Poemas neste tema
Juventude
José de Paula Ramos Jr.
Canção de Anquises
Não reflete o bronze polido
a imagem dos passados anos:
a fronte sem marca de cãs,
sem rugas, braços vigorosos,
luz no olhar, aprumado dorso,
o viço na pele rosada,
pernas firmes. Oh, juventude!
Um dia, no passado esplêndido,
subi ao leito de Afrodite.
Agora, vejo a decadente
massa deformada insinuar,
na comissura de meus lábios
pensos, a pena iniludível,
que aguarda a todo ser humano.
Ao pé das muralhas de Tróia
devastada, deponho a lança
inútil, que vibrou outrora.
a imagem dos passados anos:
a fronte sem marca de cãs,
sem rugas, braços vigorosos,
luz no olhar, aprumado dorso,
o viço na pele rosada,
pernas firmes. Oh, juventude!
Um dia, no passado esplêndido,
subi ao leito de Afrodite.
Agora, vejo a decadente
massa deformada insinuar,
na comissura de meus lábios
pensos, a pena iniludível,
que aguarda a todo ser humano.
Ao pé das muralhas de Tróia
devastada, deponho a lança
inútil, que vibrou outrora.
922
1
Horácio Dídimo
As Doces Meninas de Outrora
as doces meninas de outrora
amanheceram
vestiram os vestidos novos
pintaram as unhas de vermelho
por um instante resplandeceram
depois baixaram as cabecinhas louras
e envelheceram como as flores
amanheceram
vestiram os vestidos novos
pintaram as unhas de vermelho
por um instante resplandeceram
depois baixaram as cabecinhas louras
e envelheceram como as flores
1 540
1
Fahed Daher
Drogado
Você procura um novo modo
de viver,
mas como?
Apenas protestando no que existe?
e insiste
que este modelo de viver não é legal!
"Vagal!""
Quer reformar o mundo aos seus conceitos...
Direitos?
Que direitos você quer?
De andar solto pelo mundo sem destino
e deitar
a qualquer tempo com uma mulher...
Stop! Pare! Pense um só minuto:
O puto
é o que perdeu o campo da auto estima
e acusa
o mundo que lhe impõe uma recusa...
Cabelo "pank",
camisa desbotada,,
a " tchurma", a droga
o resto é só cagada...
Se o mundo está errado?
Sabe lá se o certo é ser tarado...
E o segredo pra nossa inteligência
do que é a vida e o que é a evolução
que nos tirou do espaço
no ato da criação?!
Se está errado ou não, na sua opinião,...
Sua visão do mundo ,
com olhos vesgos da alma,,
com múltiplas visões que fogem
de toda realidade
pôr certo que o confundem
e enquanto vai,se afunda,
não vê toda a sujeira,
da própria bunda.
Não será pela sua indisciplina
em cada esquina,
bebendo e se drogando
que o mundo ,ao seu querer, vai se mudando.
Houve mudanças sim,
pêlos séculos e séculos, no esforço
de filósofos,cientistas e de reis,
no esforço da pesquisa e do trabalho,
não pelo paspalho
no qual você se faz
carregando no crânio imbeciloide,
pouco neurônio
e muito espermatozoide.
Pare e pense em Pasteur,em em Ghandi ,em Buda
em Braile em Jesus Cristo
e peça ajuda
aos espíritos que estão à sua roda,
dos seus pais,talvez,dos seus avós.
E, bravo,como heroi de si mesmo,
levante a voz,
olhando para o céu das tempestades,
dos raios ,das eternidades,
e grite com vigor:
Eu quero reviver.Reviverei.!
Sem ser plebeu e sem querer ser rei,
no vigor da minha mocidade,
na angústia de buscar felicidade
achando o amor de Deus,
sendo feliz aqui
de viver,
mas como?
Apenas protestando no que existe?
e insiste
que este modelo de viver não é legal!
"Vagal!""
Quer reformar o mundo aos seus conceitos...
Direitos?
Que direitos você quer?
De andar solto pelo mundo sem destino
e deitar
a qualquer tempo com uma mulher...
Stop! Pare! Pense um só minuto:
O puto
é o que perdeu o campo da auto estima
e acusa
o mundo que lhe impõe uma recusa...
Cabelo "pank",
camisa desbotada,,
a " tchurma", a droga
o resto é só cagada...
Se o mundo está errado?
Sabe lá se o certo é ser tarado...
E o segredo pra nossa inteligência
do que é a vida e o que é a evolução
que nos tirou do espaço
no ato da criação?!
Se está errado ou não, na sua opinião,...
Sua visão do mundo ,
com olhos vesgos da alma,,
com múltiplas visões que fogem
de toda realidade
pôr certo que o confundem
e enquanto vai,se afunda,
não vê toda a sujeira,
da própria bunda.
Não será pela sua indisciplina
em cada esquina,
bebendo e se drogando
que o mundo ,ao seu querer, vai se mudando.
Houve mudanças sim,
pêlos séculos e séculos, no esforço
de filósofos,cientistas e de reis,
no esforço da pesquisa e do trabalho,
não pelo paspalho
no qual você se faz
carregando no crânio imbeciloide,
pouco neurônio
e muito espermatozoide.
Pare e pense em Pasteur,em em Ghandi ,em Buda
em Braile em Jesus Cristo
e peça ajuda
aos espíritos que estão à sua roda,
dos seus pais,talvez,dos seus avós.
E, bravo,como heroi de si mesmo,
levante a voz,
olhando para o céu das tempestades,
dos raios ,das eternidades,
e grite com vigor:
Eu quero reviver.Reviverei.!
Sem ser plebeu e sem querer ser rei,
no vigor da minha mocidade,
na angústia de buscar felicidade
achando o amor de Deus,
sendo feliz aqui
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Marcelo Batalha
Quase Paixão
Busco um rosto por entre as vozes
Vejo uma luz por entre os cantos
Sinto a vontade penetrar meus poros
Doce ilusão que me afaga as costas
Me sussurra - de longe - à nuca
Me devolve ilusões escondidas
E então o brilho do sonho renasce
A visão da juventude me aquece
Uma face clara me ilumina
Cabelos negros ou quase molham meus olhos
Bombeiam meus orgãos
Vermelham meu coracao
Há via expressa pavimentada de desejos agora
Placas que sinalizam atenção
E claros sinais de verde esperança e rubra paixão
O que fazer ? O que dizer ? Como sentir ?
Como concorrer com raps, como nao repetir versos,
O que voce pode oferecer, pobre trovador ?
Tenho apenas meu sonho encantado
Meu beijo molhado
Meu verso, meu canto
E essa vontade louca
De apaixonar.
Vejo uma luz por entre os cantos
Sinto a vontade penetrar meus poros
Doce ilusão que me afaga as costas
Me sussurra - de longe - à nuca
Me devolve ilusões escondidas
E então o brilho do sonho renasce
A visão da juventude me aquece
Uma face clara me ilumina
Cabelos negros ou quase molham meus olhos
Bombeiam meus orgãos
Vermelham meu coracao
Há via expressa pavimentada de desejos agora
Placas que sinalizam atenção
E claros sinais de verde esperança e rubra paixão
O que fazer ? O que dizer ? Como sentir ?
Como concorrer com raps, como nao repetir versos,
O que voce pode oferecer, pobre trovador ?
Tenho apenas meu sonho encantado
Meu beijo molhado
Meu verso, meu canto
E essa vontade louca
De apaixonar.
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Castro Alves
Poesias Colegiais
Ao Natalício do meu Diretor,
o Ilmo. Sr. Dr. Abílio César Borges
I
Grato sempre à mocidade,
Belo dia, hás de raiar;
Sempre ela muito contente
Mil flores te há de ofertar!
Sempre em ti se entregará
Ao prazer com expansão;
Mil cultos render-te-á
Nos altares dafeição.
Pois em ti, sublime dia,
Do alto dos céus baixou
O anjo que à mocidade
Dos rigores libertou.
Baixou este grande homem,
Que tanto anima a instrução,
Estimulando coamor
O infantil coração.
II
Nasceu hoje meu bom Diretor,
Para honra do grande Brasil,
Preparando na infância, que educa,
Para a pátria futuro gentil.
É por isso que o sol orgulhoso
Ergue a fronte soberba e brilhante;
É por isso que as flores exalam
Um perfume mais doce e fragrante.
