Poemas neste tema
Passado e Futuro
Castro Alves
O Sol e o Povo
Le peuple a sa colére et le volcan sa lave.
V. Hugo
Ya desatado
El horrendo huracán silba contigo
¿ Qué muralla, qué abrigo
Bastaran contra ti?
M. Quintana
O sol, do espaço Briaréu gigante,
P’ra escalar a montanha do infinito,
Banha em sangue as campinas do levante.
Então em meio dos Saarás — o Egito
Humilde curva a fronte e um grito errante
Vai despertar a Esfinge de granito.
O povo é como o sol! Da treva escura
Rompe um dia co’a destra iluminada,
Como o Lázaro, estala a sepultura!...
Oh! temei-vos da turba esfarrapada,
Que salva o berço à geração futura,
Que vinga a campa à geração passada.
V. Hugo
Ya desatado
El horrendo huracán silba contigo
¿ Qué muralla, qué abrigo
Bastaran contra ti?
M. Quintana
O sol, do espaço Briaréu gigante,
P’ra escalar a montanha do infinito,
Banha em sangue as campinas do levante.
Então em meio dos Saarás — o Egito
Humilde curva a fronte e um grito errante
Vai despertar a Esfinge de granito.
O povo é como o sol! Da treva escura
Rompe um dia co’a destra iluminada,
Como o Lázaro, estala a sepultura!...
Oh! temei-vos da turba esfarrapada,
Que salva o berço à geração futura,
Que vinga a campa à geração passada.
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3
Alexandre O'Neill
Entre a
cortina e a vidraça
Vem o tempo de varejeira
entre a cortina e a vidrça.
O tempo assim à minha beira!
Que é que se passa?
E eu,que estava tão enredado
nos baraços do eternamente,
nos lacetes do já passado,
sou esfregado contra o presente.
A varejeira é nacional.
Terei,assim,de preferi-la?
Ora!É a mosca-jornal
-e já agora vou ouvi-la...
Vem o tempo de varejeira
entre a cortina e a vidrça.
O tempo assim à minha beira!
Que é que se passa?
E eu,que estava tão enredado
nos baraços do eternamente,
nos lacetes do já passado,
sou esfregado contra o presente.
A varejeira é nacional.
Terei,assim,de preferi-la?
Ora!É a mosca-jornal
-e já agora vou ouvi-la...
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3
Paulo Leminski
Asas e azares
Voar com a asa ferida?
Abram alas quando eu falo.
Que mais foi que fiz na vida?
Fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde. Voar, isso não doi.
Abram alas quando eu falo.
Que mais foi que fiz na vida?
Fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde. Voar, isso não doi.
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3
Antero de Quental
A um poeta
Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,
Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afuguentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...
Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!
Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,
Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afuguentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...
Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!
Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!
6 097
3
Fernando Pessoa
VI. OS COLOMBOS
Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.
Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.
Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.
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3
Fernando Pessoa
ADIAMENTO
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada: hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...
14/04/1928 (publicado na Solução Editora, nº 1)
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada: hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...
14/04/1928 (publicado na Solução Editora, nº 1)
3 074
3
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Jardim E a Casa
Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.
4 241
2
Gonçalo Anes Bandarra
Trovas Inéditas do Bandarra
Trovas
Inedìtas de Bandarra
Natural da Villa de Francoza.
* * * * *
Que exestião em poder de Pacheco Comtemporaneo de Bandarra e que
se lhe achàrão depois de sua morte.
* * * * *
Londres.
MDCCCXV.
Introduçaõ.
Com grande satisfação recebérão, todos os Portuguezes, assas Cinceros,
e prudentes, as trovas de Gonçallo Annes Bandarra, impressas em Barcellona
em 1809 sobre a edìção de Nantes de 1644. Juntandose, a esta edição
outras, trovas que nunca se tinhão impreço pella defficuldade que havia
de se naõ acharem.
Ficando porem ainda o ardente dezejo em muitas pessoas de verem
impresso o resto (de que havia notìcia de sua existencia) de todas as
trovas de Bandarra; porquè como este hia profetizando, em diverços tempos
durante a sua vida; igualmente por este motivo, apareciao em diverços
tempos, e lugares, e em poder de algumas pessoas, como se vio (por exemplo)
na edição de Nantes de 1644 naõ se ímpremírão senão, aquellas trovas, por
que não aparecerão as que se impremirão, em Barcelona em 1809 (que fazem a
2ª e 3ª parte desta obra) as quaes são, as que se achárão em poder do
Cardeal Nuno da Cunha, e as que tinha o Comissário do Santo officio
Domingos Furtado de Mendonça: e agora depois que se fez a edição acima
ditta de 1809, se acharão na livraria do Ex^mo Sñr........ (omito o seo
nome por motivos particulares) em manuscrito muito antigo! todas as
profecias de Bandarra, não só as que se achão jà impressas, nas duas
ediçoens que jà dicemos, mas tãobem as trovas de que havia noticia, que
tinhão ficàdo em poder de Pacheco, amigo, e comtemporaneo de Bandarra, que
mereceo a este tanto conceito, que foi digno de responder aquelle às
perguntas que lhe fazia, cujas respostas que Bandarra fez a Pacheco são as
que se achão na edição de Barcelona de 1809 desde paginas 60, até, 66, e
como esta obra estava imcompleta, e pella sua natureza merece muita
reflexão a todas as pessoas discretas e assas prudentes; a rogos destes
pois hé que me determinei a mandar impremir, as trovas que o dito Pacheco
tinha em seo poder, ficando desta sorte completa a edição desta obra toda,
de que hà noticia que Bandarra profetizou, assim como tãobem, completos os
ardentes dezejos de todos os Portuguezes Fieis, Cinceros, e Honrados, como
eu que me prézo de ser hum.--
Leal Portuguez.
Quarta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Os tempos com crueldade
Começar-se hão a mover,
Se me não engana a verdade
Ali perderão seo ser
No meio de certa idade.
2.
Virà gozando de paz
Aquelle pastor valente,
Hum lobo que guerra faz
Moverà toda a gente
Com huma limgua sagaz.
3.
Logo nas mãos o pastor
Seu cajado tomarà,
Sem mostrar nenhum temor
Contra os lobos que achará
Revestidos de rigor.
4.
Nelles farà tal destroço
Que serà couza de espanto,
Como bravo Touro em cosso
Logo perde tudo quanto
Tinha como pastor moço.
5.
Jà vejo que se desterra
Este pastor sem ventura,
Da patria rebanho, e terra
A huma larga Sepultura
De huma frondoza serra.
6.
O manço gàdo que em páz
Pella ribeira regia,
Jà desgovernàdo traz
Triste sò sem companhia,
Que hum mào concelho faz.
7.
E logo outro pastor
Do pouco gado que achár,
Serà absoluto Senhor,
E serà em quanto durar
A fortuna, e seo rigor.
8.
Serà pastor estrangeiro
O que reja o manço gado
Que taõ bravo foi primeiro
Mas ai que falta o malhado
Que era o principal Carneiro.
9.
De pois que por tempo largo
Este pastor governar
A este rebanho amargo,
Outra vez hà de tornar
A ter o que tinha o cargo.
10.
Haverà novos sinaes
Da parte deste pastor,
Thé os mesmos anímaes
Por seu natural Senhor
Darão suspiros, e ais.
11.
Tornarà a quebràda linha
No Cábo de serta idade,
A encher-se como pinha,
E descubrirà a verdade
Do que encuberto tinha.
12.
Sem pena que damno faça
Tornarà pella ribeira
Pastar o gado na praça,
Por ultima, e derradeira
Dos fados Supréma traça.
13.
Tornarei a recolher
Esta ovelha perdida
A patria que lhe deu ser,
E porei por ella a vida
Sem nunca desfalecer.
14.
Entaõ não me mudarei
Pois conheceis que sou vosso,
Minha ovelha estimarei
Pois de outro modo naõ posso
Alma, e vida lhe darei.
15.
Haverà em triste Cidade
Grande fome peste, e guerra,
Que a Escritura a não erra
Que em tudo falla verdade,
16.
De longas terras virão
Dois Leoens mui asanhádos
Hum de Cruz, e outro não
Vingarão males paçados.
17.
Serão à força da espada
Destruidas mil provincias,
Na Luzitania assollada
Terão fim roubos, e malicias.
18.
Na era de quarenta, é hum
De Janeiro por diante,
Darà fio ao seo montante
Aparelhece cada hum.
19.
O nosso Christianismo
Nossa grande Obrigação,
Não temos mais de Christão,
Do que o nome do Baptismo.
20.
Fazemos dos dias noites
Vivendo como agrestes,
Haverà castigo, e açoutes
Cada qual se faça prestes.
21.
Espantozos movimentos
Havemos cedo dever,
E antes de muitos tempos
Ha de isto de acontecer.
22.
Não haverà em Hespanha
Lugar preveligiado,
Tudo serà assollado
Dessa gente de Alemanha.
23.
Todos os lugares planos
Por terra serão prostrados,
Muitos males, muitos damnos
Haverà pellos peceádos.
24.
As Serras se habitarão
E os Oiteiros mais altos,
Muitas Gentes sahirão
Outros andarão em Saltos.
25.
Andarão como pasmados
Chorando pellos caminhos,
De suas terras lançados
De parentes, e vesinhos.
26.
Então não haverà amigos
Nem pay que por filho seja,
O mais seguro abrigo
Serà acolherse à Igreja.
27.
Nesses tempos os meninos
Ainda que innocentes,
Terão tãobem accidentes
Muito fora dos Caminhos.
28.
Haverà peregrinaçoens
Mortes sem conto de dura,
Males fogos devisoens
Só Deos lhe póde dar cura.
29.
Ha de ser Rey quem fôr
Que em Deos está o saber
O bom, o São, o melhor
Só elle o há de escolher.
30.
Por particular enteresse
Tem chegado o mundo a tanto,
Triste do que lhe parece
Que háde bastar falçomanto.
31.
Os póvos hão de alintar
As culpas dos seos Monarchas,
Que sem nenhum estudar
São Letràdos, e Patriarchas.
32.
Nos Ceos haverà sinaes
Na Terra não faltarão,
Tormentos pennas, e ais
Que aos Ceos penetrarão.
33.
E depois do Leão morto
Não sem falta de mistério,
Aportarà neste porto
Outro com maior Império.
34.
Entrarà com companheiro
Na terra dos Luzitannos,
Cada qual bom Cavalleiro
Destruirão os Arriannos.
35.
Tempos traz tempos virão
Que os Grandes serão baixàdos
Os pequennos exaltádos
Povo, e Rey governarão.
36.
E depois de tantos males
Fomes, pestes devisoens,
Cheios os montes, e Valles
De tristes peregrinaçõens.
37.
Tornarà o Redemptor
A olhar por seo rebanho,
E tello ha com muito amanho
Como bom Rey e Senhor.
38.
Escaparà pouca gente
De tão perigoza dança,
Virà tempo de bonança
Quem viver serà contente.
39.
Vejo vir grandes baleias
Pella costa de Biscaya
Gaia gaia da vezinha praya
Que lhe tingem as areias.
40.
Eis là contra a Norúega
Raios, Cavallos, Golfinhos,
Com que preça que navega
Tanta Cópia de Marinhos.
41.
Vejo milhoens de Relampagos
Trovoens que rompem os ceos
Nuvems de mui grandes véos
Coriscos grandes expantos.
42.
Que mancebo tão formozo
Dà Luz a todo o Emisfério,
Rosto mui digno de Império
Forte, fero, e graciozo.
43.
