Poemas neste tema
Trabalho e Profissão
Leónidas Lamborghini
O sabotador arrependido
No meu rosto está escrita a aceita
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita
Eu era o braço direito agora não sou nada
Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita
Eu era o braço direito agora não sou nada
Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.
790
Juan Gelman
Arte Poética
Entre tantos ofícios exerço este que não é meu,
como um amo implacável
obriga-me a trabalhar de dia, de noite,
com dor, com amor,
sob a chuva, na catástrofe,
quando se abrem os braços da ternura ou da alma,
quando a enfermidade afunda as mãos.
A este ofício obrigam-me as dores alheias,
as lágrimas, os lenços saudadores,
as promessas em meio ao outono ou ao fogo,
os beijos de encontro, os beijos de adeus,
tudo me obriga a trabalhar com as palavras, com o sangue.
Nunca fui o dono de minhas cinzas, meus versos,
rostos obscuros escrevem-nos como atirar contra a morte.
como um amo implacável
obriga-me a trabalhar de dia, de noite,
com dor, com amor,
sob a chuva, na catástrofe,
quando se abrem os braços da ternura ou da alma,
quando a enfermidade afunda as mãos.
A este ofício obrigam-me as dores alheias,
as lágrimas, os lenços saudadores,
as promessas em meio ao outono ou ao fogo,
os beijos de encontro, os beijos de adeus,
tudo me obriga a trabalhar com as palavras, com o sangue.
Nunca fui o dono de minhas cinzas, meus versos,
rostos obscuros escrevem-nos como atirar contra a morte.
1 187
Donizete Galvão
Diante de Uma Fotografia
O Tietê não é o Neva.
E nada no Curtume
lembra a sua Peter.
Galpões de fábricas
estendem-se sem rigor,
sem história ou forma.
Sucessão de chaminés,
caos de telhas de zinco.
Este é o lugar da cadela esquálida,
dos trens que gemem no subúrbio,
dos peões vestidos de azul e graxa,
dormindo ao meio-dia na calçada.
Na fila do almoço, o rebanho todo
estende suas bandejas de plástico.
Há fuligem nas janelas, nos olhos,
na sola dos sapatos. Nos cérebros.
Anna, as sereias do Báltico
não cantam aqui suas cantigas.
No mar das impossibilidades,
deixaram-me uma fotografia.
Vejo você - estrangeiríssima.
A curta franja dos cabelos.
O nariz forte. O desenho da boca.
A mão pousada no pescoço
que Modigliani um dia desenhou.
E no olhar felino, cinza-claro,
pressinto paixão e dor contida.
Anna Ahkmátova,
poeta de nome inventado,
lança sobre mim o claro raio
dos teus olhos líquidos,
para que minha alma não vire pedra.
Não quero morrer de sede,
sem ouvir a voz da língua.
867
Mário Dionísio
Arte poética
A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou praguejando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
- e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou praguejando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
- e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.
2 758
Mário Dionísio
No cais
Ó quarteirões de casas escuras
sem cortinados nas janelas
O dia é como a noite a noite é como o dia
e o Tejo aqui ao lado traz nas águas
pedaços de óleo e restos da cidade
Ó quarteirões de casas escuras
por trás de montes de carvão
que sabeis vós das nuvens dos poetas?
As vossas nuvens são de fumo
do fumo negro dos navios de carga
e de outros fumos negros da cidade
Ruas sem nome Iguais iguais
como estas mãos e essas mãos
como estes pés e esses pés
que a vida deformou
Ó quarteirões de casas escuras
o que enche aqui o ar é este grito repetido
dos guindastes no cais
e a matraca repetida dos comboios
de mercadorias
Ó quarteirões de casas escuras
os barracões engolem homens
os barracões vomitam homens
Rio
foste tu que inspiraste as ninfas ao Poeta?
Rio
és tu que inspiras os poetas?
