Poemas neste tema
Árvores, florestas e montanhas
Barbara Guest
Lírios vermelhos
Alguém lembrou-se de secar a louça;
retiraram o acidente do fogão.
Depois, lírios para a janta; ali
as linhas diante da janela
esfregam-se à mesa de pedra
O papel alça voo
e aterrissa à medida que o vento
repete, repete seu canto de ave.
Aqueles braços sob o travesseiro
os braços que escavam que clivam na noite
enquanto o rebocador dá molde à água
chamando-se a si próprios de galhos
É você a árvore
a manta é o que a aquece
neve irrompe do cardo;
a neve derrama de você.
Uma mão fria sobre os pratos
colocando um pires dentro
dela que se despiu para a janta
flutuando aquele cabelo rumo à neve
apagou-se a luz-piloto
do fogão
O papel dobrou-se como um guardanapo
outras asas colidiram com a pedra.
:
Red lillies (in Moscow Mansions, 1973)
Someone has remembered to dry the dishes;
they have taken the accident out of the stove.
Afterwards lilies for supper; there
the lines in front of the window
are rubbed on the table of stone
The paper flies up
then down as the wind
repeats, repeats its birdsong.
Those arms under the pillow
the burrowing arms they cleave
at night as the tug kneads water
calling themselves branches
The tree is you
the blanked is what warms it
snow erupts from thistle;
the snow pours out of you.
A cold hand on the dishes
placing a saucer inside
her who undressed for supper
gliding that hair to the snow
The pilot light
went out of the stove
The paper folded like a napkin
other wings flew into the stone.
.
.
.
retiraram o acidente do fogão.
Depois, lírios para a janta; ali
as linhas diante da janela
esfregam-se à mesa de pedra
O papel alça voo
e aterrissa à medida que o vento
repete, repete seu canto de ave.
Aqueles braços sob o travesseiro
os braços que escavam que clivam na noite
enquanto o rebocador dá molde à água
chamando-se a si próprios de galhos
É você a árvore
a manta é o que a aquece
neve irrompe do cardo;
a neve derrama de você.
Uma mão fria sobre os pratos
colocando um pires dentro
dela que se despiu para a janta
flutuando aquele cabelo rumo à neve
apagou-se a luz-piloto
do fogão
O papel dobrou-se como um guardanapo
outras asas colidiram com a pedra.
:
Red lillies (in Moscow Mansions, 1973)
Someone has remembered to dry the dishes;
they have taken the accident out of the stove.
Afterwards lilies for supper; there
the lines in front of the window
are rubbed on the table of stone
The paper flies up
then down as the wind
repeats, repeats its birdsong.
Those arms under the pillow
the burrowing arms they cleave
at night as the tug kneads water
calling themselves branches
The tree is you
the blanked is what warms it
snow erupts from thistle;
the snow pours out of you.
A cold hand on the dishes
placing a saucer inside
her who undressed for supper
gliding that hair to the snow
The pilot light
went out of the stove
The paper folded like a napkin
other wings flew into the stone.
.
.
.
671
Xue Tao
Lavadas em orvalho notas puras
Lavadas em orvalho notas puras
levadas pelo vento folhas juntas
somam chilro mais chilro em uníssono
e cada qual a um galho solitária
565
Sei Shônagon
16 Poemas
Ao mundo de agruras
Por que voltar novamente
Se buscando estou
O orvalho da flor de lótus
Para nele me molhar? (de 31)
Jamais reveleis
A morada passageira
Da mergulhadora
Não vos lembrou da promessa
A lasca de alga enviada? (de 80)
Desmoronaram-se
Os montes gêmeos Imose
Sobre o belo Yoshino
Rio que entre eles corria
Rio por eles soterrado. (de 80)
Montanha de neve
Que rara nos parecia
Cá neste lugar
Por todo canto repetida
Mas que ideia mais banal! (de 83)
Superfície d’água
De frágil gelo coberta
Derrete-se ao sol
Também os nós muito frouxos
Facilmente se desatam. (de 86)
Desta tal pessoa,
Se não fosse mesmo herdeira,
Como quereria
Na reunião desta noite
Ser a primeira a compor? (de 95)
Ervas-sem-orelhas
Colhidas em profusão
Que pena me deram!
Entre tantas plantas
Somente me ouvem crisântemos… (de 125)
Pela noite adentro
Falso galo a cantar
Posto em Ôsaka
— Lugar de encontros de amor —
Que tentem, não abrirão! (de 129)
Flor não apreciada
Pelo tom de sua cor
Sofro por demais
Por meu real sentimento
Ver tal incompreensão. (de 177)
Mesmo o inexprimível
Como divino sinal
Deu-me bom papel
Novo alento à eternidade
Até a idade dos grous. (de 258)
Que hospedagem é esta?
A face primaveril
Maculada está
Por sobrancelhas grosseiras
De vil salgueiro-chorão. (de 282)
Os dias de primavera
Por aqui contemplo
Tédio vagueando…
Como não os suportais
Em celestial Palácio? (de 282)
Fogo pequenino
Num dia primaveril
O feno consumiu
De seu quarto de dormir
Como nada se salvou? (de 294)
Jurai-me, querido
Perante esta divindade
De Tôtômi
Que jamais teríeis visto
A ponte de Hamana! (de 296)
Como é inevitável
O coração palpitar
Em Ôsaka!
Fácil é descobrir as águas
Das corredeiras de Hashirii. (de 297)
Jamais cogitei
Da Capital me afastar
Quem foi que vos disse
Sobre a aldeia de Ibuki?
