Poemas neste tema
Sonhos e Imaginação
Flávia Wanderley
As sombras da noite
As sombras da noite
São como fantasmas,
que nos perseguem quando crianças
São como vultos,
que nos assustam de relance
São como anjos,
que nos buscam na hora de descansar
É nossa imaginação
que brinca conosco
como crianças
que brincam de "pique".
Pique-tá
Pique-pega
Pique-esconde
Está dentro de nós
a nossa vontade de sonhar
e realizar ...
Pega-nos peça, de surpresa
como se fossemos brinquedo
um brinquedo do mundo
do mundo do faz-de-conta.
Esconde-se atrás de um olhar
como nos faz pensar
que não somos mais crianças
mais ainda podemos sonhar...
São como fantasmas,
que nos perseguem quando crianças
São como vultos,
que nos assustam de relance
São como anjos,
que nos buscam na hora de descansar
É nossa imaginação
que brinca conosco
como crianças
que brincam de "pique".
Pique-tá
Pique-pega
Pique-esconde
Está dentro de nós
a nossa vontade de sonhar
e realizar ...
Pega-nos peça, de surpresa
como se fossemos brinquedo
um brinquedo do mundo
do mundo do faz-de-conta.
Esconde-se atrás de um olhar
como nos faz pensar
que não somos mais crianças
mais ainda podemos sonhar...
872
Francisco Orban
Um homem
Um homem
não trai seu sonho
nem o deixa
sem o abrigo
da tarde
Assim o tem
como vestimenta
que não o deixa
mentir
que o desnuda
e o abate
Um homem traduz
seu sonho
na sua forma
de cumprir a tarde
como se sonhar
fosse só um ato
e não
um difícil encargo
não trai seu sonho
nem o deixa
sem o abrigo
da tarde
Assim o tem
como vestimenta
que não o deixa
mentir
que o desnuda
e o abate
Um homem traduz
seu sonho
na sua forma
de cumprir a tarde
como se sonhar
fosse só um ato
e não
um difícil encargo
901
Flávio Villa-Lobos
Delírio
Na penumbra,
uma indefinível alegoria
salta na trêmula paisagem
e principia uma estranha
dança noturna.
Passos silenciosos
movem-se elásticos
em meio à névoa úmida
- vôos espetaculares
sem música.
Gestos grandiosos,
o corpo envolto em mímica
revela o deslumbramento
solitário e, ao mesmo tempo,
mágico e absoluto.
Instante único,
encontro de almas gêmeas,
o toque ímpar no extraordinário...
Fuga da realidade
em pleno sol da meia-noite.
uma indefinível alegoria
salta na trêmula paisagem
e principia uma estranha
dança noturna.
Passos silenciosos
movem-se elásticos
em meio à névoa úmida
- vôos espetaculares
sem música.
Gestos grandiosos,
o corpo envolto em mímica
revela o deslumbramento
solitário e, ao mesmo tempo,
mágico e absoluto.
Instante único,
encontro de almas gêmeas,
o toque ímpar no extraordinário...
Fuga da realidade
em pleno sol da meia-noite.
897
Fernando Fábio Fiorese Furtado
Mulher Dormindo
apenas a alma dorme
o corpo insone
trabalha
os minérios do sono
sustenta o pânico
o naufrágio
na penumbra
fogo e relva
os músculos dançam
debruçados sobre o nada
os olhos não
os olhos sonham
à sombra da alma
- e sobrevivem
ao dilúvio
o corpo insone
trabalha
os minérios do sono
sustenta o pânico
o naufrágio
na penumbra
fogo e relva
os músculos dançam
debruçados sobre o nada
os olhos não
os olhos sonham
à sombra da alma
- e sobrevivem
ao dilúvio
1 003
Flávio Sátiro Fernandes
Toilette
1. Quem garante
que ao escovar os dentes
eu não esteja
escovando a alma?
Não sinto
o sabor de menta
ou de clorofila.
Muito menos
o hexaclorofeno.
Na boca,
apenas,
o gosto dos sonhos
da noite insone.
2. Uma mão
lava a outra
e as duas
(em concha)
lavam o desgosto.
3. O pincel,
o creme,
a espuma a se espalhar
na face descoberta.
O gesto ritual
de retirar
da têmporas
a espuma.
A lâmina afiada
a deslizar
em meu disfarce oculto.
4. O pente põe
bem comportados
os fantasmas
negros e brancos
do pesadelo de ontem.
Até que a noite
volte a confundi-los.
que ao escovar os dentes
eu não esteja
escovando a alma?
Não sinto
o sabor de menta
ou de clorofila.
Muito menos
o hexaclorofeno.
Na boca,
apenas,
o gosto dos sonhos
da noite insone.
2. Uma mão
lava a outra
e as duas
(em concha)
lavam o desgosto.
3. O pincel,
o creme,
a espuma a se espalhar
na face descoberta.
O gesto ritual
de retirar
da têmporas
a espuma.
A lâmina afiada
a deslizar
em meu disfarce oculto.
4. O pente põe
bem comportados
os fantasmas
negros e brancos
do pesadelo de ontem.
Até que a noite
volte a confundi-los.
907
Fernando José dos Santos Oliveira
Pensa
Pensa
Pensa
Que sua Presença -
Intensa, Imensa -
Não me é Recompensa
De sua InsensaTEZ ?!
Pensa
Que seu corpo ainda
É virgem de mim
Só porque não o toquei ?!
Atirei-a, vezes muitas,
Ao sofá, ou à cama, ou ao chão.
Rasguei sua roupa,
Com fúria adolescida.
E a amei,
Com calma maturada.
Com a língua escrevi poemas
Em seu corpo-papel-em-branco.
