Poemas neste tema
Trabalho e Profissão
Paio Soares de Taveirós
Ai, Pai Soárez, Venho-Vos Rogar
- Ai, Pai Soárez, venho-vos rogar
por um meu homem que nom quer servir,
que o façamos, mi e vós, jograr,
em guisa que possa per i guarir;
pero será-nos grave de fazer,
ca el nom sabe cantar nem dizer
rem, per que se pague del quen'o vir.
- Martim Soárez, nom poss'eu osmar
que no-l'as gentes queiram consentir
de nós tal homem fazermos poiar
em jograria; ca, u for pedir,
algu[é]m ve[e]rá o vilam se[e]r,
trist'e [no]joso e torp'e sem saber,
e haver-s'-á de nós e del riir.
- Paai Soárez, o hom'é de seu
trist'e nojoso e torp'e sem mester;
pero faremos nós de[l], cuido-m'eu,
jograr, se ende voss'ajuda houver;
ca lhe daredes vós esse saiom,
e porrei-lh'eu nome jograr "Sisom";
e com tal nome gualrá per u quer.
- Martim Soárez, a mi [nom m']é greu
de lh'o saiom dar; e, pois que lho der,
nom diga el que lho nulh'homem deu;
e, se o el per ventura disser,
mui bem sei eu que lhe dirám entom:
"Confunda Deus quem te deu esse dom,
nem quem te fezo jograr nem segrer!"
- Paai Soárez, tenho por razom
de poiar já o vilaão grodom
[e] des i, posface del quem quiser.
[- Martim Soárez, ......................
..............................................
..............................................]
por um meu homem que nom quer servir,
que o façamos, mi e vós, jograr,
em guisa que possa per i guarir;
pero será-nos grave de fazer,
ca el nom sabe cantar nem dizer
rem, per que se pague del quen'o vir.
- Martim Soárez, nom poss'eu osmar
que no-l'as gentes queiram consentir
de nós tal homem fazermos poiar
em jograria; ca, u for pedir,
algu[é]m ve[e]rá o vilam se[e]r,
trist'e [no]joso e torp'e sem saber,
e haver-s'-á de nós e del riir.
- Paai Soárez, o hom'é de seu
trist'e nojoso e torp'e sem mester;
pero faremos nós de[l], cuido-m'eu,
jograr, se ende voss'ajuda houver;
ca lhe daredes vós esse saiom,
e porrei-lh'eu nome jograr "Sisom";
e com tal nome gualrá per u quer.
- Martim Soárez, a mi [nom m']é greu
de lh'o saiom dar; e, pois que lho der,
nom diga el que lho nulh'homem deu;
e, se o el per ventura disser,
mui bem sei eu que lhe dirám entom:
"Confunda Deus quem te deu esse dom,
nem quem te fezo jograr nem segrer!"
- Paai Soárez, tenho por razom
de poiar já o vilaão grodom
[e] des i, posface del quem quiser.
[- Martim Soárez, ......................
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669
Lourenço
Muito Te Vejo, Lourenço, Queixar
- Muito te vejo, Lourenço, queixar
pola cevada e polo bever,
que to nom mando dar a teu prazer;
mais eu to quero fazer melhorar:
pois que t'agora citolar oí
e cantar, mando que to dem assi
bem como o tu sabes merecer.
- Joam Garcia, se vos en pesar
de que me queix[e] em vosso poder,
o melhor que podedes i fazer:
nom mi mandedes a cevada dar
mal, nen'o vinho, que mi nom dam i
tam bem com[o m']eu sempre mereci,
ca vos seria grave de fazer.
- Lourenço, a mim grave nom será
de te pagar tanto que mi quiser:
pois ante mi fezisti teu mester,
mui bem entendo e bem vejo já
como te pagu'; e logo o mandarei
pagar a [um] gram vilão que hei,
se um bom pao na mão tever.
- Joam Garcia, tal paga achará
em vós o jograr, quand'a vós veer,
mais outr'a quem [meu] mester fezer,
que m'en entenda, mui bem [mi] fará,
que panos ou algo merecerei;
e vossa paga ben'a leixarei
e pagad'[a] outro jograr qualquer.
- Pois, Lourenço, cala-t'e calar-m'-ei
e todavia tigo mi averrei,
e do meu filha quanto chi m'eu der.
- Joam Garcia, nom vos filharei
algo, e mui bem vos citolarei,
e conhosco mui bem [o] trobar.
- O chufar, Dom Lourenço, [o] chufar!
pola cevada e polo bever,
que to nom mando dar a teu prazer;
mais eu to quero fazer melhorar:
pois que t'agora citolar oí
e cantar, mando que to dem assi
bem como o tu sabes merecer.
- Joam Garcia, se vos en pesar
de que me queix[e] em vosso poder,
o melhor que podedes i fazer:
nom mi mandedes a cevada dar
mal, nen'o vinho, que mi nom dam i
tam bem com[o m']eu sempre mereci,
ca vos seria grave de fazer.
