Poemas neste tema
Relações e Família
Heiner Müller
Tristão 1993
Ontem vi em meu filho um olhar estranho
Que durou uma notícia trágica um comercial
Eu li nos olhos do meu filho
Que já viram coisas demais a pergunta
Se o mundo ainda vale o esforço que é a vida
Pelo instante que durou uma notícia trágica
Um comercial eu fiquei em dúvida
Se desejava a ele uma vida longa
Ou por amor uma morte prematura.
:
Tristan 1993
Gestern hatte mein Kind einen fremden Blick
Eine Schreckensnachricht einen Werbespot lang
In den Augen meines Kindes las ich
Der zu viel gesehen hat die Frage
Ob die Welt die Mühe des Lebens noch aufwiegt
Einen Augenblick eine Schreckensnachricht
Einen Werbespot lang war ich im Zweifel
Soll ich ihm ein langes Leben wünschen
Oder aus Liebe einen frühen Tod
894
1
D. Dinis
Amigo, queredes vos ir?
Amigo, queredes vos ir?
Si, mia senhor, ca nom poss'al
fazer, ca seria meu mal
e vosso; por end'a partir
mi convem d'aqueste logar;
mais que gram coita d'endurar
me será, pois m'é sem vós vir!
Amigu', e de mim que será?
Bem, senhor bõa e de prez;
e pois m'eu fôr daquesta vez,
o vosso mui bem se passará;
mais morte m'é de m'alongar
de vós e ir-m'alhur morar.
Mais pois é vós ua vez ja!
Amigu', eu sem vós morrerei.
Nom o queirades esso, senhor,
mais pois u vós fôrdes, nom fôr
o que morrerá, eu serei;
mais quer'eu ant'o meu passar
ca assi do voss'aventurar,
ca eu sem vós de morrer hei!
Queredes-m', amigo, matar?
Nom, mia senhor, mais por guardar
vós, mato-mi que m'o busquei.
-Amigo, ¿queréis marcharos?
-Si, mi señora, puesto que no puedo
otra cosa hacer, ya que sería mi mal
y el vuestro; por eso debo partir
de este lugar;
¡pero que gran desdicha tendré que soportar,
ya que estaré sin veros!
-Amigo ¿qué será de mí?
-Bien, señora buena y honrada;
cuando parta esta vez,
desaparecerá vuestro bien;
pero moriré si me alejo de vos
y me voy lejos.
-Pues por cuanto para vos es así,
Amigo, yo sin vos moriré.
-No queráis eso, señora;
puesto que donde vos partáis, yo no iré,
el que morirá, seré yo mismo;
pero deseo antes mi muerte
que vuestra malaventura
puesto que yo sin vos moriré.
-¿Queréis matarme, amigo?
-No, mi señora, pero por cuidaros
me mato, puesto que me lo he buscado.
2 217
1
D. Dinis
Amigo, queredes vos ir?
Amigo, queredes vos ir?
Si, mia senhor, ca nom poss'al
fazer, ca seria meu mal
e vosso; por end'a partir
mi convem d'aqueste logar;
mais que gram coita d'endurar
me será, pois m'é sem vós vir!
Amigu', e de mim que será?
Bem, senhor bõa e de prez;
e pois m'eu fôr daquesta vez,
o vosso mui bem se passará;
mais morte m'é de m'alongar
de vós e ir-m'alhur morar.
Mais pois é vós ua vez ja!
Amigu', eu sem vós morrerei.
Nom o queirades esso, senhor,
mais pois u vós fôrdes, nom fôr
o que morrerá, eu serei;
mais quer'eu ant'o meu passar
ca assi do voss'aventurar,
ca eu sem vós de morrer hei!
Queredes-m', amigo, matar?
Nom, mia senhor, mais por guardar
vós, mato-mi que m'o busquei.
-Amigo, ¿queréis marcharos?
-Si, mi señora, puesto que no puedo
otra cosa hacer, ya que sería mi mal
y el vuestro; por eso debo partir
de este lugar;
¡pero que gran desdicha tendré que soportar,
ya que estaré sin veros!
-Amigo ¿qué será de mí?
-Bien, señora buena y honrada;
cuando parta esta vez,
desaparecerá vuestro bien;
pero moriré si me alejo de vos
y me voy lejos.
-Pues por cuanto para vos es así,
Amigo, yo sin vos moriré.
-No queráis eso, señora;
puesto que donde vos partáis, yo no iré,
el que morirá, seré yo mismo;
pero deseo antes mi muerte
que vuestra malaventura
puesto que yo sin vos moriré.
-¿Queréis matarme, amigo?
-No, mi señora, pero por cuidaros
me mato, puesto que me lo he buscado.
2 217
1
Hilda Hilst
Porque há desejo em mim
Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.
2 019
1
Violeta Parra
Amaldiçoo no alto céu
Amaldiçoo no alto céu
a estrela e seu fogaréu,
eu amaldiçoo o corcel
e a sua crina no breu,
amaldiçoo no subsolo
a pedra e seu contorno,
amaldiçoo fogo e forno,
pois minh’alma está de luto,
amaldiçoo os estatutos
do tempo e seu modorro,
quanto durará minha dor.
