Corpo
Leopoldo María Panero
Hino a Satanás
Rui Knopfli
Maxilar triste
atenuando o bordo rijo
desse rosto derradeiro
de brancura infinita.
Impugnando-lhe a doçura,
a antinomia do tempo
acentuará os duros ângulos
num mapa de tristeza
irreparável. O sorriso
vago nela projecta um
brilho fosco de loiça antiga:
espreitando na carne
os dentes anunciam o resto.
Maya Deren
Deve Ser Feito com Espelhos
al-Khansa
28.
Juan Gelman
a mão
porque se vai como peixe
não ponha a água em sua mão
porque virá o oceano
e a margem depois
deixa sua mão assim
em seu ar
nela
sem começo
nem fim.
(tradução de Leo Gonçalves e Andityas Soares de Moura)
la mano
no pongas la mano en el agua
porque se irá de pez/
no pongas agua en tu mano
porque vendrá el océano
y la orilla después/
dejá tu mano así/
en su aire
en ella/
sin comienzo/
ni fin
Boris Vian
Quando meu crânio for do vento
Quando o verde cobrir meus ossos
Sentirão talvez que eu troço
Mas será falso o sentimento
Pois me faltarão os atos
O elemento plástico
Pla pla plástico
Devorado pelos ratos
Meu par de utensílios
Minhas pernas meus joelhos
Minhas coxas meus fundilhos
Sobre os quais me sentavia
Meus cabelos minhas fístulas
Meus lindos olhos cerúleos
Minhas capas de mandíbulas
Com as quais vos lambuzia
Meu nariz considerável
Coração, fígado, lombo
Esses nadas admiráveis
Que me fizeram gozar os benefícios
De duques e duquesas
De papas e papesas
De abades e abasnezas
E demais pessoas do ofício
E agora não terei mais
Esse fósforo um pouco mole
Cérebro que me serviu
Pra me prever depois de frio
Os ossos verdes, o crânio ventoso
Ah como dói ficar idoso.
:
Quand j´aurai du vent dans mon crâne
Quand j’aurai du vent dans mon crâne
Quand j’aurai du vert sur mes osses
P’tête qu’on croira que je ricane
Mais ça sera une impression fosse
Car il me manquera
Mon élément plastique
Plastique tique tique
Qu’auront bouffé les rats
Ma paire de bidules
Mes mollets mes rotules
Mes cuisses et mon cule
Sur quoi je m’asseyois
Mes cheveux mes fistules
Mes jolis yeux cérules
Mes couvres-mandibules
Dont je vous pourléchois
Mon nez considérable
Mon coeur mon foie mon râble
Tous ces riens admirables
Qui m’ont fait apprécier
Des ducs et des duchesses
Des papes des papesses
Des abbés des ânesses
Et des gens du métier
Et puis je n’aurai plus
Ce phosphore un peu mou
Cerveau qui me servit
A me prévoir sans vie
Les osses tout verts, le crâne venteux
Ah comme j’ai mal de devenir vieux.
En Hedu'anna
Inanna e a Essência Divina
Affonso Ávila
Advertência da gerontóloga
quadro vegetal de arcimboldo
retro old man maquiado de fimbrias desfibradas
do diabo guisado requentado em rescaldo ou
rescoldo
(sabe-se aqui o que de culinária quando muito de
azia e suas carquejadas)
de rabanete nabo quiabo em babas mal
temperadas
mas vá lá vadio pé-de-valsa goliardo goliold(o)
young old man without gold or god oficial de
ofício das madrugadas
o dia foi duro irmão durão as favas a fatiota de
dom Bertoldo
Jorge de Sena
Conheço o sal
Jorge de Sena
Glosa à chegada do outono
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera: este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
.
.
.
Affonso Ávila
insólito
gesto que sai do corpo como um salto de gato
suave rude ardil ou busca de gozo
rei dos sentidos empós do amor ou do afeto
sondagem de quem sonhou e argui de fato
a empáfia escondida entre haustos do só
não temer o impacto da astúcia
colher a rosa no ramo propício enquanto é vermelha
e saborear o odor a cor o íntimo calor
é tarde é breve mas intensa de brilho
signo de infinito clamor
que não calou no estamento do tempo
e rói fundo o apetite que resta
via possível na corrosão do palor
e usá-la a furto oculto
imponderada lapela
fim ou princípio
sorte lançada
defasado cupido
Ghérasim Luca
Seu corpo leve
Yannis Ritsos
Os Modelos
Hilda Hilst
Mula de Deus
Gertrude Stein
Homens
Kenneth Rexroth
Sobrevivência do mais forte
Quando alcanço o lago
A treze mil pés –
Não sei onde você está.
