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Poemas neste tema

Vida e Existência

Ricardo Gonçalves

Ricardo Gonçalves

A Cisma do Caboclo

A Valdomiro Silveira


Cisma o cabloco à porta da cabana.
Declina o sol, mas, rúbido, espadana
Ondas fulvas de luz.
No terreiro, entre espigas debulhadas,
Arrulham, perseguindo-se a bicadas,
Dois casais de pombinhos parirús.

A criação de penas se empoleira;
Come a ração no cocho da mangueira
Um velho pangaré.
E uma vaca leiteira e bois de carro
Pastam junto à casinha, que é de barro,
Coberta de sapé.

Longe, uma tropa trota pela estrada.
E a viração das matas, impregnada
De perfumes sutis,
Traz dos grotões, que a sombra, lenta, invade
O soturno queixume de saudade
Das pombas juritis.

Cisma o cabloco. Pensa na morena
Que vira numa noite de novena
Orando ao pé do altar.
Que vira... e que, por mal de seus pecados,
Tinha os olhos profundos e rasgados
E um riso de matar.

Branco, de fofos, era o seu vestido.
E ele, ao vê-la, sentindo-se ferido
Em pleno coração,
Baixinho suspirou: "Nossa Senhora!
Ai, meu São Bom Jesus de Pirapora
Da minha devoção!"

Depois não se conteve e, num fandango
Furtou-lhe um beijo aos lábios de morango
O diabo do rapaz.
E ela volveu zangada: "Malcriado!
Seu vigário já disse que é pecado.
Aquilo não se faz!..."

E o caboclo medita. O sol em chama
Como agora há pouquinho não derrama
Ondas fulvas de luz.
O corrego soluça, a noite desce,
E vem dos capoeirões onde anoitece
O trilo vesperal dos inambús.


In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
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Marcelo Gama

Marcelo Gama

Feia

Feia!... Como isso dói na tua alminha débil!
É nobre a coitadita, e muito a contraria
ser forçada a morar numa tal moradia...
Eis aí porque a vejo amargurada e flébil.

E é por seres assim que eu te quero assim tanto,
com este amor tão limpo e tão sem egoísmo,
pois logo a sujaria o meu sensualismo,
se animasse essa carne algum sopro de encanto.

Toda vez que me vem de tua alma perfeita
esse ar de doçura e pesar sossegado,
evocas-me o sabor que já tenho encontrado
em certos frutos sãos, mas de casca suspeita.

Água fresca bebida à beira de uma fonte,
em mau copo de folha, enferrujado e gasto...
Como deve bater penosamente casto,
sob o teu peito murcho, o coração insonte!

Borboleta que sai de um casulo rugoso...
teu sorriso não traz convites para o beijo:
antes pede perdão... manifesta o desejo
de que não se repare em teu corpo anguloso.

Sei que um dia choraste, assistindo a uma boda,
porque viste alguém rir do teu porte mesquinho.
Já chegaste a dizer, encontrando um ceguinho:
— Que bom se fosse cega a humanidade toda!

Entristeceste ao ver, numa revista de arte,
um "tipo de beleza"... E terias a palma
se fosse dado a alguém fotografar tua alma...
— não havia mulher tão linda em toda parte.

Dói-te se ouves falar, quando estás numa roda,
na formosura desta ou daquela mulher.
Vês em cada semblante um motejo qualquer...
e descreste, por fim, dos recursos da moda.

Imagino que horror deves ter aos espelhos!
E a crueldade da água em que lavas o rosto
há de forçosamente encher-te de desgosto,
repetindo que és feia e dando-te conselhos:

— Que não tenhas vaidade e não sejas faceira...
Parece-me que a ti um tal conselho é inútil,
pois tua alma sadia, abençoada e dúctil,
é uma flor que nasceu dentro de uma caveira.


Publicado no livro Via Sacra (1902).

In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.47-4
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Juó Bananére

Juó Bananére

O prugressu di Zan Baolo - Tuttos lugaro tenia só

O prugressu di Zan Baolo – Tuttos lugaro tenia só

matta virginia(1) – També d'abax'o a ponte do

viadutto – Io co Garonello arubamus

galligna lá muitas veíz

Altros appuntamenti.

Lustrissimu Ridattore
du "Pirralho"


Io té visto molto prugressu inda a mia vita che io tegno, sessantré annos, ma come questo prugressu di Zan Baolo só indo o prospero distritto do Abax'o Pigues mi té(2) visto uguali.

