Poemas neste tema
Protesto, Resistência e Revolução
Capinan
Canção de Minha Descoberta
Eis-me resignado.
Fugi de tudo que fui
e pelo caminho de minha renúncia
venho buscar bandeiras novas.
Agora persigo a palavra nova
por eles que esperam com o coração amargo
e o grito dentro do coração.
Não poderei aceitar o silêncio
e ficar em paz com a morte dos desgraçados
caídos sem voz em nossa porta.
As crianças minhas morreram todas,
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
e vou surgindo novo entre lenços brancos
agitados de dor pela mão dos homens.
Fugi de tudo que fui
e pelo caminho de minha renúncia
venho buscar bandeiras novas.
Agora persigo a palavra nova
por eles que esperam com o coração amargo
e o grito dentro do coração.
Não poderei aceitar o silêncio
e ficar em paz com a morte dos desgraçados
caídos sem voz em nossa porta.
As crianças minhas morreram todas,
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
e vou surgindo novo entre lenços brancos
agitados de dor pela mão dos homens.
1 244
Capinan
Canto Grave e Profundo
É pesado o desabar das horas no fim do céu,
que se faz tempo e tempo para socorrer
o sangue derramado nos campos de pedra e sol
dos que foram feitos morrer
sem estender a mão para o fruto
semeado e que se fez em resposta
ao trabalho da mão nos campos de pedra e sol
no mundo em processo de classes superpostas.
E o trigo foi para outros lábios
que não os que bendisseram a chuva
e choraram o sol com a fome dos filhos
e o pão foi servido na mesa de homens
que não os que bendisseram a chuva:
e é novamente preciso semear os campos de pedra e sol.
que se faz tempo e tempo para socorrer
o sangue derramado nos campos de pedra e sol
dos que foram feitos morrer
sem estender a mão para o fruto
semeado e que se fez em resposta
ao trabalho da mão nos campos de pedra e sol
no mundo em processo de classes superpostas.
E o trigo foi para outros lábios
que não os que bendisseram a chuva
e choraram o sol com a fome dos filhos
e o pão foi servido na mesa de homens
que não os que bendisseram a chuva:
e é novamente preciso semear os campos de pedra e sol.
1 354
J. B. Sayeg
No Tempo do Forte Verde
Na sala de jantar
um pouco acima
da cristaleira
o capacete da revolução.
E bem ao lado da terrina
de louça clara adornada
com frutos levemente esmaltados
o pente de balas de fuzil
espetava o dourado ocre do metal.
Foi quando olhei para a rua
e uma bandeira inflava levemente
ao ruflar de longínquos tambores.
Outra vez olhei para o interior
onde as mulheres costuravam.
Pude constatar que o verde
realmente era uma cor
muito forte.
( de Cavalos ao Sol, 1982)
um pouco acima
da cristaleira
o capacete da revolução.
E bem ao lado da terrina
de louça clara adornada
com frutos levemente esmaltados
o pente de balas de fuzil
espetava o dourado ocre do metal.
Foi quando olhei para a rua
e uma bandeira inflava levemente
ao ruflar de longínquos tambores.
Outra vez olhei para o interior
onde as mulheres costuravam.
Pude constatar que o verde
realmente era uma cor
muito forte.
( de Cavalos ao Sol, 1982)
952
José Bonifácio de Andrada e Silva
Ode aos Baianos
Altiva musa, ó tu que nunca incenso
Queimaste em nobre altar ao despotismo;
Nem insanos encômios proferiste
De cruéis demagogos;
Ambição de poder, orgulho e fausto
Que os servis amam tanto, nunca, ó musa,
Acenderam teu estro — a só virtude
Soube inspirar louvores.
Na abóbada do templo da memória
Nunca comprados cantos retumbaram:
Ali! vem, ó musa, vem: na lira doiro
Não cantarei horrores.
Arbitrária fortuna! desprezível
Mais quessas almas vis, que a ti se humilham,
Prosterne-se a teus pés o Brasil todo;
Eu, nem curvo o joelho.
Beijem o pé que esmaga, a mão que açoita
Escravos nados, sem saber, sem brio;
Que o bárbaro Tapuia, deslumbrado,
O deus do mal adora.
Não — reduzir-me a pó, roubar-me tudo,
Porém nunca aviltar-me pode o fado;
Quem a morte não teme, nada teme
Eu nisto só confio.
Inchado do poder, de orgulho e sanha,
Treme o vizir, se o grão-senhor carrega,
Porque mal digeriu, sobrolho iroso,
Ou mal dormiu a sesta.
Embora nos degraus do excelso trono
Rasteje a lesma para ver se abate
A virtude que odeia — a mim me alenta
Do que valho a certeza.
E vós também, BAIANOS, desprezastes
Ameaças, carinhos — desfizestes
As cabalas, que pérfidos urdiram
Inda no meu desterro.
Duas vezes, BAIANOS, me escolhestes
Para a voz levantar a pró da pátria
Na assembléia geral; mas duas vezes
Foram baldados votos.
Porém enquanto me animar o peito
Este sopro de vida, que inda dura,
O nome da BAHIA, agradecido,
Repetirei com júbilo.
Amei a liberdade, e a independência
Da doce cara pátria, a quem o Luso
Oprimia sem dó, com riso e mofa —
Eis o meu crime todo.
Cingida a fronte de sangüentos loiros,
Horror jamais inspirará meu nome;
Nunca a viúva há de pedir-me esposo,
Nem seu pai a criança.
Nunca aspirei a flagelar humanos —
Meu nome acabe, para sempre acabe,
Se para o libertar do eterno olvido
Forem precisos crimes.
Morrerei no desterro em terra estranha,
Que no Brasil só vis escravos medram —
Para mim o Brasil não é mais pátria,
Pois faltou a justiça.
Vales e serras, altas matas, rios,
Nunca mais vos verei — sonhei outrora
Poderia entre vós morrer contente;
Mas não — monstros o vedam.
Não verei mais a viração suave
Parar o aéreo vôo, e de mil flores
Roubar aromas, e brincar travessa
Co trêmulo raminho.
Oh! país sem igual, país mimoso!
Se habitassem em ti sabedoria,
Justiça, altivo brio, que enobrecem
Dos homens a existência;
De estranha emolução aceso o peito,
Lá me ia formando a fantasia
Projetos vil para vencer vil ócio,
Para criar prodígios!
Jardins, vergéis, umbrosas alamedas,
Frescas grutas então, piscosos lagos,
E pingues campos, sempre verdes prados
Um novo Éden fariam.
Doces visões! fugi! — ferinas almas
Querem que em França um desterrado morra:
Já vejo o gênio da certeira morte
Ir afiando a foice.
Galicana donzela, lacrimosa,
Trajando roupas lutuosas longas,
De meu pobre sepulcro a tosca loisa
Só cobrirá de flores.
Que o Brasil inclemente (ingrato ou fraco)
As minhas cinzas um buraco nega:
Talvez tempo virá que inda pranteie
Por mim com dor pungente.
Exulta, velha Europa: o novo Império,
Obra-prima do Céu! por fado ímpio
Não será mais o teu rival ativo
Em comércio e marinha.
Aquele, que gigante inda no berço
Se mostrava às nações, no berço mesmo
É já cadáver de cruéis harpias,
De malfazejas fúrias.
Como, ó Deus! que portento! a Urânia Vênus
Ante mim se apresenta? Riso meigo
Banha-me a linda boca, que escurece
Fino coral nas cores.
"Eu consultei os fados, que não incutem
(Assim me fala piedosa a deusa):
"Das trevas surgirá sereno dia
"Para ti, para a pátria.
"O constante varão, que ama a virtude,
"Cos berros da borrasca não se assusta,
"Nem como folha de álamo rejeite
"Treme à face dos males.
"Escapaste a cachopos mil ocultos,
"Em que há de naufragar como até agora,
"Tanto áulico perverso — em França, amigo,
"Foi teu desterro um porto.
"Os teus BAIANOS, nobres e briosos,
"Gratos serão a quem lhes deu socorro
"Contra o bárbaro Luso, e a liberdade
"Meteu no solo escravo.
"Há de enfim essa gente generosa
"As trevas dissipar, salvar o Império;
"Por eles liberdade paz, justiça
"Serão nervos do Estado.
"Qual a palmeira que domina ufana
"Os altos topos da floresta espessa:
"Tal bem presto há de ser no mundo novo
"O Brasil bem-fadado.
"Em vão de paixões vis cruzados ramos
"Tentarão impedir do sol os raios —
"A luz vai penetrando a copa opaca;
"O chão brotará flores."
Calou-se então — voou. E as soltas tranças
Em torno espalham mil sabeus perfumes,
E os zéfiros as asas adejando
Vazam dos ares rosas.
Queimaste em nobre altar ao despotismo;
Nem insanos encômios proferiste
De cruéis demagogos;
Ambição de poder, orgulho e fausto
Que os servis amam tanto, nunca, ó musa,
Acenderam teu estro — a só virtude
Soube inspirar louvores.
Na abóbada do templo da memória
Nunca comprados cantos retumbaram:
Ali! vem, ó musa, vem: na lira doiro
Não cantarei horrores.
Arbitrária fortuna! desprezível
Mais quessas almas vis, que a ti se humilham,
Prosterne-se a teus pés o Brasil todo;
Eu, nem curvo o joelho.
Beijem o pé que esmaga, a mão que açoita
Escravos nados, sem saber, sem brio;
Que o bárbaro Tapuia, deslumbrado,
O deus do mal adora.
Não — reduzir-me a pó, roubar-me tudo,
Porém nunca aviltar-me pode o fado;
Quem a morte não teme, nada teme
Eu nisto só confio.
Inchado do poder, de orgulho e sanha,
Treme o vizir, se o grão-senhor carrega,
Porque mal digeriu, sobrolho iroso,
Ou mal dormiu a sesta.
Embora nos degraus do excelso trono
Rasteje a lesma para ver se abate
A virtude que odeia — a mim me alenta
Do que valho a certeza.
E vós também, BAIANOS, desprezastes
Ameaças, carinhos — desfizestes
As cabalas, que pérfidos urdiram
Inda no meu desterro.
Duas vezes, BAIANOS, me escolhestes
Para a voz levantar a pró da pátria
Na assembléia geral; mas duas vezes
Foram baldados votos.
Porém enquanto me animar o peito
Este sopro de vida, que inda dura,
O nome da BAHIA, agradecido,
Repetirei com júbilo.
Amei a liberdade, e a independência
Da doce cara pátria, a quem o Luso
Oprimia sem dó, com riso e mofa —
Eis o meu crime todo.
