Poemas neste tema
Ecologia e Meio Ambiente
Carlos Drummond de Andrade
Indagação
Na morta biosfera,
o fantasma do pássaro
inquiriu
ao fantasma da árvore
(que não lhe respondeu):
— A Primavera já era
ou ainda não nasceu?
o fantasma do pássaro
inquiriu
ao fantasma da árvore
(que não lhe respondeu):
— A Primavera já era
ou ainda não nasceu?
1 385
1
Carlos Drummond de Andrade
Recomendação
Neste botânico setembro,
que pelo menos você plante
com eufórica
emoção ecológica
num pote de plástico
uma flor de retórica.
que pelo menos você plante
com eufórica
emoção ecológica
num pote de plástico
uma flor de retórica.
1 506
1
Carlos Drummond de Andrade
E Aconteceu a Primavera
I
Que alguém te cante e te descante,
ficou urgente, Primavera,
para que ao menos em cantiga,
neste papel aberto às gentes,
a flor antiga se restaure.
Te cantarei em Pernambuco,
onde és cidade, e no Pará,
onde mulheres plantam malva
sob o título municipal,
e em Rondônia cantarei
a corredeira Primavera,
pois nesses nomes de lugares
e num acidente geográfico
tu pousaste como um pássaro,
modesto pássaro cinzento
de asas pretas e cauda preta,
só a lembrar, no papo branco,
extintas primaveridades.
Primavera que tanto habitas
a bráctea rósea da buganvília
(em que jardins à vista ocultos
sob a fumaça que é nosso azul
residual?),
como habitavas, parnasiana,
o soneto crônico e clássico
dos poetas consumidores
de velhos tópicos europeus,
é forçoso que alguém celebre
o ímpeto juvenil da Terra
mesmo poluída, desossada,
Terra assim mesmo, seiva nossa.
E te ofereço, Primavera,
a arvorezinha de brinquedo
em pátio escolar plantada,
enquanto lá fora se ensina
como derrubar, como queimar,
como secar fontes de vida
para erigir a nova ordem
do Homem Artificial.
Ah, Primavera, me desculpa
se corto em meio uma floresta
latifoliada, pois tenho pressa
de correr na estrada de Santos.
Não te zangues se já não vês
em teu perene séquito lírico
aquele sininho-flor, descoberto
em longes tempos por George Gardner
e que soava só no Brasil:
foi preciso (teria sido?)
matar o verde, substituí-lo
pela neutra cor uniforme
que é uniforme do Progresso.
Primavera, primula veris,
em palavra quedas intacta,
em palavra pois te deponho
a minha culpa coletiva,
o meu citadino remorso,
minha saudade de água, bicho,
terra encharcada de promessas,
e visões e asas e vozes
primitivas e eternas, como
eterno (e amoroso) é o homem
ligado ao quadro natural.
Primavera, fiz um discurso?
Primavera, tu me perdoas?…
II
— 22 de setembro, mina minha.
Vamos curtir a primavera
em compact cassete tape, meu morango?
Bota aí o Botticelli
estereoutransfigurado em Debussy
e vê (primeiro fecha os olhos) Simonetta
Vespucci toda flor
florentil florindamente
(bulcão?) entre corolas e resinas
da flora da Tijuca…
— Não. Prefiro o Sacré du Printemps
que transa a primavera mais primeva.
Assim, no sala-e-escuro
dos sala-e-quarto conjugados
os dois ficamos respeitando
um princípio de seiva e de nenúfar,
enquanto a chuva — plic — tamborina
seu samba de uma nota só
na área de serviço.
É primavera, broto-brinco:
saiu no jornal,
a TV anunciou,
o Governo consentiu,
o Congresso aplaudiu
o comércio vendeu
arranjos de ikebana
e em algum lugar florescem três-marias
que são muitas marias, muitos nomes.
Vamos também curtir os nomes
(são presentes do povo à gente-bem):
riso-do-prado
(cadê o prado?),
amor-de-estudante
(pobre! no cursinho
que vira cursão
e invade o Brasil),
unha-de-gato
(envenenado
no Passeio Público?),
sempre-viçosa…
isto! A esperança
pousa na balança
o seu peso-pluma.
— Você tá esquecido
da maria-branca,
da pombinha-das-almas
e da noivinha…
Asas-pseudônimos
de primavera.
(Ah, vero barato
esse de brincar
de estação das flores
de concreto-objeto!)