Iá por força toma a Seora
Cercàdo de Leoens bravos,
Oh que unhas dentes quebrádos
Teme, e treme toda a terra.
44.
Mil rapozas vão dìante
Buscando grutas, e côvàs,
A Lebres, Coelhos dão novas
Que fujão de tal semblante.
45.
Descançame a vista vendo
Hirse o tempo já chegando,
E estarse a Alma alegrando
Com o que vejo, e entendo.
46.
Venha embora o Leão forte
De tantos accompanhádo,
Que affirmão, e tem jurado
Que em que lhe custe a morte
O hão de ver coroado.
47.
Que grandes arribaçoens
São Atums, ou são Sardinhos,
Maiores são que Barquinhas
São Náos, boms Galioens.
48.
Parece que seo caminho
Hé direito a Portugal
Ai se eu mal não advinho
Não vão carregar de Sal.
49.
Que rostos, corpos, e armas,
Quanto fogo, e quanto asso,
No rosto gente do Passo
E Soldados nas Bisarmas.
50.
Ora quero-lhe dizer
Esta cà occupàda a Terra,
Mas poderão responder
Se hé gente de paz, ou guerra.
51.
Hé gente que em si encerra
E aquillo que diz não faz,
Diz guerra, ordena páz
Pergoa paz, e faz guerra.
52.
O Seo Rey quer ser Monarcha
E toda a Terra pertende,
Tudo abrange, e tudo abarca
E do díreito não pende.
53.
Vinde cà Rey Soberanno
Quero vos dezenganar,
Lembro-vos que sois humanno
E que tudo hade acabar.
54.
E que na postreira hora
Quando o mal jà estìver feito,
E não possa ser desfeito
Treme olma, e em vão chora.
55.
Lembre vos o que aconteceo
A Tholedo com o pay
Que já cada hum là vay
E não sei qual pa o ceo.
56.
Quereis vòs a Portugal
Sendo elle nome macho
Ajuda mal por que lhe acho
Muita fémea, e pouco Sal.
57.
Se quizerdes por direito
Deixarse há elle torcer,
Mas forçado hé máo geito
Para se deixar vencer.
58.
Vejo vosso damno perto
Hireis perdendo o reynádo
E tão bem tende por certo
Morrerdes desconsolado
59.
Luzitanna hé chamáda
A Dama que dezejaés,
Ella hé dantes despozada
Perseguilla hé por demais
60.
Ainda que em caza tem
De Ulices tantos povos,
Hir-se hão como os porcos
Ante o Leão que vem.
61.
Esta profecìa hè bella
Mui certa e verdadeira,
Quem tiver boa terceira
Gozarà a Sabia Donzella.
Fim da quarta parte.
Quinta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Quando de noite me ponho
A dormir sem me benzer,
Tudo o que háde açuceder
Se me representa em Sonho.
2.
Sempre mandei escrever
Aquillo que me lembrou,
Porque a memoria a postou
De tudo se esquecer.
3.
Nas Trovas que tinha feito
Muito hà que conciderar,
Como o seo tempo chegar
Se vera o meo conceito.
4.
Sempre por thezoiras faço
As minhas contas mui certas,
Portas que hão de estar abertas
Não são boas para o paço.
5.
Eu naõ sou Profeta inteiro
E menos na minha terra,
Mas vejo vir pella Serra
Atraz de hum Lobo hum Cordeiro.
6.
O Sol pello meio dia
Faz o effeito de Geada,
Vejo partir huma armada
Carregáda de agua fria.
7.
Huma grande tempestade
Com o céo muiclaro, e Serenno,
Farà hum hommem moreno
Com rezão mas sem piedade.
8.
A minha trepeça tem
Trez péz mui bem seguros,
Vejo fabricar hums muros
Mas eu naõ sei para quem.
9.
Quem muitos annos durar
Hade ver couzas indignas.
Tocar-se haõ muitas bozinas
Por hommems peixes do már.
10.
Todo o mundo grita, e berra
Cada qual no seo officio,
Pois antes que hum beneficio,
Querem, peste, fome, e guerra.
11.
Quando furo com a Suvella
Coiro groço, e Macio,
Vejo prender no Rocio
Quaze toda a parentella.
12.
Eu tenho medo da morte
Como couza superior,
O Presbitero maior
Naõ háde tornar à Corte.
13.
Annos hãode vir à terra
Em que por nossos peccados,
Nas cazas fiquem os gados
As gentes vivaõ na Serra.
14.
Sempre como os meos feijoens
Quando vem bem temperados,
Vejo no templo os Copados
No Cural os Cappellaens.
15.
Sou Sapateiro, mas Nobre
Com mui pouco Cabedal,
E tu triste Portugal
Quando mais rico, mais pobre.
16.
O (A) que ponho às avessas
Com a perna atraz levantáda,
Hàde ter a mão armàda
Para degollar Cabeças.
17.
Quando a terra dos Falcoens
Certa erva produzir,
Creio se hàde conceguir
O deitar fóra as Lezoens.
18.
De hum brazeiro mui acezo
Damdolhe o vento ligeiro,
Se hàde formar hum pinheiro
Sem ter medida, nem pezo.
19.
O Carro que vai chiando
Por hir muito carregàdo,
Sim mostra o jugo pezado
Mas naõ tira pezo andando.
20.
A Hortela na Panella
Dizem que lhe dà bom gosto,
Essa mulher de bom rosto
Naõ ouço rusnar bem della.
21.
Hespanha muito medroza
A Europa muito enfadada,
Huma mulher de almofada
Sabe como huma rapoza.
22.
As linhas com que cozia
Jà naõ como as de agora,
Temo que se deite fóra
Quem Souber a Ave Maria.
23.
Na era que eu tenho ditto
Nas Thezoiras levantadas,
Se haõde ver muitas jornàdas
Á custa do Saõ Benito.
24.
Naõ pode haver couza boa
Aonde Habita o mal Francez,
Temo o polho Portuguez
Em poder de huma Leoa.
25.
Quando o Leaõ Hispanhol
Vier quase a Portugal,
Háde ser o nosso mal
Querer luzir como o Sol.
26.
Quando a neve como braza
Todas as plantas queimar,
Dous quintos se haõ de ajuntar
Sem haver jogo na caza.
27.
Em hum lugar mais ameno
Cercados de mares groços,
Vive por peccados nossos
Quem se sustenta com feno.
28.
Sempre vem de monte, a monte
As agoas das enxorradas,
E vejo testas coroadas
Sentadas sobre huma ponte.
29.
Quando tiverem por certo
Perdida toda a esperança,
Portugal terá bonança
Na vinda do Encuberto.
30.
Vejo vir pello mar largo
Como quem vem para dentro,
Hum hommem buscar seo centro
Depois de hum grande lethargo.
31.
Quando me matar S. Jorge
E Marcos me reçuscitar,
Saõ Joaõ me exaltar
Faça todo o mundo alforge.
32.
Os pez da minha trepéça
Conta trez vezes areio,
Ajuntalhe dous, e meio
Dizelhe que apareça.
33.
Naõ podeis fazer queixume
De deixar o vosso lár,
Que se do norte ventar
Do Sul vos virà o lume.
34.
Vejo a grifa parideira
Juntada com huma Serpente,
E vejo que muita gente
Tem disto grande canceira.
35.
Vejo o Leão, e a Serpente
Atraz da gente goleima,
Grita o gallo que ateima
Com o Lobo que tem diante.
36.
Já vejo grande mofina
No porqueiro de Sequem,
Que o gado todo está bem
Com o Ovilheiro de Dina.
37.
Vejo a Lua ensanguentada
Pella virtude do Encuberto,
Se està longe, ou se perto
Assim o diz a toada.
38.
Là vem por sima do már
Hum Cavallo de madeira,
Que farà n'huma poeira
O porco que hàde grunhar.
39.
Vijo pedras ajuntar
Là muito perto da Lua
Vejo subir de huma, e huma
E nellas o Sol entrar.
40.
Vejo pello meo Telhado
No Ceo grande resplendor,
Se hé alegria, ou temer
Esdras o tem declarádo.
41.
Vejo o Almocreve tomar
As Alamanhas antigas,
Vejo nascer das ortigas
A remente là do mar
42.
Là donde o Sol vem nascendo
Hum Dragaõ vejo vir vindo,
A seo Cabo vem correndo
Mais bichos que o vem seguindo.
43.
O primeiro depois do quinto
Filho d'Aguia levantada,
Hade estender sua Espàda
Sobre a Galia faminto.
44.
Vejo sahir as Gaivotas
De dentro do nosso Tejo,
Taõbem parece que vejo
As duas por ellas rotas.
45.
Sonho que rebentaõ fontes
Da terra da Promiçaõ,
E que os Gallos de Siaõ
Vaõ fugindo até os montes.
46.
Naõ canta o Gallo com penna
As aguias charão mofina,
A serpente encrespa a clina
Porque Deos assim o ordenna.
47.
Faremos dos dias noites
Vivendo como agrestes,
Haverà castigo, e açoutes
Cada hum se faça prestes.
Fim da quinta parte.
Sexta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Sonhei que via hum fumo,
Com grande força sahir,
E deixando de Subir,
Hum altar vi no escuro:
Formava taõ forte muro.
Que estava o Altar cuberto;
Vi a hostia naõ mui perto,
Do tal Altar arredada:
Huma cára sublimáda,
Em ella vi por mais certo.
2.
Pareceme que crescia,
Quem assim o figurava:
Taõbem sonhei me pegava,
Quem mulher me parecia:
E que com voz me dezia,
Anda ver a terra nova,
Pella maõ levou-me à cova,
Levava bello vestido,
Aí nuvems eu fui subido,
Onde vi a gente toda.
3.
Negra, e amolatáda,
Logo à terra baldeando,
A respiraçaõ faltando
Eu daqui já naõ quis nada,
Para a terra de pancada
Me trouxe a tal mulher,
Athé alcancei dizer
Vou segunda vez à terra,
Logo vinha resta era
E tornava a aparecer.
4.
Parecia a meo ver
Nova Igreja figurada,
Por hereges desterráda,
Na quella terra a tremer,
Quem Herege quizer ser
Ficarà negro, ou molato,
E terà todo o máo trato
Por fugir da boa Ley,
No Inferno sua grey
Para tràz darà o Salto.
5.
Taõbem sonhei que a nuvem
Cobria a gram redondeza,
Mui medonha, e espeça
Taõbem raios que destroem,
A quem a falça Ley tem,
E depois vi aclarar
Com hum claraõ singular,
Em dia de huma Senhora
Em fe seguinte boa hora
Seu nascimento sempár.
6.
Em sonhos vi grande armáda
E a Lua, em rosso Tejo,
Ficandolhe o Sol por baixo
De huma Torre armáda,
Moiros tiveraõ entráda
Pella terra de christaõs,
Na Igreja vi estes máos
Hum exercito Francez,
Taõbem entrou desta vez
Accompanhádo dos Máos.
7.
Pella terra veio entrando
Athé se perder de vista,
Com grande préça, e cobiça
Toda a vinhaõ derrotando,
Taõbem os Moiros chegando
Com grande astucia, e préça,
Vinhaõ buscando a Cabeça
A numa Cidade Real
Pouco cuida Portugal,
Em o mal que lhe aconteça.
8.
Parece que estou ouvindo
Nesse mar a gran tormenta
Antes que chegue os Setenta,
Caxas, Ballas, barberinhos
Entaõ hé que virà vindo
O Grande pastor Geral,
Acudir a taõ graõ mal,
Dando às Ovelhas sustento
E taõbem o Sacramento
Viva o nosso Portugal.