S’immagine che a genti vá pigá un girio disposa du jantáro e quano xiga inda a rua da Gonçolaçó tenía lá un tirreno tutto xiigno co gapino. Intó a genti vai ali p’ra dianti invisitá uno amighe e quano giá vurtó, spia p'ro tirreno, ma che!! non té(3) maise tírreno(4) nisciuno, ma inveiz stá flizida lá una bunita casa maise bunita da casa do Capitó.

Eh! mamma mia! si non fosse os intaliano, che speranza! non tenia né una casa chique come quella che fiz agora o Garonello inzima a rua Martigno Francesco.

També si non fosse os intalianos non tenia né u larghe du Arrusá, né o Bó Retiro, né as cumpania di operette do Vitale(5) e né o Bertini(6) che també é u migliore ingraziato di tutto o mondo interinho.

També o "garadura" furo os intalianos che indiscobriro.

Eh! ma si pensa che Zan Baolo furo tutta vita come oggi? Stó moltos inganatus si signore!

Primiere, quano minho avó xigá qui inzima o Brasile só tenia a ladere do Abax'o Pigues, o larghe du Arrusá e u barro da Liberdá.

A Villa Buarca, a Barafunda, o Bó Retiro stavo tutto coperto c'oa mattavirgia. També a Luiz e també a Bixiga.

D'Abx’o a ponte do viadutto(7) era tutto gapino e tenia moltos passarigno che io iva tuttos dí di magná cidigno matá co stilingo. També tenia lá a casa du Bargionase dove io co Garonello che in quello tempio era piqueno come o Alengaro, tuttos dí ia cum elli arrubá galligna.

Disposa io co Garonello ia vedê s'inforcá us negro ingoppa a pracia a Republiga che u Garonello tenia molta paura, perché una veiz una molhere veglia che si diceva feticera falló p'ra elli che també elli tenia da murrê inforcado.

Povero Garonello! xuró piore du leitó assado.

(Palpito p'ra manhá: porco).

També u Morse in quello tempio giá tenia inventadu u teligrame senza fili.

Oggi inveiz nó, pur causa che faiz u palpito do bixo inzima u giurná do Gartola.

Evviva u Gartola!

Evvivôôô.....

Con tutto o a stima dua cumideraçó, il suo griato

Rigumendaçós p'rá famiglia


Publicada no jornal O Pirralho, 20 abr. 1912, p. 13.

BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 83-85. Tese de Doutorado. UNESP.

NOTAS:
(1) Pronúnc.: virgínia. (2) P. te. (3) P. nouté. (4) P. Tirreno, nisciuno. (5) Ettore Vitale, diretor da Companhia Italiana Ettore Vitale, de óperas bufas e operetas (MENEZES, 1969, p. 18). (6) Diretor da companhia de teatro que levava o seu nome. (7) Viaduto do Chá.
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Juó Bananére

Juó Bananére

O prugressu di Zan Baolo - Tuttos lugaro tenia só

O prugressu di Zan Baolo – Tuttos lugaro tenia só

matta virginia(1) – També d'abax'o a ponte do

viadutto – Io co Garonello arubamus

galligna lá muitas veíz

Altros appuntamenti.

Lustrissimu Ridattore
du "Pirralho"


Io té visto molto prugressu inda a mia vita che io tegno, sessantré annos, ma come questo prugressu di Zan Baolo só indo o prospero distritto do Abax'o Pigues mi té(2) visto uguali.

S’immagine che a genti vá pigá un girio disposa du jantáro e quano xiga inda a rua da Gonçolaçó tenía lá un tirreno tutto xiigno co gapino. Intó a genti vai ali p’ra dianti invisitá uno amighe e quano giá vurtó, spia p'ro tirreno, ma che!! non té(3) maise tírreno(4) nisciuno, ma inveiz stá flizida lá una bunita casa maise bunita da casa do Capitó.

Eh! mamma mia! si non fosse os intaliano, che speranza! non tenia né una casa chique come quella che fiz agora o Garonello inzima a rua Martigno Francesco.

També si non fosse os intalianos non tenia né u larghe du Arrusá, né o Bó Retiro, né as cumpania di operette do Vitale(5) e né o Bertini(6) che també é u migliore ingraziato di tutto o mondo interinho.

