Poemas neste tema
Liberdade
Reinaldo Ferreira
Haja névoa
Haja névoa!
Dancem os véus na minha alma
(E externos nas luzes próximas,
Que se recusam como estrelas na distância).
Haja névoa!
Paire nela a memória dos maníacos
Sonhando na penumbra dos portais
Assassínios brutais.
Haja, haja névoa!
Aqui e além no mar.
No mar, nos mares, para que todas as viagens,
Para que todos os barcos em todas as paragens,
Na iminência dos naufrágios improváveis
- Improváveis, possíveis -,
Se gastem nos avisos aflitos
Das luzes, dos rádios, dos radares,
Dos gritos
Dos apitos.
Haja, haja névoa...
Desgastem-se os contornos
Das coisas excessivamente conhecidas.
Não haja céu sequer.
Névoa, só névoa!
E eu, nas ruas distorcidas,
Livre e tão leve
Como se fosse eu próprio a névoa
Da noite longa duma existência breve.
Dancem os véus na minha alma
(E externos nas luzes próximas,
Que se recusam como estrelas na distância).
Haja névoa!
Paire nela a memória dos maníacos
Sonhando na penumbra dos portais
Assassínios brutais.
Haja, haja névoa!
Aqui e além no mar.
No mar, nos mares, para que todas as viagens,
Para que todos os barcos em todas as paragens,
Na iminência dos naufrágios improváveis
- Improváveis, possíveis -,
Se gastem nos avisos aflitos
Das luzes, dos rádios, dos radares,
Dos gritos
Dos apitos.
Haja, haja névoa...
Desgastem-se os contornos
Das coisas excessivamente conhecidas.
Não haja céu sequer.
Névoa, só névoa!
E eu, nas ruas distorcidas,
Livre e tão leve
Como se fosse eu próprio a névoa
Da noite longa duma existência breve.
1 928
Rosemberg Cariry
Sexta-Feira
Entre pedras escaldadas
negro lençol de poeira
Gertrudes pariu um filho
como se fosse uma ovelha
Nem por isso houve festa
quebrou-se o monótono ritmo
dos enxadecos no chão
Nesta terra tantos morram
que outros serão paridos
serão servidos na mesa
tantos braços escravos
quanto as léguas
das sesmarias sem-fim
Aqui a vida estrebucha
corpo humano é queimado
como lenha da caldeira
Liberdade se contorce
espezinhada pelas botas
do senhor doutor coronel
negro lençol de poeira
Gertrudes pariu um filho
como se fosse uma ovelha
Nem por isso houve festa
quebrou-se o monótono ritmo
dos enxadecos no chão
Nesta terra tantos morram
que outros serão paridos
serão servidos na mesa
tantos braços escravos
quanto as léguas
das sesmarias sem-fim
Aqui a vida estrebucha
corpo humano é queimado
como lenha da caldeira
Liberdade se contorce
espezinhada pelas botas
do senhor doutor coronel
963
Nana Corrêa de Lima
Andarilho
Andarilho
Apenas dois pés
verdes de vivência.
Numa ânsia infantil
de andar sempre mais rápido.
Apenas dois pés
verdes de vivência.
Numa ânsia infantil
de andar sempre mais rápido.
891
Bocage
Aspirações do liberalismo, excitadas pela Revolução Francesa
Aspirações do liberalismo, excitadas pela Revolução Francesa
e consolidação da República em 1797
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha . . . Oh!, venha, e trêmulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade
E em fingir, por temor, empenha estudo.
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do gênio e prazer, ó Liberdade!
e consolidação da República em 1797
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha . . . Oh!, venha, e trêmulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade
E em fingir, por temor, empenha estudo.
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do gênio e prazer, ó Liberdade!
1 865
Cláudio Alex
Te Espero
Todo amor tem que ser livre
Quem sou eu para dizer o certo,
quem sou eu para dizer o errado.
Todo amor acontece porque é perfeito
da forma que se apresenta.
Expresso meu amor
da forma e do jeito que ele é.
Expresso com as formas de sedução
que sei fazer e que a vida ensinou.
Faço-o livre porque livre ele o é.
Deixar de assim manifesta-lo
significa transforma-lo
em algo em que já não é.
Sou teu por uma opção de entrega,
porque esta entrega vem de dentro
e decorre de uma sensação plena.
é natural que ele se expresse
para alguém que preenche
completamente as emoções no peito.
E poderia haver alguém ao lado
que não haveria espaço dentro
para ser compartilhado.
O amor preenche-me por inteiro.
Estou triste
porque não tenho você ao meu lado.
Mas é uma tristeza completa
que é melhor que uma alegria
incompleta e cheia de vazios.
Se estou triste,
é porque às vezes o amor é triste,
é uma forma de sua manifestação.
Se, às vezes, sozinho solto um sorriso,
é porque se manifesta em mim
uma parte alegre de você.
Coisas que me fazem teu,
porque verdadeiramente te amo.
Se, às vezes, sozinho, eu choro
é porque se manifesta em mim
uma parte melancólica de ti,
nem por isso menos bela.
Coisas que me fazem teu.
Porque a verdade não esta só na alegria,
e o melancólico convive com o alegre.
Se às vezes fico com raiva
é porque o amor se manifesta
com a incompreensão.
Coisas que eu não compreendo.
Coisas que não sou compreendido.
Mas se existe a raiva
é sinal que existe o desejo:
um desejo incompreendido
mas que existe e é forte demais
para ser colocado de lado
junto das pequenices diárias.
Todas essas manifestações
são manifestações de amor.
Foste em busca do paraíso terrestre.
Te odiei.
Agora já não sinto, mas senti.
Essas coisas acontecem e fazem parte.
Longe de deixar-me tomar pela autopiedade,
isso serviu de aprendizado.
Aprendizado sobre você.
Não é aprendizado sobre nosso amor.
Nosso amor é como é
e assim é pleno.
É um aprendizado sobre você
porque é a tua verdade
que se manifestou.
E cada vez que isso acontece
aparece mais a verdade
daquilo que existe em nos.
Não sou perfeito, não és perfeita,
somos como somos,
e assim nos amamos.
Cada vez percebo mais
como nossos mecanismos de vida
começam a se integrar
cada vez mais e melhor.
Sei que te dar garantia
dessa compreensão,
dessa busca do entendimento,
te da segurança de ser
aquilo que realmente você é.
Você percebe que ai se expressa
a tua liberdade de ser
dentro de um relacionamento?
Vim para a sua vida
não de forma passageira.
Vim para a tua vida
para ficar contigo.
Temos tempo e não temos tempo.
Na verdade o tempo
é o que menos interessa.
Vim exercer em ti
a minha forma de sedução
e que te faz sentir mulher
perfeita e completa.
Vim para mexer com tua química
para transformar os teus hormônios
para mudar o teu desejo.
Vim para mudar a tua vida
e te trazer um mundo
que na verdade apenas pressentes.
Vim para te tomar por mulher
quando todos a tratam por menina.
Vim para te dar saber
da plenitude do desejo
e da arte de flui-lo.
Vim para você me ver
todos os e dias e afirmar baixinho:
- Este é meu homem!
Vim para te fazer inteira,
para integrar teus sentimentos,
para criar sinergia
e te fazer crescer em ti.
Vim para te mostrar que esta trancafiada
e não consegues viver,
que estas sufocada
de tanto a fazer
e nada fazer.
Quero que saiba que te amo
e que nada existe no mundo
que me desalente.
Que vencerei teu medo,
que te levarei comigo
para fazer amor.
E, então, saberás de tudo
e terás confiança maior
em teu próprio ser.
Eu vim aqui, desse mesmo jeito
para te levar ao encontro
do que existe em ti.
E só o amor, um grande amor,
é capaz de fazer coisas tão simples
e tão difíceis de serem feitas.
Estou aqui, sou teu,
venha definitivamente
para o meu encontro.
Te espero.
Quem sou eu para dizer o certo,
quem sou eu para dizer o errado.
Todo amor acontece porque é perfeito
da forma que se apresenta.
Expresso meu amor
da forma e do jeito que ele é.
Expresso com as formas de sedução
que sei fazer e que a vida ensinou.
Faço-o livre porque livre ele o é.
Deixar de assim manifesta-lo
significa transforma-lo
em algo em que já não é.
Sou teu por uma opção de entrega,
porque esta entrega vem de dentro
e decorre de uma sensação plena.
é natural que ele se expresse
para alguém que preenche
completamente as emoções no peito.
E poderia haver alguém ao lado
que não haveria espaço dentro
para ser compartilhado.
O amor preenche-me por inteiro.
Estou triste
porque não tenho você ao meu lado.
Mas é uma tristeza completa
que é melhor que uma alegria
incompleta e cheia de vazios.
Se estou triste,
é porque às vezes o amor é triste,
é uma forma de sua manifestação.
Se, às vezes, sozinho solto um sorriso,
é porque se manifesta em mim
uma parte alegre de você.
Coisas que me fazem teu,
porque verdadeiramente te amo.
Se, às vezes, sozinho, eu choro
é porque se manifesta em mim
uma parte melancólica de ti,
nem por isso menos bela.
Coisas que me fazem teu.
Porque a verdade não esta só na alegria,
e o melancólico convive com o alegre.
Se às vezes fico com raiva
é porque o amor se manifesta
com a incompreensão.
Coisas que eu não compreendo.
Coisas que não sou compreendido.
Mas se existe a raiva
é sinal que existe o desejo:
um desejo incompreendido
mas que existe e é forte demais
para ser colocado de lado
junto das pequenices diárias.
Todas essas manifestações
são manifestações de amor.
Foste em busca do paraíso terrestre.
Te odiei.
Agora já não sinto, mas senti.
Essas coisas acontecem e fazem parte.
Longe de deixar-me tomar pela autopiedade,
isso serviu de aprendizado.
Aprendizado sobre você.
Não é aprendizado sobre nosso amor.
Nosso amor é como é
e assim é pleno.
É um aprendizado sobre você
porque é a tua verdade
que se manifestou.
E cada vez que isso acontece
aparece mais a verdade
daquilo que existe em nos.
Não sou perfeito, não és perfeita,
somos como somos,
e assim nos amamos.
Cada vez percebo mais
como nossos mecanismos de vida
começam a se integrar
cada vez mais e melhor.
Sei que te dar garantia
dessa compreensão,
dessa busca do entendimento,
te da segurança de ser
aquilo que realmente você é.
Você percebe que ai se expressa
a tua liberdade de ser
dentro de um relacionamento?
Vim para a sua vida
não de forma passageira.
Vim para a tua vida
para ficar contigo.
