Poemas neste tema
Política e Poder
Afonso X
Joam Rodriguiz, Vejo-Vos Queixar
Joam Rodriguiz, vejo-vos queixar
[...]
E com'homem que quer mal doitear
seus naturaes, sol non'o provedes:
ca nom som mais de dous, e haveredes-
-los a perder polos muito afrontar;
e sobr'esto vos dig'eu ora al:
daquestes dous, o que en meos val
vos fará gram mêngua, se o perdedes.
E se queredes conselho filhar,
creede-m'or', e bem vos acharedes:
nunca muito de vó-l'os alonguedes,
ca nom podedes outros taes achar
que vos nom conhoscam quem sodes nem qual;
e se vos destes dous end'ũum fal,
que por minguado que vos en terredes!
[...]
E com'homem que quer mal doitear
seus naturaes, sol non'o provedes:
ca nom som mais de dous, e haveredes-
-los a perder polos muito afrontar;
e sobr'esto vos dig'eu ora al:
daquestes dous, o que en meos val
vos fará gram mêngua, se o perdedes.
E se queredes conselho filhar,
creede-m'or', e bem vos acharedes:
nunca muito de vó-l'os alonguedes,
ca nom podedes outros taes achar
que vos nom conhoscam quem sodes nem qual;
e se vos destes dous end'ũum fal,
que por minguado que vos en terredes!
530
Afonso X
Ua Pregunta Vos Quero Fazer
- Ũa pregunta vos quero fazer,
senhor, que mi devedes afazer:
por que viestes jantares comer,
que home nunca de vosso logar
comeu? [E] esto que pode seer,
ca vej'ende os herdeiros queixar?
- Pa[a]i Gómez, quero-vos responder,
por vos fazer a verdade saber:
houv[e] aqui reis de maior poder
[em] conquerer e em terras ganhar,
mais nom quem houvesse maior prazer
de comer, quando lhi dam bom jantar.
- Senhor, por esto nom dig'eu de nom,
de bem jantardes, ca é gram razom;
mailos herdeiros foro de Leon
querriam vosco, porque ham pavor
d'haver sobre lo seu vosc'entençom
e xe lhis parar outr'ano peior.
- Pa[a]i Gómez, assi Deus mi perdom,
mui gram temp'há que nom foi em Carriom,
nem mi derom meu jantar em Monçom;
e por esto nom sõo pecador,
de comer bem, pois mi o dam em doaçom,
ca de mui bom jantar hei gram sabor.
senhor, que mi devedes afazer:
por que viestes jantares comer,
que home nunca de vosso logar
comeu? [E] esto que pode seer,
ca vej'ende os herdeiros queixar?
- Pa[a]i Gómez, quero-vos responder,
por vos fazer a verdade saber:
houv[e] aqui reis de maior poder
[em] conquerer e em terras ganhar,
mais nom quem houvesse maior prazer
de comer, quando lhi dam bom jantar.
- Senhor, por esto nom dig'eu de nom,
de bem jantardes, ca é gram razom;
mailos herdeiros foro de Leon
querriam vosco, porque ham pavor
d'haver sobre lo seu vosc'entençom
e xe lhis parar outr'ano peior.
- Pa[a]i Gómez, assi Deus mi perdom,
mui gram temp'há que nom foi em Carriom,
nem mi derom meu jantar em Monçom;
e por esto nom sõo pecador,
de comer bem, pois mi o dam em doaçom,
ca de mui bom jantar hei gram sabor.
751
Afonso Lopes de Baião
Deu Ora El-Rei Seus Dinheiros
Deu ora el-rei seus dinheiros
a Belpelho, que mostrasse
em alardo cavaleiros
e por ric'homem ficasse;
e pareceo o Sarilho
com sa sela de badana:
qual ric'homem, tal vassalo,
qual concelho, tal campana!
a Belpelho, que mostrasse
em alardo cavaleiros
e por ric'homem ficasse;
e pareceo o Sarilho
com sa sela de badana:
qual ric'homem, tal vassalo,
qual concelho, tal campana!