Cingida a fronte de sangüentos loiros,
Horror jamais inspirará meu nome;
Nunca a viúva há de pedir-me esposo,
Nem seu pai a criança.
Nunca aspirei a flagelar humanos —
Meu nome acabe, para sempre acabe,
Se para o libertar do eterno olvido
Forem precisos crimes.
Morrerei no desterro em terra estranha,
Que no Brasil só vis escravos medram —
Para mim o Brasil não é mais pátria,
Pois faltou a justiça.
Vales e serras, altas matas, rios,
Nunca mais vos verei — sonhei outrora
Poderia entre vós morrer contente;
Mas não — monstros o vedam.
Não verei mais a viração suave
Parar o aéreo vôo, e de mil flores
Roubar aromas, e brincar travessa
Co trêmulo raminho.
Oh! país sem igual, país mimoso!
Se habitassem em ti sabedoria,
Justiça, altivo brio, que enobrecem
Dos homens a existência;
De estranha emolução aceso o peito,
Lá me ia formando a fantasia
Projetos vil para vencer vil ócio,
Para criar prodígios!
Jardins, vergéis, umbrosas alamedas,
Frescas grutas então, piscosos lagos,
E pingues campos, sempre verdes prados
Um novo Éden fariam.
Doces visões! fugi! — ferinas almas
Querem que em França um desterrado morra:
Já vejo o gênio da certeira morte
Ir afiando a foice.
Galicana donzela, lacrimosa,
Trajando roupas lutuosas longas,
De meu pobre sepulcro a tosca loisa
Só cobrirá de flores.
Que o Brasil inclemente (ingrato ou fraco)
As minhas cinzas um buraco nega:
Talvez tempo virá que inda pranteie
Por mim com dor pungente.
Exulta, velha Europa: o novo Império,
Obra-prima do Céu! por fado ímpio
Não será mais o teu rival ativo
Em comércio e marinha.
Aquele, que gigante inda no berço
Se mostrava às nações, no berço mesmo
É já cadáver de cruéis harpias,
De malfazejas fúrias.
Como, ó Deus! que portento! a Urânia Vênus
Ante mim se apresenta? Riso meigo
Banha-me a linda boca, que escurece
Fino coral nas cores.
"Eu consultei os fados, que não incutem
(Assim me fala piedosa a deusa):
"Das trevas surgirá sereno dia
"Para ti, para a pátria.
"O constante varão, que ama a virtude,
"Cos berros da borrasca não se assusta,
"Nem como folha de álamo rejeite
"Treme à face dos males.
"Escapaste a cachopos mil ocultos,
"Em que há de naufragar como até agora,
"Tanto áulico perverso — em França, amigo,
"Foi teu desterro um porto.
"Os teus BAIANOS, nobres e briosos,
"Gratos serão a quem lhes deu socorro
"Contra o bárbaro Luso, e a liberdade
"Meteu no solo escravo.
"Há de enfim essa gente generosa
"As trevas dissipar, salvar o Império;
"Por eles liberdade paz, justiça
"Serão nervos do Estado.
"Qual a palmeira que domina ufana
"Os altos topos da floresta espessa:
"Tal bem presto há de ser no mundo novo
"O Brasil bem-fadado.
"Em vão de paixões vis cruzados ramos
"Tentarão impedir do sol os raios —
"A luz vai penetrando a copa opaca;
"O chão brotará flores."
Calou-se então — voou. E as soltas tranças
Em torno espalham mil sabeus perfumes,
E os zéfiros as asas adejando
Vazam dos ares rosas.
2 114
Ildásio Tavares
Glosa
Mote
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Gil Vicente
Houve tempo e sacrifício
Houve sonho e muita lida
Mas no trato do ofício
Só houve ilusões perdidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas... "
Há vozes que sempre falam
Na escura noite envolvidas
Mas todas vozes se calam
E se perdem diluídas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nosso corpo fez-se estrume,
Nossas forças são tolhidas,
Nossa espada está sem gume,
Nossas dores repetidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas..."
Sempre à margem dos processos
Nossas bocas são retidas
Para nós só há inversos
Todas luzes são vendidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas.
Estruturas poderosas
Todas podres, corrompidas
Nos compram e vendem gulosas
Cada vez mais entupidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nem sangue de muitas mortes
Nos trouxe a luz escondida,
Poderes sempre mais fortes
Nos levaram de vencida —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nas trevas de há muito e tanto
Marchamos safras sofridas,
Amargando nosso canto
Em vozes enrouquecidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Distante brilha esperança
De promessas esquecidas;
Atrás ficou a lembrança
De derrotas cometidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Mas em cores diferentes
As danças serão corridas
Não pensem os poderosos
Que as almas nos têm vencidas
Somos muitos e teimosos
Nossas cabeças erguidas
Sob o fardo dos milênios
Marcham tenções decididas,
Várias faces, vários gênios,
todos faces retorcidas, —
Nós teremos a chegança
Será nossa a esperança,
Nós teremos nossas vidas.
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Gil Vicente
Houve tempo e sacrifício
Houve sonho e muita lida
Mas no trato do ofício
Só houve ilusões perdidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas... "
Há vozes que sempre falam
Na escura noite envolvidas
Mas todas vozes se calam
E se perdem diluídas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nosso corpo fez-se estrume,
Nossas forças são tolhidas,
Nossa espada está sem gume,
Nossas dores repetidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas..."
Sempre à margem dos processos
Nossas bocas são retidas
Para nós só há inversos
Todas luzes são vendidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas.
Estruturas poderosas
Todas podres, corrompidas
Nos compram e vendem gulosas
Cada vez mais entupidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nem sangue de muitas mortes
Nos trouxe a luz escondida,
Poderes sempre mais fortes
Nos levaram de vencida —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nas trevas de há muito e tanto
Marchamos safras sofridas,
Amargando nosso canto
Em vozes enrouquecidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Distante brilha esperança
De promessas esquecidas;
Atrás ficou a lembrança
De derrotas cometidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Mas em cores diferentes
As danças serão corridas
Não pensem os poderosos
Que as almas nos têm vencidas
Somos muitos e teimosos
Nossas cabeças erguidas
Sob o fardo dos milênios
Marcham tenções decididas,
Várias faces, vários gênios,
todos faces retorcidas, —
Nós teremos a chegança
Será nossa a esperança,
Nós teremos nossas vidas.
1 141
Israel Correia
Sabedoria, Idade e Vida
Precoce cansaço do assédio dos fracos
E dos agudos latidos em torno da caravana
Cometo crime sensato buscando o nirvana
Abandonando de vez a loucura dos palcos
Nada a ser provado. Pois na solidão existo.
Sabedoria chega quando o calvário ferra
Necessária é a dor da coroa de espinhos
Ao judeu despercebido do que ela revela
Assim, idade perfeita estes trinta e três
Tenho anos nesta vida pela última vez
Nunca fui o fruto duma só semente
Nunca a mesma terra, nunca a mesma gente
Povo que doravante não vê, não ouve, não fala
Massa inanimada, só consente e cala!
E dos agudos latidos em torno da caravana
Cometo crime sensato buscando o nirvana
Abandonando de vez a loucura dos palcos
Nada a ser provado. Pois na solidão existo.
Sabedoria chega quando o calvário ferra
Necessária é a dor da coroa de espinhos
Ao judeu despercebido do que ela revela
Assim, idade perfeita estes trinta e três
Tenho anos nesta vida pela última vez
Nunca fui o fruto duma só semente
Nunca a mesma terra, nunca a mesma gente
Povo que doravante não vê, não ouve, não fala
Massa inanimada, só consente e cala!
487
Myriam Fraga
Inquisição
Costuraram sua boca
Com alfinetes
E ele dizia que NÃO
E perguntavam.
E cortaram seus dedos
E o lançaram
Bem no fundo do poço
E ele dizia que não, que não, que não
E seus cabelos cresciam como chamas.
Com alfinetes
E ele dizia que NÃO
E perguntavam.
E cortaram seus dedos
E o lançaram
Bem no fundo do poço
E ele dizia que não, que não, que não
E seus cabelos cresciam como chamas.
1 374
Horácio Dídimo
As Casas
após longa espera
nada aconteceu
as casas continuaram baixas
tão baixas
que muitos de seus habitantes rastejavam
enquanto outros desistiam de antigas reivindicações
nada aconteceu
as casas continuaram baixas
tão baixas
que muitos de seus habitantes rastejavam
enquanto outros desistiam de antigas reivindicações
1 325
Hermilo Borba Filho
Revolta na Zona da Mata
Bicho ardente, verde claro
verde-escuro, amarelado,
no pasto da esperança
voam as crinas dos cavalos.
São animais, são guerreiros,
procurando a madrugada
e nela se ajeitando
com peixes, antas, serpentes,
passarinhos, pirilampos,
roedores, bestas de carne
na revolução da vida
dando exemplo ao bicho-homem.
No pendão da cana escura
corre o suor da agonia,
no eito da enxada aguda
cava, cava a própria dor.
E o céu sangrento, mudo,
recobre a pastagem gorda
que dará ao senhor dela
carros, perfumes e sedas,
enquanto na choça escura
chupando o peito resseco
o homem, criança hoje,
toma lições de animais
para como cobra irada
ou gavião bicador
arrancar do coração
o brado-revolta pura
do final da servidão.
Recife, 30 de agosto de 1967
verde-escuro, amarelado,
no pasto da esperança
voam as crinas dos cavalos.
São animais, são guerreiros,
procurando a madrugada
e nela se ajeitando
com peixes, antas, serpentes,
passarinhos, pirilampos,
roedores, bestas de carne
na revolução da vida
dando exemplo ao bicho-homem.
No pendão da cana escura
corre o suor da agonia,
no eito da enxada aguda
cava, cava a própria dor.
E o céu sangrento, mudo,
recobre a pastagem gorda
que dará ao senhor dela
carros, perfumes e sedas,
enquanto na choça escura
chupando o peito resseco
o homem, criança hoje,
toma lições de animais
para como cobra irada
ou gavião bicador
arrancar do coração
o brado-revolta pura
do final da servidão.
Recife, 30 de agosto de 1967
1 380
Guy Corrêa
Um País
Havia um povo
com uma dor embutida.
E um pintor, com uma tela menor.
- Como vou pintar o eco dessa gente? -
indagou-se
Sentou-se diante do teorema
e fez-se concentração,
misturando a tinta
para o lacrimejar de seus pincéis
Os dias e os anos se descoloriam
e a obra continuava inacabada
Mas ainda resistiam
um artista - hoje aos fiapos -
e uma nação descompassada
em busca de seu tom.
com uma dor embutida.