Temos tempo e não temos tempo.
Na verdade o tempo
é o que menos interessa.
Vim exercer em ti
a minha forma de sedução
e que te faz sentir mulher
perfeita e completa.
Vim para mexer com tua química
para transformar os teus hormônios
para mudar o teu desejo.
Vim para mudar a tua vida
e te trazer um mundo
que na verdade apenas pressentes.
Vim para te tomar por mulher
quando todos a tratam por menina.
Vim para te dar saber
da plenitude do desejo
e da arte de flui-lo.
Vim para você me ver
todos os e dias e afirmar baixinho:
- Este é meu homem!
Vim para te fazer inteira,
para integrar teus sentimentos,
para criar sinergia
e te fazer crescer em ti.
Vim para te mostrar que esta trancafiada
e não consegues viver,
que estas sufocada
de tanto a fazer
e nada fazer.
Quero que saiba que te amo
e que nada existe no mundo
que me desalente.
Que vencerei teu medo,
que te levarei comigo
para fazer amor.
E, então, saberás de tudo
e terás confiança maior
em teu próprio ser.
Eu vim aqui, desse mesmo jeito
para te levar ao encontro
do que existe em ti.
E só o amor, um grande amor,
é capaz de fazer coisas tão simples
e tão difíceis de serem feitas.
Estou aqui, sou teu,
venha definitivamente
para o meu encontro.
Te espero.
1 014
Vitor Casimiro
Mais um Desesperado
Algum dia já sentistes
Que rápido, o tempo passa
Talvez isso nos faça
Amargamente tristes
só espero, um dia
acordar com um grito
e ter 100 gramas de liberdade
Por fim nessa agonia
Que me deixa aflito
A beira da insanidade
Que rápido, o tempo passa
Talvez isso nos faça
Amargamente tristes
só espero, um dia
acordar com um grito
e ter 100 gramas de liberdade
Por fim nessa agonia
Que me deixa aflito
A beira da insanidade
871
Salette Tavares
Aqui Estou
Aqui estou, no encontro dos caminhos
no sítio onde os olhares se dobram de terror...
Quando a minha voz disse não e a vontade e o espelho
havia acordo e sonho e flores para abrir.
Quando as minhas mãos escorriam de ternura
havia liberdade e os meus pés descalços
recortavam em sombra a única lisura.
Que lindo o que eu sonhei, que paz e que mistério
que grande força sem lágrimas no mar. . .
Agora estou dorida, morreram-me os cabelos
nos dedos que pediam caiu uma agonia,
as cordas já cortadas tornaram a me ligar.
Na noite que me seque eu quisera sorver
toda a ausência direta do possuir e do ter,
fugida na floresta escondida na giesta
morder aquela terra fecunda em que me sei.
Sem luta, a navegar, um barco branco e meu
sem timoneiro nem rota marcando-me o destino
singrando sob a lua, bebendo o sol dos dias
tão só e o grande olhar de Deus,
deitado ao pé de mim.
Assim correr, ser livre, criar e ter prazer
aquele só prazer igual ao que já sou
uma lira, um canto, uma harmonia enfim
serena, bela, doce e sem violência louca.
Idade duma rosa colhida na manhã
vibrando no calor as pétalas a abrir
surpresa vegetal da vida que se inflama
com o caule cortado e sem poder sorrir.
Quem livre me deixasse dormir na minha planta
este acordo supremo dos membros do amor,
sem traição, sem corte, e só aquele manso
sorver da terra a seiva para poder florir.
Ai, mar em que me banho e que livre me deixas
miragem do meu ritmo, partida para além
meu doce só saber braços, pernas, seios, beijos,
e toda a maravilha de ser sem mais ninguém.
no sítio onde os olhares se dobram de terror...
Quando a minha voz disse não e a vontade e o espelho
havia acordo e sonho e flores para abrir.
Quando as minhas mãos escorriam de ternura
havia liberdade e os meus pés descalços
recortavam em sombra a única lisura.
Que lindo o que eu sonhei, que paz e que mistério
que grande força sem lágrimas no mar. . .
Agora estou dorida, morreram-me os cabelos
nos dedos que pediam caiu uma agonia,
as cordas já cortadas tornaram a me ligar.
Na noite que me seque eu quisera sorver
toda a ausência direta do possuir e do ter,
fugida na floresta escondida na giesta
morder aquela terra fecunda em que me sei.
Sem luta, a navegar, um barco branco e meu
sem timoneiro nem rota marcando-me o destino
singrando sob a lua, bebendo o sol dos dias
tão só e o grande olhar de Deus,
deitado ao pé de mim.
Assim correr, ser livre, criar e ter prazer
aquele só prazer igual ao que já sou
uma lira, um canto, uma harmonia enfim
serena, bela, doce e sem violência louca.
Idade duma rosa colhida na manhã
vibrando no calor as pétalas a abrir
surpresa vegetal da vida que se inflama
com o caule cortado e sem poder sorrir.
Quem livre me deixasse dormir na minha planta
este acordo supremo dos membros do amor,
sem traição, sem corte, e só aquele manso
sorver da terra a seiva para poder florir.
Ai, mar em que me banho e que livre me deixas
miragem do meu ritmo, partida para além
meu doce só saber braços, pernas, seios, beijos,
e toda a maravilha de ser sem mais ninguém.
1 764
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Mátria
Terra natal, formosa entre as formosas,
abriste para nós a tua luz.
Nesse teu seio, trescalante a rosas,
existe um povo altivo que seduz.
As fibras imortais e generosas
daqueles que te honraram, faze, flux,
que as imitem, viris e justiçosas,
no culto à liberdade que transluz.
O’ gleba de operários e guerreiros !
No trabalho geral ou na cultura,
ante a paz, nunca fomos derradeiros.
Tu, Alagoas, que o valor constróis,
orgulha-te de ler a história pura:
nos campos de batalha - teus heróis.
( datados de novembro de 1956)
abriste para nós a tua luz.
Nesse teu seio, trescalante a rosas,
existe um povo altivo que seduz.
As fibras imortais e generosas
daqueles que te honraram, faze, flux,
que as imitem, viris e justiçosas,
no culto à liberdade que transluz.
O’ gleba de operários e guerreiros !
No trabalho geral ou na cultura,
ante a paz, nunca fomos derradeiros.
Tu, Alagoas, que o valor constróis,
orgulha-te de ler a história pura:
nos campos de batalha - teus heróis.
( datados de novembro de 1956)
864
José Carlos Souza Santos
O Romanceiro
Vinte e quatro sóis
acesos no meu caminho
um grito coagulado
na fuga desperto
e debruçada nos meus olhos
caminhaste o filho da noite
inteiro
Vinte e quatro sóis
acesos dentro de mim
um grito assassinado
no peito
deflorando o sono da fuga
nas imaturas distâncias
onde perdido deixei
o cântaro último da fé
Penetrando nos meus olhos
violentaste o aviso
da proibida entrada
perambulando
como se fosse quarta-feira
e colhendo
numa primavera de sonhos
nos jardins do que fui
vinte e quatro sóis azuis
que sem saber
p´ra você eu guardei
Na avenida de cantos
renasceste do meu peito no teu mundo
pisando as pedras do meu caminho
e lançaste o pregão ao vento :
- Ele está renascido
estive lá dentro dele
e vi flores e prantos
e notas e dores
e cantos
nos recantos escondidos
de não mostrar a ninguém
fui estranha em ruelas sem passado
conseguindo o norte encontrar
depois de caminhos tantos
- Sim, eu sei, tu descobriste
o grito há tanto escondido
Nasci em tempo de festival
meu mundo incompreendido
tem notas que são espinhos
tem flores embrutecidas
rebentadas no meu peito
tem cantos são sentidos
que às vezes eu mesmo sinto
ter tão estranho nascido
- Estranho, nasceste sim
estranho cantor eu sei
na estranheza do teu canto
existe um outro encanto
embora não saibas qual seja
é o encanto das flores mutiladas
na fronteira dos teus olhos
é a fuga dos teus lenços
num cais já vazio
é o grito acorrentado
no alagado do teu peito
O teu encanto é o gemido guardado
e nunca soluçado
nas tuas mãos de poeta !
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito,
e sei que nos limites
do que sou
ou nas amarras do meu verso
como pomba artesã
na minha lira te encontro
- Poeta, o meu nome é infortúnio
somos pó na mesma estrada
e nem assim nos encontramos
somos água de um só rio
que não corre o mesmo leito
no teu peito a esperança
é terra já amanhada
no meu corre a solidão
na roca do meu sonhar
- Teu suspiro não assino
nem teu pranto faço meu
no tear da esperança
há um riso que se alcança
quando o linho dá um nó
há um vento que levanta
do passado o areal
e um sol que o sepulta
quando o fuso entristecido
faz da curva o seu caminho
- A esperança rebentada no meu peito
poeta
é uma flor desesperada,
traz no seio o escarlate
das visões de fome e guerra,
nas veias abertas o choro
de crianças abandonadas
das farpas que me protegem
emanam dores e gritos
não há roca nem esperança
p´ra quem vive de amanhar
choro, dor, lamento e pranto
- Infortúnio, Infortúnio,
não há poço sem um fundo
nem túnel sem uma luz
a corda não é sempre
do enforcado o colar
nem a semente fenece
sem antes dela brotar
o fruto, a flor e a sombra
e mesmo nas mãos vermelhas
das abelhas lívidas
há um néctar
de esperança a ser sugado
- Poeta ! sonhas e deliras
quando esperanças alardeia
desespero é o cavalo
ao qual me encilhei
as abelhas de que falas
aninhadas se encontram
no ventre das minhas aranhas
minhas flores enlouquecidas
giram ao redor de um fuso
sem linha no meu tear
- Donde vens Infortúnio !
onde as sombras
que te abrigam
- Venho de longe e de perto
do tempo sou viajante
nas canaletas da dor
fui Sabra, Chatilla,
Treblinka, Sorbibor
Quem me viu Sabra
conhece o amontoado das minhas
fugas
e a profundidade da angústia
revelada na aspereza dos meus
cactos
mas sabia quanto eu era terna
e doce
Quem me conheceu Chatilla
sabia-me flor nascida em lodo,
de mãos desarmadas,
e vivendo como uma rosa
pelo espaço de uma manhã
Quando Sabra e Chatilla fui
tive os braços levantados
e os gestos inconclusos
e me vejo ainda nas flores
rebentadas
no peito daquelas mulheres
Não procures Poeta
o insondável com teu verso desvendar
somos do mesmo caminho as
pedras
e nem assim nos conhecemos
somos da mesma luz a cor
e nem assim tu me iluminas
- Infortúnio, Infortúnio !