— Oi, depressa, vamos
semear canteiros,
preparar estacas
e mergulhões,
plantar tubérculos
de cromo-gladíolos,
túberas de dálias
e tinhorões,
repicar sementeiras,
controlar lagartas,
ácaros e trips,
dizimar pulgões.
(Ui, primavera é fogo
se levada a sério!)
— Vamos pintar de verde
as áreas crestadas,
pôr na parede
a árvore genealógica,
comprar um sabiá
mecânico,
sortear
o beija-flor de beijar cimento?
É primavera, escuta o Burle Marx:
diz que havia jardins
em torno das casas,
havia matas
a cavaleiro das cidades,
florestas
onde o jacarandá e o mogno conversavam
a conversa de séculos.
(Fecharam o bico,
chegado o eucalipto.)
Broto gentil, a primavera
será um sonho de sonhar-se
na fumaça
no grito
no sem azul deserto
das cidades mortas que se julgam vivas?
Que alguém te cante e te descante,
ficou urgente, Primavera,
para que ao menos em cantiga,
neste papel aberto às gentes,
a flor antiga se restaure.
Te cantarei em Pernambuco,
onde és cidade, e no Pará,
onde mulheres plantam malva
sob o título municipal,
e em Rondônia cantarei
a corredeira Primavera,
pois nesses nomes de lugares
e num acidente geográfico
tu pousaste como um pássaro,
modesto pássaro cinzento
de asas pretas e cauda preta,
só a lembrar, no papo branco,
extintas primaveridades.
Primavera que tanto habitas
a bráctea rósea da buganvília
(em que jardins à vista ocultos
sob a fumaça que é nosso azul
residual?),
como habitavas, parnasiana,
o soneto crônico e clássico
dos poetas consumidores
de velhos tópicos europeus,
é forçoso que alguém celebre
o ímpeto juvenil da Terra
mesmo poluída, desossada,
Terra assim mesmo, seiva nossa.
E te ofereço, Primavera,
a arvorezinha de brinquedo
em pátio escolar plantada,
enquanto lá fora se ensina
como derrubar, como queimar,
como secar fontes de vida
para erigir a nova ordem
do Homem Artificial.
Ah, Primavera, me desculpa
se corto em meio uma floresta
latifoliada, pois tenho pressa
de correr na estrada de Santos.
Não te zangues se já não vês
em teu perene séquito lírico
aquele sininho-flor, descoberto
em longes tempos por George Gardner
e que soava só no Brasil:
foi preciso (teria sido?)
matar o verde, substituí-lo
pela neutra cor uniforme
que é uniforme do Progresso.
Primavera, primula veris,
em palavra quedas intacta,
em palavra pois te deponho
a minha culpa coletiva,
o meu citadino remorso,
minha saudade de água, bicho,
terra encharcada de promessas,
e visões e asas e vozes
primitivas e eternas, como
eterno (e amoroso) é o homem
ligado ao quadro natural.
Primavera, fiz um discurso?
Primavera, tu me perdoas?…
II
— 22 de setembro, mina minha.
Vamos curtir a primavera
em compact cassete tape, meu morango?
Bota aí o Botticelli
estereoutransfigurado em Debussy
e vê (primeiro fecha os olhos) Simonetta
Vespucci toda flor
florentil florindamente
(bulcão?) entre corolas e resinas
da flora da Tijuca…
— Não. Prefiro o Sacré du Printemps
que transa a primavera mais primeva.
Assim, no sala-e-escuro
dos sala-e-quarto conjugados
os dois ficamos respeitando
um princípio de seiva e de nenúfar,
enquanto a chuva — plic — tamborina
seu samba de uma nota só
na área de serviço.
É primavera, broto-brinco:
saiu no jornal,
a TV anunciou,
o Governo consentiu,
o Congresso aplaudiu
o comércio vendeu
arranjos de ikebana
e em algum lugar florescem três-marias
que são muitas marias, muitos nomes.
Vamos também curtir os nomes
(são presentes do povo à gente-bem):
riso-do-prado
(cadê o prado?),
amor-de-estudante
(pobre! no cursinho
que vira cursão
e invade o Brasil),
unha-de-gato
(envenenado
no Passeio Público?),
sempre-viçosa…
isto! A esperança
pousa na balança
o seu peso-pluma.
— Você tá esquecido
da maria-branca,
da pombinha-das-almas
e da noivinha…
Asas-pseudônimos
de primavera.