E um pintor, com uma tela menor.
- Como vou pintar o eco dessa gente? -
indagou-se
Sentou-se diante do teorema
e fez-se concentração,
misturando a tinta
para o lacrimejar de seus pincéis
Os dias e os anos se descoloriam
e a obra continuava inacabada
Mas ainda resistiam
um artista - hoje aos fiapos -
e uma nação descompassada
em busca de seu tom.
842
Georges Emmanuel Clancier
Surrealismo: Revolta e Conquista
O surgimento dos poemas destrutivos e visionários de Rimbaud e Lautréamont coincide com guerra de 1870 e a insurreição da Comuna, do mesmo modo que o novo cataclisma guerreiro de 1914-1918 e a Revolução de Outubro de 1917 ensangüentam e iluminam o tempo que trará a revolta dos poetas adolescentes guiados pelos apelos, blasfêmias e cóleras, além dos entusiasmos bradados outrora no deserto, através das lluminations e dos Chants de Maldoror.
A sociedade da qual Ubu denunciou o absurdo, a hipocrisia, a ferocidade travestida nos ouropéis solenes e devoções carolas aos princípios e à Tradição, essa sociedade que se diz conduzida pela razão e pela Moral, julgando reconhecer-se numa "Arte" igualmente racional, realiza-se, em verdade, na loucura e no crime guerreiros - a bem dizer, dissimulados, também eles, pela máscara da civilização. Chegou para os jovens poetas que ouviram a lição dos grandes "malditos" o momento de desmascarar, dessa vez em definitivo, uma sociedade que sabe apenas arruinar-se materialmente e espiritualmente, e assassinar a humanidade. E como, antes de tudo, são postas a razão e a tradição, convém liquidá-las.
O Surrealismo se volta para o que até aqui continua irredutível aos imperativos sociais e ao empobrecimento da lógica. Planta armadilhas, sem rumor nem aviso.
Violência - Para isso, o melhor recurso não é ridicuralizá-las? À violência e absurdo do seu tempo os jovens poetas contrapõem uma violência e um absurdo deliberados e poéticos.
Amadurecidos por um sobressalto vital, eles escarram o seu desgosto na cara do mundo "que os fez"; apelam para tudo quanto esse mesmo mundo finge ignorar: o absurdo opõe-se à razão, a desordem à "ordem" que sequer consegue camuflar um caos ignóbil. Nos satisfeitos, nos pomposos, o humor aplica, então, frias e rudes bofetadas. Nessa revolta o humor se apresenta como elemento destruidor por excelência. Ela advém do espírito de escândalo de que Jarry já havia tirado partido, é uma concentração no escândalo, lança propostas capazes de arruinar de súbito a segurança do espírito.
Planta armadilhas, sem rumor nem aviso, puxa de sopetão as cadeiras, e os que estão "sentados" tombaram ruidosamente. "Humor negro", como bem disse Breton. Negro, certamente, pelo desespero profundo dos que promovem - tão profundo que não deixa à superfície nenhum dos seus traços habituais - e negro em razão da obscuridade em que tende a mergulhar bruscamente a razão das pessoas a quem costumam desafiar com um estranho sorriso. Um desespero, em suma, que se transforma em arma, aquela arma, aquela arma do isolado que opõe uma incoerência escolhida à coerência social opressora.
Um exemplo de semelhante humor é dado por alguns jovens dadaístas e surrealistas em sentido literal. Entre eles, o mais perfeito, sem dúvida, foi Jacques Vaché (1). André Breton, então mallarméano, o encontrou em Nantes, em 1916, e a entrevista provocou uma metamorfose que deveria marcar Breton para sempre e, por intermédio dele, o futuro surrealismo. Esta passagem de uma carta de Vaché exprime de maneira surpreendente o estado de espírito desses adolescentes lançados no contra-senso da guerra: "Eu me aborreço muito atrás do meu monóculo de vidro, me visto de cáqui e combato os alemães - A máquina de embrutecer... marcha com grande fragor e eu não estou longe, no curral de tanques - um animal bem ubíquo, mas sem alegria".
"Sem alegria" - eis aí a chave dessa revolta glacial. O mundo que matou a alegria não merece o desprezo, os sarcasmos desses poetas que poderiam subscrever, desesperados e desenvoltos, o que disse Jacques Vaché: "Me causaria o maior tédio morrer tão jovem. Ah puis Merdre"? A definição mais exata desse humor nós a devemos ainda a Jacques Vaché, quando escreve - e sua ortografia denuncia logo a filiação Ubuesca da letra inicial: "Umor, sentimento de inutilidade teatral e sem alegria de tudo, quando se adquire consciência".
Causaria espanto que Jacques Vaché, após o armistício, se tenha suicidado? Mas a alegria é difícil de matar para sempre no coração vivo da juventude, e a um Jacques Vaché, que se despede da sociedade monstruosamente grotesca e trágica, sucedem outros jovens que resolvem tornar comum a sua rebelião e não sair da cena sem antes atribuir à sua época a finalidade absoluta de não-aceitação. Tzara, fundador do dadaísmo, dirá a propósito deste movimento: "A guerra (1914-1918) não foi nossa; nós a sofremos através da falsidade dos sentimentos e da mediocridade das excusas.
Era dessa ordem, 30 anos atrás, o estado de espírito da juventude, no momento em que Dada nascia na Suíça. Dada brotou de uma exigência moral, de uma vontade implacável de chegar a uma moral absoluta...
Dada nasceu de um revolta comum a todos os adolescentes e que exigia adesão completa do indivíduo às necessidades profundas de sua natureza, sem considerações para com a história, a lógica ou a moral circundantes. (...)
A frase de Descartes - "Não me interessa saber que houve homens antes de mim" - nós a pusemos como epígrafe de uma das nossas publicações". Essa política de tábua rasa fez adeptos na Suíça, na Alemanha e na França, onde, ao redor de Tzara, se reuniram Arp, Aragon, Soupault, Eluard, Breton, Péret, Picabia, Duchamp. Com uma paixão tumultuosa e um cinismo estudado, privilégios de seus 20 anos, esses jovens poetas à força libertos do combate desabrocham em um tempo que acabava de aprender, segundo palavras de Valéry, que as civilizações são mortais, e retomam à sua maneira uma contraguerra, uma guerra santa à ordem estabelecida. Trata-se de provocar e desmoralizar.
O escândalo pelo amor do escândalo é a senha. Tzara, evocando a lembrança de uma manifestação dada na Salle Gaveau, descreve o público de pé, os braços para cima, vociferante - e acrescenta: "O espetáculo acontecia na sala, nós reunidos no palco olhávamos o público enfurecido". Belo efeito de humor, essa inversão de papéis. De Dada, é claro, nada podia sair, por definição,salvo o "ruído e a fúria", salvo também aquela "violência sacrílega". Conforme observa Tritan Tzara, "uma espécie de novo heroísmo intelectual, um tipo de civismo literário". Os jovens estavam muito impacientes para destruir tudo ao seu redor, apenas pelo pressentimento de uma vida verdadeira suscetível de brotar quando tivessem dispersado os entulhos daquela inaceitável existência proposta pelos poderes estabelecidos, os quais se empenhavam em denunciar a maldição intrínseca e, ao mesmo tempo, a próxima ruína.
Mas Dada, ou o escárnio absoluto, não podia ele mesmo escapar ao seu próprio ácido; sistema voltado para a condenação à morte de todos os sistemas, restava-lhe, por seu turno, destruir-se. Foi o que aconteceu. À destruição dadaísta sucedeu a conquista surrealista. Mais exatamente, a tentativa de desbaratar os valores pessoais ou sociais erigidos e mantidos pela hierarquia burguesa, secundava, doravante, a vontade de instituir, acima dessa desordem purificadora, a primazia de um homem enfim liberto de todas as servidões, seja de origem econômica, intelectual, moral ou religiosa. Evidentemente os limites de uma breve análise me levam a separar com nitidez o que de fato se opera na complexidade agitada da vida; no interior do próprio Dada, bem antes do fim oficial desse movimento, o Surrealismo já se buscava. Por exemplo, é na revista Dada intitulada por ironia Littérature que aparece em 1919 o primeiro texto especificamente "surrealista": Les Champs Magnétiques, escrito a quatro mãos por André Breton e Philippe Soupault.
Da mesma forma que o encontro de Jacques Vaché permitiu a Breton a descoberta do humor/ameaça de morte, o encontro do freudianismo e sua ênfase no psiquismo inconsciente incitaram o autor dos Vasos Comunicantes a buscar no domínio do irracional promessas de vida. Já que a vida ativa e dirigida da inteligência havia chegado a uma barbárie mecânica que se ornamenta hipocritamente com o nome de civilização, o único recurso
A sociedade da qual Ubu denunciou o absurdo, a hipocrisia, a ferocidade travestida nos ouropéis solenes e devoções carolas aos princípios e à Tradição, essa sociedade que se diz conduzida pela razão e pela Moral, julgando reconhecer-se numa "Arte" igualmente racional, realiza-se, em verdade, na loucura e no crime guerreiros - a bem dizer, dissimulados, também eles, pela máscara da civilização. Chegou para os jovens poetas que ouviram a lição dos grandes "malditos" o momento de desmascarar, dessa vez em definitivo, uma sociedade que sabe apenas arruinar-se materialmente e espiritualmente, e assassinar a humanidade. E como, antes de tudo, são postas a razão e a tradição, convém liquidá-las.
O Surrealismo se volta para o que até aqui continua irredutível aos imperativos sociais e ao empobrecimento da lógica. Planta armadilhas, sem rumor nem aviso.
Violência - Para isso, o melhor recurso não é ridicuralizá-las? À violência e absurdo do seu tempo os jovens poetas contrapõem uma violência e um absurdo deliberados e poéticos.
Amadurecidos por um sobressalto vital, eles escarram o seu desgosto na cara do mundo "que os fez"; apelam para tudo quanto esse mesmo mundo finge ignorar: o absurdo opõe-se à razão, a desordem à "ordem" que sequer consegue camuflar um caos ignóbil. Nos satisfeitos, nos pomposos, o humor aplica, então, frias e rudes bofetadas. Nessa revolta o humor se apresenta como elemento destruidor por excelência. Ela advém do espírito de escândalo de que Jarry já havia tirado partido, é uma concentração no escândalo, lança propostas capazes de arruinar de súbito a segurança do espírito.