Persegui fugidias gotas de suor
E as sorvi, no alcançá-las,
Para repor a umidade perdida
Na aspereza repentina de sua pele arrepiada,
Na relva macia de seus pêlos sobreviventes.
Quando não, soprava-as - esfriando-as.
Percorri todos os seus caminhos:
Queria sentir-lhes a textura, o cheiro, o gosto;
Usei as mãos (quase flutuando),
A ponta do nariz (quase raspando),
A boca (quase beijando).
Segurei-a para que não me tocasse:
meu prazer vinha do dar.
Formei pequenos seios com sua pele entre meus dentes,
- E a devolvia, levemente marcada;
Aspirei-a, aos pedaços, para dentro de minha boca,
- E os devolvia, levemente avermelhados.
Vi o cerrar de seus olhos,
A procura frenética de sua língua:
Chicoteando o ar, umedecendo os lábios.
Egoísta, não deixei que (só) ELE a invadisse:
Escorri-me, todo, para dentro, vestindo-o.
Ergui-me, meio corpo, nos braços
E levantei a cabeça, estiquei o pescoço,
Para escorrer mais.
Consegui: nos tornamos um só
Nesta viagem úmida, quente, confortável
De idas e vindas.
Não a larguei
Até ouvir o meu prazer de sua boca:
Num grito, num choro, num gemido -
Vindos de um calor,
Um tremor,
Um explodir contraído,
Um suspirar profundo, ofegante - quase arfar.
Vindo de uma vontade de nada mais ser.
Talvez, até, de morrer,
Eis que nada mais importa
(nem mesmo se alguém lembrou de fechar a porta).
Acordei. Foi um sonho. Acordei?! Foi um sonho?!
Pensa
Que sua Presença -
Intensa, Imensa -
Não me é Recompensa
De sua InsensaTEZ ?!
Pensa
Que seu corpo ainda
É virgem de mim
Só porque não o toquei ?!
Atirei-a, vezes muitas,
Ao sofá, ou à cama, ou ao chão.
Rasguei sua roupa,
Com fúria adolescida.
E a amei,
Com calma maturada.
Com a língua escrevi poemas
Em seu corpo-papel-em-branco.
Persegui fugidias gotas de suor
E as sorvi, no alcançá-las,
Para repor a umidade perdida
Na aspereza repentina de sua pele arrepiada,
Na relva macia de seus pêlos sobreviventes.
Quando não, soprava-as - esfriando-as.
Percorri todos os seus caminhos:
Queria sentir-lhes a textura, o cheiro, o gosto;
Usei as mãos (quase flutuando),
A ponta do nariz (quase raspando),
A boca (quase beijando).
Segurei-a para que não me tocasse:
meu prazer vinha do dar.
Formei pequenos seios com sua pele entre meus dentes,
- E a devolvia, levemente marcada;
Aspirei-a, aos pedaços, para dentro de minha boca,
- E os devolvia, levemente avermelhados.
Vi o cerrar de seus olhos,
A procura frenética de sua língua:
Chicoteando o ar, umedecendo os lábios.
Egoísta, não deixei que (só) ELE a invadisse:
Escorri-me, todo, para dentro, vestindo-o.
Ergui-me, meio corpo, nos braços
E levantei a cabeça, estiquei o pescoço,
Para escorrer mais.
Consegui: nos tornamos um só
Nesta viagem úmida, quente, confortável
De idas e vindas.
Não a larguei
Até ouvir o meu prazer de sua boca:
Num grito, num choro, num gemido -
Vindos de um calor,
Um tremor,
Um explodir contraído,
Um suspirar profundo, ofegante - quase arfar.
Vindo de uma vontade de nada mais ser.
Talvez, até, de morrer,
Eis que nada mais importa
(nem mesmo se alguém lembrou de fechar a porta).
Acordei. Foi um sonho. Acordei?! Foi um sonho?!
977
Fernanda de Castro
Asa no Espaço
Asa no espaço, vai, pensamento!
Na noite azul, minha alma, flutua!
Quero voar nos braços do vento,
quero vogar nos braços da Lua!
Vai, minha alma, branco veleiro,
vai sem destino, a bússola tonta...
Por oceanos de nevoeiro
corre o impossível, de ponta a ponta.
Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim,
que a terra é curta, que o mar é pouco,
que tudo é perto, princípio e fim.
Castelos fluidos, jardins de espuma,
ilhas de gelo, névoas, cristais,
palácios de ondas, terras de bruma,
... Asa, mais alto, mais alto, mais!
Na noite azul, minha alma, flutua!
Quero voar nos braços do vento,
quero vogar nos braços da Lua!
Vai, minha alma, branco veleiro,
vai sem destino, a bússola tonta...
Por oceanos de nevoeiro
corre o impossível, de ponta a ponta.
Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim,
que a terra é curta, que o mar é pouco,
que tudo é perto, princípio e fim.
Castelos fluidos, jardins de espuma,
ilhas de gelo, névoas, cristais,
palácios de ondas, terras de bruma,
... Asa, mais alto, mais alto, mais!
1 768
Moacyr Felix
Auto-Retrato
Certa vez, numa aventura estranha
fugi
do estreito túmulo em que me estorcia
para uma ampliação sem fim.
Quando voltei
e senti, de novo, ferindo-me, o peso dos grilhões,
então não mais sabia quem eu era.
E nunca mais soube quem eu sou.
Talvez a sombra triste de um sonho de poeta.
Talvez a misteriosa alma de uma estrela
a guardar ainda no profundo cerne
a ilógica saudade de um passado astral.
[C.T., 1959.1
fugi
do estreito túmulo em que me estorcia
para uma ampliação sem fim.
Quando voltei
e senti, de novo, ferindo-me, o peso dos grilhões,
então não mais sabia quem eu era.
E nunca mais soube quem eu sou.
Talvez a sombra triste de um sonho de poeta.