É por isso que tão cristalinos
Os regatos se alongam ao mar,
E as aves coas cores tão vivas
Brincam — ternas — voando no ar.
E os ventos tão meigos e frescos
Sussurrando as campinas percorrem.
E as abelhas em busca de mel
Às florinhas contentes já correm.
É por isso enfim que tão bela
A natura se ostenta no mundo;
É por isso que a infância já sente
Regozijos do peito no fundo.
III
Eia! cantemos cantemos!...
Com grinaldas coroemos
Neste belo e grande dia
Do natalício de amor
O nosso bom Diretor,
Que tão zeloso nos guia.
Bahia, Ginásio Baiano, 9 de setembro de 1860
o Ilmo. Sr. Dr. Abílio César Borges
I
Grato sempre à mocidade,
Belo dia, hás de raiar;
Sempre ela muito contente
Mil flores te há de ofertar!
Sempre em ti se entregará
Ao prazer com expansão;
Mil cultos render-te-á
Nos altares dafeição.
Pois em ti, sublime dia,
Do alto dos céus baixou
O anjo que à mocidade
Dos rigores libertou.
Baixou este grande homem,
Que tanto anima a instrução,
Estimulando coamor
O infantil coração.
II
Nasceu hoje meu bom Diretor,
Para honra do grande Brasil,
Preparando na infância, que educa,
Para a pátria futuro gentil.
É por isso que o sol orgulhoso
Ergue a fronte soberba e brilhante;
É por isso que as flores exalam
Um perfume mais doce e fragrante.
É por isso que tão cristalinos
Os regatos se alongam ao mar,
E as aves coas cores tão vivas
Brincam — ternas — voando no ar.
E os ventos tão meigos e frescos
Sussurrando as campinas percorrem.
E as abelhas em busca de mel
Às florinhas contentes já correm.
É por isso enfim que tão bela
A natura se ostenta no mundo;
É por isso que a infância já sente
Regozijos do peito no fundo.
III
Eia! cantemos cantemos!...
Com grinaldas coroemos
Neste belo e grande dia
Do natalício de amor
O nosso bom Diretor,
Que tão zeloso nos guia.
Bahia, Ginásio Baiano, 9 de setembro de 1860
1 404
1
Ezra Pound
SAUDAÇÃO SEGUNDA
Fostes louvados, meus livros,
porque eu acabara de chegar do interior;
Eu estava atrasado vinte anos
e por isso encontrastes um público preparado.
Não vos renego,
Não renegueis vossa progênie.
Aqui estão eles sem rebuscados artifícios,
Aqui estão eles sem nada de arcaico.
Observai a irritação geral:
Então é isto, dizem eles, o contra-senso
que esperamos dos poetas?
Onde está o Pitoresco?
Onde a vertigem da emoção?
Não ! O primeiro livro dele era melhor.
Pobre Coitado ! perdeu as ilusões.
Ide, pequenas canções nuas e impudentes,
Ide com um pé ligeiro !
(Ou com dois pés ligeiros, se quiserdes !)
Ide e dançai despudoradamente !
Ide com travessuras impertinentes !
Comprimentai os graves, os indigestos,
Saudai-os pondo a língua para fora.
Aqui estão vossos guizos, vossos confetti.
Ide ! rejuvenescei as coisas !
Rejuvenescei até The Spectator.
Ide com vaias e assobios !
Dançai a dança do phallus
contai anedotas de Cibele !
Falai da conduta indecorosa dos Deuses !
Levantai as saias das pudicas,
falai de seus joelhos e tornozelos.
Mas sobretudo, ide às pessoas práticas -
Dizei-lhes que não trabalhais
e que viverei eternamente.
(Tradução de Mário Faustino)
porque eu acabara de chegar do interior;
Eu estava atrasado vinte anos
e por isso encontrastes um público preparado.
Não vos renego,
Não renegueis vossa progênie.
Aqui estão eles sem rebuscados artifícios,
Aqui estão eles sem nada de arcaico.
Observai a irritação geral:
Então é isto, dizem eles, o contra-senso
que esperamos dos poetas?
Onde está o Pitoresco?
Onde a vertigem da emoção?
Não ! O primeiro livro dele era melhor.
Pobre Coitado ! perdeu as ilusões.
Ide, pequenas canções nuas e impudentes,
Ide com um pé ligeiro !
(Ou com dois pés ligeiros, se quiserdes !)
Ide e dançai despudoradamente !
Ide com travessuras impertinentes !
Comprimentai os graves, os indigestos,
Saudai-os pondo a língua para fora.
Aqui estão vossos guizos, vossos confetti.
Ide ! rejuvenescei as coisas !
Rejuvenescei até The Spectator.
Ide com vaias e assobios !
Dançai a dança do phallus
contai anedotas de Cibele !
Falai da conduta indecorosa dos Deuses !
Levantai as saias das pudicas,
falai de seus joelhos e tornozelos.
Mas sobretudo, ide às pessoas práticas -
Dizei-lhes que não trabalhais
e que viverei eternamente.
(Tradução de Mário Faustino)
1 673
1
Desconhecido
Poesia da menina tesuda
Já tenho quinze anos
Acho que estou crescendo
E quando tiver dezoito
Já quero estar fudendo
Já está chegando o tempo
Estou ficando coxuda
Meus seios estão crescendo
E minha buceta peluda
O rapaz com quem me casar
Não quero que seja broxa
Quero mesmo que ele tenha
Uma pica comprida e grossa
E quando estiver atrasado
Conte com esta buceta
Não fica bem um marmanjão
Se acabando na punheta
E prá quem não sabe
Punheta é a maior ilusão
Você pensa que está fudendo
Mas tá com o caralho na mão
E agora eu me despeço
Fazendo bilú-bilú
Com três dedos na buceta
E dois dedos no cu.
Acho que estou crescendo
E quando tiver dezoito
Já quero estar fudendo
Já está chegando o tempo
Estou ficando coxuda
Meus seios estão crescendo
E minha buceta peluda
O rapaz com quem me casar
Não quero que seja broxa
Quero mesmo que ele tenha
Uma pica comprida e grossa
E quando estiver atrasado
Conte com esta buceta
Não fica bem um marmanjão
Se acabando na punheta
E prá quem não sabe
Punheta é a maior ilusão
Você pensa que está fudendo
Mas tá com o caralho na mão
E agora eu me despeço
Fazendo bilú-bilú
Com três dedos na buceta
E dois dedos no cu.
4 505
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Manuel da Fonseca
Segunda
Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
... Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.
Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...
Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
... Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.
Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...
Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!
1 846
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Gil Vicente
A seguinte farsa
A seguinte farsa de folgar foi representada ao muito alto e mui poderoso rei D. João, o terceiro do nome em Portugal, no seu Convento de Tomar, era do Senhor de MDXXIII. O seu argumento é que porquanto duvidavam certos homens de bom saber se o Autor fazia de si mesmo estas obras, ou se furtava de outros autores, lhe deram este tema sobre que fizesse: segundo um exemplo comum que dizem: mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube. E sobre este motivo se fez esta farsa.
A figuras são as seguintes: Inês Pereira; sua Mãe; Lianor Vaz; Pêro Marques; dous Judeus (um chamado Latão, outro Vidal); um Escudeiro com um seu Moço; um Ermitão; Luzia e Fernando.
Finge-se que Inês Pereira, filha de hüa molher de baixa sorte, muito fantesiosa, está lavrando em casa, e sua mãe é a ouvir missa, e ela canta esta cantiga:
Quien con veros pena y muere
Que hará quando no os viere?
E diz
INÊS Renego deste lavrar
E do primeiro que o usou;
Ó diabo que o eu dou,
Que tão mau é d'aturar.
Oh Jesu! que enfadamento,
E que raiva, e que tormento,
Que cegueira, e que canseira!
Eu hei-de buscar maneira
D'algum outro aviamento.
Coitada, assi hei-de estar
Encerrada nesta casa
Como panela sem asa,
Que sempre está num lugar?
E assi hão-de ser logrados
Dous dias amargurados,
Que eu possa durar viva?
E assim hei-de estar cativa
Em poder de desfiados?
Antes o darei ao Diabo
Que lavrar mais nem pontada.
Já tenho a vida cansada
De fazer sempre dum cabo.
Todas folgam, e eu não,
Todas vêm e todas vão
Onde querem, senão eu.
