Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Augusto de Campos
Canudos-Iduméia
"Je tapporte lenfant dune nuit dIdumé." Mallarmé
Era uma evocação.
Como se a terra se ataviasse em dados trechos
para idênticos dramas,
tinha-se, ali, o que quer que era
recordando um recanto de Iduméia,
na paragem lendária que perlonga as
ribas meridionais do Asfaltite,
esterilizada para todo o sempre
Era uma evocação.
Como se a terra se ataviasse em dados trechos
para idênticos dramas,
tinha-se, ali, o que quer que era
recordando um recanto de Iduméia,
na paragem lendária que perlonga as
ribas meridionais do Asfaltite,
esterilizada para todo o sempre
1 159
Adailton Medeiros
Cucu
(No maranhão: faz tanto tempo
— E como dói meu pensamento)
Com estria preta
tal debrum de fita
em redor do olho
lá vai voando —
no bico preto
se debate a lagarta
de jasmim ou de palmeira
( — Colorida?)
— a vela avezinha
que presente
guardo
na memória — hoje descontente
— E como dói meu pensamento)
Com estria preta
tal debrum de fita
em redor do olho
lá vai voando —
no bico preto
se debate a lagarta
de jasmim ou de palmeira
( — Colorida?)
— a vela avezinha
que presente
guardo
na memória — hoje descontente
1 177
Amir Calixto Sabbag
Reminiscências
Vento que vem do Sul,
veloz e cantante,
para fazer as nuvens negras
do meu céu cantarem.
Relâmpagos covardes
penetram nas nuvens
e desmancham o espetáculo
da dança no espaço.
Chuvas caem,
formam enxurradas.
Minha mente retrocede:
Lembro-me da infância,
quando soltava
barquinhos de papel.
veloz e cantante,
para fazer as nuvens negras
do meu céu cantarem.
Relâmpagos covardes
penetram nas nuvens
e desmancham o espetáculo
da dança no espaço.
Chuvas caem,
formam enxurradas.
Minha mente retrocede:
Lembro-me da infância,
quando soltava
barquinhos de papel.
1 032
Antônio Girão Barroso
As Três Pessoas
Eram três pessoas distintas mas uma só, na verdade:
eu, o Floro e o Assis.
Três corpos numa lama só.
(O povo dizia que nós éramos
três amizades perfeitas
e meninos de futuro, sim senhor.)
Depois veio o tempo mau
o tempo que tudo leva
e levou o Floro pro céu.
O Assis ficou na terra.
Eu não sei onde fiquei.
eu, o Floro e o Assis.
Três corpos numa lama só.
(O povo dizia que nós éramos
três amizades perfeitas
e meninos de futuro, sim senhor.)
Depois veio o tempo mau
o tempo que tudo leva
e levou o Floro pro céu.
O Assis ficou na terra.
Eu não sei onde fiquei.
1 140
Antero Coelho Neto
A Criança do meu Passado
A criança chorou longe,
enquanto o tempo de hoje
se fez presente em mim.
Assim o fato de agora
perturba o homem em si
e a criança chora longe.
Sinto o choro distante,
cada vez mais, na imagem
do passado que lembro.
São soluços e são gritos
de fome, raiva e desespero
que hoje ainda persistem.
São diferentes os sentimentos,
mas continuam os mesmos
soluços e gritos da alma.
A criança de ontem
perde-se muito na lembrança,
mas é a mesma que chora agora
enquanto o tempo de hoje
se fez presente em mim.
Assim o fato de agora
perturba o homem em si
e a criança chora longe.
Sinto o choro distante,
cada vez mais, na imagem
do passado que lembro.
São soluços e são gritos
de fome, raiva e desespero
que hoje ainda persistem.
São diferentes os sentimentos,
mas continuam os mesmos
soluços e gritos da alma.
A criança de ontem
perde-se muito na lembrança,
mas é a mesma que chora agora
1 494
Umberto Saba
Prelúdio
Voltai a mim, ó vozes de outro tempo,
caras vozes discordes!
Quem sabe se em tristíssimos acordes
eu não vos faço ainda ressoar?
O dealbar
de mim está longe e as noites chegam plenas.
Poucas horas serenas
a dor me deixa, a minha e a de quantos
seres tenho em torno.
Oh, sêde retorno,
vozes quase esquecidas!
Talvez última vez que em qualquer seio
- o meu - sereis ouvidas.
