Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Herberto Helder
Vem das estampas de ouro, o sono encurva-lhe os cabelos
Vem das estampas de ouro, o sono encurva-lhe os cabelos,
fica branca de andar encostada à noite,
e respira, respira,
sim respira,
como uma colina tão nua
que os pulmões fossem uma renda de prata atormentada,
ou água cruel aberta
por ti,
tubarão crepitando pelo Índico,
entre geladas barragens de sal em rama,
com uma garra no ventre,
uma síncope,
um mergulho como uma flor
que se não chama negra,
nem cujo nome pode ser dito assim:
aquilo é a paixão,
mas que,
tremendo,
se pode pronunciar como beleza este espaço,
crime esta paisagem,
ou então:
a lua dança
como um vestido bêbedo
- ata lenços de um branco que desfaleça nos dedos,
e atira fora esse ramo,
e aí verás como é que eu me movo:
sim,
eu respiro,
estou direita,
deixa-me passar
- aqui vai uma ilha de pés descalços,
aqui é um espelho caminhando como a voz
por onde entram e saem
imagens cambaleantes,
e tu chamas-te então:
como eu vi o tempo,
era uma maneira cega de haver junquilhos
que giravam até se arrancarem dos terrenos nocturnos
e viverem como crianças ondulantes,
esquecidas do seu texto,
num exílio de espanto e beleza brusca,
de fazer pensar,
súbito,
na morte prometida a todas as coisas
que se aproximam demasiado do nosso amor,
e é então que tu dizes:
há casas desabitadas,
eu estou nessas casas
que tremem quando movo as mãos,
a minha cabeleira palpita:
é o sangue que sobe do coração apavorado
e se faz dócil,
quando o pente arrefece um a um os cabelos,
e então o meu nome é:
pimenta,
areia sentada,
abertura da luz para onde saltam laranjas que pulsam,
ah, deixa-me passar,
digo-te baixo como hoje me chamo
e como nunca mais me chamarei:
loucura,
loucura unida à rítmica matéria das coisas,
e se abrires o teu sono,
dessa vez única verás o que sou:
uma figura
impelida pela vertigem,
a inclinação do teu próprio conhecimento
sobre a morte iluminada por todos os
lados,
depois terei um só nome:
revelação,
até que os dias arquejantes me sufoquem e,
no terror que te atravessa como água dolorosa,
eu seja a tua ilha a prumo,
onde habitas,
tu próprio uma ilha desabitada,
entre a lua
como uma rosa infrene e os peixes frios
e selvagens.
fica branca de andar encostada à noite,
e respira, respira,
sim respira,
como uma colina tão nua
que os pulmões fossem uma renda de prata atormentada,
ou água cruel aberta
por ti,
tubarão crepitando pelo Índico,
entre geladas barragens de sal em rama,
com uma garra no ventre,
uma síncope,
um mergulho como uma flor
que se não chama negra,
nem cujo nome pode ser dito assim:
aquilo é a paixão,
mas que,
tremendo,
se pode pronunciar como beleza este espaço,
crime esta paisagem,
ou então:
a lua dança
como um vestido bêbedo
- ata lenços de um branco que desfaleça nos dedos,
e atira fora esse ramo,
e aí verás como é que eu me movo:
sim,
eu respiro,
estou direita,
deixa-me passar
- aqui vai uma ilha de pés descalços,
aqui é um espelho caminhando como a voz
por onde entram e saem
imagens cambaleantes,
e tu chamas-te então:
como eu vi o tempo,
era uma maneira cega de haver junquilhos
que giravam até se arrancarem dos terrenos nocturnos
e viverem como crianças ondulantes,
esquecidas do seu texto,
num exílio de espanto e beleza brusca,
de fazer pensar,
súbito,
na morte prometida a todas as coisas
que se aproximam demasiado do nosso amor,
e é então que tu dizes:
há casas desabitadas,
eu estou nessas casas
que tremem quando movo as mãos,
a minha cabeleira palpita:
é o sangue que sobe do coração apavorado
e se faz dócil,
quando o pente arrefece um a um os cabelos,
e então o meu nome é:
pimenta,
areia sentada,
abertura da luz para onde saltam laranjas que pulsam,
ah, deixa-me passar,
digo-te baixo como hoje me chamo
e como nunca mais me chamarei:
loucura,
loucura unida à rítmica matéria das coisas,
e se abrires o teu sono,
dessa vez única verás o que sou:
uma figura
impelida pela vertigem,
a inclinação do teu próprio conhecimento
sobre a morte iluminada por todos os
lados,
depois terei um só nome:
revelação,
até que os dias arquejantes me sufoquem e,
no terror que te atravessa como água dolorosa,
eu seja a tua ilha a prumo,
onde habitas,
tu próprio uma ilha desabitada,
entre a lua
como uma rosa infrene e os peixes frios
e selvagens.