Talvez a misteriosa alma de uma estrela
a guardar ainda no profundo cerne
a ilógica saudade de um passado astral.
[C.T., 1959.1
1 604
Flávio Sátiro Fernandes
Rei do mar
Mar.
Mar de areia.
Areia do mar.
Sereia do mar.
Dois seres
na areia do mar.
(Ou no mar de areia?)
Sou eu a amar
a sereia do mar.
Serei rei do mar.
Mar de areia.
Areia do mar.
Sereia do mar.
Dois seres
na areia do mar.
(Ou no mar de areia?)
Sou eu a amar
a sereia do mar.
Serei rei do mar.
1 129
Fernanda Benevides
Afagando Sonhos
Meu coração afaga sonhos.
Sonhos despedaçados.
Coisas do passado
acariciam o presente.
Abraço ilusões vãs.
Lembranças fazem cócegas na
memória,
até quando, não sei...
Afagando sonhos, alimento a alma.
Sacio a sede das madrugadas...
Sonhos despedaçados.
Coisas do passado
acariciam o presente.
Abraço ilusões vãs.
Lembranças fazem cócegas na
memória,
até quando, não sei...
Afagando sonhos, alimento a alma.
Sacio a sede das madrugadas...
816
Fernanda Benevides
Das Escadarias do Templo
Um dia fincarei,
qual astronauta, em altos píncaros
o marco do mais puro,
do mais sublime do mais...,
o ideal acalentado.
Assim,
lanço-me nos degraus do templo...!
(Inédito)
qual astronauta, em altos píncaros
o marco do mais puro,
do mais sublime do mais...,
o ideal acalentado.
Assim,
lanço-me nos degraus do templo...!
(Inédito)
941
Everaldo Ygor
Pensar o Próprio Pensamento
Pensar o próprio pensamento
Manejar a intuição
Comum é nossa fome
Complexa é nossa liberdade
Estão fixando a vista entre si
Mas não fitaram-se com ternura
Estão apenas
Fingindo sentimentos que não possuem
Já estamos em tempo
De discursar o pensamento
De resgatar a Coragem
Oculta na imaginação
Vamos transformar
O que chama de utopia
Na verdadeira força do sonho
Manejar a intuição
Comum é nossa fome
Complexa é nossa liberdade
Estão fixando a vista entre si
Mas não fitaram-se com ternura
Estão apenas
Fingindo sentimentos que não possuem
Já estamos em tempo
De discursar o pensamento
De resgatar a Coragem
Oculta na imaginação
Vamos transformar
O que chama de utopia
Na verdadeira força do sonho
827
Ernani Sátyro
As Dunas
(Nos céus da Bahia)
As dunas não são dunas.
Só mesmo imaginando elas são dunas,
Que vistas do avião, ao sol,
Apenas são espelhos.
É preciso que à terra nós baixemos
Para que sejam dunas.
Baixemos, pois, mas não por muito tempo.
Deixemos que elas sejam o que do alto são.
As dunas não são dunas.
Só mesmo imaginando elas são dunas,
Que vistas do avião, ao sol,
Apenas são espelhos.
É preciso que à terra nós baixemos
Para que sejam dunas.
Baixemos, pois, mas não por muito tempo.
Deixemos que elas sejam o que do alto são.
882
Manoel Elias Filho
Restos
Do amor intensoNa calada da noiteDo fogo do sexoSobraram restosVestígios, marcas.Do encontroSobrou a fuga.Da sociedadeRestou a insegurançaDo ser humanoRestou pedaçosTrapos de um serDivisão, confusão.Que da verdadeRestou a mentira.Que da razãoRestou a loucura.E da realidadeRestou a fantasiaPedaços de mimRestos de vocêSobras de todosRestos do mundo.
933
Débora Novaes de Castro
Haicai
concha perolada
descoberta pelos ventos
soprar das areias
varando nuvens,
levando sonhos d’ouro
cavalo alado
descoberta pelos ventos
soprar das areias
varando nuvens,
levando sonhos d’ouro
cavalo alado
932
Edmir Domingues
Poema para Velhos
onde se fala da emoção imperdoável — e vergonhosa
— das lembranças do País chamado Infância.
Nas comarcas de Infância havia vida.
O que fiz dessa vida? Que sei eu?
Onde estão os anseios desse tempo?
Pois havia, no então, as borboletas
de asas azuis, que agora já não vejo,
as quais eu perseguia, sob as sombras
das bananeiras e dos laranjais.
Que fazer, neste instante, para vê-las
em viagem de volta aos tempos idos?
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Cantava o sabiá sobre as palmeiras
que os ventos marinheiros balançavam
como as brisas beijavam as bandeiras.
Como tornar atrás, sem instrumentos,
sem mapas nem roteiros, destruídos
no fragor dos combates os sextantes?
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Os perfumes de Infância, nos cabelos
da bem-amada, onde estarão nesta hora?
As pipas coloridas, os campinhos
de várzea, num País de Juventude?
Tudo isso acabou. Toda a pureza
morreu, estraçalhada pelas Máquinas.
As crianças de agora se realizam
na frieza dos seus computadores,
curtindo os seus Heróis da Violência,
com sangue, sangue. E cada vez mais sangue.
Não pisaram, jamais, terras de Infância.
já não creem no Lobo, na Avozinha
do Chapeuzinho, a Casa da Floresta
construída de puro chocolate.
Papai Noel existe, com certeza,
para aqueles que sempre creram nele.
A Pequena Sereia, Os Três Porquinhos,
sandálias de cristal da Cinderela,
e João, Maria, os Ovos de Ouro, tudo,
mesmo o Patinho Feio que era um cisne,
já não são coisas da imaginação.
São tevês, são cinema, sem o apelo
das histórias de Infância.
(Capineiro
do meu Pai, por que me cortas o cabelo?