Planta armadilhas, sem rumor nem aviso, puxa de sopetão as cadeiras, e os que estão "sentados" tombaram ruidosamente. "Humor negro", como bem disse Breton. Negro, certamente, pelo desespero profundo dos que promovem - tão profundo que não deixa à superfície nenhum dos seus traços habituais - e negro em razão da obscuridade em que tende a mergulhar bruscamente a razão das pessoas a quem costumam desafiar com um estranho sorriso. Um desespero, em suma, que se transforma em arma, aquela arma, aquela arma do isolado que opõe uma incoerência escolhida à coerência social opressora.
Um exemplo de semelhante humor é dado por alguns jovens dadaístas e surrealistas em sentido literal. Entre eles, o mais perfeito, sem dúvida, foi Jacques Vaché (1). André Breton, então mallarméano, o encontrou em Nantes, em 1916, e a entrevista provocou uma metamorfose que deveria marcar Breton para sempre e, por intermédio dele, o futuro surrealismo. Esta passagem de uma carta de Vaché exprime de maneira surpreendente o estado de espírito desses adolescentes lançados no contra-senso da guerra: "Eu me aborreço muito atrás do meu monóculo de vidro, me visto de cáqui e combato os alemães - A máquina de embrutecer... marcha com grande fragor e eu não estou longe, no curral de tanques - um animal bem ubíquo, mas sem alegria".
"Sem alegria" - eis aí a chave dessa revolta glacial. O mundo que matou a alegria não merece o desprezo, os sarcasmos desses poetas que poderiam subscrever, desesperados e desenvoltos, o que disse Jacques Vaché: "Me causaria o maior tédio morrer tão jovem. Ah puis Merdre"? A definição mais exata desse humor nós a devemos ainda a Jacques Vaché, quando escreve - e sua ortografia denuncia logo a filiação Ubuesca da letra inicial: "Umor, sentimento de inutilidade teatral e sem alegria de tudo, quando se adquire consciência".
Causaria espanto que Jacques Vaché, após o armistício, se tenha suicidado? Mas a alegria é difícil de matar para sempre no coração vivo da juventude, e a um Jacques Vaché, que se despede da sociedade monstruosamente grotesca e trágica, sucedem outros jovens que resolvem tornar comum a sua rebelião e não sair da cena sem antes atribuir à sua época a finalidade absoluta de não-aceitação. Tzara, fundador do dadaísmo, dirá a propósito deste movimento: "A guerra (1914-1918) não foi nossa; nós a sofremos através da falsidade dos sentimentos e da mediocridade das excusas.
Era dessa ordem, 30 anos atrás, o estado de espírito da juventude, no momento em que Dada nascia na Suíça. Dada brotou de uma exigência moral, de uma vontade implacável de chegar a uma moral absoluta...
Dada nasceu de um revolta comum a todos os adolescentes e que exigia adesão completa do indivíduo às necessidades profundas de sua natureza, sem considerações para com a história, a lógica ou a moral circundantes. (...)
A frase de Descartes - "Não me interessa saber que houve homens antes de mim" - nós a pusemos como epígrafe de uma das nossas publicações". Essa política de tábua rasa fez adeptos na Suíça, na Alemanha e na França, onde, ao redor de Tzara, se reuniram Arp, Aragon, Soupault, Eluard, Breton, Péret, Picabia, Duchamp. Com uma paixão tumultuosa e um cinismo estudado, privilégios de seus 20 anos, esses jovens poetas à força libertos do combate desabrocham em um tempo que acabava de aprender, segundo palavras de Valéry, que as civilizações são mortais, e retomam à sua maneira uma contraguerra, uma guerra santa à ordem estabelecida. Trata-se de provocar e desmoralizar.
O escândalo pelo amor do escândalo é a senha. Tzara, evocando a lembrança de uma manifestação dada na Salle Gaveau, descreve o público de pé, os braços para cima, vociferante - e acrescenta: "O espetáculo acontecia na sala, nós reunidos no palco olhávamos o público enfurecido". Belo efeito de humor, essa inversão de papéis. De Dada, é claro, nada podia sair, por definição,salvo o "ruído e a fúria", salvo também aquela "violência sacrílega". Conforme observa Tritan Tzara, "uma espécie de novo heroísmo intelectual, um tipo de civismo literário". Os jovens estavam muito impacientes para destruir tudo ao seu redor, apenas pelo pressentimento de uma vida verdadeira suscetível de brotar quando tivessem dispersado os entulhos daquela inaceitável existência proposta pelos poderes estabelecidos, os quais se empenhavam em denunciar a maldição intrínseca e, ao mesmo tempo, a próxima ruína.
Mas Dada, ou o escárnio absoluto, não podia ele mesmo escapar ao seu próprio ácido; sistema voltado para a condenação à morte de todos os sistemas, restava-lhe, por seu turno, destruir-se. Foi o que aconteceu. À destruição dadaísta sucedeu a conquista surrealista. Mais exatamente, a tentativa de desbaratar os valores pessoais ou sociais erigidos e mantidos pela hierarquia burguesa, secundava, doravante, a vontade de instituir, acima dessa desordem purificadora, a primazia de um homem enfim liberto de todas as servidões, seja de origem econômica, intelectual, moral ou religiosa. Evidentemente os limites de uma breve análise me levam a separar com nitidez o que de fato se opera na complexidade agitada da vida; no interior do próprio Dada, bem antes do fim oficial desse movimento, o Surrealismo já se buscava. Por exemplo, é na revista Dada intitulada por ironia Littérature que aparece em 1919 o primeiro texto especificamente "surrealista": Les Champs Magnétiques, escrito a quatro mãos por André Breton e Philippe Soupault.
Da mesma forma que o encontro de Jacques Vaché permitiu a Breton a descoberta do humor/ameaça de morte, o encontro do freudianismo e sua ênfase no psiquismo inconsciente incitaram o autor dos Vasos Comunicantes a buscar no domínio do irracional promessas de vida. Já que a vida ativa e dirigida da inteligência havia chegado a uma barbárie mecânica que se ornamenta hipocritamente com o nome de civilização, o único recurso
901
Francisco Orban
1975
Éramos 33 poetas
apesar das falhas no céu
apesar dos talhos na carne
33 poetas
amontoados sob o silêncio
das tardes com gomos de chuva
por cima da morte
das baleias e do jasmim
dizendo que assim era o plano
que ninguem morreria
no Outono.
33 poetas
como Maria Cristina
que tinha cheiro de hortelã
e maresia
e bunda morena de porcelana
33 poetas
como Luiz Carlos
batalhando no sol de São Gonçalo
ferido nos inúmeros sobrados
que trazia em si e não sabia
33 poetas como tantos
esperando a polícia todo dia
fosse inverno, verão ou primavera.
Isso no tempo do "milagre"
quando eu ia correndo pro
ginásio
e o tempo estava estancado
não era como agora
Éramos como Edgar, caçador
de balões
heroi como todos nós
que sabia subir em jaqueira
e nunca pensou que iria
enlouquecer
33 poetas
como janda em Salvador
falando da guerrilha perdida
da adolescência perdida
de todas as coisas que não iam
mais da certo
apesar do mistério da Bahia
e da dialética das ruas
em plena terça-feira de
carnaval
no verão da anistia
Éramos 33 poetas
como o meu amigo Ernesto
que um dia chegou em casa
e estourou os miolos
com um 38 emprestado
33 poetas
como Odemir
que escreveu um poema assim:
"Marta, um homem não é um trombone"
como Gregório
voltando do exílio
falando dos canaviais
e das lutas pela vida e pela paz
numa avenida paulista
corrompida de carros
Éramos 33 poetas
apesar do tempo ser um animal
solto,
a máquina de quebrar encantação
que antes não quebrava nada
mas hoje me quebra os dentes
e a cartilagem do rosto.
Se desse pra fazer girar a máquina
escreveria um conto
entre plantas e algas de sol
ergueria nas paredes brilhantes
blocos de ventania sumidos
e beberia contigo
nas fontes, nas águas, nos vinhos
nas cidades sem tempo
nos horizontes abertos
com a pele chamuscada
de marítimas vertigens
e perigos.
Onde está Luiz
sumido em 1975?
ninguem sabe
ninguem responde
havia o cheiro de cilade
e sonho
como em São Paulo
sovrevoando
milharal de luzes
diamante aceso
na noite perdida
de 1975
-Anônimos membros do
degredo unânime-
Como em Santa Teresa
longe da Av. São João
do petróleo queimado
e das vidas queimadas
inutilmente
nas ruas escuras
nos planos nefastos
onde para sempre se baniram
a realidade e a ternura
Éramos 33 poetas
com planos na terra
com as almas brandas
e as noites soltas
mas não sabíamos
que o vendaval espalharia
os nossos versos
as vozes, as cópulas,
músicas sobrariam no ar
o tempo, uma rede blindada
faria apagar na memória
os tratados das noites mornas
como se isso fosse possível
e Edgar ainda não subisse
em Jaqueiras,
Ernesto ainda não tomasse
a sua cerveja gelada,
Cristina ainda com sua boca
de fada,
o tempo com sua malha
de máquinas
telha frágil, nó desatado
não viu sua face aguada
só viu seu lado concreto
que não vai pro mar
dá pro deserto
e assim se proclamou
súdito vitalício da
cidade
senhor da dor e da saudade
embora no calendário do tempo
eu não vejo o último verão
sinto os 33 poetas
com seus violões
velhos e gastos
tomarem de assalto
o dia.
apesar das falhas no céu
apesar dos talhos na carne
33 poetas
amontoados sob o silêncio
das tardes com gomos de chuva
por cima da morte
das baleias e do jasmim
dizendo que assim era o plano
que ninguem morreria
no Outono.
33 poetas
como Maria Cristina
que tinha cheiro de hortelã
e maresia
e bunda morena de porcelana
33 poetas
como Luiz Carlos
batalhando no sol de São Gonçalo
ferido nos inúmeros sobrados
que trazia em si e não sabia
33 poetas como tantos
esperando a polícia todo dia
fosse inverno, verão ou primavera.