4 102
1
Vicente de Carvalho
Palavras ao Mar
Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo erriça o pêlo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas — a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.
Quando eu nasci, raiava
O claro mês das garças forasteiras;
Abril, sorrindo em flor pelos outeiros,
Nadando em luz na oscilação das ondas,
Desenrolava a primavera de ouro:
E as leves garças, como folhas soltas
Num leve sopro de aura dispersadas,
Vinham do azul do céu turbilhonando
Pousar o vôo à tona das espumas...
É o tempo em que adormeces
Ao sol que abrasa: a cólera espumante,
Que estoura e brame sacudindo os ares,
Não os sacode mais, nem brame e estoura;
Apenas se ouve, tímido e plangente,
O teu murmúrio; e pelo alvor das praias,
Langue, numa carícia de amoroso,
As largas ondas marulhando estendes...
Ah! vem daí por certo
A voz que escuto em mim, trêmula e triste,
Este marulho que me canta na alma,
E que a alma jorra desmaiado em versos;
De ti, de ti unicamente, aquela
Canção de amor sentida e murmurante
Que eu vim cantando, sem saber se a ouviam,
Pela manhã de sol dos meus vinte anos.
Ó velho condenado
Ao cárcere das rochas que te cingem!
Em vão levantas para o céu distante
Os borrifos das ondas desgrenhadas.
Debalde! O céu, cheio de sol se é dia,
Palpitante de estrelas quando é noute,
Paira, longínquo e indiferente, acima
Da tua solidão, dos teus clamores...
Condenado e insubmisso
Como tu mesmo, eu sou como tu mesmo
Uma alma sobre a qual o céu resplende
— Longínquo céu — de um esplendor distante.
Debalde, ó mar que em ondas te arrepelas,
Meu tumultuoso coração revolto
Levanta para o céu, como borrifos,
Toda a poeira de ouro dos meus sonhos.
(...)
Imagem - 00160009
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo erriça o pêlo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas — a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.
Quando eu nasci, raiava
O claro mês das garças forasteiras;
Abril, sorrindo em flor pelos outeiros,
Nadando em luz na oscilação das ondas,
Desenrolava a primavera de ouro:
E as leves garças, como folhas soltas
Num leve sopro de aura dispersadas,
Vinham do azul do céu turbilhonando
Pousar o vôo à tona das espumas...
É o tempo em que adormeces
Ao sol que abrasa: a cólera espumante,
Que estoura e brame sacudindo os ares,
Não os sacode mais, nem brame e estoura;
Apenas se ouve, tímido e plangente,
O teu murmúrio; e pelo alvor das praias,
Langue, numa carícia de amoroso,
As largas ondas marulhando estendes...
Ah! vem daí por certo
A voz que escuto em mim, trêmula e triste,
Este marulho que me canta na alma,
E que a alma jorra desmaiado em versos;
De ti, de ti unicamente, aquela
Canção de amor sentida e murmurante
Que eu vim cantando, sem saber se a ouviam,
Pela manhã de sol dos meus vinte anos.
Ó velho condenado
Ao cárcere das rochas que te cingem!
Em vão levantas para o céu distante
Os borrifos das ondas desgrenhadas.
Debalde! O céu, cheio de sol se é dia,
Palpitante de estrelas quando é noute,
Paira, longínquo e indiferente, acima
Da tua solidão, dos teus clamores...