- Lourenço, a mim grave nom será
de te pagar tanto que mi quiser:
pois ante mi fezisti teu mester,
mui bem entendo e bem vejo já
como te pagu'; e logo o mandarei
pagar a [um] gram vilão que hei,
se um bom pao na mão tever.
- Joam Garcia, tal paga achará
em vós o jograr, quand'a vós veer,
mais outr'a quem [meu] mester fezer,
que m'en entenda, mui bem [mi] fará,
que panos ou algo merecerei;
e vossa paga ben'a leixarei
e pagad'[a] outro jograr qualquer.
- Pois, Lourenço, cala-t'e calar-m'-ei
e todavia tigo mi averrei,
e do meu filha quanto chi m'eu der.
- Joam Garcia, nom vos filharei
algo, e mui bem vos citolarei,
e conhosco mui bem [o] trobar.
- O chufar, Dom Lourenço, [o] chufar!
616
Martim Soares
Ai, Pai Soárez, Venho-Vos Rogar
- Ai, Pai Soárez, venho-vos rogar
por um meu homem que nom quer servir,
que o façamos, mi e vós, jograr,
em guisa que possa per i guarir;
pero será-nos grave de fazer,
ca el nom sabe cantar nem dizer
rem, per que se pague del quen'o vir.
- Martim Soárez, nom poss'eu osmar
que no-l'as gentes queiram consentir
de nós tal homem fazermos poiar
em jograria; ca, u for pedir,
algu[é]m ve[e]rá o vilam se[e]r,
trist'e [no]joso e torp'e sem saber,
e haver-s'-á de nós e del riir.
- Paai Soárez, o hom'é de seu
trist'e nojoso e torp'e sem mester;
pero faremos nós de[l], cuido-m'eu,
jograr, se ende voss'ajuda houver;
ca lhe daredes vós esse saiom,
e porrei-lh'eu nome jograr "Sisom";
e com tal nome gualrá per u quer.
- Martim Soárez, a mi [nom m']é greu
de lh'o saiom dar; e, pois que lho der,
nom diga el que lho nulh'homem deu;
e, se o el per ventura disser,
mui bem sei eu que lhe dirám entom:
"Confunda Deus quem te deu esse dom,
nem quem te fezo jograr nem segrer!"
- Paai Soárez, tenho por razom
de poiar já o vilaão grodom
[e] des i, posface del quem quiser.
[- Martim Soárez, ......................
..............................................
..............................................]
por um meu homem que nom quer servir,
que o façamos, mi e vós, jograr,
em guisa que possa per i guarir;
pero será-nos grave de fazer,
ca el nom sabe cantar nem dizer
rem, per que se pague del quen'o vir.
- Martim Soárez, nom poss'eu osmar
que no-l'as gentes queiram consentir
de nós tal homem fazermos poiar
em jograria; ca, u for pedir,
algu[é]m ve[e]rá o vilam se[e]r,
trist'e [no]joso e torp'e sem saber,
e haver-s'-á de nós e del riir.
- Paai Soárez, o hom'é de seu
trist'e nojoso e torp'e sem mester;
pero faremos nós de[l], cuido-m'eu,
jograr, se ende voss'ajuda houver;
ca lhe daredes vós esse saiom,
e porrei-lh'eu nome jograr "Sisom";
e com tal nome gualrá per u quer.
- Martim Soárez, a mi [nom m']é greu
de lh'o saiom dar; e, pois que lho der,
nom diga el que lho nulh'homem deu;
e, se o el per ventura disser,
mui bem sei eu que lhe dirám entom:
"Confunda Deus quem te deu esse dom,
nem quem te fezo jograr nem segrer!"
- Paai Soárez, tenho por razom
de poiar já o vilaão grodom
[e] des i, posface del quem quiser.
[- Martim Soárez, ......................
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581
João Garcia de Guilhade
Dona Ouroana, Pois Já Besta Havedes
Dona Ouroana, pois já besta havedes,
outro conselh'ar havedes mester:
vós sodes mui fraquelinha molher
e já mais cavalgar nom podedes;
mais, cada que quiserdes cavalgar,
mandade sempr[e] a besta chegar
a um car[v]alho, de que cavalguedes.
E cada que vós andardes senlheira,
se vo'la besta mal enselada andar,
guardade-a de xi vos derramar,
ca, pela besta, sodes soldadeira,
e, par Deus, grave vos foi d'haver;
e punhade sempr'en'[a] guarecer,
ca em talho sodes de peideira.
E nom moredes muito [e]na rua,
este conselho filhade de mim,
ca perderedes log'i o rocim
e nom faredes i vossa prol nẽũa;
e mentr'houverdes a besta, de pram,
cada u fordes, todos vos farám
honra doutra puta fududancua.
E se ficardes em besta muar,
eu vos conselho sempr[e] a ficar
ant'em muacho novo ca em mua.
outro conselh'ar havedes mester:
vós sodes mui fraquelinha molher
e já mais cavalgar nom podedes;
mais, cada que quiserdes cavalgar,
mandade sempr[e] a besta chegar
a um car[v]alho, de que cavalguedes.
