Lista de Poemas

Volteios verbais em íntima cena

despachando verbos,
em sua sina, a mente
atira todos os dardos
nas miras do que sente

no dizer, em pontaria,
encapa a palavra
com o molde das vidas
em que se lavra

a mente larga-se no tempo
como um gesto escancarado
nesse permitir-se ao homem
gritar-se compassado
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Dos assombros da luz em filigrana

a sombra
assombra
e assoma
a soma
das formas
que sonha
como invólucro
e som
da sanha
de tornar desenho
o que conta
a sombra é um enredo
em que a luz discursa
os comícios de si
das coisas que usa
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da incondição compulsória

de cócoras
o homem concebe
diante do prato
toda sua verve

a palavra
misturada na fome
esconde a mágoa
em que se some

o homem nem admite
que ainda é homem
sobram diferenças
naquilo que consome
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Temporais divagações ensimesmadas

será o tempo
só um conceito
do espaço não medir-se
no eterno do seu jeito?

assim posto corrente
nos ombros claros da luz
chega a perder-se lento
no espaço que o conduz

o tempo é só um distrato
posto assim à contraluz
58

dos encômios do futuro em nação corrente

em cada abraço
haverá a certeza
de que a paz inteira
abraça a natureza

em cada homem
haverá a medida
da nação humana
construindo a vida

e nos ombros do tempo
pousará uma nave infinita
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Recomeços recorrentes

os restos da vida,
que vagarem em mim,
não serão despedidas,
lembranças do fim

serão consumidos
com a exata compostura
de quem abraça em si mesmo
uma grande luta

o riso será a estrada
dos caminhos do futuro
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Infante enlace do medo

rasgando a noite,
bólide intruso,
a coruja tece os ares
sobre os ombros do muro

pousa em galhos
íntima de tudo
e solfeja mortífera
seu pálido discurso

o menino,
em rasante enredo,
sonhando apariçōes,
conta aos olhos o seu medo
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Do falar como invento

a norma culta
traduzida pelo povo
alimenta as razões
das imanências do novo

a gratuidade verbal
dos desejos avulsos
apenas inventa verbos
de elásticos cursos

é como gramaticar a vida
com os suores do seu uso
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Baião compasssado

do meio do tambor
assim como um recado
o som partiu a noite
com um baião compassado

dizente das batidas
das cordas do coração
a sanfona concertava
os verbos da canção

os homens viviam a música
como um rastro da emoção
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Poema a Lane Pordeus em natal pensar

talvez o tempo
nem aquilate o recado
de tê-la deslumbrante
em todos os seus atos

eis que, mulher e pássaro,
voa todos os meus ares
como gesto permissivo
de todos seus olhares

remido, pelo tempo em afetos,
construo ondas de amor no peito
e deixo-me estar em privilégio.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.