(Ah, vero barato
esse de brincar
de estação das flores
de concreto-objeto!)
— Oi, depressa, vamos
semear canteiros,
preparar estacas
e mergulhões,
plantar tubérculos
de cromo-gladíolos,
túberas de dálias
e tinhorões,
repicar sementeiras,
controlar lagartas,
ácaros e trips,
dizimar pulgões.
(Ui, primavera é fogo
se levada a sério!)
— Vamos pintar de verde
as áreas crestadas,
pôr na parede
a árvore genealógica,
comprar um sabiá
mecânico,
sortear
o beija-flor de beijar cimento?
É primavera, escuta o Burle Marx:
diz que havia jardins
em torno das casas,
havia matas
a cavaleiro das cidades,
florestas
onde o jacarandá e o mogno conversavam
a conversa de séculos.
(Fecharam o bico,
chegado o eucalipto.)
Broto gentil, a primavera
será um sonho de sonhar-se
na fumaça
no grito
no sem azul deserto
das cidades mortas que se julgam vivas?
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1
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Anémona dos Dias
Aquele que profanou o mar
E que traiu o arco azul do tempo
Falou da sua vitória
Disse que tinha ultrapassado a lei
Falou da sua liberdade
Falou de si próprio como de um Messias
Porém eu vi no chão suja e calcada
A transparente anémona dos dias.
E que traiu o arco azul do tempo
Falou da sua vitória
Disse que tinha ultrapassado a lei
Falou da sua liberdade
Falou de si próprio como de um Messias
Porém eu vi no chão suja e calcada
A transparente anémona dos dias.
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1
Ulisses Tavares
Maravilhas da Flora
Pinheiros natalinos sintéticos,
flores cor-de-fuligem,
arbustos esqueléticos,
florestas de antenas de TV,
alfaces com DDD.
In: TAVARES, Ulisses. Caindo na real. Il. Angeli. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.59. (Jovens do mundo todo
flores cor-de-fuligem,
arbustos esqueléticos,
florestas de antenas de TV,
alfaces com DDD.
In: TAVARES, Ulisses. Caindo na real. Il. Angeli. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.59. (Jovens do mundo todo
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1
Manoel Andrade Silva
O Mar se Apaixona
O Mar se Apaixona...
Desde a agitação das águas
Ao beijar suas areias
A doce jovem que se banhava,
Fez o Poeta descrever sua beleza,
Por ver que o próprio mar
Por ela também se apaixonava.
Vendo a eclipsá-la as fúrias de sua espuma,
Via o abismo da morte
Quando o mar se enfurecia.
E o mar bravio quase absorvia,
Lançando-lhe as suas águas,
Como quem lança um verde manto,
Louco, apaixonadamente lhe cobria.
E ela enfrenta alegremente as ondas,
E o mar apertando-lhe apaixonadamente,
Se inflamava ferozmente e torturado,
Como quem encontrou sua própria amada...
O mar achava que tinha todo o seu direito
Deixando-me inquieto e com receio
Porque era em suas águas que banhava
Suas nádegas, seu corpo e seus lindos seios!
Aí eu gritei, Mar!!!
Quantas figuras peregrinas
Vejo banhar-se no teu vasto leito,
Exceto esta, sem alcançar no entanto
O verde cristalino destea enorme manto,
Diferente repleto de ternura,
Vou retirar de sua imensidão esta beleza,
Que embebebou-o e alimentou este seu sonho,
De um mar manso, transformou-se em mar medonho!
O mar responde:
- Minha linfa e cristalina,
Falando ao surgir das ondas,
Tua deusa, tua musa, tua beleza
Foi Deus quem fez, com sua pureza...
Quero levar comigo, longe, às profundezas,
E retirar-lhe deste mundo de maldades,
Guardando-lhe para toda a eternidade,
Na calmaria da imensidão de minha grandeza!
- Não Mar! Gritei novamente,
Isto não é verdade, estás doente!
Querer levar contigo e matar,
É sacrilégio, é praticar crime profano;
Aplacar, por ser poderoso, é ser vesano!
Deus te fez assim para uma eternidade,
Estás sonhando um sonho de verdade;
Fostes criado para banhar a humanidade,
Por milênios de anos e mais anos;
Se levares muitos inocente, com maldade,
Nunca passarás de um enorme oceano!