há mil anos nossas palavras são sussurradas
e encalacradas ao peito
sem ouvidos a ouvi-las
e dizer que a tua voz me é conhecida
como a serra que me teve em berço,
e dizer que sei teu nome
embora de Infortúnio não a chamasse
nos meus sonhos, rota e triste
te chamava Liberdade ... Liberdade
- Morto o tempo Poeta
em que Liberdade fui chamada,
antes aurora brilhante
houve vácuo, mais nada,
daquela imagem altiva a sombra
se apagou
nem o eco, da solidão o amante,
guardou os meus passos, na poeira
desandados
- Infortúnio ou Liberdade
em dor também me vi envolto
passou como um vendaval
destruiu, arrancou,
renasci sem o riso
insensível ao pranto
e, com uma estrela
incrustada no peito
me fiz poeta do esquecimento
Como a fênix
das cinzas renascida
esbocei levantar-me do desespero
tentando esquecer as mãos que se estenderam
para apagar as minhas estrelas
As minhas asas
dilatadas
se enfunavam de sonho e fantasia
e no alto do meu horizonte
um rosto vagava, diluído
Eras tu Liberdade,
a pomba órfã
voluntária e sozinha
voando contra o Levante,
as esquecidas asas
não voavam em meu caminho
e o vento, meu irmão,
aprendeu a criar sombras e
nuvens de não ver
- E eu que queria uma luz acender
no ventre das estrelas
enlouquecidas de sombras
contentei-me em apagar a chama
que por meu nome o peito ardia
Cimentada nos meus passos
trago viva a esperança
de no galope azul do vento
nos quatro cantos do mundo
o meu nome ecoar .
Invadindo os teus olhos
percebi a antiga chama
e no gemido guardado
e nunca soluçado nas tuas mãos
de poeta
aninho a esperança de brilhar
a minha luz
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito
acesos no meu caminho
um grito coagulado
na fuga desperto
e debruçada nos meus olhos
caminhaste o filho da noite
inteiro
Vinte e quatro sóis
acesos dentro de mim
um grito assassinado
no peito
deflorando o sono da fuga
nas imaturas distâncias
onde perdido deixei
o cântaro último da fé
Penetrando nos meus olhos
violentaste o aviso
da proibida entrada
perambulando
como se fosse quarta-feira
e colhendo
numa primavera de sonhos
nos jardins do que fui
vinte e quatro sóis azuis
que sem saber
p´ra você eu guardei
Na avenida de cantos
renasceste do meu peito no teu mundo
pisando as pedras do meu caminho
e lançaste o pregão ao vento :
- Ele está renascido
estive lá dentro dele
e vi flores e prantos
e notas e dores
e cantos
nos recantos escondidos
de não mostrar a ninguém
fui estranha em ruelas sem passado
conseguindo o norte encontrar
depois de caminhos tantos
- Sim, eu sei, tu descobriste
o grito há tanto escondido
Nasci em tempo de festival
meu mundo incompreendido
tem notas que são espinhos
tem flores embrutecidas
rebentadas no meu peito
tem cantos são sentidos
que às vezes eu mesmo sinto
ter tão estranho nascido
- Estranho, nasceste sim
estranho cantor eu sei
na estranheza do teu canto
existe um outro encanto
embora não saibas qual seja
é o encanto das flores mutiladas
na fronteira dos teus olhos
é a fuga dos teus lenços
num cais já vazio
é o grito acorrentado
no alagado do teu peito
O teu encanto é o gemido guardado
e nunca soluçado
nas tuas mãos de poeta !
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito,
e sei que nos limites
do que sou
ou nas amarras do meu verso
como pomba artesã
na minha lira te encontro
- Poeta, o meu nome é infortúnio
somos pó na mesma estrada
e nem assim nos encontramos
somos água de um só rio
que não corre o mesmo leito
no teu peito a esperança
é terra já amanhada
no meu corre a solidão
na roca do meu sonhar
- Teu suspiro não assino
nem teu pranto faço meu
no tear da esperança
há um riso que se alcança
quando o linho dá um nó
há um vento que levanta
do passado o areal
e um sol que o sepulta
quando o fuso entristecido
faz da curva o seu caminho
- A esperança rebentada no meu peito
poeta
é uma flor desesperada,
traz no seio o escarlate
das visões de fome e guerra,
nas veias abertas o choro
de crianças abandonadas
das farpas que me protegem
emanam dores e gritos
não há roca nem esperança
p´ra quem vive de amanhar
choro, dor, lamento e pranto
- Infortúnio, Infortúnio,
não há poço sem um fundo
nem túnel sem uma luz
a corda não é sempre
do enforcado o colar
nem a semente fenece
sem antes dela brotar
o fruto, a flor e a sombra
e mesmo nas mãos vermelhas
das abelhas lívidas
há um néctar
de esperança a ser sugado
- Poeta ! sonhas e deliras
quando esperanças alardeia
desespero é o cavalo
ao qual me encilhei
as abelhas de que falas
aninhadas se encontram
no ventre das minhas aranhas
minhas flores enlouquecidas
giram ao redor de um fuso
sem linha no meu tear
- Donde vens Infortúnio !
onde as sombras
que te abrigam
- Venho de longe e de perto
do tempo sou viajante
nas canaletas da dor
fui Sabra, Chatilla,
Treblinka, Sorbibor
Quem me viu Sabra
conhece o amontoado das minhas
fugas
e a profundidade da angústia
revelada na aspereza dos meus
cactos
mas sabia quanto eu era terna
e doce
Quem me conheceu Chatilla
sabia-me flor nascida em lodo,
de mãos desarmadas,
e vivendo como uma rosa
pelo espaço de uma manhã
Quando Sabra e Chatilla fui
tive os braços levantados
e os gestos inconclusos
e me vejo ainda nas flores
rebentadas
no peito daquelas mulheres
Não procures Poeta
o insondável com teu verso desvendar
somos do mesmo caminho as
pedras
e nem assim nos conhecemos
somos da mesma luz a cor
e nem assim tu me iluminas
- Infortúnio, Infortúnio !
há mil anos nossas palavras são sussurradas
e encalacradas ao peito
sem ouvidos a ouvi-las
e dizer que a tua voz me é conhecida
como a serra que me teve em berço,
e dizer que sei teu nome
embora de Infortúnio não a chamasse
nos meus sonhos, rota e triste
te chamava Liberdade ... Liberdade
- Morto o tempo Poeta
em que Liberdade fui chamada,
antes aurora brilhante
houve vácuo, mais nada,
daquela imagem altiva a sombra
se apagou
nem o eco, da solidão o amante,
guardou os meus passos, na poeira
desandados
- Infortúnio ou Liberdade
em dor também me vi envolto
passou como um vendaval
destruiu, arrancou,
renasci sem o riso
insensível ao pranto
e, com uma estrela
incrustada no peito
me fiz poeta do esquecimento
Como a fênix
das cinzas renascida
esbocei levantar-me do desespero
tentando esquecer as mãos que se estenderam
para apagar as minhas estrelas
As minhas asas
dilatadas
se enfunavam de sonho e fantasia
e no alto do meu horizonte
um rosto vagava, diluído
Eras tu Liberdade,
a pomba órfã
voluntária e sozinha
voando contra o Levante,
as esquecidas asas
não voavam em meu caminho
e o vento, meu irmão,
aprendeu a criar sombras e
nuvens de não ver
- E eu que queria uma luz acender
no ventre das estrelas
enlouquecidas de sombras
contentei-me em apagar a chama
que por meu nome o peito ardia
Cimentada nos meus passos
trago viva a esperança
de no galope azul do vento
nos quatro cantos do mundo
o meu nome ecoar .
Invadindo os teus olhos
percebi a antiga chama
e no gemido guardado
e nunca soluçado nas tuas mãos
de poeta
aninho a esperança de brilhar
a minha luz
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito
1 142
Sá Júnior
Partes
As asas partem
sem as partes do
seu corpo/pássaro.
Voam debruçadas
no flerte do ar.
O corpo/pássaro
sem as suas partes
não vai no vôo:
apenas voa...
sem as partes do
seu corpo/pássaro.
Voam debruçadas
no flerte do ar.
O corpo/pássaro
sem as suas partes
não vai no vôo:
apenas voa...
1 000
Rodrigo Carvalho
Libertação
É. . .
Dizem por aí que nasci para viver sozinho.
Eternamente sozinho.
Que importa? O que importa é viver!
Tenho pressa de viver! Viver no meu mundo!
Estou farto da vida estupidamente cotidiana!
Não quero mais saber de regras insuportáveis!
Eu insulto as pessoas-máquinas! Sempiternamente cautelosas!
Que importam as regras, as infâmias?
Que importam?
Recuso-me a aceitar o absurdo daqueles que acreditam
na impossibilidade de crer que viver,
é só isso aí. . .
Queimem de raiva contra mim os que acreditam no sistema!
Morram de dor as atitudes impostas!
Destilem seus venenos,
que eu beberei. . .
Tenho nervos de aço, onde não corre sangue nas veias,
ou mesmo no coração.
No meu coração correm vastas emoções,
e o fluxo de pensamentos.
Se tens as regras, cumpra-as!
Se tens a subordinação, humilhe-se!
Se tens tudo, fazes!
Eu, tenho a minha loucura!
Porque, vocês que dizem possuir o direito,
acham que podem ignorar tudo aquilo que sinto em meu peito?
Ah! Que ninguém me defina!
Que ninguém me questione!
Eu, que não vivo sem a minha loucura,
não me questiono!
Eu faço!
Vocês, miseráveis e desprezíveis,
só vão ter o respeito que querem,
no dia em que souberem — e quiserem ! —
respeitar a minha vontade.
Se não for assim. . .
Unam-se todos contra mim!
Alimentem-se do meu ódio!
Mas, não aliem-se ao inimigo. . .
Costumo andar sozinho. Não acompanho ninguém.
Prefiro seguir aos lamentos, machucar-me, arrastar-me,
a seguir todas estas regras insuportáveis.
Mas, viver!
A dor é uma coisa real, sim, mas que estou
aprendendo a abraçar.
E assim vou vivendo. . .
Sozinho. . .
Dizem por aí que nasci para viver sozinho.
Eternamente sozinho.
Que importa? O que importa é viver!
Tenho pressa de viver! Viver no meu mundo!
Estou farto da vida estupidamente cotidiana!
Não quero mais saber de regras insuportáveis!
Eu insulto as pessoas-máquinas! Sempiternamente cautelosas!
Que importam as regras, as infâmias?