Como os meus pais me deram duas vidas,
e de as fundir em uma fui capaz,
em paz
vos comporeis em extremo acorde,
ó vozear em vão discorde.
E luz e sombra e alegria e dor
se amam em vós.
Oh, regressai a nós,
caras vozes de outro tempo!
caras vozes discordes!
Quem sabe se em tristíssimos acordes
eu não vos faço ainda ressoar?
O dealbar
de mim está longe e as noites chegam plenas.
Poucas horas serenas
a dor me deixa, a minha e a de quantos
seres tenho em torno.
Oh, sêde retorno,
vozes quase esquecidas!
Talvez última vez que em qualquer seio
- o meu - sereis ouvidas.
Como os meus pais me deram duas vidas,
e de as fundir em uma fui capaz,
em paz
vos comporeis em extremo acorde,
ó vozear em vão discorde.
E luz e sombra e alegria e dor
se amam em vós.
Oh, regressai a nós,
caras vozes de outro tempo!
1 047
Octavio Paz
EPITÁFIO PARA UM POETA
Quis cantar, cantar
para não lembrar
sua vida verdadeira de mentiras
e recordar
sua mentirosa vida de verdades.
(Tradução
de José Weis)
para não lembrar
sua vida verdadeira de mentiras
e recordar
sua mentirosa vida de verdades.
(Tradução
de José Weis)
1 782
César Vallejo
VII DE TRILCE
Rumei sem novidade pela listrada rua
que eu cá sei. Tudo sem novidade,
deveras. E fundeei por coisas assim
e fui passado.
Dobrei a rua pela que raras
vezes se passa a bem, saída
heróica para a chaga daquela
esquina viva, nada por metade.
São os grandores,
o grito aquele, a claridade de acarear,
a barreta submersa em seu papel de
já!
Quando a rua está olheirenta de portas
e apregoa de descalços atris
adiar para amanhã as salvas pelos dobres.
Agora formigas ponteiros de minutos
adentram-se adoçadas, adormidas, pouco
dispostas, e se encolhem,
queimados os fogos, nos altos andares de em
1921.
que eu cá sei. Tudo sem novidade,
deveras. E fundeei por coisas assim
e fui passado.
Dobrei a rua pela que raras
vezes se passa a bem, saída
heróica para a chaga daquela
esquina viva, nada por metade.
São os grandores,
o grito aquele, a claridade de acarear,
a barreta submersa em seu papel de
já!
Quando a rua está olheirenta de portas
e apregoa de descalços atris
adiar para amanhã as salvas pelos dobres.
Agora formigas ponteiros de minutos
adentram-se adoçadas, adormidas, pouco
dispostas, e se encolhem,
queimados os fogos, nos altos andares de em
1921.
783
Antônio Brasileiro
Resquício
As horas feitas de flandre
ressoam dentro de mim:
gigante metálico
devorando o tempo.
Na outra sala há um álbum
de retratos tão antigos:
os homens parecem idênticos.
No outro lado da rua
um ancião anda
à semelhança de um
ponto de interrogação.
ressoam dentro de mim:
gigante metálico
devorando o tempo.
Na outra sala há um álbum
de retratos tão antigos:
os homens parecem idênticos.
No outro lado da rua
um ancião anda
à semelhança de um
ponto de interrogação.
1 005
Marcial
VII, 19 - A UM FRAGMENTO DO ARGOS
Este fragmento, lenho inútil dizes,
Primeira quilha foi no mar ignoto.
Que não quebraram as Ciâneas rochas,
Nem a fúria cruel das águas citas,
Os séculos venceram: mas que resta
Mais venerável é que a nave inteira.
Primeira quilha foi no mar ignoto.
Que não quebraram as Ciâneas rochas,
Nem a fúria cruel das águas citas,
Os séculos venceram: mas que resta
Mais venerável é que a nave inteira.
898
Marcial
VI, 18 - A PRISCO, EPITÁFIO DE SALONINO
Santa de Salonino dorme em terra ibérica
Qual melhor o Stix não viu sombra nunca.
Mas chorar é nefasto, pois que vive em ti
Na parte que possuiu e mais durável quis.
Qual melhor o Stix não viu sombra nunca.
Mas chorar é nefasto, pois que vive em ti
Na parte que possuiu e mais durável quis.