E cada que vós andardes senlheira,
se vo'la besta mal enselada andar,
guardade-a de xi vos derramar,
ca, pela besta, sodes soldadeira,
e, par Deus, grave vos foi d'haver;
e punhade sempr'en'[a] guarecer,
ca em talho sodes de peideira.
E nom moredes muito [e]na rua,
este conselho filhade de mim,
ca perderedes log'i o rocim
e nom faredes i vossa prol nẽũa;
e mentr'houverdes a besta, de pram,
cada u fordes, todos vos farám
honra doutra puta fududancua.
E se ficardes em besta muar,
eu vos conselho sempr[e] a ficar
ant'em muacho novo ca em mua.
771
João Baveca
Pero D'ambroa, Sodes Maiordomo
Pero d'Ambroa, sodes maiordomo
e trabalhar-s'-á de vos enganar
o albergueiro; mais d'escarmentar-
-lo havedes. E direi-vos eu como:
se vos mentir do que vosco poser,
seja de vós e de nós, como quer,
é brita[r]-lh'os narizes no momo.
E de nosso ................
[...]
E ..........................
[...]
E pois mercade lo al: logo cedo
vos amonstr'a roupa que vos dará;
e se pois virdes que vo-la nom dá,
ide sarrar la porta, vosso quedo,
e desses vossos narizes log'i
fiqu'o seu cuu quebrantad', assi
que já sempr'haja d'espanhoes medo.
e trabalhar-s'-á de vos enganar
o albergueiro; mais d'escarmentar-
-lo havedes. E direi-vos eu como:
se vos mentir do que vosco poser,
seja de vós e de nós, como quer,
é brita[r]-lh'os narizes no momo.
E de nosso ................
[...]
E ..........................
[...]
E pois mercade lo al: logo cedo
vos amonstr'a roupa que vos dará;
e se pois virdes que vo-la nom dá,
ide sarrar la porta, vosso quedo,
e desses vossos narizes log'i
fiqu'o seu cuu quebrantad', assi
que já sempr'haja d'espanhoes medo.
564
João Airas de Santiago
Dizem Que Ora Chegou Dom Beeito
Dizem que ora chegou Dom Beeito,
muit[o] alegre, pera sa molher,
com sas merchandias de Mompiler;
mais dizer-vos quer'ora um preito:
já Deus nom me leixe entrar sobre mar
se, polo custo, queria filhar
o mercado que el [há] algur feito.
E por um destes nossos miradoiros
veo aqui, bem guisado, esta vez,
com sas merchandias que alá fez;
mais dizem que houve maos agoiros
e ar dizem que mercou atam mal,
que nunca end'haverá seu cadal,
ca se lhi danarom mui mal os coiros.
muit[o] alegre, pera sa molher,
com sas merchandias de Mompiler;
mais dizer-vos quer'ora um preito:
já Deus nom me leixe entrar sobre mar
se, polo custo, queria filhar
o mercado que el [há] algur feito.
E por um destes nossos miradoiros
veo aqui, bem guisado, esta vez,
com sas merchandias que alá fez;
mais dizem que houve maos agoiros
e ar dizem que mercou atam mal,
que nunca end'haverá seu cadal,
ca se lhi danarom mui mal os coiros.
625
Estêvão da Guarda
A Um Corretor Que Vi
A um corretor que vi
vender panos, que conhoci,
com penas veiras, diss'assi:
- Da molher som de Dom Foam.
E disse-m'el: - Vendem quant'ham,
el e aquesta sa molher:
ham-no mester, ham-no mester!
E diss'eu: - Ficará em cós
sem estes panos do ver grós;
mais pois que os tragedes vós
a vender e par seu talam?
E disse-m'el: - Sei eu, de pram,
per ela, quanto vos disser:
ham-no mester, ham-no mester!
E diss'eu: - Grav'é de creer
que eles, com mêngua d'haver,
mandem taes panos vender,
por quam pouco por eles dam.
E disse-m'el: - Per com'estam,
el e aquesta sa molher,
ham-no mester, ham-no mester!
vender panos, que conhoci,
com penas veiras, diss'assi:
- Da molher som de Dom Foam.
E disse-m'el: - Vendem quant'ham,
el e aquesta sa molher:
ham-no mester, ham-no mester!
E diss'eu: - Ficará em cós
sem estes panos do ver grós;
mais pois que os tragedes vós
a vender e par seu talam?
E disse-m'el: - Sei eu, de pram,
per ela, quanto vos disser:
ham-no mester, ham-no mester!
E diss'eu: - Grav'é de creer
que eles, com mêngua d'haver,
mandem taes panos vender,
por quam pouco por eles dam.
E disse-m'el: - Per com'estam,
el e aquesta sa molher,
ham-no mester, ham-no mester!
714
Estêvão da Guarda
Alvar [Rodriguiz] Vej'eu Agravar
Alvar [Rodriguiz] vej'eu agravar
porque se sent'aqui menguad'andar
e tem que lh'ia melhor além mar
que lhe vai aqui, u nasceu e criou;
e por esto diz que se quer tornar
u, gram temp'há, serviu e afanou.