Hui! e que pecado é o meu,
Ou que dor de coração?
Esta vida he mais que morta.
Sam eu coruja ou corujo,
Ou sam algum caramujo
Que não sai senão à porta?
E quando me dão algum dia
Licença, como a bugia,
Que possa estar à janela,
É já mais que a Madanela
Quando achou a aleluía.
Vem a Mãe, e não na achando lavrando, diz:
MÃE Logo eu adivinhei
Lá na missa onde eu estava,
Como a minha Inês lavrava
A tarefa que lhe eu dei...
Acaba esse travesseiro!
Hui! Nasceu-te algum unheiro?
Ou cuidas que é dia santo?
INÊS Praza a Deos que algum quebranto?
Me tire do cativeiro.
MÃE Toda tu estás aquela!
Choram-te os filhos por pão?
INÊS Prouvesse a Deus! Que já é razão
De eu não estar tão singela.
MÃE Olhade ali o mau pesar...
Como queres tu casar
Com fama de preguiçosa?
INÊS Mas eu, mãe, sam aguçosa
E vós dais-vos de vagar.
MÃE Ora espera assi, vejamos.
INÊS Quem já visse esse prazer!
MÃE Cal'-te, que poderá ser
Que «ame a Páscoa vêm os Ramos».
Não te apresses tu, Inês.
«Maior é o ano que o mês»:
Quando te não precatares,
Virão maridos a pares,
E filhos de três em três.
INÊS Quero-m'ora alevantar.
Folgo mais de falar nisso,
Assi me dê Deos o paraíso,
Mil vezes que não lavrar
Isto não sei que me faz
MÃE Aqui vem Lianor Vaz.
INÊS E ela vem-se benzendo...
(Entra Lianor Vaz)
LIANOR Jesu a que me eu encomendo!
Quanta cousa que se faz!
MÃE Lianor Vaz, que é isso?
LIANOR Venho eu, mana, amarela?
MÃE Mais ruiva que uma panela.
LIANOR Não sei como tenho siso!
Jesu! Jesu! que farei?
Não sei se me vá a el-Rei,
Se me vá ao Cardeal.
MÃE Como? e tamanho é o mal?
LIANOR Tamanho? eu to direi:
Vinha agora pereli
Ó redor da minha vinha,
E hum clérigo, mana minha,
Pardeos, lançou mão de mi;
Não me podia valer
Diz que havia de saber
S'era eu fêmea, se macho.
MÃE Hui! seria algum muchacho,
Que brincava por prazer?
LIANOR Si, muchacho sobejava
Era hum zote#tamanhouço!
Eu andava no retouço,
Tão rouca que não falava.
Quando o vi pegar comigo,
Que m'achei naquele p'rigo:
- Assolverei! - não assolverás!
-Tomarei! - não tomarás!
- Jesu! homem, qu'has contigo?
- Irmã, eu te assolverei
Co breviairo de Braga.
- Que breviairo, ou que praga!
Que não quero: aqui d'el-Rei! -
Quando viu revolta a voda,
Foi e esfarrapou-me toda
O cabeção da camisa.
MÃE Assi me fez dessa guisa
Outro, no tempo da poda.
Eu cuidei que era jogo,
E ele... dai-o vós ao fogo!
Tomou-me tamanho riso,
Riso em todo meu siso,
E ele leixou-me logo.
LIANOR Si, agora, eramá,
Também eu me ria cá
Das cousas que me dizia:
Chamava-me «luz do dia».
- «Nunca teu olho verá!» -
Se estivera de maneira
Sem ser rouca, bradar'eu;
Mas logo m'o demo deu
Catarrão e peitogueira,
Cócegas e cor de rir,
E coxa pera fugir,
E fraca pera vencer:
Porém pude-me valer
Sem me ninguém acudir...
O demo (e não pode al ser)
Se chantou no corpo dele.
MÃE Mana, conhecia-te ele?
LIANOR Mas queria-me conhecer!
MÃE Vistes vós tamanho mal?
LIANOR Eu m'irei ao Cardeal,
E far-lhe-ei assi mesura,
E contar lhe-ei a aventura
Que achei no meu olival.
MÃE Não estás tu arranhada,
De te carpir, nas queixadas?
LIANOR Eu tenho as unhas cortadas,
E mais estou tosquiada:
E mais pera que era isso?
E mais pera que é o siso?
E mais no meio da requesta
Veio hum homem de hüa besta,
Que em vê-lo vi o p'raíso,
E soltou-me, porque vinha
Bem contra sua vontade.
Porém, a falar a verdade,
Já eu andava cansadinha:
Não me valia rogar
Nem me valia chamar:
- «Aque de Vasco#de#Fois,
Acudi-me, como sois!»
E ele... senão pegar:
- Mais mansa, Lianor Vaz,
Assi Deus te faça santa.
- Trama te dê na garganta!
Como! isto assi se faz?
- Isto não revela nada...
- Tu não vês que são casada?
MÃE Deras-lhe, má hora, boa,
E mordera-lo na coroa.
LIANOR Assi! fora excomungada.
Não lhe dera um empuxão,
Porque sou tão maviosa,
Que é cousa maravilhosa.
E esta é a concrusão.
Leixemos isto. Eu venho
Com grande amor que vos tenho,
Porque diz o exemplo antigo
Que a amiga e bom amigo
Mais aquenta que o bom lenho.
Inês está concertada
Pera casar com alguém?
MÃE Até `gora com ninguém
Não é ela embaraçada.
LIANOR Eu vos trago um casamento
Em nome do anjo#bento.
Filha, não sei se vos praz.
INÊS E quando, Lianor Vaz?
LIANOR Eu vos trago aviamento.
INÊS Porém, não hei-de casar
Senão com homem avisado
Ainda que pobre e pelado,
Seja discreto em falar
LIANOR Eu vos trago um bom marido,
Rico, honrado, conhecido.
Diz que em camisa vos quer
INÊS Primeiro eu hei-de saber
Se é<
A figuras são as seguintes: Inês Pereira; sua Mãe; Lianor Vaz; Pêro Marques; dous Judeus (um chamado Latão, outro Vidal); um Escudeiro com um seu Moço; um Ermitão; Luzia e Fernando.
Finge-se que Inês Pereira, filha de hüa molher de baixa sorte, muito fantesiosa, está lavrando em casa, e sua mãe é a ouvir missa, e ela canta esta cantiga:
Quien con veros pena y muere
Que hará quando no os viere?
E diz
INÊS Renego deste lavrar
E do primeiro que o usou;
Ó diabo que o eu dou,
Que tão mau é d'aturar.
Oh Jesu! que enfadamento,
E que raiva, e que tormento,
Que cegueira, e que canseira!
Eu hei-de buscar maneira
D'algum outro aviamento.
Coitada, assi hei-de estar
Encerrada nesta casa
Como panela sem asa,
Que sempre está num lugar?
E assi hão-de ser logrados
Dous dias amargurados,
Que eu possa durar viva?
E assim hei-de estar cativa
Em poder de desfiados?
Antes o darei ao Diabo
Que lavrar mais nem pontada.
Já tenho a vida cansada
De fazer sempre dum cabo.
Todas folgam, e eu não,
Todas vêm e todas vão
Onde querem, senão eu.
Hui! e que pecado é o meu,
Ou que dor de coração?
Esta vida he mais que morta.
Sam eu coruja ou corujo,
Ou sam algum caramujo
Que não sai senão à porta?
E quando me dão algum dia
Licença, como a bugia,
Que possa estar à janela,
É já mais que a Madanela
Quando achou a aleluía.
Vem a Mãe, e não na achando lavrando, diz:
MÃE Logo eu adivinhei
Lá na missa onde eu estava,
Como a minha Inês lavrava
A tarefa que lhe eu dei...
Acaba esse travesseiro!
Hui! Nasceu-te algum unheiro?
Ou cuidas que é dia santo?
INÊS Praza a Deos que algum quebranto?
Me tire do cativeiro.
MÃE Toda tu estás aquela!
Choram-te os filhos por pão?
INÊS Prouvesse a Deus! Que já é razão
De eu não estar tão singela.
MÃE Olhade ali o mau pesar...
Como queres tu casar
Com fama de preguiçosa?
INÊS Mas eu, mãe, sam aguçosa
E vós dais-vos de vagar.
MÃE Ora espera assi, vejamos.