Isso no tempo do "milagre"
quando eu ia correndo pro
ginásio
e o tempo estava estancado
não era como agora
Éramos como Edgar, caçador
de balões
heroi como todos nós
que sabia subir em jaqueira
e nunca pensou que iria
enlouquecer
33 poetas
como janda em Salvador
falando da guerrilha perdida
da adolescência perdida
de todas as coisas que não iam
mais da certo
apesar do mistério da Bahia
e da dialética das ruas
em plena terça-feira de
carnaval
no verão da anistia
Éramos 33 poetas
como o meu amigo Ernesto
que um dia chegou em casa
e estourou os miolos
com um 38 emprestado
33 poetas
como Odemir
que escreveu um poema assim:
"Marta, um homem não é um trombone"
como Gregório
voltando do exílio
falando dos canaviais
e das lutas pela vida e pela paz
numa avenida paulista
corrompida de carros
Éramos 33 poetas
apesar do tempo ser um animal
solto,
a máquina de quebrar encantação
que antes não quebrava nada
mas hoje me quebra os dentes
e a cartilagem do rosto.
Se desse pra fazer girar a máquina
escreveria um conto
entre plantas e algas de sol
ergueria nas paredes brilhantes
blocos de ventania sumidos
e beberia contigo
nas fontes, nas águas, nos vinhos
nas cidades sem tempo
nos horizontes abertos
com a pele chamuscada
de marítimas vertigens
e perigos.
Onde está Luiz
sumido em 1975?
ninguem sabe
ninguem responde
havia o cheiro de cilade
e sonho
como em São Paulo
sovrevoando
milharal de luzes
diamante aceso
na noite perdida
de 1975
-Anônimos membros do
degredo unânime-
Como em Santa Teresa
longe da Av. São João
do petróleo queimado
e das vidas queimadas
inutilmente
nas ruas escuras
nos planos nefastos
onde para sempre se baniram
a realidade e a ternura
Éramos 33 poetas
com planos na terra
com as almas brandas
e as noites soltas
mas não sabíamos
que o vendaval espalharia
os nossos versos
as vozes, as cópulas,
músicas sobrariam no ar
o tempo, uma rede blindada
faria apagar na memória
os tratados das noites mornas
como se isso fosse possível
e Edgar ainda não subisse
em Jaqueiras,
Ernesto ainda não tomasse
a sua cerveja gelada,
Cristina ainda com sua boca
de fada,
o tempo com sua malha
de máquinas
telha frágil, nó desatado
não viu sua face aguada
só viu seu lado concreto
que não vai pro mar
dá pro deserto
e assim se proclamou
súdito vitalício da
cidade
senhor da dor e da saudade
embora no calendário do tempo
eu não vejo o último verão
sinto os 33 poetas
com seus violões
velhos e gastos
tomarem de assalto
o dia.
1 091
Florisvaldo Mattos
Quarto Monólogo
(O Fel das Roupagens)
Sobre areia largados utensílios,
à vigilância (naus enraivecidas)
dos cães. Os homens já são água e vento.
Retomemos o rastro dos cavalos,
O tempo regressivo, o sortilégio.
Sopram búzios os corpos esfolados.
Um grito sai das veias. Mutilados
pescoços emigrantes, olhos gastos
revisam espetáculo dos rios:
a guerra está no sangue sem verdades
submissos sem marfim — os absolutos.
Ei, parem. É comigo que eles falam,
os mortos, os prantos dominados.
Ardem de escravidão os nervos mudos.
Para os campos de el-rei, para os poentes,
os trabalhos acendem lábios duros,
os sonhos se aluíram na memória.
É comigo que duelam dedos murchos,
e sou eu quem trafega em suas noites,
piso chão de resgate e pesadelos.
Todos sabem que sou. Os que morreram
guardam o dever retido na montanha,
os ódios recomeçam e há retorno.
Mortos crivam no vidro a fúria toda
do principal momento não vivido.
Humanos gritos (sempre humanos) deixam
nas paredes a intacta geografia
do tempo aprisionado — resistência
do apodrecido chão que os mortos pisam
Meu tempo é medieval: um barão doente
vomita girassóis. Os dentes velhos
removem a canção dos muros frios,
por onde deslizasse mão ossuda,
que dos olhos nascida, florescera
em nave corrompida ou vãos tijolos.
Os bens adormeceram indivisos,
tão feitos do marfim dos patriarcas.
A palavra escondeu as previsões,
súbito amanhecida de mudanças:
o barão é um barão, sempre barão,
doira-se entre soluços e águas mortas.
Olhos pendem acesos da muralha,
riscando negro limo da memória,
e medem a extensão — antessonhado
mundo. Reina ao mesmo tempo inviolado.
Onde o espelho, o relho? Quero um espelho
onde veja o possuído tempo unânime.
o tempo meu, cortando extintos rostos,
apagados gemidos, como lâminas.
Quem vem lá, distante, avançando?
Quem ameaça meu solo, minha fauna?
Quem já próximo está violando o templo?
O espaço jaz imerecido.
Flui a verdade entre caminhos mortos.
Olho em redor: sumiram do terraço
guardas e lavradores — todos hoje
avançam na planície. As armas foram-se.
Devolvido o silêncio, as torres dormem.
Sobre areia largados utensílios,
à vigilância (naus enraivecidas)
dos cães. Os homens já são água e vento.
Retomemos o rastro dos cavalos,
O tempo regressivo, o sortilégio.
Sopram búzios os corpos esfolados.
Um grito sai das veias. Mutilados
pescoços emigrantes, olhos gastos
revisam espetáculo dos rios:
a guerra está no sangue sem verdades
submissos sem marfim — os absolutos.
Ei, parem. É comigo que eles falam,
os mortos, os prantos dominados.
Ardem de escravidão os nervos mudos.
Para os campos de el-rei, para os poentes,
os trabalhos acendem lábios duros,
os sonhos se aluíram na memória.
É comigo que duelam dedos murchos,
e sou eu quem trafega em suas noites,
piso chão de resgate e pesadelos.
Todos sabem que sou. Os que morreram
guardam o dever retido na montanha,
os ódios recomeçam e há retorno.
Mortos crivam no vidro a fúria toda
do principal momento não vivido.
Humanos gritos (sempre humanos) deixam
nas paredes a intacta geografia
do tempo aprisionado — resistência
do apodrecido chão que os mortos pisam
Meu tempo é medieval: um barão doente
vomita girassóis. Os dentes velhos
removem a canção dos muros frios,
por onde deslizasse mão ossuda,
que dos olhos nascida, florescera
em nave corrompida ou vãos tijolos.
Os bens adormeceram indivisos,
tão feitos do marfim dos patriarcas.
A palavra escondeu as previsões,
súbito amanhecida de mudanças:
o barão é um barão, sempre barão,
doira-se entre soluços e águas mortas.
Olhos pendem acesos da muralha,
riscando negro limo da memória,
e medem a extensão — antessonhado
mundo. Reina ao mesmo tempo inviolado.
Onde o espelho, o relho? Quero um espelho
onde veja o possuído tempo unânime.
o tempo meu, cortando extintos rostos,
apagados gemidos, como lâminas.
Quem vem lá, distante, avançando?
Quem ameaça meu solo, minha fauna?
Quem já próximo está violando o templo?
O espaço jaz imerecido.
Flui a verdade entre caminhos mortos.
Olho em redor: sumiram do terraço
guardas e lavradores — todos hoje
avançam na planície. As armas foram-se.
Devolvido o silêncio, as torres dormem.
957
Florisvaldo Mattos
Sistema Agrário
Meu canto gravado de um saber oculto de águas
esquecidas fabricarei no campo com suor
de rudes trabalhadores, na chuva sepultando-se
de búzios pontuais, lamentos e desgraças.
Forçosamente rústico caindo sobre troncos,
pelo ar, compacto de húmus e branco vinho caindo
sobre plantações. Sobre homens caindo. Não os sei
com metralhadoras e mortes pesadas flutuando
em suas mãos calosas de sonho e agricultura.
Senão com amargo clamor ao meio-dia, quando
com rijas ferraduras rubro sol golpeia-lhes
decisivo o tórax sombrio. De sangue a sua
permanência rural de árvore e vento.
Materiais e diários, continuamente os vejo
por frios vales e serras recolhendo incertezas
e dores unânimes, pontes que lhes pesam úmidas,
como rios perduráveis, sobre o rosto seguro (banhados
tão por cinzentos rios, girassóis destroçados
vigiando rebanhos e metais decadentes
revisando no tempo em sonora aliança), como
estranhas biografias e equipagens
de passados cavaleiros, em derrota.
Impossuídas colheitas vão durando,
como denso muro de sono cicatrizado
em seu corpo amanhecido sobre a terra, que
pensamentos cruéis e sombras apunhalam.
Meu canto fabricarei com lágrimas e suor
subterrâneo de músculos e ferramentas
Maduram no verde dos cacauais suas asas telúricas.
Nas semeaduras, sob tempestade, reside no solo
seu mecanismo de luta e existência
de incessante labor camponês. Agrário sempre.
Suas armas essenciais, sua geometria agreste
hão de impregnar-se necessárias de úmidas
paisagens agrícolas de horror precipitando-se
sobre homens em silêncio nas estradas pacíficas.
Eles que sonhavam com instrumentos longínquos
terão na cabeça, rugindo sempre uma voz de ameaça,
quando a seus pés um ruído grosso de sacrifícios
vai sua boca de amor sem pão revolucionando.
esquecidas fabricarei no campo com suor
de rudes trabalhadores, na chuva sepultando-se
de búzios pontuais, lamentos e desgraças.
Forçosamente rústico caindo sobre troncos,
pelo ar, compacto de húmus e branco vinho caindo
sobre plantações. Sobre homens caindo. Não os sei
com metralhadoras e mortes pesadas flutuando
em suas mãos calosas de sonho e agricultura.
Senão com amargo clamor ao meio-dia, quando
com rijas ferraduras rubro sol golpeia-lhes
decisivo o tórax sombrio. De sangue a sua
permanência rural de árvore e vento.
Materiais e diários, continuamente os vejo
por frios vales e serras recolhendo incertezas
e dores unânimes, pontes que lhes pesam úmidas,
como rios perduráveis, sobre o rosto seguro (banhados
tão por cinzentos rios, girassóis destroçados
vigiando rebanhos e metais decadentes
revisando no tempo em sonora aliança), como
estranhas biografias e equipagens
de passados cavaleiros, em derrota.
Impossuídas colheitas vão durando,
como denso muro de sono cicatrizado
em seu corpo amanhecido sobre a terra, que
pensamentos cruéis e sombras apunhalam.
Meu canto fabricarei com lágrimas e suor
subterrâneo de músculos e ferramentas
Maduram no verde dos cacauais suas asas telúricas.
Nas semeaduras, sob tempestade, reside no solo
seu mecanismo de luta e existência
de incessante labor camponês. Agrário sempre.