Depois que falei como um poeta apaixonado,
o mar responde novamente:
- Poeta, encontraste esta eloqüência
Em minha beleza, em minha amplidão?
Retrocedo pela sua emoção!
Diga a esta divindade e beleza,
Se encontrares no seu corpo impureza,
Não tenho culpa, condene esta humanidade,
Por lançarem em minhas águas seus detritos,
Sem respeito, ignorância e maldade!
Vou seguir meu destino apaixonado e aflito,
Deus me fez grandioso e infinito,
Vou obedecer a lei da eternidade!
Chorando agradecido, responde o Poeta:
- Obrigado, obrigado Oceano!
Deus o fez com todo seu poder
Por sua criatividade e por ser soberano;
Criou-te para banhar toda a humanidade,
És lindo, grandioso de verdade!
Perdoaste minha musa cheio de mágoa,
Mas prometo-lhe por esta linda luz
Deste sol que hoje nos clareia,
Que trarei por muitas vezes,
Minha musa, minha sereia,
Para banhar-se em suas águas
E beijar suas areias!
Desde a agitação das águas
Ao beijar suas areias
A doce jovem que se banhava,
Fez o Poeta descrever sua beleza,
Por ver que o próprio mar
Por ela também se apaixonava.
Vendo a eclipsá-la as fúrias de sua espuma,
Via o abismo da morte
Quando o mar se enfurecia.
E o mar bravio quase absorvia,
Lançando-lhe as suas águas,
Como quem lança um verde manto,
Louco, apaixonadamente lhe cobria.
E ela enfrenta alegremente as ondas,
E o mar apertando-lhe apaixonadamente,
Se inflamava ferozmente e torturado,
Como quem encontrou sua própria amada...
O mar achava que tinha todo o seu direito
Deixando-me inquieto e com receio
Porque era em suas águas que banhava
Suas nádegas, seu corpo e seus lindos seios!
Aí eu gritei, Mar!!!
Quantas figuras peregrinas
Vejo banhar-se no teu vasto leito,
Exceto esta, sem alcançar no entanto
O verde cristalino destea enorme manto,
Diferente repleto de ternura,
Vou retirar de sua imensidão esta beleza,
Que embebebou-o e alimentou este seu sonho,
De um mar manso, transformou-se em mar medonho!
O mar responde:
- Minha linfa e cristalina,
Falando ao surgir das ondas,
Tua deusa, tua musa, tua beleza
Foi Deus quem fez, com sua pureza...
Quero levar comigo, longe, às profundezas,
E retirar-lhe deste mundo de maldades,
Guardando-lhe para toda a eternidade,
Na calmaria da imensidão de minha grandeza!
- Não Mar! Gritei novamente,
Isto não é verdade, estás doente!
Querer levar contigo e matar,
É sacrilégio, é praticar crime profano;
Aplacar, por ser poderoso, é ser vesano!
Deus te fez assim para uma eternidade,
Estás sonhando um sonho de verdade;
Fostes criado para banhar a humanidade,
Por milênios de anos e mais anos;
Se levares muitos inocente, com maldade,
Nunca passarás de um enorme oceano!
Depois que falei como um poeta apaixonado,
o mar responde novamente:
- Poeta, encontraste esta eloqüência
Em minha beleza, em minha amplidão?
Retrocedo pela sua emoção!
Diga a esta divindade e beleza,
Se encontrares no seu corpo impureza,
Não tenho culpa, condene esta humanidade,
Por lançarem em minhas águas seus detritos,
Sem respeito, ignorância e maldade!
Vou seguir meu destino apaixonado e aflito,
Deus me fez grandioso e infinito,
Vou obedecer a lei da eternidade!
Chorando agradecido, responde o Poeta:
- Obrigado, obrigado Oceano!
Deus o fez com todo seu poder
Por sua criatividade e por ser soberano;
Criou-te para banhar toda a humanidade,
És lindo, grandioso de verdade!
Perdoaste minha musa cheio de mágoa,
Mas prometo-lhe por esta linda luz
Deste sol que hoje nos clareia,
Que trarei por muitas vezes,
Minha musa, minha sereia,
Para banhar-se em suas águas
E beijar suas areias!
1 077
1
Isabel Vilhena
A Árvore
O pequenino vegetal que agora
Acabas de plantar, a vida encerra.
Sob as carícias maternais da aurora,
Ele há de erguer-se, em flores, sobre a terra.