Tem el que faz dereit'em se queixar,
pois lhe nom val servir e afanar,
nem pod'aqui conselho percalçar
com'além mar, per servir, percalçou;
por en quer-s'ir a seu tempo passar
u, gram temp'há, serviu e afanou.
porque se sent'aqui menguad'andar
e tem que lh'ia melhor além mar
que lhe vai aqui, u nasceu e criou;
e por esto diz que se quer tornar
u, gram temp'há, serviu e afanou.
Tem el que faz dereit'em se queixar,
pois lhe nom val servir e afanar,
nem pod'aqui conselho percalçar
com'além mar, per servir, percalçou;
por en quer-s'ir a seu tempo passar
u, gram temp'há, serviu e afanou.
336
Estêvão da Guarda
Pois Teu Preit'anda Juntando
Pois teu preit'anda juntando
aquel que é do teu bando,
di-me, doutor, como ou quando
lhe cuidas fazer enmenda
por quant'and'el trabalhando
com'aposta ta fazenda.
Pois com muitos há baralha
por te juntar prol sem falha,
di, doutor, si Deus ti valha,
se lhe cuidas dar merenda
por quant'el por ti trabalha
como apostat'a fazenda.
Pois anda tam aficado
por teu preito haver juntado,
di, doutor, cabo casado
que prol tem i ou quejenda
o que toma tal cuidado
com'há posta ta fazenda.
aquel que é do teu bando,
di-me, doutor, como ou quando
lhe cuidas fazer enmenda
por quant'and'el trabalhando
com'aposta ta fazenda.
Pois com muitos há baralha
por te juntar prol sem falha,
di, doutor, si Deus ti valha,
se lhe cuidas dar merenda
por quant'el por ti trabalha
como apostat'a fazenda.
Pois anda tam aficado
por teu preito haver juntado,
di, doutor, cabo casado
que prol tem i ou quejenda
o que toma tal cuidado
com'há posta ta fazenda.
530
Afonso X
Tanto Sei de Vós, Ric'homem: Pois Fordes N[A] Alcaria
Tanto sei de vós, ric'homem: pois fordes n[a] alcaria
e virde'la[s] azeitona[s], ledo seredes esse dia:
pisaredes as olivas con'os pees ena pia.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
Bem sei que seredes ledo, pois fordes no Exarafe
e virdes as azeitonas que foram de Dom Xacafe:
torceredes as olivas, como quer que outrem bafe.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
Pois fordes n[a] alcaria e virdes os põombares
e virdes as azeitonas jazer per esses lagares,
trilhá-las-edes [ena] pia com esses ca[l]canhares.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
e virde'la[s] azeitona[s], ledo seredes esse dia:
pisaredes as olivas con'os pees ena pia.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
Bem sei que seredes ledo, pois fordes no Exarafe
e virdes as azeitonas que foram de Dom Xacafe:
torceredes as olivas, como quer que outrem bafe.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
Pois fordes n[a] alcaria e virdes os põombares
e virdes as azeitonas jazer per esses lagares,
trilhá-las-edes [ena] pia com esses ca[l]canhares.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
752
Afonso X
Nom Me Posso Pagar Tanto
Nom me posso pagar tanto
do canto
das aves nem de seu som
nem d'amor nem de missom
nem d'armas - ca hei espanto
por quanto
mui perigo[o]sas som
- come d'um bom galeom
que mi alongue muit'aginha
deste demo da campinha,
u os alacrães som;
ca dentro, no coraçom,
senti deles a espinha.
E juro par Deus lo santo
que manto
nom tragerei, nem granhom,
nem terrei d'amor razom,
nem d'armas, porque quebranto
e chanto
vem delas tod'a sazom;
mais tragerei um dormom,
e irei pela marinha
vendend'azeite e farinha,
e fugirei do poçom
do alacrã, ca eu nom
lhi sei outra meezinha.
Nem de lançar a tavolado
pagado
nom sõo, se Deus m'ampar,
adés, nem de bafordar;
e andar de noute armado,
sem grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
e quero-m'oimais guardar
do alacrã, e tornar
ao que me foi primeiro.
E direi-vos um recado:
pecado
já me nom pod'enganar
que me faça já falar
em armas, ca nom m'é dado
- doado
m'é de as eu razõar,
poilas nom hei a provar;
ante quer'andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
algũa terra buscar
u me nom possam culpar
alacrã negro nem veiro.
do canto
das aves nem de seu som
nem d'amor nem de missom
nem d'armas - ca hei espanto
por quanto
mui perigo[o]sas som
- come d'um bom galeom
que mi alongue muit'aginha
deste demo da campinha,
u os alacrães som;
ca dentro, no coraçom,
senti deles a espinha.