Suas armas essenciais, sua geometria agreste
hão de impregnar-se necessárias de úmidas
paisagens agrícolas de horror precipitando-se
sobre homens em silêncio nas estradas pacíficas.
Eles que sonhavam com instrumentos longínquos
terão na cabeça, rugindo sempre uma voz de ameaça,
quando a seus pés um ruído grosso de sacrifícios
vai sua boca de amor sem pão revolucionando.
1 002
Florisvaldo Mattos
Campesino
Como folhas caindo num deserto,
humanas resistências vão caindo
sobre campo sem sol. Peito coberto
de um só grito esperança vai cobrindo.
Rude labor de enxadas consumindo
sangue que dá de sangue um sonho certo,
esperanças do amanho já sumindo
na sede de esperança que está perto.
Amargas deslembranças param, vendo
no íntimo do espetáculo chuvoso
a aparecido desaparecendo.
Antes que o amor se ausente ao chão sem húmus,
já baixam sobre o campo generoso,
as águas da manhã movendo rumos.
humanas resistências vão caindo
sobre campo sem sol. Peito coberto
de um só grito esperança vai cobrindo.
Rude labor de enxadas consumindo
sangue que dá de sangue um sonho certo,
esperanças do amanho já sumindo
na sede de esperança que está perto.
Amargas deslembranças param, vendo
no íntimo do espetáculo chuvoso
a aparecido desaparecendo.
Antes que o amor se ausente ao chão sem húmus,
já baixam sobre o campo generoso,
as águas da manhã movendo rumos.
1 029
Fernando Braga
Liberdade
até as pedras negam
a paternidade
da terra.
no chão, não há reforma
nem raízes.
os homens fingem
acreditar em Deus,
enquanto as crianças
sonham com esfinges
e mitos,
porque adormecem com fome
quero uma enxada
e um arado,
porque onde piso
até as lágrimas
proliferam.
quero a união dos povos
e o amor de irmãos,
porque dito a paz
e não acredito em esmolas.
quero ajuda para construir,
esperança para modificar
e depois gritar:
liberdade! liberdade!
a paternidade
da terra.
no chão, não há reforma
nem raízes.
os homens fingem
acreditar em Deus,
enquanto as crianças
sonham com esfinges
e mitos,
porque adormecem com fome
quero uma enxada
e um arado,
porque onde piso
até as lágrimas
proliferam.
quero a união dos povos
e o amor de irmãos,
porque dito a paz
e não acredito em esmolas.
quero ajuda para construir,
esperança para modificar
e depois gritar:
liberdade! liberdade!
317
Estrigas
Nossa Grande Civilização
As folhas das bananeiras movem-se
ao ritmo da ventania
um louco passa jogando pedra
na compulsão da sua fantasia.
O mundo é um imenso manicômio
loucos violentos que agridem, matam, torturam
loucos poderosos que dominam os outros
na ilusão dos seus interesses
na manutenção dos seus poderes
loucos inteligentes
que mandam os outros ao espaço
que tiram e salvam vidas
que divertem e instruem
loucos que matam e dão vida
loucos que destroem e constroem
a si e ao meio
O mundo é uma grande múltipla e diversificada loucura
há pessoas loucamente apaixonadas por ele
há pessoas loucamente revoltadas contra ele
há os que se apegam a ele
há os loucamente mansos e pacíficos
que buscam uma solução
porque suas loucuras
já não suportam mais tanta loucura
e são estes
a única luz no fim do túnel
sujeita ao ritmo da ventania
como as folhas da bananeira
ao ritmo da ventania
um louco passa jogando pedra
na compulsão da sua fantasia.
O mundo é um imenso manicômio
loucos violentos que agridem, matam, torturam
loucos poderosos que dominam os outros
na ilusão dos seus interesses
na manutenção dos seus poderes
loucos inteligentes
que mandam os outros ao espaço
que tiram e salvam vidas
que divertem e instruem
loucos que matam e dão vida
loucos que destroem e constroem
a si e ao meio
O mundo é uma grande múltipla e diversificada loucura
há pessoas loucamente apaixonadas por ele
há pessoas loucamente revoltadas contra ele
há os que se apegam a ele
há os loucamente mansos e pacíficos
que buscam uma solução
porque suas loucuras
já não suportam mais tanta loucura
e são estes
a única luz no fim do túnel
sujeita ao ritmo da ventania
como as folhas da bananeira
787
David Mestre
Que outro nome
Que rio se pode
abrir na língua acesa
para o capim crepitando
baixo. Que palavra
por ele nasce
e corre corre a lua
e outra lua sem que regresse
ao corpo. Que outro nome
te demos
vestida e no escuro desposada.
Liberdade.
Que tempo de
ocultar o nome sabíamos
perder e nem
de moscardo zumbias: Ngola
nosso pouco maruvo eras
no terreiro anunciada.
Liberdade.
Quem das copas pronuncia
os teus lábios na terra? Nzambi
neles tivesse
mordiscado leve.
Liberdade.
abrir na língua acesa
para o capim crepitando
baixo. Que palavra
por ele nasce
e corre corre a lua
e outra lua sem que regresse
ao corpo. Que outro nome
te demos
vestida e no escuro desposada.
Liberdade.
Que tempo de
ocultar o nome sabíamos
perder e nem
de moscardo zumbias: Ngola
nosso pouco maruvo eras
no terreiro anunciada.
Liberdade.
Quem das copas pronuncia
os teus lábios na terra? Nzambi
neles tivesse
mordiscado leve.
Liberdade.
1 052
Egito Gonçalves
Os Vegetantes
Continuam aqui
roendo as unhas!
Substituem as unhas por poemas
(ou cafés, futebol, anedotário)
e estilhaçam espelhos que na luz
ao seu devolvem a cruel imagem.
Vidrado limo o rosto
de rugas sem memória
assistem à vida como um filme:
disparar sobre a tela é proibido
e além do mais inútil.
Curvam ao solo os ombros
escorjados; curvam-nos para
duradouras urtigas, seixos
sem horizontes, epitáfios
de lama, dezembros, poeira fria.
Se chovem as esperanças não acorrem
a apanhá-las na boca ao ar aberto.
Tijolo articulado a língua balbucia
"É a vida!". Sementes violadas
não germinam.
Em vão os bombardeiros os oráculos
com agulhas de sangue. Nada tentam
para vida à fala que utilizam,
ao país do cansaço que entre dentes
ressaca.
E fazem do amor essa triste umidade,
um delíquio formal logo amortalhado.
São dóceis, cibernéticos,
dia a dia premiados
de alguns gramas a mais
no chumbo do pescoço.
roendo as unhas!
Substituem as unhas por poemas
(ou cafés, futebol, anedotário)
e estilhaçam espelhos que na luz
ao seu devolvem a cruel imagem.
Vidrado limo o rosto
de rugas sem memória
assistem à vida como um filme:
disparar sobre a tela é proibido
e além do mais inútil.
Curvam ao solo os ombros
escorjados; curvam-nos para
duradouras urtigas, seixos
sem horizontes, epitáfios
de lama, dezembros, poeira fria.
Se chovem as esperanças não acorrem
a apanhá-las na boca ao ar aberto.
Tijolo articulado a língua balbucia
"É a vida!". Sementes violadas
não germinam.
Em vão os bombardeiros os oráculos
com agulhas de sangue. Nada tentam
para vida à fala que utilizam,
ao país do cansaço que entre dentes
ressaca.
E fazem do amor essa triste umidade,
um delíquio formal logo amortalhado.
São dóceis, cibernéticos,
dia a dia premiados
de alguns gramas a mais
no chumbo do pescoço.
1 562
Egito Gonçalves
Sobre os Poemas
1
Há poetas que constróem o mundo nos cafés,
outros que o fazem no claro-escuro
entre as prisões e os intervalos.
Há poetas que aguardam cartas de apresentação
nem eles sabem para onde:
para a vida que falhou?, para a manteiga
que lhes foi negada?
Mas todos têm um sonho, todos
se esforçam por valer o pão que amassam
— lançam seu delicado peso na balança.
Eles sabem, esses poetas,
que nada é eterno e imutável.
2
Tal a "Cadeia de Santo Onofre:
Copie o texto: envie a cinco amigos"...
há poetas que se multiplicam, fendem
a vaga limite, impedem o suicídio,
explicam a vida, argamassam
dedicação e raiva.
Girassóis, rodam sobre si mesmos,
indicam o ponto onde a luz se abre.
3
Há poetas cuja poesia reagrupa, fornece
uma canção à cidade, martela
os que dormem alheios, move-se
silenciosamente ao jeito das estátuas.
Pacífica vaca ruminando na linha do rumo;
rosto impreciso solidificando breve;
tênue tinta azul no papel claro ...
Os poetas têm
como os peles-vermelhas do cinema
o seu fumo e os seus cobertores.
4
Há poetas que renegam cartas
de apresentação para o arrivismo;
recusam a mão ao salário da trampa;
não enfeixam o nome e a desonra
nos telegramas do medo.
Enquanto bebem o café um histrião noturno
arenga; executa o seu número; recebe
por nova pirueta uma ajuda de custo.
Há poetas que constróem o mundo nos cafés,
outros que o fazem no claro-escuro
entre as prisões e os intervalos.
Há poetas que aguardam cartas de apresentação
nem eles sabem para onde:
para a vida que falhou?, para a manteiga
que lhes foi negada?
Mas todos têm um sonho, todos
se esforçam por valer o pão que amassam
— lançam seu delicado peso na balança.
Eles sabem, esses poetas,
que nada é eterno e imutável.
2
Tal a "Cadeia de Santo Onofre:
Copie o texto: envie a cinco amigos"...
há poetas que se multiplicam, fendem
a vaga limite, impedem o suicídio,
explicam a vida, argamassam
dedicação e raiva.
Girassóis, rodam sobre si mesmos,
indicam o ponto onde a luz se abre.
3
Há poetas cuja poesia reagrupa, fornece
uma canção à cidade, martela
os que dormem alheios, move-se
silenciosamente ao jeito das estátuas.
Pacífica vaca ruminando na linha do rumo;
rosto impreciso solidificando breve;
tênue tinta azul no papel claro ...
Os poetas têm
como os peles-vermelhas do cinema
o seu fumo e os seus cobertores.
4
Há poetas que renegam cartas
de apresentação para o arrivismo;
recusam a mão ao salário da trampa;
não enfeixam o nome e a desonra
nos telegramas do medo.
Enquanto bebem o café um histrião noturno
arenga; executa o seu número; recebe
por nova pirueta uma ajuda de custo.