Amaldiçoo Pico da Bandeira
e Mata Atlântica na costa,
amaldiçoo, senhor, a estreita
como a larga faixa de terra,
também a paz e a guerra,
o franco e o caprichoso,
eu amaldiçoo o cheiroso,
pois morreram meus anseios,
amaldiçoo todo o certeiro
e o falso com o duvidoso,
quanto durará minha dor.
Amaldiçoo a primavera
com seus jardins em flor
e do outono a sua cor,
eu o amaldiçoo deveras;
a nuvem passageira,
a amaldiçoo tanto, tanto,
pois me ajuda um quebranto.
Amaldiçoo o inverno inteiro
como o verão embusteiro,
amaldiçoo profano e santo,
quanto durará minha dor.
Amaldiçoo o peito varonil
e o berço esplêndido,
amaldiçoo todo emblema,
o Olimpo e o pau-brasil,
o mico-leão e o azul anil,
o Universo e seus planetas,
a terra e as suas cavernas,
pois me descorçoa uma tristeza,
amaldiçoo mar e correnteza,
seus portos e caravelas,
quanto durará minha dor.
Amaldiçoo lua e paisagem,
as praias e os desertos,
amaldiçoo morto por morto
e os vivos, do rei ao pagem,
a ave com sua plumagem,
os amaldiçoo como artífice,
os professores e pontífices,
pois me flagela uma dor,
amaldiçoo a palavra amor
com toda a sua porquice,
quanto durará minha dor.
Amaldiçoo enfim o branco,
o preto e o amarelo,
os bispos e os ateus,
hospitais e ministérios,
os amaldiçoo chorando;
o livre e o prisioneiro,
ao manso e ao brigão
eu jogo minha maldição,
em grego e em palavrão
por culpa de um traidor,
quanto durará minha dor.
tradução de Ricardo Domeneck,
1 455
1
Florbela Espanca
Para quê?!
Tudo é vaidade neste mundo vão...
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!
Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!...
Beijos d’amor! Pra quê?!... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!
Só acredita neles quem é louca!
Beijos d’amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!...
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!
Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!...
Beijos d’amor! Pra quê?!... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!
Só acredita neles quem é louca!
Beijos d’amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!...
3 227
1
Joseph Brodsky
M.B.
Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde
para respirar o ar fresco que vinha do oceano.
O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro
e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano.
Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,
tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,
divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro
e, a julgar pelas cartas, tomaste-te aflitivamente idiota.
Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,
em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora
não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda
distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.
Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome
já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,
só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos
de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.
Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre – salvo talvez
numa fotografia - de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?
Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez
dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.
Tradução de Carlos Leite. Paisagem Com Inundação (Lisboa: Edições Cotovia, 2001).
1 322
1
Konstantínos Kaváfis
A Origem
Consumara-se o prazer ilícito.
Ergueram-se ambos do catre humilde.
À pressa se vestiram, sem falar.
Saíram separados, furtivamente;
e, ao caminhar inquietos pela rua,
como que receavam que algo neles traísse
em que espécie de amor há pouco se deitavam.
Mas quanto assim ganhou a vida do poeta!
Amanhã, depois, anos depois, serão
escritos os versos de que é esta a origem.
[1921]
Ergueram-se ambos do catre humilde.
À pressa se vestiram, sem falar.
Saíram separados, furtivamente;
e, ao caminhar inquietos pela rua,
como que receavam que algo neles traísse
em que espécie de amor há pouco se deitavam.
Mas quanto assim ganhou a vida do poeta!
Amanhã, depois, anos depois, serão
escritos os versos de que é esta a origem.
[1921]
1 842
1
Aires Teles
Meu amor tanto vos quero
Meu amor tanto vos quero,
que deseja o coração
mil cousas contra a razão.
Porque, se vos não quisesse,
como poderia ter
desejo que me viesse
do que nunca pode ser?
Mas conquanto desespero,
e em mim tanta afeição,
que deseja o coração
que deseja o coração
mil cousas contra a razão.
Porque, se vos não quisesse,
como poderia ter
desejo que me viesse
do que nunca pode ser?
Mas conquanto desespero,
e em mim tanta afeição,
que deseja o coração
3 634
1
Rui Knopfli
O ladrão de versos
Uma gargalhada do meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.
