Poemas neste tema
Corpo
Neide Archanjo
Não estamos perdidos
Não estamos perdidos.
Isto é um milagre. Ter um corpo
uma casa um amigo
manter nas veias o sangue aceso
é um milagre. Saber que houve alguém
que nos acariciou
e nos banhou de lágrimas.
Só
no meio da rua
penso nestas dádivas
antes que a lâmina da morte me atravesse.
Poema integrante da série I - Da Morte.
In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
Isto é um milagre. Ter um corpo
uma casa um amigo
manter nas veias o sangue aceso
é um milagre. Saber que houve alguém
que nos acariciou
e nos banhou de lágrimas.
Só
no meio da rua
penso nestas dádivas
antes que a lâmina da morte me atravesse.
Poema integrante da série I - Da Morte.
In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
1 160
Armindo Trevisan
Acalanto para Marilyn Monroe
De repente
no teu seio
cresceu um lírio do campo.
São Francisco, com sua mão
de menino, o recolheu.
São Bernardo, a sós, olhou
o teu corpo inteiro como
se olha
um grande girassol.
Vieram santos, donzelinhas
de pescoço decepado;
Santa Catarina trouxe
sua roda rubra e egípcia.
Tua coxa foi ficando
do tamanho azul da lua,
e tu mesma, mais lunar,
ficaste de todo nua.
O mundo inteiro grasnou
que eras bela, que possuías
um morango em cada poro,
uma flor em cada pêlo.
Banqueiro: por que me fitas?
Governador: que desejas?
O repórter, não me comas!
Tornei-me tão pequenina
que o pecado que morava
em mim deixou-me sozinha
com Deus e comigo, livre.
Na distração dessa hora
engoli todas as pílulas
que uma mulher necessita
para sair deste mundo.
Livre, livre,
bela bela
recuperei o meu corpo
nascido antes de mim.
(...)
Publicado no livro A imploração do nada (1971).
In: TREVISAN, Armindo. Antologia poética. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1986. p.25
no teu seio
cresceu um lírio do campo.
São Francisco, com sua mão
de menino, o recolheu.
São Bernardo, a sós, olhou
o teu corpo inteiro como
se olha
um grande girassol.
Vieram santos, donzelinhas
de pescoço decepado;
Santa Catarina trouxe
sua roda rubra e egípcia.
Tua coxa foi ficando
do tamanho azul da lua,
e tu mesma, mais lunar,
ficaste de todo nua.
O mundo inteiro grasnou
que eras bela, que possuías
um morango em cada poro,
uma flor em cada pêlo.
Banqueiro: por que me fitas?
Governador: que desejas?
O repórter, não me comas!
Tornei-me tão pequenina
que o pecado que morava
em mim deixou-me sozinha
com Deus e comigo, livre.
Na distração dessa hora
engoli todas as pílulas
que uma mulher necessita
para sair deste mundo.
Livre, livre,
bela bela
recuperei o meu corpo
nascido antes de mim.
(...)
Publicado no livro A imploração do nada (1971).
In: TREVISAN, Armindo. Antologia poética. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1986. p.25
1 314
Alphonsus de Guimaraens Filho
O Poeta e o Poema
Nenhum poema se faz de matéria abstrata.
É a carne, e seus suplícios,
ternuras,
alegrias,
é a carne, é o que ilumina a carne, a essência,
o luminoso e o opaco do poema.
Nenhum poema. Nenhum pode nascer do inexistente.
A vida é mais real que a realidade.
E em seus contrastes e sequelas, funda
um reino onde pervagam
não a agonia de um, não o alvoroço
de outro,
mas o assombro de todos num caminho
estranho
como infinito corredor que ecoa
passos idos (de agora,
e de ontem e de sempre),
passos,
risos e choros — num reino
que nada tem de utópico, antes
mais duro do que rocha,
mais duro do que rocha da esperança
(do desespero?),
mais duro do que a nossa frágil carne,
nossa atônita alma,
— duros pesar de seu destino, duros
pesar de serem só a hora do sonho,
do sofrimento,
de indizível espanto,
e por fim um silêncio que arrepia
a epiderme do acaso:
E por fim um silêncio... Nenhum poema
se tece de irreais tormentos. Sempre
o que o verso contém é um fluir de sangue
no coração da vida,
no pobre coração da vida, aqui
paralisado, além
nascente no seu ímpeto de febre,
no coração da vida,
no coração da vida,
(da morte?)
e um frio antigo, e as bocas
cerradas, olhos cegos,
canto urdido de cantos sufocados,
e uma avenida longa, longa, longa,
e a noite,
e a noite,
e, talvez, um sublime amanhecer.
(...)
Não há poema isento.
Há é o homem.
Há é o homem e o poema.
Fundidos.
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Nó: poemas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1984. Poema integrante da série Nó
É a carne, e seus suplícios,
ternuras,
alegrias,
é a carne, é o que ilumina a carne, a essência,
o luminoso e o opaco do poema.