Sobre artemísias dos montes? (de 298)
463
Tchicaya U Tam'si
Através de tempo e rio
Um dia será preciso se pôr
a andar alto os ventos
como as folhas das árvores
para o estrume para o fogo
que importa
outras eras farão de nossas almas
silícios
porto para os pés desnudos
estaremos em todos os caminhos
porto para a sede
porto para o amor
porto para o tempo
nós vimos a areia
nós vimos a espuma
que a ignora
vimos os rios e as árvores
quem dirá
nós acreditamos
nós acreditamos
quem negará
pegamos carpas enchemos as redes
bastava um gesto com o polegar
o mundo estava salvo pelo silêncio
mas então
o mar salta a espuma
mas então
a espuma derruba o mar
ao longe se vão os sete rios
para saber a quem cantam as folhas
resta ainda um rio
e a chave dos sonhos nos seus flancos
mas quanto a saber por que
cantam as folhas
ah mágoa mágoa
hurra as trovoadas
caminhar com punhos fechados
caminhar
contar as estrelas
e saltar acima das jângals
para tanto não ser hiena nem jiboia
depois aplaudir um rio
e as corças e as zebras e as gazelas
depois saltar com ele alto a lâmina
a formiga diz
vou esfolar o búfalo
ah deixe o rio
venha cá mulher-rã
as libélulas dançavam
veladas de azul e de pólen
resta o rio
e o arco-íris
à beira um ancião
ancião lava tua chaga
mas diz a minha mãe diz a meu pai
eis-me mulher-jacaré
ó mãe amante-crocodilo
ó pai mulher-jacaré
ancião lava tua chaga
os peixes das águas avistaram essas lágrimas
cuspiram para salvar aquelas lágrimas
mas as gaivotas fecharam a cara
pobre afogada guarda teu leito de rio
resta-nos esse rio
e o arco-íris
em relevo
dos papagaios portadores de totens
a savana entre seus troncos
faz dançar fulvos viscosos
e eu gritei
por sobre as jângal
fica a direitura do caminho esquecido
mas eis a areia
ao longe é o mar
mas eis o ovo
uma crista ao redor
de sua vida
se calar ou simplesmente chorar
a criança dorme
a mãe se esquece
a coruja ulula
a lua está tranquila
o tempo passa
a lua desaparece
a flor d’água se quebra
a criança dorme
morre sua mãe
os jacarés partiam a água
com a cauda
a coruja ressona não espere a noite
pois não basta gritar estupro
assim saltou o astro inicial
pois o escorpião nunca foi um vicioso
mil formigas vão esfolar o búfalo
que degolou o cordeiro diante dos homens
café bananas algodão tapioca
morre morre quem quiser
não basta recriar o estupro
uma manhã
uma clara manhã
não mais totens e seus papagaios
uma manhã
uma clara manhã
não mais folhas em parte alguma
ao longe se foram
sete rios de ondas perdidas
a criança dorme
o atabaque sua
a lua está tranquila
o tempo passa
sobre suas montarias de silêncios
(tradução de Leo Gonçalves)
À travers temps et fleuve
Tchicaya U Tam´si
Un jour il faudra se prendre
marcher haut les vents
comme les feuilles des arbres
pour un fumier pour un feu
qu’importe
d’autres âges feront de nos âmes
des silex
gare aux pieds nus
nous serons sur tous les chemins
gare à la soif
gare à l’amour
gare au temps
nous avons vu le sable
nous avons vu l’écueil
qui l’ignore
nous avons les fleuves et les arbres
qui le dira
nous avons cru
nous avons cru
qui le niera
nous avons pris des carpes plein nos filets
il suffisait d’un coup de pouce
le monde était sauvé par le silence
mais voici
la mer saute l’écueil
mais voici
l’écueil culbute la mer
au loin s’en vont les sept fleuves
à savoir pour qui chantent les feuilles
il reste un fleuve
et la clé des songes dans ses flancs
mais quant à savoir pourquoi
chantent les feuilles
ah chagrin chagrin
hourra les tonneres
marcher les poings fermés
marcher d’abord
compter les étoiles
et sauter par-dessus les jungles
pour cela n’être ni hyène ni python
puis applaudir un fleuve
et les biches et les zèbres et les gazelles
puis bondir avec lui haut la lame
la fourmi dit
je vais dépecer le buffle
hé quitte le fleuve
viens-t’en femme grenouille
les libellules dansaient
voilées d’azur et de pollent
il reste le fleuve
et l’arc-en-ciel
en bordure un vieil homme
vieil homme lave ta plaie
mais dis à ma mère dis à mon père
me voici femme caïman
me voici amante-crocodile
ô mère amante-crocodile
ô père femme-caïman
vieil homme lave ta plaie
les poissons de l’eau ont vu ces larmes
ils ont craché pour sauver ces larmes-là
mais les mouettes ont fait la moue
pauvre noyée garde ton lit de fleuve
il nous reste ce fleuve
et l’arc-en-ciel
en saillie
des perroquets porteurs de totems
la brousse entre ses troncs
fait danser des fleuves visqueux
et j’ai crié
par-dessus les jungles
est la droiture du chemin oublié
mais voici le sable
au loin est la mer
mais voici l’œuf
une coquille entoure
sa vie
se taire ou simplement pleurer
l’enfant dort
la mère s’oublie
la chouette ulule
la lune est tranquille
le temps passe
la lune disparaît
la fleur d’eau se brise
l’enfant dort
se meurt sa mère
les caïmans cassaient l’eau
avec leur queues
le hibou somnole n’attendez la nuit
car il ne suffit pas de crier au viol
ainsi a sauté l’astre initial
car le scorpion ne fut jamais vicieux
un mille de fourmis va dépecer le buffle
qui a égorgé l’agneau devant les hommes
café bananes coton tapioca
meure meure qui voudra
il ne suffit pas de recréer le viol
un matin
un clair matin
plus de totems et leurs perroquets
un matin
un clair matin
plus de feuilles nulle parte
au loin s’en sont allés
sept fleuves à flots perdus
l’enfant dort
le tam-tam s’ébruite
la lune est tranquille
le temps passe