Condenado e insubmisso
Como tu mesmo, eu sou como tu mesmo
Uma alma sobre a qual o céu resplende
— Longínquo céu — de um esplendor distante.
Debalde, ó mar que em ondas te arrepelas,
Meu tumultuoso coração revolto
Levanta para o céu, como borrifos,
Toda a poeira de ouro dos meus sonhos.
(...)
Imagem - 00160009
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
11 326
1
Alphonsus de Guimaraens
XL [O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é só como um deserto.
Quem sabe quando vem as horas calmas?
Quem sabe se a ventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto.
O que nos cerca é a fugitiva imagem
Do que sentimos, do que longe vemos,
Sempre sofrendo, sempre em vassalagem.
A vida é um barco a voar. Soltem-se os remos...
Cada um de nós da morte é servo e pajem:
Somos felizes só porque morremos.
Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Sonetos / Pulvis.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 350. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é só como um deserto.
Quem sabe quando vem as horas calmas?
Quem sabe se a ventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto.
O que nos cerca é a fugitiva imagem
Do que sentimos, do que longe vemos,
Sempre sofrendo, sempre em vassalagem.
A vida é um barco a voar. Soltem-se os remos...
Cada um de nós da morte é servo e pajem:
Somos felizes só porque morremos.
Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Sonetos / Pulvis.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 350. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
3 706
1
Maria Helena Nery Garcez
Perplexidade
Tinhas o instinto da individualidade.
Não eras gregária.
Como foi então que te tornaste bando?
In: O Estado de S. Paulo, São Paulo, 10 fev. 1990. Cultura. Suplemento, p.1
Não eras gregária.
Como foi então que te tornaste bando?
In: O Estado de S. Paulo, São Paulo, 10 fev. 1990. Cultura. Suplemento, p.1
1 033
1
Raul de Leoni
Ironia!
Ironia! Ironia!
Minha consolação! Minha filosofia!
Imponderável máscara discreta
Dessa infinita dúvida secreta,
Que é a tragédia recôndita do ser!
Muita gente não te há de compreender
E dirá que és renúncia e covardia!
Ironia! Ironia!
És a minha atitude comovida:
O amor-próprio do Espírito, sorrindo!
O pudor da Razão diante da Vida!
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Felicidade.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
Minha consolação! Minha filosofia!
Imponderável máscara discreta
Dessa infinita dúvida secreta,
Que é a tragédia recôndita do ser!
Muita gente não te há de compreender
E dirá que és renúncia e covardia!
Ironia! Ironia!
És a minha atitude comovida:
O amor-próprio do Espírito, sorrindo!
O pudor da Razão diante da Vida!
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Felicidade.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
2 232
1
Junqueira Freire
O Remorso da Inocente
III
Cisma a virgem mansamente
Em pensamentos do céu,
Mais cândida que as rolinhas,
Mais cândida que seu véu.
E cismava: — Ai! que eu não seja
Tão pura no meu amor:
Tão pura — como este raio
Da lâmpada do Senhor! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Já para Deus menos bela,
Como a bonina que murcha,
Que eu arranco da capela! —
E cismava: — Ai! que eu não tenha
Um crime, sem eu saber!
Qual será? — Ontem de noite
Eu não pude adormecer! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Menos linda ao meu Senhor!
Já hoje eu corri do claustro:
Dos mortos tive temor... —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Ré de um crime que eu não sei,
Bem como o inseto escondido
Na rosa qu'ontem cortei! —
Ei-la, a cisma da donzela,
Da filha da solidão.
Ei-lo, o remorso que esconde
Nas dobras do coração.
Publicado no livro Inspirações do Claustro (1855).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.11
NOTA: Poema composto de quatro parte
Cisma a virgem mansamente
Em pensamentos do céu,
Mais cândida que as rolinhas,
Mais cândida que seu véu.
E cismava: — Ai! que eu não seja
Tão pura no meu amor:
Tão pura — como este raio
Da lâmpada do Senhor! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Já para Deus menos bela,
Como a bonina que murcha,
Que eu arranco da capela! —
E cismava: — Ai! que eu não tenha
Um crime, sem eu saber!
Qual será? — Ontem de noite
Eu não pude adormecer! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Menos linda ao meu Senhor!