543
Giuseppe Ungaretti
À MEMÓRIA DE
Chamava-se
Maomé Cheabe
Descendente
dos emires dos nómadas
suicida
porque não tinha já
pátria
Amou a França
e mudou de nome
Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café
E não sabia soltar
o canto
do seu abandono
Acompanhei-o
junto com a patroa do hotel
onde habitávamos
em Paris
no nº 5 da Rue des Carmes
murcha viela em descida
Repousa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre em dia
de uma
feira levantada.
E talvez eu só
ainda saiba
que viveu.
Maomé Cheabe
Descendente
dos emires dos nómadas
suicida
porque não tinha já
pátria
Amou a França
e mudou de nome
Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café
E não sabia soltar
o canto
do seu abandono
Acompanhei-o
junto com a patroa do hotel
onde habitávamos
em Paris
no nº 5 da Rue des Carmes
murcha viela em descida
Repousa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre em dia
de uma
feira levantada.
E talvez eu só
ainda saiba
que viveu.
1 617
Friedrich Hölderlin
Lembrança
Sopra o nordeste,
O mais grato dos ventos:
Grato a mim porque é cálido, e aos marujos
Porque promete fácil travessia.
Eia, saúda agora
O formoso Garona
E os jardins de Bordéus
Lá coleia na íngreme ribeira
A vereda, e no rio
Se despenha o regato; mas acima
Olha o par generoso
De álamos e carvalhos.
Ainda me lembro bem e como
As largas copas curva
O olmedo sobre o moinho.
No pátio há uma figueira.
E nos dias feriados,
Pisando o chão sedoso
Passeiam mulheres morenas
No mês de março
Quanto o dia é igual à noite
E nos lentos caminhos
De áureos sonhos pejados
Sopram brisas embaladoras.
Mas estenda-me alguém,
Da escura luz repleto
O aromado copo
Para que eu possa descansar; pois doce
Seria o sono à sombra.
Também não fora bem
Privar-se de mortais
Pensamentos, que bom
É conversar; dizer
O que se sente, ouvir falar de amores,
De coisas passadas.
Porém que é dos amigos? Belarmino
E o companheiro? Muitos
Têm medo de ir à fonte.
É que a riqueza principia
No mar. Ora, eles
Reúnem como pintores
As belezas da terra e não desprezam
A alada guerra não,
Nem desdenham morar anos a fio
Sob o mastro sem folhas, onde à noite
Não há as luminárias da cidade,
Nem dança e música nativa.
Mas hoje aos Índios
Foram-se os homens,
Ali, na extremidade
Das montanhas cobertas de vinhas
Donde baixa o Dordonha,
Acaba o rio no Garona
Largo como o Oceano. Todavia
O mar toma e devolve a lembrança.
O amor também demora a olhar debalde.
O que perdura porém, fundam-no os poetas.
(Tradução de Manuel Bandeira)
O mais grato dos ventos:
Grato a mim porque é cálido, e aos marujos
Porque promete fácil travessia.
Eia, saúda agora
O formoso Garona
E os jardins de Bordéus
Lá coleia na íngreme ribeira
A vereda, e no rio
Se despenha o regato; mas acima
Olha o par generoso
De álamos e carvalhos.
Ainda me lembro bem e como
As largas copas curva
O olmedo sobre o moinho.
No pátio há uma figueira.
E nos dias feriados,
Pisando o chão sedoso
Passeiam mulheres morenas
No mês de março
Quanto o dia é igual à noite
E nos lentos caminhos
De áureos sonhos pejados
Sopram brisas embaladoras.
Mas estenda-me alguém,
Da escura luz repleto
O aromado copo
Para que eu possa descansar; pois doce
Seria o sono à sombra.
Também não fora bem
Privar-se de mortais
Pensamentos, que bom
É conversar; dizer
O que se sente, ouvir falar de amores,
De coisas passadas.
Porém que é dos amigos? Belarmino
E o companheiro? Muitos
Têm medo de ir à fonte.
É que a riqueza principia
No mar. Ora, eles
Reúnem como pintores
As belezas da terra e não desprezam
A alada guerra não,
Nem desdenham morar anos a fio
Sob o mastro sem folhas, onde à noite
Não há as luminárias da cidade,
Nem dança e música nativa.
Mas hoje aos Índios
Foram-se os homens,
Ali, na extremidade
Das montanhas cobertas de vinhas
Donde baixa o Dordonha,
Acaba o rio no Garona
Largo como o Oceano. Todavia
O mar toma e devolve a lembrança.
