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Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Seio de Virgem

Quand on te voit, il vient à maints
Une envie dedans les mains
De te tâter, de te tenir...
Clément Marot


O que eu sonho noite e dia,
O que me dá poesia
E me torna a vida bela,
O que num brando roçar
Faz meu peito se agitar,
E' o teu seio, donzela!

Oh! quem pintara, o cetim
Desses limões de marfim,
Os leves cerúleos veios,
Na brancura deslumbrante
E o tremido de teus seios!

Quando os vejo, de paixão
Sinto pruridos na mão
De os apalpar e conter...
Sorriste do meu desejo?
Loucura! bastava um beijo
Para neles se morrer!

Minhas ternuras, donzela,
Votei-as à forma bela
Daqueles frutos de neve...
Aí duas cândidas flores
Que o pressentir dos amores
Faz palpitarem de leve.

Mimosos seios, mimosos,
Que dizem voluptuosos:
"Amai-nos, poetas, amai!
"Que misteriosas venturas
"Dormem nessas rosas puras
E se acordarão num ai!"

Que lírio, que nívea rosa,
Ou camélia cetinosa
Tem uma brancura assim?
Que flor da terra ou do céu,
Que valha do seio teu
Esse morango ou rubim?

Quantos encantos sonhados
Sinto estremecer velados
Por teu cândido vestido!
Sem ver teu seio, donzela,
Suas delícias revela
O poeta embevecido!

Donzela, feliz do amante
Que teu seio palpitante
Seio d'esposa fizer!
Que dessa forma tão pura
Fizer com mais formosura
Seio de bela mulher!

Feliz de mim... porém não!...
Repouse teu coração
Da pureza no rosal!
Tenho eu no peito uma aroma
Que valha a rosa que assoma
No teu seio virginal?...


Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série Lira dos Vinte Anos: Continuação.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Ilka Brunhilde Laurito

Ilka Brunhilde Laurito

X [Meu amado não é servo nem é rei

Meu amado não é servo nem é rei,
é transeunte do cotidiano, que se move onde estou eu.
Tem uma cabeça, tensa de sonho e pensamento,
que inventa o que haveria de ser
e sabe o que lembrar e o que esquecer.
Os cabelos encanecem aos ventos crespos,
são fios nervosos que perscrutam a dor dos tempos
e só se alisam na trégua entre meus dedos.
Ele me olha atentamente
decifrando a epiderme de secreta pele.
Seu olho é azul, castanho, verde ou negro?
Só sei que a cor que mora dentro deles
é a luz solar em que me aqueço.
O rosto grave, que em sorrisos se mascara,
eu o cubro de ternuras como as espumas que lhe tocam
a barba.
A boca tem sabor de menta e de cigarro:
é o gosto da palavra que engulo no seu hálito
quando entre nós o beijo cala o vão diálogo.
As mãos são grandes, ásperas e cálidas, mãos operárias
no manejo exato da máquina e do lápis,
talvez da arma em tempos mais precários,
da flor capazes nas horas amoráveis.
Sua voz é morna e calma,
em mim ela se grava como em clave de carne o som do
amor em brasa.
O tronco é arquitetura eficiente para erguer um homem
acima do pó e das sarjetas.
Nele se agitam os braços na maré presente
e correm os pés no encalço de melhores ventos
e é destro o sexo em exercício de ancestral silêncio.
No corpo inteiro, sangue, músculos e nervos.
O resto, poros, pele, pelos.
Ele não é esbelto como o cedro ou outra espécie de
madeira:
é de matéria carnal, com dobras, curvaturas, rugas,
franzimentos,
e sua altura se flexiona humanamente.
Ele tem sombra, pois o sol é dele.
Eis seu retrato, ó filhas da cidade: olhai como eu o vejo.


Poema integrante da série Solo Urbano para um Cântico dos Cânticos.

In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Canteiro de obras. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebarã)
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Luís Delfino

Luís Delfino

O Cristo e a Adúltera

(Mármore de Bernardelli)

VII

Tenho em frente de mim um deus: que importa o resto?
Vai fazer um milagre... Olhai, vede o seu gesto.
Uma pobre mulher corrida e quase nua,
Deita-te aos pés, Jesus, o clarão de uma lua.
Ela acolheu-se a ti e nela a formosura!
Que abismos nessa carne, e que luz nessa alvura!
Canta invisível nela um sol; ouço-lhe o trilo.
Não é Vênus de Cos, não é Vênus de Milo:
É vênus doutro mar, é deusa doutra espuma.
Bela, não se parece enfim com deusa alguma:
É o belo-ideal fundido de outra idéia:
Prometeu desta vez roubando a luz divina
Coalhou-a, como pode e ninguém imagina,
E fez dela o ideal da mulher da Judéia...

VIII

Olha a pobre mulher: esta mulher amante
Esta manhã ainda, ao aço rutilante,
Reviu seu rosto belo, enrolou seus cabelos,
Perfumou-os de mirra, untou-os de mamono,
Cacheou-os na testa em múltiplos novelos,
Enquanto lhe dormia ainda um pouco o sono
Entre os cílios; enquanto em sua face linda
Com um longo beijo o sol não a acordara ainda.
Mas se à festa do leão não resiste a leoa,
Caiu esta, que é bela, e além de tudo é boa.
Deus, que os sóis pelo céu andar em luta veda,
Deu-lhe a beleza — o abismo, e deu-lhe o amor — a queda.
Que dorso! Aquele branco e luminoso dorso!...
Aquele seio, aonde as pomas rutilantes
Vão nas asas fugir, sem fazer um esforço,
Vão fugir, adejar por esses céus distantes,
Ai! tão perto do céu! ai! tão fora do ninho!
Vejo-as quase a saltar do transparente linho:
Quero-os em pé, a luz, quero ver tudo isto...
O teu vasto linhol 'stá-m'a escondendo, ó Cristo.
O irradiar do torso esplêndido da adúltera
Vale o linhol de um deus, vale a inconsútil púrpura.
Caiu? — Quero alteada essa cabeça fina,
Ver um colo que ondula e como flor se inclina
Na haste flexível: sim, quero ver como rola
Na pequenina orelha a egipciana argola;
E erguida e a mover-se, a andar, a rir, sim! vê-la:
Ver se a estrela é que a vence, ou se ela vence a estrela.
Mas enquanto ela jaz a tua sombra santa,
Enquanto esta mulher gentil não se levanta,
E espera em tua força, ó Jesus, certo abrigo...
Ficarei junto dela, ó mármore, e contigo.

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Publicado no livro O Cristo e a Adúltera (1941).

In: DELFINO, Luiz. Poemas escolhidos. Sel. e introd. Nereu Corrêa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. p.133-135

NOTA: Poema composto de 19 parte
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