1 749
Castro Alves
Improviso
(À MOCIDADE ACADÊMICA)
Moços! A inépcia nos chamou de estúpidos!
Moços! O crime nos cobriu de sangue!
Vós os luzeiros do país, erguei-vos!
Perante a infâmia ninguém fica exangue
Protesto santo se levanta agora,
De mim, de vós, da multidão, do povo;
Somos da classe da justiça e brio,
Não há mais classe ante esse crime novo!
Sim! mesmo em face, da nação, da pátria,
Nós nos erguemos com soberba fé!
A lei sustenta o popular direito,
Nós sustentamos o direito em pé!
Moços! A inépcia nos chamou de estúpidos!
Moços! O crime nos cobriu de sangue!
Vós os luzeiros do país, erguei-vos!
Perante a infâmia ninguém fica exangue
Protesto santo se levanta agora,
De mim, de vós, da multidão, do povo;
Somos da classe da justiça e brio,
Não há mais classe ante esse crime novo!
Sim! mesmo em face, da nação, da pátria,
Nós nos erguemos com soberba fé!
A lei sustenta o popular direito,
Nós sustentamos o direito em pé!
3 546
Castro Alves
Ao Dia Dous de Julho
Versos recitados em uma reunião de estudantes baianos
PARTE PRIMEIRA
O CATIVO
QUE CÉU tão negro... que tão negra a terra,
Rugindo rola-se o trovão no espaço...
Falanges negras de chumbadas nuvens
Raios vomitam num medonho abraço...
Na terra perdem-se ao tinir de ferros
Entre soluços mil sentidos cantos,
E ao som do cedro que os machados tombam
Chora o cativo amargurados prantos.
Do rosto másculo lhe goteja a lágrima
Que as ervas torra do queimado chão.
Procura a esposa que lhe mostre o filho...
O céu troveja e lhe responde — não.
Um suor frio lhe passou nos membros...
No corpo a vida para sempre cansa.
Caiu por terra, mas lembrando o filho
Com os lábios hirtos repetiu — vingança.
Nem pôde ao menos abraçar a esposa
Na hora triste do seu passamento.
São-lhe sudário da mangueira velha
As folhas secas que lhe atira o vento.
Só tem por prantos o gemer tristonho
Da ventania que rugindo passa.
— Triste epopéia do guerreiro forte
Que enfim, cativo fez a morte escassa...
E após... Um dia a soluçar nos ferros
Passa o filhinho pla senil mangueira...
E passa o triste sem saber ao menos
Do pátrio túmulo ter passado à beira...
PARTE SEGUNDA
A Vingança
Não ouvis que voz terrível
Que nos traz a ventania
Que há pouco só nos trazia
Tristes suspiros de dor?...
E do relâmpago sinistro...
Vede... As lousas estalaram...
E os espectros acordaram...
Medonhos no seu furor...
Ergueram-se mil fantasmas
Hirsutos e suarentos
A branca mortalha aos ventos
Flutua longa alvadia.
Tiradentes mostra o insulto
Que lhe pesa sobre a fronte,
Gonzaga aponta o horizonte
Coa mão descarnada e fria.
E Cláudio, e o forte Alvarenga
Recordam o seu passado,
Só de dores coroado...
— Triste croa do infeliz...
Pedem castigo pra aqueles
Que assinaram a — sentença —
— De — morte — a quem na defensa
Lutava de seu país.
A mãe clama pelo filho...
E pelo amante a donzela...
O índio pela mata bela
Onde a vida lhera mansa...
— Vingança — uníssona e forte
Uma voz terrível brada...
Três séculos surgem do nada
Para bradarem — vingança —
.....................................
.....................................
PARTE TERCEIRA
SAUDAÇÃO
Quereis que vos conte a história brasílea
Que Deus copiara sorrindo talvez...
E as lutas terríveis do moço gigante
Com o velho que ao mundo ditara só leis...
Oh! Não... Que sois filhos do povo dos bravos...
Sois filhos hercúleos do hercúleo cruzeiro...
Sabeis esta história... Quem é que não sabe-a?
Quem é?... Se não sabe-a... não é Brasileiro.
E a este que a digam as águas de prata
Que um dia de sangue ficaram também...
Que a digam as águias, que viram as lutas
E foram contá-las às águias de além...
E o velho vigia dos louros da pátria
Da história brasílea servil sentinela
— O campo formoso ao grão Pirajá —
Que para cantá-la deitado lá vela.
E após essa luta... Nos ares um grito
Passou repetindo-se em vales e montes...
E a ouvi-lo os tiranos nos tronos tremeram
E viram tremerem-lhe as croas nas frontes...
E um povo de bravos ergueu-se dizendo:
"Já somos nós livres, já somos nação!..."
Coas águas imensas o imenso Amazonas
Pomposo repete: — "Sou livre em meu chão!..."
E ao grito de livres as fontes correram
E em lindas cascatas os rios saltaram...
Ergueram-se cantos festivos de hosanas,
As flores do seio da terra brotaram...
É hoje, senhores, o dia da pátria.
Que dalma — os Baianos — conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.
Senhores, a glória de um povo é ser livre...
O nome de livres é o nosso brasão.
Seja esta a divisa da nossa existência.
E este epitáfio se escreva no chão...
PARTE PRIMEIRA
O CATIVO
QUE CÉU tão negro... que tão negra a terra,
Rugindo rola-se o trovão no espaço...
Falanges negras de chumbadas nuvens
Raios vomitam num medonho abraço...
Na terra perdem-se ao tinir de ferros
Entre soluços mil sentidos cantos,
E ao som do cedro que os machados tombam
Chora o cativo amargurados prantos.
Do rosto másculo lhe goteja a lágrima
Que as ervas torra do queimado chão.
Procura a esposa que lhe mostre o filho...
O céu troveja e lhe responde — não.
Um suor frio lhe passou nos membros...
No corpo a vida para sempre cansa.
Caiu por terra, mas lembrando o filho
Com os lábios hirtos repetiu — vingança.
Nem pôde ao menos abraçar a esposa
Na hora triste do seu passamento.
São-lhe sudário da mangueira velha
As folhas secas que lhe atira o vento.
Só tem por prantos o gemer tristonho
Da ventania que rugindo passa.
— Triste epopéia do guerreiro forte
Que enfim, cativo fez a morte escassa...
E após... Um dia a soluçar nos ferros
Passa o filhinho pla senil mangueira...
E passa o triste sem saber ao menos
Do pátrio túmulo ter passado à beira...
PARTE SEGUNDA
A Vingança
Não ouvis que voz terrível
Que nos traz a ventania
Que há pouco só nos trazia
Tristes suspiros de dor?...
E do relâmpago sinistro...
Vede... As lousas estalaram...
E os espectros acordaram...
Medonhos no seu furor...
Ergueram-se mil fantasmas
Hirsutos e suarentos
A branca mortalha aos ventos
Flutua longa alvadia.
Tiradentes mostra o insulto
Que lhe pesa sobre a fronte,
Gonzaga aponta o horizonte
Coa mão descarnada e fria.
E Cláudio, e o forte Alvarenga
Recordam o seu passado,
Só de dores coroado...
— Triste croa do infeliz...
Pedem castigo pra aqueles
Que assinaram a — sentença —
— De — morte — a quem na defensa
Lutava de seu país.
A mãe clama pelo filho...
E pelo amante a donzela...
O índio pela mata bela
Onde a vida lhera mansa...
— Vingança — uníssona e forte
Uma voz terrível brada...
Três séculos surgem do nada
Para bradarem — vingança —
.....................................
.....................................
PARTE TERCEIRA
SAUDAÇÃO
Quereis que vos conte a história brasílea
Que Deus copiara sorrindo talvez...
E as lutas terríveis do moço gigante
Com o velho que ao mundo ditara só leis...
Oh! Não... Que sois filhos do povo dos bravos...
Sois filhos hercúleos do hercúleo cruzeiro...
Sabeis esta história... Quem é que não sabe-a?
Quem é?... Se não sabe-a... não é Brasileiro.
E a este que a digam as águas de prata
Que um dia de sangue ficaram também...
Que a digam as águias, que viram as lutas
E foram contá-las às águias de além...
E o velho vigia dos louros da pátria
Da história brasílea servil sentinela
— O campo formoso ao grão Pirajá —
Que para cantá-la deitado lá vela.
E após essa luta... Nos ares um grito
Passou repetindo-se em vales e montes...
E a ouvi-lo os tiranos nos tronos tremeram
E viram tremerem-lhe as croas nas frontes...
E um povo de bravos ergueu-se dizendo:
"Já somos nós livres, já somos nação!..."
Coas águas imensas o imenso Amazonas
Pomposo repete: — "Sou livre em meu chão!..."
E ao grito de livres as fontes correram
E em lindas cascatas os rios saltaram...
Ergueram-se cantos festivos de hosanas,
As flores do seio da terra brotaram...
É hoje, senhores, o dia da pátria.
Que dalma — os Baianos — conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.
Senhores, a glória de um povo é ser livre...
O nome de livres é o nosso brasão.
Seja esta a divisa da nossa existência.
E este epitáfio se escreva no chão...
1 512
Castro Alves
Qual Leão
Recitada pelo aluno Antônio de Castro Alves
no Outeiro que teve lugar no Ginásio Baiano
a 3 de julho de 1861
I
Qual leão encostado à dura rocha
Da grande serra, onde o senhor habita,
Vestido de áurea juba reluzente,
O débil caçador ao longe fita;
E grande e generosa que podia
De momento em seu sangue se banhar,
Deixa-o seguir com pena o seu destino
Sem seu poder e forças lhe mostrar:
Tal o Brasil sentado junto às margens
Do verde oceano que seus pés lhe beija,
E recostado sobre o alto Ande
Que além nos ares, pelo céu flameja.
Vestido desse manto lindo e belo
Que nunca o frio inverno desbotou;
Bordado dos diamantes, do ouro fino,
Das lindas flores com que Deus o ornou;
Viu chegar-se de Lísia a cruel gente
Batida pelos ventos e tufão,
Débeis de forças, débeis de esperança,
E apenas merecendo compaixão;
Deixa-os entrar nos bosques gigantescos;
Deixa-os gozar dos puros céus de anil;
Deixa-os fruir de todas as riquezas,
Que o mundo antigo inveja do Brasil.
II
Mas o gigante que amigo
Unira alegre consigo
O peregrino estrangeiro,
Em breve sentiu, raivoso,
Seu colo altivo, orgulhoso,
Sob triste cativeiro.
