Poemas neste tema
Cultura e Tradição
Bronisława Wajs
Água, que corre
Já há muito passou o tempo
dos ciganos, que vagavam.
E eu os vi:
são ágeis como a água,
forte, clara,
quando flui.
E adivinho que talvez
ela deseje falar.
Pobre, não sabe nenhuma língua,
para ela falar, para cantar.
A cada vez apenas goteja a prata,
sussurra como o coração
a fala da água.
Apenas o cavalo que pasta na grama
permanece próximo
a escuta e entende os murmúrios.
Mas ela não olha para ele,
foge, nada para mais longe,
pois os olhos não podiam ver
o rio, que corre.
964
Sosigenes Costa
do poema longo Iararana
Esse bicho da Oropa tinha parte com o diabo.
Esse bicho da Oropa foi o diabo neste rio
Ele fez guerra com espingarda aos cabocos do mato
tinha corpo de cavalo e andava de quatro pés
Mas ele dava na gente de taca e facão
e ensinou a gente a tirar broto de cacau
e o cacau desbrotado ficou parrudo
e bonitão como danado.
(Roda)
E o cacau foi chamado o alimento do céu,
a baba-de-moça comida na lua.
E o cacau ficou na coroa da lua,
e os meninos fizeram a roda na rua,
pedindo à lua manjar do céu.
Carinha de anjo,
moça do céu,
bença, dindinha,
me dê chá do céu,
me dê chocolate,
me dê bombom,
baba de lua
com manuê.
Chá de santinho
me dê me dê,
café de anjo
me dê me dê.
Dindinha, lua,
carinha de anjo,
me dê chá da lua
mais uma broa
pra meu pintinho
que saiu do ovo
que pinta pôs,
vestido de pelo
como um morcego,
feito uma poncã
de pó-de-arroz.
Me dê chocolate,
me dê bombom,
a teobroma
de seu Linneu.
A lua batiza
menino que nasce
depois que o cavalo
andou na lua
botando aquilo
que faz bombom.
E o retrato do cavalo ficou na lua
e ainda se vê o bichão na lua
que está redonda como um botão.
Não é S. Jorge que está na lua.
Quem está na lua é aquele bichão.
1 315
Pentti Saarikoski
Fragmentos de Convite para a dança
V
Não retornes
Quetzalcoatl
aqui agora adoram-se outros deuses
as penas do teu pássaro
à venda em lojas para turistas
teus lagos congelados
as pontes de ilha a ilha
escapamentos para as ansiedades do povo
das janelas de edifícios
olhos cansados contemplam a praça
rubra com o sangue dos inocentes
não retornes
Quetzalcoatl
fica com a fé dos teus pais
668
Audre Lorde
Uma mulher fala
A lua marcada e tocada pelo sol
minha mágica é ágrafa
mas quando o mar der as costas,
deixará para trás meu formato.
Não busco favor
intocado pelo sangue
implacável como a praga do amor
permanente como meus equívocos
ou meu orgulho
Eu não misturo
amor com piedade
nem ódio com desdém
e se você me conhecesse
olhe dentro das entranhas de Urano
onde os oceanos sem sossego calcam
Eu não habito
em meu nascimento nem em minhas divindades
que sou sem idade e meio-formada
e ainda em busca
de minhas irmãs
bruxas em Daomé
me vestem em seus tecidos em camadas
como nossa mãe fazia
de luto.
Eu sou mulher
há muito tempo
cuidado com meu sorriso
Eu sou dissimulada, mágica velha
e a fúria nova do meio-dia
com todos os teus futuros largos
em promessa
Eu sou
mulher
e não branca
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
A Woman Speaks
Audre Lorde
Moon marked and touched by sun
my magic is unwritten
but when the sea turns back
it will leave my shape behind.
I seek no favor
untouched by blood
unrelenting as the curse of love
permanent as my errors
or my pride
I do not mix
love with pity
nor hate with scorn
and if you would know me
look into the entrails of Uranus
where the restless oceans pound.
I do not dwell
within my birth nor my divinities
who am ageless and half-grown
and still seeking
my sisters
witches in Dahomey
wear me inside their coiled cloths
as our mother did
mourning.
I have been woman
for a long time
beware my smile
I am treacherous with old magic
and the noon's new fury
with all your wide futures
promised
I am
woman
and not white.
minha mágica é ágrafa
mas quando o mar der as costas,
deixará para trás meu formato.
Não busco favor
intocado pelo sangue
implacável como a praga do amor
permanente como meus equívocos
ou meu orgulho
Eu não misturo
amor com piedade
nem ódio com desdém
e se você me conhecesse
olhe dentro das entranhas de Urano
onde os oceanos sem sossego calcam
Eu não habito
em meu nascimento nem em minhas divindades
que sou sem idade e meio-formada
e ainda em busca
de minhas irmãs
bruxas em Daomé
me vestem em seus tecidos em camadas
como nossa mãe fazia
de luto.
Eu sou mulher
há muito tempo
cuidado com meu sorriso
Eu sou dissimulada, mágica velha
e a fúria nova do meio-dia
com todos os teus futuros largos
em promessa
Eu sou
mulher
e não branca
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
A Woman Speaks
Audre Lorde
Moon marked and touched by sun
my magic is unwritten
but when the sea turns back
it will leave my shape behind.
I seek no favor
untouched by blood
unrelenting as the curse of love
permanent as my errors
or my pride
I do not mix
love with pity
nor hate with scorn
and if you would know me
look into the entrails of Uranus
where the restless oceans pound.
I do not dwell
within my birth nor my divinities
who am ageless and half-grown
and still seeking
my sisters
witches in Dahomey
wear me inside their coiled cloths
as our mother did
mourning.
I have been woman
for a long time
beware my smile
I am treacherous with old magic
and the noon's new fury
with all your wide futures
promised
I am
woman
and not white.
5 167
Adão Ventura
Paisagens do Jequitinhonha
Quem dança no vento
no ventre das águas
do Jequitinhonha?
Quem percorre o leve
de breves passos
nas margens do Araçuaí?