586
Mário-Henrique Leiria
Aviso Urgente
Quando as coisas que hão-de vir
chegarem
confúcio buda lao-tsé
reis barbudos pendões e caldeiros duvidosos
arnezes oscilantes aríetes sem emprego fixo
reis imberbes e condutores de noite aprisionada
cristo maomé
conquistadores a construir pirâmides inúteis
vitória e os seus lagos imperiais
e outros muitos sempre
estarão nos livros
de consulta e história analítica
os paraísos diversos indicados
tornar-se-ão textos curiosos
em microfilme encadernado
levado na mala exacta
das férias pelo espaço
serão armas perfeitamente abandonadas
do medo ainda a querer viver
nas propostas teo ilógicas
de uma morte para além da morte
paraísos dispersos mastigando-se
fornecidos com molho especial
mas mesmo assim
quotidianamente incertos na afirmação
das garantias oportunas
de uma wall street de promessas
em inflação constante
colunas templárias sem cavalo de sela
para ser montado
pequenas fábricas do acontecer
obrigatório por esperança empacotada
memórias
de santos mártires heróis santos efectivos
no livro de registo caligráfico
para a organização menor da lepra em família
três mártires três
todos na panela sem tempero hoje
prato do dia por enquanto
santos
vários
a lista é grande
tiveram sortes imagísticas abundantes
e heróis
ainda em produção contínua
na necessidade urgente de criar novos modelos
e pô-los em circulação imediata
antes que a história os recuse
um carimbo eficaz no peito
a garantir origem qualidade e preço
e alguma perna a menos para andar
tudo isto nos textos em que estará a recordação
de cóleras bancos pestes governos
batalhas casamentos impreteríveis
ducados colónias sobras de banquetes bíblicos
notícias de suicídios
sexos mutilados cidades afundadas
quando as coisas que hão-de vir
chegarem
chegarem
confúcio buda lao-tsé
reis barbudos pendões e caldeiros duvidosos
arnezes oscilantes aríetes sem emprego fixo
reis imberbes e condutores de noite aprisionada
cristo maomé
conquistadores a construir pirâmides inúteis
vitória e os seus lagos imperiais
e outros muitos sempre
estarão nos livros
de consulta e história analítica
os paraísos diversos indicados
tornar-se-ão textos curiosos
em microfilme encadernado
levado na mala exacta
das férias pelo espaço
serão armas perfeitamente abandonadas
do medo ainda a querer viver
nas propostas teo ilógicas
de uma morte para além da morte
paraísos dispersos mastigando-se
fornecidos com molho especial
mas mesmo assim
quotidianamente incertos na afirmação
das garantias oportunas
de uma wall street de promessas
em inflação constante
colunas templárias sem cavalo de sela
para ser montado
pequenas fábricas do acontecer
obrigatório por esperança empacotada
memórias
de santos mártires heróis santos efectivos
no livro de registo caligráfico
para a organização menor da lepra em família
três mártires três
todos na panela sem tempero hoje
prato do dia por enquanto
santos
vários
a lista é grande
tiveram sortes imagísticas abundantes
e heróis
ainda em produção contínua
na necessidade urgente de criar novos modelos
e pô-los em circulação imediata
antes que a história os recuse
um carimbo eficaz no peito
a garantir origem qualidade e preço
e alguma perna a menos para andar
tudo isto nos textos em que estará a recordação
de cóleras bancos pestes governos
batalhas casamentos impreteríveis
ducados colónias sobras de banquetes bíblicos
notícias de suicídios
sexos mutilados cidades afundadas
quando as coisas que hão-de vir
chegarem
462
Mário-Henrique Leiria
A Estratégia
Vejamos
perguntou o capitão
como vai indo
essa instrução?
vai muito bem
um caso lindo
disse o sargento
falando a contento
ao capitão
e veio a guerra
então a instrução
pôs o boné
e entrou
logo em acção
como vai indo
essa função?
perguntou o general
ao capitão
vejamos
expôs o capitão
o importante
sempre tenho dito
e repito
é levar a instrução
avante
e foi assim
que acabada a guerra
o capitão ficou
Napoleão
perguntou o capitão
como vai indo
essa instrução?
vai muito bem
um caso lindo
disse o sargento
falando a contento
ao capitão
e veio a guerra
então a instrução
pôs o boné
e entrou
logo em acção
como vai indo
essa função?
perguntou o general
ao capitão
vejamos
expôs o capitão
o importante
sempre tenho dito
e repito
é levar a instrução
avante
e foi assim
que acabada a guerra
o capitão ficou
Napoleão
627
Mário-Henrique Leiria
Depois de fuzilado
Depois de fuzilado
ao levar
o tiro na nuca pra acabar
chateou-se
e viu-se obrigado
a explicar
ao major
que comandava o pelotão
que o tinha fuzilado
por favor
preste atenção
e não me obrigue a repetir
a repreensão
na próxima vez
que mandar matar
dê tempo ao morto
pra gritar
convicto
um último viva de revolução
ao levar
o tiro na nuca pra acabar
chateou-se
e viu-se obrigado
a explicar
ao major
que comandava o pelotão
que o tinha fuzilado
por favor
preste atenção
e não me obrigue a repetir
a repreensão
na próxima vez
que mandar matar
dê tempo ao morto
pra gritar
convicto
um último viva de revolução
387
Mário-Henrique Leiria
WILHELM REICH
Passando como a faca profissional
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
628
Mário-Henrique Leiria
LIÇÃO DE ANATOMIA
Todos ouviram a palavra que foi dita.