Que importam?
Recuso-me a aceitar o absurdo daqueles que acreditam
na impossibilidade de crer que viver,
é só isso aí. . .
Queimem de raiva contra mim os que acreditam no sistema!
Morram de dor as atitudes impostas!
Destilem seus venenos,
que eu beberei. . .
Tenho nervos de aço, onde não corre sangue nas veias,
ou mesmo no coração.
No meu coração correm vastas emoções,
e o fluxo de pensamentos.
Se tens as regras, cumpra-as!
Se tens a subordinação, humilhe-se!
Se tens tudo, fazes!
Eu, tenho a minha loucura!
Porque, vocês que dizem possuir o direito,
acham que podem ignorar tudo aquilo que sinto em meu peito?
Ah! Que ninguém me defina!
Que ninguém me questione!
Eu, que não vivo sem a minha loucura,
não me questiono!
Eu faço!
Vocês, miseráveis e desprezíveis,
só vão ter o respeito que querem,
no dia em que souberem — e quiserem ! —
respeitar a minha vontade.
Se não for assim. . .
Unam-se todos contra mim!
Alimentem-se do meu ódio!
Mas, não aliem-se ao inimigo. . .
Costumo andar sozinho. Não acompanho ninguém.
Prefiro seguir aos lamentos, machucar-me, arrastar-me,
a seguir todas estas regras insuportáveis.
Mas, viver!
A dor é uma coisa real, sim, mas que estou
aprendendo a abraçar.
E assim vou vivendo. . .
Sozinho. . .
862
Renato Russo
Será
Tire suas mãos de mim
Eu não pertenço a você
Não é me dominando assim
Que você vai me entender
Eu posso estar sozinho
Mas eu sei muito bem aonde estou
Você pode até duvidar
É só que isso não é amor
Será só imaginação ?
Será que nada vai acontecer ?
Será que é tudo isso em vão ?
Será que vamos conseguir vencer ?
Nos perderemos entre monstros
Da nossa própria criação
Serão noites inteiras
Talvez por medo da escuridão
Ficaremos acordados
Imaginando alguma solução
Prá que esse nosso egoísmo
Não destrua nosso coração
Brigar prá que
Se é sem querer
Quem é que vai
Nos proteger ?
Será que vamos ter
Que responder
Pelos erros a mais
Eu e você ?
Eu não pertenço a você
Não é me dominando assim
Que você vai me entender
Eu posso estar sozinho
Mas eu sei muito bem aonde estou
Você pode até duvidar
É só que isso não é amor
Será só imaginação ?
Será que nada vai acontecer ?
Será que é tudo isso em vão ?
Será que vamos conseguir vencer ?
Nos perderemos entre monstros
Da nossa própria criação
Serão noites inteiras
Talvez por medo da escuridão
Ficaremos acordados
Imaginando alguma solução
Prá que esse nosso egoísmo
Não destrua nosso coração
Brigar prá que
Se é sem querer
Quem é que vai
Nos proteger ?
Será que vamos ter
Que responder
Pelos erros a mais
Eu e você ?
1 019
Ruy Pereira e Alvim
Acto de Contrição
Não tenho direito à prece,
nem mereço o teu perdão;
Nada fiz para morrer
de farda e arma na mão...
Perdi horas em conversa
passei dias a pensar
em arremedos de guerra,
perdi a vontade imersa
no desejo de lutar...
Troquei os sonhos por tiros
que não dei nem deixei dar!...
Gastei pedações de vida,
e fiz com eles as flores
de renúncia e omissão...
Perdi a terra e o mar,
fiquei sem voz pra cantar
a minha libertação!...
nem mereço o teu perdão;
Nada fiz para morrer
de farda e arma na mão...
Perdi horas em conversa
passei dias a pensar
em arremedos de guerra,
perdi a vontade imersa
no desejo de lutar...
Troquei os sonhos por tiros
que não dei nem deixei dar!...
Gastei pedações de vida,
e fiz com eles as flores
de renúncia e omissão...
Perdi a terra e o mar,
fiquei sem voz pra cantar
a minha libertação!...
1 028
Renato Russo
LAvventura
Quando não há compaixão
Ou mesmo um gesto de ajuda
O que pensar da vida
E daqueles que sabemos que amamos?
Quem pensa por si mesmo é livre
E ser livre é coisa muito séria
Não se pode fechar os olhos
Não se pode olhar pra trás
Sem se aprender alguma coisa
Pro futuro
Corri pro esconderijo e olhei pela janela
O sol é um só mas que sabe são duas manhãs
Não precisa vir se não for pra ficar
Pelo menos uma noite e três semanas.
Nada é fácil, nada é certo
Não façamos do amor algo desonesto
Quero ser prudente e sempre ser correto
Quero ser constante e sempre tentar ser sincero
E queremos fugir
Mas ficamos sempre sem saber
Seu olhar não conta mais estórias
Não brota o fruto e nem a flor
E nem o céu é belo e prateado
E o que eu era eu não sou mais
E não tenho nada pra lembrar
Triste coisa é querer bem
A quem não sabe perdoar
Acho que sempre lhe amarei
Só que não lhe quero mais
Não é desejo, nem é saudade
Sinceramente nem é verdade
E eu sei porque você fugiu
Mas não consigo entender.
Ou mesmo um gesto de ajuda
O que pensar da vida
E daqueles que sabemos que amamos?
Quem pensa por si mesmo é livre
E ser livre é coisa muito séria
Não se pode fechar os olhos
Não se pode olhar pra trás
Sem se aprender alguma coisa
Pro futuro
Corri pro esconderijo e olhei pela janela
O sol é um só mas que sabe são duas manhãs
Não precisa vir se não for pra ficar
Pelo menos uma noite e três semanas.
Nada é fácil, nada é certo
Não façamos do amor algo desonesto
Quero ser prudente e sempre ser correto
Quero ser constante e sempre tentar ser sincero
E queremos fugir
Mas ficamos sempre sem saber
Seu olhar não conta mais estórias
Não brota o fruto e nem a flor
E nem o céu é belo e prateado
E o que eu era eu não sou mais
E não tenho nada pra lembrar
Triste coisa é querer bem
A quem não sabe perdoar
Acho que sempre lhe amarei
Só que não lhe quero mais
Não é desejo, nem é saudade
Sinceramente nem é verdade
E eu sei porque você fugiu
Mas não consigo entender.
1 129
Elíude Viana
Duas Velas
Levo o infortúnio de não ter
- como os relógios -
horas eternas...
Nem a felicidade
que têm os faróis
de ficar à deriva, indefinidamente...
Sou uma Embarcação
- atracada -
querendo voar com as gaivotas.
- como os relógios -
horas eternas...
Nem a felicidade
que têm os faróis
de ficar à deriva, indefinidamente...
Sou uma Embarcação
- atracada -
querendo voar com as gaivotas.
1 025
Renato Russo
Metal contra as nuvens
I
Não sou escravo de ninguém
Ninguém senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz
Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais
Sou metal - raio, relâmpago e trovão
Sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Sou metal: me sabe o sopro do dragão
Reconheço o meu pesar
Quando tudo é traição
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos
Mas minha terra é a terra que é minha
E sempre será minha terra
Tem a lua, tem estrelas e sempre terá
II
Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa
Quase acreditei, quase acreditei
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo
Olha o sopro do dragão
III
É a verdade que assombra
O descaso que condena
A estupidez que o destrói
Eu vejo tudo o que se foi
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes
O corpo quer, a alma entende
Essa é a terra-de-ninguém
E sei que devo resistir -
Eu quero a espada em minhas mãos
Sou metal - raio, relâmpago e trovão
Sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Sou metal: me sabe o sopro do dragão
Não me entrego sem lutar -
Tenho ainda coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então
IV
- Tudo passa, tudo passará
E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas para contar
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe para trás -
Apenas começamos
O mundo começa agora -
Apenas começamos
Não sou escravo de ninguém
Ninguém senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz
Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais
Sou metal - raio, relâmpago e trovão
Sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Sou metal: me sabe o sopro do dragão
Reconheço o meu pesar
Quando tudo é traição
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos
Mas minha terra é a terra que é minha
E sempre será minha terra
Tem a lua, tem estrelas e sempre terá
II
Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa
Quase acreditei, quase acreditei
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo
Olha o sopro do dragão
III
É a verdade que assombra
O descaso que condena
A estupidez que o destrói
Eu vejo tudo o que se foi
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes
O corpo quer, a alma entende
Essa é a terra-de-ninguém
E sei que devo resistir -
Eu quero a espada em minhas mãos
Sou metal - raio, relâmpago e trovão
Sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Sou metal: me sabe o sopro do dragão
Não me entrego sem lutar -
Tenho ainda coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então
IV
- Tudo passa, tudo passará
E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas para contar
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe para trás -
Apenas começamos
O mundo começa agora -
Apenas começamos
1 544
Renato Russo
Vamos fazer um filme
Achei um 3x4 teu e não quis acreditar
Que tinha sido há tanto tempo atrás
Um exemplo de bondade e respeito
Do que o verdadeiro amor é capaz
A minha escola não tem personagem
A minha escola tem gente de verdade
Alguém falou do fim-do-mundo
O fim-do-mundo já passou
Vamos começar de novo:
Um por todos, todos por um
- O sistema é maus, mas minha turma é legal
Viver é foda, morrer é difícil
Te ver é uma necessidade
Vamos fazer um filme
E hoje em dia, como é que se diz: "- Eu te amo" ?
Sem essa de que: "- Estou sozinho"
Somos muito mais que isso
Somos pinguim, somos golfinho
Homem, sereia e beija-flor
Leão, leoa e leão-marinho
Eu preciso e quero ter carinho, liberdade e respeito
Chega de opressão
Quero viver a minha vida em paz
Quero um milhão de amigos
Quero irmãos e irmãs
Deve ser cisma minha
Mas a única maneira ainda
De imaginar a minha vida
É vê-la como um musical dos anos trinta
E no meio de uma depressão
Te ver e ter beleza e fantasia
E hoje em dia, como é que se diz: "- Eu te amo" ?
Vamos fazer um filme
Eu te amo
Eu te amo
Eu te amo
Que tinha sido há tanto tempo atrás
Um exemplo de bondade e respeito
Do que o verdadeiro amor é capaz
A minha escola não tem personagem
A minha escola tem gente de verdade
Alguém falou do fim-do-mundo
O fim-do-mundo já passou
Vamos começar de novo:
Um por todos, todos por um
- O sistema é maus, mas minha turma é legal
Viver é foda, morrer é difícil
Te ver é uma necessidade
Vamos fazer um filme
E hoje em dia, como é que se diz: "- Eu te amo" ?