Quem detém dos pássaros
o ziguezaguear de vôos
recompondo sombras
sobre lixívias e lavras
de Chapada do Norte?
Quem imprime
em argila
a singeleza dos gestos
dos artesãos de Minas Novas?
1 225
Donizete Galvão
Solilóquio de Nina Simone
Habitou-me um deus espesso.
Sangue cor de fígado.
Veneno talhado, macerado e amargoso.
Fez morada em cada célula.
Nos alvéolos, nas entranhas, sob as unhas.
Expande a veia do pescoço.
Sangra pelas gengivas.
Lateja nas têmporas e nos pulsos.
Planta arrancada da terra africana,
deita suas raízes fundas de baobá
e traz gosto de lama à boca.
Tem sabor atávico a relembrar
o lodo de que se originou o homem.
Habitou-me um deus exigente,
que me fere e exaspera.
Que espezinha o que eu era.
Que fala o que eu não pensara
e, dizendo-me ao contrário,
faz-me gostar do calvário
que, às cegas, eu criei.
Nomeio que não tem nome:
Raio de Iansã, trovão, ciclone,
Sopro de Orixá, c´est moi
Nina Simone.
701
Luís Filipe Castro Mendes
CALICUTE: AQUI DESEMBARCOU VASCO DA GAMA
Depois de cruzarmos rios e passarmos outras praias,
mais ao norte de Calicute,
mostraram-nos, por fim, o lugar
onde verdadeiramente ancorou a frota do Gama:
as naus ficavam ao largo
e em pequenos barcos se iam cruzando e descobrindo
os da terra e os do mar.
Uma mesquita aqui construída não deixa de ser uma homenagem irónica:
os rapazes pescam e correm pela praia, mas a nenhum ocorre
banhar-se no mar, mergulhar, nadar…
Vejo poucas mulheres. Vendem-se, porém, doces numa barraquinha.
O historiador indiano conta pormenores: vem tudo nas crónicas,
assevera,
não se entende como os ingleses se enganaram no local
e foram construir um mamarracho comemorativo, a dez quilómetros daqui!
«Basta ler as crónicas portuguesas» insiste o Professor John «para reconhecer o lugar certo».
O Samorim espera-nos! Irão os nossos pobres presentes uma vez mais
causar o seu enfado? Entramos no automóvel, agradecemos
e esperamos que desta vez corra melhor a audiência!
1 483
Luís Filipe Castro Mendes
Lendo Traduções de Poemas Antigos
(traduções de poemas sânscritos)
Que ficará das palavras
que tantos escreveram sobre a terra?
Às vezes, num velho mosteiro, aparece um rolo
manuscrito e os poemas sânscritos são tão vivos, maliciosos,
e ao mesmo tempo tão obedientes às fórmulas e às metáforas
consagradas,
como os poemas helenísticos da Antologia Palatina.
Um mesmo espírito liga esses gregos romanizados
aos hindus decadentes e fesceninos que tais versos escreveram
no oitavo século já da nossa era.
Os corpos reinam: próximos, confundem-se
numa aproximação eterna de tão efémera
e assumidamente mortal. Eram assim os deuses, dizes?
Algum dia saberemos?
1 262
Luís Filipe Castro Mendes
Os Ghats
Antes da pira
limpam os pés do corpo no rio sagrado,
antes mesmo de chegarem os padres, os familiares, os amigos.
Só vemos aqui o povo e os intocáveis (diz-se dalits, my friend)
encarregados de manejar a morte.
Vi num documentário um desses : «Ninguém mais pode tocar nos mortos»
dizia com orgulho o sem-casta. «Mesmo que seja o Primeiro Ministro.
Só nós podemos preparar os mortos para o seu final.»
Eles não têm medo de olhar os mortos.
Apenas têm quem cuide deles,
quem prepare a lenha, a amontoe,
quem embrulhe o corpo nos panos,
o limpe nas águas sagradas
e ofereça ao filho mais velho a tocha para acender a pira.
1 251
Cândido da Velha
As idades da pedra - II
As pálidas luas das tuas ma~os negras,
os olhos da paisagem insular,
teu corpo conspirando com a noite,
(beijo africano de hu'midas presso~es),
toda a claridade da hora aprofundada
no ventre generoso e farto.
A viagem regressiva aos ancestrais:
O reencontro para la' da linha quebrada,
oculta no tempo; justificac,a~o
de sermos outra vez humanos, simples,
tudo nas pa'lidas palmas das ma~os
quando, materna, apresentaste o peito
à concha do ouvido para que ouvisse
o rumor da noite longinqua
e permitiste ao sono que viesse, ama'vel,
na grande verdade a nosso respeito.
e em toda aquela aurora sem mentira
arborizando o corpo quebrantado
ansia'vamos o dia para celebrarmos
o cacimbo matinal em nosso olhar
no fresco odor da casa de madeira.
os olhos da paisagem insular,
teu corpo conspirando com a noite,
(beijo africano de hu'midas presso~es),
toda a claridade da hora aprofundada
no ventre generoso e farto.
A viagem regressiva aos ancestrais:
O reencontro para la' da linha quebrada,
oculta no tempo; justificac,a~o
de sermos outra vez humanos, simples,
tudo nas pa'lidas palmas das ma~os
quando, materna, apresentaste o peito
à concha do ouvido para que ouvisse
o rumor da noite longinqua
e permitiste ao sono que viesse, ama'vel,
na grande verdade a nosso respeito.
e em toda aquela aurora sem mentira
arborizando o corpo quebrantado
ansia'vamos o dia para celebrarmos
o cacimbo matinal em nosso olhar
no fresco odor da casa de madeira.
1 092
David Mestre
Espera
Existo acento de palavra, carapinha
recordação áspera de monandengue,
mapa de conversas na visitação da lua,
grávida luena sentada no verso da fome.
aqui esqueço África, permaneço
rente ao tiroteio dialecto das mulheres
negras, pasmadas na superfície do medo
que bate oblíquo no quimbo quebrado.
num gabinete da Europa, dois geógrafos
vão assinalar a estranha posição
dum poeta cruzado na esperança morosa
das palavras africanas aguardarem acento.
recordação áspera de monandengue,
mapa de conversas na visitação da lua,
grávida luena sentada no verso da fome.
aqui esqueço África, permaneço
rente ao tiroteio dialecto das mulheres
negras, pasmadas na superfície do medo
que bate oblíquo no quimbo quebrado.
num gabinete da Europa, dois geógrafos
vão assinalar a estranha posição
dum poeta cruzado na esperança morosa
das palavras africanas aguardarem acento.