2 051
1
Paulo Colina
Fronteiras
sei das fronteiras
que a mim traçaram
desconheço contudo qualquer porta
que a noite não pede licença
que a pele é surda
e grita
sei da solidão que pudessem
os fracos
sempre a mim legariam
e paciente tocaio afetos
no momento desatento
ignorar porém quisera
que um beijo igualmente dilacera
que um beijo igualmente dói
que a mim traçaram
desconheço contudo qualquer porta
que a noite não pede licença
que a pele é surda
e grita
sei da solidão que pudessem
os fracos
sempre a mim legariam
e paciente tocaio afetos
no momento desatento
ignorar porém quisera
que um beijo igualmente dilacera
que um beijo igualmente dói
897
1
Paulo Colina
Fronteiras
sei das fronteiras
que a mim traçaram
desconheço contudo qualquer porta
que a noite não pede licença
que a pele é surda
e grita
sei da solidão que pudessem
os fracos
sempre a mim legariam
e paciente tocaio afetos
no momento desatento
ignorar porém quisera
que um beijo igualmente dilacera
que um beijo igualmente dói
que a mim traçaram
desconheço contudo qualquer porta
que a noite não pede licença
que a pele é surda
e grita
sei da solidão que pudessem
os fracos
sempre a mim legariam
e paciente tocaio afetos
no momento desatento
ignorar porém quisera
que um beijo igualmente dilacera
que um beijo igualmente dói
897
1
Wisława Szymborska
Na torre de Babel
— Que horas são? — Sim, estou feliz
e só me falta um guizo no pescoço
para enquanto tu dormes ele retinir sobre ti.
— Não ouviste então a tempestade? O vento assolou as muralhas,
a torre urrou como um leão pelo portão
a ranger nas dobradiças. — Como é que podes não te lembrar?
Eu trazia um vestido cinzento muito simples
de abotoar nos ombros. — E logo a seguir
o céu explodiu em mil clarões. — Como é que eu podia entrar
se tu não estavas sozinho! — E vi de súbito
as cores de antes de haver olhar. — É pena
que não possas perdoar-me. — Tens toda a razão,
foi um sonho de certeza. — Por que é que mentes?
Por que me tratas pelo nome dela?
Amá-la ainda? — Sim! Queria muito
que ficasses comigo. — Não estou triste,
eu devia ter adivinhado.
— Ainda pensar nele? — Não estou a chorar!
— E é tudo? — De ninguém como de ti.
— Pelo menos és sincera. — Fica tranquilo,
vou-me embora da cidade. — Fica tranquilo,
eu vou-me embora daqui. — Tens umas mãos tão bonitas.
— É uma velha história. Foi duro
mas passou sem deixar mossas. — Não tem de quê,
meu caro, não tem de quê. — Não sei
que horas são e nem quero saber.
e só me falta um guizo no pescoço
para enquanto tu dormes ele retinir sobre ti.
— Não ouviste então a tempestade? O vento assolou as muralhas,
a torre urrou como um leão pelo portão
a ranger nas dobradiças. — Como é que podes não te lembrar?
Eu trazia um vestido cinzento muito simples
de abotoar nos ombros. — E logo a seguir
o céu explodiu em mil clarões. — Como é que eu podia entrar
se tu não estavas sozinho! — E vi de súbito
as cores de antes de haver olhar. — É pena
que não possas perdoar-me. — Tens toda a razão,
foi um sonho de certeza. — Por que é que mentes?
Por que me tratas pelo nome dela?
Amá-la ainda? — Sim! Queria muito
que ficasses comigo. — Não estou triste,
eu devia ter adivinhado.
— Ainda pensar nele? — Não estou a chorar!
— E é tudo? — De ninguém como de ti.
— Pelo menos és sincera. — Fica tranquilo,
vou-me embora da cidade. — Fica tranquilo,
eu vou-me embora daqui. — Tens umas mãos tão bonitas.
— É uma velha história. Foi duro
mas passou sem deixar mossas. — Não tem de quê,
meu caro, não tem de quê. — Não sei
que horas são e nem quero saber.
1 525
1
Wisława Szymborska
Na torre de Babel
— Que horas são? — Sim, estou feliz
e só me falta um guizo no pescoço
para enquanto tu dormes ele retinir sobre ti.
— Não ouviste então a tempestade? O vento assolou as muralhas,
a torre urrou como um leão pelo portão
a ranger nas dobradiças. — Como é que podes não te lembrar?
Eu trazia um vestido cinzento muito simples
de abotoar nos ombros. — E logo a seguir
o céu explodiu em mil clarões. — Como é que eu podia entrar
se tu não estavas sozinho! — E vi de súbito
as cores de antes de haver olhar. — É pena
que não possas perdoar-me. — Tens toda a razão,
foi um sonho de certeza. — Por que é que mentes?
Por que me tratas pelo nome dela?
Amá-la ainda? — Sim! Queria muito
que ficasses comigo. — Não estou triste,
eu devia ter adivinhado.
— Ainda pensar nele? — Não estou a chorar!
— E é tudo? — De ninguém como de ti.
— Pelo menos és sincera. — Fica tranquilo,
vou-me embora da cidade. — Fica tranquilo,
eu vou-me embora daqui. — Tens umas mãos tão bonitas.
— É uma velha história. Foi duro
mas passou sem deixar mossas. — Não tem de quê,
meu caro, não tem de quê. — Não sei
que horas são e nem quero saber.
e só me falta um guizo no pescoço
para enquanto tu dormes ele retinir sobre ti.
— Não ouviste então a tempestade? O vento assolou as muralhas,
a torre urrou como um leão pelo portão
a ranger nas dobradiças. — Como é que podes não te lembrar?