INÊS Quem já visse esse prazer!
MÃE Cal'-te, que poderá ser
Que «ame a Páscoa vêm os Ramos».
Não te apresses tu, Inês.
«Maior é o ano que o mês»:
Quando te não precatares,
Virão maridos a pares,
E filhos de três em três.
INÊS Quero-m'ora alevantar.
Folgo mais de falar nisso,
Assi me dê Deos o paraíso,
Mil vezes que não lavrar
Isto não sei que me faz
MÃE Aqui vem Lianor Vaz.
INÊS E ela vem-se benzendo...
(Entra Lianor Vaz)
LIANOR Jesu a que me eu encomendo!
Quanta cousa que se faz!
MÃE Lianor Vaz, que é isso?
LIANOR Venho eu, mana, amarela?
MÃE Mais ruiva que uma panela.
LIANOR Não sei como tenho siso!
Jesu! Jesu! que farei?
Não sei se me vá a el-Rei,
Se me vá ao Cardeal.
MÃE Como? e tamanho é o mal?
LIANOR Tamanho? eu to direi:
Vinha agora pereli
Ó redor da minha vinha,
E hum clérigo, mana minha,
Pardeos, lançou mão de mi;
Não me podia valer
Diz que havia de saber
S'era eu fêmea, se macho.
MÃE Hui! seria algum muchacho,
Que brincava por prazer?
LIANOR Si, muchacho sobejava
Era hum zote#tamanhouço!
Eu andava no retouço,
Tão rouca que não falava.
Quando o vi pegar comigo,
Que m'achei naquele p'rigo:
- Assolverei! - não assolverás!
-Tomarei! - não tomarás!
- Jesu! homem, qu'has contigo?
- Irmã, eu te assolverei
Co breviairo de Braga.
- Que breviairo, ou que praga!
Que não quero: aqui d'el-Rei! -
Quando viu revolta a voda,
Foi e esfarrapou-me toda
O cabeção da camisa.
MÃE Assi me fez dessa guisa
Outro, no tempo da poda.
Eu cuidei que era jogo,
E ele... dai-o vós ao fogo!
Tomou-me tamanho riso,
Riso em todo meu siso,
E ele leixou-me logo.
LIANOR Si, agora, eramá,
Também eu me ria cá
Das cousas que me dizia:
Chamava-me «luz do dia».
- «Nunca teu olho verá!» -
Se estivera de maneira
Sem ser rouca, bradar'eu;
Mas logo m'o demo deu
Catarrão e peitogueira,
Cócegas e cor de rir,
E coxa pera fugir,
E fraca pera vencer:
Porém pude-me valer
Sem me ninguém acudir...
O demo (e não pode al ser)
Se chantou no corpo dele.
MÃE Mana, conhecia-te ele?
LIANOR Mas queria-me conhecer!
MÃE Vistes vós tamanho mal?
LIANOR Eu m'irei ao Cardeal,
E far-lhe-ei assi mesura,
E contar lhe-ei a aventura
Que achei no meu olival.
MÃE Não estás tu arranhada,
De te carpir, nas queixadas?
LIANOR Eu tenho as unhas cortadas,
E mais estou tosquiada:
E mais pera que era isso?
E mais pera que é o siso?
E mais no meio da requesta
Veio hum homem de hüa besta,
Que em vê-lo vi o p'raíso,
E soltou-me, porque vinha
Bem contra sua vontade.
Porém, a falar a verdade,
Já eu andava cansadinha:
Não me valia rogar
Nem me valia chamar:
- «Aque de Vasco#de#Fois,
Acudi-me, como sois!»
E ele... senão pegar:
- Mais mansa, Lianor Vaz,
Assi Deus te faça santa.
- Trama te dê na garganta!
Como! isto assi se faz?
- Isto não revela nada...
- Tu não vês que são casada?
MÃE Deras-lhe, má hora, boa,
E mordera-lo na coroa.
LIANOR Assi! fora excomungada.
Não lhe dera um empuxão,
Porque sou tão maviosa,
Que é cousa maravilhosa.
E esta é a concrusão.
Leixemos isto. Eu venho
Com grande amor que vos tenho,
Porque diz o exemplo antigo
Que a amiga e bom amigo
Mais aquenta que o bom lenho.
Inês está concertada
Pera casar com alguém?
MÃE Até `gora com ninguém
Não é ela embaraçada.
LIANOR Eu vos trago um casamento
Em nome do anjo#bento.
Filha, não sei se vos praz.
INÊS E quando, Lianor Vaz?
LIANOR Eu vos trago aviamento.
INÊS Porém, não hei-de casar
Senão com homem avisado
Ainda que pobre e pelado,
Seja discreto em falar
LIANOR Eu vos trago um bom marido,
Rico, honrado, conhecido.
Diz que em camisa vos quer
INÊS Primeiro eu hei-de saber
Se é<
2 766
1
Fernando Pessoa
Vossa formosa juventude leda,
Vossa formosa juventude leda,
Vossa felicidade pensativa,
Vosso modo de olhar a quem vos olha,
Vosso não conhecer-vos –
Tudo quanto vós sois, que vos semelha
À vida universal que vos esquece
Dá carinho de amor a quem vos ama
Por serdes não lembrando
Quanta igual mocidade a eterna praia
De Cronos, pai injusto da justiça,
Ondas, quebrou, deixando à só memória
Um branco som de 'spuma.
02/09/1923
Vossa felicidade pensativa,
Vosso modo de olhar a quem vos olha,
Vosso não conhecer-vos –
Tudo quanto vós sois, que vos semelha
À vida universal que vos esquece
Dá carinho de amor a quem vos ama
Por serdes não lembrando
Quanta igual mocidade a eterna praia
De Cronos, pai injusto da justiça,
Ondas, quebrou, deixando à só memória
Um branco som de 'spuma.
02/09/1923
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1
Martha Medeiros
Mudança
Minha mãe recentemente se mudou do apartamento em que morou a vida toda para um bem menorzinho. Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu.
Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos de idade. Rejuvenesceu.
Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um ótimo emprego em Porto Alegre por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela caminha na beira da praia todas as manhãs. Rejuvenesceu.
Toda mudança cobra um alto preço emocional. Antes de tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza. Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face.
Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna.
Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco, porque não existe plástica que resgate seu brilho.
Quem dá brilho ao nosso olhar é a vida que a gente optou por levar.
Um olhar iluminado, vivo e sagaz impede que a pessoa envelheça.
Olhe-se no espelho. Você tem um olhar de quem estaria disposta a cometer loucuras? Tem que ter.
Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos de idade. Rejuvenesceu.
Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um ótimo emprego em Porto Alegre por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela caminha na beira da praia todas as manhãs. Rejuvenesceu.
Toda mudança cobra um alto preço emocional. Antes de tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza. Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face.
Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna.
Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco, porque não existe plástica que resgate seu brilho.
Quem dá brilho ao nosso olhar é a vida que a gente optou por levar.
Um olhar iluminado, vivo e sagaz impede que a pessoa envelheça.
Olhe-se no espelho. Você tem um olhar de quem estaria disposta a cometer loucuras? Tem que ter.
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Daniel Francoy
LATITUDES
Fala-me Conrad de um tempo,
ou melhor, de uma latitude
que ultrapassada impede
qualquer regresso –
como se o destino de um homem
fosse descer por uma luz vacilante
degrau após degrau.
Sujamo-nos, não há outro caminho
que não seja ter as mãos sujas.
Sujamo-nos e são as mãos sujas
o último elo a romper-se.
Por elas passa o ouro conseguido
a um custo indizível,
o perfume de amores enlouquecidos,
as flores que colhemos quando
muito jovens ou muito cansados.
O último elo a romper-se porque
da luz mais gasta permanece o pólen.
ou melhor, de uma latitude
que ultrapassada impede
qualquer regresso –
como se o destino de um homem
fosse descer por uma luz vacilante
degrau após degrau.
Sujamo-nos, não há outro caminho
que não seja ter as mãos sujas.
Sujamo-nos e são as mãos sujas
o último elo a romper-se.
Por elas passa o ouro conseguido
a um custo indizível,
o perfume de amores enlouquecidos,
as flores que colhemos quando
muito jovens ou muito cansados.
O último elo a romper-se porque
da luz mais gasta permanece o pólen.