També o "garadura" furo os intalianos che indiscobriro.

Eh! ma si pensa che Zan Baolo furo tutta vita come oggi? Stó moltos inganatus si signore!

Primiere, quano minho avó xigá qui inzima o Brasile só tenia a ladere do Abax'o Pigues, o larghe du Arrusá e u barro da Liberdá.

A Villa Buarca, a Barafunda, o Bó Retiro stavo tutto coperto c'oa mattavirgia. També a Luiz e també a Bixiga.

D'Abx’o a ponte do viadutto(7) era tutto gapino e tenia moltos passarigno che io iva tuttos dí di magná cidigno matá co stilingo. També tenia lá a casa du Bargionase dove io co Garonello che in quello tempio era piqueno come o Alengaro, tuttos dí ia cum elli arrubá galligna.

Disposa io co Garonello ia vedê s'inforcá us negro ingoppa a pracia a Republiga che u Garonello tenia molta paura, perché una veiz una molhere veglia che si diceva feticera falló p'ra elli che també elli tenia da murrê inforcado.

Povero Garonello! xuró piore du leitó assado.

(Palpito p'ra manhá: porco).

També u Morse in quello tempio giá tenia inventadu u teligrame senza fili.

Oggi inveiz nó, pur causa che faiz u palpito do bixo inzima u giurná do Gartola.

Evviva u Gartola!

Evvivôôô.....

Con tutto o a stima dua cumideraçó, il suo griato

Rigumendaçós p'rá famiglia


Publicada no jornal O Pirralho, 20 abr. 1912, p. 13.

BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 83-85. Tese de Doutorado. UNESP.

NOTAS:
(1) Pronúnc.: virgínia. (2) P. te. (3) P. nouté. (4) P. Tirreno, nisciuno. (5) Ettore Vitale, diretor da Companhia Italiana Ettore Vitale, de óperas bufas e operetas (MENEZES, 1969, p. 18). (6) Diretor da companhia de teatro que levava o seu nome. (7) Viaduto do Chá.
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Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo

A Sé do Rio de Janeiro

Positivamente não contáveis com um passeio à Sé do Rio de Janeiro.

Quando nos ocupamos do Palácio Imperial, visitastes e estudastes comigo a igreja do antigo Convento do Carmo, elevada a catedral desta cidade por alvará de 15 de junho de 1808, c, sem dúvida, vos supusestes por isso livres de um novo passeio exclusivamente destinado à Sé.

Acrescentai mais unia suave ilusão ao número das vossas ilusões perdidas. Armai-vos de paciência, porque eu resolvi dar na Sé com todos os meus companheiros de passeio, e temos muito que andar.

Aqui não há apelação nem agravo. Sou senhor absoluto nos meus passeios. Há tantos subdelegados que governam como reizinhos absolutos na sua terra, que não deve admirar que eu me faça ditador na minha obra. Aqueles bichos não são melhores do que eu.

Preparai-vos, já disse. Não julgueis que o passeio à Sé vai ser feito muito cômoda e agradavelmente, seguindo pela Rua do Ouvidor, parando diante da Notre Dame de Paris para admirar as sedas expostas, comprando coronéis no Desmarais, e ao chegar a Rua Direita, descansando um pouco nos banquinhos do boulevard Carceller, e entrando enfim na Capela Imperial para ouvir o cantochão dos cônegos, que realmente desafinam muito, porém, não tão desastradamente para o Tesouro Nacional como as companhias líricas italianas, que têm a sua Sé no Provisório, abismo permanente do dinheiro público.

Desenganem-se e aprontem-se. Temos que acompanhar a Sé e o competente cabido, que fizeram mais mudanças do que os franciscanos e os carmelitas, ou tantas como os inquilinos que deixam de pagar aos proprietários o aluguel das casas em que moram.

Comecemos.

A catedral do Rio de Janeiro e o corpo capitular estabeleceram-se apenas, se realizou a sua instituição na primeira matriz da cidade, tia igreja dedicada ao mártir S. Sebastião.

Mas onde era essa Igreja de S. Sebastião?

É impossível prosseguir no nosso passeio sem deixar esclarecido este ponto.

Cumpre contar em quatro palavras uma longa história.