Sem essa de que: "- Estou sozinho"
Somos muito mais que isso
Somos pinguim, somos golfinho
Homem, sereia e beija-flor
Leão, leoa e leão-marinho
Eu preciso e quero ter carinho, liberdade e respeito
Chega de opressão
Quero viver a minha vida em paz
Quero um milhão de amigos
Quero irmãos e irmãs
Deve ser cisma minha
Mas a única maneira ainda
De imaginar a minha vida
É vê-la como um musical dos anos trinta
E no meio de uma depressão
Te ver e ter beleza e fantasia
E hoje em dia, como é que se diz: "- Eu te amo" ?
Vamos fazer um filme
Eu te amo
Eu te amo
Eu te amo
1 158
Roberto Pontes
Verbo Encarnado, a Lição da Liberdade
por Angela Gutiérrez
O próprio poeta Roberto Pontes lembra, em "Nota posterior" a seus poemas de Verbo Encarnado, que "encarnado é sinônimo de vermelho, havendo nas festas populares acirradas disputas entre os partidos azul e encarnado". Aceitando o mote, ressalto que, além da acepção bíblica de "verbo que se fez carne", junta-se à significação do título do livro de Roberto, a idéia da cor vermelha que, no imaginário ocidental, é a cor da paixão, reiterada, no encarnado, pela etimologia ligada à carne. A acepção de encarnado, como aquilo que é representado, ou penetrado por um espírito, o brasileirismo que considera como encarnado aquilo que assedia, importuna, o simbolismo do encarnado como cor dos partidos de esquerda, tudo isso converge para o título da coletânea de poemas que, hoje, chega ao público cearense. O verbo poético de Roberto é verbo vermelho na palavra-luta; é verbo de carne, na palavra-dor e na palavra-paixão, é verbo que nos assedia, ao exigir, em diferentes modulações, a lição da liberdade.
A mesma "Nota posterior", além de informar sobre datas, nomes e fatos ligados à gestação dos poemas, sendo, portanto, um adendo genético, funciona, também, como uma poética do autor. Nela, Roberto afirma que a poesia não é "exercício para narcisos", mas "fala insubmisssa" que age como "resistência" e como "incitação das consciências". Quem viveu a adolescência e a juventude durante "os anos de chumbo" – entre 64 e 84 – e recorda a sensação do medo, da revolta, da impotência da boca amordaçada que nos afligia nessa "página infeliz de nossa história" (na bela expressão de Chico Buarque em seu samba Vai passar), entende que os poemas de Roberto, escritos entre 64 e 83, são intérpretes dessa "memória corporal" e nos fazem não só recordá-la como reencarná-la.
Em Verbo Encarnado, o poeta nega-se o direito de contemplar a própria imagem; nunca é um só, é sempre um entre muitos: é cidadão do mundo em "Soul por Luther King", "Lembrança de Neruda", "O Pássaro Amarelo" (poema dedicado a Ho Chi Minh); cidadão do Nordeste e de Fortaleza, em "Composição sobre a Peixeira", "Os Nossos Meninos Azuis", "Chula da Rendeira", "Poema para Fortaleza" e tantos mais.
O poeta, naqueles tempos de revolta, traveste seu verbo em arma, como em "A Bala do Poema":
A palavra há de ser
a consistência da bala
.....................................
A palavra há de trazer
o peso do chumbo
a quentura
a explosão do peito
enquanto o amor não for reconhecido.
Ou, como em "Dedicatória":
Pixe muros
faça hinos
dê combate à ditadura
enforque em cordas de aço
toda forma de opressão.
Ou, ainda, como em "Definição":
trago um chicote
inquieto na mão
Mas se, em "Ultrapassagem", o poeta canta o momento feliz da fartura contra a guerra, da liberdade contra o medo, do mundo novo sem miséria, esse é o tempo do futuro:
quando o homem se souber
indigno do que até hoje cometeu
Apesar da delicadeza, quase diafaneidade, do poema "Os Ausentes", dedicado a Frei Tito –
Dos ausentes fica sempre um sorriso
como as pinturas recheias
de surpresa, reencontro e irreal.
– e que abre o livro, na versão em francês, o tom dominante de Verbo Encarnado é o que explode nas imagens audaciosas do ciclo apocalíptico, em "Antevéspera", "Véspera" e "O Dia":
e o ágape servido será dor e veneno.
No dia
e após o dia
a vida irá sumindo lentamente
e cheios de medalhas
os cus dos generais apodrecendo.
Essas são as últimas palavras do último poema do livro e, apesar de vertidas no futuro, são as que impregnam a nossa memória do passado que o livro do Roberto nos traz, dolorosamente, ao presente.
ANGELA GUTIÉRREZ é Professora Adjunta de Literatura Brasileira
no Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará. Doutora em
Literatura Comparada pela UFMG. Pertence ao quadro de especialistas
da Associação Brasileira de Literatura Comparada – ABRALIC.
Autora de O mundo de Flora (romance) e Vargas Llosa e o Romance
Possível da América Latina (ensaio).
O próprio poeta Roberto Pontes lembra, em "Nota posterior" a seus poemas de Verbo Encarnado, que "encarnado é sinônimo de vermelho, havendo nas festas populares acirradas disputas entre os partidos azul e encarnado". Aceitando o mote, ressalto que, além da acepção bíblica de "verbo que se fez carne", junta-se à significação do título do livro de Roberto, a idéia da cor vermelha que, no imaginário ocidental, é a cor da paixão, reiterada, no encarnado, pela etimologia ligada à carne. A acepção de encarnado, como aquilo que é representado, ou penetrado por um espírito, o brasileirismo que considera como encarnado aquilo que assedia, importuna, o simbolismo do encarnado como cor dos partidos de esquerda, tudo isso converge para o título da coletânea de poemas que, hoje, chega ao público cearense. O verbo poético de Roberto é verbo vermelho na palavra-luta; é verbo de carne, na palavra-dor e na palavra-paixão, é verbo que nos assedia, ao exigir, em diferentes modulações, a lição da liberdade.
A mesma "Nota posterior", além de informar sobre datas, nomes e fatos ligados à gestação dos poemas, sendo, portanto, um adendo genético, funciona, também, como uma poética do autor. Nela, Roberto afirma que a poesia não é "exercício para narcisos", mas "fala insubmisssa" que age como "resistência" e como "incitação das consciências". Quem viveu a adolescência e a juventude durante "os anos de chumbo" – entre 64 e 84 – e recorda a sensação do medo, da revolta, da impotência da boca amordaçada que nos afligia nessa "página infeliz de nossa história" (na bela expressão de Chico Buarque em seu samba Vai passar), entende que os poemas de Roberto, escritos entre 64 e 83, são intérpretes dessa "memória corporal" e nos fazem não só recordá-la como reencarná-la.
Em Verbo Encarnado, o poeta nega-se o direito de contemplar a própria imagem; nunca é um só, é sempre um entre muitos: é cidadão do mundo em "Soul por Luther King", "Lembrança de Neruda", "O Pássaro Amarelo" (poema dedicado a Ho Chi Minh); cidadão do Nordeste e de Fortaleza, em "Composição sobre a Peixeira", "Os Nossos Meninos Azuis", "Chula da Rendeira", "Poema para Fortaleza" e tantos mais.
O poeta, naqueles tempos de revolta, traveste seu verbo em arma, como em "A Bala do Poema":
A palavra há de ser
a consistência da bala
.....................................
A palavra há de trazer
o peso do chumbo
a quentura
a explosão do peito
enquanto o amor não for reconhecido.
Ou, como em "Dedicatória":
Pixe muros
faça hinos
dê combate à ditadura
enforque em cordas de aço
toda forma de opressão.
Ou, ainda, como em "Definição":
trago um chicote
inquieto na mão
Mas se, em "Ultrapassagem", o poeta canta o momento feliz da fartura contra a guerra, da liberdade contra o medo, do mundo novo sem miséria, esse é o tempo do futuro:
quando o homem se souber
indigno do que até hoje cometeu
Apesar da delicadeza, quase diafaneidade, do poema "Os Ausentes", dedicado a Frei Tito –
Dos ausentes fica sempre um sorriso
como as pinturas recheias
de surpresa, reencontro e irreal.
– e que abre o livro, na versão em francês, o tom dominante de Verbo Encarnado é o que explode nas imagens audaciosas do ciclo apocalíptico, em "Antevéspera", "Véspera" e "O Dia":
e o ágape servido será dor e veneno.
No dia
e após o dia
a vida irá sumindo lentamente
e cheios de medalhas
os cus dos generais apodrecendo.
Essas são as últimas palavras do último poema do livro e, apesar de vertidas no futuro, são as que impregnam a nossa memória do passado que o livro do Roberto nos traz, dolorosamente, ao presente.
ANGELA GUTIÉRREZ é Professora Adjunta de Literatura Brasileira
no Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará. Doutora em
Literatura Comparada pela UFMG. Pertence ao quadro de especialistas
da Associação Brasileira de Literatura Comparada – ABRALIC.
Autora de O mundo de Flora (romance) e Vargas Llosa e o Romance
Possível da América Latina (ensaio).
1 378
Roberto Pontes
Quando o Verbo se Encarna
por Moacyr Félix
A atual poesia cearense é importante, muito importante, pela contribuição que traz à nossa mais válida literatura, aquela que se quer e se faz contra esses aparentemente desvairados cultos da irracionalidade, pregados pelos que se dizem "rebeldes sem causa", e que, por isso mesmo, servem apenas de vaso para o modismo das "vanguardas" conservadoramente aplaudidas pelo poder, por interesses e medos da classe dominante.
A atual poesia cearense, no seu aspecto mais significativo, deixa evidente que vê a literatura como a arte da palavra posta filosoficamente – ou seja, sem simplificações a aleijar as móveis espessuras do real – a serviço das idéias e dos sentimentos que se realizam nas lutas contra as alienações que dolorosamente deformam os sentidos da existência humana. É uma poesia de pé, não há dúvida, uma poesia contra o que oprime e a favor do que liberta, uma poesia dos que sentem na pele dos seus corpos e das suas calçadas o baque das horas sujas e quebradas pela miséria e pela ignorância.
As matrizes da divulgação literária no Rio e em São Paulo, sobretudo, e em outras importantes cidades do Sul e do Centro do nosso país, cercam com uma pesada cortina de silêncio os muitos livros desses poetas editados em Fortaleza.