Sentiu em breve o grilhão
Da mais torpe servidão
Atar-lhe a fronte sobrana;
Essa fronte majestosa
A quem coroa formosa
Dava a gente Americana!
Mas perdendo o sangue frio,
Recordando o antigo brio,
O seu antigo valor;
Sergue súbito da terra
E exclama com voz que aterra
Ardente dira e furor:
"Lísia, que fostes o horror
Dos povos de outro equador
Com teu imenso poder;
Que com as tuas falanges
Às Índias, que banha o Ganges,
Fizeste humilde tremer;
"Sabe que a Índia de agora
Tem outra mais bela aurora;
São Índias, mas do Amazonas,
Sabe que eu sou o Brasil;
Tenho povo senhoril
Como não têm outras zonas.
"Se o índio, o negro africano,
E mesmo o perito Hispano
Tem sofrido servidão;
Ah! Não pode ser escravo
Quem nasceu no solo bravo
Da brasileira região!
E ei-lo já arrojante
De sangue imigo espumante
A destruir, a matar;
Busca de todos os lados
Os mandões que, amedrontados,
Caem na terra e no mar.
Uns Lusitanos já correm,
Outros aos golpes já morrem
Deste novo Adamastor;
Não podendo já mostrar
O seu valor militar
Tremem feridos de horror.
Em Pirajá, em Cabrito,
De Lísia já se ouve o grito,
Surdos gemidos de dor;
Já nem se lembram de glória,
Esquecem té a memória
Dos seus feitos de valor.
Uns acham vida fugindo,
Outros morrem, mas sentindo
Os pulsos do Brasileiro;
Então conhecem, medrosos,
Que para peitos briosos
É quimera o cativeiro.
Então soberbo o gigante
Com sua fronte brilhante
As suas armas deixou;
E levantando os troféus
Clama ousado para os céus:
— Lísia, sim, já livre sou —.
no Outeiro que teve lugar no Ginásio Baiano
a 3 de julho de 1861
I
Qual leão encostado à dura rocha
Da grande serra, onde o senhor habita,
Vestido de áurea juba reluzente,
O débil caçador ao longe fita;
E grande e generosa que podia
De momento em seu sangue se banhar,
Deixa-o seguir com pena o seu destino
Sem seu poder e forças lhe mostrar:
Tal o Brasil sentado junto às margens
Do verde oceano que seus pés lhe beija,
E recostado sobre o alto Ande
Que além nos ares, pelo céu flameja.
Vestido desse manto lindo e belo
Que nunca o frio inverno desbotou;
Bordado dos diamantes, do ouro fino,
Das lindas flores com que Deus o ornou;
Viu chegar-se de Lísia a cruel gente
Batida pelos ventos e tufão,
Débeis de forças, débeis de esperança,
E apenas merecendo compaixão;
Deixa-os entrar nos bosques gigantescos;
Deixa-os gozar dos puros céus de anil;
Deixa-os fruir de todas as riquezas,
Que o mundo antigo inveja do Brasil.
II
Mas o gigante que amigo
Unira alegre consigo
O peregrino estrangeiro,
Em breve sentiu, raivoso,
Seu colo altivo, orgulhoso,
Sob triste cativeiro.
Sentiu em breve o grilhão
Da mais torpe servidão
Atar-lhe a fronte sobrana;
Essa fronte majestosa
A quem coroa formosa
Dava a gente Americana!
Mas perdendo o sangue frio,
Recordando o antigo brio,
O seu antigo valor;
Sergue súbito da terra
E exclama com voz que aterra
Ardente dira e furor:
"Lísia, que fostes o horror
Dos povos de outro equador
Com teu imenso poder;
Que com as tuas falanges
Às Índias, que banha o Ganges,
Fizeste humilde tremer;
"Sabe que a Índia de agora
Tem outra mais bela aurora;
São Índias, mas do Amazonas,
Sabe que eu sou o Brasil;
Tenho povo senhoril
Como não têm outras zonas.
"Se o índio, o negro africano,
E mesmo o perito Hispano
Tem sofrido servidão;
Ah! Não pode ser escravo
Quem nasceu no solo bravo
Da brasileira região!
E ei-lo já arrojante
De sangue imigo espumante
A destruir, a matar;
Busca de todos os lados
Os mandões que, amedrontados,
Caem na terra e no mar.
Uns Lusitanos já correm,
Outros aos golpes já morrem
Deste novo Adamastor;
Não podendo já mostrar
O seu valor militar
Tremem feridos de horror.
Em Pirajá, em Cabrito,
De Lísia já se ouve o grito,
Surdos gemidos de dor;
Já nem se lembram de glória,
Esquecem té a memória
Dos seus feitos de valor.
Uns acham vida fugindo,
Outros morrem, mas sentindo
Os pulsos do Brasileiro;
Então conhecem, medrosos,
Que para peitos briosos
É quimera o cativeiro.
Então soberbo o gigante
Com sua fronte brilhante
As suas armas deixou;
E levantando os troféus
Clama ousado para os céus:
— Lísia, sim, já livre sou —.
1 563
Castro Alves
Ao Dous de Julho
(Recitada no Teatro S. João)
É a hora das epopéias,
Das ilíadas reais.
Ruge o vento — do passado
Pelos mares sepulcrais.
É a hora, em que a Eternidade
Dialoga a Imortalidade...
Fala o herói com Jeová! ...
E Deus — nas celestes plagas —
Colhe da glória nas vagas
Os mortos de Pirajá.
Há destes dias augustos
Na tumba dos Briaréus.
Como que Deus baixa à terra
Sem mesmo descer dos céus.
É que essas lousas rasteiras
São — gigantes cordilheiras
Do Senhor aos olhos nus.
É que essas brancas ossadas
São — colunas arrojadas
Dos infinitos azuis.
Sim! Quando o tempo entre os dedos
Quebra um séclo, uma nação ...
Encontra nomes tão grandes.
Que não lhe cabem na mão!...
Heróis! Como o cedro augusto
Campeia rijo e vetusto
Dos séclos ao perpassar,
Vós sois os cedros da História,
A cuja sombra de glória
Vai-se o Brasil abrigar.
E nós, que somos faíscas
Da luz desses arrebóis,
Nós, que somos borboletas — Das crisálidas de avós,
Nós, que entre as bagas dos cantos.
Por entre as gotas dos prantos
Inda os sabemos chorar,
Podemos dizer: "Das campas
Sacudi as frias tampas!
Vinde a Pátria abençoar!. . .
Erguei-vos, santos fantasmas
Vós não tendes que corar...
(Porque eu sei que o filho torpe
Faz o morto soluçar... )
Gemem as sombras dos Gracos,
Dos Catões, dos Espartacos
Vendo seus filhos tão vis...
Dize-o tu, soberbo Mário!
Tu, que ensopas o sudário
Vendo Roma — meretriz? ...
Ai! Que lágrimas candentes
Choram órbitas sem luz! —
Que idéia terá Leônidas
Vendo Esparta nos pauis?!...
Alta noite, quando pena
Sobre Árcole, sobre Iena,
Bonaparte — o rei dos reis —,
Que dor dalma lhe rebenta.
Ao ver suáguia sangrenta
No sabre de Juarez!?...
Porém aqui não há grito,
Nem pranto, nem ai, nem dor...
O presente não desmente
Do seu ninho de condor...
Mãos, que, outrora de crianças
A rir — dentaram as lanças
Dos velhos de Pirajá...,
De homens hoje, as empunhando,
Nas batalhas afiando,
Vão caminho de Humaitá!...
Basta!... Curvai-vos, ó povo!
Ei-los os vultos sem par,
Só de joelhos podemos
Nest’hora augusta fitar
Riachuelo e Cabrito,
Que sobem para o infinito
Como jungidos leões,
Puxando os carros dourados
Dos meteoros largados
Sobre a noite das nações.
É a hora das epopéias,
Das ilíadas reais.
Ruge o vento — do passado
Pelos mares sepulcrais.
É a hora, em que a Eternidade
Dialoga a Imortalidade...
Fala o herói com Jeová! ...
E Deus — nas celestes plagas —
Colhe da glória nas vagas
Os mortos de Pirajá.
Há destes dias augustos
Na tumba dos Briaréus.
Como que Deus baixa à terra
Sem mesmo descer dos céus.
É que essas lousas rasteiras
São — gigantes cordilheiras
Do Senhor aos olhos nus.
É que essas brancas ossadas
São — colunas arrojadas
Dos infinitos azuis.
Sim! Quando o tempo entre os dedos
Quebra um séclo, uma nação ...
Encontra nomes tão grandes.
Que não lhe cabem na mão!...
Heróis! Como o cedro augusto
Campeia rijo e vetusto
Dos séclos ao perpassar,
Vós sois os cedros da História,
A cuja sombra de glória
Vai-se o Brasil abrigar.
E nós, que somos faíscas
Da luz desses arrebóis,
Nós, que somos borboletas — Das crisálidas de avós,
Nós, que entre as bagas dos cantos.
Por entre as gotas dos prantos
Inda os sabemos chorar,
Podemos dizer: "Das campas
Sacudi as frias tampas!
Vinde a Pátria abençoar!. . .
Erguei-vos, santos fantasmas
Vós não tendes que corar...
(Porque eu sei que o filho torpe
Faz o morto soluçar... )
Gemem as sombras dos Gracos,
Dos Catões, dos Espartacos
Vendo seus filhos tão vis...
Dize-o tu, soberbo Mário!
Tu, que ensopas o sudário
Vendo Roma — meretriz? ...
Ai! Que lágrimas candentes
Choram órbitas sem luz! —
Que idéia terá Leônidas
Vendo Esparta nos pauis?!...
Alta noite, quando pena
Sobre Árcole, sobre Iena,
Bonaparte — o rei dos reis —,
Que dor dalma lhe rebenta.
Ao ver suáguia sangrenta
No sabre de Juarez!?...
Porém aqui não há grito,
Nem pranto, nem ai, nem dor...
O presente não desmente
Do seu ninho de condor...
Mãos, que, outrora de crianças
A rir — dentaram as lanças
Dos velhos de Pirajá...,
De homens hoje, as empunhando,
Nas batalhas afiando,
Vão caminho de Humaitá!...
Basta!... Curvai-vos, ó povo!
Ei-los os vultos sem par,
Só de joelhos podemos
Nest’hora augusta fitar
Riachuelo e Cabrito,
Que sobem para o infinito
Como jungidos leões,
Puxando os carros dourados
Dos meteoros largados
Sobre a noite das nações.
2 090