sur ses montures de silences
(1957)
a andar alto os ventos
como as folhas das árvores
para o estrume para o fogo
que importa
outras eras farão de nossas almas
silícios
porto para os pés desnudos
estaremos em todos os caminhos
porto para a sede
porto para o amor
porto para o tempo
nós vimos a areia
nós vimos a espuma
que a ignora
vimos os rios e as árvores
quem dirá
nós acreditamos
nós acreditamos
quem negará
pegamos carpas enchemos as redes
bastava um gesto com o polegar
o mundo estava salvo pelo silêncio
mas então
o mar salta a espuma
mas então
a espuma derruba o mar
ao longe se vão os sete rios
para saber a quem cantam as folhas
resta ainda um rio
e a chave dos sonhos nos seus flancos
mas quanto a saber por que
cantam as folhas
ah mágoa mágoa
hurra as trovoadas
caminhar com punhos fechados
caminhar
contar as estrelas
e saltar acima das jângals
para tanto não ser hiena nem jiboia
depois aplaudir um rio
e as corças e as zebras e as gazelas
depois saltar com ele alto a lâmina
a formiga diz
vou esfolar o búfalo
ah deixe o rio
venha cá mulher-rã
as libélulas dançavam
veladas de azul e de pólen
resta o rio
e o arco-íris
à beira um ancião
ancião lava tua chaga
mas diz a minha mãe diz a meu pai
eis-me mulher-jacaré
ó mãe amante-crocodilo
ó pai mulher-jacaré
ancião lava tua chaga
os peixes das águas avistaram essas lágrimas
cuspiram para salvar aquelas lágrimas
mas as gaivotas fecharam a cara
pobre afogada guarda teu leito de rio
resta-nos esse rio
e o arco-íris
em relevo
dos papagaios portadores de totens
a savana entre seus troncos
faz dançar fulvos viscosos
e eu gritei
por sobre as jângal
fica a direitura do caminho esquecido
mas eis a areia
ao longe é o mar
mas eis o ovo
uma crista ao redor
de sua vida
se calar ou simplesmente chorar
a criança dorme
a mãe se esquece
a coruja ulula
a lua está tranquila
o tempo passa
a lua desaparece
a flor d’água se quebra
a criança dorme
morre sua mãe
os jacarés partiam a água
com a cauda
a coruja ressona não espere a noite
pois não basta gritar estupro
assim saltou o astro inicial
pois o escorpião nunca foi um vicioso
mil formigas vão esfolar o búfalo
que degolou o cordeiro diante dos homens
café bananas algodão tapioca
morre morre quem quiser
não basta recriar o estupro
uma manhã
uma clara manhã
não mais totens e seus papagaios
uma manhã
uma clara manhã
não mais folhas em parte alguma
ao longe se foram
sete rios de ondas perdidas
a criança dorme
o atabaque sua
a lua está tranquila
o tempo passa
sobre suas montarias de silêncios
(tradução de Leo Gonçalves)
:
À travers temps et fleuve
Tchicaya U Tam´si
Un jour il faudra se prendre
marcher haut les vents
comme les feuilles des arbres
pour un fumier pour un feu
qu’importe
d’autres âges feront de nos âmes
des silex
gare aux pieds nus
nous serons sur tous les chemins
gare à la soif
gare à l’amour
gare au temps
nous avons vu le sable
nous avons vu l’écueil
qui l’ignore
nous avons les fleuves et les arbres
qui le dira
nous avons cru
nous avons cru
qui le niera
nous avons pris des carpes plein nos filets
il suffisait d’un coup de pouce
le monde était sauvé par le silence
mais voici
la mer saute l’écueil
mais voici
l’écueil culbute la mer
au loin s’en vont les sept fleuves
à savoir pour qui chantent les feuilles
il reste un fleuve
et la clé des songes dans ses flancs
mais quant à savoir pourquoi
chantent les feuilles
ah chagrin chagrin
hourra les tonneres
marcher les poings fermés
marcher d’abord
compter les étoiles
et sauter par-dessus les jungles
pour cela n’être ni hyène ni python
puis applaudir un fleuve
et les biches et les zèbres et les gazelles
puis bondir avec lui haut la lame
la fourmi dit
je vais dépecer le buffle
hé quitte le fleuve
viens-t’en femme grenouille
les libellules dansaient
voilées d’azur et de pollent
il reste le fleuve
et l’arc-en-ciel
en bordure un vieil homme
vieil homme lave ta plaie
mais dis à ma mère dis à mon père
me voici femme caïman
me voici amante-crocodile
ô mère amante-crocodile
ô père femme-caïman
vieil homme lave ta plaie
les poissons de l’eau ont vu ces larmes
ils ont craché pour sauver ces larmes-là
mais les mouettes ont fait la moue
pauvre noyée garde ton lit de fleuve
il nous reste ce fleuve
et l’arc-en-ciel
en saillie
des perroquets porteurs de totems
la brousse entre ses troncs
fait danser des fleuves visqueux
et j’ai crié
par-dessus les jungles
est la droiture du chemin oublié
mais voici le sable
au loin est la mer
mais voici l’œuf
une coquille entoure
sa vie
se taire ou simplement pleurer
l’enfant dort
la mère s’oublie
la chouette ulule
la lune est tranquille
le temps passe
la lune disparaît
la fleur d’eau se brise
l’enfant dort
se meurt sa mère
les caïmans cassaient l’eau
avec leur queues
le hibou somnole n’attendez la nuit
car il ne suffit pas de crier au viol
ainsi a sauté l’astre initial
car le scorpion ne fut jamais vicieux
un mille de fourmis va dépecer le buffle
qui a égorgé l’agneau devant les hommes
café bananes coton tapioca
meure meure qui voudra
il ne suffit pas de recréer le viol
un matin
un clair matin
plus de totems et leurs perroquets
un matin
un clair matin
plus de feuilles nulle parte
au loin s’en sont allés
sept fleuves à flots perdus
l’enfant dort
le tam-tam s’ébruite
la lune est tranquille
le temps passe
sur ses montures de silences
(1957)
914
Christopher Okigbo
A árvore
A raiz atingiu
Um veio de pedra.