Os franceses são tidos na conta de homens de tanto espírito como bom gosto, e eu creio que eles merecem, desde o meado do século décimo sexto, esta reputação, porque, enquanto os portugueses, descobridores do Brasil, depois de mais de vinte anos de empenhos de colonização dos seus domínios da América, deixavam deserta e desestimada a magnífica Niterói, namoraram-se da formosa cabocla tão perdidamente os franceses, que um belo dia ousaram com mão armada apoderar-se dela.

Os portugueses trocaram então, a indiferença por amor, e ciumentos daqueles intrusos apaixonados, vieram, no fim de cinco anos, em 1560, atacar o estrangeiro que dominava no Rio de Janeiro. Mem de Sá, o terceiro governador geral do Brasil, foi quem dirigiu a empresa e, ficou vencedor, mas chegou, viu, venceu, e... foi-se, e apenas foi-se, tornaram os franceses vencidos, porém não convencidos, a ocupar as suas posições.

Realmente fora um muito gastar de pólvora sem proveito algum. Mem de Sá regalou-se de dar pancada, e não colheu resultados reais. Deu pancada de cego. Pôs os intrusos fora de casa, mas logo retirou-se, deixando a casa sem moradores e com a porta aberta.

E que porta! – A barra do Rio de Janeiro.

Os franceses tornaram a entrar, e fizeram multo bem.

Portugal devia ter mandado um bom presente ao rei de França, que não soube ou não pôde acudir com reforços poderosos aos poucos vassalos seus que estavam sonhando com a França Antártica no Rio de Janeiro.

Mas, abandonados pelo seu governo, os franceses, no fim de outros cinco anos, viram chegar à formosa baía de Niterói Estácio de Sá, sobrinho do governador geral do Brasil, à frente de uma coluna de portugueses, para lançá-los fora das posições que ocupavam.

Os franceses eram poucos. Tinham, porém, a seu favor o concurso valioso dos tamoios, que os estimavam.

Estácio de Sá reconheceu que a expulsão dos franceses do Rio de Janeiro não era questão de pouco mais ou menos, e como trazia a incumbência gloriosa de fundar uma cidade que dominasse a majestosa baía, desembarcou junto do Pão de Açúcar, e na bela praia, que durante algum tempo se denominou de Martim Afonso e depois ficou sendo chamada Praia Vermelha, lançou, no ano de 1565, os fundamentos de uma cidade a que deu o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Convém saber, pelo sim pelo não, que o nome da cidade foi mais aconselhado pela devoção a um grande senhor da terra do que pela que era devida àquele santo mártir do céu. Estácio de Sá, neste caso, fez de S. Sebastião um pau de cabeleira para render seus cultos ao rei de Portugal D. Sebastião. Foi um dom escondido atrás de um santo.

Não me chamem má língua. Brito Freire foi quem me revelou o segredo dessa mistificação de que foi vítima o santo, porque escreveu no livro 1, § 78 da sua Guerra Brasílica, que "chamaram (a cidade) de S. Sebastião, vinculando a lisonja de el-rei, que era do mesmo nome daquele tempo, à devoção do santo".

E o mais é que a lisonja sabe a açúcar mesmo ao paladar dos santos. S. Sebastião tanto gostou da lembrança de Estácio de Sá, que chegou a descer do céu, como em breve terei ocasião de dizer, e pôs em debandada os franceses e tamoios, que teimavam em resistir.

Continuemos, porém, a história. Lançados os fundamentos da cidade, isto é, resolvida a sua fundação na praia de Martim Afonso, levantou-se uma igreja a S. Sebastião. Foi um templo edificado em poucos dias, e não passou de uma casa de pau-a-pique com o seu teto coberto de palha.

Não tenhais pena de S. Sebastião pela rudeza e humildade da sua primeira igreja entre nós. Eu creio que nessa casa de palha ele foi mais sincera e piedosamente adorado do que o são atualmente todos os santos e santas em seus ricos templos e com as suas brilhantíssimas festas, anunciadas pelas gazetas a modo de espetáculos de teatros, com a declaração do mestre que vai reger a música, das moças bonitas que vão cantar os solos, e não sei mesmo se do fogueteiro que fabricou as girândolas.