Nenhum poema. Nenhum pode nascer do inexistente.
A vida é mais real que a realidade.
E em seus contrastes e sequelas, funda
um reino onde pervagam
não a agonia de um, não o alvoroço
de outro,
mas o assombro de todos num caminho
estranho
como infinito corredor que ecoa
passos idos (de agora,
e de ontem e de sempre),
passos,
risos e choros — num reino
que nada tem de utópico, antes
mais duro do que rocha,
mais duro do que rocha da esperança
(do desespero?),
mais duro do que a nossa frágil carne,
nossa atônita alma,
— duros pesar de seu destino, duros
pesar de serem só a hora do sonho,
do sofrimento,
de indizível espanto,
e por fim um silêncio que arrepia
a epiderme do acaso:
E por fim um silêncio... Nenhum poema
se tece de irreais tormentos. Sempre
o que o verso contém é um fluir de sangue
no coração da vida,
no pobre coração da vida, aqui
paralisado, além
nascente no seu ímpeto de febre,
no coração da vida,
no coração da vida,
(da morte?)
e um frio antigo, e as bocas
cerradas, olhos cegos,
canto urdido de cantos sufocados,
e uma avenida longa, longa, longa,
e a noite,
e a noite,
e, talvez, um sublime amanhecer.
(...)
Não há poema isento.
Há é o homem.
Há é o homem e o poema.
Fundidos.
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Nó: poemas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1984. Poema integrante da série Nó
1 322
Dante Milano
Fuga do Centauro
Surpreendi-a numa gruta,
O corpo fosforescente
Como uma Santa! Porém,
Rindo, quase com desdém,
Do meu êxtase inocente,
Toda nua e transparente,
Sob o véu, numa impudente
Postura de prostituta.
Receoso, tentei fugir.
Ela pegou-me das crinas,
Em minhas costas montou
E meus flancos esporeou.
Quis domar-me com mãos finas.
Ah, que tu não me dominas!
Logo aflaram-me as narinas
E comecei a nitrir...
Fui beijá-la e dei dentadas.
Havia sangue em seu gosto.
Espanquei-a com carícias,
Massacrei-a de delícias.
Arrastei-lhe o corpo exposto,
Nua, o gesto decomposto,
E pus-lhe as patas no rosto.
— Ela dava gargalhadas.
Estatelada no chão
Saía dela um calor
De forno, que a consumia,
Um hálito de agonia
E de esquálido suor.
E vendo-a perder a cor,
Sentia nela o sabor
De toda carne: extinção.
Afinal me libertei
Do seu espantoso abraço
E larguei-a quase morta,
Esvaída, a boca torta,
As mãos hirtas, o olhar baço.
Afastei-me, firme o passo,
Respirando um novo espaço,
Vitorioso como um rei.
Ela ergueu-se e de mãos postas
Pediu-me, ao ver-me partir,
Que jamais a abandonasse.
Tinha lágrimas na face.
A princípio eu quis sorrir:
Voltar, depois de fugir?
E fugi, mas a nitrir,
Com ela nas minhas costas...
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Momentos.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.130-131. (Pedra mágica, 1
O corpo fosforescente
Como uma Santa! Porém,
Rindo, quase com desdém,
Do meu êxtase inocente,
Toda nua e transparente,
Sob o véu, numa impudente
Postura de prostituta.
Receoso, tentei fugir.
Ela pegou-me das crinas,
Em minhas costas montou
E meus flancos esporeou.
Quis domar-me com mãos finas.
Ah, que tu não me dominas!
Logo aflaram-me as narinas
E comecei a nitrir...
Fui beijá-la e dei dentadas.
Havia sangue em seu gosto.
Espanquei-a com carícias,
Massacrei-a de delícias.
Arrastei-lhe o corpo exposto,
Nua, o gesto decomposto,
E pus-lhe as patas no rosto.
— Ela dava gargalhadas.
Estatelada no chão
Saía dela um calor
De forno, que a consumia,
Um hálito de agonia
E de esquálido suor.
E vendo-a perder a cor,
Sentia nela o sabor
De toda carne: extinção.
Afinal me libertei
Do seu espantoso abraço
E larguei-a quase morta,
Esvaída, a boca torta,
As mãos hirtas, o olhar baço.
Afastei-me, firme o passo,
Respirando um novo espaço,
Vitorioso como um rei.
Ela ergueu-se e de mãos postas
Pediu-me, ao ver-me partir,
Que jamais a abandonasse.
Tinha lágrimas na face.
A princípio eu quis sorrir:
Voltar, depois de fugir?
E fugi, mas a nitrir,
Com ela nas minhas costas...