Como todos sabiam que pensar
era um cargo importante e bastante arriscado,
resolveram pôr a palavra dentro do
chapéu e olhar, com cuidado,
para o lado esquerdo.
Foi então que veio
A Ocasião, de fato de xadrez,
e vários documentos
comprovativos
que justificassem o aparecimento
das coisas contraditórias.
Mas os sindicatos lá estavam,
muito crescidos, muito gordos,
a porem ovos que punham.
Por esta razão todos sentiam que
pensar se estava a tornar uma
responsabilidade urgente,
tão urgente que houve alguns
que se esqueceram de o fazer.
A palavra continua a ser dita e todos nós
sabemos que o pensar nos está a sair
pelos olhos, pelos ouvidos e
pelo nariz e que
também nos é arrancado muitas vezes pelas costas.
Como todos sabiam que pensar
era um cargo importante e bastante arriscado,
resolveram pôr a palavra dentro do
chapéu e olhar, com cuidado,
para o lado esquerdo.
Foi então que veio
A Ocasião, de fato de xadrez,
e vários documentos
comprovativos
que justificassem o aparecimento
das coisas contraditórias.
Mas os sindicatos lá estavam,
muito crescidos, muito gordos,
a porem ovos que punham.
Por esta razão todos sentiam que
pensar se estava a tornar uma
responsabilidade urgente,
tão urgente que houve alguns
que se esqueceram de o fazer.
A palavra continua a ser dita e todos nós
sabemos que o pensar nos está a sair
pelos olhos, pelos ouvidos e
pelo nariz e que
também nos é arrancado muitas vezes pelas costas.
794
Francesca Angiolillo
Etiópia, Etiópia
Etiopía era a estação
de metrô da minha casa
quando eu me mudei daqui –
você logo
se lembrou
da Etiópia.
A estação de metrô tinha
uma cabeça de leão
como emblema
a sua Etiópia tinha
um filhote de chacal e
um imperador
segurando o filhote de animal
uma pedra no anel
no dedo do imperador
sobre a cabeça do filhote
– nela brilhava o sol.
O fascismo que você
deplorou do alto
de seus oito anos
na fila do leite
porque leite não havia
ergueu cidades
na Etiópia.
(No ano em que você nasceu
o imperador foi eleito
homem do ano
da Time Magazine;
depois disso
bem depois um tanto depois de
nascida eu
outras crianças passaram fome
sem direito a fila
no vale do rio Omo.)
Nunca soube das cidades
que você não ergueu
nas terras de Afar
onde Lucy nossa mãe
até hoje está
mas sei da pedra do anel
no dedo de
Haile
Selassie
como se eu estivesse lá
como se eu fosse você.
Sua Etiópia hoje é
uma fotografia
– nela você aparece
cercado de gente
negra pintada –
guardada
numa caixa
de papelão.
de metrô da minha casa
quando eu me mudei daqui –
você logo
se lembrou
da Etiópia.
A estação de metrô tinha
uma cabeça de leão
como emblema
a sua Etiópia tinha
um filhote de chacal e
um imperador
segurando o filhote de animal
uma pedra no anel
no dedo do imperador
sobre a cabeça do filhote
– nela brilhava o sol.
O fascismo que você
deplorou do alto
de seus oito anos
na fila do leite
porque leite não havia
ergueu cidades
na Etiópia.
(No ano em que você nasceu
o imperador foi eleito
homem do ano
da Time Magazine;
depois disso
bem depois um tanto depois de
nascida eu
outras crianças passaram fome
sem direito a fila
no vale do rio Omo.)
Nunca soube das cidades
que você não ergueu
nas terras de Afar
onde Lucy nossa mãe
até hoje está
mas sei da pedra do anel
no dedo de
Haile
Selassie
como se eu estivesse lá
como se eu fosse você.
Sua Etiópia hoje é
uma fotografia
– nela você aparece
cercado de gente
negra pintada –
guardada
numa caixa
de papelão.