Ó quarteirões de casas escuras
é impossível que não haja
nenhum sonho escondido e adormecido lá no fundo
destas vidraças partidas Que não haja
nenhum riso abafado nos barris de alcatrão
E nenhum canto aqui nestas águas do rio
nestas águas soturnas soturnas tão soturnas do rio
Velho sentado à porta da taberna
há tantos anos sentado com a perna de pau
à porta da taberna
com teu cachimbo e tua voz tão serena contando
histórias antigas e lendárias
à porta da taberna
Dá teu lugar a outro A qualquer outro
que quebre o fado do velho gramofone da taberna
e conte histórias um pouco mais felizes e mais claras
em vez do vinho na taberna
sem cortinados nas janelas
O dia é como a noite a noite é como o dia
e o Tejo aqui ao lado traz nas águas
pedaços de óleo e restos da cidade
Ó quarteirões de casas escuras
por trás de montes de carvão
que sabeis vós das nuvens dos poetas?
As vossas nuvens são de fumo
do fumo negro dos navios de carga
e de outros fumos negros da cidade
Ruas sem nome Iguais iguais
como estas mãos e essas mãos
como estes pés e esses pés
que a vida deformou
Ó quarteirões de casas escuras
o que enche aqui o ar é este grito repetido
dos guindastes no cais
e a matraca repetida dos comboios
de mercadorias
Ó quarteirões de casas escuras
os barracões engolem homens
os barracões vomitam homens
Rio
foste tu que inspiraste as ninfas ao Poeta?
Rio
és tu que inspiras os poetas?
Ó quarteirões de casas escuras
é impossível que não haja
nenhum sonho escondido e adormecido lá no fundo
destas vidraças partidas Que não haja
nenhum riso abafado nos barris de alcatrão
E nenhum canto aqui nestas águas do rio
nestas águas soturnas soturnas tão soturnas do rio
Velho sentado à porta da taberna
há tantos anos sentado com a perna de pau
à porta da taberna
com teu cachimbo e tua voz tão serena contando
histórias antigas e lendárias
à porta da taberna
Dá teu lugar a outro A qualquer outro
que quebre o fado do velho gramofone da taberna
e conte histórias um pouco mais felizes e mais claras
em vez do vinho na taberna
1 635
Oswaldo Osório
Cavalos de silex
ainda estávamos em guerra quando fomos à lua
e tínhamos fome e feridas nos olhos de cegar
agarrávamos o futuro com a luz do laser
e as flores gelavam aqui donde partíamos com carbúnculos nos braços
pássaros de pio futuro por onde andávamos
deixámos a terra grávida de salamandras esventradas
ganhávamos o pão nosso cada dia com medidas de suor
e um inverno de vómito estarrecia sob as raizes
as galáxias mediam-se por braçadas de legumes ou milho ou arroz
que no-las distanciavam e as estrelas fugiam perseguidas
por cavalos de sílex
o sonho criava lodo cada manhã
as palavras mal nasciam apodreciam em limo
nesta situação-limite os seios o sexo o sémen
convenceram os homens nas suas fábricas
de cavalos de sílex
tarde
peitos punhos pulsos resolvemos ousar nosso pão
e tínhamos fome e feridas nos olhos de cegar
agarrávamos o futuro com a luz do laser
e as flores gelavam aqui donde partíamos com carbúnculos nos braços
pássaros de pio futuro por onde andávamos
deixámos a terra grávida de salamandras esventradas
ganhávamos o pão nosso cada dia com medidas de suor
e um inverno de vómito estarrecia sob as raizes
as galáxias mediam-se por braçadas de legumes ou milho ou arroz
que no-las distanciavam e as estrelas fugiam perseguidas
por cavalos de sílex
o sonho criava lodo cada manhã
as palavras mal nasciam apodreciam em limo
nesta situação-limite os seios o sexo o sémen
convenceram os homens nas suas fábricas