909
Geraldo Bessa-Victor
O feitiço do batuque
Sinto o som do batuque nos meus ossos,
o ritmo do batuque no meu sangue.
É a voz da marimba e do quissange,
que vibra e plange dentro de minh'alma,
- e meus sonhos, já mortos, já destroços,
ressuscitam, povoando a noite calma.
Tenho na minha voz ardente o grito
desses gritos febris das batucadas,
nas noites em que o fogo das queimadas
parece caminhar para o infinito...
E meus versos são feitos desse canto,
que o vento vai cantando, em riso e pranto,
quanto o batuque avança desflorando
o silêncio de virgens madrugadas.
Músicos negros, colossos,
e negras bailarinas, sensuais,
tocam e dançam, cantando,
agitando meus impetos carnais.
O batuque ressoa-se nos ossos,
seu ritmo louco no meu sangue vibra,
vibra-me nas entranhas, fibra a fibra,
sinto em mim o batuque penetrando
- e já sou possuido de magia!
A batucada tem feitiço eterno.
O batuque de dor e de alegria,
que sinto no meu ser, dentro de mim,
nunca mais tera fim,
nem mesmo alem do Céu e além do Inferno!
o ritmo do batuque no meu sangue.
É a voz da marimba e do quissange,
que vibra e plange dentro de minh'alma,
- e meus sonhos, já mortos, já destroços,
ressuscitam, povoando a noite calma.
Tenho na minha voz ardente o grito
desses gritos febris das batucadas,
nas noites em que o fogo das queimadas
parece caminhar para o infinito...
E meus versos são feitos desse canto,
que o vento vai cantando, em riso e pranto,
quanto o batuque avança desflorando
o silêncio de virgens madrugadas.
Músicos negros, colossos,
e negras bailarinas, sensuais,
tocam e dançam, cantando,
agitando meus impetos carnais.
O batuque ressoa-se nos ossos,
seu ritmo louco no meu sangue vibra,
vibra-me nas entranhas, fibra a fibra,
sinto em mim o batuque penetrando
- e já sou possuido de magia!
A batucada tem feitiço eterno.
O batuque de dor e de alegria,
que sinto no meu ser, dentro de mim,
nunca mais tera fim,
nem mesmo alem do Céu e além do Inferno!
2 232
Cruz e Sousa
Emparedado
(...)
Eu trazia, como cadáveres que me andassem funambulescamente
amarrados às costas, num inquietante e interminável apodrecimento,
todos os empirismos preconceituosos e não sei quanta camada morta,
quanta raça da África curiosa e desolada que a Fisiologia nulificara
para sempre com o riso haeckeliano e papal!
Surgidos de bárbaros, tinha de domar outros mais bárbaros ainda,
cujas plumagens de aborígine alacremente flutuavam através dos
estilos.
Era mister romper o Espaço toldado de brumas, rasgar as espessuras,
as densas argumentações e saberes, desdenhar os juízos altos, por
decreto e por lei, e , enfim, surgir...
Era mister rir com serenidade e afinal com tédio dessa celulazinha
bitolar que irrompe por toda a parte, salta, fecunda, alastra,
explode, transborda e se propaga.
Era mister respirar a grandes haustos na Natureza, desafogar o
peito das opressões ambientes, agitar desassombradamente a cabeça
diante da liberdade absoluta e profunda do Infinito.
Era mister que me deixassem ao menos ser livre no Silêncio e na
Solidão. Que não me negassem a necessidade fatal, imperiosa,
ingênita, de sacudir com liberdade e com volúpia os nervos e
desprender com largueza e com audácia o meu verbo soluçante, na
força impetuosa e indomável da Vontade.
(...)
Publicado no livro Evocações (1898).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.1, p.207. (Literatura brasileira, 12
Eu trazia, como cadáveres que me andassem funambulescamente
amarrados às costas, num inquietante e interminável apodrecimento,
todos os empirismos preconceituosos e não sei quanta camada morta,
quanta raça da África curiosa e desolada que a Fisiologia nulificara
para sempre com o riso haeckeliano e papal!
Surgidos de bárbaros, tinha de domar outros mais bárbaros ainda,
cujas plumagens de aborígine alacremente flutuavam através dos
estilos.
Era mister romper o Espaço toldado de brumas, rasgar as espessuras,
as densas argumentações e saberes, desdenhar os juízos altos, por
decreto e por lei, e , enfim, surgir...
Era mister rir com serenidade e afinal com tédio dessa celulazinha
bitolar que irrompe por toda a parte, salta, fecunda, alastra,
explode, transborda e se propaga.
Era mister respirar a grandes haustos na Natureza, desafogar o
peito das opressões ambientes, agitar desassombradamente a cabeça
diante da liberdade absoluta e profunda do Infinito.
Era mister que me deixassem ao menos ser livre no Silêncio e na
Solidão. Que não me negassem a necessidade fatal, imperiosa,
ingênita, de sacudir com liberdade e com volúpia os nervos e
desprender com largueza e com audácia o meu verbo soluçante, na
força impetuosa e indomável da Vontade.
(...)
Publicado no livro Evocações (1898).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.1, p.207. (Literatura brasileira, 12
3 910
Virgilio Pires
Reminiscência
Quem não se lembra dos bailes da bola preta?
ritmos brasileiros fox mazurcas
E a morna a sublimar paixões
Ao longe na Achada o roncar cadenciado
Dos tambores da Tabanca
No campo de futebol ali pertinho
O Vitória sucumbia perante um Trovadores
Em que o Chabali era o rei
O mundo em guerra
E na terra amaldiçoada
Sem canhões sem Hitler
O povo morria de olhos voltados para o céu
Num gesto clamor secular
Que o hábito tornou ritual
Chuva! Fome! Chuva! Fome!