O amor também demora a olhar debalde.
O que perdura porém, fundam-no os poetas.
(Tradução de Manuel Bandeira)
1 260
Friedrich Hölderlin
O Arquipélago
(estrofes iniciais)
Tornam os grous de volta a ti, e buscam curso
Para tuas margens, de volta, os navios? respiram desejados
Ares em torno da maré pacificada, e ensolara o golfinho,
Atraído da profundeza, à nova luz, seu dorso?
Floresce a Jônia? é tempo? pois sempre que é primavera,
Quando aos viventes o coração renova-se e o primeiro
Amor desperta aos humanos e de tempos áureos a lembrança,
Venho a ti e te saúdo em tua quietude, Ancião!
Sempre, Poderoso, vives ainda e repousas à sombra
De tuas montanhas, como vivias; com braços de moço abraças
Ainda tua terra amável, e a de tuas filhas, Pai!
De tuas ilhas, ainda, as floridas - nenhuma está perdida.
Creta está aí, e verdeja Salamina, crepusculada de louros,
Circunflorida de raios; à hora do nascente eleva
Delos sua cabeça inspirada, e Tenos e Quios
Têm de frutos purpúreos quanto basta; de colinas bêbadas
Jorra a bebida de Chipre, e de Caláuria tombam
Ribeirões de prata, como outrora, nas velhas águas do Pai.
Vivem ainda todas elas, as mães de heróis, as ilhas,
Florindo de ano para ano, e se por vezes, do abismo
Desvencilhada, a flama da noite, a tempestade dos ínferos
Empolgou uma das belas, e essa moribunda se afundou em útero -
Oh Divino! tu aturaste - pois à flor das escuras
Profundezas, muita coisa já te nasceu e sucumbiu.
Tornam os grous de volta a ti, e buscam curso
Para tuas margens, de volta, os navios? respiram desejados
Ares em torno da maré pacificada, e ensolara o golfinho,
Atraído da profundeza, à nova luz, seu dorso?
Floresce a Jônia? é tempo? pois sempre que é primavera,
Quando aos viventes o coração renova-se e o primeiro
Amor desperta aos humanos e de tempos áureos a lembrança,
Venho a ti e te saúdo em tua quietude, Ancião!
Sempre, Poderoso, vives ainda e repousas à sombra
De tuas montanhas, como vivias; com braços de moço abraças
Ainda tua terra amável, e a de tuas filhas, Pai!
De tuas ilhas, ainda, as floridas - nenhuma está perdida.
Creta está aí, e verdeja Salamina, crepusculada de louros,
Circunflorida de raios; à hora do nascente eleva
Delos sua cabeça inspirada, e Tenos e Quios
Têm de frutos purpúreos quanto basta; de colinas bêbadas
Jorra a bebida de Chipre, e de Caláuria tombam
Ribeirões de prata, como outrora, nas velhas águas do Pai.
Vivem ainda todas elas, as mães de heróis, as ilhas,
Florindo de ano para ano, e se por vezes, do abismo
Desvencilhada, a flama da noite, a tempestade dos ínferos
Empolgou uma das belas, e essa moribunda se afundou em útero -
Oh Divino! tu aturaste - pois à flor das escuras
Profundezas, muita coisa já te nasceu e sucumbiu.
1 279
Alfred Edward Housman
WITH RUE MY HEART
De mágoa o coração me pesa
Por áureos amigos que tive,
Donzelas de lábios rosados
E moços ligeiros e esbeltos.
De rios que um salto não vence
Os moços repousam nas margens;
E estão dormindo as donzelas
Em campos que às rosas descoram.
Por áureos amigos que tive,
Donzelas de lábios rosados
E moços ligeiros e esbeltos.
De rios que um salto não vence
Os moços repousam nas margens;
E estão dormindo as donzelas
Em campos que às rosas descoram.
1 021
Konstantínos Kaváfis
CINZENTOS
CINZENTOS
Ao olhar uma opala meio cinzenta
lembrei-me de dois belos olhos cinzentos
que vi; haverá uns vinte anos...
.........................
Durante um mês amámo-nos.
Foi-se embora depois creio que para Esmirna,
para lá trabalhar, e nunca mais nos vimos.
Ter-se-ão desfeado - se vive - os olhos cinzentos;
ter-se-á estragado o belo rosto.
Memória minha, guarda-os tu tais como eram.
E, memória, o que podes deste meu amor,
o que podes traz-me de volta esta noite.
