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Pedro Nava

Pedro Nava

Reflexos

Poça

Pedra

Tibloung
blong

A água espelho rachado
salpica pingos que
são pedras
preciosas
que são vidro
são aço
são água

Pingo
pingou
a floculação de bolhas subiu
a superfície espelho estalou
bolas
borbulhando

CONCÊNTRICOS

anel
os anéis
mais anéis
amassando alongando

uma paisagem que se desloca
centrífuga
tremida
sa-cu-di-da

Brilhos
prata
coriscos
riscos
prismas

Telhados moles aplastam-se misturando-se
às janelas molambos em
oscilações tombos
b a m b o s
rolando
no reflexo imprevisto

Onda
margem
schlapp
plap
plaff

O círculo
abre
afasta-se
fecha
vai
vem
com preguiça
mo - le - men - te

Os telhados bêbados
tentaculisam cumieiras
as chaminés
virguladas
são serpentes
que se imobilizam
devagar
devagar

O polvo de ouro recolhe os braços
desemaranha-os
e como uma pasta
resume-se
bola
SOL

Janelas

parando

parando

paradas

pregadas

no espelho achatado das águas pesadas.


In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP

NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em sua primeira carta a Pedro Nava, datada de 9 mar. 1925: "Reflexos também é bom. Me lembra Ravel, Debussy. Alguns efeitos são realmente admiráveis. Aquele 'Onda-margem-schlapp-plap-plaff' é perfeito. Olhe: schlapp em alemão é: eu bamboleio. Acho bom você modificar a grafia, aliás injustificável no 'ch' quando temos um sinal puro para grafá-lo, o x. Bote xlapp, ou sxclapp. Tome também cuidado com certos exageros de síntese. Eu por mim confesso que já vou perdendo o entusiasmo que tive por essas tentativas
2 007 2
Stéphane Mallarmé

Stéphane Mallarmé

BRINDE FÚNEBRE

Ó tu, fatal emblema de nossa alegria!

Saudação à demência e libação sombria,
Não creias que a fé mágica no corredor
Ergo a taça vazia com um monstro de ouro e dor!
Tua aparição não me será suficiente:
Pois em local de porfírio te pus jacente.
Pelo rito, que a tocha seja apagada
Contra o ferro espesso das portas de entrada
Da tumba - sabe-se, eleito à discreta
Celebração pela ausência do poeta,
Que o belo monumento o encerra inteiramente.
É apenas o ofício de glória ardente,
Até a hora das cinzas, a comum e vil,
No vitral em que clara, alta noite caiu,
Que retorna às flamas do puro sol mortal!
Magnífico, inteiro e solitário, tal
Treme o falso orgulho humano em assomos.
A multidão feroz anuncia: Nós somos
A triste opacidade de espectros futuros.
Mas, o brasão dos lutos nos inúteis muros,
O lúcido horror de uma lágrima esqueço
Quando, ao sagrado verso, surdo e avesso,
Um passante, hóspede de mortalha vazia,
Soberbo e cego e mudo eis se convertia
Em um virgem herói de póstuma espera.
Vendaval de palavras que ele não dissera
À densa bruma traz o vórtex desmedido,
O nada para este Homem ontem abolido:
"Lembranças de horizontes, dize, a Terra é o quê?"
Urra o sonho; e, voz cuja luz não se vê,
-"Não sei!" - é o grito com que brincam os espaços.
O Mestre, com um olho agudo, em seus passos,
Apaziguou do éden a surpresa inquieta
Cujo tremor final, em sua só voz, inquieta
Para a Rosa e o Lis o mistério de um nome.
Deste destino nada resta, tudo some?
Esquecei, todos vós, uma crença tão turva.
O esplêndido, eterno gênio, nada o turva.
Eu, a vosso desejo atento, quero ver,
A quem desmaia, ontem, no ideal dever
Pelos jardins deste astro assim a nós imposto,
Sobreviver em honra do desastre posto
Solene agitação de palavras pelo ar,
Ébria púrpura e claro cálice invulgar,
Que o diáfano olhar, chuva e diamante,
Preso a essas flores de viço constante,
Isola entre a hora e o brilho do dia!
É de nossos veros jardins toda a estadia,
Onde o poeta puro tem o gesto largo
De atar o sonho, inimigo do encargo:
Para que na manhã do repouso leal,
Quando, para Gautier, a morte imemorial
É os olhos sagrados fechar, e calar,
Surja, da alameda ornamento ancilar,
Sólida tumba onde jaz o que arrefeça,
E o avaro silêncio e a noite espessa.