Minha mãe me penteou, minha Madrasta me enterrou,
pelo figo da figueira que o pássaro picou... )
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Como as, outras histórias, sob a Lua
e sob os copiares, Lobisomens
e Mulas sem Cabeça, e Curupiras
com seus pés para trás, como antevendo
o para trás que cresce em tudo, agora.
E Anhangá, e a Alamoa, e o Negrinho
do Pastoreio entregue ao formigueiro.
Tudo morreu, nas garras do Progresso,
que é um bem, que é um mal inevitável.
A leitura está morta. Os livros todos
deverão ser lançados às fogueiras.
— Menos os bestasséleres que vendem
como vende o pão-quente em padaria.
Resta agora a pergunta: como então
apertar mãos de Acab e de Simbad,
encontrar Aladim, seu servo, o Gênio,
escutar Sherazade, noite a noite?
Tudo acabou, e os sons da vida nova
são pios de Corujas, retalhando
as mortalhas do tempo, do meu Tempo.
Habita agora o Corvo no meu quarto.
Nunca mais voltarei a Infância, a antiga
pátria dos sonhos bons, das esperanças.
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
— das lembranças do País chamado Infância.
Nas comarcas de Infância havia vida.
O que fiz dessa vida? Que sei eu?
Onde estão os anseios desse tempo?
Pois havia, no então, as borboletas
de asas azuis, que agora já não vejo,
as quais eu perseguia, sob as sombras
das bananeiras e dos laranjais.
Que fazer, neste instante, para vê-las
em viagem de volta aos tempos idos?
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Cantava o sabiá sobre as palmeiras
que os ventos marinheiros balançavam
como as brisas beijavam as bandeiras.
Como tornar atrás, sem instrumentos,
sem mapas nem roteiros, destruídos
no fragor dos combates os sextantes?
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Os perfumes de Infância, nos cabelos
da bem-amada, onde estarão nesta hora?
As pipas coloridas, os campinhos
de várzea, num País de Juventude?
Tudo isso acabou. Toda a pureza
morreu, estraçalhada pelas Máquinas.
As crianças de agora se realizam
na frieza dos seus computadores,
curtindo os seus Heróis da Violência,
com sangue, sangue. E cada vez mais sangue.
Não pisaram, jamais, terras de Infância.
já não creem no Lobo, na Avozinha
do Chapeuzinho, a Casa da Floresta
construída de puro chocolate.
Papai Noel existe, com certeza,
para aqueles que sempre creram nele.
A Pequena Sereia, Os Três Porquinhos,
sandálias de cristal da Cinderela,
e João, Maria, os Ovos de Ouro, tudo,
mesmo o Patinho Feio que era um cisne,
já não são coisas da imaginação.
São tevês, são cinema, sem o apelo
das histórias de Infância.
(Capineiro
do meu Pai, por que me cortas o cabelo?
Minha mãe me penteou, minha Madrasta me enterrou,
pelo figo da figueira que o pássaro picou... )
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Como as, outras histórias, sob a Lua
e sob os copiares, Lobisomens
e Mulas sem Cabeça, e Curupiras
com seus pés para trás, como antevendo
o para trás que cresce em tudo, agora.
E Anhangá, e a Alamoa, e o Negrinho
do Pastoreio entregue ao formigueiro.
Tudo morreu, nas garras do Progresso,
que é um bem, que é um mal inevitável.
A leitura está morta. Os livros todos
deverão ser lançados às fogueiras.
— Menos os bestasséleres que vendem
como vende o pão-quente em padaria.
Resta agora a pergunta: como então
apertar mãos de Acab e de Simbad,
encontrar Aladim, seu servo, o Gênio,
escutar Sherazade, noite a noite?
Tudo acabou, e os sons da vida nova
são pios de Corujas, retalhando
as mortalhas do tempo, do meu Tempo.
Habita agora o Corvo no meu quarto.
Nunca mais voltarei a Infância, a antiga
pátria dos sonhos bons, das esperanças.
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
1 459
Dílson Catarino
Eu Você
quero por que quero querer
seu cheiro em minha vida
não me importa se é já
ou se é muito depois
o que me importa é
ter um filme a assistir
ou cervejas a tomar
o que quero é estar
no seu sonho ou pesadelo
e por acaso penetrar
em sua fome ou janela
não gosto de não ter
vontade de ter fome
você sem minha fome
gosto de você mesmo sem fome
você é a minha madrugada
é meu carinho em um cão sem dono
é meu sonho em uma estrada de madrugada
é meu cheiro de lenha molhada
é minha ópera de madrugada
é a minha própria madrugada
você sem mim
é meio sem fim
eu sem você
sou todo sem quê.
sou inteiro sem porquê
sou montante sem sem
sou eu sem ser você
sou você sem ser você
minha vida é sem Drummond
o duro é estar Byron
querendo estar você
e meio sem saber
sempre sou você
EU EM VOCÊ
VOCÊ E EU
seu cheiro em minha vida
não me importa se é já
ou se é muito depois
o que me importa é
ter um filme a assistir
ou cervejas a tomar
o que quero é estar
no seu sonho ou pesadelo
e por acaso penetrar
em sua fome ou janela
não gosto de não ter
vontade de ter fome
você sem minha fome
gosto de você mesmo sem fome
você é a minha madrugada
é meu carinho em um cão sem dono
é meu sonho em uma estrada de madrugada
é meu cheiro de lenha molhada
é minha ópera de madrugada
é a minha própria madrugada
você sem mim
é meio sem fim
eu sem você
sou todo sem quê.
sou inteiro sem porquê
sou montante sem sem
sou eu sem ser você
sou você sem ser você
minha vida é sem Drummond
o duro é estar Byron
querendo estar você
e meio sem saber
sempre sou você
EU EM VOCÊ
VOCÊ E EU
983
Debora Bottcher
Reino de Mar
As Lendas contam que
Do outro lado do Mar,
No Reino de Mar,
Há um vale onde são guardadas
Todas as coisas perdidas da Terra.