Já hoje eu corri do claustro:
Dos mortos tive temor... —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Ré de um crime que eu não sei,
Bem como o inseto escondido
Na rosa qu'ontem cortei! —
Ei-la, a cisma da donzela,
Da filha da solidão.
Ei-lo, o remorso que esconde
Nas dobras do coração.
Publicado no livro Inspirações do Claustro (1855).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.11
NOTA: Poema composto de quatro parte
6 595
1
Antonio Fernando De Franceschi
Sílex
face angular
que cavo a talho
esta em que me mudo
reiterado
cópia provável de mim
no mudo rosto
e abrasado golpe
que desfecho:
minha antes não fosse
a dor
e a mão crispada
que desce
fere
e me desvela pedra
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Sal. São Paulo: companhia das Letras, (1989). Poema integrante da série Perfis em Pedra.
que cavo a talho
esta em que me mudo
reiterado
cópia provável de mim
no mudo rosto
e abrasado golpe
que desfecho:
minha antes não fosse
a dor
e a mão crispada
que desce
fere
e me desvela pedra
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Sal. São Paulo: companhia das Letras, (1989). Poema integrante da série Perfis em Pedra.
1 261
1
Amadeu Amaral
22 - Em Meditação Introspectiva
Do fundo de meu ser, num arremesso
longo, parte uma voz turva e fremente.
Escuto-a já bramir, quando, em começo,
balbuciava uma prece, lentamente.
Acendo o lume da Razão, e desço
às cavernas profundas do Inconsciente.
A luz vacila e fuma; eu estremeço,
vendo só treva acumulada em frente.
Clamo, interrogo... Em vão. Silêncio em tudo.
Aos poucos, num luar distante, agora,
rondam vultos de sonho e de pecado.
E aflita, o colo branco a arfar desnudo,
uma princesa acorrentada chora
junto a um fosco antropóide acorrentado.
16 de setembro de 1922
Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.266. (Obras de Amadeu Amaral
longo, parte uma voz turva e fremente.
Escuto-a já bramir, quando, em começo,
balbuciava uma prece, lentamente.
Acendo o lume da Razão, e desço
às cavernas profundas do Inconsciente.
A luz vacila e fuma; eu estremeço,
vendo só treva acumulada em frente.
Clamo, interrogo... Em vão. Silêncio em tudo.
Aos poucos, num luar distante, agora,
rondam vultos de sonho e de pecado.
E aflita, o colo branco a arfar desnudo,
uma princesa acorrentada chora
junto a um fosco antropóide acorrentado.
16 de setembro de 1922
Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.266. (Obras de Amadeu Amaral
1 350
1
Arnaldo Antunes
Estou cego a todas as músicas
Estou cego a todas as músicas,
Não ouvi mais o cantar da musa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o peito que me cobre a blusa.
Já a mim nenhuma cena soa
Nem o céu se me desabotoa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como a língua cobre de saliva
Cada dente que sai da gengiva.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o sangue cobre a carne crua,
Como a pele cobre a carne viva,
Como a roupa cobre a pele nua.
Estou cego a todas as músicas.
E se eu canto é como um som que sua.
In: ANTUNES, Arnaldo. Tudos. 3.ed. São Paulo: Iluminuras, 199
Não ouvi mais o cantar da musa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o peito que me cobre a blusa.
Já a mim nenhuma cena soa
Nem o céu se me desabotoa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como a língua cobre de saliva
Cada dente que sai da gengiva.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o sangue cobre a carne crua,
Como a pele cobre a carne viva,
Como a roupa cobre a pele nua.
Estou cego a todas as músicas.
E se eu canto é como um som que sua.
In: ANTUNES, Arnaldo. Tudos. 3.ed. São Paulo: Iluminuras, 199
2 667
1
Moacyr Felix
O Poeta
O poeta se perdia em símbolos.
O poeta se perdia em signos.
O poeta se perdia em palavras.
O poeta se perdia nele próprio
sem que espelho algum lhe trouxesse
o que dele assim ex-fato se perdia.
O poeta foi sempre um perdedor
com a tola ambição de achar-se um dia
sem a necessidade de fazer poemas
sobre a existência que lhe escapulia.
