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Poemas neste tema

Política e Poder

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

POEMA DE AMOR EM ESTADO NOVO

Tens o olhar misterioso
Com um jeito nevoento,
Indeciso, duvidoso,
Minha Marta Francisca,
Meu amor, meu orçamento!

A tua face de rosa
Tem o colorido esquivo
De uma nota oficiosa.
Quem dera ter-te em meus braços,
Ó meu saldo positivo!

E o teu cabelo — não choro
Seu regresso ao natural —Abandona o padrão-ouro
Amor, pomba, estrada, porta,
Sindicato nacional!

Não sei por que me desprezas.
Fita-me mais um instante,
Lindo corte nas despesas,
Adorada abolição
Da dívida flutuante!

Com que madrigais mostrar-te
Este amor que é chama viva?
Ouve, escuta: vou chamar-te
Assembleia Nacional
Câmara Corporativa.

Como te amo, como, como,
Meu Acto Colonial!
De amor já quase não como,
Meu Estatuto de Trabalho,
Meu Banco de Portugal!

Meu crédito no estrangeiro!
Meu encaixe — ouro adorado!
Serei sempre o teu romeiro...
Pousa a cabeça em meu ombro,
Ó meu Conselho de Estado!

Ó minha corporativa,
Minha lei de Estado Novo,
Não me sejas mais esquiva!
Meu coração quer guarida
Ó linda Casa do Povo!

União Nacional querida,
Teus olhos enchem de mágoa
A sombra da minha vida
Que passa como uma esquadra
Sobre a energia da água.

Que aristocrático ri,
O teu cabelo em cifrões — Finanças em mise-en-plis! —
Meu activo plebiscito,
Nunca desceste a eleições!

Por isso nunca me escolhes
E a minha esperança é vã.
Nem sequer por dó me acolhes,
Minha imprevidente linda
Civilização cristã!

Bem sei: por estes meus modos
Nunca me podes amar.
Olha, desculpa-mas todas.
Estou seguindo as directrizes
Do professor Salazar.
1 476
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

PRIEST AND HANGMAN

«Burn me that book well, hangman,
        Burn it to the last leaf,
Put at the stake the apostate
        Whose hand of truth was thief.

«Burn his house to the ground, man,
        Starve his children and wife,
His friends disperse, dissever,
        His followers put to the knife.

«His works, his books, his poems
        To fire's oblivion fling;
Let ashes remain of all this.
        Remains there anything?»

«Some that stand by on looking
        Have tears within their eyes.»
«In the stake shall be their ending
        And vain and lone their cries.»

«All's done, my lord.» - «Remaineth
        There aught that was, of theirs?»
«Ashes» - «Throw them to the winds then;
        Still aught of them appears?»

My lord, there still persisteth
        The name they had of good.»
Trouble not; t'will be forgotten
        As their ashes and their blood.»

«Nothing remaineth. - «My lord, yet
        Aught can I not dispel:
Our name that will be ever
        A curse and a living hell.»

We also shall be forgotten
        As these shall cease to be.
What will remain then? -  My lord, still
        The name of Tyranny.»

«That also will remain not.»
        «But the Cause of what we do,
Of this bad world will. «What thou meanest
        My mind cannot construe.»

My lord, I mean 'tis useless
        That all things be crushed and trod.
There will then stand out to be hated
        The accursed name of God»
1 622
Luís Gama

Luís Gama

O Barão da Borracheira

Na Capital do Império Brasileiro,
Conhecida pelo — Rio de Janeiro,
Onde a mania, grave enfermidade,
Já não é como dantes, raridade;
E qualquer paspalhão endinheirado
De nobreza se faz empanturrado -
Em a rua chamada do Ouvidor,
Onde brilha a riqueza, o esplendor,
À porta de uma modista de Paris,
Lindo carro parou — Número — X — ,
Conduzindo um volume, na figura,
Que diziam alguns, ser criatura
Cujas formas mui toscas e brutais
Assemelham-na brutos animais.
Mal que da sege salta a raridade,
Retumba a mais profunda hilaridade.
Em massa corre o povo, apressuroso
Para ver o volume monstruoso;
De espanto toda a gente amotinada
Dizia ser coisa endiabrada!
Uns afirmam que o bruto é um camelo,
Por trazer no costado cotovelo,
É asno, diz um outro, anda de tranco,
Apesar do focinho d'urso branco!
Ser jumento aquele outro declarava,
Porque longas orelhas abanava.
Recresce a confusão na inteligência,
O bruto não conhecem d'excelência.
Mandam vir do Livreiro Garnier,
Os volumes do Grande Couvier;
Buffon, Guliver, Plínio, Columella,
Morais, Fonseca, Barros e Portela;
Volveram d'alto a baixo tais volumes,
Com olhos de luzentes vagalumes,
E desta nunca vista raridade
Não puderam notar a qualidade!
Vencido de roaz curiosidade
O povo percorreu toda a cidade;
As caducas farmácias, livrarias,
As boticas, e vãs secretarias;
E já todos a fé perdida tinham,
Por verem que o brutal não descobriam,
Quando idéia feliz e luminosa,
Na cachola brilhou dum Lampadosa
Que excedendo em carreira os finos galgos,
Lá foi ter à Secreta dos Fidalgos;
E dizem que encontrara registrado
O nome do colosso celebrado:
Era o grande Barão da borracheira,
Que seu título comprou na régia-feira!
1 374
Antonio Cisneros