Eu trazia um vestido cinzento muito simples
de abotoar nos ombros. — E logo a seguir
o céu explodiu em mil clarões. — Como é que eu podia entrar
se tu não estavas sozinho! — E vi de súbito
as cores de antes de haver olhar. — É pena
que não possas perdoar-me. — Tens toda a razão,
foi um sonho de certeza. — Por que é que mentes?
Por que me tratas pelo nome dela?
Amá-la ainda? — Sim! Queria muito
que ficasses comigo. — Não estou triste,
eu devia ter adivinhado.
— Ainda pensar nele? — Não estou a chorar!
— E é tudo? — De ninguém como de ti.
— Pelo menos és sincera. — Fica tranquilo,
vou-me embora da cidade. — Fica tranquilo,
eu vou-me embora daqui. — Tens umas mãos tão bonitas.
— É uma velha história. Foi duro
mas passou sem deixar mossas. — Não tem de quê,
meu caro, não tem de quê. — Não sei
que horas são e nem quero saber.
1 525
1
Louise Bourgeois
Cinquenta anos de idade mantida na escuridão
Cinquenta anos de idade mantida na escuridão -
resultam raiva resulta - frustração do saber
Dez anos de idade curiosidade insatisfeita -
raiva ultraje resulta raiva
marginalizada
Um ano de idade - abandonada - por que me
deixam aqui, onde eles estão
Três meses de idade - morta de fome e esquecida
Um mês de idade - medo da morte
inDestruição do Pai, Reconstrução do Pai - Escritos e Entrevistas (Cosac Naify: São Paulo, 2000)
794
1
Vasco Graça Moura
O melro de visita
o amor não é uma saga cruel:
vejo-a cuidar das plantas no jardim,
brincam as filhas com lápis e papel
e eu escrevo sossegado. é bom assim.
na relva, um melro a saltitar, vilão
pretíssimo, esfuzia à cata de algum resto,
ou de mosca azarada: passa lesto
entre duas roseiras: já é verão.
mas o melro demanda outro quintal
e do poema, sem jeito e sem disfarce,
sai do bico amarelo em diagonal
desajeitada: esvoaça sem maneiras
como um pingo de tinta a escapar-se,
de verde prateado, as oliveiras.
vejo-a cuidar das plantas no jardim,
brincam as filhas com lápis e papel
e eu escrevo sossegado. é bom assim.
na relva, um melro a saltitar, vilão
pretíssimo, esfuzia à cata de algum resto,
ou de mosca azarada: passa lesto
entre duas roseiras: já é verão.
mas o melro demanda outro quintal
e do poema, sem jeito e sem disfarce,
sai do bico amarelo em diagonal
desajeitada: esvoaça sem maneiras
como um pingo de tinta a escapar-se,
de verde prateado, as oliveiras.
3 120
1
Vasco Graça Moura
O melro de visita
o amor não é uma saga cruel:
vejo-a cuidar das plantas no jardim,
brincam as filhas com lápis e papel
e eu escrevo sossegado. é bom assim.
na relva, um melro a saltitar, vilão
pretíssimo, esfuzia à cata de algum resto,
ou de mosca azarada: passa lesto
entre duas roseiras: já é verão.
mas o melro demanda outro quintal
e do poema, sem jeito e sem disfarce,
sai do bico amarelo em diagonal
desajeitada: esvoaça sem maneiras
como um pingo de tinta a escapar-se,
de verde prateado, as oliveiras.
vejo-a cuidar das plantas no jardim,
brincam as filhas com lápis e papel
e eu escrevo sossegado. é bom assim.
na relva, um melro a saltitar, vilão
pretíssimo, esfuzia à cata de algum resto,
ou de mosca azarada: passa lesto
entre duas roseiras: já é verão.
mas o melro demanda outro quintal
e do poema, sem jeito e sem disfarce,
sai do bico amarelo em diagonal
desajeitada: esvoaça sem maneiras
como um pingo de tinta a escapar-se,
de verde prateado, as oliveiras.
