Poemas neste tema
Dor e Desespero
Batista de Lima
Só
O que faz mais dura a solidão
é tirar de mim o que me falta
O que faz doer a solidão
é sua sede
é ter que arrancar
destas entranhas
um oceano de pedridade
de quem freqüentou a escola das facas
onde o que corta não é o gume
mas a falta da lâmina
O que fere não é a dor
é sua ausência assassina
pendurada nos cabides da alma
O que dói na solidão
é ter que amar
e amar é perder uma banda
é extrair um bonde de um homem
é extrair um bosque de uma mulher
O que mais fere na solidão
é sua inscrição cravada em brasa
no braço inútil do verso
uma família em torno da mesa
comendo pratos de silêncio
O que mais dói na solidão
é perder de mim
os outros que carrego
o segundo contra o primeiro
o terceiro que instiga
o quarto que dorme
o quinto que inicia
uma infinidade de outros
O que dói na solidão
é essa batalha que não acaba mais
entre guerreiros invisíveis
enquanto um boi passeia nas nuvens
e uma bicicleta muge
já que os verdes anos foram nulos
para quem nasceu maduro
para quem perdeu o ciso
na primeira dentição
e o cordão umbilical
nos bicos de um galo cego
Ia prás bandas da Cipaúba
Quanto dói
ver a velha mangueira se desfazendo
velha velha mangueira
por quanto tempo roerei
teus nós
por quanto tempo aguardarei
a manga que os passarinhos
bicam
no último dos galhos
O que dói na solidão
é o vira-lata sozinho
revirando o deserto
da cidade esquecida nas ruas
é ter um pai com muitas capas
todas com seus mistérios
se desfazendo em barro
por um caminho que mespera
O que mais dói na solidão
é ter na mão uma chave
que nada abre
que nada abre
O que mais dói na solidão
é não se poderem conter
os fantasmas que teimam
em saltar das sombras
de cada canto
São essas cobras
passeando em nossa cabeça
serpentário infindável
Difícil conviver
com a inesgotável solidão
mais difícil mesmo
é compor o verso
sem a vaca no divã
triste luna
rodonoite
áspera/mente
Só mesmo a roda grande
sescondendo em menor roda
Só mesmo a bicicleta
pendurada no trem noturno
Só mesmo a melancia
no rio em cheia
boiando
E os carneiros na mesa grande boiando
os teus olhos boiando na bandeja
os teus seios boiando no cuscus
os teus sais boiando nas iguarias
os teus ais boiando na
rememóría
O que mais dói
não é tua ausência
mas tua presença
estando longe
Lembra-te pois do açude
onde as águas ainda nos guardam
e os peixes nos carpem
em lágrimas de cumplicidade
Lembra-te da porta marcada
pelos mistérios de estar fechada
da casa retendo a mesa onde
saboreávamos os silêncios familiares
e escrevíamos a história da solidão
no livro branco do cotidiádo
A solidão mora lá e é manca
e usa bengala preta
e óculos no nariz
e se veste de uma veste que nunca muda
e tem na mão fechada a chave da
nossa libertação
Solidão solidão
meu coração é uma cidade
entre muralhas
esperando tuas chaves
Solidão solidão
certa vez em Mombaça
pedia esmolas pra São Sebastião
e desenhei teu corpo num surrão de mangas
e em bandas de coité de brejo
Desenhei teu corpo
num portão de vidro
éramos dois
que não eram dois
Éramos dois e só um sol
a claridade e seu dorso
a clara idade e sua dor
Solidão solidão
estamos em pleno mar e não
há mar nenhum
Estamos em pleno sono
e não há qualquer sonho
só minha mão como um rosto
cortando em muitos
o luar de agosto
O que dói na solidão é ter
Ter é estar preso
pesar pesadamente fixo
Não ter
é poder voar
Leve
levo-me às alturas
lavo-me candura
com o vôo esculpido
no azul azul
o azul está no prato
servido e sorvido
seres vivos
estamos nele
e ele em nós
pasto de pasto
repasto
solitariamente circular
rodando em torno da roda
A solidão eixa e deseixa
em roda
quanto mais vemos
menos vivemos
coração coração
Tenho ossos e mais ossos
a rodear
Que tenho feito senão rodear
nunca quebrei o fêmur do que está posto
nem a tíbia das situações sem jeito
Rodear é fugir
Solidade
quando chegamos ao trem
não havia trilho
No açude não havia água
só a dor do pesca/dor
dois meninos
engolindo uma duna
e uma duna engolindo um astro
uma foto de uma foto partida
onde o instante enterrou-se
A solidão é uma foto em que
se retorce
um inconformado instante
Solidão é desencontrar-se nos própios passos
nos próprios ossos
perder o azul do firmamento
deixar de extrair gerânios
das pedras e de suas raízes
deixar de pentear os raios do sol
desarredondar a lua em luares
atravessados
Uma casa é uma caixa
de apenas portas
e abertas todas
uma casa é um avesso
um delírio espesso
vasto berro de barro
vagido e gozo
vôo espargido
de sonho e suspiro
Minha solidão é nódoa grudada
no ombro esquerdo do corpo
onde jaz a mala
das minhas desventuras
Minha mãe é a terra
e cumpro seu estatuto
em retomar ao seu ventre
meus filhos todos me seguirão
vastíssimos sonhos
de/verão
Tarde tarde
a solidão me salga as horas
a mulher que retém o homem
suas asas e águas
rio seco
areia de leito
íngua cortada
ferida tratada a urina
caborge
no meu pescoço levo teu pescoço
teus passos laçados
teu poder de vôo
teu grito guardado
Solidão é Laura de costas
Laura láurea loura
minha querida Laura
chorarei lágrimas douradas