5 009 2
Stéphane Mallarmé

Stéphane Mallarmé

BRINDE FÚNEBRE

Ó tu, fatal emblema de nossa alegria!

Saudação à demência e libação sombria,
Não creias que a fé mágica no corredor
Ergo a taça vazia com um monstro de ouro e dor!
Tua aparição não me será suficiente:
Pois em local de porfírio te pus jacente.
Pelo rito, que a tocha seja apagada
Contra o ferro espesso das portas de entrada
Da tumba - sabe-se, eleito à discreta
Celebração pela ausência do poeta,
Que o belo monumento o encerra inteiramente.
É apenas o ofício de glória ardente,
Até a hora das cinzas, a comum e vil,
No vitral em que clara, alta noite caiu,
Que retorna às flamas do puro sol mortal!
Magnífico, inteiro e solitário, tal
Treme o falso orgulho humano em assomos.
A multidão feroz anuncia: Nós somos
A triste opacidade de espectros futuros.
Mas, o brasão dos lutos nos inúteis muros,
O lúcido horror de uma lágrima esqueço
Quando, ao sagrado verso, surdo e avesso,
Um passante, hóspede de mortalha vazia,
Soberbo e cego e mudo eis se convertia
Em um virgem herói de póstuma espera.
Vendaval de palavras que ele não dissera
À densa bruma traz o vórtex desmedido,
O nada para este Homem ontem abolido:
"Lembranças de horizontes, dize, a Terra é o quê?"
Urra o sonho; e, voz cuja luz não se vê,
-"Não sei!" - é o grito com que brincam os espaços.
O Mestre, com um olho agudo, em seus passos,
Apaziguou do éden a surpresa inquieta
Cujo tremor final, em sua só voz, inquieta
Para a Rosa e o Lis o mistério de um nome.
Deste destino nada resta, tudo some?
Esquecei, todos vós, uma crença tão turva.
O esplêndido, eterno gênio, nada o turva.
Eu, a vosso desejo atento, quero ver,
A quem desmaia, ontem, no ideal dever
Pelos jardins deste astro assim a nós imposto,
Sobreviver em honra do desastre posto
Solene agitação de palavras pelo ar,
Ébria púrpura e claro cálice invulgar,
Que o diáfano olhar, chuva e diamante,
Preso a essas flores de viço constante,
Isola entre a hora e o brilho do dia!
É de nossos veros jardins toda a estadia,
Onde o poeta puro tem o gesto largo
De atar o sonho, inimigo do encargo:
Para que na manhã do repouso leal,
Quando, para Gautier, a morte imemorial
É os olhos sagrados fechar, e calar,
Surja, da alameda ornamento ancilar,
Sólida tumba onde jaz o que arrefeça,
E o avaro silêncio e a noite espessa.


5 009 2
Stéphane Mallarmé

Stéphane Mallarmé

BRINDE FÚNEBRE

Ó tu, fatal emblema de nossa alegria!