3 120
1
Gonzalo Rojas
Matéria de testamento
A meu pai, como convém, de Coquimbo a Lebu, todo o mar;
a minha mãe, a rotação da Terra;
à asma de Abraham Pizarro, ainda que não me entenda,
[um trem de fumo;
a dom Héctor, o apelido May que lhe roubaram;
a Débora, sua mulher, o terceiro dia das rosas;
às minhas cinco irmãs, a ressurreição das estrelas;
a Vallejo, que não chega, a mesa posta com um só serviço;
a meu irmão Jacinto, o melhor dos concertos;
ao Torreão do Renegado, onde nunca estou, Deus;
à minha infância, esse potro vermelho;
à minha adolescência, o abismo;
a Juan Rojas, um peixe pescado no redemoinho
[com sua paciência de santo;
às borboletas, os alerces do sul;
a Hilda, l’amour fou, e ela está aí dormindo;
a Rodrigo Tomás, meu primogênito, o número áureo da coragem
[e do alumbramento;
a Concepción, um espelho quebrado;
a Gonzalo filho, o salto alto da Poesia por cima de minha cabeça;
a Catalina e Valentina, as bodas com formosura – e espero
[que me convidem;
a Valparaíso, esta lágrima;
a meu Alonso, de 12 anos, o novo automóvel
[século XXI pronto para o voo;
a Santiago do Chile, com seus cinco milhões, a mitologia que
[lhe falta;
ao ano de 73, a merda;
ao que cala, e pelo visto outorga, o Prêmio Nacional;
ao exílio, um par de sapatos sujos e uma roupa baleada;
à neve manchada com nosso sangue, outro Nüremberg;
aos desaparecidos, a grandeza de terem sido homens
[em seu suplício e terem
morrido cantando;
ao Lago Choshuenco, a copa púrpura de suas águas;
às 300 à vez, o risco;
às adivinhas, sua esbeltez;
à rua 42 da cidade de Nova York, o paraíso;
a Wall Street, um dólar e meio;
à torrencialidade destes dias, nada;
aos vizinhos, com esse cão que não me deixa dormir,
[coisa nenhuma;
aos 200 mineiros de El Orito, a quem ensinei a ler
[no abecedário de Heráclito, o encantamento;
a Apollinaire, a chave do infinito que lhe deixou Huidobro;
ao surrealismo, ele mesmo;
a Buñuel, o papel de rei que se sabia de memória;
à enumeração caótica, o fastio;
à morte, um grande crucifixo de latão.
(tradução de Fabiano Calixto, publicada originalmente no primeiro número impresso daModo de Usar & Co., novembro de 2007.)
:
MATERIA DE TESTAMENTO:A mi padre, como corresponde, de Coquimbo a Lebu, todo el mar, / a mi madre la rotación de la Tierra, / al asma de Abraham Pizarro aunque no se me entienda a un tren de humo, / a don Héctor el apellido May que robaron, / a Débora su mujer el tercero día de las rosas, / a mis 5 hermanas la resurrección de las estrellas, / a Vallejo que no llega, la mesa puesta con un solo servicio, / a mi hermano Jacinto, el mejor de los conciertos, / al Torreón del Renegado donde no estoy nunca, Dios, / a mi infancia, ese potro colorado, / a la adolescencia ,el abismo, / a Juan Rojas, un pez pescado en el remolino con su paciencia de santo, / a las mariposas los alerzales del sur, / a Hilda, l’amour fou, y ella está ahí durmiendo, / a Rodrigo Tomás mi primogénito el número áureo del coraje y el alumbramiento, / a Concepción un espejo roto, / a Gonzalo hijo el salto alto de la Poesía por encima de mi cabeza, / a Catalina y Valentina las bodas con hermosura y espero que me inviten, / a Valparaíso esa lágrima, / a mi Alonso de 12 años el nuevo automóvil siglo XXI listo para el vuelo, / a Santiago de Chile con sus 5 millones la mitología que le falta, / al año 73 la mierda, / al que calla y por lo visto otorga el Premio Nacional, / al exilio un par de zapatos sucios y un traje baleado, / a la nieve manchada con nuestra sangre otro Nüremberg, / a los desaparecidos la grandeza de haber sido hombres en el suplicio y haber muerto cantando, / al Lago Choshuenco la copa púrpura de sus aguas, / a las 300 a la vez, el riesgo, / a las adivinas, su esbeltez / a la calle 42 de New York City el paraíso, / a Wall Street un dólar cincuenta, / a la torrencialidad de estos días, nada, / a los vecinos con ese perro que no me deja dormir, ninguna cosa, / a los 200 mineros de El Orito a quienes enseñé a leer en el silabario de Heráclito, el encantamiento, / a Apollinaire la llave del infinito que le dejó Huidobro, / al surrealismo, él mismo, / a Buñuel el papel de rey que se sabía de memoria, / a la enumeración caótica el hastío, / a la Muerte un crucifijo grande de latón.
914
1
Gonzalo Rojas
Matéria de testamento
A meu pai, como convém, de Coquimbo a Lebu, todo o mar;
a minha mãe, a rotação da Terra;
à asma de Abraham Pizarro, ainda que não me entenda,
[um trem de fumo;
a dom Héctor, o apelido May que lhe roubaram;
a Débora, sua mulher, o terceiro dia das rosas;
às minhas cinco irmãs, a ressurreição das estrelas;
a Vallejo, que não chega, a mesa posta com um só serviço;
a meu irmão Jacinto, o melhor dos concertos;
ao Torreão do Renegado, onde nunca estou, Deus;
à minha infância, esse potro vermelho;
à minha adolescência, o abismo;
a Juan Rojas, um peixe pescado no redemoinho
[com sua paciência de santo;
às borboletas, os alerces do sul;
a Hilda, l’amour fou, e ela está aí dormindo;
a Rodrigo Tomás, meu primogênito, o número áureo da coragem
[e do alumbramento;
a Concepción, um espelho quebrado;
a Gonzalo filho, o salto alto da Poesia por cima de minha cabeça;
a Catalina e Valentina, as bodas com formosura – e espero
[que me convidem;
a Valparaíso, esta lágrima;
a meu Alonso, de 12 anos, o novo automóvel
[século XXI pronto para o voo;
a Santiago do Chile, com seus cinco milhões, a mitologia que
[lhe falta;
ao ano de 73, a merda;
ao que cala, e pelo visto outorga, o Prêmio Nacional;
ao exílio, um par de sapatos sujos e uma roupa baleada;
à neve manchada com nosso sangue, outro Nüremberg;
aos desaparecidos, a grandeza de terem sido homens
[em seu suplício e terem
morrido cantando;
ao Lago Choshuenco, a copa púrpura de suas águas;
às 300 à vez, o risco;
às adivinhas, sua esbeltez;
à rua 42 da cidade de Nova York, o paraíso;
a Wall Street, um dólar e meio;
à torrencialidade destes dias, nada;
aos vizinhos, com esse cão que não me deixa dormir,
[coisa nenhuma;
aos 200 mineiros de El Orito, a quem ensinei a ler
[no abecedário de Heráclito, o encantamento;
a Apollinaire, a chave do infinito que lhe deixou Huidobro;
ao surrealismo, ele mesmo;
a Buñuel, o papel de rei que se sabia de memória;
à enumeração caótica, o fastio;
à morte, um grande crucifixo de latão.