quando tua nudez
se esculpir no relâmpago
Querida Laura
recupera aquele instante
em que nossos dedos se
tocaram
e nos perdemos
Recupera o instante anterior ao toque
quando a correnteza era mais forte em mim
o despencar mais vertical
retendo aqui esse abismo
que me engole
Recupera teu pai
e a cuia
que enchamos de esperanças
antes do leite
Recupera tua mãe
e a chuva fina
no telhado
Recupera as águas
que nos levaram
e lavaram
nossos sais
o céu azul
o curto mundo
onde só o coração era vasto
Recupera as curvas
dos caminhos
Recupera o fogo de
monturo em nós
Se não me queimo
não posso iluminar
se não te firo
não extraio de ti o coração
"rosa vermelha
do meu bem querer"
Na noite tarde
o que resta é meu corpo lá
e eu daqui
olhando sua/minha posição fetal
e essa augústia de perdê-lo de vista
Não sei quando perderei
essa dor
de perder a casca
a casa do ser não importa tanto
se tantas se erguem
Só o ser é uno
solitariamente nu
e eu molusco
a vida inteira tenho construído essa casca
que me expele e me retém
escravo da construção
construir é viver
terminar a casa é terminar-me
é expulsar-me da casca construída
é tirar de mim o que me falta
O que faz doer a solidão
é sua sede
é ter que arrancar
destas entranhas
um oceano de pedridade
de quem freqüentou a escola das facas
onde o que corta não é o gume
mas a falta da lâmina
O que fere não é a dor
é sua ausência assassina
pendurada nos cabides da alma
O que dói na solidão
é ter que amar
e amar é perder uma banda
é extrair um bonde de um homem
é extrair um bosque de uma mulher
O que mais fere na solidão
é sua inscrição cravada em brasa
no braço inútil do verso
uma família em torno da mesa
comendo pratos de silêncio
O que mais dói na solidão
é perder de mim
os outros que carrego
o segundo contra o primeiro
o terceiro que instiga
o quarto que dorme
o quinto que inicia
uma infinidade de outros
O que dói na solidão
é essa batalha que não acaba mais
entre guerreiros invisíveis
enquanto um boi passeia nas nuvens
e uma bicicleta muge
já que os verdes anos foram nulos
para quem nasceu maduro
para quem perdeu o ciso
na primeira dentição
e o cordão umbilical
nos bicos de um galo cego
Ia prás bandas da Cipaúba
Quanto dói
ver a velha mangueira se desfazendo
velha velha mangueira
por quanto tempo roerei
teus nós
por quanto tempo aguardarei
a manga que os passarinhos
bicam
no último dos galhos
O que dói na solidão
é o vira-lata sozinho
revirando o deserto
da cidade esquecida nas ruas
é ter um pai com muitas capas
todas com seus mistérios
se desfazendo em barro
por um caminho que mespera
O que mais dói na solidão
é ter na mão uma chave
que nada abre
que nada abre
O que mais dói na solidão
é não se poderem conter
os fantasmas que teimam
em saltar das sombras
de cada canto
São essas cobras
passeando em nossa cabeça
serpentário infindável
Difícil conviver
com a inesgotável solidão
mais difícil mesmo
é compor o verso
sem a vaca no divã
triste luna
rodonoite
áspera/mente
Só mesmo a roda grande
sescondendo em menor roda
Só mesmo a bicicleta
pendurada no trem noturno
Só mesmo a melancia
no rio em cheia
boiando
E os carneiros na mesa grande boiando
os teus olhos boiando na bandeja
os teus seios boiando no cuscus
os teus sais boiando nas iguarias
os teus ais boiando na
rememóría
O que mais dói
não é tua ausência
mas tua presença
estando longe
Lembra-te pois do açude
onde as águas ainda nos guardam
e os peixes nos carpem
em lágrimas de cumplicidade
Lembra-te da porta marcada
pelos mistérios de estar fechada
da casa retendo a mesa onde
saboreávamos os silêncios familiares
e escrevíamos a história da solidão
no livro branco do cotidiádo
A solidão mora lá e é manca
e usa bengala preta
e óculos no nariz
e se veste de uma veste que nunca muda
e tem na mão fechada a chave da
nossa libertação
Solidão solidão
meu coração é uma cidade
entre muralhas
esperando tuas chaves
Solidão solidão
certa vez em Mombaça
pedia esmolas pra São Sebastião
e desenhei teu corpo num surrão de mangas
e em bandas de coité de brejo
Desenhei teu corpo
num portão de vidro
éramos dois
que não eram dois
Éramos dois e só um sol
a claridade e seu dorso
a clara idade e sua dor
Solidão solidão
estamos em pleno mar e não
há mar nenhum
Estamos em pleno sono
e não há qualquer sonho
só minha mão como um rosto
cortando em muitos
o luar de agosto
O que dói na solidão é ter
Ter é estar preso
pesar pesadamente fixo
Não ter
é poder voar
Leve
levo-me às alturas
lavo-me candura
com o vôo esculpido
no azul azul
o azul está no prato
servido e sorvido
seres vivos
estamos nele
e ele em nós
pasto de pasto
repasto
solitariamente circular
rodando em torno da roda
A solidão eixa e deseixa
em roda
quanto mais vemos
menos vivemos
coração coração
Tenho ossos e mais ossos
a rodear
Que tenho feito senão rodear
nunca quebrei o fêmur do que está posto
nem a tíbia das situações sem jeito
Rodear é fugir
Solidade
quando chegamos ao trem
não havia trilho
No açude não havia água
só a dor do pesca/dor
dois meninos
engolindo uma duna
e uma duna engolindo um astro
uma foto de uma foto partida