721
Zulmira Ribeiro Tavares
Abaixo da linha de pobreza
Ora vejo a linha de pobreza no contorno irregular
dos prédios, altos, baixos, ou das pequenas casas de
autoconstrução na encosta dos morros.
A linha que mais me atinge é a reta, que vai de
um ponto a outro sem desvio. Sei que nela há
números. Quais, não sei. Ainda que não tenha cor,
peso, e tangencie o invisível, é forte. Li a propósito.
Considero a linha do horizonte a que mais se
aproxima do que imagino ser a linha de pobreza.
Da cidade, ver o horizonte é difícil, ou se apresenta
com defeito. Rememoro-o distante, no fim do mar.
Deve ser de lá que a retiram, a linha de pobreza,
com régua e compasso: para raciocínio e ação.
Pois impossível que não exista primeiro na paisagem,
material, resistente. Tem de existir, como certas
fibras arrancadas à natureza para com elas se fazer
feixes, relhos, assim como servem de enfeite as
penas de belas aves.
Verdade que ao longo da vida passaram-me diante
dos olhos gráficos estampados em folhas de
jornal. Alguns diziam respeito à linha de pobreza.
Neles, seu traçado não remetia ao limite que se
tem do mar, longe, e por vezes mesmo delineou
o contorno de ondas crespas e próximas ou, além,
de escarpas, promontórios. Puras formas da
física terrestre, impetuosas, dramáticas, tocando
o interior dos homens de modo diverso ao da
linha do horizonte - que os acalenta com o sono,
a tranquilidade ou a morte.
Abaixo da linha de pobreza não me chegam ideias.
dos prédios, altos, baixos, ou das pequenas casas de
autoconstrução na encosta dos morros.
A linha que mais me atinge é a reta, que vai de
um ponto a outro sem desvio. Sei que nela há
números. Quais, não sei. Ainda que não tenha cor,
peso, e tangencie o invisível, é forte. Li a propósito.
Considero a linha do horizonte a que mais se
aproxima do que imagino ser a linha de pobreza.
Da cidade, ver o horizonte é difícil, ou se apresenta
com defeito. Rememoro-o distante, no fim do mar.
Deve ser de lá que a retiram, a linha de pobreza,
com régua e compasso: para raciocínio e ação.
Pois impossível que não exista primeiro na paisagem,
material, resistente. Tem de existir, como certas
fibras arrancadas à natureza para com elas se fazer
feixes, relhos, assim como servem de enfeite as
penas de belas aves.
Verdade que ao longo da vida passaram-me diante
dos olhos gráficos estampados em folhas de
jornal. Alguns diziam respeito à linha de pobreza.
Neles, seu traçado não remetia ao limite que se
tem do mar, longe, e por vezes mesmo delineou
o contorno de ondas crespas e próximas ou, além,
de escarpas, promontórios. Puras formas da
física terrestre, impetuosas, dramáticas, tocando
o interior dos homens de modo diverso ao da
linha do horizonte - que os acalenta com o sono,
a tranquilidade ou a morte.
Abaixo da linha de pobreza não me chegam ideias.
797
Ricardo Aleixo
Paupéria revisitada
Putas, como os deuses,
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
839
Ricardo Aleixo
Brancos
eles que são brancos e os que não são eles
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se
1 058
Alexandre Guarnieri
Tirem leite de pedra
Tirem leite de pedra,
extraiam ouro da merda,
nenhuma esquerda ecoa
nada providencia a sombra boa
neste calor da porra, do primeiro
pau-brasil não sobrou sequer o talo
o cepo seco, nenhuma urina insípida
ativa a latrina neste país de pus
e súlfur, aqui é o cu do judas
é onde o vento faz a curva
onde não há cura pro mal, só
carnaval, há curra pra cultura
o show da vida, a mídia burra
a língua culta contra a fala chula
é pau na bunda da turba, é pica
sifilítica pro boquete dos
banguelas “the horror – a merda
– the horror – a merda”
domingos no parque com pique-
niques de alpiste – “é triste” –
farinha e água e mais nada
aqui é o parque da gentalha
ávida por favores e dádivas
terra brasilis sob o piche
nem ave-maria ou reza pra virgem
salvam este projeto inexequível
democracia de cu é rola, no
planalto a apoteose da sandice
onde tudo que existe é alpiste
farinha e água e mais nada
alguma boa intenção resiste?