Os sonhos perdidos,
As horas perdidas,
Os tesouros perdidos...
As pessoas - depois de muita busca -,
Vão até lá procurar
Atos e dias perdidos.
E ficam surpresas por encontrar
Um Amor perdido...
Simplesmeste porque,
Apesar de sentirem falta dele,
O buscaram sempre em lugares errados...
Do outro lado do Mar,
No Reino de Mar,
Há um vale onde são guardadas
Todas as coisas perdidas da Terra.
Os sonhos perdidos,
As horas perdidas,
Os tesouros perdidos...
As pessoas - depois de muita busca -,
Vão até lá procurar
Atos e dias perdidos.
E ficam surpresas por encontrar
Um Amor perdido...
Simplesmeste porque,
Apesar de sentirem falta dele,
O buscaram sempre em lugares errados...
956
Carla Dias
Azul
O que vê, são pedras que o tempo cuidou para que se transformassem numa "obra além da arte".
Obra de arte em si, era tudo o que fosse concebido como resultado de uma ânsia por liberdade.
O que ele assistia, tratava-se da própria liberdade ... extensa e transparente.
As pedras moldavam o corpo de um homem .Cabeça sobre os joelhos,
apoiada,
escondendo-se os vestígios de seu olhar.
Sempre o mesmo homem, curvado sobre si mesmo.
A vida andava confusa e confessava sua fragilidade.
Ele sorriu. Havia descoberto curiosos seres, rebordosos até, alguns com seus largos sorrisos.
Às vezes, as lágrimas invadiam seus olhos ... choravam alguns pela confissão humana de que o tempo desenha sonhos em corações ansiosos.
As palavras não substituíam a estampada beleza da terra, e ele chorava a tolice e mediocridade daqueles que têm medo de jogar-se ao infinito. Brotavam sussurros das "pedras-homem" e eles eram pensamentos.
A poesia vestia a tentativa de redescobrir o infindável desejo de voar!
A liberdade dolorida havia cravado unhas na sua carne de jovem sem rumo. E por mais que ele tentasse, era impossível desviar-se dela, porque a liberdade sorria ... riso jocoso, ironia própria da originalidade ... doce ... venenosa.
Queria ultrapassar.
Ele bebia sua bebida com gosto de nada.
A solidão havia lhe concedido olhos azuis e eles enxergavam além ... olhares distantes e ausentes.
A solidão havia lhe emprestado um enorme desejo de consumi-la e depois, gentil como sempre, ele tentaria livrar-se dela, esperando que viscerais sentimentos o fizessem homem com vida.
Ele não queria ser definido. Queria algo que se esparramasse e se transformasse em "gotas de alma" ... raros toques em suaves peles. Profundos toques em verdadeiras fantasias ... cálidas flores a beira da estrada, de terra.
Amava amar o amor, poética, louca e eternamente. Uma eternidade que provocava sua imaginação ... o espaço ... a cura para o esquecimento e para o tempo era não tê-los!
Águas caiam sobre sua pele queimada por um sol que lhe abria caminho tão sinuoso quanto sua própria busca. Caía sobre seu corpo as águas choradas pelas pedras ... gota a gota, e seu som de sonho, de indefinida cor, de si. E ele escutava sons!
Desejava um fim de tarde, um gosto totalmente novo e que permitisse saborear ... um gosto de presença.
Enquanto o mundo seguia, através de caminhos tão tortuosos, a procura de esquecido orgulho, ele jogava seus pensamentos ao vento, olhando através da janela do quarto, vendo sua ansiedade abrir-se feito leque ...
o abismo estendia suas mãos, sedosas e brancas, tecitura de bálsamo ... o alívio é um engano, uma inesperada ilusão.
E havia aquele que optava pela inerte indiferença.
Ele queria a provocante sensação de existir.
Tocando um segundo de estática fantasia, viu-se sem chão ,
sem precisar deixar marcas na areia branca. Pensou que a "pretensão" sempre foi uma forma de evitar o desejo,
o gosto,
o gozo.
Seus olhos ... azuis ... de quase bucólica tristeza. Seus olhos azuis e sem alicerces, feito o céu, cantavam a alegria de pura beleza e que, de tão mal entendida, era tido feito tristeza. Chamavam de tristeza a alegria dolorida e febril do poeta que é vida. Alegria que, sábia, concedia à ele o gosto do vinho bom, de torpor onírico e lírico gozo ... e a solidão espalhou-se dentro de seu peito, tomando conta do susto que foi a companhia que lhe beijou os olhos. E ficaram as xícaras de café cheias de conhaque, e os cigarros acesos, em sintonia com os primeiros raios de luz de uma manhã gritante, ainda que muda.
O que há entre seu dia e sua noite?
Ele, feito um quadro nascido de um fim de tarde frio, daqueles em que desejamos extrair até a última loucura. A minha frente, outra criação que não é minha, mas leva a minha alma, merece meu sangue, pede pela minha essência. E ele caminha entre campos floridos e campos minados, estilhaçando flores e colando ideais ... explodindo em distintas realidades!
Desdobra-se a imaginação e, um único pôr-do-sol torna-se a luz de todos os dias de uma vida ...
e uma única lua está refletida nas águas que banham seus pés e matam minha sede.
Há um baú cheio de revelações e,
apesar da necessidade de revira-lo,
jogar para for cada peça das vestes da peculiaridade de acordar sem deixar pistas sobre a noite que chega ao fim, ele espera que o coração se aquiete para retornar ao inviolável sono.
E eu,
passo derrubando tudo e tentando escandalizar o óbvio ... escandalizar à mim!