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Momentos.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.130-131. (Pedra mágica, 1
1 261
Arnaldo Antunes
Imagem
palavralê
paisagemcontempla
cinemaassiste
cenavê
corenxerga
corpoobserva
luzvislumbra
vultoavista
alvomira
céuadmira
célulaexamina
detalhenota
imagemfita
olhoolha
Publicado no livro Tudos (1990), sem título. No livro Nome (1993), este
poema aparece com o título "Imagem". Música de Péricles Cavalcanti.
In: ANTUNES, Arnaldo. Tudos. 3.ed. São Paulo: Iluminuras, 1993
paisagemcontempla
cinemaassiste
cenavê
corenxerga
corpoobserva
luzvislumbra
vultoavista
alvomira
céuadmira
célulaexamina
detalhenota
imagemfita
olhoolha
Publicado no livro Tudos (1990), sem título. No livro Nome (1993), este
poema aparece com o título "Imagem". Música de Péricles Cavalcanti.
In: ANTUNES, Arnaldo. Tudos. 3.ed. São Paulo: Iluminuras, 1993
3 984
Alice Ruiz
boca da noite
boca da noite
na calada em silêncio
grandes lábios
se abrem em sim
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. p.16. (Cantadas literárias, 24)
na calada em silêncio
grandes lábios
se abrem em sim
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. p.16. (Cantadas literárias, 24)
1 772
Armindo Trevisan
Elegia 9
No enxame
dos dedos
a água cerze orifícios.
Noite fora a lua afia pastagens.
Molda-se a argila do corpo
com lágrimas.
Outra precisão,
outra imobilidade:
a do pião
na retina
de uma criança.
In: TREVISAN, Armindo. A mesa do silêncio. Porto Alegre: L± Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Os Velhos
dos dedos
a água cerze orifícios.
Noite fora a lua afia pastagens.
Molda-se a argila do corpo
com lágrimas.
Outra precisão,
outra imobilidade:
a do pião
na retina
de uma criança.
In: TREVISAN, Armindo. A mesa do silêncio. Porto Alegre: L± Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Os Velhos
1 113
Eduardo Guimaraens
Tudo que faz da carne um mistério inquietante
D'une beauté effrayante, presque
spectrale
THÉOPHILE GAUTIER
Tudo que faz da carne um mistério inquietante,
languescências, brancor de túmulos ao luar,
marfins de rosa murcha, inerte e singular,
tudo o seu corpo tem, de abandonada amante.
Nimba-lhe a fronte o horror. Quando emudece, o olhar
mostra a antiga tortura eterna e alucinante,
porque os seus olhos são dois tercetos de Dante
que Gustavo Doré deixou por ilustrar!
Do gesto vão, jamais de arremesso ou de assomo,
fez o esforço brutal que dá glória ao perigo;
atrai assim, contudo, a alma do sonhador,
magnífica, fatal e funerária como
hirta e nua, ao entrar de um cenotáfio antigo,
uma estátua da morte, um mármore de dor!
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944
spectrale
THÉOPHILE GAUTIER
Tudo que faz da carne um mistério inquietante,
languescências, brancor de túmulos ao luar,
marfins de rosa murcha, inerte e singular,
tudo o seu corpo tem, de abandonada amante.
Nimba-lhe a fronte o horror. Quando emudece, o olhar
mostra a antiga tortura eterna e alucinante,
porque os seus olhos são dois tercetos de Dante
que Gustavo Doré deixou por ilustrar!
Do gesto vão, jamais de arremesso ou de assomo,
fez o esforço brutal que dá glória ao perigo;
atrai assim, contudo, a alma do sonhador,
magnífica, fatal e funerária como
hirta e nua, ao entrar de um cenotáfio antigo,
uma estátua da morte, um mármore de dor!
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944
995
Álvares de Azevedo
Pálida à luz da lâmpada sombria
Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!
Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biográficas por Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas por Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1949. p.568
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!
Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biográficas por Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas por Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1949. p.568
5 307
Cruz e Sousa
Incensos
Dentre o chorar dos trêmulos violinos,
por entre os sons dos órgãos soluçantes
sobem nas catedrais os neblinantes
incensos vagos, que recordam hinos...
Rolos d'incensos alvadios, finos
e transparentes, fúlgidos, radiantes,
que elevam-se aos espaços, ondulantes,
em Quimeras e Sonhos diamantinos.
Relembrando turíbulos de prata
incensos aromáticos desata
teu corpo ebúrneo, de sedosos flancos.
Claros incensos imortais que exalam,
que lânguidas e límpidas trescalam
as luas virgens dos teus seios brancos.
Publicado no Livro Broquéis (1893).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1981. pg. 32
por entre os sons dos órgãos soluçantes
sobem nas catedrais os neblinantes
incensos vagos, que recordam hinos...
Rolos d'incensos alvadios, finos
e transparentes, fúlgidos, radiantes,
que elevam-se aos espaços, ondulantes,
em Quimeras e Sonhos diamantinos.
Relembrando turíbulos de prata
incensos aromáticos desata
teu corpo ebúrneo, de sedosos flancos.