de cavalos de sílex
tarde
peitos punhos pulsos resolvemos ousar nosso pão
1 163
Oswaldo Osório
Holanda
Holanda companheiros
chegámos
chegámos com barcos guildas nos olhos e desejo de vencer
chegámos intermináveis e actuais às docas
betão aço cargueiros e braços precisados
chegámos numa dimensão nova
(ah as roças de S.Tomé serviçal meu irmão)
e pusemos todo o nosso esforço
lubrificámos máquinas
alimentámos caldeiras
navegámos por oceanos de fogo e fiordes de gelo
mas foi nos mares da terra nova
no tempo em que de Boston a América mandava seus barcos baleeiros
para nos contratar
que ganhámos o bronze da nossa pele
The Best Sailors of the World
sob bandeiras estrangeiras brigámos guerras que não eram nossas
para agora amarmos ao ritmo de torno novo
e múltiplas bocas ao nos verem dizem
Let them get by
chegámos às docas companheiros
nas docas com barcos guildas nos olhos e nossa terra nos nossos sonhos
chegámos intermináveis para o match
e pusemos todo o nosso esforço na luta
pusemos esperança na nossa força de trabalho
e quando nos vêem chegar dizem
Let them get by
aqui ou ali passaremos sempre porque chegámos companheiros
a esperança transformada em actos nos nossos punhos
a seca o sol o sal o mar a morna a morte a luta o luto
ao nos verem passar dizem que ultrapassaremos os sonhos
e o match é em nossa terra que vai terminar
chegámos
chegámos com barcos guildas nos olhos e desejo de vencer
chegámos intermináveis e actuais às docas
betão aço cargueiros e braços precisados
chegámos numa dimensão nova
(ah as roças de S.Tomé serviçal meu irmão)
e pusemos todo o nosso esforço
lubrificámos máquinas
alimentámos caldeiras
navegámos por oceanos de fogo e fiordes de gelo
mas foi nos mares da terra nova
no tempo em que de Boston a América mandava seus barcos baleeiros
para nos contratar
que ganhámos o bronze da nossa pele
The Best Sailors of the World
sob bandeiras estrangeiras brigámos guerras que não eram nossas
para agora amarmos ao ritmo de torno novo
e múltiplas bocas ao nos verem dizem
Let them get by
chegámos às docas companheiros
nas docas com barcos guildas nos olhos e nossa terra nos nossos sonhos
chegámos intermináveis para o match
e pusemos todo o nosso esforço na luta
pusemos esperança na nossa força de trabalho
e quando nos vêem chegar dizem
Let them get by
aqui ou ali passaremos sempre porque chegámos companheiros
a esperança transformada em actos nos nossos punhos
a seca o sol o sal o mar a morna a morte a luta o luto
ao nos verem passar dizem que ultrapassaremos os sonhos
e o match é em nossa terra que vai terminar
1 370
João Maria Vilanova
Canção na morte de nga-Caxombo
Olho nga-Caxombo ali
na esteira
deitado morto
a todo comprimento
Vejo-o caminhar sem descanso
do Amboim ao Seles
do Seles ao quipeio
outra vez ao Seles
rotas sem rota mato longe
quem que sabia?
Tipoia o ombro pesava que pesava
duramente Zua
e voz de Kalandu
voz serena do sertão
ele a escutava
através do fogo
através da água
o geito sem raizes
de amar o coração das coisas.
Olho-o pela vez última
na luz rasante desse dez de Julho
a barba á monangamba
cavada sua negra face
morto
deitado morto
a todo o comprimento.
na esteira
deitado morto
a todo comprimento
Vejo-o caminhar sem descanso
do Amboim ao Seles
do Seles ao quipeio
outra vez ao Seles
rotas sem rota mato longe
quem que sabia?
Tipoia o ombro pesava que pesava
duramente Zua
e voz de Kalandu
voz serena do sertão
ele a escutava
através do fogo
através da água
o geito sem raizes
de amar o coração das coisas.