É que eu amo ...
E por amá-lo é que sinto sua presença durante a noite, enquanto olho a escuridão com curiosidade felina. Por amá-lo, consumo um instante de vampirismo alucinante e busco à mim, em paz ... a paz que adormece sobre outro instante.
Sobre a prateleira, aviões simbolizam sua vontade de tocar o céu e sua boca, seca, está a procura de palavras que possam umidecê-la.
Brinca com suas asas metálicas, perdendo-se no tempo de propósito, e deixando pistas para que eu possa encontrá-lo. E a agonia que o toca, tão típica dos que saboreiam a fome por vida, desce pela sua garganta junto com um gole de conhaque, aquecendo e tranqüilizando.
Os aviões sobre a prateleira esboçam sua imaginação ... montanhas minando mistérios
e dias passando enquanto ele desenha seu castelo no ar.
Tem sua roupa de guerreiro guardada e precisa - sente a necessidade rasgar-lhe a carne - reconhecer a vida, ao invés de abandoná-la ao obsoleto.
Então, amo um sonho inquieto,
um homem que vive a caminhar ...
ele corre, vez ou outra, movido pelo desespero que o tédio lhe causa e ensinando que Ícaro pecou ao subestimar o próprio sonho. Alguns sonhos são intocáveis e, por essa razão, querem dizer mais do que o desejo de tocá-los.
Passa por ele uma folha ... voa a tal, quase seca e sem paradeiro.
Ele a pega,
beleza ressequida e de essência medieval,
visão inusitada ... a instantânea fotografia do abandono,
lá está estampada!
Pousam olhos azuis sobre o arco-íris refletido nas águas da cachoeira.
O mar, azul, não tem profundidade tão torpe.
Pousam olhares azuis de "ele"
que ama e confunde-se ao sentir
o beijo que não aconteceu.
Azul ... tão azul é o dia que nasce e comemora a fascinação!
Falta fascínio naqueles que não enxergam a cor do espaço, salpicado de estrelas reluzentes e flutuantes planetas.
O quadro umedece a seca e estéril realidade.
Holofotes deixam pelo caminho a luz azul que sai dos olhos do "menino-homem" de asas escondidas e que esculpiu a imaginação nas pedras desta terra.
Por detrás de um silêncio profundo, de aviões, asas partidas e montanhas envolvidas em mistérios, esconde-se o "ele" a cometer pecados e crimes que não ferem à ninguém, além de si próprio, como se a sentença lhe desse a condição de realizador do exorcismo da solidão e provocasse o próximo passo em direção à si mesmo.
Sua sentença : permanecer preso pelas próprias asas, como todo poeta vive preso ao que sente , e isso explode e morre, unindo num só instante a prisão e a liberdade.
A vida fere e cura.
Voa ... voa "ele", azul e gigante ... tão gigante quanto o ar. Eu o respiro ... respiro porque, somente assim, posso amar corpo e alma de um "menino-homem" que vive do desejo de voar e da sedução das pedras e estradas. Só assim, poderei chegar ao fim de outra tarde ...
tecendo sonhos ...
colhendo luas ....
olhando o céu ... azul.
Obra de arte em si, era tudo o que fosse concebido como resultado de uma ânsia por liberdade.
O que ele assistia, tratava-se da própria liberdade ... extensa e transparente.
As pedras moldavam o corpo de um homem .Cabeça sobre os joelhos,
apoiada,
escondendo-se os vestígios de seu olhar.
Sempre o mesmo homem, curvado sobre si mesmo.
A vida andava confusa e confessava sua fragilidade.
Ele sorriu. Havia descoberto curiosos seres, rebordosos até, alguns com seus largos sorrisos.
Às vezes, as lágrimas invadiam seus olhos ... choravam alguns pela confissão humana de que o tempo desenha sonhos em corações ansiosos.
As palavras não substituíam a estampada beleza da terra, e ele chorava a tolice e mediocridade daqueles que têm medo de jogar-se ao infinito. Brotavam sussurros das "pedras-homem" e eles eram pensamentos.
A poesia vestia a tentativa de redescobrir o infindável desejo de voar!
A liberdade dolorida havia cravado unhas na sua carne de jovem sem rumo. E por mais que ele tentasse, era impossível desviar-se dela, porque a liberdade sorria ... riso jocoso, ironia própria da originalidade ... doce ... venenosa.
Queria ultrapassar.
Ele bebia sua bebida com gosto de nada.
A solidão havia lhe concedido olhos azuis e eles enxergavam além ... olhares distantes e ausentes.
A solidão havia lhe emprestado um enorme desejo de consumi-la e depois, gentil como sempre, ele tentaria livrar-se dela, esperando que viscerais sentimentos o fizessem homem com vida.
Ele não queria ser definido. Queria algo que se esparramasse e se transformasse em "gotas de alma" ... raros toques em suaves peles. Profundos toques em verdadeiras fantasias ... cálidas flores a beira da estrada, de terra.
Amava amar o amor, poética, louca e eternamente. Uma eternidade que provocava sua imaginação ... o espaço ... a cura para o esquecimento e para o tempo era não tê-los!
Águas caiam sobre sua pele queimada por um sol que lhe abria caminho tão sinuoso quanto sua própria busca. Caía sobre seu corpo as águas choradas pelas pedras ... gota a gota, e seu som de sonho, de indefinida cor, de si. E ele escutava sons!
Desejava um fim de tarde, um gosto totalmente novo e que permitisse saborear ... um gosto de presença.
Enquanto o mundo seguia, através de caminhos tão tortuosos, a procura de esquecido orgulho, ele jogava seus pensamentos ao vento, olhando através da janela do quarto, vendo sua ansiedade abrir-se feito leque ...
o abismo estendia suas mãos, sedosas e brancas, tecitura de bálsamo ... o alívio é um engano, uma inesperada ilusão.