Quase dois anos correram em que Estácio de Sá, com os portugueses na praia de Martim Afonso, e os franceses nos pontos que ocupavam, levaram a trocar balas e seus índios a trocar flechas com verdadeira inutilidade, até que a 19 de janeiro de 1567, chegou o governador geral Mem, de Sá em socorro do sobrinho, e como o dia seguinte, 20 de janeiro, fosse consagrado a S. Sebastião, aproveitou a coincidência para atacar os franceses, e o fez com tanto ardor, que completamente os derrotou, tomando-lhes todas as suas fortificações e destruindo todas as suas esperanças de França Antártica.

Renhida e terrível foi a peleja. A vitória, porém, não podia deixar de declarar-se pelos portugueses, porque do lado contrário batalhavam os sectários de Calvino e nas colunas de Mem de Sá verdadeiros católicos, entre os quais combatia, segundo a voz da tradição, o próprio santo mártir S. Sebastião.

Declaro que neste ponto não invento um romance de mau gosto, nem repito história que me fosse contada pelo meu amigo o padre velho. Apenas e simplesmente retiro uma tradição conservada por alguns autores.

Brito Freire diz relativamente a S. Sebastião as seguintes palavras: "a quem os portugueses aclamaram padroeiro em esta guerra, porque em algumas ocasiões mais apertadas (referem às relações manuscritas do venerável padre José de Anchieta) que a favor dos nossos se vira pelejar contra os inimigos".

Rocha Pita, ainda mais positivo, tratando da fundação da cidade do Rio de Janeiro, escreve o seguinte: "deu-se-lhe o nome de S. Sebastião, a cujo patrocínio atribuíram todos aquela vitória, em que houve indícios certos (como é tradição constante) que fora nela capitão, sendo por mu
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Olavo Bilac

Olavo Bilac

O Rio Convalesce

Não há interesse mais vivo, não há atenção mais ansiosa, do que o interesse e a atenção com que, depois de uma longa enfermidade gravíssima, as pessoas que amam o enfermo espiam na sua face, no seu olhar, nas suas maneiras, o lento progredir da convalescença. É a ressurreição...

No organismo, que a morte gulosa andou rondando, como uma fera ronda uma presa cobiçada, a vida reponta aos poucos, num brando anseio de maré que sobe; nos olhos, em que já tinham começado a crescer as névoas do aniquilamento, acorda vagamente a luz da saúde; o sangue começa a transparecer na face, ainda pálida — como uma nuvem cor-de-rosa sob a água límpida de um rio; todo o corpo desperta do torpor prolongado; a voz principia a calor e animação; o sorriso reaparece à flor da adquirir boca; o apetite renasce...

Mas as pessoas amigas, que ansiosamente acompanham esse moroso ressurgimento do enfermo, ainda têm desconfiança e susto. Não venha uma recaída estragar todo esse esforço do organismo! não seja essa melhora uma cilada da Morte insidiosa, que, às vezes, gosta de brincar com a sua presa, antes de a tragar, como um gato cruelmente se diverte com o ratinho prisioneiro, fingindo soltá-lo, fingindo distraí-lo, dando-lhe segundos de enganadora esperança, antes de lhe arrancar o último anseio de vida com uma dentada misericordiosa! E esse receio é um sobressalto constante, uma contínua preocupação...

Não de outro modo, os cariocas (os verdadeiros, os legítimos — porque há muitos cariocas que só se preocupam com a beleza e a saúde de... Paris) acompanham, atentamente, interessadamente, carinhosamente, e assustadamente, a convalescença do Rio de Janeiro — pobre e bela cidade, que quase morreu de lazeira, e, por um milagre mil vezes bendito, foi arrancada às garras da morte.

Os médicos ainda se não despediram. A moléstia foi longa e séria — e o tratamento também há de ser sério e longo. Mas a cura parece, agora, infalível. A cidade engorda, ganha cores, faz-se mais bela de dia em dia. E, a cada novo sinal de saúde, a cada novo progresso da beleza, a cada novo sintoma de renascimento que lhe notam — os seus amigos exultam, e sentem a alma alagada de uma ventura infinita...

Agora, o que está particularmente interessando os cariocas é a rapidez maravilhosa com que se vai erguendo o majestoso pavilhão São Luís, no fim da Avenida.

A qualquer hora do dia ou da noite, quando por ali passa um bonde, há dentro dele um rebuliço. Interrompe-se a leitura dos jornais, suspendem-se as conversas, e todos os olhares se fixam na formosa construção, que está pouco a pouco subindo, esplêndida e altiva, da casca dos andaimes, já revelando a suprema beleza em que daqui a pouco pompeará.