9.
Poucos tempos paçaraõ
Segundo as Profecias,
Em os Sinaes destes dias
Outros que cedo viraõ
Huma Gran tribulaçaõ,
Mas ao depois verà
A volta que tudo dà,
Chegando logo a vencer
No mundo todo o poder
Na Igreja ficarà.
10.
Em todas reste tuida
Com maior veneraçaõ,
Só nella tem o Christaõ,
Gloria na eterna vida
Mas ai que a vejo cahida
Que primeiro vem chegando
Os boms largando o mundo,
Outros morrendo à preça
Outros perdem a Cabeça,
Muitos disso vão folgando.
11.
Tanto Sangue pello campo
E tanto morrer na rua,
Tantos deixaõ vida sua
Por guardar o nome Santo,
Nem da mulher o manto
Terà respeito ou favor,
Jà nenhum lhe tem amor
A essa profanna vaidade,
Quando virem a Cidade
Posta no maior horror.
12.
Jà de França serà farto
Quem à França quiz andar
Nunca mais andem trajar,
Tomàra naõ ter o fato:
Paga o povo por ingrato
O desprezo que tem feito,
Da Patria do minho aceito
Dando rédias ao profanno
Teraõ o seo desenganno,
Com o Vestir mais perfeito.
13.
Com Sangue, Boubo, e Deshonra
Com mortes, e Vitupérios,
Fomes doenças, e Guerras,
Querendo acabar a terra
Com mui grande alarido,
Todos ficaraõ com sentido
Com o mal naõ esperado
Serà prezo o Diabo
Porque entaõ tudo hé acabádo
E o morto serà vivo.
14.
Era taõbem logo chega
Que a todos de asento,
Serà fim este tormento,
Quem com bonança navéga
Entaõ armáda mais féra,
Livranos do Inemigo,
Com bom valor, e abrigo
O Beato Saõ Joaõ
Em seo dia nos dà a maõ,
E o Incoberto vivo.
15.
Quem destruir os do Norte
E os Moiros deitar fora,
Matandolhe a gente toda
Em Cacilhas forà côrte
Lá vereis o estandarte
Com as quinas aconado
E emtaõ vereis mostràdo
Em sima o bom Jezus,
E taõbem a Santa Cruz
Para vencer o Diabo.
16.
Veremos o mar vermelho
Sem hir a Jerusalem,
A qui veraõ os que tem
Tomádo o meo concelho,
Em si proprio o espelho,
Muito Sangue em si correndo
Mas quem fôr obedecendo,
Passarà sobre o mar
Sem que precize nadar,
Verà o maior portento.
17.
Em Cassilhas a Bandeira
Com estandarte Real,
Logo Hereges por seo mal,
A morte tem de Carreira
Terà este na Simeira
Hum Christo crucificádo,
Verà o povo malvado
O quaõ cego tem vivido,
Em terem perceguido
E a muitos marterizádo.
18.
O Moiro, Turco, Francez
Naõ poderaõ fugir todos,
Porque muitos seraõ mortos
As maõs do bom portuguez,
Là levarão desta vez
Novas aos seus que contar,
Quando virem em Portugal
O Encuberto declarado,
Castigando todo o estrago
Que elles vieraõ cauzar.
19.
Nenhum remedio lhe sinto
O Naõ vireá melhor fôra,
Venha sem em boa hora
Quem ao lobo faminto,
Lhe ponha em sangue tinto
Por essas ruàs no chaõ,
Bandeiras em confucaõ
Flores, Barretes, e Capas
Deste bom Rey nada escapa,
Viva o Graõ Sebastaõ.
20.
Sonhei que via vencer
As quatro partes do mundo,
E que Portugal a tudo
Hia dando que fazer,
E taõbem fazendo e ver
O Evangelho, e a Cruz
Ao povo falto de luz,
Sacramento eterno dia
Taobem a Virgem Maria
Todos com o bom Jezus.
21.
Sonhei que o Sacramento
Em todo o mundo em redondo,
Já das almas serà dono
Isto maior portento,
Taõbem graõ contentamento,
Em ver os Reys me cauzou
Que na geraçaõ dotou,
Lá de Affonço o primeiro
Thé trinta o derradeiro,
Onde o primeiro acabou.
22.
Por humgrande oppozitor
Depois da linha acabada,
Este farà derrotada,
A Igreja com horror,
Á besta mete pavor
Em trez, e meio de dura
Tanta gente à Sepultura,
O Martir gloríozo
Por fugir do tenebrozo,
A seguir a Virgem pura.
23.
Por mil, e duzentos annos
A Igreja reinarà,
Jà todo o Christaõ serà
Vivendo como irmaõs,
Nem trapaças nem enganos
Debaixo de huma cabeça,
No seo Império, e pastor,
Por Sebastiaõ Senhor
A quem tudo obedeça
Com Zelo, e grande amor.
24.
Este Rey de Deos guardado
Para limpeza do mundo,
De tal sorte porà tudo
Que deos seja venerado,
Em Portugal exaltàdo
De pequeno graõ Senhor,
Os mais todos com Pavor
Logo o haõde coroar,
Por Imperador sempár
Ao depois do Creador.
25.
Sonhei que via descer
Hum Anjo em huma nuvem
Mostrando que jà destroe
Quem Herege quizer ser,
Daqui vem a entender
Pella voz que lhe ouvi
E com furor disse assim,
"Morra o Blasfemador
"De Ley do bom Redemptor,
"O Prencipio desde aqui.
26.
Taõbem a Lua correndo
Sonhei que a via vir
Por trez vezes a cahir,
E Portugal perecendo
A isto o que eu entendo
Que figura muito moiro,
Vindo a buscar o oiro,
E mais riqueza notoria
Fazendo perder a gloria,
A quem delle fez thezoiro.
27.
Quantos destes vaõ roubando
Aì quando virem chegar,
Muitas Náos em este mar
E gente em terra botando
Entaõ ouviraõ o bando,
Mata, fere, e degolla,
Ficando a gente tolla
Tao tolla, como pasmàda
E a terra derrotáda
Perceguida a toda a hora.
28.
Morem, e ficaõ Catholicos,
Hums morrem, outros pelejaõ
Outros depreça despejaõ,
O melhor que guardaõ vivos,
Jà fallaõ Leaes amigos
A imgratidaõ sobeja,
E algums comgrande inveja,
Sò cuidaõ em bem furtar,
Nenhum yuer a tuvar
O Mal que tanto sobeja.
29.
Nenhum vemidio se sente
Sem ter meio de Apellar
Nem na terra, nem no Mar,
Vendo prêza maior gente
O mais alto delinquente,
Naõ ficarà sem castigo
Quem muito prende taobem
Serà prezo, e cativo,
Pezarlhe há de ser vivo
Estando só sem nímguem.
30.
Nas armas pèga a mulher
Taõbem entra em Corcelho,
Entao acode o bom Valho
Sebastiaõ hàde ser,
E tudo em seo poder
Ficarà com graõ limpeza
Ou Magestade, Alteza
Bem livras do Cativeiro
Lobo se torna, em Cordeiro
Em paga da tal Fineza.
31.
Contra graõ Senhor se ergue
Com furia, Asturia, e Manha,
Esparta, forte, Companha,
De seo maior mal lhe serve,
Taõbem quem ajuda perde
Honra, fazenda, e Vida,
Depois de no mar vencida
E na terra maio é risco,
Sepultádo no abismo
De todo serà perdida.
32.
Perde Braga, vence o Porto
E todas seraõ entràdas,
Em o fogo das pancadas
Em Bahia grar dectroço,
De Lagos fica bem pouco
Lisboa já hé Senhora,
De cativa deffençora
Da Ley que haõde guardar,
Os que se querem salvar
E morrer em boa hora.
33.
Viva o grande Portugal
Todos saltaõ de contentes,
Mulheres com seos parentes
Ficaõ livres do graõ mal,
Veja agora cada qual
De que sorte poem a vida,
No levantar da cahida
Tem o vemido na maõ,
Quem cuidar em bom Christaõ
Sua alma serà subida.
34.
E todo o mundo sugeito
A esta naçaõ portugueza,
Por aquella grande Alteza
Que Christo tem em seo peito,
Por lhe ser o mais aceito
Na Fé, Constancia, e Valor,
Peregrimo, e Senhor
Gram trabalhos padecendo,
Em fortaleza padecendo
Em o mundo grão valor.
35.
Em humildade, e esperança
A maior que jà se vio,
Com caridade subio
Ao lugar que logo alcança,
Justiça com temperança
Na prudencia o primeiro,
No castigo o derradeiro
Esperando a Sugeiçaõ,
Logo chega o pagaõ
A ser Christaõ verdadeiro.
36.
Portugal fica mais nobre
Em todo elle o poder,
E taõbem se háde ver
Ficar rico, o que foi pobre,
Aquelle a quem a fé cobre
Firme na Santa Igreja,
Todos lhe teraõ inveja,
Quando virem Portuguezes
Vencendo Turcos, Francezes,
E Moiros, em graõ Peleja.
37.
Dois descendentes que traz
De grande Valor, e Brio,
O Mais velho em Senhoria
Porá a guerra, em Paz,
Veraõ todos o que faz
De boms na Santa Igreja,
A força lhe tem inveja
A Fortuna, e augmento,
Farà pàrto o Sacramento
Onde toda Christaõ seja.
38.
O Pastor mór cedo falta
Seo descendente reinando,
E grande castigo dando
Aos vezinhos de Malta,
Quando Veneza se exalta
De França hé Malográda,
Cauzarà nesta pancáda
Entre os seos naturaes,
Seraõ os castigos taes
Que toda seja arrazáda.
Fim da Sexta Parte.
Inedìtas de Bandarra
Natural da Villa de Francoza.
* * * * *
Que exestião em poder de Pacheco Comtemporaneo de Bandarra e que
se lhe achàrão depois de sua morte.
* * * * *
Londres.
MDCCCXV.
Introduçaõ.
Com grande satisfação recebérão, todos os Portuguezes, assas Cinceros,
e prudentes, as trovas de Gonçallo Annes Bandarra, impressas em Barcellona
em 1809 sobre a edìção de Nantes de 1644. Juntandose, a esta edição
outras, trovas que nunca se tinhão impreço pella defficuldade que havia
de se naõ acharem.
Ficando porem ainda o ardente dezejo em muitas pessoas de verem
impresso o resto (de que havia notìcia de sua existencia) de todas as
trovas de Bandarra; porquè como este hia profetizando, em diverços tempos
durante a sua vida; igualmente por este motivo, apareciao em diverços
tempos, e lugares, e em poder de algumas pessoas, como se vio (por exemplo)
na edição de Nantes de 1644 naõ se ímpremírão senão, aquellas trovas, por
que não aparecerão as que se impremirão, em Barcelona em 1809 (que fazem a
2ª e 3ª parte desta obra) as quaes são, as que se achárão em poder do
Cardeal Nuno da Cunha, e as que tinha o Comissário do Santo officio
Domingos Furtado de Mendonça: e agora depois que se fez a edição acima
ditta de 1809, se acharão na livraria do Ex^mo Sñr........ (omito o seo
nome por motivos particulares) em manuscrito muito antigo! todas as
profecias de Bandarra, não só as que se achão jà impressas, nas duas
ediçoens que jà dicemos, mas tãobem as trovas de que havia noticia, que
tinhão ficàdo em poder de Pacheco, amigo, e comtemporaneo de Bandarra, que
mereceo a este tanto conceito, que foi digno de responder aquelle às
perguntas que lhe fazia, cujas respostas que Bandarra fez a Pacheco são as
que se achão na edição de Barcelona de 1809 desde paginas 60, até, 66, e
como esta obra estava imcompleta, e pella sua natureza merece muita
reflexão a todas as pessoas discretas e assas prudentes; a rogos destes
pois hé que me determinei a mandar impremir, as trovas que o dito Pacheco
tinha em seo poder, ficando desta sorte completa a edição desta obra toda,
de que hà noticia que Bandarra profetizou, assim como tãobem, completos os
ardentes dezejos de todos os Portuguezes Fieis, Cinceros, e Honrados, como
eu que me prézo de ser hum.--
Leal Portuguez.