Olho-o pela vez última
na luz rasante desse dez de Julho
a barba á monangamba
cavada sua negra face
morto
deitado morto
a todo o comprimento.
1 472
Alexandre Dáskalos
Resignação
I
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
1 353
Alexandre Dáskalos
Qu é São Tomé
I
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
1 501
David Mestre
África
É neste silêncio neste assalto do vento a
navegar a floresta neste sol neste amor
neste vegetal cobrir-me de verde e ser
catana cerce a executar o ânimo
afagar as mulheres no regresso da lavra
fazer das mãos a festa sonora do sexo
na cultivação do milho
É neste grito rente ao corpo frágil das
folhas que mais em ti me venço e
moro nas grandes batalhas da vida
no extenso vale das nossas angústias
no duelo cíclico das nossas intenções
navegar a floresta neste sol neste amor
neste vegetal cobrir-me de verde e ser
catana cerce a executar o ânimo
afagar as mulheres no regresso da lavra
fazer das mãos a festa sonora do sexo
na cultivação do milho
É neste grito rente ao corpo frágil das
folhas que mais em ti me venço e
moro nas grandes batalhas da vida
no extenso vale das nossas angústias
no duelo cíclico das nossas intenções
1 267
Torquato Neto
Louvação
Vou fazer a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Meu povo, preste atenção, atenção, atenção.
Repare se estou errado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
E louvo, pra começar,
Da vida o que é bem maior:
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor.
Quem espera sempre alcança,
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que, pra melhor esperar,
Procede bem quem não pára
De sempre, mais, trabalhar.
Que só espera sentado
Quem se acha conformado.
Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Quem 'tiver me escutando, atenção, atenção,
Que me escute com cuidado,
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é:
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher,
Louvo a paz pra haver na Terra,
Louvo o amor que espanta a guerra,
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer,
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver,
Louvo a luta repetida
Da vida, pra não morrer.
Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
De todos peço atenção, atenção, atenção,
Falo de peito lavado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira,
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira,
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera,
Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar,
Mas que cantará na certa
Quando, enfim, se apresentar
O dia certo e preciso
De toda a gente cantar.
E assim fiz a louvação, louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Se me ouviram com atenção, atenção, atenção,
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece,
Deixando o ruim de lado.
Imagem - 00360001
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gi
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Meu povo, preste atenção, atenção, atenção.
Repare se estou errado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
E louvo, pra começar,
Da vida o que é bem maior:
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor.
Quem espera sempre alcança,
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que, pra melhor esperar,
Procede bem quem não pára
De sempre, mais, trabalhar.
Que só espera sentado
Quem se acha conformado.
Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Quem 'tiver me escutando, atenção, atenção,
Que me escute com cuidado,
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é:
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher,
Louvo a paz pra haver na Terra,
Louvo o amor que espanta a guerra,
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer,
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver,
Louvo a luta repetida
Da vida, pra não morrer.
Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
De todos peço atenção, atenção, atenção,
Falo de peito lavado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira,
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira,
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera,
Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar,
Mas que cantará na certa
Quando, enfim, se apresentar
O dia certo e preciso
De toda a gente cantar.
E assim fiz a louvação, louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Se me ouviram com atenção, atenção, atenção,
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece,
Deixando o ruim de lado.
Imagem - 00360001
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gi
1 569
Machado de Assis
Espinosa
Gosto de ver-te, grave e solitário,
Sob o fumo de esquálida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operário,
E na cabeça a coruscante idéia.
E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o pão diário
A tua mão a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.
Soem cá fora agitações e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas
Sóbrio, tranqüilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres, e transmutas
O suado labor no prêmio eterno.
Publicado no livro Poesias Completas: Crisálidas, Falenas, Americanas, Ocidentais. Poema integrante da série Ocidentais.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.163. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
Sob o fumo de esquálida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operário,
E na cabeça a coruscante idéia.