Ao olhar uma opala meio cinzenta
lembrei-me de dois belos olhos cinzentos
que vi; haverá uns vinte anos...
.........................
Durante um mês amámo-nos.
Foi-se embora depois creio que para Esmirna,
para lá trabalhar, e nunca mais nos vimos.
Ter-se-ão desfeado - se vive - os olhos cinzentos;
ter-se-á estragado o belo rosto.
Memória minha, guarda-os tu tais como eram.
E, memória, o que podes deste meu amor,
o que podes traz-me de volta esta noite.
1 654
Roy Campbell
O DOBRAR DO CABO
Rasante o sol, e pálido de chuva;
As longas vagas pardas vão lá onde
Adamastor, de seus marmóreos paços,
Ameaça os lusitanos como outrora.
Confusa no claror, eis a audaz forma,
Sombra de abismo à qual como que vamos,
Por sobre este convés, de acima da tormenta,
Abrindo em promontórios a bocarra.
Incautos, abatemos por trás dela
Florestas; sangue derramámos ímpios.
Ainda o trovão nos diz as profecias
Cumpridas em silêncio pelos séculos.
Adeus, sombra medonha! Livre sigo
Mas tu das trevas és Senhor ainda:
Vejo o fantasma mergulhar no mar
De tudo o que adorei ou detestei.
A proa sulca suave os mares submissos,
Mas onde o cabo extremo desce ao fundo,
A terra jaz escura à luz da lua,
E a Noite, a Negra, em sono murmura.
As longas vagas pardas vão lá onde
Adamastor, de seus marmóreos paços,
Ameaça os lusitanos como outrora.
Confusa no claror, eis a audaz forma,
Sombra de abismo à qual como que vamos,
Por sobre este convés, de acima da tormenta,
Abrindo em promontórios a bocarra.
Incautos, abatemos por trás dela
Florestas; sangue derramámos ímpios.
Ainda o trovão nos diz as profecias
Cumpridas em silêncio pelos séculos.
Adeus, sombra medonha! Livre sigo
Mas tu das trevas és Senhor ainda:
Vejo o fantasma mergulhar no mar
De tudo o que adorei ou detestei.
A proa sulca suave os mares submissos,
Mas onde o cabo extremo desce ao fundo,
A terra jaz escura à luz da lua,
E a Noite, a Negra, em sono murmura.
930
Ivaldo Gomes
Olha pro céu meu amor
Delba.
Você já viu a lua?
Pois é, esta ai fora,
Nua, que nem você.
Linda, muito linda.
Os raios entram pela
Fresta da janela.
Parece uma festa,
Que nem você que fica
De calcinhas e aninha as
Minhas fantasias,
Fantasminhas, da mina cabeça.
E eu aqui agarrado nesse lápis,
nesse papel, de gin tônica,
queijos e azeitonas.
Poemas atonal, atual, banal,
Que nem jornal, afinal,
É assim que eu tento ser feliz.
Brinco de ser feliz...
E por um triz, que nem chão de giz,
Riscado, desenhado nas paredes
Desse querer, e eu querendo o
Teu querer, sem querer ser muito
Exigente, inteligente...
Só um pouco.
Muito mais carnal, do que normal.
Talvez meio colegial, mas é legal
Te sentir assim.
Mas, você já viu a lua?
Pois é, tá nua, crua,
Que nem você...
E bebo o gin, assim,
Que nem você...
Os desejos sobem a cabeça,
Me imagino peregrino
Dos teus beijos.
Cigano, e não me engano,
Dos teus desejos.
Incenso na casa,
Cheiro doce de lotus ,
Intenso, e as vezes penso,
Através da luz bruxuleante dessas
Velas, que tu estás a caminho...
Aninho esse sonho, essa vontade,
E olho a lua, com olhos sisudos,
Mudos de te ver.
Você já viu a lua?
Pois é, tá na rua,
Pra todo mundo ver.
Alguns vêem... Outros não...
Então, eu penso no Pessoa...
E através do Pessoa, penso na
Pessoa de ti, que nem a lua.
É só a lua, e pronto.
Me invade, me preenche,
Enche e pronto.
Sem maiores explicações...
Não vim pra explicar.
Vim pra conquistar e
Ser conquistado.
Longe de mim ser colonizador.
A dor? Eu convivo com ela...
Vela? Não. Bela é a lua...
Bela é você.