E juro par Deus lo santo
que manto
nom tragerei, nem granhom,
nem terrei d'amor razom,
nem d'armas, porque quebranto
e chanto
vem delas tod'a sazom;
mais tragerei um dormom,
e irei pela marinha
vendend'azeite e farinha,
e fugirei do poçom
do alacrã, ca eu nom
lhi sei outra meezinha.
Nem de lançar a tavolado
pagado
nom sõo, se Deus m'ampar,
adés, nem de bafordar;
e andar de noute armado,
sem grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
e quero-m'oimais guardar
do alacrã, e tornar
ao que me foi primeiro.
E direi-vos um recado:
pecado
já me nom pod'enganar
que me faça já falar
em armas, ca nom m'é dado
- doado
m'é de as eu razõar,
poilas nom hei a provar;
ante quer'andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
algũa terra buscar
u me nom possam culpar
alacrã negro nem veiro.
372
Afonso X
Cirola Vi [Eu] Andar-Se Queixando
Cirola vi [eu] andar-se queixando
de que lhi nom da[va]m sas quitações;
mais, des que [eu] oí bem sas razões
[e] ena conta foi mentes parando,
log'atentei que nom dissera rem
[c]a era já quite de todo bem:
por en faz mal d'andar-s'assi queixando.
E queixa-se-m'el muitas de vegadas
dos escrivães e dos despenseiros
[.....................................];
mais, pois vêem a[s] contas aficadas,
logo lhi mostram bem do que quit'é;
e pero digo-lh'eu que [o] mal é
de quen'o quitou muitas de vegadas.
E por levá'la quitaçom dobrada
se [me] queixou; e catei u jazia
eno padrom, e achei que havia
de todo bem sa quitaçom levada;
por en faz mal, que nom pode peor;
mais tant'há el de quitaçom sabor,
que a nega, pero x'a leva dobrada.
de que lhi nom da[va]m sas quitações;
mais, des que [eu] oí bem sas razões
[e] ena conta foi mentes parando,
log'atentei que nom dissera rem
[c]a era já quite de todo bem:
por en faz mal d'andar-s'assi queixando.
E queixa-se-m'el muitas de vegadas
dos escrivães e dos despenseiros
[.....................................];
mais, pois vêem a[s] contas aficadas,
logo lhi mostram bem do que quit'é;
e pero digo-lh'eu que [o] mal é
de quen'o quitou muitas de vegadas.
E por levá'la quitaçom dobrada
se [me] queixou; e catei u jazia
eno padrom, e achei que havia
de todo bem sa quitaçom levada;
por en faz mal, que nom pode peor;
mais tant'há el de quitaçom sabor,
que a nega, pero x'a leva dobrada.
506
Francesca Angiolillo
Meditação Universitária
As pessoas que se apaixonam
pela técnica
são felizes.
Eu tive uma colega, ela
vinha de longe
ela não tinha mãe
a lhe enfiar
sanduíches de atum
com muita maionese
na mochila.
Enquanto eu me debatia,
a cara quase
mergulhada na gaveta
da mesa do estúdio,
com interpretações
de quadros renascentistas,
de estátuas gregas,
com a semiótica
dos cartazes alemães
ou tentava dotar
de algum sentido oculto
uma curva no papel,
ela caminhava ereta
e sorridente pela rampa
abraçada à sua régua T.
pela técnica
são felizes.
Eu tive uma colega, ela
vinha de longe
ela não tinha mãe
a lhe enfiar
sanduíches de atum
com muita maionese
na mochila.
Enquanto eu me debatia,
a cara quase
mergulhada na gaveta
da mesa do estúdio,
com interpretações
de quadros renascentistas,
de estátuas gregas,
com a semiótica
dos cartazes alemães
ou tentava dotar
de algum sentido oculto
uma curva no papel,
ela caminhava ereta
e sorridente pela rampa
abraçada à sua régua T.
624
Renato Rezende
A Idade de Cristo
I.
Sim, sim, sim, é o homem
que pertence à terra,
e não o contrário.
Esta casa de fazenda, por exemplo.
Seu sólido casarão de barro
pintado de branco e azul;
o terreiro de café;
a antiga senzala caindo;
é apenas nosso destino comum,
o nosso cenário.
Aqui há gerações jogamos o baralho
intricado de nossas vidas.
Aqui o teatro
aparente entre senhores e vassalos.
Junqueiras, Arrudas, Rezendes,
Prados, Azevedos.
Somos proprietários,
caseiros e camponeses.
Aqui onde hoje estão estas sombras
os jogos inocentes da infância,
as horas honestas do trabalho,
as noites de intriga,
os roubos, os atos ambíguos
jamais explicados ou compreendidos,
as palavras ditas e as não ditas,
os desejos da carne,
os encontros secretos de madrugada
sob o céu aberto
debaixo
das estrelas que caíam,
ou dentro das alcovas frias.
O casarão apreende o passado
em suas paredes, a fazenda em sua terra
e nos serve de volta no sabor do café diário.
II.
Caminho até o curral.
Dou bom-dia às vacas.
Volto para casa, o casarão
está vazio,
está vazia a colônia.