E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o pão diário
A tua mão a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.
Soem cá fora agitações e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas
Sóbrio, tranqüilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres, e transmutas
O suado labor no prêmio eterno.
Publicado no livro Poesias Completas: Crisálidas, Falenas, Americanas, Ocidentais. Poema integrante da série Ocidentais.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.163. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
6 473
Murillo Mendes
O Fósforo
Acendendo um fósforo
acendo Prometeu, o futuro, a liquidação dos falsos deuses,
o trabalho do homem.
o
O fósforo: tão rabbioso quanto secreto. Furioso, deli-
cado. Encolhe-se no seu casulo marrom; mas quando cha-
mado e provocado, polêmico estoura, esclarecendo tudo.
O século é polêmico.
o
O gás não funciona hoje. Temos greve dos gasistas. A
Itália tornou-se a Grevelândia. Mas preferimos essa semi-
-anarquia à "ordem" fascista.
O fósforo, hoje em férias, espera paciente no seu casulo
o dia de amanhã desprovido de greves. O dia racional, o
dia do entendimento universal, o dia do mundo sem classes,
o dia de Prometeu totalizado.
o
O fósforo é o portador mais antigo da tradição viva. Eu
sou pela tradição viva, capaz de acompanhar a correnteza
da modernidade. Que riquezas poderosas extraio dela!
Subscrevo a grande palavra de Jaures: "De l'autel des
ancêtres on doit garder non les cendres mais le feu."
Poema integrante da série Setor Micro-Lições de Coisas.
In: MENDES, Murilo. Poliedro: Roma, 1965/66. Pref. Eliane Zagury. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1972
acendo Prometeu, o futuro, a liquidação dos falsos deuses,
o trabalho do homem.
o
O fósforo: tão rabbioso quanto secreto. Furioso, deli-
cado. Encolhe-se no seu casulo marrom; mas quando cha-
mado e provocado, polêmico estoura, esclarecendo tudo.
O século é polêmico.
o
O gás não funciona hoje. Temos greve dos gasistas. A
Itália tornou-se a Grevelândia. Mas preferimos essa semi-
-anarquia à "ordem" fascista.
O fósforo, hoje em férias, espera paciente no seu casulo
o dia de amanhã desprovido de greves. O dia racional, o
dia do entendimento universal, o dia do mundo sem classes,
o dia de Prometeu totalizado.
o
O fósforo é o portador mais antigo da tradição viva. Eu
sou pela tradição viva, capaz de acompanhar a correnteza
da modernidade. Que riquezas poderosas extraio dela!
Subscrevo a grande palavra de Jaures: "De l'autel des
ancêtres on doit garder non les cendres mais le feu."
Poema integrante da série Setor Micro-Lições de Coisas.
In: MENDES, Murilo. Poliedro: Roma, 1965/66. Pref. Eliane Zagury. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1972
2 235
Bernardino Lopes
XXXVIII [O casebre esburacado
O casebre esburacado
É pobre como senzala;
Tem mesmo o fogo na sala
E a picumã no telhado.
Habita-o o casal de pretos...
Vê-se no canto metido
Um oratório encardido
E atrás da porta uns gravetos.
Reina o silêncio. Anoitece.
Reza a mulher, de mãos postas
O dia a um santo oferece...
Entre as ingás bem dispostas
O proletário aparece
Com a ferramenta nas costas.
Publicado no livro Cromos (1881).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
É pobre como senzala;
Tem mesmo o fogo na sala
E a picumã no telhado.
Habita-o o casal de pretos...
Vê-se no canto metido
Um oratório encardido
E atrás da porta uns gravetos.
Reina o silêncio. Anoitece.
Reza a mulher, de mãos postas
O dia a um santo oferece...
Entre as ingás bem dispostas
O proletário aparece
Com a ferramenta nas costas.