O poeta é uma besta inglória
entre a beleza de uma laranja
e o riso de todas as árvores mortas.
Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.2
O poeta se perdia em signos.
O poeta se perdia em palavras.
O poeta se perdia nele próprio
sem que espelho algum lhe trouxesse
o que dele assim ex-fato se perdia.
O poeta foi sempre um perdedor
com a tola ambição de achar-se um dia
sem a necessidade de fazer poemas
sobre a existência que lhe escapulia.
O poeta é uma besta inglória
entre a beleza de uma laranja
e o riso de todas as árvores mortas.
Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.2
1 293
1
Ulisses Tavares
Desculpe, Cecília
eu canto porque o instante existe
mas minha vida não está completa.
sinto gozo, sinto tormento,
sei que a canção não é tudo.
ainda sou gente, embora poeta.
In: TAVARES, Ulisses. O eu entre nós. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1979. (Coleção PF).
NOTA: Referência ao poema "Motivo" do livro VIAGEM (1939), de Cecília Meirele
mas minha vida não está completa.
sinto gozo, sinto tormento,
sei que a canção não é tudo.
ainda sou gente, embora poeta.
In: TAVARES, Ulisses. O eu entre nós. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1979. (Coleção PF).
NOTA: Referência ao poema "Motivo" do livro VIAGEM (1939), de Cecília Meirele
1 911
1
Augusto Massi
Viagem ao Redor do Quarto
Quando permaneço
horas trancado no
escuro do quarto
Ícaro contemporâneo
rumo ao sol negro
do crânio
Não abra a porta,
não pergunte nada,
não deixe velar
o sistema de imagens
gravitando na mente:
raio de luz sanguínea,
fauvismo de carpas,
e a mitologia trágica
de uma noite estrelada.
As explosões solares,
as estranhas migrações
da metáfora e do amor
não podem ser vistas
em plena luz do dia:
são energia negativa.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
horas trancado no
escuro do quarto
Ícaro contemporâneo
rumo ao sol negro
do crânio
Não abra a porta,
não pergunte nada,
não deixe velar
o sistema de imagens
gravitando na mente:
raio de luz sanguínea,
fauvismo de carpas,
e a mitologia trágica
de uma noite estrelada.
As explosões solares,
as estranhas migrações
da metáfora e do amor
não podem ser vistas
em plena luz do dia:
são energia negativa.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 037
1
Sebastião Uchoa Leite
Take Off
1. há quem faça obras
eu apenas
solto as minhas cobras
2. o futuro? já sei de cor:
só me interessa a metamemória
perdido no cosmos
a minha pátria é o jardim das delícias
3. que esperam de mim?
não sou ninguém
não me puxem pelo braço
sou revel
a minha consciência é o verme
e eu sou o cria corvos
4. já vivi duas vezes
e sonho com a terceira vida
visível só como sombra
5. façam de conta
que fui apenas um sonho
neste pesadelo da história
nem consegui gritar
fui enforcado com baader-meinhoff
ou pendurei-me em praça pública
com gérard de nerval?
6. quem não se contradiz
não diz
radicalmente sério
só o cemitério
Publicado no livro Antilogia (1979).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
eu apenas
solto as minhas cobras
2. o futuro? já sei de cor:
só me interessa a metamemória
perdido no cosmos
a minha pátria é o jardim das delícias
3. que esperam de mim?
não sou ninguém
não me puxem pelo braço
sou revel
a minha consciência é o verme
e eu sou o cria corvos
4. já vivi duas vezes
e sonho com a terceira vida
visível só como sombra
5. façam de conta
que fui apenas um sonho
neste pesadelo da história
nem consegui gritar
fui enforcado com baader-meinhoff
ou pendurei-me em praça pública
com gérard de nerval?
6. quem não se contradiz
não diz
radicalmente sério
só o cemitério
Publicado no livro Antilogia (1979).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 672
1
Augusto dos Anjos
Hino à Dor
Dor, saúde dos seres que se fanam,
Riqueza da alma, psíquico tesouro,
Alegria das glândulas do choro
De onde todas as lágrimas emanam...