onde o instante enterrou-se
A solidão é uma foto em que
se retorce
um inconformado instante
Solidão é desencontrar-se nos própios passos
nos próprios ossos
perder o azul do firmamento
deixar de extrair gerânios
das pedras e de suas raízes
deixar de pentear os raios do sol
desarredondar a lua em luares
atravessados
Uma casa é uma caixa
de apenas portas
e abertas todas
uma casa é um avesso
um delírio espesso
vasto berro de barro
vagido e gozo
vôo espargido
de sonho e suspiro
Minha solidão é nódoa grudada
no ombro esquerdo do corpo
onde jaz a mala
das minhas desventuras
Minha mãe é a terra
e cumpro seu estatuto
em retomar ao seu ventre
meus filhos todos me seguirão
vastíssimos sonhos
de/verão
Tarde tarde
a solidão me salga as horas
a mulher que retém o homem
suas asas e águas
rio seco
areia de leito
íngua cortada
ferida tratada a urina
caborge
no meu pescoço levo teu pescoço
teus passos laçados
teu poder de vôo
teu grito guardado
Solidão é Laura de costas
Laura láurea loura
minha querida Laura
chorarei lágrimas douradas
quando tua nudez
se esculpir no relâmpago
Querida Laura
recupera aquele instante
em que nossos dedos se
tocaram
e nos perdemos
Recupera o instante anterior ao toque
quando a correnteza era mais forte em mim
o despencar mais vertical
retendo aqui esse abismo
que me engole
Recupera teu pai
e a cuia
que enchamos de esperanças
antes do leite
Recupera tua mãe
e a chuva fina
no telhado
Recupera as águas
que nos levaram
e lavaram
nossos sais
o céu azul
o curto mundo
onde só o coração era vasto
Recupera as curvas
dos caminhos
Recupera o fogo de
monturo em nós
Se não me queimo
não posso iluminar
se não te firo
não extraio de ti o coração
"rosa vermelha
do meu bem querer"
Na noite tarde
o que resta é meu corpo lá
e eu daqui
olhando sua/minha posição fetal
e essa augústia de perdê-lo de vista
Não sei quando perderei
essa dor
de perder a casca
a casa do ser não importa tanto
se tantas se erguem
Só o ser é uno
solitariamente nu
e eu molusco
a vida inteira tenho construído essa casca
que me expele e me retém
escravo da construção
construir é viver
terminar a casa é terminar-me
é expulsar-me da casca construída
1 041
Branquinho da Fonseca
Castanheiros, Irmãos
Ó castanheiros de folhas de ouro,
Carregados de ouriços que são ninhos
Onde as castanhas dormem como noivos!
Troncos abertos,
Casas abertas,
Ao vosso abrigo
Dormem os pobres,
Pegam no sono,
Passam as noites
Quando cai neve!
Peitos vazios,
Escancarados,
Sem nada dentro,
Nem coração!
Dais lume, calor
E dais sustento para a mesa,
E dais o mais que eu não sei!...
Ó castanheiros de folhas de ouro,
Apenas sou vosso irmão
Em que a terra vos criou
E criou-me a mim também;
Em que vós ergueis os braços
Suplicantes para os céus
E eu também levanto os meus...
Ah! Castanheiros, mas eu
Grito e vós ficais calados!
Seremos, por isto só,
Irmãos? Seremos? Não sei:
Vós tendes roupas de rei,
Eu tenho roupas de Job;
Vós só gritais quando o vento
Vos abre a boca e fustiga:
Então ergueis um clamor...
— Não calo nunca no peito
A dor do meu sofrimento
E nunca chego a dize-la,
Nem há ninguém que me diga.
Ó castanheiros de folha de ouro,
Não,
Eu não sou vosso irmão!...
Carregados de ouriços que são ninhos
Onde as castanhas dormem como noivos!
Troncos abertos,
Casas abertas,
Ao vosso abrigo
Dormem os pobres,
Pegam no sono,
Passam as noites
Quando cai neve!
Peitos vazios,
Escancarados,
Sem nada dentro,
Nem coração!
Dais lume, calor
E dais sustento para a mesa,
E dais o mais que eu não sei!...
Ó castanheiros de folhas de ouro,
Apenas sou vosso irmão
Em que a terra vos criou
E criou-me a mim também;
Em que vós ergueis os braços
Suplicantes para os céus
E eu também levanto os meus...
Ah! Castanheiros, mas eu
Grito e vós ficais calados!
Seremos, por isto só,
Irmãos? Seremos? Não sei:
Vós tendes roupas de rei,
Eu tenho roupas de Job;
Vós só gritais quando o vento
Vos abre a boca e fustiga:
Então ergueis um clamor...
— Não calo nunca no peito
A dor do meu sofrimento
E nunca chego a dize-la,
Nem há ninguém que me diga.
Ó castanheiros de folha de ouro,
Não,
Eu não sou vosso irmão!...
2 112
Argemiro de Paula Garcia Filho
Imola 1
Em Imola se imola
um sonho
um mito
um herói.
Em Imola se esfola
a pele
a carne
e dói,
como dói,
saber que a vida segue
ainda que o sonho acabe.
Mas se os sonhos são etéreos,
se os mitos são lendas
e os heróis tem sangue,
nos restam apenas
as mãos,
os calos,
as cãs,
resta-nos erguer o destino.
Porque as pirâmides foram erguidas
por homens
e os nossos heróis sempre morrem,
no final.
Macaé, 29/06/94
um sonho
um mito
um herói.
Em Imola se esfola
a pele
a carne
e dói,
como dói,
saber que a vida segue
ainda que o sonho acabe.
Mas se os sonhos são etéreos,
se os mitos são lendas
e os heróis tem sangue,
nos restam apenas
as mãos,
os calos,
as cãs,
resta-nos erguer o destino.
Porque as pirâmides foram erguidas
por homens
e os nossos heróis sempre morrem,
no final.
Macaé, 29/06/94
912
José Armelim
A Vida é Esta
A vida abana, sacode
É um leque
A vida é esta
Queima, pica
É piri-[iri
Fogo a arder.