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Herberto Helder
Quatro Poemas Árabes - Tudo o Oue É Novo É Belo
De tudo O que é novo nasce um novo prazer,
mas eu sei que não é boa a jovem morte.
Ela fere pelas costas, e não é doce como o açúcar,
nem é como o vinho, nem como o sumo das uvas.
mas eu sei que não é boa a jovem morte.
Ela fere pelas costas, e não é doce como o açúcar,
nem é como o vinho, nem como o sumo das uvas.
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Herberto Helder
Adolescentes Repentinos
Adolescentes repentinos, não sabem, apenas o tormento de um excesso
giratório. Com as cabeças zoológicas.
Os anéis nas patas.
Oprime-os para dentro um clarão dançante.
Aquilo que são fora.
A cegueira dos chifres que levantam
como uma enorme estrela
desabraçada. A sua ligeireza busca o peso
da pedra. E o peso que têm
de pura luz sem peso, o movimento sinistro
no chão,
o terror, uma
riqueza violenta — buscam alguém que os toque.
Na boca.
Que os torne transparentes, circulatórios.
E quando as turquesas se cruzam de mão a mão, deixando-as
em brasa,
vê-se que são anjos tocados pelas viboras, anjos
anatómicos e atrozes.
Expostos à lua como animais. Que são escuros
nas espáduas.
Devastam o mundo só de olhá-lo com força.
O sono que os ataca mostra-os
cheios de artérias. E então a delicadeza pesa-lhes
como a morte. Basta tocá-los na cara para que fiquem
brancos. Atravessá-los com o sangue venoso
da insónia, da nossa matéria.
E então a sua carne é uma estrela suada.
giratório. Com as cabeças zoológicas.
Os anéis nas patas.
Oprime-os para dentro um clarão dançante.
Aquilo que são fora.
A cegueira dos chifres que levantam
como uma enorme estrela
desabraçada. A sua ligeireza busca o peso
da pedra. E o peso que têm
de pura luz sem peso, o movimento sinistro
no chão,
o terror, uma
riqueza violenta — buscam alguém que os toque.
Na boca.
Que os torne transparentes, circulatórios.
E quando as turquesas se cruzam de mão a mão, deixando-as
em brasa,
vê-se que são anjos tocados pelas viboras, anjos
anatómicos e atrozes.
Expostos à lua como animais. Que são escuros
nas espáduas.
Devastam o mundo só de olhá-lo com força.
O sono que os ataca mostra-os
cheios de artérias. E então a delicadeza pesa-lhes
como a morte. Basta tocá-los na cara para que fiquem
brancos. Atravessá-los com o sangue venoso
da insónia, da nossa matéria.
E então a sua carne é uma estrela suada.
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Herberto Helder
A Menstruação Quando Na Cidade Passava
A menstruação quando na cidade passava
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos — e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam — e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.
As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado — alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam — e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos — era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.
O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos — e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.
As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.
E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio —
na noite, na neve —
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.
As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.
Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam — e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação — falava alguém. O ar passava —
e pela noite, em silêncio,
a menstruação escorria pela neve.
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos — e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam — e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.
As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado — alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam — e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos — era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.
O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos — e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.
As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.
E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio —
na noite, na neve —
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.
As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.
Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam — e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação — falava alguém. O ar passava —
e pela noite, em silêncio,
a menstruação escorria pela neve.
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Herberto Helder
Os Ritmos 13
Atravessei depressa a juventude.
Tinha duas coisas — a alegria e o terror.
Percorri-os sem tomar fôlego.
Quando cheguei ao outro lado, encontrava-me em frente da maturidade — estupefacto.
Não conhecia os nomes nem as subtilezas.
Falando com certas pessoas, eu dizia: conheci a alegria e o terror.
Elas sorriam.
Parece que eram sábias.
Ou estúpidas.
Nada sei disso.
Encontrei um homem louco que tinha uma frota de quebra-gelos no sul da Itália.
Contou-me também que descobrira um processo novo de prever os terramotos.
Construíra uma casa no meio da planície — dizia ele — e criara veados a toda a volta.
Quando se aproximava um tremor de terra, os veados vinham para junto da casa, de cornos trémulos.
Era uma planície de cornos trémulos.
Encontro pessoas assim: loucas, sérias — gente total.
Falam-me destas coisas, ou de dinheiro, progresso, política e felicidade.
Vê-se como me encontro desorientado, com a minha idade e as coisas que são dela ou não são.
Fui aos psicanalistas e mandaram-me deitar num divã.
Tenho a alegria ou o terror — por onde devo começar?
Fale do que quiser — diziam.
Eu estava de olhos abertos, deitado, na obscuridade do gabinete.
Ainda assim, distinguia bem uma reprodução medíocre das Musas Inquietantes, de Chirico, na parede em frente.
Representa a Piazza Vecchia, em Florença, com o Palácio Palatino ao fundo, bastante vermelho.
O céu tem a cor das garrafas verdes.
Representa chaminés de fábricas.
A atmosfera é de ameaçadora suspensão.
No espaço essencial, representa as terríveis figuras inspiradoras.
São estátuas que o não imitam, possuem mantos pregueados.
Espalham-se em volta os frios objectos do seu jogo.
Um bastão cilíndrico, paralelepípedos de cor, um cubo azul onde se senta a mulher de pedra branca, com seu escudo rubro ao lado.
A cabeça de uma das estátuas tem a forma de grande pêra ou bola de rugby.
Outra não tem cabeça.
No pescoço decepado, que não sangra, floresce um rebento negro.
Poderia segurar nas mãos a sua própria cabeça de cautchou.
Disse que o céu é tremendamente verde.
Sim, há uma figura disfarçada na sombra.
Esta ameaça total ou suspeita, ou longamente elaborada pergunta, suspende-se sobre abismos trementes.
Julgo que se poderia enlouquecer, olhando essas linhas vivas e áridas durante vinte e quatro horas.
Eu disse: tive um sonho.
Dei-lhe um nome, dou um nome a todos os meus sonhos.
Este chama-se — Os Animais Domésticos.
Era uma sala de teatro.
Ao fundo, em vez das portas de entrada e saída, havia uma esplanada no passeio de uma rua larga, com árvores, movimento e um céu vibrante por cima.
A plateia estava cheia de pessoas que conversavam umas com as outras, levantavam-se, sentavam-se — trocavam de lugares.
Eu encontrava-me no palco, deitado, com a cabeça no colo de uma velha sentada no chão.
Uma telefonia monstruosa, ocupando quase todo o palco, emitia uma louca canção — violenta, insuportável.
Um jovem mexia nos botões da telefonia.
A mesma canção violenta — sempre, sempre.
Depois levantei-me e desci para a plateia, misturando-me às pessoas, falando com elas, indo de aqui para ali.
De repente, encontrei-me na esplanada, despedindo-me de uma mulher que ia para a Suíça.
Vou para a Suíça, adeus.
Levantei-me para dar-lhe um beijo de despedida, e disse-lhe: adeus, viaja, viaja, faz bem viajar — a Suíça.
Sim, sim, sim, disse ela, sim.
Eu estava de pé, com a mão dela entre as minhas, e dizia-lhe: viaja, viaja, é muito instrutivo.
Sim, sim, dizia ela, e afastava-se, sim, dizia afastando-se, sim, sim.
Sentei-me e ouvi ao longe o grito da mulher: sim, de avião, sim, sim.
Respondi: a Suíça.
Reparei de súbito que conservava nas minhas a mão da mulher.
Fiquei preocupado.
Como se arranjará ela na Suíça, sem a mão direita?
Então atirei a mão para o ar.
A mão voou rapidamente em direcção à Suíça.
Resolvi passear pela cidade.
Mas, antes, fui espreitar para dentro da sala.
Na voz grave de um homem, a rádio transmitia agora o boletim meteorológico.
Previsão para amanhã: tempestade de areia no deserto, tempestade de neve no pólo, maremoto no mar, terramoto na terra, muita luz, muita treva.
Eu andava à procura pelas ruas.
Era uma cidade confusa, de casas muito baixas, sem portas, com grandes janelas.
Junto de cada janela, no interior, uma cama desfeita.
Eu espreitava para dentro destas casas de um só piso.
Todas as camas estavam vazias, menos uma, onde se encontrava uma criança de colo, nua, uma menina.
Uma menina.
Uma menina alarmante.
Tinha um sexo de mulher, cheio de pêlos eriçados.