Para ser reconhecido ou lido nacionalmente, tem-se que ir, pelo menos, ao Rio ou a São Paulo, e ali buscar relacionar-se com os "donos do poder cultural", ou, pelo menos, com os seus parentes e subaltaernos, freqüentar suas casas, levar cartões de visitas sob os olhos das secretárias, alisar com o traseiro as poltronas das editoras, fazer reverências nas redações, encher a todo momento a boca de elogios aos chamados "vencedores da vida", etc., etc. E agora – Deus meu! – é a hora de lembrar o quanto vem sendo badalado, no Rio e em São Paulo, aquele amontoado de ignorância e de imposturas que fez Carlos Drummond de Andrade morrer denunciando o alastramento: da poluição cultural, que consiste na divulgação estonteante de valores intelectuais e artísticos da pior qualidade, absorvidos com avidez por consumidores despreparados e alienados da realidade brasileira.
Por mais que para a imprensa e os escritores daqui fossem enviados, que escritor ou jornal deu cobertura a iniciativas como, por exemplo, a de imprimir e lançar Nação Cariry, uma revista de qualidades bem mais altas do que as babaquices das revistecas e jornalecos em que aqui bailam reunidas a mediocridade e a leviandade?! E se voltarmos atrás, o que dizer da nenhuma esquálida, quando não envenenada, repercussão de movimentos importantes da poesia que foram Clã, na década de 40, o Sin na de 60, O Saco, na de 70?! E isso não é por acaso: o Nordeste – sofrido e ferido sob um regime econômico que já fez por merecer a alcunha de "capitalismo selvagem" – se encontra em autores como os dessa poesia de rebeldes com causa; e se à sua gente fosse dado o mínimo poder de comprar e ler os seus livros, o grito do colonizado se levantaria contra o colonizador.
E é nesse grito, portanto, que a dor mais funda do povo brasileiro, como um todo, encontra o seu verdadeiro eco, aquele cuja história é a do ser contrário aos sons cosmopolitas com que somos vendidos às matrizes do capitalismo financeiro internacional. Matrizes que são as mesmas que dão corda e limite às matrizes da orientação fundamental dos nossos mais potentes meios de comunicação.
E aqui fico pensando em alguns dos mais significativos poetas vivos que hoje o Ceará nos oferece, cada um senhor das técnicas do verso com que vão abrindo – ora com sucesso, ora com fracasso – as muitas janelas da vida que se acha e que se perde no exterior interiorizado do ser humano.
Sem esquecer o relevo dos mortos como Jáder de Carvalho e Aluízio Medeiros, ou o já celebrado em vida Gerardo de Melo Mourão, vale citar, entre os mais velhos, Francisco Carvalho, Alcides Pinto, Arthur Eduardo Benevides e Caetano Ximenes Aragão; e entre os mais moços, além de Luciano Maia e Rosemberg Cariry, vale destacar também Oswald Barroso, Adriano Espínola, Airton Monte, Pedro Lyra, Carlos Augusto Viana, Rogaciano Leite Filho e o digno de ser muito estudado popular poeta Patativa do Assaré. E entre esses, e com o devido destaque, é de incluir-se o nome do autor deste Verbo Encarnado.
Desde as leituras de Contracanto, Lições de Espaço e Memória Corporal, ou seja, há muitos anos, conheci e me fiz amigo pessoal de Roberto Pontes, essa musical figura humana que sabe se fazer tão parte das ruas da cidade em que se orquestra. Da sua ternura guevarina, como indivíduo e poeta, é que ele fez a sombra e o vazio de que também são feitos os atos da vida dos homens. Porque em 1970 ela já escrevia em "Raízes", um poema publicado no número 5 de O Saco, que:
As raízes explicam sempre as folhas
adidas aos ramos projetados
e nelas a essência bruxuleia.
Da sua duração subterrânea
vem o vago e o complexo das plantas
onde apanho o real pelos cabelos.
E assim ele caminha desde os becos escuros ou as praias esverdeadas pelas ondas que levam os perfis da sua Fortaleza até o jogo da luz e da treva nos fatos e nas figuras da nossa história contemporânea que mais o tocaram. O mundo, o nosso mundo e este país dentro dele – esse o barco dos seus pensamentos; o povo, todos os povos, e a singularidade do ser individual neles imerso, esses os tripulantes do seu barco. Aqui o verbo se encarna na dança linotípica das escrituras de significados e significantes; e é uma recusa de todas as ditaduras que levam ao sectarismo e ao dogmatismo, a tudo que prende numa conceitual camisa-de-força os inconceituáveis e quase infinitos tons pesados no olho das velocidades em que giram, se acendendo e se apagando, as contradições de cada ser humano. Aqui, neste livro, o chão de todo verdadeiro poeta, o chão em que cada poeta escolhe a sua singularíssima viagem, o chão em que Roberto Pontes realiza os melhores poemas deste livro. E aqui pinço, como exemplificação, o poema dedicado a Tatá, a negra retinta que foi mãe dos princípios do poeta, a que, no dia da notícia da morte de Stalin, deu-lhe o quefoi a primeira lição de liberdade.
Eu tinha nove anos e sorria
apenas nove anos e sonhava.
Tudo formando a descrição do momento do quanto aprendera, desde então, que a existência humana é maior do que qualquer esquematismo político:
As flores transpiravam mil segredos
elas eram brancas, roxas, e teimavam.
Aqui vemos o que aparecerá várias vezes neste livro: o fato mais individual a servir de eixo para a definição de fatos da grande história dos homens, o próximo e o singular mostrando seu rosto do distante e do plural.
E por issso – ora aplaudindo e abraçamdo, ora condenado e vergastando – o poeta vai costurando, em torno da sua noção de liberdade, a evocação de nomes de tiranias e tiranos – como Stalin, Salazar, e o golpe militar em 64 – com os nomes de Neruda, Ho Chi Minh, Frei Tito, José Genoíno, Luther King e outros.
Roberto Pontes está convencido de que a fala insubmissa do poeta não deve ser concebida "apenas como resitência" e sim "muito mais como incitação das consciências". E a partir dessas idéias estrutura neste livro uma verdadeira lição do que deve ser verdadeiramente uma poética: lutando para não se aprisionar nos dogmatismos e sectarismos contrários à complexidade da existência, aberto aos infinitos que ainda não sabemos, o poeta colhe a poesia no que vê e sente como o não-ser do que foi ou que não pôde ser sob os golpes do destino e da história; e em nome disso faz da Liberdade a porta e o caminho e o horizonte para o verbo com que intenta dar fala ao ser que nele move idéias e sentimentos:
A noite será feia
enquanto houver uma cadeia.
O poeta não abre exceções, não as admite; a liberdade é indivisível e para todos, ou não é liberdade. Ela é o fundamento de todos os atos do s
A atual poesia cearense é importante, muito importante, pela contribuição que traz à nossa mais válida literatura, aquela que se quer e se faz contra esses aparentemente desvairados cultos da irracionalidade, pregados pelos que se dizem "rebeldes sem causa", e que, por isso mesmo, servem apenas de vaso para o modismo das "vanguardas" conservadoramente aplaudidas pelo poder, por interesses e medos da classe dominante.
A atual poesia cearense, no seu aspecto mais significativo, deixa evidente que vê a literatura como a arte da palavra posta filosoficamente – ou seja, sem simplificações a aleijar as móveis espessuras do real – a serviço das idéias e dos sentimentos que se realizam nas lutas contra as alienações que dolorosamente deformam os sentidos da existência humana. É uma poesia de pé, não há dúvida, uma poesia contra o que oprime e a favor do que liberta, uma poesia dos que sentem na pele dos seus corpos e das suas calçadas o baque das horas sujas e quebradas pela miséria e pela ignorância.
As matrizes da divulgação literária no Rio e em São Paulo, sobretudo, e em outras importantes cidades do Sul e do Centro do nosso país, cercam com uma pesada cortina de silêncio os muitos livros desses poetas editados em Fortaleza.
Para ser reconhecido ou lido nacionalmente, tem-se que ir, pelo menos, ao Rio ou a São Paulo, e ali buscar relacionar-se com os "donos do poder cultural", ou, pelo menos, com os seus parentes e subaltaernos, freqüentar suas casas, levar cartões de visitas sob os olhos das secretárias, alisar com o traseiro as poltronas das editoras, fazer reverências nas redações, encher a todo momento a boca de elogios aos chamados "vencedores da vida", etc., etc. E agora – Deus meu! – é a hora de lembrar o quanto vem sendo badalado, no Rio e em São Paulo, aquele amontoado de ignorância e de imposturas que fez Carlos Drummond de Andrade morrer denunciando o alastramento: da poluição cultural, que consiste na divulgação estonteante de valores intelectuais e artísticos da pior qualidade, absorvidos com avidez por consumidores despreparados e alienados da realidade brasileira.
Por mais que para a imprensa e os escritores daqui fossem enviados, que escritor ou jornal deu cobertura a iniciativas como, por exemplo, a de imprimir e lançar Nação Cariry, uma revista de qualidades bem mais altas do que as babaquices das revistecas e jornalecos em que aqui bailam reunidas a mediocridade e a leviandade?! E se voltarmos atrás, o que dizer da nenhuma esquálida, quando não envenenada, repercussão de movimentos importantes da poesia que foram Clã, na década de 40, o Sin na de 60, O Saco, na de 70?! E isso não é por acaso: o Nordeste – sofrido e ferido sob um regime econômico que já fez por merecer a alcunha de "capitalismo selvagem" – se encontra em autores como os dessa poesia de rebeldes com causa; e se à sua gente fosse dado o mínimo poder de comprar e ler os seus livros, o grito do colonizado se levantaria contra o colonizador.
E é nesse grito, portanto, que a dor mais funda do povo brasileiro, como um todo, encontra o seu verdadeiro eco, aquele cuja história é a do ser contrário aos sons cosmopolitas com que somos vendidos às matrizes do capitalismo financeiro internacional. Matrizes que são as mesmas que dão corda e limite às matrizes da orientação fundamental dos nossos mais potentes meios de comunicação.
E aqui fico pensando em alguns dos mais significativos poetas vivos que hoje o Ceará nos oferece, cada um senhor das técnicas do verso com que vão abrindo – ora com sucesso, ora com fracasso – as muitas janelas da vida que se acha e que se perde no exterior interiorizado do ser humano.
Sem esquecer o relevo dos mortos como Jáder de Carvalho e Aluízio Medeiros, ou o já celebrado em vida Gerardo de Melo Mourão, vale citar, entre os mais velhos, Francisco Carvalho, Alcides Pinto, Arthur Eduardo Benevides e Caetano Ximenes Aragão; e entre os mais moços, além de Luciano Maia e Rosemberg Cariry, vale destacar também Oswald Barroso, Adriano Espínola, Airton Monte, Pedro Lyra, Carlos Augusto Viana, Rogaciano Leite Filho e o digno de ser muito estudado popular poeta Patativa do Assaré. E entre esses, e com o devido destaque, é de incluir-se o nome do autor deste Verbo Encarnado.