Quem não se lembra dos bailes da bola preta?
A sala decorada com bolas pretas
Os ritmos brasileiros a transportar os pares
Para o "Rio de Janeiro cidade maravilhosa"
Mazurcas com passos rigorosamente medidos
E a morna morna no violino crioulo do Djédji
Há muitos anos
Os nazis perderam a guerra
A Tabanca desapareceu
Anatematizada como vergonhosa reminescência africana
O Chabali morreu
Surgiram outras guerras
Outros tiranos outros ídolos outros ritmos
E na terra amaldiçoada
O ano passado hoje e sempre
O povo continua com os olhos voltados para o céu
Num gesto ritual
Clamor súplice para outros homens e para Deus
Chuva! Chuva! Chuva!
ritmos brasileiros fox mazurcas
E a morna a sublimar paixões
Ao longe na Achada o roncar cadenciado
Dos tambores da Tabanca
No campo de futebol ali pertinho
O Vitória sucumbia perante um Trovadores
Em que o Chabali era o rei
O mundo em guerra
E na terra amaldiçoada
Sem canhões sem Hitler
O povo morria de olhos voltados para o céu
Num gesto clamor secular
Que o hábito tornou ritual
Chuva! Fome! Chuva! Fome!
Quem não se lembra dos bailes da bola preta?
A sala decorada com bolas pretas
Os ritmos brasileiros a transportar os pares
Para o "Rio de Janeiro cidade maravilhosa"
Mazurcas com passos rigorosamente medidos
E a morna morna no violino crioulo do Djédji
Há muitos anos
Os nazis perderam a guerra
A Tabanca desapareceu
Anatematizada como vergonhosa reminescência africana
O Chabali morreu
Surgiram outras guerras
Outros tiranos outros ídolos outros ritmos
E na terra amaldiçoada
O ano passado hoje e sempre
O povo continua com os olhos voltados para o céu
Num gesto ritual
Clamor súplice para outros homens e para Deus
Chuva! Chuva! Chuva!
1 008
Orlando Mendes
História
Diz a História que descendo
De celtas, mouros e visigodos.
Descendo e deles herdei todos
Os caracteres fundamentais
E talvez herdasse alguns mais
Da mestiçagem de outras raças
Que fizeram guerras, combatendo
Conquistaram e perderam praças.
Diz a História e não tenho
Do contrario uma prova séria
Em testamento que a revele.
E admito pois que o tamanho,
O rosto, o sangue, a cor da pele,
A fria razão e o instinto,
Adquiri em séculos de Ibéria
Para ser o que penso e sinto
O que mostro e o que oculto,
Excitável carne e uma voz
Memória de um país adulto
Que se não cala por não trair-me
No idioma de meus avós,
Para ser a mão direita firme
Que enche de palavras o papel,
Perpétuo aprendiz que sou eu
De velho oficio sem licença.
Admito. E as datas festejo
E retomo lutas que não venço
E amo nas horas do desejo
Com o mesmo requinte que deu
Origem de mim à Criação
E bebo o vinho e como o pão
Da minha sede e da minha fome.
Admito. E por isso, deponho.
Contudo, nada herdei que dome
A grandeza nova que transmito,
Não apenas sede, fome e sonho
De vinho, de pão ou de infinito,
Desejo, posse e fecundidade
Coragem forjada no segredo
Medo que se chore ou se brade
Guerra de amigo ou de inimigo,
Não própriamente o enredo
Mas esta seiva elementar
De África nos versos que digo
E os homens a saibam cantar.
De celtas, mouros e visigodos.
Descendo e deles herdei todos
Os caracteres fundamentais
E talvez herdasse alguns mais
Da mestiçagem de outras raças
Que fizeram guerras, combatendo
Conquistaram e perderam praças.
Diz a História e não tenho
Do contrario uma prova séria
Em testamento que a revele.
E admito pois que o tamanho,
O rosto, o sangue, a cor da pele,
A fria razão e o instinto,
Adquiri em séculos de Ibéria
Para ser o que penso e sinto
O que mostro e o que oculto,
Excitável carne e uma voz
Memória de um país adulto
Que se não cala por não trair-me
No idioma de meus avós,
Para ser a mão direita firme
Que enche de palavras o papel,
Perpétuo aprendiz que sou eu
De velho oficio sem licença.
Admito. E as datas festejo
E retomo lutas que não venço
E amo nas horas do desejo
Com o mesmo requinte que deu
Origem de mim à Criação
E bebo o vinho e como o pão
Da minha sede e da minha fome.
Admito. E por isso, deponho.
Contudo, nada herdei que dome
A grandeza nova que transmito,
Não apenas sede, fome e sonho
De vinho, de pão ou de infinito,
Desejo, posse e fecundidade
Coragem forjada no segredo
Medo que se chore ou se brade
Guerra de amigo ou de inimigo,
Não própriamente o enredo
Mas esta seiva elementar
De África nos versos que digo
E os homens a saibam cantar.
1 303
Sousândrade
Canto Segundo [II
(MUXURANA, histórica:)
— Os primeiros fizeram
As escravas de nós;
Nossas filhas roubavam,
Logravam
E vendiam após.
(...)
(Coro dos Índios:)
— Mas os tempos mudaram,
Já não se anda mais nu:
Hoje o padre que folga,
Que empolga,
Vem conosco ao tatu.
(TAGUAIBANUÇU conciliador; coro em desordem:)
— Eram dias do estanco,
Das conquista da Fé
Por salvar tanto impio
Gentio...
— Maranduba, abaré!...
(...)
Publicado no livro Impressos (1868/1869). Poema integrante da série Guesa Errante.
In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888
NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
— Os primeiros fizeram
As escravas de nós;
Nossas filhas roubavam,
Logravam
E vendiam após.
(...)
(Coro dos Índios:)
— Mas os tempos mudaram,
Já não se anda mais nu:
Hoje o padre que folga,
Que empolga,
Vem conosco ao tatu.