A vida é esta
Cifrão prá frente
Cifrão pra trás
Tudo a contar,
Descontar, conter.
A vida é esta
Um berlinde
Gira, rola,
Salta, desliza
Um ping-pong
Bate, resvala
A vida é esta.
Um elástico
Puxa, estica
Torce, dobra
A vida é esta.
Uma dança
Baila, rebola
Ginga, contorna
A vida é esta.
Um jogo
Disputa, goleia
Ganha, perde
A vida é esta.
Uma ferida
Amola, remói
Dói, dói, dói-dói...
E é assim a vida
Enfim, uma grande dor.
É um leque
A vida é esta
Queima, pica
É piri-[iri
Fogo a arder.
A vida é esta
Cifrão prá frente
Cifrão pra trás
Tudo a contar,
Descontar, conter.
A vida é esta
Um berlinde
Gira, rola,
Salta, desliza
Um ping-pong
Bate, resvala
A vida é esta.
Um elástico
Puxa, estica
Torce, dobra
A vida é esta.
Uma dança
Baila, rebola
Ginga, contorna
A vida é esta.
Um jogo
Disputa, goleia
Ganha, perde
A vida é esta.
Uma ferida
Amola, remói
Dói, dói, dói-dói...
E é assim a vida
Enfim, uma grande dor.
903
Anderson Braga Horta
Fragmentos da Paixão
I
Certo dia, no meio do caminho
que me arrastava os pés no Templo alado,
deparei junto a mim o burburinho
de um turbilhão de seres extasiado
ante a férrea, magnética presença
de alta torre de vidro. Fascinado
pelo esplendor da aparição imensa
— sombrio resplandor de negra opala —
também eu, que ao cantochão da descrença
me embalava, já cansado, já farto
de
de arrastar pelo Planeta os andrajos
de minha solidão, entrei cantando
no torvelim das almas que em ciranda,
ébrias, descendo, trêmulas, em bando,
iam o adro da Torre demandando.
Ali paramos ante os negros vidros.
Abriram-se-nos portas densamente aliciantes.
Envolvia-nos algo como um olhar pegajoso
de hipnose. Dançando ainda, entramos
nos amplos elevadores. Apertamos
os botões para o último andar. E lentamente
fomos descendo.
II
Apagaram-se os sóis. Ficamos sabendo,
sem que voz o dissesse, que a alegria
era infração à Norma. Mas autônoma,
senhora de nossos corpos, prosseguia-se a dança,
e era música o contínuo terror, o temor expectante em
que nos fizéramos,
regente atra Presença,
opressão de pressentida Espreita rapinante no escuro,
surda Vibração de ala implume.
Lá fora o claro dia era um sonho remoto.
Nas trevas, no pavor, Suas invisíveis milícias,
Seus ocultos exércitos
espancavam a multidão em fuga para Nenhures.
Esquecidos na entrada os amuletos!
Total desamparo! Começava
o sem-sentido, o sem-nexo,
o mergulho real.
Eu me apagava.
III
E de repente estava só de novo,
e descia. Meus andrajos de púrpura cintilavam
torvamente. E descia.
Entre seis paredes de ar pesado,
corte vertical na rocha,
solitário descia.
Os muros me estreitavam. Eu me espessava.
E descia.
IV
Oh solidão da vida!
Oh solidão da morte!
Oh solidão amarga!
Nas paredes da rocha em descendente fuga,
vou escandindo
às pedrarias abissais, de faiscações inversas
— invertida luz, caliginosa
luz, antiluz
que só o negror desvela —,
as sílabas terríveis
do terrível grafito.
Oh! Que esperança para a humana raça
não é por estes subterrâneos astros!
V
Na Planície sinistra
cuja monotonia apenas quebra
um torvo rio, de mim mesmo apeio-me.
A atra, oculta Presença
comigo se confunde.
E solene olho em torno os meus domínios.
Glebas de solidão.
Províncias de ódio.
Sesmarias de escuro.
Céus tombados.
Sombra. Medo. Pavor. Angústia. Inferno.
E em meu Domínio eis-me senhor escravo.
Aniquila-me, ó Deus! Antes o Nada
que a privação do Sonho e da Esperança!
VI
E as falsas ascensões!... Elevadores que parecem subir
mas não chegam, não se abrem, ou sobem no vazio,
ou param ameaçadores, ou se escancaram sobre estruturas
instáveis, e despencam para um poço que tarda,
para um fim que não vem, que não vem, que não vem!
VII
Mas num relâmpago,
fugitiva fração do escoar da areia,
descuido do Diabo, após milênios,
de milênios de abismo,
de um infinito negar do clarão, da centelha,
eis que, de abscônditas
nebulosas em flor desabrochada estrela,
estrela de beleza, do mistério
de ser o homem uma luz que tenta brilhar,
a Tua Face, ó Deus, lúcida Se revela!
Já não me desespera,
vislumbrado o Teu sol, Senhor, se agora,
em vez da redenção, ainda me espera
o surdo recomeça
da negra eternidade.
Daqui, do mais profundo deste inferno,
fadado ao Teu Amor,
sonho-te, ó Deus, essência cristalina.
E sei que alfim, ao fim da Eternidade,
ascendo a Ti, ascendo a Ti, Senhor!
Certo dia, no meio do caminho
que me arrastava os pés no Templo alado,
deparei junto a mim o burburinho
de um turbilhão de seres extasiado
ante a férrea, magnética presença
de alta torre de vidro. Fascinado
pelo esplendor da aparição imensa
— sombrio resplandor de negra opala —
também eu, que ao cantochão da descrença
me embalava, já cansado, já farto
de
de arrastar pelo Planeta os andrajos
de minha solidão, entrei cantando
no torvelim das almas que em ciranda,
ébrias, descendo, trêmulas, em bando,
iam o adro da Torre demandando.