Já se vão anos desde que
Casamos e tivemos filhos
Por pessoas que sequer
Conhecíamos naqueles dias.
Mas eu ainda pesco peixes com anzóis
Feitos com os teus pentelhos loiros.
SURVIVAL OF THE FITTEST
I realize as I
Cast out over the lake
At thirteen thousand feet –
I don’t know where you are.
It has been years since we
Married and had children
By people neither of
Us knew in the old days.
But I still catch fish with flies
Made from your blonde pubic hair.
Barbara Guest
Lírios vermelhos
retiraram o acidente do fogão.
Depois, lírios para a janta; ali
as linhas diante da janela
esfregam-se à mesa de pedra
O papel alça voo
e aterrissa à medida que o vento
repete, repete seu canto de ave.
Aqueles braços sob o travesseiro
os braços que escavam que clivam na noite
enquanto o rebocador dá molde à água
chamando-se a si próprios de galhos
É você a árvore
a manta é o que a aquece
neve irrompe do cardo;
a neve derrama de você.
Uma mão fria sobre os pratos
colocando um pires dentro
dela que se despiu para a janta
flutuando aquele cabelo rumo à neve
apagou-se a luz-piloto
do fogão
O papel dobrou-se como um guardanapo
outras asas colidiram com a pedra.
:
Red lillies (in Moscow Mansions, 1973)
Someone has remembered to dry the dishes;
they have taken the accident out of the stove.
Afterwards lilies for supper; there
the lines in front of the window
are rubbed on the table of stone
The paper flies up
then down as the wind
repeats, repeats its birdsong.
Those arms under the pillow
the burrowing arms they cleave
at night as the tug kneads water
calling themselves branches
The tree is you
the blanked is what warms it
snow erupts from thistle;
the snow pours out of you.
A cold hand on the dishes
placing a saucer inside
her who undressed for supper
gliding that hair to the snow
The pilot light
went out of the stove
The paper folded like a napkin
other wings flew into the stone.
.
.
.
Ted Berrigan
Soneto 55
Sosigenes Costa
A Cabeleira da Musa
Paulo Colina
Forja
Miron Białoszewski
Autorretrato tal qual sentido
Ted Berrigan
Soneto 2
António José Forte
Memorial
As tuas mãos que a tua mãe cortou
para exemplo duma cidade inteira
o teu nome que os teus irmãos gastaram
dia a dia e que por fim morreu
atravessado na tua própria garganta
as tuas pernas os teus cabelos percorridos
rato após rato tantos anos
durante tanta alegria que não era tua
os teus olhos mortos eles também
na primeira ocasião do teu amante
assim como as palavras ainda fumegando docemente
sob as pedras de silêncio que lhes atiraram para cima
o teu sexo os teus ombros
tudo finalmente soterrado
para descanso de todos
- mesmo dos que estavam ausentes
John Berryman
26
- Que então, Mr. Bones?
se tu num se incomoda.
- Henry. Henry tomou interesse pelo corpo das mulheres,
suas virilhas foram & foram palco de feitos estupendos.
Estupor. De joelhos, meu bem. Ore.
Todos as saliências & suavidades de, Deus meu,
o agachar-se & a confusão isto enxameava em Henry,
certa vez.
- Que então, Mr. Bones?
tu parece como que excitado.
Descaiu Henry, as costas no crime que origina: arte, rima
além dum sentimento do alheio, Deus meu, Deus meu,
e inveja da honra (vivente) de sua terra.
o que haveria de mais estranho?
e desgosto das gangues prosperantes & de heróis.
- Que então, Mr. Bones?
Tive uma sorte veramente fabulosa. Morri.
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
Dream Song 26
John Berryman
The glories of the world struck me, made me aria, once.
-- What happen then, Mr. Bones?
if be you cares to say.
-- Henry. Henry became interested in women's bodies,
his loins were & were the scene of stupendous achievement.
Stupor. Knees, dear. Pray.
All the knobs & softnesses of, my God,
the ducking & trouble it swarm on Henry,
at one time.
-- What happen then, Mr. Bones?
you seems excited-like.
-- Fell Henry back into the original crime: art, rime
besides a sense of others, my God, my God,
and jealousy for the honour (alive) of his country,
what can get more odd?
and discontent with the thriving gangs & pride.
-- What happen then, Mr. Bones?
-- I had a most marvellous piece of luck. I died.