Claros incensos imortais que exalam,
que lânguidas e límpidas trescalam
as luas virgens dos teus seios brancos.
Publicado no Livro Broquéis (1893).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1981. pg. 32
4 064
Gilka Machado
Verão
A Primavera veio
e se foi, mas deixou tremendo em cada seio
um rebento de amor. O Verão se acentua,
e, de manhã, bem cedo,
vêm dos silêncios amplos e sombrios
dos versudos moitais,
vêm do arvoredo,
murmúrios
macios
de cicios...
Há um mistério, um segredo
que sai dos íntimos refolhos
da alma dos animais,
das plantas, do minério,
– amoroso mistério
que as mulheres relatam pelos olhos.
Parece mais redonda
a curva da montanha, a curva da onda...
Por onde quer que a luz dos olhos entre
estranha tumescência encontra em cada ventre;
o claro e escampo céu, sobre as coisas aberto
da terra está mais perto
e está mais lindo,
como que pesado, como que caindo,
das entranhas contendo nos profundos
desvãos a gravidez de novos mundos.
Verão!
Que maravilha!
– a luz fervilha
em tudo:
nota-se do silêncio no veludo
uma palpitação
de existência no embrião;
partículas de Sol a água envolve, rolando,
partículas de Sol tremem, de quando em quando,
na fronderia, no ar;
partículas de Sol pululam pela estrada
que trilho, iluminada...
Creio que a luz esteja a desovar,
sinto-a vivendo, sinto-a vibrando
na minha pele, em cada membro, a cada
instante, e vago contaminada,
pelo gérmens vitais da procriação solar.
O dia lembra uma exaustão de amor...
Verão! Que acídia, que langor!...
Quem me dera também me desdobrar assim
como esse azul etéreo
que paira sobre mim
num lírico elastério!...
Por ti, Verão, todo meu corpo sente
ânsia de se expandir indefinidamente,
ânsia de se esticar, de se esticar
como as montanhas, como o mar,
em curvas lentas, no semiústo ambiente;
ânsia de distender
uma serpente
que carrego enroscada no meu ser.
Quero amor, quero ardência! A ti me exponho.
Verão, sou toda fecundidade!
– O calor me penetra, o Sol me invade
o senso,
e tudo em torno a mim se torna mais extenso,
tudo em que os olhos ponho:
o céu, o oceano, a mata...
E enquanto em gestação a Terra se dilata,
Dilata-se minha alma à gestação do Sonho.
Publicado no livro Mulher Nua (1922).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Rio de Janeiro: L. Christiano, 1992. p. 237-239
e se foi, mas deixou tremendo em cada seio
um rebento de amor. O Verão se acentua,
e, de manhã, bem cedo,
vêm dos silêncios amplos e sombrios
dos versudos moitais,
vêm do arvoredo,
murmúrios
macios
de cicios...
Há um mistério, um segredo
que sai dos íntimos refolhos
da alma dos animais,
das plantas, do minério,
– amoroso mistério
que as mulheres relatam pelos olhos.
Parece mais redonda
a curva da montanha, a curva da onda...
Por onde quer que a luz dos olhos entre
estranha tumescência encontra em cada ventre;
o claro e escampo céu, sobre as coisas aberto
da terra está mais perto
e está mais lindo,
como que pesado, como que caindo,
das entranhas contendo nos profundos
desvãos a gravidez de novos mundos.
Verão!
Que maravilha!
– a luz fervilha
em tudo:
nota-se do silêncio no veludo
uma palpitação
de existência no embrião;
partículas de Sol a água envolve, rolando,
partículas de Sol tremem, de quando em quando,
na fronderia, no ar;
partículas de Sol pululam pela estrada
que trilho, iluminada...
Creio que a luz esteja a desovar,
sinto-a vivendo, sinto-a vibrando
na minha pele, em cada membro, a cada
instante, e vago contaminada,
pelo gérmens vitais da procriação solar.
O dia lembra uma exaustão de amor...
Verão! Que acídia, que langor!...
Quem me dera também me desdobrar assim
como esse azul etéreo
que paira sobre mim
num lírico elastério!...
Por ti, Verão, todo meu corpo sente
ânsia de se expandir indefinidamente,
ânsia de se esticar, de se esticar
como as montanhas, como o mar,
em curvas lentas, no semiústo ambiente;
ânsia de distender
uma serpente
que carrego enroscada no meu ser.
Quero amor, quero ardência! A ti me exponho.
Verão, sou toda fecundidade!
– O calor me penetra, o Sol me invade
o senso,
e tudo em torno a mim se torna mais extenso,
tudo em que os olhos ponho:
o céu, o oceano, a mata...
E enquanto em gestação a Terra se dilata,
Dilata-se minha alma à gestação do Sonho.