As velhas casas de em torno ruem demolidas. Rasga-se ali, no coração da cidade, um imenso espaço livre, para que mais formoso avulte o palácio. No alto das cúpulas imponentes, agitam-se os operários como formigas, completando a toilette do monumento. E a cidade não pensa em outra cousa. Ficará pronto ou não, em julho, o palácio? Ferve a discussão, chocam-se as opiniões, fazem-se as apostas — porque o carioca é um homem que nada faz sem aposta e sem jogo.

Sim! o Pavilhão ficará pronto! será dignamente hospedada a Conferência Pan-Americana, e aqueles que, por birra ou vício, apostaram pela não-conclusão do trabalho, hão de perder o seu dinheiro e ficar corridos de vergonha... E, por felicidade, não é apenas materialmente que a cidade convalesce: é moralmente também. A população naturalmente vai perdendo certos hábitos e certos vícios, cuja abolição parecia difícil, se não impossível.

Verdade é que, para outros vícios, é ainda necessária a intervenção da autoridade, com o argumento sempre poderoso e decisivo da multa... Mas, voluntária ou obrigada, espontânea ou forçada, o essencial é que a reforma dos costumes se opere.

Ainda ontem, a prefeitura publicou um edital, proibindo, sob pena de multa, "a exposição de roupas, e outros objetos de uso doméstico, nas portas, janelas e mais dependências das habitações que tenham face na via pública...".

Era esse, e ainda é, um dos mais feios hábitos do Rio de Janeiro...

Já não falo das casas humildes, nos bairros modestos da cidade. Que há de fazer a gente pobre, que mora em casinhas sem quintal, senão fazer da rua lavadouro, e das janelas coradouro da sua minguada roupa? Não falo das míseras vestes que, nas estalagens dos subúrbios, aparecem aos olhos de quem passa, estendidas em cordas, ou desdobradas no chão, lembrando os farrapos de Jó, de que fala Raimundo Correia, "[ ...]Voando — desfraldadas/ Bandeiras da miséria imensa e triunfante...".

Não! muita cousa deve ser permitida aos pobres, para quem a pobreza já é uma lei pesada demais...

O que se não compreende é que essa exibição de roupas de uso íntimo seja feita em palacetes nobres, de bairros elegantes. De manhã, ainda é comum ver, em casas ricas, essa exposição impudica e ridícula. Na janela desta casa, vê-se um alvo roupão de banho, sacudido ao vento matinal; e a casa parece estar dizendo, com orgulho: "Vejam bem! aqui mora gente asseada, que se lava todos os dias!...". Mais adiante, vêem-se saias de fino linho bordado, ricas anáguas de seda; e a casa proclama, pela boca escancarada da janela: "Reparem! aqui moram senhoras de bom gosto, que usam lençarias de luxo!...". Que cousa abominável! A casa de família deve ser um santuário: não se compreende que se transformem as janelas da sua fachada em vidraçarias de exposição permanente, para alarde gabola do que a vida doméstica tem de mais recatado e melindroso...

Não seria também possível, ó cidade bem-amada! que, em muitas das tuas casas dos bairros centrais, pudéssemos deixar de ver tanta gente em mangas de camisa?

Já sei que o calor explica tudo... Mas, santo Deus! se é só para se ver livre do calor, e não por economia ou pobreza, que essa gente quer viver à frescata, por que não adotar o uso de um leve jaleco de brim, ou de uma leve blusa de linho? A frescura do trajo não é incompatível com a compostura! e não há de ser o uso de um tênue paletó de fazenda rala que há de assar em vida essa gente tão calorenta!

Mas, vamos devagar! Roma não se fez em um só dia. Os convalescentes querem ser tratados com tino e prudência. Depois de uma longa dieta, os primeiros dias têm de ser de uma alimentação moderada e sóbria. Não vá a cidade morrer de pletora, quando escapou de morrer de anemia. Já que evitamos a inanição, não provoquemos a indigestão.

Tudo virá com o tempo, e a tempo.

O progresso já é grande, e será cada vez maior. Que é que não é lícito esperar a quem já viu o que era o Rio há cinco anos e vê o que ele é hoje?


Publicada no jornal Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 20 maio 1906.

BILAC, Olavo. Vossa insolência: crônicas. Organização e introdução de Antonio Dimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 268-274
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