(TAGUAIBANUÇU conciliador; coro em desordem:)
— Eram dias do estanco,
Das conquista da Fé
Por salvar tanto impio
Gentio...
— Maranduba, abaré!...
(...)
Publicado no livro Impressos (1868/1869). Poema integrante da série Guesa Errante.
In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888
NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
2 856
Torquato Neto
Geléia Geral
um poeta desfolha a bandeira
e a manhã tropical se inicia
resplandente cadente fagueira
num calor girassol com alegria
na geléia geral brasileira
que o jornal do brasil anuncia
ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi
"a alegria é a prova dos nove"
e a tristeza é teu porto seguro
minha terra é onde o sol é mais limpo
e mangueira é onde o samba é mais puro
tumbadora na selva-selvagem
pindorama, país do futuro
ê bumba iê, iê boi
ano que vem mê que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi
é a mesma dança na sala
no canecão na TV
e quem não dança não fala
assiste a tudo e se cala
não vê no meio da sala
as relíquias do brasil:
doce mulata malvada
um elepê da sinatra
maracujá mês de abril
santo barroco baiano
superpoder de paisano
formiplac e céu de anil
três destaques da portela
carne seca na janela
alguém que chora por mim
um carnaval de verdade
hospitaleira amizade
brutalidade jardim
ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi
plurialva contente e brejeira
miss linda brasil diz bom dia
e outra moça também carolina
da janela examina a folia
salve o lindo pendão dos seus olhos
e a saúde que o olhar irradia
ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi
um poeta desfolha a bandeira
e eu me sinto melhor colorido
pego um jato viajo arrebento
como roteiro do sexto sentido
foz do morro, pilão de concreto
tropicália, bananas ao vento
ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança meu boi
Imagem - 00360001
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gi
e a manhã tropical se inicia
resplandente cadente fagueira
num calor girassol com alegria
na geléia geral brasileira
que o jornal do brasil anuncia
ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi
"a alegria é a prova dos nove"
e a tristeza é teu porto seguro
minha terra é onde o sol é mais limpo
e mangueira é onde o samba é mais puro
tumbadora na selva-selvagem
pindorama, país do futuro
ê bumba iê, iê boi
ano que vem mê que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi
é a mesma dança na sala
no canecão na TV
e quem não dança não fala
assiste a tudo e se cala
não vê no meio da sala
as relíquias do brasil:
doce mulata malvada
um elepê da sinatra
maracujá mês de abril
santo barroco baiano
superpoder de paisano
formiplac e céu de anil
três destaques da portela
carne seca na janela
alguém que chora por mim
um carnaval de verdade
hospitaleira amizade
brutalidade jardim
ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi
plurialva contente e brejeira
miss linda brasil diz bom dia
e outra moça também carolina
da janela examina a folia
salve o lindo pendão dos seus olhos
e a saúde que o olhar irradia
ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi
um poeta desfolha a bandeira
e eu me sinto melhor colorido
pego um jato viajo arrebento
como roteiro do sexto sentido
foz do morro, pilão de concreto
tropicália, bananas ao vento
ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança meu boi
Imagem - 00360001
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gi
2 294
Eduardo Guimaraens
Carnaval
Andaluzíssimas Manolas
que faz mais lindas a peineta,
soai, vibrai as castanholas
e a pandeireta!
E vós, dos bandós empoados,
ó Marquesinhas de Watteau,
que abrís os lábios recortados
em formas de ô!
Napolitanas, de escarlate
lenço à cabeça em cada orelha
um argolão, seios "di latte"
e de groselha!
Lascivas Zíngaras de olheiras,
ó pestanudas e fatais,
esfarrapadas feiticeiras
que adivinhais,
lendo nas mãos, sortes de amores,
fados de morte, ó desgraçadas
que, entre esses trapos de mil cores,
sois como Fadas!
Vinde, gementes Colombinas
que abandonou, sem pena, o amor,
ao triste som de mandolinas
da noite em flor!
E vós, soberbas Odaliscas
que Harum-al-Rachild invejara,
tendo um incêndio de faíscas
na carne clara!
Ó Nubianas d'azeviche
e brancos dentes de marfim,
como a giz, postos num fetiche
feito a nanquim!
Ó Gueixas dos jardins de Yeddo:
Nuvem que passa, Arco de jade,
Sonho de luz, casto Segredo,
Sol de bondade,
na graça alacre e flutuante
de aves e peixes e dragões
dos quimonos, à luz berrante
dos seus balões,
vinde! E vós, de que os grandes laços
à testa voam, gráceis lhanas,
para trazer-vos há cem braços,
Alsacianas!
Agora, ó Girls de saiote,
é vossa vez: eia, ao tan-tan
dumone-step, dum fox-trot...
troa o jazz-band!
Ó Baiadeiras! Eh, floristas!
Vós, Escocesas! Midinettes!
Ó saias-curtas! Sufragistas
e gigolettes!
Dai-vos as mãos: e andai à roda,
que a mascarada às ruas sai,
andai à roda, à roda toda!
E desandai!
E queira o céu que a água não role,
que não desbote o rico traje,
mas o divino emplastro mole
dos "maquillages"...
Dirija a ronda a minha Musa
que apenas usa pó de arroz,
pois quanto ao "rouge" que a lambuza,
foi Deus que o pôs...
Imagem - 00350001
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Estâncias de um Peregrino
que faz mais lindas a peineta,
soai, vibrai as castanholas
e a pandeireta!
E vós, dos bandós empoados,
ó Marquesinhas de Watteau,
que abrís os lábios recortados
em formas de ô!
Napolitanas, de escarlate
lenço à cabeça em cada orelha
um argolão, seios "di latte"
e de groselha!
Lascivas Zíngaras de olheiras,
ó pestanudas e fatais,
esfarrapadas feiticeiras
que adivinhais,
lendo nas mãos, sortes de amores,
fados de morte, ó desgraçadas
que, entre esses trapos de mil cores,
sois como Fadas!
Vinde, gementes Colombinas
que abandonou, sem pena, o amor,
ao triste som de mandolinas
da noite em flor!
E vós, soberbas Odaliscas
que Harum-al-Rachild invejara,
tendo um incêndio de faíscas
na carne clara!