Publicado no livro Cromos (1881).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 103
Carlos Nejar
Canga
Jesualdo Monte, não és homem.
És um burro
carregado de ossos;
as palavras, insetos,
volteiam-te a garupa;
até a carne é hostil
sob a carcaça
e o presságio dos seres
te enternece.
Não te movem as fendas,
nem as urzes,
nem o jogo de vozes,
o repouso das tardes
e as vigas
que desceram ao rio
no teu lombo.
O mundo te apertou com sua cincha
e tudo em ti
transpõe o desespero,
desapegando patas e raízes.
É esta a condição de não ser homem:
dormir, placidamente, sem remorsos,
no curral dos mortos.
É esta a condição de não ser homem:
ruminar o assombro, junto ao feno,
receber o milagre sem transtorno,
seguindo sempre, onde manda o dono.
É esta a condição de não ser homem:
lanhado o casco por chicote lesto,
zurrar, apenas, mastigando o freio.
É esta a condição de não ser homem.
Publicado no livro Canga: Jesualdo Monte (1971). Poema integrante da série Arrevesso.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.345-346. (Poiesis
És um burro
carregado de ossos;
as palavras, insetos,
volteiam-te a garupa;
até a carne é hostil
sob a carcaça
e o presságio dos seres
te enternece.
Não te movem as fendas,
nem as urzes,
nem o jogo de vozes,
o repouso das tardes
e as vigas
que desceram ao rio
no teu lombo.
O mundo te apertou com sua cincha
e tudo em ti
transpõe o desespero,
desapegando patas e raízes.
É esta a condição de não ser homem:
dormir, placidamente, sem remorsos,
no curral dos mortos.
É esta a condição de não ser homem:
ruminar o assombro, junto ao feno,
receber o milagre sem transtorno,
seguindo sempre, onde manda o dono.
É esta a condição de não ser homem:
lanhado o casco por chicote lesto,
zurrar, apenas, mastigando o freio.
É esta a condição de não ser homem.
Publicado no livro Canga: Jesualdo Monte (1971). Poema integrante da série Arrevesso.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.345-346. (Poiesis
1 607
Renata Pallottini
Vestibular
De novo acomodo o corpo
(que de novo me incomoda)
na carteira de pau áspero;
de novo tomo a caneta.
De novo passo entre as filas
ponho a mão no ombro trêmulo
de alguma estudante tímida
(e agora sou professora).
De novo é aquela angústia,
não saber o que se sabe
ser de novo examinada
e de novo posta à prova.
De novo adivinho o amor,
olho-me e olho; já fui
o que hoje sou. Já sofri
o que sofro. E vem de novo
esse temor, como novo.
Ensino, ou sou ensinada?
Estou acima, ou me afogo?
De novo perco o respiro
ou já domino a questão?
De novo sofro e transpiro
porque hoje sou a mestra
tão escassa como sempre
e como sempre carente.
Olho-me quieta de novo
e vejo toda essa gente.
Passas de novo a meu lado
e me pões a mão no ombro
e me marcas com teu sopro
e me deixas tua sombra.
In: PALLOTTINI, Renata. Cantar meu povo. São Paulo: Massao Ohno, 198
(que de novo me incomoda)
na carteira de pau áspero;
de novo tomo a caneta.
De novo passo entre as filas
ponho a mão no ombro trêmulo
de alguma estudante tímida
(e agora sou professora).
De novo é aquela angústia,
não saber o que se sabe
ser de novo examinada
e de novo posta à prova.
De novo adivinho o amor,
olho-me e olho; já fui
o que hoje sou. Já sofri
o que sofro. E vem de novo
esse temor, como novo.
Ensino, ou sou ensinada?
Estou acima, ou me afogo?
De novo perco o respiro
ou já domino a questão?
De novo sofro e transpiro
porque hoje sou a mestra
tão escassa como sempre
e como sempre carente.