(tradução de Fabiano Calixto, publicada originalmente no primeiro número impresso daModo de Usar & Co., novembro de 2007.)
:
MATERIA DE TESTAMENTO:A mi padre, como corresponde, de Coquimbo a Lebu, todo el mar, / a mi madre la rotación de la Tierra, / al asma de Abraham Pizarro aunque no se me entienda a un tren de humo, / a don Héctor el apellido May que robaron, / a Débora su mujer el tercero día de las rosas, / a mis 5 hermanas la resurrección de las estrellas, / a Vallejo que no llega, la mesa puesta con un solo servicio, / a mi hermano Jacinto, el mejor de los conciertos, / al Torreón del Renegado donde no estoy nunca, Dios, / a mi infancia, ese potro colorado, / a la adolescencia ,el abismo, / a Juan Rojas, un pez pescado en el remolino con su paciencia de santo, / a las mariposas los alerzales del sur, / a Hilda, l’amour fou, y ella está ahí durmiendo, / a Rodrigo Tomás mi primogénito el número áureo del coraje y el alumbramiento, / a Concepción un espejo roto, / a Gonzalo hijo el salto alto de la Poesía por encima de mi cabeza, / a Catalina y Valentina las bodas con hermosura y espero que me inviten, / a Valparaíso esa lágrima, / a mi Alonso de 12 años el nuevo automóvil siglo XXI listo para el vuelo, / a Santiago de Chile con sus 5 millones la mitología que le falta, / al año 73 la mierda, / al que calla y por lo visto otorga el Premio Nacional, / al exilio un par de zapatos sucios y un traje baleado, / a la nieve manchada con nuestra sangre otro Nüremberg, / a los desaparecidos la grandeza de haber sido hombres en el suplicio y haber muerto cantando, / al Lago Choshuenco la copa púrpura de sus aguas, / a las 300 a la vez, el riesgo, / a las adivinas, su esbeltez / a la calle 42 de New York City el paraíso, / a Wall Street un dólar cincuenta, / a la torrencialidad de estos días, nada, / a los vecinos con ese perro que no me deja dormir, ninguna cosa, / a los 200 mineros de El Orito a quienes enseñé a leer en el silabario de Heráclito, el encantamiento, / a Apollinaire la llave del infinito que le dejó Huidobro, / al surrealismo, él mismo, / a Buñuel el papel de rey que se sabía de memoria, / a la enumeración caótica el hastío, / a la Muerte un crucifijo grande de latón.
914
1
Gonzalo Rojas
Matéria de testamento
A meu pai, como convém, de Coquimbo a Lebu, todo o mar;
a minha mãe, a rotação da Terra;
à asma de Abraham Pizarro, ainda que não me entenda,
[um trem de fumo;
a dom Héctor, o apelido May que lhe roubaram;
a Débora, sua mulher, o terceiro dia das rosas;
às minhas cinco irmãs, a ressurreição das estrelas;
a Vallejo, que não chega, a mesa posta com um só serviço;
a meu irmão Jacinto, o melhor dos concertos;
ao Torreão do Renegado, onde nunca estou, Deus;
à minha infância, esse potro vermelho;
à minha adolescência, o abismo;
a Juan Rojas, um peixe pescado no redemoinho
[com sua paciência de santo;
às borboletas, os alerces do sul;
a Hilda, l’amour fou, e ela está aí dormindo;
a Rodrigo Tomás, meu primogênito, o número áureo da coragem
[e do alumbramento;
a Concepción, um espelho quebrado;
a Gonzalo filho, o salto alto da Poesia por cima de minha cabeça;
a Catalina e Valentina, as bodas com formosura – e espero
[que me convidem;
a Valparaíso, esta lágrima;
a meu Alonso, de 12 anos, o novo automóvel
[século XXI pronto para o voo;
a Santiago do Chile, com seus cinco milhões, a mitologia que
[lhe falta;
ao ano de 73, a merda;
ao que cala, e pelo visto outorga, o Prêmio Nacional;
ao exílio, um par de sapatos sujos e uma roupa baleada;
à neve manchada com nosso sangue, outro Nüremberg;
aos desaparecidos, a grandeza de terem sido homens
[em seu suplício e terem
morrido cantando;
ao Lago Choshuenco, a copa púrpura de suas águas;
às 300 à vez, o risco;
às adivinhas, sua esbeltez;
à rua 42 da cidade de Nova York, o paraíso;
a Wall Street, um dólar e meio;
à torrencialidade destes dias, nada;
aos vizinhos, com esse cão que não me deixa dormir,
[coisa nenhuma;
aos 200 mineiros de El Orito, a quem ensinei a ler
[no abecedário de Heráclito, o encantamento;
a Apollinaire, a chave do infinito que lhe deixou Huidobro;
ao surrealismo, ele mesmo;
a Buñuel, o papel de rei que se sabia de memória;
à enumeração caótica, o fastio;
à morte, um grande crucifixo de latão.