Tirei então a criança da cama, pela janela, e levando-a ao colo voltei para o teatro, através das ruas vazias.
Pensava: é horrível, horrível.
É uma espécie de glória negra.
É bela e horrível.
É bela, bela, bela.
É horrivelmente bela.
É uma espécie de negro, negro triunfo.
No teatro, a criança transformou-se num enorme ramo de cravos negros que estremeciam nos meus braços, tremiam, pareciam respirar, viver tremulamente, cheios de seiva negra.
Comecei a colocar um cravo na cabeça de cada pessoa da plateia, como se cada cabeça fosse a boca de uma jarra.
Estavam agora no palco duas pessoas vestidas de espelho, em frente uma da outra, de perfil para a plateia, fazendo uma com o lado esquerdo do corpo aquilo que a outra fazia com o direito, numa simultaneidade rigorosa.
A cabeça de uma das figuras era branca e a da outra era negra.
A telefonia transmitia uma canção vertiginosa, e os cravos negros que eu ainda tinha nas mãos transformaram-se em fumo.
As minhas mãos estavam cobertas de sangue.
Então a música parou abruptamente, e a mesma voz que lera o boletim meteorológico disse no meio de um silêncio total:
Nascido para o inferno.
Tinha duas coisas — a alegria e o terror.
Percorri-os sem tomar fôlego.
Quando cheguei ao outro lado, encontrava-me em frente da maturidade — estupefacto.
Não conhecia os nomes nem as subtilezas.
Falando com certas pessoas, eu dizia: conheci a alegria e o terror.
Elas sorriam.
Parece que eram sábias.
Ou estúpidas.
Nada sei disso.
Encontrei um homem louco que tinha uma frota de quebra-gelos no sul da Itália.
Contou-me também que descobrira um processo novo de prever os terramotos.
Construíra uma casa no meio da planície — dizia ele — e criara veados a toda a volta.
Quando se aproximava um tremor de terra, os veados vinham para junto da casa, de cornos trémulos.
Era uma planície de cornos trémulos.
Encontro pessoas assim: loucas, sérias — gente total.
Falam-me destas coisas, ou de dinheiro, progresso, política e felicidade.
Vê-se como me encontro desorientado, com a minha idade e as coisas que são dela ou não são.
Fui aos psicanalistas e mandaram-me deitar num divã.
Tenho a alegria ou o terror — por onde devo começar?
Fale do que quiser — diziam.
Eu estava de olhos abertos, deitado, na obscuridade do gabinete.
Ainda assim, distinguia bem uma reprodução medíocre das Musas Inquietantes, de Chirico, na parede em frente.
Representa a Piazza Vecchia, em Florença, com o Palácio Palatino ao fundo, bastante vermelho.
O céu tem a cor das garrafas verdes.
Representa chaminés de fábricas.
A atmosfera é de ameaçadora suspensão.
No espaço essencial, representa as terríveis figuras inspiradoras.
São estátuas que o não imitam, possuem mantos pregueados.
Espalham-se em volta os frios objectos do seu jogo.
Um bastão cilíndrico, paralelepípedos de cor, um cubo azul onde se senta a mulher de pedra branca, com seu escudo rubro ao lado.
A cabeça de uma das estátuas tem a forma de grande pêra ou bola de rugby.
Outra não tem cabeça.
No pescoço decepado, que não sangra, floresce um rebento negro.
Poderia segurar nas mãos a sua própria cabeça de cautchou.
Disse que o céu é tremendamente verde.
Sim, há uma figura disfarçada na sombra.
Esta ameaça total ou suspeita, ou longamente elaborada pergunta, suspende-se sobre abismos trementes.
Julgo que se poderia enlouquecer, olhando essas linhas vivas e áridas durante vinte e quatro horas.
Eu disse: tive um sonho.
Dei-lhe um nome, dou um nome a todos os meus sonhos.
Este chama-se — Os Animais Domésticos.
Era uma sala de teatro.
Ao fundo, em vez das portas de entrada e saída, havia uma esplanada no passeio de uma rua larga, com árvores, movimento e um céu vibrante por cima.
A plateia estava cheia de pessoas que conversavam umas com as outras, levantavam-se, sentavam-se — trocavam de lugares.
Eu encontrava-me no palco, deitado, com a cabeça no colo de uma velha sentada no chão.
Uma telefonia monstruosa, ocupando quase todo o palco, emitia uma louca canção — violenta, insuportável.
Um jovem mexia nos botões da telefonia.
A mesma canção violenta — sempre, sempre.
Depois levantei-me e desci para a plateia, misturando-me às pessoas, falando com elas, indo de aqui para ali.
De repente, encontrei-me na esplanada, despedindo-me de uma mulher que ia para a Suíça.
Vou para a Suíça, adeus.
Levantei-me para dar-lhe um beijo de despedida, e disse-lhe: adeus, viaja, viaja, faz bem viajar — a Suíça.
Sim, sim, sim, disse ela, sim.
Eu estava de pé, com a mão dela entre as minhas, e dizia-lhe: viaja, viaja, é muito instrutivo.
Sim, sim, dizia ela, e afastava-se, sim, dizia afastando-se, sim, sim.
Sentei-me e ouvi ao longe o grito da mulher: sim, de avião, sim, sim.
Respondi: a Suíça.
Reparei de súbito que conservava nas minhas a mão da mulher.
Fiquei preocupado.
Como se arranjará ela na Suíça, sem a mão direita?
Então atirei a mão para o ar.
A mão voou rapidamente em direcção à Suíça.
Resolvi passear pela cidade.
Mas, antes, fui espreitar para dentro da sala.
Na voz grave de um homem, a rádio transmitia agora o boletim meteorológico.
Previsão para amanhã: tempestade de areia no deserto, tempestade de neve no pólo, maremoto no mar, terramoto na terra, muita luz, muita treva.
Eu andava à procura pelas ruas.
Era uma cidade confusa, de casas muito baixas, sem portas, com grandes janelas.
Junto de cada janela, no interior, uma cama desfeita.
Eu espreitava para dentro destas casas de um só piso.
Todas as camas estavam vazias, menos uma, onde se encontrava uma criança de colo, nua, uma menina.
Uma menina.
Uma menina alarmante.
Tinha um sexo de mulher, cheio de pêlos eriçados.
Tirei então a criança da cama, pela janela, e levando-a ao colo voltei para o teatro, através das ruas vazias.
Pensava: é horrível, horrível.
É uma espécie de glória negra.
É bela e horrível.
É bela, bela, bela.
É horrivelmente bela.
É uma espécie de negro, negro triunfo.
No teatro, a criança transformou-se num enorme ramo de cravos negros que estremeciam nos meus braços, tremiam, pareciam respirar, viver tremulamente, cheios de seiva negra.
Comecei a colocar um cravo na cabeça de cada pessoa da plateia, como se cada cabeça fosse a boca de uma jarra.
Estavam agora no palco duas pessoas vestidas de espelho, em frente uma da outra, de perfil para a plateia, fazendo uma com o lado esquerdo do corpo aquilo que a outra fazia com o direito, numa simultaneidade rigorosa.
A cabeça de uma das figuras era branca e a da outra era negra.
A telefonia transmitia uma canção vertiginosa, e os cravos negros que eu ainda tinha nas mãos transformaram-se em fumo.
As minhas mãos estavam cobertas de sangue.
Então a música parou abruptamente, e a mesma voz que lera o boletim meteorológico disse no meio de um silêncio total:
Nascido para o inferno.
1 063
Herberto Helder
Os Ritmos 15
Mandaram-me fazer um electro-encefalograma.
Era para ver como ia o meu ritmo alfa.
Eles tinham desconfianças.
Falavam de estados crepusculares.
Divertido.
Eu não tinha estados crepusculares.
O ritmo alfa estava óptimo.
Cumprimentaram-me muito.
A sua cabeça é sólida.
Bem, eu tinha uma cabeça sólida.
Era uma coisa alegre.
Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista.
Nessa altura, ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse.
Não no aspecto erudito, é claro.
Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros, os sete selos e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres.
Eu saía do gabinete fervendo de inspiração.
Escrevi poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los.
Foi um bom tempo.
Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa.
Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte.
Estudei os melhores venenos, em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção.
Gosto da palavra suicídio.
A frequência dos ii, como golpes, as duas sibilantes, e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me — fascinam-me.
Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais.