És suprema! Os meus átomos se ufanam
De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro
Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro
De que as próprias desgraças se engalanam!
Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.
Com os corpúsculos mágicos do tato
Prendo a orquestra de chamas que executas...
E, assim, sem convulsão que me alvoroce,
Minha maior ventura é estar de posse
De tuas claridades absolutas!
Publicado no livro Eu: poesias completas (1920). Poema integrante da série Outras Poesias.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.171. (Ensaios, 32
Riqueza da alma, psíquico tesouro,
Alegria das glândulas do choro
De onde todas as lágrimas emanam...
És suprema! Os meus átomos se ufanam
De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro
Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro
De que as próprias desgraças se engalanam!
Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.
Com os corpúsculos mágicos do tato
Prendo a orquestra de chamas que executas...
E, assim, sem convulsão que me alvoroce,
Minha maior ventura é estar de posse
De tuas claridades absolutas!
Publicado no livro Eu: poesias completas (1920). Poema integrante da série Outras Poesias.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.171. (Ensaios, 32
3 949
1
João Cabral de Melo Neto
Num Monumento à Aspirina
Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis da meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.
*
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.
Publicado no livro A educação pela pedra (1966).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.360-361. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis da meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.
*
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.
Publicado no livro A educação pela pedra (1966).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.360-361. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
3 849
1
Joaquim Cardozo
Os Mundos Paralelos
Existe um EU dentro de mim
que não me pertence
não é meu.
Mas pode estar em mim;
do outro lado de mim.
Lado que comigo não tem contato.
Um EU antagônico para o meu ser de agora
Agora e agônico.
O que faço está mais além desfeito:
É um fazer contrafeito que morre
E renasce, depois, no meu peito.
Nada me vem contra o que está de mim vizinho.
O que me vem é contra o que de eterno em mim me oprime
— Aquilo que está no que era de outra vez;
E que esteve noutro sentido e ainda perdura e se antepõe
E que me destrói, me impõe, me presume e suprime.
Todos os meus atos são atos reflexos
No projetivo espelho tempo/espaço, no fechado não denso.
Correspondência injetiva, deprimente, fria, de interno entorno.
re
Ouço a voz paralela a minha voz,
Ouço o canto que é um eco do que, outrora, foi meu.
Em conflito com o que poderia ser silêncio
Se este pudesse fluir lentamente como o tempo
E ser, se pudesse, confundidamente tempo-silêncio
No que aqui é doce, no paralelo é amargo
No que aqui é macio no paralelo é áspero
Mundo paralelo!
afogar
Nele é que vou me apagar, me sumir, me perder,
Me esconder, para sempre, no esquecer.
Noitemente amanhecer.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.160-161. Poema integrante da série Mundos Paralelos
que não me pertence
não é meu.
Mas pode estar em mim;
do outro lado de mim.
Lado que comigo não tem contato.
Um EU antagônico para o meu ser de agora
Agora e agônico.
O que faço está mais além desfeito:
É um fazer contrafeito que morre
E renasce, depois, no meu peito.
Nada me vem contra o que está de mim vizinho.
O que me vem é contra o que de eterno em mim me oprime
— Aquilo que está no que era de outra vez;
E que esteve noutro sentido e ainda perdura e se antepõe
E que me destrói, me impõe, me presume e suprime.
Todos os meus atos são atos reflexos
No projetivo espelho tempo/espaço, no fechado não denso.
Correspondência injetiva, deprimente, fria, de interno entorno.
re
Ouço a voz paralela a minha voz,
Ouço o canto que é um eco do que, outrora, foi meu.
Em conflito com o que poderia ser silêncio
Se este pudesse fluir lentamente como o tempo
E ser, se pudesse, confundidamente tempo-silêncio
No que aqui é doce, no paralelo é amargo
No que aqui é macio no paralelo é áspero
Mundo paralelo!
afogar
Nele é que vou me apagar, me sumir, me perder,
Me esconder, para sempre, no esquecer.
Noitemente amanhecer.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.160-161. Poema integrante da série Mundos Paralelos
1 986
1
Paulo Bomfim
O Ar
Em nossa transparência
Os muros da carne.