A seiva seca no caule
Em ascensão:
O sangue seca na veia
Como seiva.
(tradução de Ricardo Domeneck)
The Tree
Christopher Okigbo
THE ROOT has struck
A layer of rock;
The sap dries out in the stem
Upwards:
The blood dries out in the vein
Like sap.
.
.
.
Um veio de pedra.
A seiva seca no caule
Em ascensão:
O sangue seca na veia
Como seiva.
(tradução de Ricardo Domeneck)
The Tree
Christopher Okigbo
THE ROOT has struck
A layer of rock;
The sap dries out in the stem
Upwards:
The blood dries out in the vein
Like sap.
.
.
.
931
Aglaja Veteranyi
A Fuga
A criança põe a boneca na mala.
A mãe põe a criança na mala.
O pai põe a mãe e a casa na mala.
O exterior põe o pai com a mala na mala.
E envia tudo de volta.
Escondem-se na floresta:
1 boneca
1 criança
1 mãe
1 pai
1 casa
2 malas
1 fuga.
(tradução de Fabiana Macchi)
:
Die Flucht
Aglaja Veteranyi
Das Kind packt die Puppe in den Koffer.
Die Mutter packt das Kind in den Koffer.
Der Vater packt Mutter und Haus in den Koffer.
Das Ausland packt Vater mit Koffer in den Koffer.
Schickt alles zurueck.
Es verstecken sich im Wald:
1 Puppe
1 Kind
1 Mutter
1 Vater
1 Haus
2 Koffer
1 Flucht
.
.
.
A mãe põe a criança na mala.
O pai põe a mãe e a casa na mala.
O exterior põe o pai com a mala na mala.
E envia tudo de volta.
Escondem-se na floresta:
1 boneca
1 criança
1 mãe
1 pai
1 casa
2 malas
1 fuga.
(tradução de Fabiana Macchi)
:
Die Flucht
Aglaja Veteranyi
Die Mutter packt das Kind in den Koffer.
Der Vater packt Mutter und Haus in den Koffer.
Das Ausland packt Vater mit Koffer in den Koffer.
Schickt alles zurueck.
Es verstecken sich im Wald:
1 Puppe
1 Kind
1 Mutter
1 Vater
1 Haus
2 Koffer
1 Flucht
.
.
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1 227
Maria Ângela Alvim
Carta a Maria Clea
Embora faça sol, a dor oprime a altura.
Converso com você, mas sei que é conjetura.
E sendo aqui montanha, verdade aprofundo:
Por quê? Por que nos nutrirmos deste mundo?
Deste mundo, exilio, — porta de nossas perdas
onde o tempo nos soma pelas horas esquerdas.
Não sabemos talvez, ou em saber não bastamos
que o mundo é sedento e nós o desalteramos.
Secam rios de pranto onde a sede se apura
e desagua o labirinto de uma carne obscura.
É preciso nos nutrirmos deste mundo, — quantos
somos, sirvamos à sua fome, — fome de tantos.
Converso com você, mas sei que é conjetura.
E sendo aqui montanha, verdade aprofundo:
Por quê? Por que nos nutrirmos deste mundo?
Deste mundo, exilio, — porta de nossas perdas
onde o tempo nos soma pelas horas esquerdas.
Não sabemos talvez, ou em saber não bastamos
que o mundo é sedento e nós o desalteramos.
Secam rios de pranto onde a sede se apura
e desagua o labirinto de uma carne obscura.
É preciso nos nutrirmos deste mundo, — quantos
somos, sirvamos à sua fome, — fome de tantos.
804
Vitorino Nemésio
Tubo de ensaio
Árvores do Canadá, uma por uma,
A caminho de Otawa, de autocarro,
Propõem seus galhos hibernais ainda
À minha angústia já primaveril.
Com tão pouca matéria a fotossíntese,
Que oxigénio de amor espero eu delas,
Com que carbono as poderei amar?
Porque, enfim, eu morrendo dou-me aos bosques,
A tal selva de Dante é a dor da espécie,
E o mezzo dei camin aqui passar.
Só é estranho que fracos pensamentos
Eu verta nestes tubos de ensaiar:
Eu, que, por causa de Escherichia Coli,
Quase não sei (como se diz?) — meiar...
A Poesia é um louco laboratório,
E eu dispo a bata para não chorar.
(Os 3 últimos poemas in Poesias de Vitorino Nemésio, por Maria Madalena Gonçalves. Lisboa: Comunicação, 1983.)
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A caminho de Otawa, de autocarro,
Propõem seus galhos hibernais ainda
À minha angústia já primaveril.
Com tão pouca matéria a fotossíntese,
Que oxigénio de amor espero eu delas,
Com que carbono as poderei amar?
Porque, enfim, eu morrendo dou-me aos bosques,
A tal selva de Dante é a dor da espécie,
E o mezzo dei camin aqui passar.
Só é estranho que fracos pensamentos
Eu verta nestes tubos de ensaiar:
Eu, que, por causa de Escherichia Coli,
Quase não sei (como se diz?) — meiar...
A Poesia é um louco laboratório,
E eu dispo a bata para não chorar.
(Os 3 últimos poemas in Poesias de Vitorino Nemésio, por Maria Madalena Gonçalves. Lisboa: Comunicação, 1983.)
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1 469
Arsenii Tarkovskii
Cai a noite sobre as montanhas da Geórgia;
Cai a noite sobre as montanhas da Geórgia;
À minha frente ruge o Aragva.