Quarta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Os tempos com crueldade
Começar-se hão a mover,
Se me não engana a verdade
Ali perderão seo ser
No meio de certa idade.
2.
Virà gozando de paz
Aquelle pastor valente,
Hum lobo que guerra faz
Moverà toda a gente
Com huma limgua sagaz.
3.
Logo nas mãos o pastor
Seu cajado tomarà,
Sem mostrar nenhum temor
Contra os lobos que achará
Revestidos de rigor.
4.
Nelles farà tal destroço
Que serà couza de espanto,
Como bravo Touro em cosso
Logo perde tudo quanto
Tinha como pastor moço.
5.
Jà vejo que se desterra
Este pastor sem ventura,
Da patria rebanho, e terra
A huma larga Sepultura
De huma frondoza serra.
6.
O manço gàdo que em páz
Pella ribeira regia,
Jà desgovernàdo traz
Triste sò sem companhia,
Que hum mào concelho faz.
7.
E logo outro pastor
Do pouco gado que achár,
Serà absoluto Senhor,
E serà em quanto durar
A fortuna, e seo rigor.
8.
Serà pastor estrangeiro
O que reja o manço gado
Que taõ bravo foi primeiro
Mas ai que falta o malhado
Que era o principal Carneiro.
9.
De pois que por tempo largo
Este pastor governar
A este rebanho amargo,
Outra vez hà de tornar
A ter o que tinha o cargo.
10.
Haverà novos sinaes
Da parte deste pastor,
Thé os mesmos anímaes
Por seu natural Senhor
Darão suspiros, e ais.
11.
Tornarà a quebràda linha
No Cábo de serta idade,
A encher-se como pinha,
E descubrirà a verdade
Do que encuberto tinha.
12.
Sem pena que damno faça
Tornarà pella ribeira
Pastar o gado na praça,
Por ultima, e derradeira
Dos fados Supréma traça.
13.
Tornarei a recolher
Esta ovelha perdida
A patria que lhe deu ser,
E porei por ella a vida
Sem nunca desfalecer.
14.
Entaõ não me mudarei
Pois conheceis que sou vosso,
Minha ovelha estimarei
Pois de outro modo naõ posso
Alma, e vida lhe darei.
15.
Haverà em triste Cidade
Grande fome peste, e guerra,
Que a Escritura a não erra
Que em tudo falla verdade,
16.
De longas terras virão
Dois Leoens mui asanhádos
Hum de Cruz, e outro não
Vingarão males paçados.
17.
Serão à força da espada
Destruidas mil provincias,
Na Luzitania assollada
Terão fim roubos, e malicias.
18.
Na era de quarenta, é hum
De Janeiro por diante,
Darà fio ao seo montante
Aparelhece cada hum.
19.
O nosso Christianismo
Nossa grande Obrigação,
Não temos mais de Christão,
Do que o nome do Baptismo.
20.
Fazemos dos dias noites
Vivendo como agrestes,
Haverà castigo, e açoutes
Cada qual se faça prestes.
21.
Espantozos movimentos
Havemos cedo dever,
E antes de muitos tempos
Ha de isto de acontecer.
22.
Não haverà em Hespanha
Lugar preveligiado,
Tudo serà assollado
Dessa gente de Alemanha.
23.
Todos os lugares planos
Por terra serão prostrados,
Muitos males, muitos damnos
Haverà pellos peceádos.
24.
As Serras se habitarão
E os Oiteiros mais altos,
Muitas Gentes sahirão
Outros andarão em Saltos.
25.
Andarão como pasmados
Chorando pellos caminhos,
De suas terras lançados
De parentes, e vesinhos.
26.
Então não haverà amigos
Nem pay que por filho seja,
O mais seguro abrigo
Serà acolherse à Igreja.
27.
Nesses tempos os meninos
Ainda que innocentes,
Terão tãobem accidentes
Muito fora dos Caminhos.
28.
Haverà peregrinaçoens
Mortes sem conto de dura,
Males fogos devisoens
Só Deos lhe póde dar cura.
29.
Ha de ser Rey quem fôr
Que em Deos está o saber
O bom, o São, o melhor
Só elle o há de escolher.
30.
Por particular enteresse
Tem chegado o mundo a tanto,
Triste do que lhe parece
Que háde bastar falçomanto.
31.
Os póvos hão de alintar
As culpas dos seos Monarchas,
Que sem nenhum estudar
São Letràdos, e Patriarchas.
32.
Nos Ceos haverà sinaes
Na Terra não faltarão,
Tormentos pennas, e ais
Que aos Ceos penetrarão.
33.
E depois do Leão morto
Não sem falta de mistério,
Aportarà neste porto
Outro com maior Império.
34.
Entrarà com companheiro
Na terra dos Luzitannos,
Cada qual bom Cavalleiro
Destruirão os Arriannos.
35.
Tempos traz tempos virão
Que os Grandes serão baixàdos
Os pequennos exaltádos
Povo, e Rey governarão.
36.
E depois de tantos males
Fomes, pestes devisoens,
Cheios os montes, e Valles
De tristes peregrinaçõens.
37.
Tornarà o Redemptor
A olhar por seo rebanho,
E tello ha com muito amanho
Como bom Rey e Senhor.
38.
Escaparà pouca gente
De tão perigoza dança,
Virà tempo de bonança
Quem viver serà contente.
39.
Vejo vir grandes baleias
Pella costa de Biscaya
Gaia gaia da vezinha praya
Que lhe tingem as areias.
40.
Eis là contra a Norúega
Raios, Cavallos, Golfinhos,
Com que preça que navega
Tanta Cópia de Marinhos.
41.
Vejo milhoens de Relampagos
Trovoens que rompem os ceos
Nuvems de mui grandes véos
Coriscos grandes expantos.
42.
Que mancebo tão formozo
Dà Luz a todo o Emisfério,
Rosto mui digno de Império
Forte, fero, e graciozo.
43.
Iá por força toma a Seora
Cercàdo de Leoens bravos,
Oh que unhas dentes quebrádos
Teme, e treme toda a terra.
44.
Mil rapozas vão dìante
Buscando grutas, e côvàs,
A Lebres, Coelhos dão novas
Que fujão de tal semblante.
45.
Descançame a vista vendo
Hirse o tempo já chegando,
E estarse a Alma alegrando
Com o que vejo, e entendo.
46.
Venha embora o Leão forte
De tantos accompanhádo,
Que affirmão, e tem jurado
Que em que lhe custe a morte
O hão de ver coroado.
47.
Que grandes arribaçoens
São Atums, ou são Sardinhos,
Maiores são que Barquinhas
São Náos, boms Galioens.
48.
Parece que seo caminho
Hé direito a Portugal
Ai se eu mal não advinho
Não vão carregar de Sal.
49.
Que rostos, corpos, e armas,
Quanto fogo, e quanto asso,
No rosto gente do Passo
E Soldados nas Bisarmas.
50.
Ora quero-lhe dizer
Esta cà occupàda a Terra,
Mas poderão responder
Se hé gente de paz, ou guerra.
51.
Hé gente que em si encerra
E aquillo que diz não faz,
Diz guerra, ordena páz
Pergoa paz, e faz guerra.
52.
O Seo Rey quer ser Monarcha
E toda a Terra pertende,
Tudo abrange, e tudo abarca
E do díreito não pende.
53.
Vinde cà Rey Soberanno
Quero vos dezenganar,
Lembro-vos que sois humanno
E que tudo hade acabar.
54.
E que na postreira hora
Quando o mal jà estìver feito,
E não possa ser desfeito
Treme olma, e em vão chora.
55.
Lembre vos o que aconteceo
A Tholedo com o pay
Que já cada hum là vay
E não sei qual pa o ceo.
56.
Quereis vòs a Portugal
Sendo elle nome macho
Ajuda mal por que lhe acho
Muita fémea, e pouco Sal.
57.
Se quizerdes por direito
Deixarse há elle torcer,
Mas forçado hé máo geito
Para se deixar vencer.
58.
Vejo vosso damno perto
Hireis perdendo o reynádo
E tão bem tende por certo
Morrerdes desconsolado
59.
Luzitanna hé chamáda
A Dama que dezejaés,
Ella hé dantes despozada
Perseguilla hé por demais
60.
Ainda que em caza tem
De Ulices tantos povos,
Hir-se hão como os porcos
Ante o Leão que vem.
61.
Esta profecìa hè bella
Mui certa e verdadeira,
Quem tiver boa terceira
Gozarà a Sabia Donzella.
Fim da quarta parte.
Quinta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Quando de noite me ponho
A dormir sem me benzer,
Tudo o que háde açuceder
Se me representa em Sonho.
2.
Sempre mandei escrever
Aquillo que me lembrou,
Porque a memoria a postou
De tudo se esquecer.
3.
Nas Trovas que tinha feito
Muito hà que conciderar,
Como o seo tempo chegar
Se vera o meo conceito.
4.
Sempre por thezoiras faço
As minhas contas mui certas,
Portas que hão de estar abertas
Não são boas para o paço.
5.
Eu naõ sou Profeta inteiro
E menos na minha terra,
Mas vejo vir pella Serra
Atraz de hum Lobo hum Cordeiro.
6.
O Sol pello meio dia
Faz o effeito de Geada,
Vejo partir huma armada
Carregáda de agua fria.
7.
Huma grande tempestade
Com o céo muiclaro, e Serenno,
Farà hum hommem moreno
Com rezão mas sem piedade.
8.
A minha trepeça tem
Trez péz mui bem seguros,
Vejo fabricar hums muros
Mas eu naõ sei para quem.
9.
Quem muitos annos durar
Hade ver couzas indignas.
Tocar-se haõ muitas bozinas
Por hommems peixes do már.
10.
Todo o mundo grita, e berra
Cada qual no seo officio,
Pois antes que hum beneficio,
Querem, peste, fome, e guerra.
11.
Quando furo com a Suvella
Coiro groço, e Macio,
Vejo prender no Rocio
Quaze toda a parentella.
12.
Eu tenho medo da morte
Como couza superior,
O Presbitero maior
Naõ háde tornar à Corte.
13.
Annos hãode vir à terra
Em que por nossos peccados,
Nas cazas fiquem os gados
As gentes vivaõ na Serra.
14.
Sempre como os meos feijoens
Quando vem bem temperados,
Vejo no templo os Copados
No Cural os Cappellaens.
15.
Sou Sapateiro, mas Nobre
Com mui pouco Cabedal,
E tu triste Portugal
Quando mais rico, mais pobre.
16.
O (A) que ponho às avessas
Com a perna atraz levantáda,
Hàde ter a mão armàda
Para degollar Cabeças.
17.
Quando a terra dos Falcoens
Certa erva produzir,
Creio se hàde conceguir
O deitar fóra as Lezoens.
18.
De hum brazeiro mui acezo
Damdolhe o vento ligeiro,
Se hàde formar hum pinheiro
Sem ter medida, nem pezo.