São 7 hrs. da manhã
o vento varre o terreirão
o sol nasce
atrás da serra
sento-me na sala e escrevo.
Hoje, domingo de Páscoa
bem cedo
sento-me no sofá, no centro
da sala,
no centro da casa,
e escrevo.
Volto ao curral
converso com as vacas,
desejo-lhes
feliz Páscoa.
Atravesso o terreiro
estou no pomar
varrido pelo vento
("Noite de vento
noite dos mortos")
pelo tempo e seus fantasmas.
Memória. Aqui é o caminho
do caçador de esmeraldas.
Velhas mangueiras, jabuticabas
cheias de barba de bode
abacates como corações verdes
de pedra pendurados nas árvores.
Pulo a cerca, estou no pasto.
Ossos
de outras gerações de vacas.
Garças, siriemas, possíveis cobras.
O campo aberto, o espaço
a distância
o vale seco
mais parece a India
mais parece a Africa
de um tempo remoto
que é meu e eu desconheço.
Contrariando a mim mesmo
de pijamas
cabelo ao vento
caminho até o café:
esta manhã eu me experimento.
Aqui estão eles: 30 mil pés
exigidos da terra
entre frestas de pedra.
Este é o nosso sustento,
este nosso exíguo alimento.
Destas alturas tudo vejo.
Sobem a estrada dois negros descalços
munidos de espingardas.
São lentos, mas sobem rápido.
Vão caçar na mata.
Penso em esconder-me,
mas já é tarde.
Passam por mim e desejo-lhes bom-dia,
e foi mais fácil desejá-lo às vacas.
Me sinto distante e isolado
destes outros seres, iguais a mim
e meus irmãos chamados.
Hoje, domingo de Páscoa, o Cristo
renascerá entre nós, ou melhor, em cada um de nós
como um sol solitário.
Volto para casa.
Fecho a porta, o vento
varre o terreiro
nesta manhã iluminada.
Estou só, mas me sinto preso
doce, tenuamente preso
(como um inseto
numa teia de aranha)
ao meu nome, meus fantasmas, meu feudo.
III.
Muitos lares cresceram
durante estes anos todos
na orla da fazenda.
A terra abafada
onde antes era mata
e depois pasto para vacas.
Casas simples, muita gente
onde numa tarde de outrora
eu e uma filha da colônia
nos deitamos em segredo.
É natural que tudo se transforme.
O amor se renova
em novos cénarios.
Nem um pouco desejo
o corpo da menina agora.
Nem sei se está viva ou morta.
No entanto, havia naqueles dias
na luz daqueles dias, ou no ar
a própria essência
da minha infância, da adolescência
que tinha uma vida inteira pela frente
mas não sabia.
Hoje se desenrola sem sentido
uma vida que não parece minha.
Em nada me reconheço
e em vão me busco na fazenda.
Sinto-me fora
de mim mesmo, fora de centro
ou escondido dentro:
vivendo um exílio às avessas.
Tenho 33 anos.
A idade de Cristo.
Sei apenas
que não ressucito, e já é tarde
para morrer jovem e bonito.
Atibaia, Semana Santa 1997
Sim, sim, sim, é o homem
que pertence à terra,
e não o contrário.
Esta casa de fazenda, por exemplo.
Seu sólido casarão de barro
pintado de branco e azul;
o terreiro de café;
a antiga senzala caindo;
é apenas nosso destino comum,
o nosso cenário.
Aqui há gerações jogamos o baralho
intricado de nossas vidas.
Aqui o teatro
aparente entre senhores e vassalos.
Junqueiras, Arrudas, Rezendes,
Prados, Azevedos.
Somos proprietários,
caseiros e camponeses.
Aqui onde hoje estão estas sombras
os jogos inocentes da infância,
as horas honestas do trabalho,
as noites de intriga,
os roubos, os atos ambíguos
jamais explicados ou compreendidos,
as palavras ditas e as não ditas,
os desejos da carne,
os encontros secretos de madrugada
sob o céu aberto
debaixo
das estrelas que caíam,
ou dentro das alcovas frias.
O casarão apreende o passado
em suas paredes, a fazenda em sua terra
e nos serve de volta no sabor do café diário.
II.
Caminho até o curral.
Dou bom-dia às vacas.
Volto para casa, o casarão
está vazio,
está vazia a colônia.
São 7 hrs. da manhã
o vento varre o terreirão
o sol nasce
atrás da serra
sento-me na sala e escrevo.
Hoje, domingo de Páscoa
bem cedo
sento-me no sofá, no centro
da sala,
no centro da casa,
e escrevo.
Volto ao curral
converso com as vacas,
desejo-lhes
feliz Páscoa.
Atravesso o terreiro
estou no pomar
varrido pelo vento
("Noite de vento
noite dos mortos")
pelo tempo e seus fantasmas.
Memória. Aqui é o caminho
do caçador de esmeraldas.
Velhas mangueiras, jabuticabas
cheias de barba de bode
abacates como corações verdes
de pedra pendurados nas árvores.