E havia aquele que optava pela inerte indiferença.
Ele queria a provocante sensação de existir.
Tocando um segundo de estática fantasia, viu-se sem chão ,
sem precisar deixar marcas na areia branca. Pensou que a "pretensão" sempre foi uma forma de evitar o desejo,
o gosto,
o gozo.
Seus olhos ... azuis ... de quase bucólica tristeza. Seus olhos azuis e sem alicerces, feito o céu, cantavam a alegria de pura beleza e que, de tão mal entendida, era tido feito tristeza. Chamavam de tristeza a alegria dolorida e febril do poeta que é vida. Alegria que, sábia, concedia à ele o gosto do vinho bom, de torpor onírico e lírico gozo ... e a solidão espalhou-se dentro de seu peito, tomando conta do susto que foi a companhia que lhe beijou os olhos. E ficaram as xícaras de café cheias de conhaque, e os cigarros acesos, em sintonia com os primeiros raios de luz de uma manhã gritante, ainda que muda.
O que há entre seu dia e sua noite?
Ele, feito um quadro nascido de um fim de tarde frio, daqueles em que desejamos extrair até a última loucura. A minha frente, outra criação que não é minha, mas leva a minha alma, merece meu sangue, pede pela minha essência. E ele caminha entre campos floridos e campos minados, estilhaçando flores e colando ideais ... explodindo em distintas realidades!
Desdobra-se a imaginação e, um único pôr-do-sol torna-se a luz de todos os dias de uma vida ...
e uma única lua está refletida nas águas que banham seus pés e matam minha sede.
Há um baú cheio de revelações e,
apesar da necessidade de revira-lo,
jogar para for cada peça das vestes da peculiaridade de acordar sem deixar pistas sobre a noite que chega ao fim, ele espera que o coração se aquiete para retornar ao inviolável sono.
E eu,
passo derrubando tudo e tentando escandalizar o óbvio ... escandalizar à mim!
É que eu amo ...
E por amá-lo é que sinto sua presença durante a noite, enquanto olho a escuridão com curiosidade felina. Por amá-lo, consumo um instante de vampirismo alucinante e busco à mim, em paz ... a paz que adormece sobre outro instante.
Sobre a prateleira, aviões simbolizam sua vontade de tocar o céu e sua boca, seca, está a procura de palavras que possam umidecê-la.
Brinca com suas asas metálicas, perdendo-se no tempo de propósito, e deixando pistas para que eu possa encontrá-lo. E a agonia que o toca, tão típica dos que saboreiam a fome por vida, desce pela sua garganta junto com um gole de conhaque, aquecendo e tranqüilizando.
Os aviões sobre a prateleira esboçam sua imaginação ... montanhas minando mistérios
e dias passando enquanto ele desenha seu castelo no ar.
Tem sua roupa de guerreiro guardada e precisa - sente a necessidade rasgar-lhe a carne - reconhecer a vida, ao invés de abandoná-la ao obsoleto.
Então, amo um sonho inquieto,
um homem que vive a caminhar ...
ele corre, vez ou outra, movido pelo desespero que o tédio lhe causa e ensinando que Ícaro pecou ao subestimar o próprio sonho. Alguns sonhos são intocáveis e, por essa razão, querem dizer mais do que o desejo de tocá-los.
Passa por ele uma folha ... voa a tal, quase seca e sem paradeiro.
Ele a pega,
beleza ressequida e de essência medieval,
visão inusitada ... a instantânea fotografia do abandono,
lá está estampada!
Pousam olhos azuis sobre o arco-íris refletido nas águas da cachoeira.
O mar, azul, não tem profundidade tão torpe.
Pousam olhares azuis de "ele"
que ama e confunde-se ao sentir
o beijo que não aconteceu.
Azul ... tão azul é o dia que nasce e comemora a fascinação!
Falta fascínio naqueles que não enxergam a cor do espaço, salpicado de estrelas reluzentes e flutuantes planetas.
O quadro umedece a seca e estéril realidade.
Holofotes deixam pelo caminho a luz azul que sai dos olhos do "menino-homem" de asas escondidas e que esculpiu a imaginação nas pedras desta terra.
Por detrás de um silêncio profundo, de aviões, asas partidas e montanhas envolvidas em mistérios, esconde-se o "ele" a cometer pecados e crimes que não ferem à ninguém, além de si próprio, como se a sentença lhe desse a condição de realizador do exorcismo da solidão e provocasse o próximo passo em direção à si mesmo.
Sua sentença : permanecer preso pelas próprias asas, como todo poeta vive preso ao que sente , e isso explode e morre, unindo num só instante a prisão e a liberdade.
A vida fere e cura.
Voa ... voa "ele", azul e gigante ... tão gigante quanto o ar. Eu o respiro ... respiro porque, somente assim, posso amar corpo e alma de um "menino-homem" que vive do desejo de voar e da sedução das pedras e estradas. Só assim, poderei chegar ao fim de outra tarde ...
tecendo sonhos ...
colhendo luas ....
olhando o céu ... azul.
1 138
Carolina Vigna Prado
Carta a um amigo
Escrevo por impulso.
Talvez isso não faça qualquer sentido, mas decidi correr o risco.
"... Carrega nos seus braços a criança chorosa...
Mas nos seus braços a criança estava morta..."
O despertar de um pesadelo é muitas vezes mais cruel.
É belo o amanhecer, porque é o sorriso
daqueles que me esperaram.
Coloquei o roteiro em uma gaveta, esperando madurar,
como o desenho de
uma música qualquer.
Tenho fôlego.
Johann Wolfgang von Goethe.
A febre foi contida.
A realidade me acalenta.
Ich liebe dich.
Gostaria de acreditar em histórias com começo, meio e fim.