Como alegria, imaginei alguma coisa:
Uma cidade com torres brancas, espancada pela luz, e com navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes.
Havia uma árvore inocente no meio da cidade.
Na primavera, enchia-se de espinhos ferozes e dava flores monstruosas, cor de púrpura.
As mães não deixavam que as crianças brincassem perto da árvore.
Durante dias e dias, a luz espancava a cidade.
Nada havia a fazer com a minha maturidade.
Certas noites, vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares.
Os bêbedos formam uma maçonaria.
Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas.
Um deles disse-me: tens um espírito essencialmente religioso.
Gostei.
Ficámos muito amigos.
Passámos a beber os dois, falando do espírito religioso.
Eu também possuo um espírito essencialmente religioso — garantiu-me ele uma noite, quando já tinha cerveja quase até à garganta.
A minha juventude, disse-lhe eu, foi uma violenta e fulminante viagem através do terror e da alegria.
Estive agarrado às trevas, ouvia o barulho das águas negras, não podia dormir.
Ou então tremia de puro júbilo, era admirável ter um corpo, uma voz, viver no meio da luz e da chuva e das grandes nuvens sobre os campos.
É o espírito religioso, dizia o meu amigo.
Talvez fosse, sim.
Era, com certeza.
Entretanto, principiei a duvidar.
Uma vez em que bebíamos um mau brandy, revelei-lhe a minha paixão pelo crime.
Gostaria de cometer um crime.
O meu amigo falou-me mais uma vez de espírito religioso.
Merda, respondi.
E ele quis saber se eu lera o Crime e Castigo.
Emprestou-mo.
A expiação, disse-lhe depois, é o verdadeiro centro religioso do livro.
O crime é apenas a circunstância propiciatória para o desenvolvimento religioso da personagem.
Ela necessita da expiação, para sua profunda glória.
Eu não amo a expiação.
O meu amigo disse: então és louco.
Tenho uma cabeça sólida, o que desejo é saber o que se faz com um terror morto e uma alegria morta.
E ele respondeu: bebe.
Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde me não possa mexer muito — estou cansado de me mexer.
Apareceram então as pessoas que ajudam.
Tinham teorias.
O meu esforço, no entanto, era para recuperar a alegria e o terror.
Não é fácil.
As pessoas incitavam-me a diversas tarefas: a ética, a estética, a política, a numismática.
Sugeriram mesmo que eu deveria ir para África, e falaram da maneira rápida como ainda se pode enriquecer lá.
E depois há as florestas, ainda por cima, diziam.
Comecei a ter medo das pessoas.
Escreviam-me cartas assim:
Creio que te posso ajudar.
És um espírito rico, contraditório, de uma espantosa vitalidade.
Podes fazer coisas, resolveres as tuas contradições, ganhar a partida.
Então fiz as malas, e ia dizendo baixinho: merda, merda.
Parti para um lugar, com o propósito de semear cabeças de crianças, e ouvi-las cantar quando o dia acaba.
Como se fosse um campo de trigo.
Esta é, realmente, a minha embaraçosa chegada à maturidade.
Não me é possível pensar em qualquer salvação.
Era para ver como ia o meu ritmo alfa.
Eles tinham desconfianças.
Falavam de estados crepusculares.
Divertido.
Eu não tinha estados crepusculares.
O ritmo alfa estava óptimo.
Cumprimentaram-me muito.
A sua cabeça é sólida.
Bem, eu tinha uma cabeça sólida.
Era uma coisa alegre.
Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista.
Nessa altura, ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse.
Não no aspecto erudito, é claro.
Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros, os sete selos e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres.
Eu saía do gabinete fervendo de inspiração.
Escrevi poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los.
Foi um bom tempo.
Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa.
Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte.
Estudei os melhores venenos, em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção.
Gosto da palavra suicídio.
A frequência dos ii, como golpes, as duas sibilantes, e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me — fascinam-me.
Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais.
Como alegria, imaginei alguma coisa:
Uma cidade com torres brancas, espancada pela luz, e com navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes.
Havia uma árvore inocente no meio da cidade.
Na primavera, enchia-se de espinhos ferozes e dava flores monstruosas, cor de púrpura.
As mães não deixavam que as crianças brincassem perto da árvore.
Durante dias e dias, a luz espancava a cidade.
Nada havia a fazer com a minha maturidade.
Certas noites, vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares.
Os bêbedos formam uma maçonaria.
Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas.
Um deles disse-me: tens um espírito essencialmente religioso.
Gostei.
Ficámos muito amigos.
Passámos a beber os dois, falando do espírito religioso.
Eu também possuo um espírito essencialmente religioso — garantiu-me ele uma noite, quando já tinha cerveja quase até à garganta.
A minha juventude, disse-lhe eu, foi uma violenta e fulminante viagem através do terror e da alegria.
Estive agarrado às trevas, ouvia o barulho das águas negras, não podia dormir.
Ou então tremia de puro júbilo, era admirável ter um corpo, uma voz, viver no meio da luz e da chuva e das grandes nuvens sobre os campos.
É o espírito religioso, dizia o meu amigo.
Talvez fosse, sim.
Era, com certeza.
Entretanto, principiei a duvidar.
Uma vez em que bebíamos um mau brandy, revelei-lhe a minha paixão pelo crime.
Gostaria de cometer um crime.
O meu amigo falou-me mais uma vez de espírito religioso.
Merda, respondi.
E ele quis saber se eu lera o Crime e Castigo.
Emprestou-mo.
A expiação, disse-lhe depois, é o verdadeiro centro religioso do livro.
O crime é apenas a circunstância propiciatória para o desenvolvimento religioso da personagem.
Ela necessita da expiação, para sua profunda glória.
Eu não amo a expiação.
O meu amigo disse: então és louco.
Tenho uma cabeça sólida, o que desejo é saber o que se faz com um terror morto e uma alegria morta.
E ele respondeu: bebe.
Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde me não possa mexer muito — estou cansado de me mexer.
Apareceram então as pessoas que ajudam.
Tinham teorias.
O meu esforço, no entanto, era para recuperar a alegria e o terror.
Não é fácil.
As pessoas incitavam-me a diversas tarefas: a ética, a estética, a política, a numismática.
Sugeriram mesmo que eu deveria ir para África, e falaram da maneira rápida como ainda se pode enriquecer lá.
E depois há as florestas, ainda por cima, diziam.
Comecei a ter medo das pessoas.
Escreviam-me cartas assim:
Creio que te posso ajudar.
És um espírito rico, contraditório, de uma espantosa vitalidade.
Podes fazer coisas, resolveres as tuas contradições, ganhar a partida.
Então fiz as malas, e ia dizendo baixinho: merda, merda.
Parti para um lugar, com o propósito de semear cabeças de crianças, e ouvi-las cantar quando o dia acaba.
Como se fosse um campo de trigo.
Esta é, realmente, a minha embaraçosa chegada à maturidade.
Não me é possível pensar em qualquer salvação.
596
Fernando Fitas
Havia um barco
Havia um barco
(ou um poema)
em cada Primavera
que inventávamos.
O sol inundava
os lábios
de cada sorriso
acordando
as crianças
que habitavam em nós
e uma flauta de vento
pendurou cerejas
nos dedos da manhã
Lindas as cores
suculentos os frutos
dos corpos e das bocas
(ou um poema)
em cada Primavera
que inventávamos.