19.
O Carro que vai chiando
Por hir muito carregàdo,
Sim mostra o jugo pezado
Mas naõ tira pezo andando.
20.
A Hortela na Panella
Dizem que lhe dà bom gosto,
Essa mulher de bom rosto
Naõ ouço rusnar bem della.
21.
Hespanha muito medroza
A Europa muito enfadada,
Huma mulher de almofada
Sabe como huma rapoza.
22.
As linhas com que cozia
Jà naõ como as de agora,
Temo que se deite fóra
Quem Souber a Ave Maria.
23.
Na era que eu tenho ditto
Nas Thezoiras levantadas,
Se haõde ver muitas jornàdas
Á custa do Saõ Benito.
24.
Naõ pode haver couza boa
Aonde Habita o mal Francez,
Temo o polho Portuguez
Em poder de huma Leoa.
25.
Quando o Leaõ Hispanhol
Vier quase a Portugal,
Háde ser o nosso mal
Querer luzir como o Sol.
26.
Quando a neve como braza
Todas as plantas queimar,
Dous quintos se haõ de ajuntar
Sem haver jogo na caza.
27.
Em hum lugar mais ameno
Cercados de mares groços,
Vive por peccados nossos
Quem se sustenta com feno.
28.
Sempre vem de monte, a monte
As agoas das enxorradas,
E vejo testas coroadas
Sentadas sobre huma ponte.
29.
Quando tiverem por certo
Perdida toda a esperança,
Portugal terá bonança
Na vinda do Encuberto.
30.
Vejo vir pello mar largo
Como quem vem para dentro,
Hum hommem buscar seo centro
Depois de hum grande lethargo.
31.
Quando me matar S. Jorge
E Marcos me reçuscitar,
Saõ Joaõ me exaltar
Faça todo o mundo alforge.
32.
Os pez da minha trepéça
Conta trez vezes areio,
Ajuntalhe dous, e meio
Dizelhe que apareça.
33.
Naõ podeis fazer queixume
De deixar o vosso lár,
Que se do norte ventar
Do Sul vos virà o lume.
34.
Vejo a grifa parideira
Juntada com huma Serpente,
E vejo que muita gente
Tem disto grande canceira.
35.
Vejo o Leão, e a Serpente
Atraz da gente goleima,
Grita o gallo que ateima
Com o Lobo que tem diante.
36.
Já vejo grande mofina
No porqueiro de Sequem,
Que o gado todo está bem
Com o Ovilheiro de Dina.
37.
Vejo a Lua ensanguentada
Pella virtude do Encuberto,
Se està longe, ou se perto
Assim o diz a toada.
38.
Là vem por sima do már
Hum Cavallo de madeira,
Que farà n'huma poeira
O porco que hàde grunhar.
39.
Vijo pedras ajuntar
Là muito perto da Lua
Vejo subir de huma, e huma
E nellas o Sol entrar.
40.
Vejo pello meo Telhado
No Ceo grande resplendor,
Se hé alegria, ou temer
Esdras o tem declarádo.
41.
Vejo o Almocreve tomar
As Alamanhas antigas,
Vejo nascer das ortigas
A remente là do mar
42.
Là donde o Sol vem nascendo
Hum Dragaõ vejo vir vindo,
A seo Cabo vem correndo
Mais bichos que o vem seguindo.
43.
O primeiro depois do quinto
Filho d'Aguia levantada,
Hade estender sua Espàda
Sobre a Galia faminto.
44.
Vejo sahir as Gaivotas
De dentro do nosso Tejo,
Taõbem parece que vejo
As duas por ellas rotas.
45.
Sonho que rebentaõ fontes
Da terra da Promiçaõ,
E que os Gallos de Siaõ
Vaõ fugindo até os montes.
46.
Naõ canta o Gallo com penna
As aguias charão mofina,
A serpente encrespa a clina
Porque Deos assim o ordenna.
47.
Faremos dos dias noites
Vivendo como agrestes,
Haverà castigo, e açoutes
Cada hum se faça prestes.
Fim da quinta parte.
Sexta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Sonhei que via hum fumo,
Com grande força sahir,
E deixando de Subir,
Hum altar vi no escuro:
Formava taõ forte muro.
Que estava o Altar cuberto;
Vi a hostia naõ mui perto,
Do tal Altar arredada:
Huma cára sublimáda,
Em ella vi por mais certo.
2.
Pareceme que crescia,
Quem assim o figurava:
Taõbem sonhei me pegava,
Quem mulher me parecia:
E que com voz me dezia,
Anda ver a terra nova,
Pella maõ levou-me à cova,
Levava bello vestido,
Aí nuvems eu fui subido,
Onde vi a gente toda.
3.
Negra, e amolatáda,
Logo à terra baldeando,
A respiraçaõ faltando
Eu daqui já naõ quis nada,
Para a terra de pancada
Me trouxe a tal mulher,
Athé alcancei dizer
Vou segunda vez à terra,
Logo vinha resta era
E tornava a aparecer.
4.
Parecia a meo ver
Nova Igreja figurada,
Por hereges desterráda,
Na quella terra a tremer,
Quem Herege quizer ser
Ficarà negro, ou molato,
E terà todo o máo trato
Por fugir da boa Ley,
No Inferno sua grey
Para tràz darà o Salto.
5.
Taõbem sonhei que a nuvem
Cobria a gram redondeza,
Mui medonha, e espeça
Taõbem raios que destroem,
A quem a falça Ley tem,
E depois vi aclarar
Com hum claraõ singular,
Em dia de huma Senhora
Em fe seguinte boa hora
Seu nascimento sempár.
6.
Em sonhos vi grande armáda
E a Lua, em rosso Tejo,
Ficandolhe o Sol por baixo
De huma Torre armáda,
Moiros tiveraõ entráda
Pella terra de christaõs,
Na Igreja vi estes máos
Hum exercito Francez,
Taõbem entrou desta vez
Accompanhádo dos Máos.
7.
Pella terra veio entrando
Athé se perder de vista,
Com grande préça, e cobiça
Toda a vinhaõ derrotando,
Taõbem os Moiros chegando
Com grande astucia, e préça,
Vinhaõ buscando a Cabeça
A numa Cidade Real
Pouco cuida Portugal,
Em o mal que lhe aconteça.
8.
Parece que estou ouvindo
Nesse mar a gran tormenta
Antes que chegue os Setenta,
Caxas, Ballas, barberinhos
Entaõ hé que virà vindo
O Grande pastor Geral,
Acudir a taõ graõ mal,
Dando às Ovelhas sustento
E taõbem o Sacramento
Viva o nosso Portugal.
9.
Poucos tempos paçaraõ
Segundo as Profecias,
Em os Sinaes destes dias
Outros que cedo viraõ
Huma Gran tribulaçaõ,
Mas ao depois verà
A volta que tudo dà,
Chegando logo a vencer
No mundo todo o poder
Na Igreja ficarà.
10.
Em todas reste tuida
Com maior veneraçaõ,
Só nella tem o Christaõ,
Gloria na eterna vida
Mas ai que a vejo cahida
Que primeiro vem chegando
Os boms largando o mundo,
Outros morrendo à preça
Outros perdem a Cabeça,
Muitos disso vão folgando.
11.
Tanto Sangue pello campo
E tanto morrer na rua,
Tantos deixaõ vida sua
Por guardar o nome Santo,
Nem da mulher o manto
Terà respeito ou favor,
Jà nenhum lhe tem amor
A essa profanna vaidade,
Quando virem a Cidade
Posta no maior horror.
12.
Jà de França serà farto
Quem à França quiz andar
Nunca mais andem trajar,
Tomàra naõ ter o fato:
Paga o povo por ingrato
O desprezo que tem feito,
Da Patria do minho aceito
Dando rédias ao profanno
Teraõ o seo desenganno,
Com o Vestir mais perfeito.
13.
Com Sangue, Boubo, e Deshonra
Com mortes, e Vitupérios,
Fomes doenças, e Guerras,
Querendo acabar a terra
Com mui grande alarido,
Todos ficaraõ com sentido
Com o mal naõ esperado
Serà prezo o Diabo
Porque entaõ tudo hé acabádo
E o morto serà vivo.
14.
Era taõbem logo chega
Que a todos de asento,
Serà fim este tormento,
Quem com bonança navéga
Entaõ armáda mais féra,
Livranos do Inemigo,
Com bom valor, e abrigo
O Beato Saõ Joaõ
Em seo dia nos dà a maõ,
E o Incoberto vivo.
15.
Quem destruir os do Norte
E os Moiros deitar fora,
Matandolhe a gente toda
Em Cacilhas forà côrte
Lá vereis o estandarte
Com as quinas aconado
E emtaõ vereis mostràdo
Em sima o bom Jezus,
E taõbem a Santa Cruz
Para vencer o Diabo.
16.
Veremos o mar vermelho
Sem hir a Jerusalem,
A qui veraõ os que tem
Tomádo o meo concelho,
Em si proprio o espelho,
Muito Sangue em si correndo
Mas quem fôr obedecendo,
Passarà sobre o mar
Sem que precize nadar,
Verà o maior portento.
17.
Em Cassilhas a Bandeira
Com estandarte Real,
Logo Hereges por seo mal,
A morte tem de Carreira
Terà este na Simeira
Hum Christo crucificádo,
Verà o povo malvado
O quaõ cego tem vivido,
Em terem perceguido
E a muitos marterizádo.
18.
O Moiro, Turco, Francez
Naõ poderaõ fugir todos,
Porque muitos seraõ mortos
As maõs do bom portuguez,
Là levarão desta vez
Novas aos seus que contar,
Quando virem em Portugal
O Encuberto declarado,
Castigando todo o estrago
Que elles vieraõ cauzar.
19.
Nenhum remedio lhe sinto
O Naõ vireá melhor fôra,
Venha sem em boa hora
Quem ao lobo faminto,
Lhe ponha em sangue tinto
Por essas ruàs no chaõ,
Bandeiras em confucaõ
Flores, Barretes, e Capas
Deste bom Rey nada escapa,
Viva o Graõ Sebastaõ.
20.
Sonhei que via vencer
As quatro partes do mundo,
E que Portugal a tudo
Hia dando que fazer,
E taõbem fazendo e ver
O Evangelho, e a Cruz
Ao povo falto de luz,
Sacramento eterno dia
Taobem a Virgem Maria
Todos com o bom Jezus.
21.
Sonhei que o Sacramento
Em todo o mundo em redondo,
Já das almas serà dono
Isto maior portento,
Taõbem graõ contentamento,
Em ver os Reys me cauzou
Que na geraçaõ dotou,
Lá de Affonço o primeiro
Thé trinta o derradeiro,
Onde o primeiro acabou.
22.
Por humgrande oppozitor
Depois da linha acabada,
Este farà derrotada,
A Igreja com horror,
Á besta mete pavor
Em trez, e meio de dura
Tanta gente à Sepultura,
O Martir gloríozo
Por fugir do tenebrozo,
A seguir a Virgem pura.
23.
Por mil, e duzentos annos
A Igreja reinarà,
Jà todo o Christaõ serà
Vivendo como irmaõs,
Nem trapaças nem enganos
Debaixo de huma cabeça,
No seo Império, e pastor,
Por Sebastiaõ Senhor
A quem tudo obedeça
Com Zelo, e grande amor.
24.
Este Rey de Deos guardado
Para limpeza do mundo,
De tal sorte porà tudo
Que deos seja venerado,
Em Portugal exaltàdo
De pequeno graõ Senhor,
Os mais todos com Pavor
Logo o haõde coroar,
Por Imperador sempár
Ao depois do Creador.