Ó Nubianas d'azeviche
e brancos dentes de marfim,
como a giz, postos num fetiche
feito a nanquim!
Ó Gueixas dos jardins de Yeddo:
Nuvem que passa, Arco de jade,
Sonho de luz, casto Segredo,
Sol de bondade,
na graça alacre e flutuante
de aves e peixes e dragões
dos quimonos, à luz berrante
dos seus balões,
vinde! E vós, de que os grandes laços
à testa voam, gráceis lhanas,
para trazer-vos há cem braços,
Alsacianas!
Agora, ó Girls de saiote,
é vossa vez: eia, ao tan-tan
dumone-step, dum fox-trot...
troa o jazz-band!
Ó Baiadeiras! Eh, floristas!
Vós, Escocesas! Midinettes!
Ó saias-curtas! Sufragistas
e gigolettes!
Dai-vos as mãos: e andai à roda,
que a mascarada às ruas sai,
andai à roda, à roda toda!
E desandai!
E queira o céu que a água não role,
que não desbote o rico traje,
mas o divino emplastro mole
dos "maquillages"...
Dirija a ronda a minha Musa
que apenas usa pó de arroz,
pois quanto ao "rouge" que a lambuza,
foi Deus que o pôs...
Imagem - 00350001
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Estâncias de um Peregrino
1 122
Gonçalves Crespo
A Sesta
Na rede, que um negro moroso balança,
Qual berço de espumas,
Formosa crioula repousa e dormita,
Enquanto a mucamba nos ares agita
Um leque de plumas.
Na rede perpassam as trêmulas sombras
Dos altos bambus;
E dorme a crioula de manso embalada,
Pendidos os braços da rede nevada
Mimosos e nus.
A rede, que os ares em torno perfuma
De vivos aromas,
De súbito pára, que o negro indolente
Espreita lascivo da bela dormente
As túmidas pomas.
Na rede suspensa de ramos erguidos
Suspira e sorri
A lânguida moça cercada de flores;
Aos guinchos dá saltos na esteira de cores
Felpudo sagui.
Na rede, por vezes, agita-se a bela,
Talvez murmurando
Em sonhos as trovas cadentes, saudosas,
Que triste colono por noites formosas
Descanta chorando.
A rede nos ares de novo flutua,
E a bela a sonhar!
Ao longe nos bosques escuros, cerrados,
De negros cativos os cantos magoados
Soluçam no ar.
Na rede olorosa, silêncio! deixa-a
Dormir em descanso!...
Escravo, balança-lhe a rede serena;
Mestiça, teu leque de plumas acena
De manso, de manso...
O vento que passe tranqüilo, de leve,
Nas folhas do ingá;
As aves que abafem seu canto sentido;
As rodas do engenho não façam ruído,
Que dorme a Sinhá!
Publicado no livro Miniaturas (1871).
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
Qual berço de espumas,
Formosa crioula repousa e dormita,
Enquanto a mucamba nos ares agita
Um leque de plumas.
Na rede perpassam as trêmulas sombras
Dos altos bambus;
E dorme a crioula de manso embalada,
Pendidos os braços da rede nevada
Mimosos e nus.
A rede, que os ares em torno perfuma
De vivos aromas,
De súbito pára, que o negro indolente
Espreita lascivo da bela dormente
As túmidas pomas.
Na rede suspensa de ramos erguidos
Suspira e sorri
A lânguida moça cercada de flores;
Aos guinchos dá saltos na esteira de cores
Felpudo sagui.
Na rede, por vezes, agita-se a bela,
Talvez murmurando
Em sonhos as trovas cadentes, saudosas,
Que triste colono por noites formosas
Descanta chorando.
A rede nos ares de novo flutua,
E a bela a sonhar!
Ao longe nos bosques escuros, cerrados,
De negros cativos os cantos magoados
Soluçam no ar.
Na rede olorosa, silêncio! deixa-a
Dormir em descanso!...
Escravo, balança-lhe a rede serena;
Mestiça, teu leque de plumas acena
De manso, de manso...
O vento que passe tranqüilo, de leve,
Nas folhas do ingá;
As aves que abafem seu canto sentido;
As rodas do engenho não façam ruído,
Que dorme a Sinhá!
Publicado no livro Miniaturas (1871).
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
2 240
Raul de Leoni
Pórtico
Alma de origem ática, pagã,
Nascida sob aquele firmamento
Que azulou as divinas epopéias,
Sou irmão de Epicuro e de Renan,
Tenho o prazer sutil do pensamento
E a serena elegância das idéias...
Há no meu ser crepúsculos e auroras,
Todas as seleções do gênio ariano,
E a minha sombra amável e macia
Passa na fuga universal das horas,
Colhendo as flores do destino humano
Nos jardins atenienses da Ironia...
(...)
Meu pensamento livre, que se achega
De ideologias claras e espontâneas,
É uma suavíssima cidade grega,
Cuja memória
É uma visão esplêndida na história
Das civilizações mediterrâneas.
Cidade da Ironia e da Beleza,
Fica na dobra azul de um golfo pensativo,
Entre cintas de praias cristalinas,
Rasgando iluminuras de colinas,
Com a graça ornamental de um cromo vivo:
Banham-na antigas águas delirantes,
Azuis, caleidoscópicas, amenas,
Onde se espelha, em refrações distantes,
O vulto panorâmico de Atenas...
Entre os deuses e Sócrates assoma
E envolve na amplitude do seu gênio
Toda a grandeza grega a que remonto;
Da Hélade dos heróis ao fim de Roma,
Das cidades ilustres do Tirreno
Ao mistério das ilhas do Helesponto...
Cidade de virtudes indulgentes,
Filha da Natureza e da Razão,
— Já eivada da luxúria oriental, —
Ela sorri ao Bem, não crê no Mal,
Confia na verdade da Ilusão
E vive na volúpia e na sabedoria,
Brincando com as idéias e com as formas...
(...)
Revendo-se num século submerso.