Estou em paz e triste; há um lampejo em meus suspiros,
Meus suspiros são todos teus,
Teus, e de mais ninguém... Minha melancolia
Está insensível a angústias e apreensões,
E meu coração arde e ama mais uma vez,
Pois nada pode fazer além de amar.
Todo instante que passávamos juntos
Era uma celebração, uma Epifania,
No mundo inteiro, nós os dois sozinhos.
Eras mais audaciosa, mais leve que a asa de um pássaro,
Estonteante como uma vertigem, corrias escada abaixo
Dois degraus por vez, e me conduzias
Por entre lilases úmidos, até teu domínio
No outro lado, para além do espelho.
Enquanto isso o destino seguia nossos passos
Como um louco de navalha na mão.
Arseni Tarkóvski (1907 - 1989)
1 266
Hilda Machado
Cabo Frio
Nuvens passageiras
miragens peregrinas enfunadas pelo Nordeste
queda de folhagem
muda retórica
O Sudoeste dá rédeas à repulsa
nuvens erráticas devoram rivais
Orfeu despedaçado por bacantes drapejadas de vapor
Em dia sem vento
a falta de engenho permite
purezas de sabão e macieiras em flor
talco no chão do banheiro
sorvete marca Aristófanes
Mas quase sempre ele pisa seus véus
Duas mãos de cinza desmaiado
sobre fundo esmaltado é perícia
renda
luxo magnífico e corrupto
realização elegante de algum mandarim
leque de plumas de avestruz tintas de rosa
levemente agitado diante da luz
(poemas publicados originalmente na revistaInimigo Rumor)
1 733
Luiza Neto Jorge
O Sítio em Vista
Trazem as árvores insignificantes
o maior distúrbio aos ventos; arredam-nos,
alçam outros armazéns sonoros
casas de relâmpagos e de cataclismos.
Chega-se. Parte-se. Segreda-se
de seres indeterminados que movem
resistência. Pelejam mais.
E quando a sua pele se usa vence
a moda, mudança de uma árvore para a mundanal
outra árvore carregada.
Podem aliás irromper quentes florestas.
Abate-se sobre o lenhador a opulência, o triunfo
do fruto desenvolvido no seu trono
iluminado por quatro archotes de seiva.
Há no mundo inteiro uma, quando muito, rua
difícil de encontrar.
São os campos, gente humílima, absorta em grãos
de areia, praia inequívoca onde,
na estação tardia, os do mar se deitam.
Algumas folhas, de livros, assinalam o ponto.
Algumas cartas, de marear,
não chegam.
Criaturas que se reproduziam em interstícios
que se deitavam em divâs
cada vez mais estreitos
a luminosa vocação, a luminosidade
de uma terra sábia e rotunda
suplantava aqueles gritos portadores
de uma defunta órfica voz
Eram as criaturas presas ,
do seu século
retraídas nos olhos mal afeiçoados
Filhos mais velhos a atentarem
em como o corpo incha e se perfaz a polpa
como o limite se delimita corpo a corpo
e engorda
Cobriam-se as folhas de uma letra hirsuta
e os mais novos sorriam como lábios.
o maior distúrbio aos ventos; arredam-nos,
alçam outros armazéns sonoros
casas de relâmpagos e de cataclismos.
Chega-se. Parte-se. Segreda-se
de seres indeterminados que movem
resistência. Pelejam mais.
E quando a sua pele se usa vence
a moda, mudança de uma árvore para a mundanal
outra árvore carregada.
Podem aliás irromper quentes florestas.
Abate-se sobre o lenhador a opulência, o triunfo
do fruto desenvolvido no seu trono
iluminado por quatro archotes de seiva.
Há no mundo inteiro uma, quando muito, rua
difícil de encontrar.
São os campos, gente humílima, absorta em grãos
de areia, praia inequívoca onde,
na estação tardia, os do mar se deitam.
Algumas folhas, de livros, assinalam o ponto.
Algumas cartas, de marear,
não chegam.
Criaturas que se reproduziam em interstícios
que se deitavam em divâs
cada vez mais estreitos
a luminosa vocação, a luminosidade
de uma terra sábia e rotunda
suplantava aqueles gritos portadores
de uma defunta órfica voz
Eram as criaturas presas ,
do seu século
retraídas nos olhos mal afeiçoados
Filhos mais velhos a atentarem
em como o corpo incha e se perfaz a polpa
como o limite se delimita corpo a corpo
e engorda
Cobriam-se as folhas de uma letra hirsuta
e os mais novos sorriam como lábios.
1 399
Pedro Oom
As virtudes dialogais
Dentro
de mim
há uma planta
que cresce
alegremente
que diz
bom dia
quando nos amamos
ao entardecer
e boa noite
quando florimos
à alvorada
uma árvore
que não está com o tempo
este tempo
a que chamamos
nosso.
1 521
Jorge Viegas
Nirvana
Ser como uma árvore na paisagem,
Existir, existir sem sofrimento.
Buscar na placidez o alimento,
Tornar menos pesada a minha imagem.
Estar, mas num estar que é viagem.
Iluminar o sol, esporear o vento,
deixar adormecer o pensamento,
Não haver marcas da minha passagem.
Esboroar-me na terra humilde e fria
Sem o suor negro da melancolia
A orlar-me a testa, a inundar-me os nervos.
Poeta que não sou, vida que não tive
Permiti que o sono que em mim vive
Se torne o mais humilde dos meus servos.
Existir, existir sem sofrimento.
Buscar na placidez o alimento,
Tornar menos pesada a minha imagem.
Estar, mas num estar que é viagem.
Iluminar o sol, esporear o vento,
deixar adormecer o pensamento,
Não haver marcas da minha passagem.