Em nossa angústia
O vento rebelde.
Em nossa nuvem
O vôo do pássaro.
Em nossa fonte
A água invisível.
Em nossa árvore
A serpente do nada.
Somos o ar
Na torre das palavras.
Publicado no livro Quinze Anos de Poesia (1958).
In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.7
Os muros da carne.
Em nossa angústia
O vento rebelde.
Em nossa nuvem
O vôo do pássaro.
Em nossa fonte
A água invisível.
Em nossa árvore
A serpente do nada.
Somos o ar
Na torre das palavras.
Publicado no livro Quinze Anos de Poesia (1958).
In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.7
2 597
1
Claudio Willer
Dias Circulares
I
Tua presença é monstruosamente reveladora, e sei que devo continuar
a existir imerso em sua transparência. Às vezes, a própria distância
é um encontro, as horas alaranjadas do dia podem ofuscar, e a
[radiação
dos signos irá despertar-me de vez. Tudo flutua no olhar, apontando
para a descida sem limite.
II
O mistério transborda, transforma-se em enxurrada, apaga o rastro
e arrasta consigo os fragmentos dos meus ossos. As manhãs de
Setembro continuam muito frias, e flutuam em seu envoltório de
sobrenatural, crisálidas encerrando a voracidade da posse. Os
[prédios
de gelatina confundem-se com o horizonte e atraem meus passos para
o indecifrável, para a quantidade de enigma presente no teu olhar, e
que escorre pelas mãos, invadindo o ar que respiro. A armadura ainda
ensanguentada, levanto-me, para continuar a caminhada em tua direção,
estátua de sal eternamente à minha frente, absorvendo toda a
[luminosidade
do mundo, monte de signos de todos os acasos incompreensíveis,
anunciadora da queda infinita.
(...)
In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976.
NOTA: Poema composto de 3 parte
Tua presença é monstruosamente reveladora, e sei que devo continuar
a existir imerso em sua transparência. Às vezes, a própria distância
é um encontro, as horas alaranjadas do dia podem ofuscar, e a
[radiação
dos signos irá despertar-me de vez. Tudo flutua no olhar, apontando
para a descida sem limite.
II
O mistério transborda, transforma-se em enxurrada, apaga o rastro
e arrasta consigo os fragmentos dos meus ossos. As manhãs de
Setembro continuam muito frias, e flutuam em seu envoltório de
sobrenatural, crisálidas encerrando a voracidade da posse. Os
[prédios
de gelatina confundem-se com o horizonte e atraem meus passos para
o indecifrável, para a quantidade de enigma presente no teu olhar, e
que escorre pelas mãos, invadindo o ar que respiro. A armadura ainda
ensanguentada, levanto-me, para continuar a caminhada em tua direção,
estátua de sal eternamente à minha frente, absorvendo toda a
[luminosidade
do mundo, monte de signos de todos os acasos incompreensíveis,
anunciadora da queda infinita.
(...)
In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976.
NOTA: Poema composto de 3 parte
1 494
1
Zuca Sardan
Naufrágio
Quem pratica a virtude
só pra ganhar boa média
está mesmo muito perto
do vício.
Mais prático, no caso,
logo começar pelo vício...
Não há força sem habilidade.
Mas, pra que força?
Habilidade, só, resolve...
Responde-me, oh Infortúnio,
grão parteiro do Gênio:
"É menina ou menino?"
Oh almas fortes
domadoras da voluptuosidade,
Pilotos hábeis e serenos
evitando os rochedos:
"HOMEM AO MAR!!"
In: SARDAN, Zuca. Ás de colete. Pref. Alcides Villaça. Il. do autor. 2.ed.ampinas: Ed. da Unicamp, 1994. p.19. (Matéria de poesia
só pra ganhar boa média
está mesmo muito perto
do vício.
Mais prático, no caso,
logo começar pelo vício...
Não há força sem habilidade.
Mas, pra que força?
Habilidade, só, resolve...
Responde-me, oh Infortúnio,
grão parteiro do Gênio:
"É menina ou menino?"
Oh almas fortes
domadoras da voluptuosidade,
Pilotos hábeis e serenos
evitando os rochedos:
"HOMEM AO MAR!!"