é, amigos, é triste
extraiam ouro da merda,
nenhuma esquerda ecoa
nada providencia a sombra boa
neste calor da porra, do primeiro
pau-brasil não sobrou sequer o talo
o cepo seco, nenhuma urina insípida
ativa a latrina neste país de pus
e súlfur, aqui é o cu do judas
é onde o vento faz a curva
onde não há cura pro mal, só
carnaval, há curra pra cultura
o show da vida, a mídia burra
a língua culta contra a fala chula
é pau na bunda da turba, é pica
sifilítica pro boquete dos
banguelas “the horror – a merda
– the horror – a merda”
domingos no parque com pique-
niques de alpiste – “é triste” –
farinha e água e mais nada
aqui é o parque da gentalha
ávida por favores e dádivas
terra brasilis sob o piche
nem ave-maria ou reza pra virgem
salvam este projeto inexequível
democracia de cu é rola, no
planalto a apoteose da sandice
onde tudo que existe é alpiste
farinha e água e mais nada
alguma boa intenção resiste?
é, amigos, é triste
701
Alexandre Guarnieri
Terrorismo doméstico
toda ira sanguínea direcionada
ao centro político
de um país em ruínas
– quem está comigo ? –
todo menosprezo e escárnio
lançados ao povo ( sufocado
por desgosto e impostos )
enquanto os ricos óbvios
reciclam a pobreza anônima
em periferias que agonizam
por negligência e frieza
– quem está comigo ? –
a massa ignara, manobrada,
alimentando o monstro nacional
cujo apetite desconhece
qualquer limite: estúpida república
de furto e conluio inconclusivo,
os fulcros do lucro auscultam
( incubus/ sucubus/ exus pedem justiça )
evangélicos esconjuram o assunto
jejuando nus a um jesus em decúbito)
– quem está comigo ? –
se somos ilhas, se somos bichos,
se somos lixo, se somos nada
além da soma do que é desprezível
– quem está comigo
para explodir Brasília ? –
ao centro político
de um país em ruínas
– quem está comigo ? –
todo menosprezo e escárnio
lançados ao povo ( sufocado
por desgosto e impostos )
enquanto os ricos óbvios
reciclam a pobreza anônima
em periferias que agonizam
por negligência e frieza
– quem está comigo ? –
a massa ignara, manobrada,
alimentando o monstro nacional
cujo apetite desconhece
qualquer limite: estúpida república
de furto e conluio inconclusivo,
os fulcros do lucro auscultam
( incubus/ sucubus/ exus pedem justiça )
evangélicos esconjuram o assunto
jejuando nus a um jesus em decúbito)
– quem está comigo ? –
se somos ilhas, se somos bichos,
se somos lixo, se somos nada
além da soma do que é desprezível
– quem está comigo
para explodir Brasília ? –
655
Alexandre Guarnieri
Motim 2.0
“às ordens, hei-me!”, “às ordens, hei-me!”,
ó rei errado! que cansei de estar calado
aos despautérios do patrão!
contra as egrégoras brutais
deste transporte lento, gangrênico:
ergo-me! contra as regras cegas
desse presente de grego, ergo-me!
contra o determinado tédio inédito,
sem término, sem trégua, numa guerra
contra o dono dessa redoma total
cujo domínio sombrio mina em mim
o dom de homem, ergo-me! entretanto
um nome sempre me reencontra: o meu,
tornado mero número no ministério,
na carteira de trabalho, na zona eleitoral,
a mera estatística nas fileiras da mídia,
um álibi, “eis-me!”, um pobre anônimo,
rasgado e desgraçado, mas apto ao bom combate,
grato pela chance de gritar nas ruas
contra o desrespeito do governo,
nesta câmara de gás lacrimogêneo,
lacrada, a que chamamos, hoje,
Brasil ou
Rio de Janeiro
ó rei errado! que cansei de estar calado
aos despautérios do patrão!
contra as egrégoras brutais
deste transporte lento, gangrênico:
ergo-me! contra as regras cegas
desse presente de grego, ergo-me!