Olho-me quieta de novo
e vejo toda essa gente.
Passas de novo a meu lado
e me pões a mão no ombro
e me marcas com teu sopro
e me deixas tua sombra.
In: PALLOTTINI, Renata. Cantar meu povo. São Paulo: Massao Ohno, 198
1 761
Marcus Accioly
LXXIX - Do Meio-Termo
Cortador de cana,
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.
Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.
Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.
Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.
Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.
Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.
Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.
Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.
Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.
Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.
Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
1 461
Geir Campos
Soneto Fabril
Parques, sim, mas parques industriais:
neles é que passeia o nosso amor
em bairros pouco residenciais
onde ronrona a máquina a vapor.
Das chaminés das fábricas saem mais
nuvens (claras, escuras) de vapor
e de fumaça, com a cor das quais
o azul do céu muda-se noutra cor.
Pairando entre esse céu assim mudado
e a terra onde prossegue a mesma a vida
com seu esquema aceito mas errado
retém-se o nosso olhar em bagatelas
— que de pequenas coisas é tecida
a glória de viver e achá-las belas.
Publicado no livro Canto claro e poemas anteriores (1957).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
neles é que passeia o nosso amor
em bairros pouco residenciais
onde ronrona a máquina a vapor.
Das chaminés das fábricas saem mais
nuvens (claras, escuras) de vapor
e de fumaça, com a cor das quais
o azul do céu muda-se noutra cor.
Pairando entre esse céu assim mudado
e a terra onde prossegue a mesma a vida
com seu esquema aceito mas errado
retém-se o nosso olhar em bagatelas
— que de pequenas coisas é tecida
a glória de viver e achá-las belas.
Publicado no livro Canto claro e poemas anteriores (1957).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 275
Armando Freitas Filho
Fazer carreira
Fazer carreira
é sair correndo por fora
— como um ladrão —
de dentro de si mesmo
virando-se pelo avesso
ao encalço do futuro
engolindo sapos
poemas e sopapos
comendo de tudo
e cometendo sem parar
paráfrases, pastiches, mélanges
marmeladas
competindo
não apenas
por um lugar ao sol
mas pelo lugar do sol
na vanguarda
ou entre os marginais
descendo-subindo ou o contrário
a escada rolante
a escalada, o escândalo
do sucesso
até conseguir
o crime perfeito
a obra-prima underground
que é o primeiro
ou o último degrau?
In: FREITAS FILHO, Armando. Longa vida, 1979/1981. Pref. Ana Cristina Cesar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (Poiesis)
é sair correndo por fora
— como um ladrão —
de dentro de si mesmo
virando-se pelo avesso
ao encalço do futuro
engolindo sapos
poemas e sopapos
comendo de tudo
e cometendo sem parar
paráfrases, pastiches, mélanges
marmeladas
competindo
não apenas
por um lugar ao sol
mas pelo lugar do sol
na vanguarda
ou entre os marginais
descendo-subindo ou o contrário
a escada rolante
a escalada, o escândalo
do sucesso
até conseguir
o crime perfeito
a obra-prima underground
que é o primeiro
ou o último degrau?
In: FREITAS FILHO, Armando. Longa vida, 1979/1981. Pref. Ana Cristina Cesar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (Poiesis)
1 177
Eduardo Alves da Costa
Poema da Cartomante
Estendo minha mão
e a velha me fala
de um futuro tão remoto
que chego quase a descrer da Bomba.
Ah, deliciosa visão,
promessas de vida longa,
um lar feliz
e até mesmo um nome
para ser honrado.
Lê, mulher; procura
em minha mão
a certeza que me falta.
Aprendeste a profissão
nos tempos de paz
e o futuro que me dás
é o dos meus avós.
Falas-me de um lar
e eu procuro concebê-lo
ao abrigo da guerra que virá
e que eu vejo crescer nas declarações de paz.