25.
Sonhei que via descer
Hum Anjo em huma nuvem
Mostrando que jà destroe
Quem Herege quizer ser,
Daqui vem a entender
Pella voz que lhe ouvi
E com furor disse assim,
"Morra o Blasfemador
"De Ley do bom Redemptor,
"O Prencipio desde aqui.
26.
Taõbem a Lua correndo
Sonhei que a via vir
Por trez vezes a cahir,
E Portugal perecendo
A isto o que eu entendo
Que figura muito moiro,
Vindo a buscar o oiro,
E mais riqueza notoria
Fazendo perder a gloria,
A quem delle fez thezoiro.
27.
Quantos destes vaõ roubando
Aì quando virem chegar,
Muitas Náos em este mar
E gente em terra botando
Entaõ ouviraõ o bando,
Mata, fere, e degolla,
Ficando a gente tolla
Tao tolla, como pasmàda
E a terra derrotáda
Perceguida a toda a hora.
28.
Morem, e ficaõ Catholicos,
Hums morrem, outros pelejaõ
Outros depreça despejaõ,
O melhor que guardaõ vivos,
Jà fallaõ Leaes amigos
A imgratidaõ sobeja,
E algums comgrande inveja,
Sò cuidaõ em bem furtar,
Nenhum yuer a tuvar
O Mal que tanto sobeja.
29.
Nenhum vemidio se sente
Sem ter meio de Apellar
Nem na terra, nem no Mar,
Vendo prêza maior gente
O mais alto delinquente,
Naõ ficarà sem castigo
Quem muito prende taobem
Serà prezo, e cativo,
Pezarlhe há de ser vivo
Estando só sem nímguem.
30.
Nas armas pèga a mulher
Taõbem entra em Corcelho,
Entao acode o bom Valho
Sebastiaõ hàde ser,
E tudo em seo poder
Ficarà com graõ limpeza
Ou Magestade, Alteza
Bem livras do Cativeiro
Lobo se torna, em Cordeiro
Em paga da tal Fineza.
31.
Contra graõ Senhor se ergue
Com furia, Asturia, e Manha,
Esparta, forte, Companha,
De seo maior mal lhe serve,
Taõbem quem ajuda perde
Honra, fazenda, e Vida,
Depois de no mar vencida
E na terra maio é risco,
Sepultádo no abismo
De todo serà perdida.
32.
Perde Braga, vence o Porto
E todas seraõ entràdas,
Em o fogo das pancadas
Em Bahia grar dectroço,
De Lagos fica bem pouco
Lisboa já hé Senhora,
De cativa deffençora
Da Ley que haõde guardar,
Os que se querem salvar
E morrer em boa hora.
33.
Viva o grande Portugal
Todos saltaõ de contentes,
Mulheres com seos parentes
Ficaõ livres do graõ mal,
Veja agora cada qual
De que sorte poem a vida,
No levantar da cahida
Tem o vemido na maõ,
Quem cuidar em bom Christaõ
Sua alma serà subida.
34.
E todo o mundo sugeito
A esta naçaõ portugueza,
Por aquella grande Alteza
Que Christo tem em seo peito,
Por lhe ser o mais aceito
Na Fé, Constancia, e Valor,
Peregrimo, e Senhor
Gram trabalhos padecendo,
Em fortaleza padecendo
Em o mundo grão valor.
35.
Em humildade, e esperança
A maior que jà se vio,
Com caridade subio
Ao lugar que logo alcança,
Justiça com temperança
Na prudencia o primeiro,
No castigo o derradeiro
Esperando a Sugeiçaõ,
Logo chega o pagaõ
A ser Christaõ verdadeiro.
36.
Portugal fica mais nobre
Em todo elle o poder,
E taõbem se háde ver
Ficar rico, o que foi pobre,
Aquelle a quem a fé cobre
Firme na Santa Igreja,
Todos lhe teraõ inveja,
Quando virem Portuguezes
Vencendo Turcos, Francezes,
E Moiros, em graõ Peleja.
37.
Dois descendentes que traz
De grande Valor, e Brio,
O Mais velho em Senhoria
Porá a guerra, em Paz,
Veraõ todos o que faz
De boms na Santa Igreja,
A força lhe tem inveja
A Fortuna, e augmento,
Farà pàrto o Sacramento
Onde toda Christaõ seja.
38.
O Pastor mór cedo falta
Seo descendente reinando,
E grande castigo dando
Aos vezinhos de Malta,
Quando Veneza se exalta
De França hé Malográda,
Cauzarà nesta pancáda
Entre os seos naturaes,
Seraõ os castigos taes
Que toda seja arrazáda.
Fim da Sexta Parte.
4 306
2
Afonso Schmidt
Anhangabaú
No Piques, vagando à-toa,
é raro quem não pressinta
uma toada indistinta
que, sob as pedras, ressoa.
Conta moedas, tilinta,
como refrão de uma loa,
a fonte exilada e boa,
há muitos anos extinta.
Sua alma que ali revoa,
de céus e de ares faminta,
repete a cada pessoa
uma novela sucinta:
noturnos, capas, garoa,
1830...
Publicado no livro Mocidade (1921).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
é raro quem não pressinta
uma toada indistinta
que, sob as pedras, ressoa.
Conta moedas, tilinta,
como refrão de uma loa,
a fonte exilada e boa,
há muitos anos extinta.
Sua alma que ali revoa,
de céus e de ares faminta,
repete a cada pessoa
uma novela sucinta:
noturnos, capas, garoa,
1830...
Publicado no livro Mocidade (1921).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
1 976
2
Antero de Quental
Solemnia Verba
Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...
Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!
Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,
Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...
Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!
Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,
Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.
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Stéphane Mallarmé
O TÚMULO DE EDGAR POE
(Tradução de Jorge de Sena)
Tal que em Si-mesmo enfim a Eternidade o apura
O Poeta suscita com seu gládio erguido
Seu século aterrado de não ter ouvido
Que a morte triunfava nessa voz obscura!
Eles, em sobressalto como de hidra impura
Audindo o anjo aos da tribo temos dar sentido
Puro mais, logo aclamam sortilégio haurido
Nas desonradas águas de uma atra mistura.
Opostos solo e nuvens, ó suprema dor!
Se a nossa ideia com não cria de escultor
De que a tumba de Poe se orne resplandecente,
Calmo tombado bloco de um desastre escuro,
Que este granito ao menos mostre o seu batente
Ao negro vôo blasfemo esparso no futuro.
Tal que em Si-mesmo enfim a Eternidade o apura
O Poeta suscita com seu gládio erguido
Seu século aterrado de não ter ouvido
Que a morte triunfava nessa voz obscura!
Eles, em sobressalto como de hidra impura
Audindo o anjo aos da tribo temos dar sentido
Puro mais, logo aclamam sortilégio haurido
Nas desonradas águas de uma atra mistura.
Opostos solo e nuvens, ó suprema dor!
Se a nossa ideia com não cria de escultor
De que a tumba de Poe se orne resplandecente,
Calmo tombado bloco de um desastre escuro,
Que este granito ao menos mostre o seu batente
Ao negro vôo blasfemo esparso no futuro.
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2
Martins Fontes
Ser Paulista
Ser paulista! é ser grande no passado
E inda maior nas glórias do presente!
E ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.
Ser paulista! é morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó das fraquezas do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente.
Ser paulista! é rezar pelo Evangelho
De Rui Barbosa — o sacrossanto velho
Civilista imortal de nossa fé.
Ser paulistal em brasão e em pergaminho
É ser traído e pelejar sozinho,
É ser vencido, mas cair de pé!
E inda maior nas glórias do presente!
E ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.
Ser paulista! é morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó das fraquezas do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente.
Ser paulista! é rezar pelo Evangelho
De Rui Barbosa — o sacrossanto velho
Civilista imortal de nossa fé.
Ser paulistal em brasão e em pergaminho
É ser traído e pelejar sozinho,
É ser vencido, mas cair de pé!
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2
Gonçalves Crespo
O Minuete
Espaçoso é o salão: jarras a cada canto;
Admira-se o lavor do tecto de pau santo.
Cadeiras de espaldar corri fulvas pregarias:
Um enorme sofá: largas tapeçarias.
O purpúreo tapete aos olhos nos revela
Entre as garras de um tigre ansiosa uma gazela.
Retratos em redor: olhemos o primeiro:
No Toro as mãos de Afonso o armaram cavaleiro.
Era arcebispo aquele: esta foi açafata:
Que frescura sensual nos lábios de escarlata!
Olhos revendo o azul que sobre a Itália assoma:
Em finos caracóis, a loura e ondada coma:
Colo robusto e nu: cabeça triunfante:
Consta que certo rei... passemos adiantei
Este que vês, morreu num africano areal
Por vingança cruel do áspero Pombal.
Desse olhar na expressão infinda e inenarrável
Desabrocha uma dor profunda e inconsolável.
Defronte, uma donzela, o rosto meigo e aflito,
Num êxtasis adora o pálido proscrito.
O teu sonho nupcial, franzina morgadinha,
Tão cedo se desfez, ó mísera e mesquinha!
No burel escondeste o viço e a formosura,
E desmaiaste, flor, no chão de uma clausura!...
Repara nos desdéns do fofo conselheiro,
Que sorridente aspira a flor de um jasmineiro!
Em cânones doutor: no paço foi benquisto:
Orna-lhe o peito a cruz de um hábito de Cristo.
Esse outro combatendo às portas de Baiona,
Como um bravo, alcançou a rútila dragona.
Vibra flamas o olhar; cabeça ereta e audaz;
Ilumina-lhe o rosto a glória de um gilvaz.
Assistimos, ao vê-lo, às pugnas carniceiras,
E ouvimos o clangor das músicas guerreiras...
No antiquíssimo espelho, à sombra das cortinas,
Reflete-se o primor de argênteas serpentinas.
Sob o espelho se aninha um cravo marchetado,
Mimo outrora da casa, e prenda de um noivado.
Ao lado um cofre encerra, em amorável ninho,
Antiga partitura em velho pergaminho.
Uma noite estendi a música na estante,
E o cravo suspirou... naquele mesmo instante
Da ebúrnea palidez doentia do teclado
Manso e manso evolou-se o aroma do passado.
E vi descer do quadro a lânguida açafata
Que, ao discreto palor das lâmpadas de prata,
A fímbria alevantando azul do seu vestido,
O rosto acerejado, o gesto comovido,
A sorrir, deslizou graciosa no tapete,
Dançando airosamente o airoso minuete...
Admira-se o lavor do tecto de pau santo.
Cadeiras de espaldar corri fulvas pregarias:
Um enorme sofá: largas tapeçarias.
O purpúreo tapete aos olhos nos revela
Entre as garras de um tigre ansiosa uma gazela.
Retratos em redor: olhemos o primeiro:
No Toro as mãos de Afonso o armaram cavaleiro.
Era arcebispo aquele: esta foi açafata:
Que frescura sensual nos lábios de escarlata!
Olhos revendo o azul que sobre a Itália assoma:
Em finos caracóis, a loura e ondada coma:
Colo robusto e nu: cabeça triunfante:
Consta que certo rei... passemos adiantei
Este que vês, morreu num africano areal
Por vingança cruel do áspero Pombal.
Desse olhar na expressão infinda e inenarrável
Desabrocha uma dor profunda e inconsolável.
Defronte, uma donzela, o rosto meigo e aflito,
Num êxtasis adora o pálido proscrito.