contra o determinado tédio inédito,
sem término, sem trégua, numa guerra
contra o dono dessa redoma total
cujo domínio sombrio mina em mim
o dom de homem, ergo-me! entretanto
um nome sempre me reencontra: o meu,
tornado mero número no ministério,
na carteira de trabalho, na zona eleitoral,
a mera estatística nas fileiras da mídia,
um álibi, “eis-me!”, um pobre anônimo,
rasgado e desgraçado, mas apto ao bom combate,
grato pela chance de gritar nas ruas
contra o desrespeito do governo,
nesta câmara de gás lacrimogêneo,
lacrada, a que chamamos, hoje,
Brasil ou
Rio de Janeiro
638
Horácio Costa
DULCÍMERO E FORMAÇÃO BRASILEIRA
Para João Silvério Trevisan
pense em congregar pessoas
para estudar um tópico
que a elas interesse:
o dulcímero
e peça à universidade
e seus oficiais e às fundações
e seus oficiais e a quem
de direito:
queremos estudar o dulcímero
porque ele é fundamental
para a formação brasileira
e sem dúvida haverá compreensão
da universidade e seus oficiais
das fundações e seus oficiais
e de quem de direito
porque sem o dulcímero
não se entende a formação
do Brasil nem de sua gente
e do que seremos quando formos
então está bem estudemos o dulcímero
para evitarmos pedir verba
tutu l’argent recursos
para estudar por exemplo
a homocultura ora bem
a veadagem secular do Brasil
que resultou nesses doze milhões de veados
do Oiapoque ao Chuí
porque aí não estará bem
os oficiais torcerão o nariz
e te darão chá de cadeira e enfim
sempre poderão dizer que o prazo
já passou que o formulário
não foi bem preenchido que a
certidão está caduca e ainda
algo mais como
faltou também pedir para estudar
o dulcímero
senhor professor doutor
sem o dulcímero
não podemos apoiar a sua iniciativa
não é preconceito não
nada de homofobia
menos contra a veadagem
e o senhor:
agora só há verba para estudar
o dulcímero
pense em congregar pessoas
para estudar um tópico
que a elas interesse:
o dulcímero
e peça à universidade
e seus oficiais e às fundações
e seus oficiais e a quem
de direito:
queremos estudar o dulcímero
porque ele é fundamental
para a formação brasileira
e sem dúvida haverá compreensão
da universidade e seus oficiais
das fundações e seus oficiais
e de quem de direito
porque sem o dulcímero
não se entende a formação
do Brasil nem de sua gente
e do que seremos quando formos
então está bem estudemos o dulcímero
para evitarmos pedir verba
tutu l’argent recursos
para estudar por exemplo
a homocultura ora bem
a veadagem secular do Brasil
que resultou nesses doze milhões de veados
do Oiapoque ao Chuí
porque aí não estará bem
os oficiais torcerão o nariz
e te darão chá de cadeira e enfim
sempre poderão dizer que o prazo
já passou que o formulário
não foi bem preenchido que a
certidão está caduca e ainda
algo mais como
faltou também pedir para estudar
o dulcímero
senhor professor doutor
sem o dulcímero
não podemos apoiar a sua iniciativa
não é preconceito não
nada de homofobia
menos contra a veadagem
e o senhor:
agora só há verba para estudar
o dulcímero
591
Golgona Anghel
Não me interessa
Não me interessa o que
dizem os dissidentes da ditadura.
Mas confesso que gostava dos chocolates Toblerone
que a minha tia me trazia no Natal.
Não acredito nos detidos políticos,
nem me impressionam os miúdos descalços
que mostram os dentes para as máquinas Minolta
dos turistas italianos.
Não vou pedir asilo.
Desconheço os avanços
ou retrocessos económicos do meu país.
Já falei de Drácula que chegue.
Já apanhei morangos na Andaluzia.
Já fui cigana, já fui puta.
Escusam de mo perguntar outra vez.
O que me preocupa – e isso, sim, pode ser relevante
para o fim da história – é saber
quando é que me transformei,
eu que era uma loba solitária,
neste caniche de apartamento que vos fala agora?
dizem os dissidentes da ditadura.
Mas confesso que gostava dos chocolates Toblerone
que a minha tia me trazia no Natal.
Não acredito nos detidos políticos,
nem me impressionam os miúdos descalços
que mostram os dentes para as máquinas Minolta
dos turistas italianos.
Não vou pedir asilo.
Desconheço os avanços
ou retrocessos económicos do meu país.
Já falei de Drácula que chegue.
Já apanhei morangos na Andaluzia.
Já fui cigana, já fui puta.
Escusam de mo perguntar outra vez.
O que me preocupa – e isso, sim, pode ser relevante
para o fim da história – é saber
quando é que me transformei,
eu que era uma loba solitária,
neste caniche de apartamento que vos fala agora?
810
Golgona Anghel
Em vez de continuarem a cuspir
Em vez de continuarem a cuspir,
enxuguem a baba,
metam os sapatinhos de vela
o colarinho branco,
e olhem fixamente para a câmara:
podem dizer mal de mim,
mas sorriam.
Não desperdicem
as últimas três gotas de Chanel n.º 5
que o ódio vos borrifou nos pulsos.