Publicado no livro Mulher Nua (1922).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Rio de Janeiro: L. Christiano, 1992. p. 237-239
2 155
Felipe d’Oliveira
Cenário de Louça e de Cristal
A onda e a algazarra espocam girândolas sonoras.
As serpentinas dos risos sem compasso
se arremessam de lado a lado,
estendem no azul redes aéreas de rumores eufóricos.
A onda bate a cadência no seu gongo líquido,
— fermata sem fim, pasta melódica em que
se fundem e se amaciam
todas as notas do alarido.
A manhã ressoa,
o mar redondo é todo um copo de cristal
vibrado pelo atrito de dedos luminosos.
A manhã põe brunidos de faiança
no mosaico desmanchado sobre a areia.
As tintas se interpenetram, móveis,
— puzzle vivo que a vaga empurra e espalha —
e as cores correm, chocam-se, repelem-se,
como uma grande bola de mercúrio
desagregada em gotas coloridas.
O arlequim da manhã, caindo do alto,
desarticulou os pedaços da roupa policrômica
e foi esmaltar os "tóraces" e os ventres
com o arco-íris decomposto dos losangos.
Os corpos úmidos deslocam-se,
brilham no fundo de porcelana que o azul
espesso enxuga.
Elásticos, libertos,
os corpos úmidos desenham ritmos instintivos
e mergulhados no sol,
que os alivia de um peso igual a seu
volume em luz compacta,
ainda guardam a leveza dos movimentos na água.
A manhã progride em tons,
transborda de roxos, verdes, escarlates.
Abrem-se umbelíferas gigantéias de novos guarda-sóis.
Outros ombros irrompem de novas capas
pintalgadas, — vitrais de pano,
corrediços, baixados sobre a areia.
E o homem dos balões de borracha cai da altura
pendurado a um pára-quedas de esferas multicores
que, agitadas às pontas dos barbantes,
sacolejam no ar a flor desmanchada de
um fogo de artifício em pleno dia.
Os corpos úmidos desenrolam
a ronda dos troncos harmoniosos,
dos seios em ponta,
das espáduas queimadas,
das coxas lisas,
buscam-se, penetram-se à distância,
atropelam-se nas fugas ágeis,
sem perceber o rapaz corcunda de maiô preto,
amargo e imóvel,
recurvo, arqueado em G maiúsculo,
que pensa, triste, a olhar de longe o atleta
de camisa verde:
— Se o mundo fosse de corcundas
eu de certo teria nascido como ele...
E a manhã continua,
sacudindo cores
como uma arara que se espluma.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Cenários.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.69-70
As serpentinas dos risos sem compasso
se arremessam de lado a lado,
estendem no azul redes aéreas de rumores eufóricos.
A onda bate a cadência no seu gongo líquido,
— fermata sem fim, pasta melódica em que
se fundem e se amaciam
todas as notas do alarido.
A manhã ressoa,
o mar redondo é todo um copo de cristal
vibrado pelo atrito de dedos luminosos.
A manhã põe brunidos de faiança
no mosaico desmanchado sobre a areia.
As tintas se interpenetram, móveis,
— puzzle vivo que a vaga empurra e espalha —
e as cores correm, chocam-se, repelem-se,
como uma grande bola de mercúrio
desagregada em gotas coloridas.
O arlequim da manhã, caindo do alto,
desarticulou os pedaços da roupa policrômica
e foi esmaltar os "tóraces" e os ventres
com o arco-íris decomposto dos losangos.
Os corpos úmidos deslocam-se,
brilham no fundo de porcelana que o azul
espesso enxuga.
Elásticos, libertos,
os corpos úmidos desenham ritmos instintivos
e mergulhados no sol,
que os alivia de um peso igual a seu
volume em luz compacta,
ainda guardam a leveza dos movimentos na água.
A manhã progride em tons,
transborda de roxos, verdes, escarlates.
Abrem-se umbelíferas gigantéias de novos guarda-sóis.
Outros ombros irrompem de novas capas
pintalgadas, — vitrais de pano,
corrediços, baixados sobre a areia.
E o homem dos balões de borracha cai da altura
pendurado a um pára-quedas de esferas multicores
que, agitadas às pontas dos barbantes,
sacolejam no ar a flor desmanchada de
um fogo de artifício em pleno dia.
Os corpos úmidos desenrolam
a ronda dos troncos harmoniosos,
dos seios em ponta,
das espáduas queimadas,
das coxas lisas,
buscam-se, penetram-se à distância,
atropelam-se nas fugas ágeis,
sem perceber o rapaz corcunda de maiô preto,
amargo e imóvel,
recurvo, arqueado em G maiúsculo,
que pensa, triste, a olhar de longe o atleta
de camisa verde:
— Se o mundo fosse de corcundas
eu de certo teria nascido como ele...
E a manhã continua,
sacudindo cores
como uma arara que se espluma.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Cenários.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.69-70
1 351
Álvares de Azevedo
Tenho um seio que delira
I
Tenho um seio que delira
Como as tuas harmonias!