(tradução de Fabiano Calixto, publicada originalmente no primeiro número impresso daModo de Usar & Co., novembro de 2007.)
:
MATERIA DE TESTAMENTO:A mi padre, como corresponde, de Coquimbo a Lebu, todo el mar, / a mi madre la rotación de la Tierra, / al asma de Abraham Pizarro aunque no se me entienda a un tren de humo, / a don Héctor el apellido May que robaron, / a Débora su mujer el tercero día de las rosas, / a mis 5 hermanas la resurrección de las estrellas, / a Vallejo que no llega, la mesa puesta con un solo servicio, / a mi hermano Jacinto, el mejor de los conciertos, / al Torreón del Renegado donde no estoy nunca, Dios, / a mi infancia, ese potro colorado, / a la adolescencia ,el abismo, / a Juan Rojas, un pez pescado en el remolino con su paciencia de santo, / a las mariposas los alerzales del sur, / a Hilda, l’amour fou, y ella está ahí durmiendo, / a Rodrigo Tomás mi primogénito el número áureo del coraje y el alumbramiento, / a Concepción un espejo roto, / a Gonzalo hijo el salto alto de la Poesía por encima de mi cabeza, / a Catalina y Valentina las bodas con hermosura y espero que me inviten, / a Valparaíso esa lágrima, / a mi Alonso de 12 años el nuevo automóvil siglo XXI listo para el vuelo, / a Santiago de Chile con sus 5 millones la mitología que le falta, / al año 73 la mierda, / al que calla y por lo visto otorga el Premio Nacional, / al exilio un par de zapatos sucios y un traje baleado, / a la nieve manchada con nuestra sangre otro Nüremberg, / a los desaparecidos la grandeza de haber sido hombres en el suplicio y haber muerto cantando, / al Lago Choshuenco la copa púrpura de sus aguas, / a las 300 a la vez, el riesgo, / a las adivinas, su esbeltez / a la calle 42 de New York City el paraíso, / a Wall Street un dólar cincuenta, / a la torrencialidad de estos días, nada, / a los vecinos con ese perro que no me deja dormir, ninguna cosa, / a los 200 mineros de El Orito a quienes enseñé a leer en el silabario de Heráclito, el encantamiento, / a Apollinaire la llave del infinito que le dejó Huidobro, / al surrealismo, él mismo, / a Buñuel el papel de rey que se sabía de memoria, / a la enumeración caótica el hastío, / a la Muerte un crucifijo grande de latón.
914
1
Teresa de Ávila
Formosura que excedeis!
Formosura que excedeis
mesmo as grandes formosuras!
Sem ferir, sofrer fazeis,
e sem sofrer desfazeis
o amor das criaturas.
Oh, laço que assim juntais
duas coisas tão díspares!
Não sei porquê vos soltais,
pois atado força dais
pra ter por bem os pesares.
Quem não tem ser vós juntais
com o Ser que não se acaba;
sem acabar acabais,
e sem ter que amar amais,
engradeceis vosso nada.
.
.
.
mesmo as grandes formosuras!
Sem ferir, sofrer fazeis,
e sem sofrer desfazeis
o amor das criaturas.
Oh, laço que assim juntais
duas coisas tão díspares!
Não sei porquê vos soltais,
pois atado força dais
pra ter por bem os pesares.
Quem não tem ser vós juntais
com o Ser que não se acaba;
sem acabar acabais,
e sem ter que amar amais,
engradeceis vosso nada.
.
.
.
3 052
1
Natália Correia
O Espírito
Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.