Usem sempre as melhores cartas,
citem-me,
sejam lordes quando espetam a navalha.
Eu sei quem são,
conheço o vosso heiro.
Eu também ganho as minhas medalhas
em lares, creches e hospitais.
Podem, se quiserem,
ir ao céu,
mas isso não implica que encontrem Deus.
Agora não façam de mim
este bicho exótico
apanhado de surpresa,
enquanto preparava um cocktail
molotov no penico
do seu habitat natural.
Não me cortem as garras,
nem me domestiquem a cama.
Se não conseguem encontrar a saída,
se acertaram em cheio,
neste buraco vazio,
fiquem e lavem-se!
Daqui ninguém sai com fome.
enxuguem a baba,
metam os sapatinhos de vela
o colarinho branco,
e olhem fixamente para a câmara:
podem dizer mal de mim,
mas sorriam.
Não desperdicem
as últimas três gotas de Chanel n.º 5
que o ódio vos borrifou nos pulsos.
Usem sempre as melhores cartas,
citem-me,
sejam lordes quando espetam a navalha.
Eu sei quem são,
conheço o vosso heiro.
Eu também ganho as minhas medalhas
em lares, creches e hospitais.
Podem, se quiserem,
ir ao céu,
mas isso não implica que encontrem Deus.
Agora não façam de mim
este bicho exótico
apanhado de surpresa,
enquanto preparava um cocktail
molotov no penico
do seu habitat natural.
Não me cortem as garras,
nem me domestiquem a cama.
Se não conseguem encontrar a saída,
se acertaram em cheio,
neste buraco vazio,
fiquem e lavem-se!
Daqui ninguém sai com fome.
1 064
Golgona Anghel
Vim porque me pagavam
Vim porque me pagavam,
e eu queria comprar o futuro a prestações.
Vim porque me falaram de apanhar cerejas
ou de armas de destruição em massa.
Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,
metralhadoras de plástico, coelhinhos da Páscoa e pulseiras
de lata.
A bordo, alguém falou de justiça
(não, não era o Marx).
A bordo, falavam também de liberdade.
Quantos mais morríamos,
mais liberdade tínhamos para matar.
Matava porque estavas perto,
porque os outros ficaram na esquina do supermercado
a falar, a debater o assunto.
Com estas mãos levantei a poeira
com que agora cubro os nossos corpos.
Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.
Alguém se atreve ainda a falar de posteridade?
Eu só penso em como regressar a casa;
e que bonito me fica a esperança
enquanto apresento em directo
a autópsia da minha glória.
e eu queria comprar o futuro a prestações.
Vim porque me falaram de apanhar cerejas
ou de armas de destruição em massa.
Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,
metralhadoras de plástico, coelhinhos da Páscoa e pulseiras
de lata.
A bordo, alguém falou de justiça
(não, não era o Marx).
A bordo, falavam também de liberdade.
Quantos mais morríamos,
mais liberdade tínhamos para matar.
Matava porque estavas perto,
porque os outros ficaram na esquina do supermercado
a falar, a debater o assunto.
Com estas mãos levantei a poeira
com que agora cubro os nossos corpos.
Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.
Alguém se atreve ainda a falar de posteridade?
Eu só penso em como regressar a casa;
e que bonito me fica a esperança
enquanto apresento em directo
a autópsia da minha glória.
1 122
Harry Martinson
CAVALO E CAVALEIRO
Centenas de gerações
tornaram nobre o cavalo árabe
ao serviço de muitos príncipes degenerescentes.
Por vezes também as caudas que se agitaram por esses déspotas
acabaram por lançá-los no precipício,
enquanto o árabe que carregava o tirano
retesava os cascos no solo e estacava
à borda do abismo.
Assim são os cavalos e outros animais nobres.
Por isso Goya e outros grandes artistas
nos seus retratos de cavaleiros, maior atenção
consagraram ao cavalo
que ao pouco importante ocasional cavalgador,
fosse ele um grosseirão, ou um refinado,
um principiante da sela
ou um veterano dela.
O sonho de reunir com segurança cavaleiro e cavalo
acabou por tornar-se centauro,
cavaleiro que é sua própria montada.
Esse do cavaleiro o desejo sonhado
de não ser nunca derrubado.
tornaram nobre o cavalo árabe
ao serviço de muitos príncipes degenerescentes.
Por vezes também as caudas que se agitaram por esses déspotas
acabaram por lançá-los no precipício,
enquanto o árabe que carregava o tirano
retesava os cascos no solo e estacava
à borda do abismo.