Esboroar-me na terra humilde e fria
Sem o suor negro da melancolia
A orlar-me a testa, a inundar-me os nervos.
Poeta que não sou, vida que não tive
Permiti que o sono que em mim vive
Se torne o mais humilde dos meus servos.
1 323
Oswaldo Osório
Manhã inflor
as héveas murcharam
desertas de folhas
desertas de flores
propositadamente
nem só o sangue mas também a seiva
nem só a criança mas também a pétala
nem só o homem mas também a planta
nem só a carne mas também a lenha
propositadamente
tudo o hamadricida flagelou
a beleza da flor
a inocência da criança
a certeza dos campos
o aconchego duma sombra
mas nos covis a vida continuou
e o apelo à luta redobrou
as héveas murcharam
e com as héveas
a manhã inflor
a terra nua
mas ainda a vida
nos covis continua
desertas de folhas
desertas de flores
propositadamente
nem só o sangue mas também a seiva
nem só a criança mas também a pétala
nem só o homem mas também a planta
nem só a carne mas também a lenha
propositadamente
tudo o hamadricida flagelou
a beleza da flor
a inocência da criança
a certeza dos campos
o aconchego duma sombra
mas nos covis a vida continuou
e o apelo à luta redobrou
as héveas murcharam
e com as héveas
a manhã inflor
a terra nua
mas ainda a vida
nos covis continua
1 548
Neves e Sousa
Lembrança
Passa um vento morno,
Um vento morno
Na trémula palmeira,
Na neblina prateada.
Envoltos na ténue distância
Morros azuis de mata
Lá ao longe.
Algures um sino suave tange.
No vento ondula como flâmula
Uma saia berrante cor de sangue.
Árvores de fruta pão
Bailando, mãos abertas,
Leques de bananeiras
Oscilando lentamente.
Visão fugidia, retratada
Por inteiro
No livro silencioso da memória.
Lembrança de São Tomé,
Sangué, trémula e prateada...
Saudade de São Tomé...
Um vento morno
Na trémula palmeira,
Na neblina prateada.
Envoltos na ténue distância
Morros azuis de mata
Lá ao longe.
Algures um sino suave tange.
No vento ondula como flâmula
Uma saia berrante cor de sangue.
Árvores de fruta pão
Bailando, mãos abertas,
Leques de bananeiras
Oscilando lentamente.
Visão fugidia, retratada
Por inteiro
No livro silencioso da memória.
Lembrança de São Tomé,
Sangué, trémula e prateada...
Saudade de São Tomé...
1 054
Arlindo Barbeitos
Mão Frágil
em mão frágil de amarelo
se quebra o galho de gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
sussurrar de vento
não é voz de capim crescendo
é murmúrio impaciente
de gentes
no azul de parte alguma
em mão frágil de amarelo
se quebra o galho da gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
se quebra o galho de gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
sussurrar de vento
não é voz de capim crescendo
é murmúrio impaciente
de gentes
no azul de parte alguma
em mão frágil de amarelo
se quebra o galho da gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
1 675
Machado de Assis
O Poeta a Rir
Taça d'água parece o lago ameno;
Têm os bambus a forma de cabanas,
Que as árvores em flor, mais altas, cobrem
Com verdejantes tetos.
As pontiagudas rochas entre flores,
Dos pagodes o grave aspecto ostentam...
Faz-me rir ver-te assim, ó natureza,
Cópia servil dos homens.
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Lira Chinesa.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.53. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
NOTA: Paráfrase de poema de Han-Tiê, poeta chinês, baseada em tradução em prosa feita por Judith Walter em 186
Têm os bambus a forma de cabanas,
Que as árvores em flor, mais altas, cobrem
Com verdejantes tetos.
As pontiagudas rochas entre flores,
Dos pagodes o grave aspecto ostentam...
Faz-me rir ver-te assim, ó natureza,
Cópia servil dos homens.
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Lira Chinesa.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.53. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
NOTA: Paráfrase de poema de Han-Tiê, poeta chinês, baseada em tradução em prosa feita por Judith Walter em 186
1 900
Sousândrade
Harpa XXXV - Visões
..........................................
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!
(...)
Imagem - 00310003
Poema integrante da série Noites.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!
(...)
Imagem - 00310003
Poema integrante da série Noites.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
2 589
Sousândrade
Harpa XXIV - O Inverno
(...)
Salve! felicidade melancólica,
Doce estação da sombra e dos amores-
Eu amo o inverno do equador brilhante!
A terra me parece mais sensível.
Aqui as virgens não se despem negras
À voz do outono desdenhoso e déspota,
Ai delas fossem irmãs, filhas dos homens!
Aqui dos montes não nos foge o trono
Dessas aves perdidas, nem do prado
Desaparece a flor. A cobra mansa,
Cor d'azougue, tardia, umbrosa e dúctil,
No marfim do caminho endurecido
Serpenteia, como onda de cabelos
Da formosura no ombro. À noite a lua,
Qual minha amante d'inocente riso,
Co'a face branca assenta-se nas palmas
Da montanha estendendo os seus candores,
Mãe da poesia, solitária, errante:
O sol nem queima o céu como os desertos,
Simpáticas manhãs é sempre o dia.
Geme às canções d'aldeia apaixonadas
Mui saudoso violão: as vozes cantam
Com náutico e celeste modulado.
Chama às tácitas asas o silêncio
Ao repouso, aos amores: as torrentes
Prolongam uma saudade que medita:
Vaga contemplação descora um pouco
O adolescente e o velho: doce e triste
Eu vejo o meu sentir a natureza
Respirar do equador, selvagem bela
De olhos alados de viver, à sombra
Adormecendo d'árvore espaçosa.
(...)
Poema integrante da série Estâncias.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
Salve! felicidade melancólica,
Doce estação da sombra e dos amores-
Eu amo o inverno do equador brilhante!