Desde as leituras de Contracanto, Lições de Espaço e Memória Corporal, ou seja, há muitos anos, conheci e me fiz amigo pessoal de Roberto Pontes, essa musical figura humana que sabe se fazer tão parte das ruas da cidade em que se orquestra. Da sua ternura guevarina, como indivíduo e poeta, é que ele fez a sombra e o vazio de que também são feitos os atos da vida dos homens. Porque em 1970 ela já escrevia em "Raízes", um poema publicado no número 5 de O Saco, que:
As raízes explicam sempre as folhas
adidas aos ramos projetados
e nelas a essência bruxuleia.
Da sua duração subterrânea
vem o vago e o complexo das plantas
onde apanho o real pelos cabelos.
E assim ele caminha desde os becos escuros ou as praias esverdeadas pelas ondas que levam os perfis da sua Fortaleza até o jogo da luz e da treva nos fatos e nas figuras da nossa história contemporânea que mais o tocaram. O mundo, o nosso mundo e este país dentro dele – esse o barco dos seus pensamentos; o povo, todos os povos, e a singularidade do ser individual neles imerso, esses os tripulantes do seu barco. Aqui o verbo se encarna na dança linotípica das escrituras de significados e significantes; e é uma recusa de todas as ditaduras que levam ao sectarismo e ao dogmatismo, a tudo que prende numa conceitual camisa-de-força os inconceituáveis e quase infinitos tons pesados no olho das velocidades em que giram, se acendendo e se apagando, as contradições de cada ser humano. Aqui, neste livro, o chão de todo verdadeiro poeta, o chão em que cada poeta escolhe a sua singularíssima viagem, o chão em que Roberto Pontes realiza os melhores poemas deste livro. E aqui pinço, como exemplificação, o poema dedicado a Tatá, a negra retinta que foi mãe dos princípios do poeta, a que, no dia da notícia da morte de Stalin, deu-lhe o quefoi a primeira lição de liberdade.
Eu tinha nove anos e sorria
apenas nove anos e sonhava.
Tudo formando a descrição do momento do quanto aprendera, desde então, que a existência humana é maior do que qualquer esquematismo político:
As flores transpiravam mil segredos
elas eram brancas, roxas, e teimavam.
Aqui vemos o que aparecerá várias vezes neste livro: o fato mais individual a servir de eixo para a definição de fatos da grande história dos homens, o próximo e o singular mostrando seu rosto do distante e do plural.
E por issso – ora aplaudindo e abraçamdo, ora condenado e vergastando – o poeta vai costurando, em torno da sua noção de liberdade, a evocação de nomes de tiranias e tiranos – como Stalin, Salazar, e o golpe militar em 64 – com os nomes de Neruda, Ho Chi Minh, Frei Tito, José Genoíno, Luther King e outros.
Roberto Pontes está convencido de que a fala insubmissa do poeta não deve ser concebida "apenas como resitência" e sim "muito mais como incitação das consciências". E a partir dessas idéias estrutura neste livro uma verdadeira lição do que deve ser verdadeiramente uma poética: lutando para não se aprisionar nos dogmatismos e sectarismos contrários à complexidade da existência, aberto aos infinitos que ainda não sabemos, o poeta colhe a poesia no que vê e sente como o não-ser do que foi ou que não pôde ser sob os golpes do destino e da história; e em nome disso faz da Liberdade a porta e o caminho e o horizonte para o verbo com que intenta dar fala ao ser que nele move idéias e sentimentos:
A noite será feia
enquanto houver uma cadeia.
O poeta não abre exceções, não as admite; a liberdade é indivisível e para todos, ou não é liberdade. Ela é o fundamento de todos os atos do s
1 004
Rodrigo L. A. Santos
Não quero ficar preso
Não quero ficar preso em quatro paredes
Não quero ficar enjaulado numa caixa
Não quero seguir as tendências
Não quero ser massa de manobra
Não quero seu um "ista"
Seguindo algum "ismo"
Nem ficar preso numa linha imaginária
Quero fazer do mundo
Meu quintal
Fazer mais do que é possível
Mais do que é imaginável
Fazer de pessoas
Amigos
Não quero
Nem vou
Servir de matéria-prima
Pra ser moldado
Nessa forma moral
RLAS
Não quero ficar enjaulado numa caixa
Não quero seguir as tendências
Não quero ser massa de manobra
Não quero seu um "ista"
Seguindo algum "ismo"
Nem ficar preso numa linha imaginária
Quero fazer do mundo
Meu quintal
Fazer mais do que é possível
Mais do que é imaginável
Fazer de pessoas
Amigos
Não quero
Nem vou
Servir de matéria-prima
Pra ser moldado
Nessa forma moral
RLAS
848
Raimundo Correia
Ondas
Ilha de atrozes degredos!
Cinge um muro de rochedos
Seus flancos. Grosso a espumar
Contra a dura penedia,
Bate, arrebenta, assobia,
Retumba, estrondeia o mar.
Em circuito, o Horror impera;
No centro, abrindo a cratera
Flagrante, arroja um volcão
Ígnea blasfêmia às alturas...
E, nas ínvias espessuras,
Brame o tigre, urra o leão.
Aqui chora, aqui, proscrita,
Clama e desespera aflita
A alma de si mesma algoz,
Buscando na imensa plaga,
Entre mil vagas, a vaga,
Que neste exílio a depôs.
Se a vida a prende à matéria,
Fora desta, a alma, sidérea,
Radia em pleno candor;
O corpo, escravo dos vícios,
É que teme os precipícios,
Que este mar cava em redor.
No azul eterno ela busca,
No azul, cujo brilho a ofusca,
Pairar, incendida ao sol,
Despindo a crusta vil, onde
Se esconde, como se esconde
A lesma em seu caracol.
Contempla o infinito ... Um bando
De gerifaltos voando
Passou, desapareceu
No éter azul, na água verde...
E onde esse bando se perde,
seu longo olhar se perde...
Contempla o mar, silenciosa:
Ora mansa, ora raivosa,
Vai e vem a onda minaz,
E entre as pontas do arrecife,
Às vezes leva um esquife,
Às vezes um berço traz.
Contempla, de olhos magoados,
Tudo... Muitos degredados
Findo o seu degredo têm;
Vão-se na onda intumescida
Da Morte, mas na da Vida,
Novos degredados vêm.
Ó alma contemplativa !
Vem já, decumana e altiva,
Entre as ondas talvez,
A que, no supremo esforço
Da morte, em seu frio dorso,
Te leve ao largo, outra vez.
Quanto esplendor! São aquelas
As regiões de luz, que anelas,
Rompe os rígidos grilhões,
Com que à Carne de agrilhoa
O instinto vital! E voa,
e voa àquelas regiões!...
Cinge um muro de rochedos
Seus flancos. Grosso a espumar
Contra a dura penedia,
Bate, arrebenta, assobia,
Retumba, estrondeia o mar.
Em circuito, o Horror impera;
No centro, abrindo a cratera
Flagrante, arroja um volcão
Ígnea blasfêmia às alturas...
E, nas ínvias espessuras,
Brame o tigre, urra o leão.
Aqui chora, aqui, proscrita,
Clama e desespera aflita
A alma de si mesma algoz,
Buscando na imensa plaga,
Entre mil vagas, a vaga,
Que neste exílio a depôs.
Se a vida a prende à matéria,
Fora desta, a alma, sidérea,
Radia em pleno candor;
O corpo, escravo dos vícios,
É que teme os precipícios,
Que este mar cava em redor.
No azul eterno ela busca,
No azul, cujo brilho a ofusca,
Pairar, incendida ao sol,
Despindo a crusta vil, onde
Se esconde, como se esconde
A lesma em seu caracol.
Contempla o infinito ... Um bando
De gerifaltos voando
Passou, desapareceu
No éter azul, na água verde...
E onde esse bando se perde,
seu longo olhar se perde...
Contempla o mar, silenciosa:
Ora mansa, ora raivosa,
Vai e vem a onda minaz,
E entre as pontas do arrecife,
Às vezes leva um esquife,
Às vezes um berço traz.
Contempla, de olhos magoados,
Tudo... Muitos degredados
Findo o seu degredo têm;
Vão-se na onda intumescida
Da Morte, mas na da Vida,
Novos degredados vêm.
Ó alma contemplativa !
Vem já, decumana e altiva,
Entre as ondas talvez,
A que, no supremo esforço
Da morte, em seu frio dorso,
Te leve ao largo, outra vez.
Quanto esplendor! São aquelas
As regiões de luz, que anelas,
Rompe os rígidos grilhões,
Com que à Carne de agrilhoa
O instinto vital! E voa,
e voa àquelas regiões!...
1 927
Paula Nei
A Justiça
A Justiça de um povo generoso,
Pesando sobre a negra escravidão,
Esmagou-a de um modo glorioso,
Sufocando-a com a Lei da Abolição.
Esse passado tétrico, horroroso,
Da mais nefanda e torpe instituição,
Rolou no chão, no abismo pavoroso,
Assombrado com a luz da redenção.
Não mais dos homens os fatais horrores,
Não mais o vil zumbir das vergastadas,
Salpicando de sangue o chão e as flores!
Não mais escravos pelas esplanadas!
São todos livres! Não há mais senhores!
Foi-se a noite, só temos alvoradas.
Pesando sobre a negra escravidão,
Esmagou-a de um modo glorioso,
Sufocando-a com a Lei da Abolição.
Esse passado tétrico, horroroso,
Da mais nefanda e torpe instituição,
Rolou no chão, no abismo pavoroso,
Assombrado com a luz da redenção.
Não mais dos homens os fatais horrores,
Não mais o vil zumbir das vergastadas,
Salpicando de sangue o chão e as flores!
Não mais escravos pelas esplanadas!
São todos livres! Não há mais senhores!
Foi-se a noite, só temos alvoradas.
821
Paulo F. Cunha
Última Vontade
Quero amar muito
antes que me façam odiar .
Quero dar tudo que tenho
antes que tomem de mim .
Quero receber todas as coisas
antes que deixem de me dar .
Quero que olhem o que há de claro
antes que o escuro se aproxime .
Quero o êxtase de todos os movimentos
antes que me paralisem .
Quero ver , cheirar , ouvir ,
quero tocar e provar
antes que me anestesiem os sentidos .