Ali paramos ante os negros vidros.
Abriram-se-nos portas densamente aliciantes.
Envolvia-nos algo como um olhar pegajoso
de hipnose. Dançando ainda, entramos
nos amplos elevadores. Apertamos
os botões para o último andar. E lentamente
fomos descendo.
II
Apagaram-se os sóis. Ficamos sabendo,
sem que voz o dissesse, que a alegria
era infração à Norma. Mas autônoma,
senhora de nossos corpos, prosseguia-se a dança,
e era música o contínuo terror, o temor expectante em
que nos fizéramos,
regente atra Presença,
opressão de pressentida Espreita rapinante no escuro,
surda Vibração de ala implume.
Lá fora o claro dia era um sonho remoto.
Nas trevas, no pavor, Suas invisíveis milícias,
Seus ocultos exércitos
espancavam a multidão em fuga para Nenhures.
Esquecidos na entrada os amuletos!
Total desamparo! Começava
o sem-sentido, o sem-nexo,
o mergulho real.
Eu me apagava.
III
E de repente estava só de novo,
e descia. Meus andrajos de púrpura cintilavam
torvamente. E descia.
Entre seis paredes de ar pesado,
corte vertical na rocha,
solitário descia.
Os muros me estreitavam. Eu me espessava.
E descia.
IV
Oh solidão da vida!
Oh solidão da morte!
Oh solidão amarga!
Nas paredes da rocha em descendente fuga,
vou escandindo
às pedrarias abissais, de faiscações inversas
— invertida luz, caliginosa
luz, antiluz
que só o negror desvela —,
as sílabas terríveis
do terrível grafito.
Oh! Que esperança para a humana raça
não é por estes subterrâneos astros!
V
Na Planície sinistra
cuja monotonia apenas quebra
um torvo rio, de mim mesmo apeio-me.
A atra, oculta Presença
comigo se confunde.
E solene olho em torno os meus domínios.
Glebas de solidão.
Províncias de ódio.
Sesmarias de escuro.
Céus tombados.
Sombra. Medo. Pavor. Angústia. Inferno.
E em meu Domínio eis-me senhor escravo.
Aniquila-me, ó Deus! Antes o Nada
que a privação do Sonho e da Esperança!
VI
E as falsas ascensões!... Elevadores que parecem subir
mas não chegam, não se abrem, ou sobem no vazio,
ou param ameaçadores, ou se escancaram sobre estruturas
instáveis, e despencam para um poço que tarda,
para um fim que não vem, que não vem, que não vem!
VII
Mas num relâmpago,
fugitiva fração do escoar da areia,
descuido do Diabo, após milênios,
de milênios de abismo,
de um infinito negar do clarão, da centelha,
eis que, de abscônditas
nebulosas em flor desabrochada estrela,
estrela de beleza, do mistério
de ser o homem uma luz que tenta brilhar,
a Tua Face, ó Deus, lúcida Se revela!
Já não me desespera,
vislumbrado o Teu sol, Senhor, se agora,
em vez da redenção, ainda me espera
o surdo recomeça
da negra eternidade.
Daqui, do mais profundo deste inferno,
fadado ao Teu Amor,
sonho-te, ó Deus, essência cristalina.
E sei que alfim, ao fim da Eternidade,
ascendo a Ti, ascendo a Ti, Senhor!
1 151
Antônio Massa
Revelação
Uma única testemunha;
emulsão chapeada
isolada no escuro
por quem me viu
A luztestemunha e tudo
fotografado
em sais de prata
banhados por breu
em busca
eu
do meu
reflexo
E quantos vi?
Papéis futilgráficos
retidos ao lixo,
e meus nitratos
sedentos de informação
A luz
cisão do meu ser,
das cópias negativas
di vi di da s
em minha dor
emulsão chapeada
isolada no escuro
por quem me viu
A luztestemunha e tudo
fotografado
em sais de prata
banhados por breu
em busca
eu
do meu
reflexo
E quantos vi?
Papéis futilgráficos
retidos ao lixo,
e meus nitratos
sedentos de informação
A luz
cisão do meu ser,
das cópias negativas
di vi di da s
em minha dor
988
Alexandre Marino
Águas
pés na enxurrada
eu vou chovendo
enquanto o dia chora
e a vida
por dentro
me molha.
eu vou chovendo
enquanto o dia chora
e a vida
por dentro
me molha.
924
Albano Dias Martins
A Lâmina, o Punhal
Não haverá futuro — e haverá
somente esta lâmina
de quartzo lacerando
a carne amarrotada. E haverá
somente este punhal
de cinza cravado
entre almofadas inúteis
e lençóis vazios.
somente esta lâmina
de quartzo lacerando
a carne amarrotada. E haverá
somente este punhal
de cinza cravado
entre almofadas inúteis
e lençóis vazios.
1 230
Alexandre Marino
Esta Cidade
Esta cidade se debruça
sobre suas próprias feridas
e engole os homens
que por ela caminham
perdidos
nesta cidade se perdem
nascem, morrem e desesperam
os tempos felizes que não virão
ainda que todos os esperem
das janelas.
sobre suas próprias feridas
e engole os homens
que por ela caminham
perdidos
nesta cidade se perdem
nascem, morrem e desesperam
os tempos felizes que não virão
ainda que todos os esperem
das janelas.
985
Almeida Garrett
A Tempestade (1828)
Virgílio,
Coeco carpitur igni
I
Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.
II
Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.
III
Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esprança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.
Coeco carpitur igni
I
Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.
II
Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.
III
Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esprança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.
2 391
Antero Coelho Neto
Palavras a um Amigo Triste
Meu querido amigo triste,
eu nunca encontrei as palavras.
Digo, as palavras certas e verdadeiras,
porque as outras são ditas fáceis
e logo, sempre esquecidas.