Que treme quando suspira,
Que geme como gemias!
II
Tenho músicas ardentes,
Ais do meu amor insano,
Que palpitam mais dormentes
Do que os sons do teu piano!
III
Tenho cordas argentinas
Que a noite faz acordar,
Como as nuvens peregrinas
Das gaivotas do alto mar!
IV
Como a teus dedos lindinhos
O teu piano gemeu,
Vibra-me o seio aos dedinhos
Dos anjos loiros do céu!
V
Vibra à noite do mistério,
Se o banha o frouxo luar,
Se passa teu rosto aéreo
No vaporoso sonhar!
VI
Como tremem teus dedinhos
O saudoso piano teu,
Vibram-me n'alma os anjinhos,
Os anjos loiros do céu!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Tenho um seio que delira
Como as tuas harmonias!
Que treme quando suspira,
Que geme como gemias!
II
Tenho músicas ardentes,
Ais do meu amor insano,
Que palpitam mais dormentes
Do que os sons do teu piano!
III
Tenho cordas argentinas
Que a noite faz acordar,
Como as nuvens peregrinas
Das gaivotas do alto mar!
IV
Como a teus dedos lindinhos
O teu piano gemeu,
Vibra-me o seio aos dedinhos
Dos anjos loiros do céu!
V
Vibra à noite do mistério,
Se o banha o frouxo luar,
Se passa teu rosto aéreo
No vaporoso sonhar!
VI
Como tremem teus dedinhos
O saudoso piano teu,
Vibram-me n'alma os anjinhos,
Os anjos loiros do céu!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
3 025
Mafalda Veiga
Soslaio
húmido canto da boca
húmido olhar de soslaio
fresco de verde molhado
gotas de verde luar
riso no canto da boca
tão descarado no olhar
da cor bonita de Maio
húmido olhar de soslaio
sol que amormece na pele
gato a dormir na janela
o meu amor enroscado
em linho, meiguice e mel
sonhos no rubro dos lábios
fresco de verde molhado
da côr intensa de Maio
húmido olhar de soslaio
faz-me comichão na alma
o azul do olhar roçando
o riso que põe bricando
no canto da minha boca
riso de luar molhado
seus olhos do azul de Maio
húmido canto da boca
húmido olhar de soslaio
húmido olhar de soslaio
fresco de verde molhado
gotas de verde luar
riso no canto da boca
tão descarado no olhar
da cor bonita de Maio
húmido olhar de soslaio
sol que amormece na pele
gato a dormir na janela
o meu amor enroscado
em linho, meiguice e mel
sonhos no rubro dos lábios
fresco de verde molhado
da côr intensa de Maio
húmido olhar de soslaio
faz-me comichão na alma
o azul do olhar roçando
o riso que põe bricando
no canto da minha boca
riso de luar molhado
seus olhos do azul de Maio
húmido canto da boca
húmido olhar de soslaio
1 397
Eloise Petter
SOMBRA DE UM ABUTRE INSIDIOSO
Declaro a mim mesmo estes versos
Que a nuvem da paixão tornam dispersos
Encontrar meus desígnios absortos
Sombra de um abutre insidioso
Lua incandescente a derreter
Neste céu escuro deste ser
Carne flamejante, tenebrosa
Vaporosa se dissolve de prazer
Corpo insaciável desta vida
Lingua louca, contingente oceano
Nas palavras que te podem ser ditas
Não sucumbem à frieza ao teu encanto
Incorpórea sombra dança intermitente
Eu a sigo, apaixonada peregrina
Sobre o céu clemente e lento, eu me despeço
Uma noite no sepulcro do universo
Que a nuvem da paixão tornam dispersos
Encontrar meus desígnios absortos
Sombra de um abutre insidioso
Lua incandescente a derreter
Neste céu escuro deste ser
Carne flamejante, tenebrosa
Vaporosa se dissolve de prazer
Corpo insaciável desta vida
Lingua louca, contingente oceano
Nas palavras que te podem ser ditas
Não sucumbem à frieza ao teu encanto
Incorpórea sombra dança intermitente
Eu a sigo, apaixonada peregrina
Sobre o céu clemente e lento, eu me despeço
Uma noite no sepulcro do universo
929
Paulo Leminski
DONNA MI PRIEGA 88
se amor é troca
ou entrega louca
discutem os sábios
entre os pequenos
e os grandes lábios
no primeiro caso
onde começa o acaso
e onde acaba o propósito
se tudo o que fazemos
é menos que amor
mas ainda não é ódio?
a tese segunda
evapora em pergunta
que entrega é tão louca
que toda espera é pouca?
qual dos cindo mil sentidos
está livre de mal-entendidos?
ou entrega louca
discutem os sábios
entre os pequenos
e os grandes lábios
no primeiro caso
onde começa o acaso
e onde acaba o propósito
se tudo o que fazemos
é menos que amor
mas ainda não é ódio?
a tese segunda
evapora em pergunta
que entrega é tão louca
que toda espera é pouca?
qual dos cindo mil sentidos
está livre de mal-entendidos?