Meu pensamento, sempre muito humano,
É uma cidade grega decadente,
Do tempo de Luciano,
Que, gloriosa e serena,
Sorrindo da palavra nazarena,
Foi desaparecendo lentamente,
No mais suave crepúsculo das coisas...
Imagem - 00180001
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Luz Mediterrânea.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
Nascida sob aquele firmamento
Que azulou as divinas epopéias,
Sou irmão de Epicuro e de Renan,
Tenho o prazer sutil do pensamento
E a serena elegância das idéias...
Há no meu ser crepúsculos e auroras,
Todas as seleções do gênio ariano,
E a minha sombra amável e macia
Passa na fuga universal das horas,
Colhendo as flores do destino humano
Nos jardins atenienses da Ironia...
(...)
Meu pensamento livre, que se achega
De ideologias claras e espontâneas,
É uma suavíssima cidade grega,
Cuja memória
É uma visão esplêndida na história
Das civilizações mediterrâneas.
Cidade da Ironia e da Beleza,
Fica na dobra azul de um golfo pensativo,
Entre cintas de praias cristalinas,
Rasgando iluminuras de colinas,
Com a graça ornamental de um cromo vivo:
Banham-na antigas águas delirantes,
Azuis, caleidoscópicas, amenas,
Onde se espelha, em refrações distantes,
O vulto panorâmico de Atenas...
Entre os deuses e Sócrates assoma
E envolve na amplitude do seu gênio
Toda a grandeza grega a que remonto;
Da Hélade dos heróis ao fim de Roma,
Das cidades ilustres do Tirreno
Ao mistério das ilhas do Helesponto...
Cidade de virtudes indulgentes,
Filha da Natureza e da Razão,
— Já eivada da luxúria oriental, —
Ela sorri ao Bem, não crê no Mal,
Confia na verdade da Ilusão
E vive na volúpia e na sabedoria,
Brincando com as idéias e com as formas...
(...)
Revendo-se num século submerso.
Meu pensamento, sempre muito humano,
É uma cidade grega decadente,
Do tempo de Luciano,
Que, gloriosa e serena,
Sorrindo da palavra nazarena,
Foi desaparecendo lentamente,
No mais suave crepúsculo das coisas...
Imagem - 00180001
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Luz Mediterrânea.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
2 254
Paulo Leminski
Desmontando o Frevo
desmontando
o brinquedo.
eu descobri
que o frevo
tem muito a ver
com certo
jeito mestiço de ser
um jeito misto
de querer
isto e aquilo
sem nunca estar tranquilo
com aquilo
nem com isto
de ser meio
e meio ser
sem deixar
de ser inteiro
e nem por isso
desistir
de ser completo
mistério
eu quero
ser o janeiro
a chegar
em fevereiro
fazendo o frevo
que eu quero
chegar na frente
em primeiro
Poema integrante da série Caprichos e Relaxos.
In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1983. (Cantadas literárias, 13
o brinquedo.
eu descobri
que o frevo
tem muito a ver
com certo
jeito mestiço de ser
um jeito misto
de querer
isto e aquilo
sem nunca estar tranquilo
com aquilo
nem com isto
de ser meio
e meio ser
sem deixar
de ser inteiro
e nem por isso
desistir
de ser completo
mistério
eu quero
ser o janeiro
a chegar
em fevereiro
fazendo o frevo
que eu quero
chegar na frente
em primeiro
Poema integrante da série Caprichos e Relaxos.
In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1983. (Cantadas literárias, 13
4 559
Sosigenes Costa
I [E Romãozinho foi subindo, foi subindo
(...)
E Romãozinho foi subindo, foi subindo
e chegou na Meroaba de cima.
— Você viu a caipora?
— Não vi não.
E Romãozinho passou pela Bolandeira, cantando:
— Dom Pedro disse a Totonha
sentado naquele beco
que este rio Jequitinhonha
é o rio do estrume seco.
Dom Pedro não era peco.
Dom Pedro disse a Totonha,
Totonha disse a Pacheco.
Pacheco disse a Badico,
o burro contou à vaca,
a besta disse à perua
e a coisa saiu do beco
e se espalhou pela rua.
Este rio Jequitinhonha
é o rio do estrume seco.
Quem me disse foi Joana
que mora com seu Pacheco.
Você viu a caipora?
— Não vi não.
Nisto apareceu o amarelo empapuçado.
— Você viu Zeca?
— Que Zeca?
— Zeca Fedeca sem pé nem munheca.
— Valha-me, Nossa Senhora
que este homem é Romãozinho!
Conheci pelo pé.
E Romãozinho foi cantando:
— Botei um circo no inferno
pra as almas que estão penando
se divertirem um pouquinho e se esquecerem do fogo.
Me visto então de João Bobo
arremedo miriqui,
dou pontapés nos defuntos
e o inferno faz: quá-quá-quá
e só se vê qui-qui-qui.
Quá-quá-quá. Qui-qui-qui.
As almas que estão sofrendo
precisam se divertir.
Dou pontapé no esqueleto
me viro em menino-cobra
faço careta pra a morte
passo a raspa no capeta
e o diabo faz: quá-quá-quá
e a morte faz: qui-qui-qui.
Quá-quá-quá, qui-qui-qui.
— Você viu a caipora?
— Não vi não.
(...)
In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
E Romãozinho foi subindo, foi subindo
e chegou na Meroaba de cima.
— Você viu a caipora?
— Não vi não.
E Romãozinho passou pela Bolandeira, cantando:
— Dom Pedro disse a Totonha
sentado naquele beco
que este rio Jequitinhonha
é o rio do estrume seco.
Dom Pedro não era peco.
Dom Pedro disse a Totonha,
Totonha disse a Pacheco.
Pacheco disse a Badico,
o burro contou à vaca,
a besta disse à perua
e a coisa saiu do beco
e se espalhou pela rua.
Este rio Jequitinhonha
é o rio do estrume seco.
Quem me disse foi Joana
que mora com seu Pacheco.
Você viu a caipora?
— Não vi não.
Nisto apareceu o amarelo empapuçado.
— Você viu Zeca?
— Que Zeca?
— Zeca Fedeca sem pé nem munheca.