Quero me sentir livre e solto
antes das barras do cárcere .
Quero ser muito coração
antes que me roubem o cérebro .
Quero companhia na derrota
antes que me forcem à vitória .
E quero que tudo isso chegue logo
antes que eu me transforme
em odioso ,espoliado e trevoso
prisioneiro sem cadeias
que nada soube fazer
a não ser obedecer e vencer
antes que me façam odiar .
Quero dar tudo que tenho
antes que tomem de mim .
Quero receber todas as coisas
antes que deixem de me dar .
Quero que olhem o que há de claro
antes que o escuro se aproxime .
Quero o êxtase de todos os movimentos
antes que me paralisem .
Quero ver , cheirar , ouvir ,
quero tocar e provar
antes que me anestesiem os sentidos .
Quero me sentir livre e solto
antes das barras do cárcere .
Quero ser muito coração
antes que me roubem o cérebro .
Quero companhia na derrota
antes que me forcem à vitória .
E quero que tudo isso chegue logo
antes que eu me transforme
em odioso ,espoliado e trevoso
prisioneiro sem cadeias
que nada soube fazer
a não ser obedecer e vencer
687
Pedro Luís Pereira de Sousa
Terribilis Dea
Quando ela apareceu no escuro do horizonte,
O cabelo revolto... a palidez na fronte...
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplendente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra... nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!
Quem era? De onde vinha aquela grande imagem,
Que turbara do céu a límpida miragem,
E de luto cobrira a senda do porvir?
De que abismo saiu?... do túmulo? do inferno?
Pode o anjo do mal desafiar o Eterno?
Da fria sepultura o espectro ressurgir?
Deixai que se levante a grande divindade!...
Seu templo é a terra e o mar; seu culto — a mortandade:
Enche-lhe o peito largo o sopro das paixões...
É a mulher fantasma! uma visão de Dante...
Dos campos de batalha a hórrida bacante,
Que mergulha no sangue e ri das maldições!
A deusa do sepulcral A pálida rainha!
A morte é a sua vida. Impávida caminha,
Ora grande, ora vil, nas trevas ou na luz;
A corte que a rodeia é lúgubre corte;
Tem gala e traja luto: é o séquito da morte,
A miséria que chora, a glória que seduz.
Desde que o mal nasceu, nasceu aquele espectro;
De raios coroou-se! Ao peso de seu ceptro,
A terra tem arfado em transes infernais!...
Do mundo as gerações têm visto em toda idade,
Sinistra, aparecer aquela divindade,
Celebrando no sangue as grandes saturnais.
No seu olhar de fogo há raios de loucura...
Tem cantos de prazer! Tem risos de amargura
Muda sempre de céu, de rumo, de farol!
Aqui — pede ao direito a voz forte e serena;
Ali — ruge feroz, feroz como uma hiena...
Assassina na treva ou mata à luz do sol!...
Levanta o gládio nu em nome da verdade,
Acorda em fúria acesa à voz da liberdade...
E no punho viril derrete-lhe o grilhão!
Como é bela! ... Depois... sem fé, sem heroísmo,
Despedaça a justiça e atira com cinismo
A virgem liberdade aos braços da opressão!
É uma deusa fatal! Quer sangue e atira flores!
Abraça, prende, esmaga os seus adoradores,
Embriaga-os de glória e os cerca de esplendor;
E esses loucos, depois de feitos de gigantes,
A túnica lhe beijam, ardentes, delirantes,
E morrem a seus pés, na febre desse amor.
quando Átila — o monstro, o tigre-cavaleiro,
Espumando, a correr, calcava o mundo inteiro,
A deusa o acompanhava, e ria-se... a cruel!
Tinha a face vermelha, ardia de coragem,
Dava beijos de amor na fronte do selvagem,
Enterrando o aguilhão no flanco do corcel!
Era ela que em Roma erguia-se funesta,
O ídolo do povo em sempiterna festa!
O amor de Cipião, de César, de Pompeu!
Vergava com seu braço o braço do destino,
Prendeu nações e reis ao monte Palatino,
E em doida bacanal depois desfaleceu.
Foi de Carlos o grande a excelsa companheira
Deu-lhe o trono de bronze, a espada aventureira,
E o globo imperial... e glórias... e troféus;
Quando, no escuro val, Rolando, moribundo,
Embocava a trombeta a despertar o mundo,
Erguia o colo a deusa além dos Pireneus!...
Seguiu Napoleão da França até o Egito,
Nos mares, no deserto, e em busca do infinito,
Das terras do Evangelho às terras do Corã...
Dos delírios da Europa aos sonhos do Oriente.
Teve medo, afinal, daquela febre ardente...
Lá no meio do mar prendeu esse Titã.
Ela estava a sorrir, serena e triunfante,
Aos pés de Farragut, o intrépido almirante,
Lá no tope do mastro, enquanto o monitor
Em doidas convulsões, das túmidas entranhas
Vomitava metralha a derribar montanhas,
E do mundo arrancava um grito de terror.
Ela estava também — espectro pavoroso —
Do Amazonas a bordo, ao lado de Barroso,
De pólvora cercada, em pé, sobre o convés...
Quando, à voz do valente, o monstro foi bufando,
Calados os canhões, navios esmagando,
A deusa varonil de amor caiu-lhe aos pés!
Salve, da guerra deusa, arcanjo da batalha!
Que voas no vapor, que ruges na metralha,
Que cantas do combate aos infernais clarões!
Quando arrancas do bronze os cânticos malditos,
O céu é fogo e aço; o ar — pólvora e gritos. . .
E ferve e corre o sangue em quentes borbotões!
Salve, tu! que nos deste o sonho da vingança,
O gládio da justiça o raio da esperança,
E da glória cruenta o mágico esplendor!
É para te saudar que brame a artilharia,
E que repete ao longe a voz da ventania
Das trombetas da morte o hórrido clangor!
Quando ela apareceu no escuro do horizonte,
O cabelo revolto... a palidez na fronte. .
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplandente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra ... nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!
O cabelo revolto... a palidez na fronte...
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplendente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra... nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!
Quem era? De onde vinha aquela grande imagem,
Que turbara do céu a límpida miragem,
E de luto cobrira a senda do porvir?
De que abismo saiu?... do túmulo? do inferno?
Pode o anjo do mal desafiar o Eterno?
Da fria sepultura o espectro ressurgir?
Deixai que se levante a grande divindade!...
Seu templo é a terra e o mar; seu culto — a mortandade:
Enche-lhe o peito largo o sopro das paixões...
É a mulher fantasma! uma visão de Dante...
Dos campos de batalha a hórrida bacante,
Que mergulha no sangue e ri das maldições!
A deusa do sepulcral A pálida rainha!
A morte é a sua vida. Impávida caminha,
Ora grande, ora vil, nas trevas ou na luz;
A corte que a rodeia é lúgubre corte;
Tem gala e traja luto: é o séquito da morte,
A miséria que chora, a glória que seduz.
Desde que o mal nasceu, nasceu aquele espectro;
De raios coroou-se! Ao peso de seu ceptro,
A terra tem arfado em transes infernais!...
Do mundo as gerações têm visto em toda idade,
Sinistra, aparecer aquela divindade,
Celebrando no sangue as grandes saturnais.
No seu olhar de fogo há raios de loucura...
Tem cantos de prazer! Tem risos de amargura
Muda sempre de céu, de rumo, de farol!
Aqui — pede ao direito a voz forte e serena;
Ali — ruge feroz, feroz como uma hiena...
Assassina na treva ou mata à luz do sol!...
Levanta o gládio nu em nome da verdade,
Acorda em fúria acesa à voz da liberdade...
E no punho viril derrete-lhe o grilhão!
Como é bela! ... Depois... sem fé, sem heroísmo,
Despedaça a justiça e atira com cinismo
A virgem liberdade aos braços da opressão!
É uma deusa fatal! Quer sangue e atira flores!
Abraça, prende, esmaga os seus adoradores,
Embriaga-os de glória e os cerca de esplendor;
E esses loucos, depois de feitos de gigantes,
A túnica lhe beijam, ardentes, delirantes,
E morrem a seus pés, na febre desse amor.
quando Átila — o monstro, o tigre-cavaleiro,
Espumando, a correr, calcava o mundo inteiro,
A deusa o acompanhava, e ria-se... a cruel!
Tinha a face vermelha, ardia de coragem,
Dava beijos de amor na fronte do selvagem,
Enterrando o aguilhão no flanco do corcel!
Era ela que em Roma erguia-se funesta,
O ídolo do povo em sempiterna festa!
O amor de Cipião, de César, de Pompeu!
Vergava com seu braço o braço do destino,
Prendeu nações e reis ao monte Palatino,
E em doida bacanal depois desfaleceu.
Foi de Carlos o grande a excelsa companheira
Deu-lhe o trono de bronze, a espada aventureira,
E o globo imperial... e glórias... e troféus;
Quando, no escuro val, Rolando, moribundo,
Embocava a trombeta a despertar o mundo,
Erguia o colo a deusa além dos Pireneus!...
Seguiu Napoleão da França até o Egito,
Nos mares, no deserto, e em busca do infinito,
Das terras do Evangelho às terras do Corã...
Dos delírios da Europa aos sonhos do Oriente.
Teve medo, afinal, daquela febre ardente...
Lá no meio do mar prendeu esse Titã.
Ela estava a sorrir, serena e triunfante,
Aos pés de Farragut, o intrépido almirante,
Lá no tope do mastro, enquanto o monitor
Em doidas convulsões, das túmidas entranhas
Vomitava metralha a derribar montanhas,
E do mundo arrancava um grito de terror.
Ela estava também — espectro pavoroso —
Do Amazonas a bordo, ao lado de Barroso,
De pólvora cercada, em pé, sobre o convés...
Quando, à voz do valente, o monstro foi bufando,
Calados os canhões, navios esmagando,
A deusa varonil de amor caiu-lhe aos pés!
Salve, da guerra deusa, arcanjo da batalha!
Que voas no vapor, que ruges na metralha,
Que cantas do combate aos infernais clarões!
Quando arrancas do bronze os cânticos malditos,
O céu é fogo e aço; o ar — pólvora e gritos. . .
E ferve e corre o sangue em quentes borbotões!
Salve, tu! que nos deste o sonho da vingança,
O gládio da justiça o raio da esperança,
E da glória cruenta o mágico esplendor!
É para te saudar que brame a artilharia,
E que repete ao longe a voz da ventania
Das trombetas da morte o hórrido clangor!
Quando ela apareceu no escuro do horizonte,
O cabelo revolto... a palidez na fronte. .
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplandente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra ... nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!
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