Assim são os cavalos e outros animais nobres.
Por isso Goya e outros grandes artistas
nos seus retratos de cavaleiros, maior atenção
consagraram ao cavalo
que ao pouco importante ocasional cavalgador,
fosse ele um grosseirão, ou um refinado,
um principiante da sela
ou um veterano dela.
O sonho de reunir com segurança cavaleiro e cavalo
acabou por tornar-se centauro,
cavaleiro que é sua própria montada.
Esse do cavaleiro o desejo sonhado
de não ser nunca derrubado.
801
Tomas Tranströmer
Acerca da História
Num dia de Março caminhei para escutar até à beira do lago.
O gelo era azul como o céu. E quebrava-se ao sol.
O sol sussurrava a um microfone debaixo do gelo.
Há um fervilhar e borbotar. De longe parece uma folha de papel
a ser amarrotada.
Tudo isto é como a História: o nosso presente. Descemos
nele, escutamos.
II
Conferências são como ilhas instáveis e voadoras.
Epílogo: uma frágil ponte suspensa de compromissos.
O tráfego inteiro passa por cima daquela ponte debaixo de estrelas,
debaixo de faces de crianças ainda por nascer, pálidas,
abandonadas, sem nome como grãos de arroz.
III
Em 1926, Goethe visitou a África disfarçado de Gide e reparou
nisso.
Há rostos que se tornam mais nítidos pelo que vêem depois da morte.
Ao chegarem notícias diárias da Argélia pela rádio
vi uma casa enorme e todas as janelas da casa eram escuras
excepto uma. Era dessa mesma que o rosto de Dreyfus olhava.
IV
Radical e Reaccionário vivem juntos como num casamento
miserável,
diminuídos um pelo outro, encostados um ao outro.
Mas nós, os seus filhos, temos de encontrar o nosso caminho.
Cada problema exige a sua linguagem privada.
Por qualquer vereda em que haja um traço de verdade, caminhem.
V
Num baldio não longe das leiras
há meses que está um jornal aberto cheio de notícias.
Envelhece devido ao dia e à noite, chuva e sol.
Está a ponto de se tornar uma planta, um repolho. Está
a unir-se à terra
como uma memória antiga que se transforma gradualmente em ti.
O gelo era azul como o céu. E quebrava-se ao sol.
O sol sussurrava a um microfone debaixo do gelo.
Há um fervilhar e borbotar. De longe parece uma folha de papel
a ser amarrotada.
Tudo isto é como a História: o nosso presente. Descemos
nele, escutamos.
II
Conferências são como ilhas instáveis e voadoras.
Epílogo: uma frágil ponte suspensa de compromissos.
O tráfego inteiro passa por cima daquela ponte debaixo de estrelas,
debaixo de faces de crianças ainda por nascer, pálidas,
abandonadas, sem nome como grãos de arroz.
III
Em 1926, Goethe visitou a África disfarçado de Gide e reparou
nisso.
Há rostos que se tornam mais nítidos pelo que vêem depois da morte.
Ao chegarem notícias diárias da Argélia pela rádio
vi uma casa enorme e todas as janelas da casa eram escuras
excepto uma. Era dessa mesma que o rosto de Dreyfus olhava.
IV
Radical e Reaccionário vivem juntos como num casamento
miserável,
diminuídos um pelo outro, encostados um ao outro.
Mas nós, os seus filhos, temos de encontrar o nosso caminho.
Cada problema exige a sua linguagem privada.
Por qualquer vereda em que haja um traço de verdade, caminhem.
V
Num baldio não longe das leiras
há meses que está um jornal aberto cheio de notícias.
Envelhece devido ao dia e à noite, chuva e sol.
Está a ponto de se tornar uma planta, um repolho. Está
a unir-se à terra
como uma memória antiga que se transforma gradualmente em ti.
696
Tomas Tranströmer
3 ESTROFES
1
O cavaleiro e a sua mulher
petrificada, mas feliz
na tampa de um caixão voador
para lá do tempo.
2
Jesus segurava uma moeda ao alto
com o perfil de Tibério,
um perfil sem amor,
o poder em circulação.
3
Uma espada fluente
extingue a memória.
No chão trompetas e pendentes
enferrujados.
O cavaleiro e a sua mulher
petrificada, mas feliz
na tampa de um caixão voador
para lá do tempo.
2
Jesus segurava uma moeda ao alto
com o perfil de Tibério,
um perfil sem amor,
o poder em circulação.
3
Uma espada fluente
extingue a memória.
No chão trompetas e pendentes
enferrujados.
623