São fantasias que se realizam, outras que nascem,
e a história continua, como um peão de criança em festa junina.
Gostaria de acreditar em destino, mas não consigo.
São idas e vindas que traçamos com absoluta consciência e vontade.
Gostaria de acreditar em paixão, mas não consigo.
O tempo vagarosamente
provou o contrário.
Apenas cúmplices de uma vida.
"Gracias a la vida, perfectamente distingo lo negro del blanco".
Gostaria de acreditar na razão, mas não consigo.
Gostaria de acreditar em sonhos. Felizmente, ainda consigo.
O racional e lógico não me dizem mais nada.
No sonho e no desejo
encontro o que procuro.
Semi-platônicos, ainda não realizados.
Um desejo quase impune por ser autista.
O desejo de um amor que emule a vida, que anule a morte.
O cansaço me vence.
Boa noite.
Talvez isso não faça qualquer sentido, mas decidi correr o risco.
"... Carrega nos seus braços a criança chorosa...
Mas nos seus braços a criança estava morta..."
O despertar de um pesadelo é muitas vezes mais cruel.
É belo o amanhecer, porque é o sorriso
daqueles que me esperaram.
Coloquei o roteiro em uma gaveta, esperando madurar,
como o desenho de
uma música qualquer.
Tenho fôlego.
Johann Wolfgang von Goethe.
A febre foi contida.
A realidade me acalenta.
Ich liebe dich.
Gostaria de acreditar em histórias com começo, meio e fim.
São fantasias que se realizam, outras que nascem,
e a história continua, como um peão de criança em festa junina.
Gostaria de acreditar em destino, mas não consigo.
São idas e vindas que traçamos com absoluta consciência e vontade.
Gostaria de acreditar em paixão, mas não consigo.
O tempo vagarosamente
provou o contrário.
Apenas cúmplices de uma vida.
"Gracias a la vida, perfectamente distingo lo negro del blanco".
Gostaria de acreditar na razão, mas não consigo.
Gostaria de acreditar em sonhos. Felizmente, ainda consigo.
O racional e lógico não me dizem mais nada.
No sonho e no desejo
encontro o que procuro.
Semi-platônicos, ainda não realizados.
Um desejo quase impune por ser autista.
O desejo de um amor que emule a vida, que anule a morte.
O cansaço me vence.
Boa noite.
864
António Manuel Couto Viana
Camilo Pessanha I
Um aroma subtil. Um lume. Um fumo leve.
Um delicado ritual.
O impulso breve que se descreve
Quase indiscreto, quase sensual.
A música interior apenas murmurada.
A luz difusa. Trémulas imagens.
Ondas de lua. Exílio. A flor despetalada.
Viagens.
Onde singra o navio sombreado de tédio?
Oscila. O servedouro de uma esteira.
A súbita emoção. O clarim do assédio
Desenrola a bandeira.
O ópio envolve o sonho num afago.
Já tudo tão distante! Tão inútil! Tão vago!
Um delicado ritual.
O impulso breve que se descreve
Quase indiscreto, quase sensual.
A música interior apenas murmurada.
A luz difusa. Trémulas imagens.
Ondas de lua. Exílio. A flor despetalada.
Viagens.
Onde singra o navio sombreado de tédio?
Oscila. O servedouro de uma esteira.
A súbita emoção. O clarim do assédio
Desenrola a bandeira.
O ópio envolve o sonho num afago.
Já tudo tão distante! Tão inútil! Tão vago!
1 257
Dante Milano
O Amor de Agora é o Mesmo Amor de Outrora
O Amor de Agora é o Mesmo Amor de Outrora
O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.
O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.
1 277
Corrêa de Araújo
Na arena
Sou cavalheiro e menestrel, chorosas,
Notas desfiro no arrabil das dores;
Brando a lança de lendas luminosas
E a guitarra imortal dos trovadores.
Buscando justas e buscando amores,
Vêm-me em sonhos todas as formosas,
Com uma harpa de pétalas de flores,
Com uma espada de jasmins e rosas.
Seguirei combatendo destemido,
E quando um dia em chagas escarlates
Entre agonias eu tombar vencido,
Oh! bando loiro em sonhos absorto!
Ponde este gládio tosco dos combates
Na tumba azul do cavalheiro morto.
Notas desfiro no arrabil das dores;
Brando a lança de lendas luminosas
E a guitarra imortal dos trovadores.
Buscando justas e buscando amores,
Vêm-me em sonhos todas as formosas,
Com uma harpa de pétalas de flores,
Com uma espada de jasmins e rosas.
Seguirei combatendo destemido,
E quando um dia em chagas escarlates
Entre agonias eu tombar vencido,
Oh! bando loiro em sonhos absorto!
Ponde este gládio tosco dos combates
Na tumba azul do cavalheiro morto.
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Cláudio Murilo
Fora do Jogo
— Um alienado — apostrofam.
Não matou nem mandou matar,
não foi fiel à sua classe
(burguesa)
nem participou de mitins
comitês,
sindicatos.
Não assinou listas de adesão.
Não se solidarizou nem com a direita
nem com a esquerda.
Não foi servil com os poderosos do dia.
Não pendurou retratos,
não hasteou bandeiras,
não recebeu comendas.
Viveu fora do jogo,
sonhando uma Ideologia
que não se corrompesse com o atrito da Realidade.
Não matou nem mandou matar,
não foi fiel à sua classe
(burguesa)
nem participou de mitins
comitês,
sindicatos.
Não assinou listas de adesão.
Não se solidarizou nem com a direita
nem com a esquerda.
Não foi servil com os poderosos do dia.
Não pendurou retratos,
não hasteou bandeiras,
não recebeu comendas.
Viveu fora do jogo,
sonhando uma Ideologia
que não se corrompesse com o atrito da Realidade.
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