Que vem vindo pela brecha da janela,
De cabelos soltos ao vento,
No meu pensamento, ungüento
Das minhas saudades.
Tarde? Não, é muito cedo
Pra ser infeliz.
Você já viu a lua?
Pois devia, tá linda.
Escorre no horizonte,
Qual chuva de prata.
As estrelas? Pobres das estrelas,
Nem brilham.
Também poderá...
Você e a lua juntas,
É covardia...
Tardia? Talvez, freguês
Dos teus afagos,
E o Alceu? Percebeu,
Escorre da vitrola, que nem
Lágrimas das velas.
Escorre quente, decente,
Indolente, entrementes,
Eu penso em você.
E a lua?
Tá lá ela...
Singela, donzela, e você,
É mais ela dentro de mim.
Only you!... Pois é...
Belchior na vitrola,
Controla o meu pensamento, e
Intenso eu me lembro de você.
Por quê? Ora.. "Diana, suburbana,
Suja de baton"...
Dê o tom, me suja de baton...
Eu te quero assim.
E esse poema, sem fim.
Eu acabo como?
De quimono? Não..
De quimono não.
Acabo sim, acabo!...
Acabo mesmo?
Não tenho tanta certeza.
Só a certeza dos teus afagos...
Assim fulgás, atrás dos teu carinhos.
Olha!... Olha pro céu...
Olha pro céu meu amor...
Tá vendo a lua?
Eu não... Só você.
Quer mais que isso?
Impossível.
Você já viu a lua?
Pois é, esta ai fora,
Nua, que nem você.
Linda, muito linda.
Os raios entram pela
Fresta da janela.
Parece uma festa,
Que nem você que fica
De calcinhas e aninha as
Minhas fantasias,
Fantasminhas, da mina cabeça.
E eu aqui agarrado nesse lápis,
nesse papel, de gin tônica,
queijos e azeitonas.
Poemas atonal, atual, banal,
Que nem jornal, afinal,
É assim que eu tento ser feliz.
Brinco de ser feliz...
E por um triz, que nem chão de giz,
Riscado, desenhado nas paredes
Desse querer, e eu querendo o
Teu querer, sem querer ser muito
Exigente, inteligente...
Só um pouco.
Muito mais carnal, do que normal.
Talvez meio colegial, mas é legal
Te sentir assim.
Mas, você já viu a lua?
Pois é, tá nua, crua,
Que nem você...
E bebo o gin, assim,
Que nem você...
Os desejos sobem a cabeça,
Me imagino peregrino
Dos teus beijos.
Cigano, e não me engano,
Dos teus desejos.
Incenso na casa,
Cheiro doce de lotus ,
Intenso, e as vezes penso,
Através da luz bruxuleante dessas
Velas, que tu estás a caminho...
Aninho esse sonho, essa vontade,
E olho a lua, com olhos sisudos,
Mudos de te ver.
Você já viu a lua?
Pois é, tá na rua,
Pra todo mundo ver.
Alguns vêem... Outros não...
Então, eu penso no Pessoa...
E através do Pessoa, penso na
Pessoa de ti, que nem a lua.
É só a lua, e pronto.
Me invade, me preenche,
Enche e pronto.
Sem maiores explicações...
Não vim pra explicar.
Vim pra conquistar e
Ser conquistado.
Longe de mim ser colonizador.
A dor? Eu convivo com ela...
Vela? Não. Bela é a lua...
Bela é você.
Que vem vindo pela brecha da janela,
De cabelos soltos ao vento,
No meu pensamento, ungüento
Das minhas saudades.
Tarde? Não, é muito cedo
Pra ser infeliz.
Você já viu a lua?
Pois devia, tá linda.
Escorre no horizonte,
Qual chuva de prata.
As estrelas? Pobres das estrelas,
Nem brilham.
Também poderá...
Você e a lua juntas,
É covardia...
Tardia? Talvez, freguês
Dos teus afagos,
E o Alceu? Percebeu,
Escorre da vitrola, que nem
Lágrimas das velas.
Escorre quente, decente,
Indolente, entrementes,
Eu penso em você.
E a lua?
Tá lá ela...
Singela, donzela, e você,
É mais ela dentro de mim.
Only you!... Pois é...
Belchior na vitrola,
Controla o meu pensamento, e
Intenso eu me lembro de você.
Por quê? Ora.. "Diana, suburbana,
Suja de baton"...