E contudo eu gostaria
de que tuas profecias se cumprissem;
que estas coisas não fossem para mim,
mas pudessem acontecer
ao homem simples,
a esse que vai para a fábrica, de manhã,
e não sabe do mundo
para além do próprio quintal.
Segues com o dedo
a linha da vida
e vês tão claro
que por um instante me aborreço
e penso em me levantar.
Mas não quero te ferir.
Afagas minha mão
num gesto maternal
e me devolves ao mundo,
na certeza de que estou mais forte.
Não, eu não te direi nenhuma destas coisas,
porque lá fora os teus netos brincam
e a tarde, vista de tua janela,
promete não ser a última,
não pode ser a última.
E porque teus olhos
me pedem que acredite.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
e a velha me fala
de um futuro tão remoto
que chego quase a descrer da Bomba.
Ah, deliciosa visão,
promessas de vida longa,
um lar feliz
e até mesmo um nome
para ser honrado.
Lê, mulher; procura
em minha mão
a certeza que me falta.
Aprendeste a profissão
nos tempos de paz
e o futuro que me dás
é o dos meus avós.
Falas-me de um lar
e eu procuro concebê-lo
ao abrigo da guerra que virá
e que eu vejo crescer nas declarações de paz.
E contudo eu gostaria
de que tuas profecias se cumprissem;
que estas coisas não fossem para mim,
mas pudessem acontecer
ao homem simples,
a esse que vai para a fábrica, de manhã,
e não sabe do mundo
para além do próprio quintal.
Segues com o dedo
a linha da vida
e vês tão claro
que por um instante me aborreço
e penso em me levantar.
Mas não quero te ferir.
Afagas minha mão
num gesto maternal
e me devolves ao mundo,
na certeza de que estou mais forte.
Não, eu não te direi nenhuma destas coisas,
porque lá fora os teus netos brincam
e a tarde, vista de tua janela,
promete não ser a última,
não pode ser a última.
E porque teus olhos
me pedem que acredite.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
3 454
João Cabral de Melo Neto
A Lição de Poesia
1. Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.
Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:
nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.
2. A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.
Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.
Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.
3. A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.
A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis — naturezas vivas.
E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.
Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.
Publicado no livro O engenheiro (1945).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.78-79. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.
Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:
nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.
2. A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.
Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.
Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.
3. A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.
A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis — naturezas vivas.
E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.
Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.
Publicado no livro O engenheiro (1945).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.78-79. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
6 643
João Cabral de Melo Neto
A VIcente do Rego Monteiro
Eu vi teus bichos
mansos e domésticos:
um motociclo
gato e cachorro.
Estudei contigo
um planador,
volante máquina,
incerta e frágil.
Bebi da aguardente
que fabricaste,
servida às vezes
numa leiteira.
Mas sobretudo
senti o susto
de tuas surpresas.
E é por isso
que quando a mim
alguém pergunta
tua profissão
não digo nunca
que és pintor
ou professor
(palavras pobres
que nada dizem
de tais surpresas);
respondo sempre:
— É inventor,
trabalha ao ar livre
de régua em punho,
janela aberta
sobre a manhã.
Publicado no livro O engenheiro (1945).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.80-81. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
mansos e domésticos:
um motociclo
gato e cachorro.
Estudei contigo
um planador,
volante máquina,
incerta e frágil.
Bebi da aguardente
que fabricaste,
servida às vezes
numa leiteira.
Mas sobretudo
senti o susto
de tuas surpresas.
E é por isso
que quando a mim
alguém pergunta
tua profissão
não digo nunca
que és pintor
ou professor
(palavras pobres
que nada dizem
de tais surpresas);
respondo sempre:
— É inventor,
trabalha ao ar livre
de régua em punho,
janela aberta
sobre a manhã.
Publicado no livro O engenheiro (1945).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.80-81. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
3 601
Eduardo Alves da Costa
Mais Forte que James Bond
Mais forte que James Bond
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
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