O teu sonho nupcial, franzina morgadinha,
Tão cedo se desfez, ó mísera e mesquinha!
No burel escondeste o viço e a formosura,
E desmaiaste, flor, no chão de uma clausura!...
Repara nos desdéns do fofo conselheiro,
Que sorridente aspira a flor de um jasmineiro!
Em cânones doutor: no paço foi benquisto:
Orna-lhe o peito a cruz de um hábito de Cristo.
Esse outro combatendo às portas de Baiona,
Como um bravo, alcançou a rútila dragona.
Vibra flamas o olhar; cabeça ereta e audaz;
Ilumina-lhe o rosto a glória de um gilvaz.
Assistimos, ao vê-lo, às pugnas carniceiras,
E ouvimos o clangor das músicas guerreiras...
No antiquíssimo espelho, à sombra das cortinas,
Reflete-se o primor de argênteas serpentinas.
Sob o espelho se aninha um cravo marchetado,
Mimo outrora da casa, e prenda de um noivado.
Ao lado um cofre encerra, em amorável ninho,
Antiga partitura em velho pergaminho.
Uma noite estendi a música na estante,
E o cravo suspirou... naquele mesmo instante
Da ebúrnea palidez doentia do teclado
Manso e manso evolou-se o aroma do passado.
E vi descer do quadro a lânguida açafata
Que, ao discreto palor das lâmpadas de prata,
A fímbria alevantando azul do seu vestido,
O rosto acerejado, o gesto comovido,
A sorrir, deslizou graciosa no tapete,
Dançando airosamente o airoso minuete...
1 872
2
Thomas Hardy
O OUTRO
Eis aqui o chão antigo,
tão gasto e liso de andado.
Eis aqui limiar amigo
que mortos pés hão cruzado
Na cadeira ela sentada
para o lume se sorria;
e dele a vida brincada
no fogo se consumia.
Criança, em sonhos dancei;
feliz o dia passou,
dourado brasão de um rei.
Mas nenhum de nós olhou.
tão gasto e liso de andado.
Eis aqui limiar amigo
que mortos pés hão cruzado
Na cadeira ela sentada
para o lume se sorria;
e dele a vida brincada
no fogo se consumia.
Criança, em sonhos dancei;
feliz o dia passou,
dourado brasão de um rei.
Mas nenhum de nós olhou.
1 927
2
Manuel Alegre
Regresso
E contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.
Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.
Mas já no mar quem fomos é estrangeiro
e já em Portugal estrangeiros somos.
Se em cada um de nós há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.
De Calicute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.
Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.
Mas já no mar quem fomos é estrangeiro
e já em Portugal estrangeiros somos.
Se em cada um de nós há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.
De Calicute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar.
5 124
2
Matilde Campilho
Quando (A) E (B) Se Sentam No Degrau da Banca de Jornal Para Conversar Sobre Pormenores Supradimensionados
A: estava chovendo.
B: você jura?
A: estava chovendo.
B: mas não era preciso.
A: estava chovendo.
B: tem certeza?
A: escute, quando chove
todo mundo escorrega.
B: se machucou?
A: não muito, não.
B: mas era necessário?
A: estava chovendo.
B: em março sempre acontece.
A: eu escorreguei.
B: que bom que não se machucou.
A: não muito, não.
B: porque fez isso?
A: foi só uma vez.
B: não acha meio despropositado?
A: só liguei uma vez.
B: já passou tanto tempo.
A: acho que, quando a gente telefona
fora de época, é porque está dando
uma ligadinha para o passado. não
para a pessoa realmente.
B: foi porque estava chovendo?
A: em março sempre acontece.
B: conseguiu falar?
A: deixei recado: “alô, é do passado?
queria pedir uma pizza, por gentileza.”
B: atendeu?
A: estava chovendo.
B: mas…
A: não atendeu, ainda bem. eu
nem gosto mais de pizza.
B: vá para dentro, você vai pegar
um resfriado.
A: parou de chover.
B: você jura?
A: estava chovendo.
B: mas não era preciso.
A: estava chovendo.
B: tem certeza?
A: escute, quando chove
todo mundo escorrega.
B: se machucou?
A: não muito, não.
B: mas era necessário?
A: estava chovendo.
B: em março sempre acontece.
A: eu escorreguei.
B: que bom que não se machucou.
A: não muito, não.
B: porque fez isso?
A: foi só uma vez.
B: não acha meio despropositado?
A: só liguei uma vez.
B: já passou tanto tempo.
A: acho que, quando a gente telefona
fora de época, é porque está dando
uma ligadinha para o passado. não
para a pessoa realmente.
B: foi porque estava chovendo?
A: em março sempre acontece.
B: conseguiu falar?
A: deixei recado: “alô, é do passado?
queria pedir uma pizza, por gentileza.”
B: atendeu?
A: estava chovendo.
B: mas…
A: não atendeu, ainda bem. eu
nem gosto mais de pizza.
B: vá para dentro, você vai pegar
um resfriado.
A: parou de chover.
1 568
1
Matilde Campilho
Eu Já Escuto Os Teus Sinais
Olhe lá
Eu nunca quis voltar
atrás no tempo
nem por uma vez
A vida já foi muito boa
e muito ruim comigo
com minhas costas
com meus rinscom meus estúpidos
glóbulos vermelhos
com minha melancolia
com minha nacionalidade
A vida já foi mais estúpida
que meus glóbulos vermelhos
Mais doce que a visão do sol
de junho batendo nos joelhos
de um garoto ou de uma mulher
A vida já se serviu de mim
como uma pega
como um garçom
como um respigador
como um profissional
da marcação de fronteiras
Serviu-se de mim
para todos os trabalhos
Quis cuspir-lhe na cara
vezinquando
Mas nunca
por razão nenhuma
quis voltar atrás
no tempo da vida
Pelo contrário
sempre me servi
do tempo dela
para aprender a contar
as partes todas
da futebolada mística
Desta vez é diferente
Escute agora é diferente
Daqui da bancada
dá para ver meio passado
e meio futuro
Me sento sobre o balde
do duro inverno boreal
E enquanto vou esculpindo
o lustroso nada a canivete
Eu vejo os 32 °C no pontão
do Leme (mais cinco graus
se contarmos a temperatura
externa da pedra física)
Sobre o cais estão dançando
alguns astros imperfeitos
Suspeito que são homens
Eles levantam suas plumas
até a garganta do deserto
Sim eu me lembro
Mais de 40 homens
e a banda tocando
uma canção de amor
De repente lá vem vindo
oba de repente lá vem
Estou falando da entrada
da menina na arena
Da entrada dos seus cabelos
na frente de nossas retinas
Estou falando da velocidade
de um bambolê elétrico
rodopiando em torno
de tantos triplos suores
enquanto a banda toca
Olhe lá não procure histórias
estou falando de algum passado
Estou falando do ritmo
de uma estação violenta
E nem por isso impiedosa
É verão no Rio de Janeiro
Daqui deste balde revirado
dá para ver a felicidade
desabando sobre as cabeças
Dá para ver a força santa
do desejo físico imortal
Dá para ver disparos
que arrasam com toda
espécie de nacionalidade
Olhe eu nunca quis trocar
os tempos nem as partes
da partida fundamental
Mas daqui deste balde
dá para ver o assalto
que deu cabo da puta
e do garçom e até mesmo
do barbudo fronteiriço
O crime alegórico
que restaurou a alegria
E portanto veja bem
hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para me sentar
sobre a pedra austral
e ficar assistindo às explosões
dos bambolês polifônicos
entre os dedos de uma mulher
Hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para beijar
a cidade na boca.
Eu nunca quis voltar
atrás no tempo
nem por uma vez
A vida já foi muito boa
e muito ruim comigo
com minhas costas
com meus rinscom meus estúpidos
glóbulos vermelhos
com minha melancolia
com minha nacionalidade
A vida já foi mais estúpida
que meus glóbulos vermelhos
Mais doce que a visão do sol
de junho batendo nos joelhos
de um garoto ou de uma mulher
A vida já se serviu de mim
como uma pega
como um garçom
como um respigador
como um profissional
da marcação de fronteiras
Serviu-se de mim
para todos os trabalhos
Quis cuspir-lhe na cara
vezinquando
Mas nunca
por razão nenhuma
quis voltar atrás
no tempo da vida
Pelo contrário
sempre me servi
do tempo dela
para aprender a contar
as partes todas
da futebolada mística
Desta vez é diferente
Escute agora é diferente
Daqui da bancada
dá para ver meio passado
e meio futuro
Me sento sobre o balde
do duro inverno boreal
E enquanto vou esculpindo
o lustroso nada a canivete
Eu vejo os 32 °C no pontão
do Leme (mais cinco graus
se contarmos a temperatura
externa da pedra física)
Sobre o cais estão dançando
alguns astros imperfeitos
Suspeito que são homens
Eles levantam suas plumas
até a garganta do deserto
Sim eu me lembro
Mais de 40 homens
e a banda tocando
uma canção de amor
De repente lá vem vindo
oba de repente lá vem
Estou falando da entrada
da menina na arena
Da entrada dos seus cabelos
na frente de nossas retinas
Estou falando da velocidade
de um bambolê elétrico
rodopiando em torno
de tantos triplos suores
enquanto a banda toca
Olhe lá não procure histórias
estou falando de algum passado
Estou falando do ritmo
de uma estação violenta
E nem por isso impiedosa
É verão no Rio de Janeiro
Daqui deste balde revirado
dá para ver a felicidade
desabando sobre as cabeças
Dá para ver a força santa
do desejo físico imortal
Dá para ver disparos
que arrasam com toda
espécie de nacionalidade
Olhe eu nunca quis trocar
os tempos nem as partes
da partida fundamental
Mas daqui deste balde
dá para ver o assalto
que deu cabo da puta
e do garçom e até mesmo
do barbudo fronteiriço
O crime alegórico
que restaurou a alegria
E portanto veja bem
hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para me sentar
sobre a pedra austral
e ficar assistindo às explosões
dos bambolês polifônicos
entre os dedos de uma mulher
Hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para beijar
a cidade na boca.
1 200
1
Marília Garcia
ESTRELAS DESCEM À TERRA
começo do começo,
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
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1
Manuel Bandeira
Passado, Presente e Futuro
Só o passado verdadeiramente nos pertence.
O presente... O presente não existe:
Le moment ou je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
O presente... O presente não existe:
Le moment ou je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
1 654
1
Pablo Neruda
A Lâmpada Marinha
Portugal,
volta ao mar, a teus navios,
Portugal, volta ao homem, ao marinheiro,
à tua terra volta, à tua fragrância,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz matutina
do cravo e a espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres.
Não escondas mais teu rosto
de embarcação valente
posta nas avançadas do oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o novo homem,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.
A súbita
aparição
do pão
sobre a mesa,
a aurora,
descobre-a,
descobridor de auroras.
Como é isto?
Como podes negar-te
ao céu da luz, tu, que mostraste
caminhos aos cegos?
Tu, doce e férreo e velho,
estreito e largo pai
do horizonte, como
podes trancar a porta
aos novos cachos
e ao vento com estrelas do Oriente?
Proa da Europa, busca
na corrente
as ondas ancestrais,
a marítima barba
de Camões.
Rompe
as teias de aranha
que cobrem teu fragrante arvoredo,
e então
a nós os filhos de teus filhos,
aqueles para os quais
descobriste a areia
até então obscura
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que podes
atravessar de novo
o novo mar escuro
e descobrir o homem que nasceu
nas ilhas maiores da terra.
Navega, Portugal, a hora
chegou, levanta
tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volta
a ser caminho.