2 359
Edgar Allan Poe
Beloved Physician
The pulse beats ten and intermits;
God nerve the soul that ne'er forgets
In calm or storm, by night or day,
Its steady toil, its loyalty.
[. . . ]
[. . . ]
The pulse beats ten and intermits;
God shield the soul that ne'er forgets.
[. . . ]
[. . . ]
The pulse beats ten and intermits;
God guide the soul that ne'er forgets.
[. . . ]
[. . . ] so tired, so weary,
The soft head bows, the sweet eyes close,
The faithful heart yields to repose.
God nerve the soul that ne'er forgets
In calm or storm, by night or day,
Its steady toil, its loyalty.
[. . . ]
[. . . ]
The pulse beats ten and intermits;
God shield the soul that ne'er forgets.
[. . . ]
[. . . ]
The pulse beats ten and intermits;
God guide the soul that ne'er forgets.
[. . . ]
[. . . ] so tired, so weary,
The soft head bows, the sweet eyes close,
The faithful heart yields to repose.
1 282
Augusto dos Anjos
Ariana
Ela é o tipo perfeita da ariana,
Branca, nevada, púbere, mimosa,
A carne exuberante e capitosa
Trescala a essência que de si dinama.
As níveas pomas do candor da rosa,
Rendilhando-lhe o colo de sultana,
Emergem da camisa cetinosa
Entre as rendas sutis de filigrana.
Dorme talvez. Em flácido abandono
Lembra formosa no seu casto sono
A languidez dormente da indiana.
Enquanto o amante pálido, a seu lado
Medita, a fronte triste, o olhar velado
No Mistério da Carne soberana.
Branca, nevada, púbere, mimosa,
A carne exuberante e capitosa
Trescala a essência que de si dinama.
As níveas pomas do candor da rosa,
Rendilhando-lhe o colo de sultana,
Emergem da camisa cetinosa
Entre as rendas sutis de filigrana.
Dorme talvez. Em flácido abandono
Lembra formosa no seu casto sono
A languidez dormente da indiana.
Enquanto o amante pálido, a seu lado
Medita, a fronte triste, o olhar velado
No Mistério da Carne soberana.
2 260
Charles Baudelaire
AS JÓIAS
A amada estava nua e, por ser eu seu amante,
Das jóias só guardara as que o bulício inquieta,
Cujo rico esplendor lhe dava esse ar triunfante
Que em seus dias de glória a escrava moura afeta.
Quando ela dança e entorna um timbre acre e sonoro,
Este universo mineral que à luz figura
Ao êxtase me leva, e é com furor que adoro
As coisas em que o som ao fogo se mistura.
Ela estava deitada e se deixava amar,
E do alto do divã, imersa em paz, sorria
A meu amor profundo e doce como o mar,
Que ao corpo, como à escarpa, em ondas lhe subia.
O olhar cravado em mim, como um tigre abatido,
Com ar vago e distante ela ensaiava poses,
E o lúbrico fervor à candidez unido
Punha-lhe um novo encanto às cruéis metamorfoses.
E sua perna e o braço, a coxa e os rins, untados
Como de óleo, imitar de um cisne a fluida linha,
Passavam diante de meus olhos sossegados;
E o ventre e os seios, como cachos de uma vinha,
Se aproximavam, mais sutis que Anjos do Mal,
Para agitar minha alma enfim posta em repouso,
Ou arrancá-la então a rocha de cristal
Onde, calma e sozinha, ela encontra pouso.
Como se a luz de um novo esboço, unidade eu via
De Antíope a cintura a um busto adolescente,
De tal modo que os quadris moldavam-lhe a bacia.
E a maquilagem lhe era esplêndida e luzente!
- E estando a lamparina agora agonizante,
Como na alcova houvesse a luz só da lareira
Toda vez que emitia um suspiro faiscante,
Inundava de sangue essa pele trigueira.
Das jóias só guardara as que o bulício inquieta,
Cujo rico esplendor lhe dava esse ar triunfante
Que em seus dias de glória a escrava moura afeta.
Quando ela dança e entorna um timbre acre e sonoro,
Este universo mineral que à luz figura
Ao êxtase me leva, e é com furor que adoro
As coisas em que o som ao fogo se mistura.
Ela estava deitada e se deixava amar,
E do alto do divã, imersa em paz, sorria
A meu amor profundo e doce como o mar,
Que ao corpo, como à escarpa, em ondas lhe subia.
O olhar cravado em mim, como um tigre abatido,
Com ar vago e distante ela ensaiava poses,
E o lúbrico fervor à candidez unido
Punha-lhe um novo encanto às cruéis metamorfoses.
