Temas
Poemas neste tema

Arte

Herberto Helder

Herberto Helder

1

Será que Deus não consegue compreender a linguagem dos artesãos
Nem música nem cantaria.
Foi-se ver no livro: de um certo ponto de vista de:
terror sentido beleza
acontecera sempre o mesmo — quebram-se os selos aparecem
os prodígios
a puta escarlate ao meio dos cornos da besta
máquinas fatais, abismos, multiplicação de luas
— o inferno! alguém disse: afastem de mim a inocência
eu falo o idioma demoníaco.
Há imagens que se percebem: a do leão às escuras bebendo água
gelada, a imagem de uma pessoa com a mão gloriosa nas chamas
não pára de gritar mas não tira a mão do fogo
compreende-se? como se compreende!
é uma espécie de força absoluta. Há quem pinte cavaleiros luminosos
montados em cavalos azuis. Vão para a guerra, vão matar,
roubar, violar, Deus olha.
Sangue. Quais os problemas? Vermelho e azul, distribuição de formas, a beleza
e os seus segredos — o número, a razão do número
que tudo seja perfeito em coral e cobalto.
O caos nunca impediu nada, foi sempre um alimento inebriante.
O homem não é uma criatura entre mal e bem: falava-se com Deus
porque Deus era potência, Deus era unidade rítmica.
A mão sobre as coisas com vida sua, com essa mão reunir as coisas,
refazer as coisas — cada coisa tem a sua aura, cada animal tem
a sua aura, como se pastoreiam as auras!
em transe: eu sou a coisa. Acabou.
Sento-me a conversar com Deus: palavra, música, martelo
uma equação: conversa de ida e volta.
Depois há gente que fala entre si, depois é o medo, depois é o delírio.
Escuta a breve canção dentro de ti. Que diz ela?
Não move as coisas com as suas auras, nem tu nem a tua canção
pertencem ao mundo cheio, alma que sopra.
Nada se liga entre si, Deus não se debruça na canção; destroça
a cadência
— o demoníaco. Já se não vê um degrau
arrancar de outro degrau pelas lentas escadarias de mármore ao fundo.
A canção abandonou o seu espaço contínuo.
Que se pode fazer? — Apenas um encontro de objectos; um degrau, outro
e outro degraus onde ninguém assenta o pé
e depois o outro pé — por onde se não sobe para assistir ao braço que
torcendo
laçasse o corpo todo num umbigo incandescente, por onde ninguém
sobe para sentar-se ao órgão
e discutir em música as proporções? Aquele que disse:
eu tenho a temperatura de Deus — era um louco meteorológico.
Mas se afinal se entende que numa resposta
se oculta uma pergunta do mundo, mas
se afinal a substância
de alguém que pôs a mão no fogo é igual à substância do fogo
enquanto grita. A substância de um homem e de uma estrela; a mesma.
O poder de criar a canção, isso.
Bato na rosácea com o martelo
o rosto onde bate a rosácea roda voltado para cima —
761 1
Matilde Campilho