— Valha-me, Nossa Senhora
que este homem é Romãozinho!
Conheci pelo pé.
E Romãozinho foi cantando:
— Botei um circo no inferno
pra as almas que estão penando
se divertirem um pouquinho e se esquecerem do fogo.
Me visto então de João Bobo
arremedo miriqui,
dou pontapés nos defuntos
e o inferno faz: quá-quá-quá
e só se vê qui-qui-qui.
Quá-quá-quá. Qui-qui-qui.
As almas que estão sofrendo
precisam se divertir.
Dou pontapé no esqueleto
me viro em menino-cobra
faço careta pra a morte
passo a raspa no capeta
e o diabo faz: quá-quá-quá
e a morte faz: qui-qui-qui.
Quá-quá-quá, qui-qui-qui.
— Você viu a caipora?
— Não vi não.
(...)
In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
1 210
Sosigenes Costa
V [Lagartixa taruíra
(...)
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.
A mãe dágua da Ingauíra
lá na beira do barranco
pariu hoje uma menina
com cabelinho de branco
e zoinho de xexéu
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
onde tem a flor do céu.
A filhinha da mãe-dágua
vai ficar araçuaba.
É tão branca que parece
lagartixa descascada.
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.
A filhinha da mãe-dágua
assim que nasceu no toco,
no toco do pau sentou.
A menina da mãe-dágua
come papa de banana
e também de fruta-pão
que sequei no tabuleiro
que ralei naquele ralo
que pisei no meu pilão.
(...)
A mãe-dágua da Ingauíra
fez sapato e babadô.
E a mãe-dágua lá do Pardo
que é princesa do Patipe
veio pelo Poaçu
partejar aquela flor
e aparou Iararana
cortou o imbigo, deu banho
e deu maná à menina
e enterrou ali na areia
os panos sujos de sangue
de sua prima sereia.
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.
A filhinha da mãe-dágua
tem berloque na cintura
e se senta no barranco
com o rabo dependurado.
Ela é filha de uma iara
e se chama Iararana
pois não puxou à sereia
puxou todinha o pai
aquele cavalo branco.
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.
Isto não é lagartixa
isto é arte do diabo.
Taruíra venha ver
sua irmã lá no barranco.
(...)
In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.
A mãe dágua da Ingauíra
lá na beira do barranco
pariu hoje uma menina
com cabelinho de branco
e zoinho de xexéu
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
onde tem a flor do céu.
A filhinha da mãe-dágua
vai ficar araçuaba.
É tão branca que parece
lagartixa descascada.
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.
A filhinha da mãe-dágua
assim que nasceu no toco,
no toco do pau sentou.
A menina da mãe-dágua
come papa de banana
e também de fruta-pão
que sequei no tabuleiro
que ralei naquele ralo
que pisei no meu pilão.
(...)
A mãe-dágua da Ingauíra
fez sapato e babadô.
E a mãe-dágua lá do Pardo
que é princesa do Patipe
veio pelo Poaçu
partejar aquela flor
e aparou Iararana
cortou o imbigo, deu banho
e deu maná à menina
e enterrou ali na areia
os panos sujos de sangue
de sua prima sereia.
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.
A filhinha da mãe-dágua
tem berloque na cintura
e se senta no barranco
com o rabo dependurado.
Ela é filha de uma iara
e se chama Iararana
pois não puxou à sereia
puxou todinha o pai
aquele cavalo branco.
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.
Isto não é lagartixa
isto é arte do diabo.
Taruíra venha ver
sua irmã lá no barranco.
(...)
In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
1 470
Renata Pallottini
Saudade da Feira de
Saudade da feira de Casa Amarela:
entrava por uma rua, saía por outra rua,
e tinha peixe-agulha fritando e tinha pretá
e tinha refresco e menino de frete,
saudade do Mercado da Bahia, saía por uma porta
entrava por outra e tinha rede (de casal, moça!)
e tinha faca de ponta e vatapá com pimenta,
acarajé com pimenta, tinha cara de pimenta,
saudade do Mercado de Maceió, tinha sarapatel,
tinha fruta, uma fruta pequenina e amarela,
foi ver era tomate, mas não esse do sul,
saudade do Mercado de Caldas, entrava por uma porta
saía por um portão que era pra guardar cavalo,
tinha doce, tinha passarinho que nem por dois contos
[eu vendo,
tinha pinhão e sorvete de amendoim,
pra que ir tão longe? Saudade do Mercado de Moji
e pronto, entra por uma porta sai por outra
e é sempre a mesma coisa, tem fumo de Rio Comprido
[e de Rio Curto
e de Rio Preto e de Rio Branco, tem caipiras que só
mesmo em São Paulo, tem cachorrinho ensinado, tem
[pé no chão
e Deus me livre de ser bairrista, mas tem uma
[rapadura, oi.
Publicado no livro O Monólogo Vivo (1956).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.3
entrava por uma rua, saía por outra rua,
e tinha peixe-agulha fritando e tinha pretá
e tinha refresco e menino de frete,
saudade do Mercado da Bahia, saía por uma porta
entrava por outra e tinha rede (de casal, moça!)
e tinha faca de ponta e vatapá com pimenta,
acarajé com pimenta, tinha cara de pimenta,
saudade do Mercado de Maceió, tinha sarapatel,
tinha fruta, uma fruta pequenina e amarela,
foi ver era tomate, mas não esse do sul,
saudade do Mercado de Caldas, entrava por uma porta
saía por um portão que era pra guardar cavalo,
tinha doce, tinha passarinho que nem por dois contos
[eu vendo,
tinha pinhão e sorvete de amendoim,
pra que ir tão longe? Saudade do Mercado de Moji
e pronto, entra por uma porta sai por outra
e é sempre a mesma coisa, tem fumo de Rio Comprido
[e de Rio Curto
e de Rio Preto e de Rio Branco, tem caipiras que só
mesmo em São Paulo, tem cachorrinho ensinado, tem
[pé no chão
e Deus me livre de ser bairrista, mas tem uma
[rapadura, oi.
Publicado no livro O Monólogo Vivo (1956).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.3
1 646