E sua perna e o braço, a coxa e os rins, untados
Como de óleo, imitar de um cisne a fluida linha,
Passavam diante de meus olhos sossegados;
E o ventre e os seios, como cachos de uma vinha,
Se aproximavam, mais sutis que Anjos do Mal,
Para agitar minha alma enfim posta em repouso,
Ou arrancá-la então a rocha de cristal
Onde, calma e sozinha, ela encontra pouso.
Como se a luz de um novo esboço, unidade eu via
De Antíope a cintura a um busto adolescente,
De tal modo que os quadris moldavam-lhe a bacia.
E a maquilagem lhe era esplêndida e luzente!
- E estando a lamparina agora agonizante,
Como na alcova houvesse a luz só da lareira
Toda vez que emitia um suspiro faiscante,
Inundava de sangue essa pele trigueira.
3 892
Felipe Larson
A FLOR DO DESEJO
Você liga a toda hora
Pra dizer que me adora
Você percebe ansiedade
Mas no fundo é saudade
Plantas baixas no caminho
Pra mostrar o seu destino
No seu pequeno coração
Existe um pouco de paixão?
Ao menos por mim
Você sabe que te quero
No teu corpo, me perco
No teu beijo, eu derreto
Você quer, eu também quero
No teu colo, me esquento
A flor do desejo
Com seu jeito apaixonante
Me faz sentir distante
Com seus olhos azuis
E nossos corpos nus
Pra dizer que me adora
Você percebe ansiedade
Mas no fundo é saudade
Plantas baixas no caminho
Pra mostrar o seu destino
No seu pequeno coração
Existe um pouco de paixão?
Ao menos por mim
Você sabe que te quero
No teu corpo, me perco
No teu beijo, eu derreto
Você quer, eu também quero
No teu colo, me esquento
A flor do desejo
Com seu jeito apaixonante
Me faz sentir distante
Com seus olhos azuis
E nossos corpos nus
756
Luís Vianna
À MULHER FEIA
Mulher exótica
É aquela
Que em sua fealdade
É bela.
Tão Magricela
Que encanta,
Quase quebra
Enquanto anda.
Não tem barriga,
Nem seios.
Dou-lhe uma chance,
Belos cabelos.
Nariz pontudo,
Rosto quadrado;
E o quadril?
Maracujá chupado.
10/10/2000
É aquela
Que em sua fealdade
É bela.
Tão Magricela
Que encanta,
Quase quebra
Enquanto anda.
Não tem barriga,
Nem seios.
Dou-lhe uma chance,
Belos cabelos.
Nariz pontudo,
Rosto quadrado;
E o quadril?
Maracujá chupado.
10/10/2000
1 367
Luís Vianna
PÉ
Existem vários tipos de pés.
Pés bonitos,
Pés fedidos,
Muitos chulés.
O pé tipo esparramado
É aquele folgado
Que já nasce dono
Do chão todo.
O pé comprido
Que de tão longínquo
Com o calcanhar em Blumenau
Põe o dedão em Natal;
(Talvez por isto
O ABC seja tão poluído.)
E o pé pequeno,
Um pé de moça,
De um fedor pouco ameno
Espanta até mosca.
O pé bonito
E cheiroso
É fetiche sexual
De vários moços.
Pé, coitado,
Só porque está
Lá embaixo isolado
É por muitos desprezado.
20/06/2001
Pés bonitos,
Pés fedidos,
Muitos chulés.
O pé tipo esparramado
É aquele folgado
Que já nasce dono
Do chão todo.
O pé comprido
Que de tão longínquo
Com o calcanhar em Blumenau
Põe o dedão em Natal;
(Talvez por isto
O ABC seja tão poluído.)
E o pé pequeno,
Um pé de moça,
De um fedor pouco ameno
Espanta até mosca.
O pé bonito
E cheiroso
É fetiche sexual
De vários moços.
Pé, coitado,
Só porque está
Lá embaixo isolado
É por muitos desprezado.
20/06/2001
1 043
Luís Vianna
COBRAS
Que interessante
Esta criatura extressante.
Por uns cultuada,
Por outros odiada.
Bicho comprido, fino,
Sem braço nem pé;
Sobe em árvore, anda e nada, pois é,
Este interessante animal roliço.
Interessante,
Ouve sem ouvido
O bastante
Para te deixar oprimido.
Com dois pênis e um pulmão,
Deve cansar muito,
Mas no sexo não.
20/06/2001
Esta criatura extressante.
Por uns cultuada,
Por outros odiada.
Bicho comprido, fino,
Sem braço nem pé;
Sobe em árvore, anda e nada, pois é,
Este interessante animal roliço.
Interessante,
Ouve sem ouvido
O bastante
Para te deixar oprimido.
Com dois pênis e um pulmão,
Deve cansar muito,
Mas no sexo não.
20/06/2001
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