A terra me parece mais sensível.
Aqui as virgens não se despem negras
À voz do outono desdenhoso e déspota,
Ai delas fossem irmãs, filhas dos homens!
Aqui dos montes não nos foge o trono
Dessas aves perdidas, nem do prado
Desaparece a flor. A cobra mansa,
Cor d'azougue, tardia, umbrosa e dúctil,
No marfim do caminho endurecido
Serpenteia, como onda de cabelos
Da formosura no ombro. À noite a lua,
Qual minha amante d'inocente riso,
Co'a face branca assenta-se nas palmas
Da montanha estendendo os seus candores,
Mãe da poesia, solitária, errante:
O sol nem queima o céu como os desertos,
Simpáticas manhãs é sempre o dia.
Geme às canções d'aldeia apaixonadas
Mui saudoso violão: as vozes cantam
Com náutico e celeste modulado.
Chama às tácitas asas o silêncio
Ao repouso, aos amores: as torrentes
Prolongam uma saudade que medita:
Vaga contemplação descora um pouco
O adolescente e o velho: doce e triste
Eu vejo o meu sentir a natureza
Respirar do equador, selvagem bela
De olhos alados de viver, à sombra
Adormecendo d'árvore espaçosa.
(...)
Poema integrante da série Estâncias.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
3 598
Vicente de Carvalho
Fugindo ao Cativeiro
III
(...)
A caravana trôpega e ansiosa
Chega ao tope da Serra...
O olhar dos fugitivos
Descansa enfim na terra milagrosa
Na abençoada terra
Onde não há cativos.
Embaixo da montanha, logo adiante,
Quase a seus pés, uma planície imensa,
Clara, risonha, aberta, verdejante:
E ao fundo do horizonte, ao fim da extensa
Macia várzea que se lhes depara
Ali, próxima, em frente,
Esfumadas na luz do sol nascente,
As colinas azuis do Jabaquara...
O dia de ser livre, tão sonhado
Lá do fundo do escuro cativeiro,
Amanhece por fim, leve e dourado,
Enchendo o céu inteiro.
Uma explosão de júbilo rebenta
Desses peitos que arquejam, dessas bocas
Famintas, dessa turba macilenta:
Um borborinho de palavras loucas,
De frases soltas que ninguém escuta
Na vasta solidão se ergue e se espalha,
E em pleno seio da floresta bruta
Canta vitória a meio da batalha.
(...)
Descem rindo, a cantar... Seguem, felizes,
Sem reparar que os pés lhes vão sangrando
Pelos espinhos e pelas raízes;
Sem reparar que atrás, pelo caminho
Por onde fogem como alegre bando
De passarinhos da gaiola escapo
— Fica um pouco de trapo em cada espinho
E uma gota de sangue em cada trapo.
Descem rindo e cantando, em vozeria
E em confusão. Toda a floresta, cheia
Do murmúrio das fontes, da alegria
Deles, da voz dos pássaros, gorjeia.
Tudo é festa. Severos e calados,
Os velhos troncos, plácidos ermitas,
Os próprios troncos velhos, remoçados,
Riem no riso em flor das parasitas.
Varando acaso às árvores a sombra
Da folhagem que à brisa arfa e revoa,
Na verde ondulação da úmida alfombra
O ouro leve do sol bubuia à-toa;
A água das cachoeiras, clara e pura,
Salta de pedra em pedra, aos solavancos;
E a flor de S. João se dependura
Festivamente à beira dos barrancos...
(...)
Imagem - 00160007
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 1965
NOTA: Poema composto de 4 parte
(...)
A caravana trôpega e ansiosa
Chega ao tope da Serra...
O olhar dos fugitivos
Descansa enfim na terra milagrosa
Na abençoada terra
Onde não há cativos.
Embaixo da montanha, logo adiante,
Quase a seus pés, uma planície imensa,
Clara, risonha, aberta, verdejante:
E ao fundo do horizonte, ao fim da extensa
Macia várzea que se lhes depara
Ali, próxima, em frente,
Esfumadas na luz do sol nascente,
As colinas azuis do Jabaquara...
O dia de ser livre, tão sonhado
Lá do fundo do escuro cativeiro,
Amanhece por fim, leve e dourado,
Enchendo o céu inteiro.
Uma explosão de júbilo rebenta
Desses peitos que arquejam, dessas bocas
Famintas, dessa turba macilenta:
Um borborinho de palavras loucas,
De frases soltas que ninguém escuta
Na vasta solidão se ergue e se espalha,
E em pleno seio da floresta bruta
Canta vitória a meio da batalha.
(...)
Descem rindo, a cantar... Seguem, felizes,
Sem reparar que os pés lhes vão sangrando
Pelos espinhos e pelas raízes;
Sem reparar que atrás, pelo caminho
Por onde fogem como alegre bando
De passarinhos da gaiola escapo
— Fica um pouco de trapo em cada espinho
E uma gota de sangue em cada trapo.
Descem rindo e cantando, em vozeria
E em confusão. Toda a floresta, cheia
Do murmúrio das fontes, da alegria
Deles, da voz dos pássaros, gorjeia.
Tudo é festa. Severos e calados,
Os velhos troncos, plácidos ermitas,
Os próprios troncos velhos, remoçados,
Riem no riso em flor das parasitas.
Varando acaso às árvores a sombra
Da folhagem que à brisa arfa e revoa,
Na verde ondulação da úmida alfombra
O ouro leve do sol bubuia à-toa;
A água das cachoeiras, clara e pura,
Salta de pedra em pedra, aos solavancos;
E a flor de S. João se dependura
Festivamente à beira dos barrancos...
(...)