Eu falo daquelas palavras amigas,
justamente significativas para o pranto
da dor maior quando sofrida.
Essas eu acho que não existem,
pois jamais puderam dizer-me.
eu nunca encontrei as palavras.
Digo, as palavras certas e verdadeiras,
porque as outras são ditas fáceis
e logo, sempre esquecidas.
Eu falo daquelas palavras amigas,
justamente significativas para o pranto
da dor maior quando sofrida.
Essas eu acho que não existem,
pois jamais puderam dizer-me.
1 391
Adriana Lustosa
Compadre
eu disse as correntezas,
ao rio puro da vida: Passem
mas não passaram.
não desceram,
não foram
eu disse...
perdi todas as jangadas.
de cabeça cai nas aguas
se salvar um fio do arrepio que se fez minha vida
se salvar um fio...
volto para te contar.
ao rio puro da vida: Passem
mas não passaram.
não desceram,
não foram
eu disse...
perdi todas as jangadas.
de cabeça cai nas aguas
se salvar um fio do arrepio que se fez minha vida
se salvar um fio...
volto para te contar.
1 142
António Osório
Sonetos da Ausência III
O que a memória havia sepultado
em sábia rejeição, nos seus arcanos
a ausência faz voltar, ressuscitados
a morta dor, o morto amor, os mortos anos.
As já esquecidas mágoas emergem
deste oceano de lágrimas revoltas
a sargaços se agarram, quase soltas
ao sal amargo dos infrenes ventos.
Em luta uns com os outros os sentidos
Sangue e mem6ria em guerra com o silêncio.
E surge a tentação nesta golfada
de pranto que sufoca as coronárias:
: melhor quem sabe o sofrimento antigo
do que este negror de tua ausência.
em sábia rejeição, nos seus arcanos
a ausência faz voltar, ressuscitados
a morta dor, o morto amor, os mortos anos.
As já esquecidas mágoas emergem
deste oceano de lágrimas revoltas
a sargaços se agarram, quase soltas
ao sal amargo dos infrenes ventos.
Em luta uns com os outros os sentidos
Sangue e mem6ria em guerra com o silêncio.
E surge a tentação nesta golfada
de pranto que sufoca as coronárias:
: melhor quem sabe o sofrimento antigo
do que este negror de tua ausência.
1 179
Adriana Lustosa
Como uma Ovelha
Como uma ovelha
rondo os pastos da boa vontade
enquanto o pastor
saltando de estrela em estrela
propicia o absurdo:
o abismo que era mudo
engole meu grito.
rondo os pastos da boa vontade
enquanto o pastor
saltando de estrela em estrela
propicia o absurdo:
o abismo que era mudo
engole meu grito.
1 080
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Todo Dia
Todo dia
Pedaços de mim
Em esgotos.
Toda noite
A alma triste
E o desgosto.
No rio final
Afinal o encontro:
Esgotos, desgostos.
Pedaços de mim
Em esgotos.
Toda noite
A alma triste
E o desgosto.
No rio final
Afinal o encontro:
Esgotos, desgostos.
800
Augusto de Campos
Dodecassílabos
Estala na mudez universal das coisas
estrídulo tropel de cascos sobre pedras
e naquela assonância ilhada no silêncio
o cataclismo irrompe arrebatadamente.
O doer infernal das folhas urticantes
corta a região maninha das caatingas
fazendo vacilar a marcha dos exércitos
sob uma irradiação de golpes e de tiros.
Por fim tudo se esgota e a situação não muda,
lembrando um bracejar imenso, de tortura,
em longo apelo triste, que parece um choro.
Num prodigalizar inútil de bravura
desaparecem sob as formações calcáreas
as linhas essenciais do crime e da loucura.
estrídulo tropel de cascos sobre pedras
e naquela assonância ilhada no silêncio
o cataclismo irrompe arrebatadamente.
O doer infernal das folhas urticantes
corta a região maninha das caatingas
fazendo vacilar a marcha dos exércitos
sob uma irradiação de golpes e de tiros.
Por fim tudo se esgota e a situação não muda,
lembrando um bracejar imenso, de tortura,
em longo apelo triste, que parece um choro.
Num prodigalizar inútil de bravura
desaparecem sob as formações calcáreas
as linhas essenciais do crime e da loucura.
1 408
Michelangelo
A TOMMASO DE CAVALJERI
(A CHE PlÙ DEBBI0 MAI... )
Porque mais devo eu nunca o fundo amor
em prantos afogar ou vozes mestas,
se de tal sorte o céu, às dors funestas,
jamais as almas poupa, em seu favor?
A mais morrer me impele o amargor...
Se tudo há de morrer... porquê? Se, nestas
pupilas, mortes me não são molestas,
que tudo o mais me é menos do que a dor.
Se ao golpe, que não quero e não evito,
não me é dado escapar; se é destinado,
e me atravessa entre doçura e grito,
se me é ventura o estar encadeado,
espanto não será que, nu, maldito,
a presa eu sou de um Cavaleiro armado.
Porque mais devo eu nunca o fundo amor
em prantos afogar ou vozes mestas,
se de tal sorte o céu, às dors funestas,
jamais as almas poupa, em seu favor?
A mais morrer me impele o amargor...
Se tudo há de morrer... porquê? Se, nestas
pupilas, mortes me não são molestas,
que tudo o mais me é menos do que a dor.
Se ao golpe, que não quero e não evito,
não me é dado escapar; se é destinado,
e me atravessa entre doçura e grito,
se me é ventura o estar encadeado,
espanto não será que, nu, maldito,
a presa eu sou de um Cavaleiro armado.
1 294
Caio Valério Catulo
85
Odeio e amo. Quiçá queiras saber por que:
ignoro, mas sinto que acontece, e sofro.
ignoro, mas sinto que acontece, e sofro.