Dê o tom, me suja de baton...
Eu te quero assim.
E esse poema, sem fim.
Eu acabo como?
De quimono? Não..
De quimono não.
Acabo sim, acabo!...
Acabo mesmo?
Não tenho tanta certeza.
Só a certeza dos teus afagos...
Assim fulgás, atrás dos teu carinhos.
Olha!... Olha pro céu...
Olha pro céu meu amor...
Tá vendo a lua?
Eu não... Só você.
Quer mais que isso?
Impossível.
1 266
Anónimo Francês do Século IX
A MORTE DE ROLANDO
À sombra de um pinheiro, estende-se Rolando,
E volta para Espanha a sua face.
Muitas coisas começa a recordar:
As terras que, barão, tem conquistado,
A doce França, os seus iguais no sangue,
O Imperador, que proteção lhe deu,
Os franceses, dos quais é tanto amado.
E contra o seu querer, chora e suspira;
De si, porém, deseja se lembrar:
Bate no peito e pede a Deus perdão:
Ó verdadeiro Pai, que nunca mentes,
Que Lázaro da morte libertaste
E, dos leões, salvaste Daniel,
A minha alma preserva do perigo,
Pelos pecados que na vida fiz!
A Deus entrega a luva da direita,
São Gabriel a toma em sua mão.
A cabeça, no braço, reclinando,
De mãos postas, chegou ao fim da vida.
lhe envia Deus seu anjo querubim
E São Miguel-Arcanjo-do-Perigo;
Juntamente com ele vem Gabriel
E a alma do conde levam para o céu.
E volta para Espanha a sua face.
Muitas coisas começa a recordar:
As terras que, barão, tem conquistado,
A doce França, os seus iguais no sangue,
O Imperador, que proteção lhe deu,
Os franceses, dos quais é tanto amado.
E contra o seu querer, chora e suspira;
De si, porém, deseja se lembrar:
Bate no peito e pede a Deus perdão:
Ó verdadeiro Pai, que nunca mentes,
Que Lázaro da morte libertaste
E, dos leões, salvaste Daniel,
A minha alma preserva do perigo,
Pelos pecados que na vida fiz!
A Deus entrega a luva da direita,
São Gabriel a toma em sua mão.
A cabeça, no braço, reclinando,
De mãos postas, chegou ao fim da vida.
lhe envia Deus seu anjo querubim
E São Miguel-Arcanjo-do-Perigo;
Juntamente com ele vem Gabriel
E a alma do conde levam para o céu.
933
Paulo Montalverne
Dança
Eu me lembro de teu corpo
Esgueirando-se sensual
Pela gula de meu olhar.
No compasso rítmico,
Sibilando,
Trazendo para mim
Tua arte feita de carne.
Degusto na memória,
Ansioso,
O arfar de teus seios
E o suor de tua face.
Que gozo escondia teu sorriso?
Esgueirando-se sensual
Pela gula de meu olhar.
No compasso rítmico,
Sibilando,
Trazendo para mim
Tua arte feita de carne.
Degusto na memória,
Ansioso,
O arfar de teus seios
E o suor de tua face.
Que gozo escondia teu sorriso?
925
José Miguel Alves
Pus o mar
pus
o
mar
no
teu ouvido
e jurei
palavras
vazadas
como aquelas
que juraste em gozo
na noite
do primeiro encontro.
o
mar
no
teu ouvido
e jurei
palavras
vazadas
como aquelas
que juraste em gozo
na noite
do primeiro encontro.
945
Maria Teresa Horta
Anjos da memória – V
Os anjos alados
da memória
com as suas asas
de pérgula
e medronho
a voarem noite dentro,
pelo sonho
Serás de branco
despojada de tudo
à cabeceira
por detrás do meu ombro
anjo mudo
Serás de branco
despojada de tudo,
asas supostas
de ti
à minha beira
O pássaro cintilante
da tua nudez
(uma matriz calada)
Da tua nudez
Com os teus seios
de anjo
sob as asas
A tomares conta
da memória
És um passaro – digo
És um pássaro
com penas
cintilantes
dos teus olhos
As tuas asas
de pétalas
tecidas com a luz
das penas
das asas que te crescem
Poisar um pouco
nos parapeitos
da memória
antes de recomeçar
o voo
de regresso a casa
Com as nossas asas
lúcidas:
translúcidas e pálidas
Deixa-me voar
por cima do teu
colo
até ir poisar
na tua alma
É a memória,
dos teus dedos pisados
nas asas dos meus ombros
Entrelaçados
Enlaçados
Como entranças
os sonhos
As tuas asas de prata
que atravessam a voar
o território
brando
das minhas lágrimas
Este
é o inconsciente
dos teus olhos
de águas postas – de águas sobrepostas
– rente
à meiga – à mansíssima
racha
do teu ventre
Em voo raso
perto da sua boca:
A ouvir a memória...
