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Poemas neste tema

Consciência e autoconhecimento

Harry Martinson

Harry Martinson

Ajuste de contas

A folhagem vespertina do final do verão se 
     escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
     Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
     em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
     às tardes de tranquilizantes.


Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
     homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias 
     rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
     anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
     tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo 
     jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
      que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
     que desejas sem sombra.


Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há 
     verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até 
     o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
     vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
     apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
      a consomes,
depois nada mais.
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Tomas Tranströmer

Tomas Tranströmer

Prelúdios

1
Recuo diante de uma coisa que se arrasta de lado pela
tempestade de neve.
Fragmento do que está para vir.
Uma parede esboroando-se. Uma coisa sem olhos. Rija.
Um rosto de dentes.
Uma parede solitária. Ou é uma casa que ali está
embora a não consiga ver?
O futuro … um exército de casas vazias
tacteando o caminho pela neve que cai. 

2
Duas verdades aproximam-se uma da outra. Uma vem de dentro,
outra de fora,
e onde se encontram é possível ter um indício
de nós.

O homem que vê o que está para acontecer grita desvairado
“Alto!
Seja o que for, desde que não tenha de me conhecer a mim mesmo.”

E há um barco que se quer amarrar à terra – insiste mesmo
aqui –
de facto insistirá ainda milhares de vezes.

Da escuridão dos bosques surge um longo arpão,
irrompe pela janela aberta
entre os convidados que aquecem dançando.

3
O apartamento onde vivi metade da minha vida tem de ficar vazio. Já não tem nada. A âncora tem
de subir – apesar do peso da tristeza, é o apartamento mais leve de toda a cidade. A verdade não
precisa de nenhuma mobília. A minha vida fechou agora um grande círculo e voltou ao ponto de
partida: uma sala vazia. Coisas que nela vivi tornam-se visíveis nas paredes iguais a pinturas
egípcias, murais duma câmara funerária. Imagens esbatendo-se devido a uma luz excessiva. As
janelas mais largas. O apartamento vazio é um grande telescópio apontado ao céu. É silencioso
como um ritual Quaker. Tudo o que podes escutar são as pombas nas traseiras, o arrulhar delas.
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