In: SARDAN, Zuca. Ás de colete. Pref. Alcides Villaça. Il. do autor. 2.ed.ampinas: Ed. da Unicamp, 1994. p.19. (Matéria de poesia
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1
Fernando Pessoa
Terceira: D. PEDRO, REGENTE DE PORTUGAL
Claro em pensar, e claro no sentir,
É claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser —
Não me podia a Sorte dar guarida
Por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à idéia tida.
Tudo o mais é com Deus!
É claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser —
Não me podia a Sorte dar guarida
Por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à idéia tida.
Tudo o mais é com Deus!
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1
Gilka Machado
Particularidades
Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo,
os meus gostos crimino e busco, em vão torcê-los;
é incrível a paixão que me absorve por tudo
quanto é sedoso, suave ao tato: a coma... Os pêlos...
Amo as noites de luar porque são de veludo,
delicio-me quando, acaso, sinto, pelos
meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo
em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.
Pela fria estação, que aos mais seres eriça,
andam-me pelo corpo espasmos repetidos,
às luvas de camurça, às boas, à pelica...
O meu tato se estende a todos os sentidos;
sou toda languidez, sonolência, preguiça,
se me quedo a fitar tapetes estendidos.
Publicado no livro Estados da Alma (1917).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado.
Rio de Janeiro: L. Christiano: Funarj, 1991. p.150
os meus gostos crimino e busco, em vão torcê-los;
é incrível a paixão que me absorve por tudo
quanto é sedoso, suave ao tato: a coma... Os pêlos...
Amo as noites de luar porque são de veludo,
delicio-me quando, acaso, sinto, pelos
meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo
em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.
Pela fria estação, que aos mais seres eriça,
andam-me pelo corpo espasmos repetidos,
às luvas de camurça, às boas, à pelica...
O meu tato se estende a todos os sentidos;
sou toda languidez, sonolência, preguiça,
se me quedo a fitar tapetes estendidos.
Publicado no livro Estados da Alma (1917).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado.
Rio de Janeiro: L. Christiano: Funarj, 1991. p.150
4 301
1
Mafalda Veiga
Só tu sabes (o que ainda te seduz)
Só um gesto
Abre um sulco no frio
Rasga o fundo
Toca no abismo e no vazio
A luz da lua
Voa sem deixar nunca
De sentir o chão
E desfaz a sombra
Que esconde o que resta
De algum sonho vão
Tantos dias
Que pouco podem mudar
Quando os muros
Não deixam ver onde nasce o mar
A luz do mundo
Vem de dentro de quem se perde
Alguma vez
A luz da noite
Vem do fundo do olhar
De quem não a quer prender
Só tu sabes o que ainda te seduz
Só tu sentes o que poderá ser
Que te rasga, que te acende
E desata o nó
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Os mundos
Que se escondem em ti
Vagabundos
Que tu não deixas nunca partir
Sair do labirinto
Escapar às emboscadas da razão
Sentir bater o vento
E andar na corda bamba da solidão
Abre um sulco no frio
Rasga o fundo
Toca no abismo e no vazio
A luz da lua
Voa sem deixar nunca
De sentir o chão
E desfaz a sombra
Que esconde o que resta
De algum sonho vão
Tantos dias
Que pouco podem mudar
Quando os muros
Não deixam ver onde nasce o mar
A luz do mundo
Vem de dentro de quem se perde
Alguma vez
A luz da noite
Vem do fundo do olhar
De quem não a quer prender
Só tu sabes o que ainda te seduz
Só tu sentes o que poderá ser
Que te rasga, que te acende
E desata o nó
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Os mundos
Que se escondem em ti
Vagabundos
Que tu não deixas nunca partir
Sair do labirinto
Escapar às emboscadas da razão
Sentir bater o vento
E andar na corda bamba da solidão
887
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Augusto dos Anjos
Idealização da humanidade futura
Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
- Homens que a herança de ímppetos impuros
Tornara etnicamente irracionais!
Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!
A multidão dos séculos futuros
- Homens que a herança de ímppetos impuros
Tornara etnicamente irracionais!
Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!
4 606
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