1 381
Alfred Edward Housman
SHOT? SO QUICK
Um tiro? Um fim asseado?
Fizeste bem em buscá-lo.
Eras um caso arrumado:
Melhor a morte guardá-lo.
Razoável tu pensaste,
Soubeste que ias à viola;
E muito a tempo encostaste
À tua fronte a pistola.
Antes que tarde já fosse
Em humilhações e desgraça,
O teu traidor acabou-se
Que nascera de má raça.
O futuro adivinhaste,
E ao teu pântano fugiste,
Se o pó, meu filho, ganhaste,
ainda há pior, que previste.
Não-alma que as almas suga,
Essa história é bem sabida.
Aos outros poupaste a fuga.
Foi de homem teu fim de vida
Os estranhos e os amigos
Com inveja passam cá:
Sem desonra e sem perigos
Sem culpas, teu ser está.
Repousa-te em paz serena.
Coroa é só esta a que eu traga:
Guardá-la não vale a pena
Mas, se usada, não se apaga.
Fizeste bem em buscá-lo.
Eras um caso arrumado:
Melhor a morte guardá-lo.
Razoável tu pensaste,
Soubeste que ias à viola;
E muito a tempo encostaste
À tua fronte a pistola.
Antes que tarde já fosse
Em humilhações e desgraça,
O teu traidor acabou-se
Que nascera de má raça.
O futuro adivinhaste,
E ao teu pântano fugiste,
Se o pó, meu filho, ganhaste,
ainda há pior, que previste.
Não-alma que as almas suga,
Essa história é bem sabida.
Aos outros poupaste a fuga.
Foi de homem teu fim de vida
Os estranhos e os amigos
Com inveja passam cá:
Sem desonra e sem perigos
Sem culpas, teu ser está.
Repousa-te em paz serena.
Coroa é só esta a que eu traga:
Guardá-la não vale a pena
Mas, se usada, não se apaga.
1 017
Emily Dickinson
MINHA VIDA ACABOU DUAS VEZES
Já morri duas vezes, e vivo.
Resta-me ver enfim
Se terceira vez na outra vida
Sofrerei assim
Dor tão funda e desesperada,
O pungir quotidiano e eterno.
Só sabemos do Céu que é adeus,
Basta a saudade como Inferno.
(Tradução
de Manuel Bandeira)
Resta-me ver enfim
Se terceira vez na outra vida
Sofrerei assim
Dor tão funda e desesperada,
O pungir quotidiano e eterno.
Só sabemos do Céu que é adeus,
Basta a saudade como Inferno.
(Tradução
de Manuel Bandeira)
2 064
Emily Dickinson
À PORTA DE DEUS
Duas vezes perdi tudo
E foi debaixo da terra.
Duas vezes parei mendiga
Á porta de Deus.
Duas vezes os anjos, descendo dos céus,
Reembolsaram-me de minhas provisões.
Ladrão, banqueiro, pai,
Estou pobre mais uma vez!
E foi debaixo da terra.
Duas vezes parei mendiga
Á porta de Deus.
Duas vezes os anjos, descendo dos céus,
Reembolsaram-me de minhas provisões.
Ladrão, banqueiro, pai,
Estou pobre mais uma vez!
1 925
Edith Sitwell
GREEN FLOWS THE RIVER OF LETHE - O
Verde flui o rio Lete - Oh
O longo rio Lete
Lá onde o fogo era nas veias - erva cresce
Sobre a febre -
Erva verde crescendo...
Perto eu estava das Cidades da Planície;
E as meninas perseguiam seus corações como as alegres borboletas
Pelos campos do Estio -
Oh veludo evanescente batendo as vossas asas
Como veludo e borboletas no Caminho de Nada a Parte Alguma!
Mas na sede estival
Fugi, porque eu era um Pilar de Fogo, eu era Destruição
Insaciável, encarnada e cor de carne.
Eu era Aniquilamento;
Alva, porém, como o mar Morto, alva como as Cidades da Planície.
Porque eu escutava o meio-dia e minhas veias
Que ameaçavam trovões, e o coração das rosas.
Segui o meu caminho -
Mas longa é a terrífica Rua do Sangue
Que parecera outrora apenas parte do vermelho Estio:
Desdobra-se para sempre e não há desvio,
Mas só fogo, aniquilamento, ardência.
Pensei que o caminho do Sangue nunca se cansava.
Mas agora só o trevo flamante
Pousa no bafejar do leão e na boca do amante -
E verde flui o rio Lete - Oh
O longo rio Lete
Sobre Gomorra e o fogo...
O longo rio Lete
Lá onde o fogo era nas veias - erva cresce
Sobre a febre -
Erva verde crescendo...
Perto eu estava das Cidades da Planície;
E as meninas perseguiam seus corações como as alegres borboletas
Pelos campos do Estio -
Oh veludo evanescente batendo as vossas asas
Como veludo e borboletas no Caminho de Nada a Parte Alguma!
Mas na sede estival
Fugi, porque eu era um Pilar de Fogo, eu era Destruição
Insaciável, encarnada e cor de carne.
Eu era Aniquilamento;
Alva, porém, como o mar Morto, alva como as Cidades da Planície.
Porque eu escutava o meio-dia e minhas veias
Que ameaçavam trovões, e o coração das rosas.
Segui o meu caminho -
Mas longa é a terrífica Rua do Sangue
Que parecera outrora apenas parte do vermelho Estio:
Desdobra-se para sempre e não há desvio,
Mas só fogo, aniquilamento, ardência.
Pensei que o caminho do Sangue nunca se cansava.
Mas agora só o trevo flamante
Pousa no bafejar do leão e na boca do amante -
E verde flui o rio Lete - Oh
O longo rio Lete
Sobre Gomorra e o fogo...