Há um ruido de
asas
que te é próximo
um odor a flor,
a framboeza
um sabor a leite
e a morango
numa uterina luz de penumbra acesa
Um pouco acima
dos teus olhos,
como um pássaro
a voar por dentro,
bem por dentro
do interior dos lábios...
do corpo
A parte que é
anjo
do teu corpo
e me procura a meio
da madrugada
Sobrevoando o lago
que é suposto
ser no meu sono
aquilo que calava
A parte que é
anjo
do teu corpo
e me visita
a meio da madrugada
descansando as asas
dos teus ombros,
a meu lado:
em cima da almofada
Voava,
com a memória
das asas
no sentido inverso
do silêncio
e do sono
Oiço atrás de mim,
o breve respirar
das tuas asas
– quase imperceptivel –
Um ligeiro arfar
Como a brisa a passar
por entre as casas
da memória
com as suas asas
de pérgula
e medronho
a voarem noite dentro,
pelo sonho
Serás de branco
despojada de tudo
à cabeceira
por detrás do meu ombro
anjo mudo
Serás de branco
despojada de tudo,
asas supostas
de ti
à minha beira
O pássaro cintilante
da tua nudez
(uma matriz calada)
Da tua nudez
Com os teus seios
de anjo
sob as asas
A tomares conta
da memória
És um passaro – digo
És um pássaro
com penas
cintilantes
dos teus olhos
As tuas asas
de pétalas
tecidas com a luz
das penas
das asas que te crescem
Poisar um pouco
nos parapeitos
da memória
antes de recomeçar
o voo
de regresso a casa
Com as nossas asas
lúcidas:
translúcidas e pálidas
Deixa-me voar
por cima do teu
colo
até ir poisar
na tua alma
É a memória,
dos teus dedos pisados
nas asas dos meus ombros
Entrelaçados
Enlaçados
Como entranças
os sonhos
As tuas asas de prata
que atravessam a voar
o território
brando
das minhas lágrimas
Este
é o inconsciente
dos teus olhos
de águas postas – de águas sobrepostas
– rente
à meiga – à mansíssima
racha
do teu ventre
Em voo raso
perto da sua boca:
A ouvir a memória...
Há um ruido de
asas
que te é próximo
um odor a flor,
a framboeza
um sabor a leite
e a morango
numa uterina luz de penumbra acesa
Um pouco acima
dos teus olhos,
como um pássaro
a voar por dentro,
bem por dentro
do interior dos lábios...
do corpo
A parte que é
anjo
do teu corpo
e me procura a meio
da madrugada
Sobrevoando o lago
que é suposto
ser no meu sono
aquilo que calava
A parte que é
anjo
do teu corpo
e me visita
a meio da madrugada
descansando as asas
dos teus ombros,
a meu lado:
em cima da almofada
Voava,
com a memória
das asas
no sentido inverso
do silêncio
e do sono
Oiço atrás de mim,
o breve respirar
das tuas asas
– quase imperceptivel –
Um ligeiro arfar
Como a brisa a passar
por entre as casas
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Carlos Alberto Pessoa Rosa
Maçã-do-amor
abrir pétalas com
a língua
explorar
seus cheiros e sabores
levar seu néctar
para além desse momento
para colmeias
perdidas no inconsciente
nos momentos em que
nada valer a pena
ou quando você não estiver
mais presente
minha língua
lamberá a lembrança
como lambemos aquela
maçã-do-amor
lembra-se?
a língua
explorar
seus cheiros e sabores
levar seu néctar
para além desse momento
para colmeias
perdidas no inconsciente
nos momentos em que
nada valer a pena
ou quando você não estiver
mais presente
minha língua
lamberá a lembrança
como lambemos aquela
maçã-do-amor
lembra-se?
1 060
Gilka Machado
Saudades
De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?
De quem é esta saudade,
de quem?
Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...
E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...
De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?
De quem é esta saudade,
de quem?
Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...
E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...
De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?
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