Pulo a cerca, estou no pasto.
Ossos
de outras gerações de vacas.
Garças, siriemas, possíveis cobras.
O campo aberto, o espaço
a distância
o vale seco
mais parece a India
mais parece a Africa
de um tempo remoto
que é meu e eu desconheço.
Contrariando a mim mesmo
de pijamas
cabelo ao vento
caminho até o café:
esta manhã eu me experimento.
Aqui estão eles: 30 mil pés
exigidos da terra
entre frestas de pedra.
Este é o nosso sustento,
este nosso exíguo alimento.
Destas alturas tudo vejo.
Sobem a estrada dois negros descalços
munidos de espingardas.
São lentos, mas sobem rápido.
Vão caçar na mata.
Penso em esconder-me,
mas já é tarde.
Passam por mim e desejo-lhes bom-dia,
e foi mais fácil desejá-lo às vacas.
Me sinto distante e isolado
destes outros seres, iguais a mim
e meus irmãos chamados.
Hoje, domingo de Páscoa, o Cristo
renascerá entre nós, ou melhor, em cada um de nós
como um sol solitário.
Volto para casa.
Fecho a porta, o vento
varre o terreiro
nesta manhã iluminada.
Estou só, mas me sinto preso
doce, tenuamente preso
(como um inseto
numa teia de aranha)
ao meu nome, meus fantasmas, meu feudo.
III.
Muitos lares cresceram
durante estes anos todos
na orla da fazenda.
A terra abafada
onde antes era mata
e depois pasto para vacas.
Casas simples, muita gente
onde numa tarde de outrora
eu e uma filha da colônia
nos deitamos em segredo.
É natural que tudo se transforme.
O amor se renova
em novos cénarios.
Nem um pouco desejo
o corpo da menina agora.
Nem sei se está viva ou morta.
No entanto, havia naqueles dias
na luz daqueles dias, ou no ar
a própria essência
da minha infância, da adolescência
que tinha uma vida inteira pela frente
mas não sabia.
Hoje se desenrola sem sentido
uma vida que não parece minha.
Em nada me reconheço
e em vão me busco na fazenda.
Sinto-me fora
de mim mesmo, fora de centro
ou escondido dentro:
vivendo um exílio às avessas.
Tenho 33 anos.
A idade de Cristo.
Sei apenas
que não ressucito, e já é tarde
para morrer jovem e bonito.
Atibaia, Semana Santa 1997
1 222
Renato Rezende
Zelig
Como se não bastasse
ser gente
é preciso ser também
médico, professor, gerente.
Tudo bem. O Sr. Souza
é gerente de compras.
A Dona Raimunda
tem como profissão
alugar o corpo.
Me perguntam o que sou.
Poeta e pintor, eu digo,
ou aprendiz de mendigo.
(Algo que de si mesmo
duvida).
Meu nome é Zelig
e às vezes São Francisco.
Indefinível, sem qualidades
disassocio-me do meu corpo
que alguns chamam de veículo.
Me despeço do meu destino.
Sou metade vazio
e oco no meio
(a melhor parte de mim mesmo
onde sou mais inteiro).
Me espero no que restará
do fundo do meu próprio abismo.
O sol no mar infinito.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
ser gente
é preciso ser também
médico, professor, gerente.
Tudo bem. O Sr. Souza
é gerente de compras.
A Dona Raimunda
tem como profissão
alugar o corpo.
Me perguntam o que sou.
Poeta e pintor, eu digo,
ou aprendiz de mendigo.
(Algo que de si mesmo
duvida).
Meu nome é Zelig
e às vezes São Francisco.
Indefinível, sem qualidades
disassocio-me do meu corpo
que alguns chamam de veículo.
Me despeço do meu destino.
Sou metade vazio
e oco no meio
(a melhor parte de mim mesmo
onde sou mais inteiro).
Me espero no que restará
do fundo do meu próprio abismo.
O sol no mar infinito.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
972
Renato Rezende
Jagunço
Meio desistido de mim mesmo
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
976
Ricardo Aleixo
Paupéria revisitada
Putas, como os deuses,
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
839
Alexandre Guarnieri
música de trabalho
enquanto dura a jornada diurna, um barulhário,
mas fora das fábricas, talvez o sono do operário
solitário o reconstrua quase à integralidade,
invadindo os tímpanos, sincopando, o ritornello
reclamado ad aeternum, um dentre tantos outros
pesadelos: o augúrio do contrato de trabalho.
nem sempre é gratuitamente lúgubre, ou longa,
a música regulatória da vida útil (nula, reclusa)
dos metalúrgicos na indústria, símiles a refis
vazios, ou quaisquer outros receptáculos defla-
grados, quando entregam dedo à fresa, vi-
nagre o sangue acre, tétano ou qualquer febre,
fusíveis sem brio ou viço, descartados, pinos
que por dispensáveis: necessário substituí-los.
mas fora das fábricas, talvez o sono do operário
solitário o reconstrua quase à integralidade,
invadindo os tímpanos, sincopando, o ritornello
reclamado ad aeternum, um dentre tantos outros
pesadelos: o augúrio do contrato de trabalho.
nem sempre é gratuitamente lúgubre, ou longa,
a música regulatória da vida útil (nula, reclusa)
dos metalúrgicos na indústria, símiles a refis
vazios, ou quaisquer outros receptáculos defla-
grados, quando entregam dedo à fresa, vi-
nagre o sangue acre, tétano ou qualquer febre,
fusíveis sem brio ou viço, descartados, pinos
que por dispensáveis: necessário substituí-los.
