico. Quero genitais todas as nossas superfícies.
Não há limites para o prazer, meu grnade amor, mas virá sempre
antes, não depois da excitação. Meu grande amor, o infinito é um recomeço.
Não há limites para se viver um grande amor. Mas só te amo porque me dás o
gozo e não gozo mais porque eu te amo. Não há limites para o fim de um
grande amor.
Nossa nudez, juntos, não se completa nunca, mesmo quando se tornam
quentes e congestionadas, úmidas e latejantes todas as mucosas. A nudez a
dois não acontece nunca, porque nos vestimos um com o corpo do outro, para
inventar deuses na solidão do nós. Por isso a nudez, no amor, não satisfaz
nunca.
Porque eu te amo, tu não precisas de mim. Porque tu me amas, eu não
preciso de ti. No amor, jamais nos deixamos de completar. Somos, um para o
outro, deliciosamente desnecessários.
O amor é tanto, não quanto. Amar é enquanto, portanto. Ponto.
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1
Natalício Barroso
Mais um Poema de Amor para a Mulher Novamente Amada
A mulher amada tinha cabelos longos que desciam pela vertente dos ombros;
escorriam rápidos a tortuosos até a ponta dos seios
e se espalhavam ao redor da ansiedade.
Estes eram os cabelos da mulher amada.
Eles ficavam volumosos, quando se enchiam de amor,
e caíam como uma ducha sobre os corpos cansados.
Mas onde está a mulher amada?
Para onde a levaram? E porque a esconderam de mim?
Eu a tinha visto com os seios nuns
e os olhos tão ferozes quanto os de uma loba no cio.
As unhas eram longas, como se ela quisesse dilacerar alguém,
mas o púbis, deliciosamente acarinhado, se umedecia de
compaixão.
Mas para onde levaram a mulher amada?
Para que tipo de vida, mais apaixonante do que a minha, a levaram?
E porque a levaram?
As minhas horas estão vazias
como as noites solitárias num quarto de dormir.
Elas parecem as mesmas
mas o homem não é mais o mesmo.
Ele é apenas a janela do quarto aberta
para um pátio onde a lua brilha para seus olhos fechados.
Nada mais.
escorriam rápidos a tortuosos até a ponta dos seios
e se espalhavam ao redor da ansiedade.
Estes eram os cabelos da mulher amada.
Eles ficavam volumosos, quando se enchiam de amor,
e caíam como uma ducha sobre os corpos cansados.
Mas onde está a mulher amada?
Para onde a levaram? E porque a esconderam de mim?
Eu a tinha visto com os seios nuns
e os olhos tão ferozes quanto os de uma loba no cio.
As unhas eram longas, como se ela quisesse dilacerar alguém,
mas o púbis, deliciosamente acarinhado, se umedecia de
compaixão.
Mas para onde levaram a mulher amada?
Para que tipo de vida, mais apaixonante do que a minha, a levaram?
E porque a levaram?
As minhas horas estão vazias
como as noites solitárias num quarto de dormir.
Elas parecem as mesmas
mas o homem não é mais o mesmo.
Ele é apenas a janela do quarto aberta
para um pátio onde a lua brilha para seus olhos fechados.
Nada mais.
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1
Luís Palma Gomes
Natação
Os olhos ardem-me,
quando afloram o limiar verde das coisas,
as abelhas, a película correctíssima dos teus.
Perdoa-me, Amor,
se deixei fugir o prazo
para reclamar o espólio herdado
e requerido em papel selado
na conservatório do registo predial...
Aqui, de onde te escrevo,
não há princípios, nem fins,
e até o tráfego estagnou
retratando-se temporariamente
na superfície morta do lado municípal...
quando afloram o limiar verde das coisas,
as abelhas, a película correctíssima dos teus.
Perdoa-me, Amor,
se deixei fugir o prazo
para reclamar o espólio herdado
e requerido em papel selado
na conservatório do registo predial...
Aqui, de onde te escrevo,
não há princípios, nem fins,
e até o tráfego estagnou
retratando-se temporariamente
na superfície morta do lado municípal...
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1
Sérgio Mattos
Sinfonia do Amor
Há pássaros noturnos que cantam
no alto das casas.
Há nuvens brancas na noite
no alto dos céus.
Há braços e pernas que dançam
sob uma luz de sombras
e um murmúrio de lágrimas:
— A dança do amor é densa.
no alto das casas.
Há nuvens brancas na noite
no alto dos céus.