1 513
1
Pedro Oom
Poema
Há um ar de espanto
no teu rosto em silêncio pequenas pausas
entre nós e as palavras
que desfiamos
Quando o silêncio (pausa mais longa
que nos contrai o peito)
cai bruscamente
duas mãos agitam-se meigamente as nossas
e os mendigos, todos os mendigos
espreitam ao postigo do teu pequeno apartamento
coroados de rosas e crisântemos
É o momento
em que afirmamos a realidade das coisas
não a que vemos na rua
e que sabemos fictícia
mas a outra
aurora cintilante
que põe estrelas no teu sorriso
quando acordas de manhã
com um sol de angústia na garganta
acredita
nada nos distingue
entre a multidão anónima a que pertencemos
embora
o fotógrafo teime sempre
em nos oferecer uma esperança
- fluido imaterial que nem mil anos
poderão condensar -
O nosso rasto
mal se apercebe na areia
condenados ao fracasso
pequena glória dos pequenos heróis deste tempo
ainda aspiramos
no entanto
a ser o índice deste século
único sinal humano, florescente e salubre
de contrário
seremos apenas
um halo de vento
arco-íris de luto
ou estrada para sedentários
É ocioso
preparar a objectiva
que nos vai condenar a um número
nesta cidade onde cada homem
é escravo de uma arma
Ocioso
avivar as flores do cenário
encher de luar o jardim do nosso afecto
Só um acaso
nos poderá revelar
por isso
fechemos o rosto
meu amor
1 144
1
Jerónimo Baía
Retrato
Vi Fílis, a bela,
Lume dos meus olhos,
Olhos de minha alma,
Alma de meu corpo.
Vi-a, e logo amor.
Vi-a, e Febo logo
Quer que a pinte a cores,
Quer que a cante a coros.
Meti-me em debuxos,
E saí com tonos.
Quem me fora Apeles!
Quem me fora Apolo!
Seu rico cabelo,
Do mais precioso,
Mil troféus alcança
E logra mil louros.
Os raios enlaça,
Para mal dos olhos.
Todo ele é nós cegos,
E nós, cegos todos.
O campo da testa
Belo e belicoso,
Faz de neve fronte
A esquadrão de fogo.
Seus olhos rasgados
De avarentos noto,
Pois quanto mais ricos
Tanto estão mais rotos.
São mar de beleza
Que me tem absorto,
E suas meninas
São os seus cachopos.
Dormidos se mostram,
Mas sabem (que assombro!)
Mais eles dormidos
Que espertos os outros.
Altamente dormem,
Mas entre os seus sonhos,
Mais que de dormidos,
Roncam de formosos.
Feito de apanhia,
Mistura o seu rosto
Com o branco o tinto,
De neve entre copos.
O nariz e as faces
Têm câmbio cheiroso:
Elas flores dão,
Ele dá Favónios.
A boca parece,
Se mal a não apodo,
Pela cor, ferida,
Pelo breve, ponto.
De seus dentes, quando
Descobre o tesouro,
O aljôfar se mete
Nas conchas medroso.
Por ser tão tenrinho,
Tão de leite todo,
Seu colo podia
Andar inda ao colo.
É tão rica jóia,
Brinco tão formoso,
Que todos os dias
O traz ao pescoço.
Põe a mão galharda,
Por quem vivo e morro,
O papel de tinta,
A neve de lodo.
Tudo nela é branco;
Porém eu me assombro
De topar as setas
Onde o alvo topo.
São seus pés tão breves,
Que estes versos toscos
Com ser tão pequenos,
Lhe ficam mui longos.
Lume dos meus olhos,
Olhos de minha alma,
Alma de meu corpo.
Vi-a, e logo amor.
Vi-a, e Febo logo
Quer que a pinte a cores,
Quer que a cante a coros.
Meti-me em debuxos,
E saí com tonos.
Quem me fora Apeles!
Quem me fora Apolo!
Seu rico cabelo,
Do mais precioso,
Mil troféus alcança
E logra mil louros.
Os raios enlaça,
Para mal dos olhos.
Todo ele é nós cegos,
E nós, cegos todos.
O campo da testa
Belo e belicoso,
Faz de neve fronte
A esquadrão de fogo.
Seus olhos rasgados
De avarentos noto,
Pois quanto mais ricos
Tanto estão mais rotos.
São mar de beleza
Que me tem absorto,
E suas meninas
São os seus cachopos.
Dormidos se mostram,
Mas sabem (que assombro!)
Mais eles dormidos
Que espertos os outros.
Altamente dormem,
Mas entre os seus sonhos,
Mais que de dormidos,
Roncam de formosos.
Feito de apanhia,
Mistura o seu rosto
Com o branco o tinto,
De neve entre copos.
O nariz e as faces
Têm câmbio cheiroso:
Elas flores dão,
Ele dá Favónios.
A boca parece,
Se mal a não apodo,
Pela cor, ferida,
Pelo breve, ponto.
De seus dentes, quando
Descobre o tesouro,
O aljôfar se mete
Nas conchas medroso.
Por ser tão tenrinho,
Tão de leite todo,
Seu colo podia
Andar inda ao colo.
É tão rica jóia,
Brinco tão formoso,
Que todos os dias
O traz ao pescoço.
Põe a mão galharda,
Por quem vivo e morro,
O papel de tinta,
A neve de lodo.
Tudo nela é branco;
Porém eu me assombro
De topar as setas
Onde o alvo topo.
São seus pés tão breves,
Que estes versos toscos
Com ser tão pequenos,
Lhe ficam mui longos.
1 526
1