1 265
Robert Graves
BOMBARDEAMENTO NA ALVORADA
Canhões do mar atiram sobre nós:
Na casamata o fumo oscila opaco
E um clamor de perdição ascende.
Contamos, bendizemos cada novo abalo -
Cativos aguardando ser libertos.
Anjo visitador de cabeleira em fogo,
O qual em sonhos vinha às noites consolar-nos
Lá onde éramos a ferros,
De nós se ri, ao acordarmos - rostos
Tão tensos de esperança: as lágrimas os descem.
Na casamata o fumo oscila opaco
E um clamor de perdição ascende.
Contamos, bendizemos cada novo abalo -
Cativos aguardando ser libertos.
Anjo visitador de cabeleira em fogo,
O qual em sonhos vinha às noites consolar-nos
Lá onde éramos a ferros,
De nós se ri, ao acordarmos - rostos
Tão tensos de esperança: as lágrimas os descem.
1 048
Castro Alves
HINO AO SONO
Ó Sono! ó noivo pálido
Das noites perfumosas,
Que um chão de nebulosas
Trilhas pela amplidão!
Em vez de verdes pâmpanos,
Na branca fronte enrolas
As lânguidas papoulas,
Que agita a viração.
Nas horas solitárias,
Em que vagueia a lua,
E lava a planta nua
Na onda azul do mar,
Com um dedo sobre os lábios
No vôo silencioso,
Vejo-te cauteloso
No espaço viajar!
Deus do infeliz, do mísero!
Consolação do aflito!
Descanso do precito,
Que sonha a vida em ti!
Quando a cidade tétrica
De angústia e dor não geme...
É tua mão que espreme
A dormideira ali.
Em tua branca túnica
Envolves meio mundo.
E teu seio fecundo
De sonhos e visões,
Dos templos aos prostíbulos
Desde o tugúrio ao Paço,
Tu lanças lá do espaço
Punhados de ilusões!...
Da vida o sumo rúbido,
Do hatchiz a essência,
O ópio, que a indolência
Derrama em nosso ser,
Não valem, gênio mágico,
Teu seio, onde repousa
A placidez da lousa
E o gozo de viver...
Ó sono! Unge-me as pálpebras..
Entorna o esquecimento
Na luz do pensamento,
Que abrasa o crânio meu.
Como o pastor da Arcádia,
Que uma ave errante aninha...
Minhalma é uma andorinha...
Abre-lhe o seio teu.
Tu, que fechaste as pétalas
Do lírio, que pendia,
Chorando a luz do dia
E os raios do arrebol,
Também fecha-me as pálpebras...
Sem Ela o que é a vida?
Eu sou a flor pendida
Que espera a luz do sol.
O leite das eufórbias
Pra mim não é veneno...
Ouve-me, ó Deus sereno!
Ó Deus consolador!
Com teu divino bálsamo
Cala-me a ansiedade!
Mata-me esta saudade,
Apaga-me esta dor.
Mas quando, ao brilho rútilo
Do dia deslumbrante,
Vires a minha amante
Que volve para mim,
Então ergue-me súbito...
É minha aurora linda...
Meu anjo... mais ainda...
É minha amante enfim!
Ó sono! Ó Deus noctívago!
Doce influência amiga!
Gênio que a Grécia antiga
Chamava de Morfeu,
Ouve!... E se minhas súplicas
Em breve realizares...
Voto nos teus altares
Minha lira de Orfeu!
Das noites perfumosas,
Que um chão de nebulosas
Trilhas pela amplidão!
Em vez de verdes pâmpanos,
Na branca fronte enrolas
As lânguidas papoulas,
Que agita a viração.
Nas horas solitárias,
Em que vagueia a lua,
E lava a planta nua
Na onda azul do mar,
Com um dedo sobre os lábios
No vôo silencioso,
Vejo-te cauteloso
No espaço viajar!
Deus do infeliz, do mísero!
Consolação do aflito!
Descanso do precito,
Que sonha a vida em ti!
Quando a cidade tétrica
De angústia e dor não geme...
É tua mão que espreme
A dormideira ali.
Em tua branca túnica
Envolves meio mundo.
E teu seio fecundo
De sonhos e visões,
Dos templos aos prostíbulos
Desde o tugúrio ao Paço,
Tu lanças lá do espaço
Punhados de ilusões!...
Da vida o sumo rúbido,
Do hatchiz a essência,
O ópio, que a indolência
Derrama em nosso ser,
Não valem, gênio mágico,
Teu seio, onde repousa
A placidez da lousa
E o gozo de viver...
Ó sono! Unge-me as pálpebras..
Entorna o esquecimento
Na luz do pensamento,
Que abrasa o crânio meu.
Como o pastor da Arcádia,
Que uma ave errante aninha...
Minhalma é uma andorinha...
Abre-lhe o seio teu.
Tu, que fechaste as pétalas
Do lírio, que pendia,
Chorando a luz do dia
E os raios do arrebol,
Também fecha-me as pálpebras...
Sem Ela o que é a vida?
Eu sou a flor pendida
Que espera a luz do sol.
O leite das eufórbias
Pra mim não é veneno...
Ouve-me, ó Deus sereno!
Ó Deus consolador!
Com teu divino bálsamo
Cala-me a ansiedade!
Mata-me esta saudade,
Apaga-me esta dor.
Mas quando, ao brilho rútilo
Do dia deslumbrante,
Vires a minha amante
Que volve para mim,
Então ergue-me súbito...
É minha aurora linda...
Meu anjo... mais ainda...
É minha amante enfim!
Ó sono! Ó Deus noctívago!
Doce influência amiga!
Gênio que a Grécia antiga
Chamava de Morfeu,
Ouve!... E se minhas súplicas
Em breve realizares...
Voto nos teus altares
Minha lira de Orfeu!
1 683