Matilde Campilho

Tiger Balm

O brasileiro acha que o amor é importante porra, eu cá não acho nada, só fui arranhando poemas, alinhando conchas, tirei o relógio nos últimos anos para escrever, para ler os textos norte-americanos, guaranis e siríacos. Disse que era índio mas nunca fingi que era índio, sei o que quer dizer biraquera mas nunca me despi na rua. Entendi que não existe um poeta maior e espero ter entendido que um esquiador, um pescador, um astrólogo e um boxeur são quase sempre a mesma coisa. Escutei muitos ícaros e entendi alguns quando me esqueci de tentar entender. Reparei no rosto daquele moço pintado de azul e vi como o pirata lhe apontava uma arma ao alvo. Acho que toda a gente sabe que o alvo é o lugar entre uma sobrancelha e outra, o olho. Frequentei gabinetes de dermatologia mas não percebi nada antes de ter lido o poeta chinês. Soube de histórias de ladrões que foram os primeiros a entrar no céu logo depois de Cristo, e também soube de um anjo que não estava acostumado a fazer de cicerone a esse tipo de gente. Descobri que o círilico não é tão difícil assim se se prestar atenção à forma como são escritos os nomes. Aprendi que desenhar montanhas e a palavra espera são lugares muito semelhantes e que ambos podem ser comparados à dormida de um gavião no olho de Deus. Conheci um jogador de criquete que largou o desporto para dedicar-se à prosa porque acreditava na sorte. Reparei que o seu traje se manteve inalterado nas duas profissões: camisa branca e luvas brancas funcionam como músculo em qualquer eremita. Estudei muito sobre a prática do assobio, ainda não concluí nada e acho que é por isso que sei assobiar de três formas diferentes. Aquela frase sobre o amor está escrita em cartazes espalhados por todas as cidades onde já estive. Havia também uma frase sobre tigres, mas essa ficou num cartaz apenas, numa cidade apenas. Li sobre pássaros e passei a saber que os pássaros medem a distância em unidades de corpo e não em metros: a densidade de cada corpo não importa, o que importa é a distância entre eles. Ainda assim me perguntei muitas noites qual seria a medida de uma asa. Em determinado momento achei que Kuhiu era o homem mais bonito do mundo. Quando não pude mais com o silêncio escutei as canções de Tom Waits, de Leonard Cohen e de Bob Dylan. Soube da morte de Michael Jackson no mesmo dia em que soube que o amor sim é importante, mas não é imutável. Acho que chorei. Telefonei a meu primeiro amor e contei-lhe sobre essa mesma morte. Lembro-me que ele ficou muito tempo calado e depois escutou-se pelo país o ruído de uma garganta seca. Entre nós será a guerra, foi o que ele disse, mas isso foi muito tempo antes. Aconteceu também que eu pedi esse tal em casamento: uma vez, outra vez e depois outra vez. Ele negou três vezes mas nem por isso deixei de achar que ele era o poeta mais bonito do mundo. E fiquei com a impressão que ele nunca deixou de achar que eu era o animal selvagem mais bonito do mundo. Descobri que o eixo de uma aldeia pode muito bem ser o eixo de um corpo de mulher. Soube que se faziam procissões perto do mar mas que estas nunca chegavam ao mar. Fotografei a mulher mais bonita da procissão e apontei o foco à linha que divide as suas omoplatas. Foi aí que aprendi a rezar. Apaixonei-me por bandeiras no Verão de dois mil e dez, quando os meninos dançavam um transe muito psicadélico feito do som dos ramos das aurocárias. Descobri que meu pai nem sempre tinha razão sobre as pessoas, mas que a terra onde meu pai me educou talvez sim. Tremi quando me disseram que o único imperador era o imperador do sorvete. Também me comovi quando entendi que o xisto nascia laminado nalgumas praias e que isso queria dizer escultura. Aprendi a contar pelas manchas múltiplas de uma papaia e acentuei a palavra açaí muitas vezes. Vi dois leões roçado os focinhos um no outro e vi dois leões rugindo contra Deus quando repararam que seus focinhos eram exactamente o mesmo focinho. Decidi que astronauta era a palavra mais incrível de todas, mais ainda do que açaí, e então resolvi que todos os poemas a partir dali seriam escritos no centro de um círculo desenhado num capacete. Já não sei o que acha o brasileiro porque hoje eu acho que brasileiro ou argelino são precisamente a mesma coisa: tudo o que respira, brota. Sei sobre escavação e entalhamento, sei sobre três veleiros cravados numa medalha de ouro. E também sei sobre um homem cujo coração funciona a trinta batimentos por minuto, porque ele é um homem filho de um peixe. Acho que a ternura é importante.
1 648 1
Hélia Correia

Hélia Correia

Esmola

I
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.

II

Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema

III


Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
1 290 1
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Gênio da Multidão

Há suficiente violência, traição,
ódio
Absurdo no ser humano
comum
Para abastecer qualquer exército a qualquer
dia.
E Os Melhores Assassinos São Aqueles
Que Pregam Contra Ele.
E Os Que Melhor Odeiam São Aqueles
Que Pregam o AMOR
E OS MELHORES NA GUERRA
– POR FIM – SÃO AQUELES QUE
PREGAM
A PAZ
Aqueles Que Pregam DEUS
PRECISAM de Deus
Aqueles que Pregam A PAZ
Não Têm Paz.
AQUELES QUE PREGAM O AMOR
NÃO TÊM AMOR
CUIDADO COM OS PREGADORES
Cuidado com Os Conhecedores.
Cuidado
Com Aqueles
que SEMPRE
ESTÃO LENDO
LIVROS
Cuidado com Aqueles Que Detestam a
Pobreza Ou Estão Orgulhosos Dela
CUIDADO Com Aqueles Rápidos na Prece
Porque Eles Precisam de PRECES em Troca
CUIDADO Com Aqueles Rápidos em Censurar:
Eles Têm Medo Daquilo Que
Não Conhecem
Cuidado Com Aqueles Que Buscam Multidões
Constantes; Eles Não São Nada
Sozinhos
Cuidado Com
O Homem Comum
A Mulher Comum
CUIDADO Com o Amor Deles
O Amor Deles É Comum, Busca o
Comum
Mas Há Gênio No Modo Como Odeiam
Há Gênio Suficiente No Ódio
Deles Para Matá-Lo, Para Matar
Qualquer Um.
Por Não Desejarem a Solidão
Por Não Entenderem a Solidão
Tentarão Destruir
Tudo
Que Seja Diferente
Deles Mesmos
Por Serem Incapazes
De Criar Arte
Eles Não
Entenderão a Arte
Considerarão o Fracasso
Como Criadores
Somente Como Uma Falha
Do Mundo
Por Serem Incapazes De Amar Por Completo
ACREDITARÃO Que Seu Amor É
Incompleto
E ASSIM ELES ODIARÃO
VOCÊ
E o Ódio Deles Será Perfeito
Como Um Diamante Que Cintila
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
COMO UM TIGRE
COMO Cicuta
A ARTE Que Lhes É
Mais Fina
1 608 1