576
Alexandre Guarnieri
rotinas (repartição)
os rituais estoicos do escritório, entre móveis
sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os
funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa
tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que
o chefe reclama, avulsas, ouvindo a secretária
soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto
convulsionam os números (necessário é discá-los
todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao
invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,
se matando aos poucos estes homens que
trabalham: um por um, inúteis, caminham na calma
ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos
próprios rostos, projetados nos mictórios, findam
em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as
máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,
sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou
delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos
sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os
funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa
tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que
o chefe reclama, avulsas, ouvindo a secretária
soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto
convulsionam os números (necessário é discá-los
todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao
invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,
se matando aos poucos estes homens que
trabalham: um por um, inúteis, caminham na calma
ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos
próprios rostos, projetados nos mictórios, findam
em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as
máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,
sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou
delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos
sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
747
Cida Pedrosa
a mulher virou homem
: a mulher virou homem o trabalho
e a desigualdade por baixo da saia: trouxa
na cabeça camisa cáqui de mangas compridas
chapéu de palha quartinha de cabaça e só
calça comprida por baixo da saia
calça comprida por baixo da saia
calça comprida por baixo da saia
e a desigualdade por baixo da saia: trouxa
na cabeça camisa cáqui de mangas compridas
chapéu de palha quartinha de cabaça e só
calça comprida por baixo da saia
calça comprida por baixo da saia
calça comprida por baixo da saia
815
Alexandre Guarnieri
Motim 2.0
“às ordens, hei-me!”, “às ordens, hei-me!”,
ó rei errado! que cansei de estar calado
aos despautérios do patrão!
contra as egrégoras brutais
deste transporte lento, gangrênico:
ergo-me! contra as regras cegas
desse presente de grego, ergo-me!
contra o determinado tédio inédito,
sem término, sem trégua, numa guerra
contra o dono dessa redoma total
cujo domínio sombrio mina em mim
o dom de homem, ergo-me! entretanto
um nome sempre me reencontra: o meu,
tornado mero número no ministério,
na carteira de trabalho, na zona eleitoral,
a mera estatística nas fileiras da mídia,
um álibi, “eis-me!”, um pobre anônimo,
rasgado e desgraçado, mas apto ao bom combate,
grato pela chance de gritar nas ruas
contra o desrespeito do governo,
nesta câmara de gás lacrimogêneo,
lacrada, a que chamamos, hoje,
Brasil ou
Rio de Janeiro
ó rei errado! que cansei de estar calado
aos despautérios do patrão!
contra as egrégoras brutais
deste transporte lento, gangrênico:
ergo-me! contra as regras cegas
desse presente de grego, ergo-me!
contra o determinado tédio inédito,
sem término, sem trégua, numa guerra
contra o dono dessa redoma total
cujo domínio sombrio mina em mim
o dom de homem, ergo-me! entretanto
um nome sempre me reencontra: o meu,
tornado mero número no ministério,
na carteira de trabalho, na zona eleitoral,
a mera estatística nas fileiras da mídia,
um álibi, “eis-me!”, um pobre anônimo,
rasgado e desgraçado, mas apto ao bom combate,
grato pela chance de gritar nas ruas
contra o desrespeito do governo,
nesta câmara de gás lacrimogêneo,
lacrada, a que chamamos, hoje,
Brasil ou
Rio de Janeiro
638
Cida Pedrosa
Milena
gosto quando milena fala
dos homens
que comeu durante a noite
é a única voz soante
nesta cantina de repartição
onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril
sem a voz de milena
o café desce amargo
dos homens
que comeu durante a noite
é a única voz soante
nesta cantina de repartição
onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril
sem a voz de milena
o café desce amargo
903
Cida Pedrosa
MORTE SOB CARBONO
a floresta (dentro
da sala)
espia o homem
que se apóia na caneta
nomes números nódoas
as velhas esperam
o ventilador gira
o café esfria o bigode do funcionário
— papel poeira pesares
— idades vãs
entre
um documento e outro
um carimbo e outro
uma certidão e outra
as velhas
acertam um grampo na alma
e pactuam um prazo com a morte
da sala)
espia o homem
que se apóia na caneta
nomes números nódoas
as velhas esperam
o ventilador gira
o café esfria o bigode do funcionário
— papel poeira pesares
— idades vãs
entre
um documento e outro
um carimbo e outro
uma certidão e outra
as velhas
acertam um grampo na alma
e pactuam um prazo com a morte
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