O sol inundava
os lábios
de cada sorriso
acordando
as crianças
que habitavam em nós
e uma flauta de vento
pendurou cerejas
nos dedos da manhã
Lindas as cores
suculentos os frutos
dos corpos e das bocas
650
Valter Hugo Mãe
a capitalização do amor
não escondemos que aprendemos a
capitalizar o amor, entregando
amplamente os nossos melhores
momentos às raparigas mais carentes.
o amor, sabemos bem, é o caminho directo
para a inutilidade, e nós procuramos as
raparigas que mais rapidamente se
inutilizem perante as coisas clássicas
da vida. não nos queremos atarefar com
a vulgaridade, e gostaríamos até de
impregnar cada gesto com características
alienígenas, mas o tempo escapa-se e o
dinheiro também e, se só pensamos no amor,
não temos como fazer de outro modo
senão vendê-lo entusiasticamente, como
fontes de trovões bonitos jorrando nas
praças mais movimentadas das cidades. e
as raparigas correm para nós urgentes
e cheias de vida, férteis de tudo quanto o
amor se abate sobre elas, uma alegria rica
de se ver, e nós a balançar os braços para
chamar a atenção de mais e mais e
já nem sabemos como parar, como forças
incontroladas, à semelhança de mecanismos
ferozes da natureza, e só sairemos daqui
quando desfalecermos de amor até
pelas raparigas mais feias
capitalizar o amor, entregando
amplamente os nossos melhores
momentos às raparigas mais carentes.
o amor, sabemos bem, é o caminho directo
para a inutilidade, e nós procuramos as
raparigas que mais rapidamente se
inutilizem perante as coisas clássicas
da vida. não nos queremos atarefar com
a vulgaridade, e gostaríamos até de
impregnar cada gesto com características
alienígenas, mas o tempo escapa-se e o
dinheiro também e, se só pensamos no amor,
não temos como fazer de outro modo
senão vendê-lo entusiasticamente, como
fontes de trovões bonitos jorrando nas
praças mais movimentadas das cidades. e
as raparigas correm para nós urgentes
e cheias de vida, férteis de tudo quanto o
amor se abate sobre elas, uma alegria rica
de se ver, e nós a balançar os braços para
chamar a atenção de mais e mais e
já nem sabemos como parar, como forças
incontroladas, à semelhança de mecanismos
ferozes da natureza, e só sairemos daqui
quando desfalecermos de amor até
pelas raparigas mais feias
679
Estêvão da Guarda
Alvar Rodriguiz Dá Preço D'esforço
Alvar Rodriguiz dá preço d'esforço
a est'infante mouro pastorinho
e diz que, pero parece menin[h]o,
que parar-se quer a tod'alvoroço;
e maestr'Ali, que vejas prazer,
d'Alvar Rodriguiz punha de saber
se fode já este mouro tam moço.
Diz que per manhas e per seu sembrante
sab'el do mouro que hom'é comprido
e pera parar-se a tod'arroído;
e que sabe que tal é seu talante;
e maestr'Ali, que moiras em fé,
d'Alvar Rodriguiz sab'ora como é
e se fode já este mour'infante.
El diz do mouro que sabe que ten'o
seu coraçom em se parar a feito,
porque o cria e lhi sab'o jeito,
pero parece de corpo pequeno;
e maestr'Ali sab'i ora bem
d'Alvar Rodriguiz, poilo assi tem,
se fode já este mouro tam neno.
a est'infante mouro pastorinho
e diz que, pero parece menin[h]o,
que parar-se quer a tod'alvoroço;
e maestr'Ali, que vejas prazer,
d'Alvar Rodriguiz punha de saber
se fode já este mouro tam moço.
Diz que per manhas e per seu sembrante
sab'el do mouro que hom'é comprido
e pera parar-se a tod'arroído;
e que sabe que tal é seu talante;
e maestr'Ali, que moiras em fé,
d'Alvar Rodriguiz sab'ora como é
e se fode já este mour'infante.
El diz do mouro que sabe que ten'o
seu coraçom em se parar a feito,
porque o cria e lhi sab'o jeito,
pero parece de corpo pequeno;
e maestr'Ali sab'i ora bem
d'Alvar Rodriguiz, poilo assi tem,
se fode já este mouro tam neno.
495
Virgílio Martinho
Já Sei o Que Se Passa No Mundo
Já sei o que se passa no mundo.
Ouvi a música da vitória,
vi a multidão hiante a correr,
os rostos como narizes compridos.
Ouvi as vozes da vitória,
mastigavam como vulcões, mordiam.
Eram todos bonitos, ganharam.
Tinham as caras dos pais, ganiam.
Vieram do campeonato, tinham alma,
eram jovens, comiam, como comiam!
Tisnados da praia, olhos pardos, barba,
tudo que faz parte da agonia.
Têm rabo, picha grande, acne,
são o futuro, conhecem dinheiro,
mas ganharam, alpista para eles,
vitória para nós, parecem bigodes.
Têm razão, são as vozes, os voos
do mundo, são os corredores da morte,
os rapazes do grande balão,
os amortecedores do colchão.
Ouvi a música da vitória,
vi a multidão hiante a correr,
os rostos como narizes compridos.
Ouvi as vozes da vitória,
mastigavam como vulcões, mordiam.
Eram todos bonitos, ganharam.
Tinham as caras dos pais, ganiam.
Vieram do campeonato, tinham alma,
eram jovens, comiam, como comiam!
Tisnados da praia, olhos pardos, barba,
tudo que faz parte da agonia.
Têm rabo, picha grande, acne,
são o futuro, conhecem dinheiro,
mas ganharam, alpista para eles,
vitória para nós, parecem bigodes.
Têm razão, são as vozes, os voos
do mundo, são os corredores da morte,
os rapazes do grande balão,
os amortecedores do colchão.
1 008
Francesca Angiolillo
Ronchamp
Um pedaço de parede
simplesmente, só
você
e eu
poderíamos ao vê-lo adivinhar
seu nome mineral.
Torto, meio branco,
meio cinza concreto pedaço
de ideia
de um homem
de apelido
vagamente animal
de pássaro pensativo
de pássaro que cisca buscando
quem
sabe
o quê
um brilho um lampejo o que não se vê um
pedaço de pedra
inventada;
outro dia estiveram lá outros
que não nós
diz que
quebraram um vitral daqueles que o
filme em cores registrou
num ato
de inimaginável
subversão nossa senhora
puniu
– a câmera sumir daquele jeito
sei lá
quando
estivemos nós
éramos nós
e a japonesinha sorridente
saída do nada para lugar algum
e lá ficou
para sempre sentada num monturo de grama
e tudo o que dali
saiu nossa senhora
não viu
– o disco rodando
na vitrola tocando
Something
seus passeios de bicicleta
minhas meias listradas
seus desenhos tão bons os meus tão ruins as
camisinhas numa lata de biscoitos
dinamarqueses era
um luxo o bolo da Maria era
o único final doce
daquelas tardes tão iguais
ter dezoito ou vinte anos e ler poemas
de Neruda e achar
normal o amor
não durar mais
que umas estações
de trem
num mapa.
simplesmente, só
você
e eu
poderíamos ao vê-lo adivinhar
seu nome mineral.
Torto, meio branco,
meio cinza concreto pedaço
de ideia
de um homem
de apelido
vagamente animal
de pássaro pensativo
de pássaro que cisca buscando
quem
sabe
o quê
um brilho um lampejo o que não se vê um
pedaço de pedra
inventada;
outro dia estiveram lá outros
que não nós
diz que
quebraram um vitral daqueles que o
filme em cores registrou
num ato
de inimaginável
subversão nossa senhora
puniu
– a câmera sumir daquele jeito
sei lá
quando
estivemos nós
éramos nós
e a japonesinha sorridente
saída do nada para lugar algum
e lá ficou
para sempre sentada num monturo de grama
e tudo o que dali
saiu nossa senhora
não viu
– o disco rodando
na vitrola tocando
Something
seus passeios de bicicleta
minhas meias listradas
seus desenhos tão bons os meus tão ruins as
camisinhas numa lata de biscoitos
dinamarqueses era
um luxo o bolo da Maria era
o único final doce
daquelas tardes tão iguais
ter dezoito ou vinte anos e ler poemas
de Neruda e achar
normal o amor
não durar mais
que umas estações
de trem
num mapa.
530
Renato Rezende
O Outro Em Mim
Presta atenção: a vida inteira
esperando que um dia alguém nos dê a mão.
Na juventude, para mim, era uma sombra feminina
que eu levava para todos os cantos, e amava.
Eu amava estonteantemente aquela menina.
Nunca veio, nunca virá, meu próprio espelho.
Estamos essencialmente sós neste mundo. Mas não tão
sós a ponto de poder fazer de cada momento
um momento sem qualquer desejo,
puro e pleno.
(ROMPER TODOS OS ESPELHOS)
esperando que um dia alguém nos dê a mão.
Na juventude, para mim, era uma sombra feminina
que eu levava para todos os cantos, e amava.
Eu amava estonteantemente aquela menina.
Nunca veio, nunca virá, meu próprio espelho.
Estamos essencialmente sós neste mundo. Mas não tão
sós a ponto de poder fazer de cada momento
um momento sem qualquer desejo,
puro e pleno.
(ROMPER TODOS OS ESPELHOS)
736