Nesta idade conjuga
tua luz, volta a ser lâmpada:
aprenderás de novo a ser estrela.
volta ao mar, a teus navios,
Portugal, volta ao homem, ao marinheiro,
à tua terra volta, à tua fragrância,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz matutina
do cravo e a espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres.
Não escondas mais teu rosto
de embarcação valente
posta nas avançadas do oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o novo homem,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.
A súbita
aparição
do pão
sobre a mesa,
a aurora,
descobre-a,
descobridor de auroras.
Como é isto?
Como podes negar-te
ao céu da luz, tu, que mostraste
caminhos aos cegos?
Tu, doce e férreo e velho,
estreito e largo pai
do horizonte, como
podes trancar a porta
aos novos cachos
e ao vento com estrelas do Oriente?
Proa da Europa, busca
na corrente
as ondas ancestrais,
a marítima barba
de Camões.
Rompe
as teias de aranha
que cobrem teu fragrante arvoredo,
e então
a nós os filhos de teus filhos,
aqueles para os quais
descobriste a areia
até então obscura
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que podes
atravessar de novo
o novo mar escuro
e descobrir o homem que nasceu
nas ilhas maiores da terra.
Navega, Portugal, a hora
chegou, levanta
tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volta
a ser caminho.
Nesta idade conjuga
tua luz, volta a ser lâmpada:
aprenderás de novo a ser estrela.
2 201
1
Carlos Drummond de Andrade
Os Bens E o Sangue
I
Às duas horas da tarde deste nove de agosto de 1847
nesta fazenda do Tanque e em dez outras casas de rei, q não de valete,
em Itabira Ferros Guanhães Cocais Joanesia Capão
diante do estrume em q se movem nossos escravos, e da viração
perfumada dos cafezais q trança na palma dos coqueiros
fiéis servidores de nossa paisagem e de nossos fins primeiros,
deliberamos vender, como de fato vendemos, cedendo posse jus e domínio
e abrangendo desde os engenhos de secar areia até o ouro mais fino,
nossas lavras mto nossas por herança de nossos pais e sogros bem amados
q dormem na paz de Deus entre santas e santos martirizados.
Por isso neste papel azul Bath escrevemos com a nossa melhor letra
estes nomes c] em qualquer tempo desafiarão tramóia trapaça e treta:
ESMERIL PISSARRÃO
CANDONGA CONCEIÇÃO
E tudo damos por vendido ao compadre e nosso amigo
[o snr Raimundo Procópio
e a d. Maria Narcisa sua mulher, e o q não fôr vendido, por alborque
de nossa mão passará, e trocaremos lavras por matas,
lavras por títulos, lavras por mulas, lavras por mulatas e arriatas,
que trocar é nosso fraco e lucrar é nosso forte. Mas fique esclarecido:
somos levados menos por gosto do sempre negócio q no sentido
de nossa remota descendência ainda mal debuxada no longe dos serros.
De nossa mente lavamos o ouro como de nossa alma um dia os erros
se lavarão na pia da penitência. E filhos netos bisnetos
tataranetos despojados dos bens mais sólidos e
[rutilantes portanto os mais completos
irão tomando a pouco e pouco desapego de toda fortuna
e concentrando seu fervor numa riqueza só, abstrata e una.
LAVRA DA PACIÊNCIA
LAVRINHA DE CUBAS
ITABIRUÇU
II
Mais que todos deserdamos
deste nosso oblíquo modo
um menino inda não nado
(e melhor não fora nado)
que de nada lhe daremos
sua parte de nonada
e que nada, porém nada
o há de ter desenganado.
E nossa rica fazenda
já presto se desfazendo
vai-se em sal cristalizando
na porta de sua casa
ou até na ponta da asa
de seu nariz fino e frágil,
de sua alma fina e frágil,
de sua certeza frágil
frágil frágil frágil frágil
mas que por frágil é ágil,
e na sua mala-sorte
se rirá êle da morte.
III
Este figura em nosso
pensamento secreto.
Num magoado alvoroço
o queremos marcado
a nos negar; depois
de sua negação
nos buscará. Em tudo
será pelo contrário
seu fado extra-ordinário.
Vergonha da família
que de nobre se humilha
na sua malincônica
tristura meio cômica,
dulciamara nux-vomica.
IV
Este hemos por bem
reduzir à simples
condição ninguém.
Não lavrará campo.
Tirará sustento
de algum mel nojento.
Há de ser violento
sem ter movimento.
Sofrerá tormenta
no melhor momento.
Não se sujeitando
a um poder celeste
ei-lo senão quando
de nudez se veste,
roga à escuridão
abrir-se em clarão.
Este será tonto
e amará no vinho
um novo equilíbrio
e seu passo tíbio
sairá na cola
de nenhum caminho.
V
— Não judie com o menino
compadre.
Às duas horas da tarde deste nove de agosto de 1847
nesta fazenda do Tanque e em dez outras casas de rei, q não de valete,
em Itabira Ferros Guanhães Cocais Joanesia Capão
diante do estrume em q se movem nossos escravos, e da viração
perfumada dos cafezais q trança na palma dos coqueiros
fiéis servidores de nossa paisagem e de nossos fins primeiros,
deliberamos vender, como de fato vendemos, cedendo posse jus e domínio
e abrangendo desde os engenhos de secar areia até o ouro mais fino,
nossas lavras mto nossas por herança de nossos pais e sogros bem amados
q dormem na paz de Deus entre santas e santos martirizados.
Por isso neste papel azul Bath escrevemos com a nossa melhor letra
estes nomes c] em qualquer tempo desafiarão tramóia trapaça e treta:
ESMERIL PISSARRÃO
CANDONGA CONCEIÇÃO
E tudo damos por vendido ao compadre e nosso amigo
[o snr Raimundo Procópio
e a d. Maria Narcisa sua mulher, e o q não fôr vendido, por alborque
de nossa mão passará, e trocaremos lavras por matas,
lavras por títulos, lavras por mulas, lavras por mulatas e arriatas,
que trocar é nosso fraco e lucrar é nosso forte. Mas fique esclarecido:
somos levados menos por gosto do sempre negócio q no sentido
de nossa remota descendência ainda mal debuxada no longe dos serros.
De nossa mente lavamos o ouro como de nossa alma um dia os erros
se lavarão na pia da penitência. E filhos netos bisnetos
tataranetos despojados dos bens mais sólidos e
[rutilantes portanto os mais completos
irão tomando a pouco e pouco desapego de toda fortuna
e concentrando seu fervor numa riqueza só, abstrata e una.
LAVRA DA PACIÊNCIA
LAVRINHA DE CUBAS
ITABIRUÇU
II
Mais que todos deserdamos
deste nosso oblíquo modo
um menino inda não nado
(e melhor não fora nado)
que de nada lhe daremos
sua parte de nonada
e que nada, porém nada
o há de ter desenganado.
E nossa rica fazenda
já presto se desfazendo
vai-se em sal cristalizando
na porta de sua casa
ou até na ponta da asa
de seu nariz fino e frágil,
de sua alma fina e frágil,
de sua certeza frágil
frágil frágil frágil frágil
mas que por frágil é ágil,
e na sua mala-sorte
se rirá êle da morte.
III
Este figura em nosso
pensamento secreto.
Num magoado alvoroço
o queremos marcado
a nos negar; depois
de sua negação
nos buscará. Em tudo
será pelo contrário
seu fado extra-ordinário.
Vergonha da família
que de nobre se humilha
na sua malincônica
tristura meio cômica,
dulciamara nux-vomica.
IV
Este hemos por bem
reduzir à simples
condição ninguém.
Não lavrará campo.
Tirará sustento
de algum mel nojento.
Há de ser violento
sem ter movimento.
Sofrerá tormenta
no melhor momento.
Não se sujeitando
a um poder celeste
ei-lo senão quando
de nudez se veste,
roga à escuridão
abrir-se em clarão.
Este será tonto
e amará no vinho
um novo equilíbrio
e seu passo tíbio
sairá na cola
de nenhum caminho.
V
— Não judie com o menino
compadre.
3 053
1
Carlos Drummond de Andrade
O Fim Das Coisas
Fechado o Cinema Odeon, na Rua da Bahia.
Fechado para sempre.
Não é possível, minha mocidade
fecha com ele um pouco.
Não amadureci ainda bastante
para aceitar a morte das coisas
que minhas coisas são, sendo de outrem,
e até aplaudi-la, quando for o caso.
(Amadurecerei um dia?)
Não aceito, por enquanto, o Cinema Glória,
maior, mais americano, mais isso e aquilo.
Quero é o derrotado Cinema Odeon,
o miúdo, fora de moda Cinema Odeon.
A espera na sala de espera. A matinê
com Buck Jones, tombos, tiros, tramas.
A primeira sessão e a segunda sessão da noite.
A divina orquestra, mesmo não divina,
costumeira. O jornal da Fox. William S. Hart.
As meninas de família na plateia.
A impossível (sonhada) bolinação,
pobre sátiro em potencial.
Exijo em nome da lei ou fora da lei
que se reabram as portas e volte o passado
musical, waldemarpissilândico, sublime agora
que para sempre submerge em funeral de sombras
neste primeiro lutulento de janeiro
de 1928.
Fechado para sempre.
Não é possível, minha mocidade
fecha com ele um pouco.
Não amadureci ainda bastante
para aceitar a morte das coisas
que minhas coisas são, sendo de outrem,
e até aplaudi-la, quando for o caso.
(Amadurecerei um dia?)
Não aceito, por enquanto, o Cinema Glória,
maior, mais americano, mais isso e aquilo.
Quero é o derrotado Cinema Odeon,
o miúdo, fora de moda Cinema Odeon.
A espera na sala de espera. A matinê
com Buck Jones, tombos, tiros, tramas.
A primeira sessão e a segunda sessão da noite.
A divina orquestra, mesmo não divina,
costumeira. O jornal da Fox. William S. Hart.
As meninas de família na plateia.
A impossível (sonhada) bolinação,
pobre sátiro em potencial.
Exijo em nome da lei ou fora da lei
que se reabram as portas e volte o passado
musical, waldemarpissilândico, sublime agora
que para sempre submerge em funeral de sombras
neste primeiro lutulento de janeiro
de 1928.
2 238
1
Jorge de Sousa Braga
Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca
"De manhã vamos todos acordar com uma peróla no cu”, Fenda, 1981
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca
"De manhã vamos todos acordar com uma peróla no cu”, Fenda, 1981
1 010
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Três Parcas
As três Parcas que tecem os errados
Caminhos onde a rir atraiçoamos
O puro tempo onde jamais chegamos
As três Parcas conhecem os maus fados.
Por nós elas esperam nos trocados
Caminhos onde cegos nos trocamos
Por alguém que não somos nem amamos
Mas que presos nos leva e dominados.
E nunca mais o doce vento aéreo
Nos levará ao mundo desejado
E nunca mais o rosto do mistério
Será o nosso rosto conquistado
Nem nos darão os deuses o império
Que à nossa espera tinham inventado.
Caminhos onde a rir atraiçoamos
O puro tempo onde jamais chegamos
As três Parcas conhecem os maus fados.
Por nós elas esperam nos trocados
Caminhos onde cegos nos trocamos
Por alguém que não somos nem amamos
Mas que presos nos leva e dominados.
E nunca mais o doce vento aéreo
Nos levará ao mundo desejado
E nunca mais o rosto do mistério
Será o nosso rosto conquistado
Nem nos darão os deuses o império
Que à nossa espera tinham inventado.
2 922
1