Saudação à demência e libação sombria,
Não creias que a fé mágica no corredor
Ergo a taça vazia com um monstro de ouro e dor!
Tua aparição não me será suficiente:
Pois em local de porfírio te pus jacente.
Pelo rito, que a tocha seja apagada
Contra o ferro espesso das portas de entrada
Da tumba - sabe-se, eleito à discreta
Celebração pela ausência do poeta,
Que o belo monumento o encerra inteiramente.
É apenas o ofício de glória ardente,
Até a hora das cinzas, a comum e vil,
No vitral em que clara, alta noite caiu,
Que retorna às flamas do puro sol mortal!
Magnífico, inteiro e solitário, tal
Treme o falso orgulho humano em assomos.
A multidão feroz anuncia: Nós somos
A triste opacidade de espectros futuros.
Mas, o brasão dos lutos nos inúteis muros,
O lúcido horror de uma lágrima esqueço
Quando, ao sagrado verso, surdo e avesso,
Um passante, hóspede de mortalha vazia,
Soberbo e cego e mudo eis se convertia
Em um virgem herói de póstuma espera.
Vendaval de palavras que ele não dissera
À densa bruma traz o vórtex desmedido,
O nada para este Homem ontem abolido:
"Lembranças de horizontes, dize, a Terra é o quê?"
Urra o sonho; e, voz cuja luz não se vê,
-"Não sei!" - é o grito com que brincam os espaços.
O Mestre, com um olho agudo, em seus passos,
Apaziguou do éden a surpresa inquieta
Cujo tremor final, em sua só voz, inquieta
Para a Rosa e o Lis o mistério de um nome.
Deste destino nada resta, tudo some?
Esquecei, todos vós, uma crença tão turva.
O esplêndido, eterno gênio, nada o turva.
Eu, a vosso desejo atento, quero ver,
A quem desmaia, ontem, no ideal dever
Pelos jardins deste astro assim a nós imposto,
Sobreviver em honra do desastre posto
Solene agitação de palavras pelo ar,
Ébria púrpura e claro cálice invulgar,
Que o diáfano olhar, chuva e diamante,
Preso a essas flores de viço constante,
Isola entre a hora e o brilho do dia!
É de nossos veros jardins toda a estadia,
Onde o poeta puro tem o gesto largo
De atar o sonho, inimigo do encargo:
Para que na manhã do repouso leal,
Quando, para Gautier, a morte imemorial
É os olhos sagrados fechar, e calar,
Surja, da alameda ornamento ancilar,
Sólida tumba onde jaz o que arrefeça,
E o avaro silêncio e a noite espessa.


5 009 2
William Blake

William Blake

O Preço da Experiência

Das Canções da experiência
(Tradução de Orlando Ferreira)

Qual é o preço da experiência? Os homens a compram com uma canção?
Adquirem sabedoria dançando nas ruas? Não, ela é comprada pelo preço
De tudo que um homem possui, sua casa, sua esposa, seus filhos.
A sabedoria é vendida num mercado sombrio onde ninguém vem comprar,
E no campo infecundo que o fazendeiro ara em vão por seu pão.

É fácil triunfar sob o sol do verão
E na colheita cantar na carroça cheia de grão.
É fácil falar de prudência aos aflitos,
Falar das leis da prudência ao andarilho sem teto,
Ouvir o grito faminto do corvo na estação invernal
Quando o sangue vermelho mistura-se ao vinho e ao tutano do cordeiro

É tão fácil sorrir diante da ira da natureza
Ouvir o uivo do cão diante da porta no inverno, e o boi a mugir no matadouro;
Ver um deus em cada brisa e uma bênção em cada tempestade.
Ouvir o som do amor no raio que arrasa a casa do inimigo;
Rejubilar-se diante do praga que cobre seu campo, e da doença que ceifa seus filhos,
Enquanto nossas oliveiras e nosso vinho cantam e riem diante da porta, e nossos
/filhos nos trazem frutas e flores.
Então o lamento e a dor estão quase esquecidos, bem como o escravo que gira omoinho,
E o cativo acorrentado, o pobre prisioneiro, e o soldado no campo de batalha
Quando os ossos rompidos deixam-no gemendo à espera da morte feliz.
É fácil rejubilar-se sob a tenda da prosperidade:
Eu poderia cantar e me rejubilar deste modo: mas eu não sou assim.
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