Antonio Cisneros

Karl Marx died 1883 aged 65

Ainda estou pronto para recordar a casa de minha avó e
esse par de gravuras:
Um cavalheiros na casa do alfaiate, Grande desfile militar
em Viena, 1902.
Dias em que mais nada de ruim podia acontecer. Todos levavam
seu pé de coelho na cintura.
Também minha tia-avó - vinte anos e o chapéu de palha sob o sol,
preocupando-se apenas
com manter a boca, as pernas bem fechadas.
Eram os homens de boa vontade e as orelhas limpas.
No music hall apenas os anarquistas, loucos barbudos e envoltos
em cachecóis.
Que outonos, que verões!
Eiffel fez uma torre que dizia: “até aqui chegou o homem”.
Outra gravura:
Virtude e amor e ciúme protegendo as melhores famílias.
E dizer que o velho Marx ainda não cumprira os vinte anos de idade
debaixo desta erva
- gorda e eriçada, conveniente para os campos de golf.
As coroas de flores e o caixão tinham três descanços
ao pé da colina
e depois foi enterrado
junto ao túmulo de Molly Redgrove “bombardeado pelo inimigo
em 1940 e logo reconstruído”.
Ah o velho Marx moendo e derretendo na marmita os diversos metais
enquanto os filhos pulavam das torres de Spiegel às ilhas de Times
e sua mulher fervia as cebolas e a coisa não avançava e depois
sim e então
veio o da Praça Vendome e aquilo de Lênin e o montão de revoltas
e então
as damas temeram algo mais do que mão nas nádegas
e os cavalheiros puderam suspeitar
que a locomotiva a vapor já não era mais o rosto
da felicidade universal.
“Assim foi, e estou te devendo, velho estraga-festas”.
(tradução de Aníbal Cristobo e Carlito Azevedo)
:
Todavía estoy a tiempo de recordar la casa de mi tía
abuela y ese par de grabados:
Un caballero en la casa del sastre, Gran desfile militar
en Viena, 1902.
Días en que ya nada malo podía ocurrir. Todos llevaban
su pata de conejo atada a la cintura.
También mi tía abuela —veinte anos y el sombrero de
paja bajo el sol, preocupándose apenas
por mantener la boca, las piernas bien cerradas.
Eran los hombres de buena voluntad y las orejas limpias.
Sólo en el music-hall los anarquistas, locos barbados y
envueltos en bufandas.
Qué otoños, qué veranos.
Eiffel hizo una torre que decía "hasta aquí llegó el
hombre".
Otro grabado:
Virtud y amor y cela protegiendo a las buenas familias.
Y eso que el viejo Marx aún no cumplía los veinte años
de edad bajo esta yerba
—gorda y erizada, conveniente a los campos de golf.
Las coronas de flores y el cajón tuvieron tres descansos al
pie de la colina
y después fue enterrado
junto a I
la tumba de Molly Redgrove "bombardeada por
el enemigo en 1940 y vuelta a construir".
Ah el viejo Karl moliendo y derritiendo en la marmita
los diversos metales
mientras sus hijos saltaban de las torres de Spiegel a las
islas de Times
y su mujer hervía las cebollas y la cosa no iba y después
sí y entonces
vino lo de Plaza Vendome y eso de Lenin y el montón
de revueltas y entonces
las damas temieron algo más que una mano en las naIgas
y los caballeros pudieron sospechar
que la locomotora a vapor ya no era más el rostro
de la felicidad universal.
"Así fue, y estoy en deuda contigo, viejo aguafiestas:”
.
.
.
591
Dmitri Prigov

Dmitri Prigov

Diálogo n° 5

Estaline: Não há felicidade na terra!
Prigov: Não há felicidade!
Estaline: O que é que há então?
Prigov: O que é que há?
Estaline: Há Estaline!
Prigov: Há Estaline!
Estaline: E o que é Estaline?
Prigov: E o que é?
Estaline: Estaline é a nossa glória militar!
Prigov: Glória militar!
Estaline: Estaline é a maior inspiração da nossa juventude!
Prigov: A maior inspiração da juventude!
Estaline: Cantando nas batalhas e nas vitórias!
Prigov: Vitórias!
Estaline: O nosso povo segue Estaline!
Prigov: Segue Estaline.
Estaline: E o que mais é Estaline?
Prigov: E o que mais?
Estaline: Os três princípios principais.
Prigov: Os três princípios principais.
Estaline: E o que mais é Estaline?
Prigov: E o que mais?
Estaline: As cinco grandes ideias!
Prigov: As cinco grandes ideias!
Estaline: As oito grande letras!
Prigov: E como seria se deixássemos cair uma letra?
Estaline: Como seria?
Prigov: Seria Staline!
Estaline: Staline!
Prigov: E se deixássemos cair outra?
Staline: Outra?
Prigov: Seria Taline!
Taline: Taline!
Prigov: E se deixássemos cair outra?
Taline: Outra?
Prigov: Seria Aline.
Aline: Seria Aline!
Prigov: E se deixássemos cair ainda outra?
Aline: Outra?
Prigov: Seria Line.
Line: Seria Line!
Prigov: E outra?
Line: Outra?
Prigov: Seria Ine.
Ine: Ine?
Prigov: E outra?
Ine: Outra?
Prigov: Seria Ne!
Ne: Seria Ne!
Prigov: E outra?
Ne: Outra?
Prigov: Seria E!
E: Seria E!
Prigov: E outra?
(Versão do tradutor português Luís Filipe Parrado – daí o uso de Estaline quando no Brasil dizemos Stálin – a partir da tradução inglesa de J. Kates reproduzida em "In the grip of strange thoughts - Russian poetry en a new era", selecção e organização de J. Kates, Bloodaxe Books, Newcastle, 1999, pp. 261-263).
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