Há braços e pernas que dançam
sob uma luz de sombras
e um murmúrio de lágrimas:
— A dança do amor é densa.
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1
Marigê Quirino Marchini
Sonetos do Imperfeito
- I -
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
782
1
Mário Dionísio
Memória dum Pintor Desconhecido
Os presos contam os dias
eu as horas
nesta prisão maior onde um olhar ficou boiando
e uma voz um som de passos perseguidos
na sombra perseguindo a segurança
fugidia
Na cidade que amo e a sós comigo
é talvez só futuro ou já saudade
com alma bem nascida entre o fragor de máquinas, cimento e energia
atômica indefeso entre irmãos de cárcere demando
a voz que foge os irmãos que não vejo
o brando olhar que guarda o meu desejo
e só consigo
ver o gomoso arrastar das horas e das horas
tantas horas
à baioneta marcadas por uma sentinela
aos quatro cantos da janela
gradeada
do dia-
a-dia onde não há
mais nada
Que nada são os dias e os anos
para um tão grande amor que vou pintando
com o próprio sangue os meus e teus enganos
que há de nascer que há de florir que há de
e há de e há de
quando?
eu as horas
nesta prisão maior onde um olhar ficou boiando
e uma voz um som de passos perseguidos
na sombra perseguindo a segurança
fugidia
Na cidade que amo e a sós comigo
é talvez só futuro ou já saudade
com alma bem nascida entre o fragor de máquinas, cimento e energia
atômica indefeso entre irmãos de cárcere demando
a voz que foge os irmãos que não vejo
o brando olhar que guarda o meu desejo
e só consigo
ver o gomoso arrastar das horas e das horas
tantas horas
à baioneta marcadas por uma sentinela
aos quatro cantos da janela
gradeada
do dia-
a-dia onde não há
mais nada
Que nada são os dias e os anos
para um tão grande amor que vou pintando
com o próprio sangue os meus e teus enganos
que há de nascer que há de florir que há de
e há de e há de
quando?
1 710
1
Manuel Botelho de Oliveira
Rosa, e Anarda
Rosa da formosura, Anarda bela
igualmente se ostenta como a rosa;
Anarda mais que as flores é formosa,
mais formosa que as flores brilha aquela.
A rosa com espinhos se desvela,
arma-se Anarda espinhos de impiedosa;
na fronte Anarda tem púrpura airosa,
a rosa é dos jardins purpúrea estrela.
Brota o carmim da rosa doce alento,
respira olor de Anarda o carmim breve,
ambas dos olhos são contentamento:
mas esta diferença Anarda teve:
que a rosa deve ao sol seu luzimento,
o sol seu luzimento a Anarda deve.
igualmente se ostenta como a rosa;
Anarda mais que as flores é formosa,
mais formosa que as flores brilha aquela.
A rosa com espinhos se desvela,
arma-se Anarda espinhos de impiedosa;
na fronte Anarda tem púrpura airosa,
a rosa é dos jardins purpúrea estrela.
Brota o carmim da rosa doce alento,
respira olor de Anarda o carmim breve,
ambas dos olhos são contentamento:
mas esta diferença Anarda teve:
que a rosa deve ao sol seu luzimento,
o sol seu luzimento a Anarda deve.
3 171
1
Mario Ribeiro Martins
Qual o Teu Nome?
Qual seria teu nome, por ventura?
Margarida? Nely? Linda? Consuelo?
Não sei. Porém, eu sei que em ti fulgura,
a expressão do melhor e do mais belo.
Oh! como tu estás formosa e pura,
dentro deste vestido tão singelo,
que mostra tua esplêndida cintura,
ao viajor, ao jovem do castelo.
Não me dizes, por certo, qual teu nome.
Por acaso, não te chamas Farida?
Não dizes? Também não te chamas Isis.
Neste meu peito existe uma ferida,
provocada por ti que não me dizes,
se tu és, de verdade, a MARGARIDA.
Margarida? Nely? Linda? Consuelo?
Não sei. Porém, eu sei que em ti fulgura,
a expressão do melhor e do mais belo.
Oh! como tu estás formosa e pura,
dentro deste vestido tão singelo,
que mostra tua esplêndida cintura,
ao viajor, ao jovem do castelo.
Não me dizes, por certo, qual teu nome.
Por acaso, não te chamas Farida?
Não dizes? Também não te chamas Isis.
Neste meu peito existe uma ferida,
provocada por ti que não me dizes,
se tu és, de verdade, a MARGARIDA.
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