Imagem - 00160007
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 1965
NOTA: Poema composto de 4 parte
1 902
Augusto Frederico Schmidt
A Chuva nos Cabelos
A chuva molhava os seus cabelos,
A chuva descia sobre os seus cabelos
Voluptuosamente.
A chuva chorava sobre os seus cabelos,
Macios,
A chuva penetrava nos seus cabelos,
Profundamente,
Até as raízes!
Ela era uma árvore,
Uma árvore molhada
E coberta de flores.
Publicado no livro Fonte invisível (1949).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
A chuva descia sobre os seus cabelos
Voluptuosamente.
A chuva chorava sobre os seus cabelos,
Macios,
A chuva penetrava nos seus cabelos,
Profundamente,
Até as raízes!
Ela era uma árvore,
Uma árvore molhada
E coberta de flores.
Publicado no livro Fonte invisível (1949).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
1 606
Renata Pallottini
Macunaíma
(...)
Meu filho, cresce ligeiro,
para ir pra São Paulo
e ganhar dinheiro.
Adeus mato cheiroso orvalho da manhã
adeus água de prata cascata
adeus ramo de arruda hortelã
a mata está a pique de acabar
jandaia buriti jussara aracuã
cresce depressa pra dandar
meu filho
pra ganhar
vintém
cresce depressa e entrega a mata
ao invasor
meu filho pra ganhar
vintém
Quanta floresta! É ouro verde na divisa
brasileiro vai ganhar
vintém
cresce depressa e sem caráter brasileiro
e vende a mata
pra ganhar
vintém
Na cidade das máquinas doente
Macunaíma sobrevive e pensa:
nas ruas, cipoal de muita gente,
só o ato de brincar
é que compensa.
Para a tristeza, o amor;
para a preguiça
o amor, e para a febre
mordidas de saúva da paixão.
Muita saudade
e muita pouca ação
os males do Brasil
são.
Macunaíma, audaz tumucumaque,
menino inventador, herói de araque,
lá vai ele, criador de boi-bumbá;
voltando para a terra antes que acabe,
para o seu galho em antes que desabe,
para as florestas
cada vez mais menos,
para as montanhas, já
montes de Vênus,
para os campos,
agora mais pequenos...
Macunaíma encolhe igual sanfona
na charanga brasílico-amazona.
(...)
In: PALLOTTINI, Renata. Cantar meu povo. São Paulo: Massao Ohno, 198
Meu filho, cresce ligeiro,
para ir pra São Paulo
e ganhar dinheiro.
Adeus mato cheiroso orvalho da manhã
adeus água de prata cascata
adeus ramo de arruda hortelã
a mata está a pique de acabar
jandaia buriti jussara aracuã
cresce depressa pra dandar
meu filho
pra ganhar
vintém
cresce depressa e entrega a mata
ao invasor
meu filho pra ganhar
vintém
Quanta floresta! É ouro verde na divisa
brasileiro vai ganhar
vintém
cresce depressa e sem caráter brasileiro
e vende a mata
pra ganhar
vintém
Na cidade das máquinas doente
Macunaíma sobrevive e pensa:
nas ruas, cipoal de muita gente,
só o ato de brincar
é que compensa.
Para a tristeza, o amor;
para a preguiça
o amor, e para a febre
mordidas de saúva da paixão.
Muita saudade
e muita pouca ação
os males do Brasil
são.
Macunaíma, audaz tumucumaque,
menino inventador, herói de araque,
lá vai ele, criador de boi-bumbá;
voltando para a terra antes que acabe,
para o seu galho em antes que desabe,
para as florestas
cada vez mais menos,
para as montanhas, já
montes de Vênus,
para os campos,
agora mais pequenos...
Macunaíma encolhe igual sanfona
na charanga brasílico-amazona.
(...)
In: PALLOTTINI, Renata. Cantar meu povo. São Paulo: Massao Ohno, 198
3 087
Emiliano Perneta
Metamorfoses
A Mme. Georgine Mongruel.
Sei que há muita nudez e sei que há muito frio,
E uma voracidade horrível, um furor
Tão desmedido que, quando eu acaso rio,
Quantos não estarão torcendo-se de dor.
Conheço tudo, sim, apalpo, indago, espio...
Tenho a certeza que vá eu para onde for,
Como o escaravelho, hei de o ódio sombrio
Ver enodoar até o seio de uma flor.
Mas sei também que há mil aspirações estranhas,
Que havemos de subir montanhas e montanhas,
Que a Natureza avança e o Homem faz-se luz...
Que a Vida, como o sol, um alquimista louro,
Tem o dom de poder mudar a lama em ouro,
E em límpidos cristais esses rochedos nus!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Sei que há muita nudez e sei que há muito frio,
E uma voracidade horrível, um furor
Tão desmedido que, quando eu acaso rio,
Quantos não estarão torcendo-se de dor.
Conheço tudo, sim, apalpo, indago, espio...
Tenho a certeza que vá eu para onde for,
Como o escaravelho, hei de o ódio sombrio
Ver enodoar até o seio de uma flor.
Mas sei também que há mil aspirações estranhas,
Que havemos de subir montanhas e montanhas,
Que a Natureza avança e o Homem faz-se luz...
Que a Vida, como o sol, um alquimista louro,
Tem o dom de poder mudar a lama em ouro,
E em límpidos cristais esses rochedos nus!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
2 629
Sebastião Uchoa Leite
Numa Incerta Noite
Calculo as ruas que atravesso
Vendo a copa das árvores
Guiado pelas folhagens
Profusamente imerso
Na vertigem inversa
Da hemorragia verde
Do ciclópico olho vegetal
Que me contempla
1991
Poema integrante da série Incertezas.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
Vendo a copa das árvores
Guiado pelas folhagens
Profusamente imerso
Na vertigem inversa
Da hemorragia verde
Do ciclópico olho vegetal
Que me contempla
1991
Poema integrante da série Incertezas.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
1 289