Plantaste o lume e o mastro das bandeiras,
Plantaste o fruto, a sombra dos caminhos
E o repouso das horas derradeiras!...
Deste um novo aposento aos passarinhos!
Plantaste o berço. E, assim, essa alegria
Que à nossa vida todo o encanto empresta,
E até mesmo, o perfume que, num dia,
Hás de levar no lenço para a festa.
E quanta coisa mais há de te dar,
Pedindo em paga, apenas que a protejas!
Sob as bênçãos do céu, a farfalhar,
Tesouro vegetal, bendito sejas!
Acabas de plantar, a vida encerra.
Sob as carícias maternais da aurora,
Ele há de erguer-se, em flores, sobre a terra.
Plantaste o lume e o mastro das bandeiras,
Plantaste o fruto, a sombra dos caminhos
E o repouso das horas derradeiras!...
Deste um novo aposento aos passarinhos!
Plantaste o berço. E, assim, essa alegria
Que à nossa vida todo o encanto empresta,
E até mesmo, o perfume que, num dia,
Hás de levar no lenço para a festa.
E quanta coisa mais há de te dar,
Pedindo em paga, apenas que a protejas!
Sob as bênçãos do céu, a farfalhar,
Tesouro vegetal, bendito sejas!
1 075
1
João Marcio Furtado Costa
Cromoterapia
Cromoterapia
(06/96)
Do vermelho, a mensagem: pare!
Puro paradoxo!
Me excita a boca sensual,
e sigo.
Do branco, as vestes da paz.
Pura coerência!
Mistura de todas as cores,
um dia...
Do rosa , fêz-se a Rosa.
Pura beleza!
Da cor, a flor. Minha irmã,
que adoro.
Do preto, diz-se ausência.
Puro preconceito!
Na noite se vive a vida,
marco presença.
Do verde, a essência: natureza.
Pura ecologia!
Matéria prima da preservação: o homem,
maduro.
Do amarelo, pinta-se o pálido.
Puro despeito!
Oriente, tua cabeça é guia,
e força.
Do azul, o céu, a glória.
Puro pleonasmo!
Teu nome reflete as estrelas,
Cruzeiro.
(06/96)
Do vermelho, a mensagem: pare!
Puro paradoxo!
Me excita a boca sensual,
e sigo.
Do branco, as vestes da paz.
Pura coerência!
Mistura de todas as cores,
um dia...
Do rosa , fêz-se a Rosa.
Pura beleza!
Da cor, a flor. Minha irmã,
que adoro.
Do preto, diz-se ausência.
Puro preconceito!
Na noite se vive a vida,
marco presença.
Do verde, a essência: natureza.
Pura ecologia!
Matéria prima da preservação: o homem,
maduro.
Do amarelo, pinta-se o pálido.
Puro despeito!
Oriente, tua cabeça é guia,
e força.
Do azul, o céu, a glória.
Puro pleonasmo!
Teu nome reflete as estrelas,
Cruzeiro.
940
1
Dante Milano
Salmo Perdido
Creio num deus moderno,
Um deus sem piedade,
Um deus moderno, deus de guerra e não de paz.
Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.
O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.
Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.
Um deus sem piedade,
Um deus moderno, deus de guerra e não de paz.
Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.
O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.
Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.
1 916
1
Alcides Werk
O Ouro do Rio Amana
Tuas doces águas, Amana,
de repente se toldaram.
Chegaram dragas, pontões,
canoas, motores, balsas
abarrotadas de homens
falando gírias estranhas,
escafandros, pás, bateias,
mecanismos de sucção
a revolver-te as entranhas,
e o teu relevo de margens:
foi decifrado o segredo
do teu rico aluvião.
As cobiças pessoais
precisam catar o ouro
para urgências nacionais.
Cadê teus patos selvagens,
teus amenos inambus,
tangurupará voltando
(segundo registra a lenda)
de lutas com o japiim,
o som rouco das ciganas
a voz dos uirapurus,
o alarido dos guaribas,
os bandos de caititus,
os socós-boi meditando,
jacarés-pedra espiando,
tracajás quase dormindo
na beira, esquentando o sol?
Cadê tuas ariranhas,
tuas antas e capivaras,
teus tambaquis, tuas piranhas
pretas, teus pirarucus,
teus surubins, teus pacus,
araris e pirararas?
Vai, leva ao Parauari
(que também foi descoberto)
teu choro amargo de virgem
possuída sem amor.
Conta que há alto-falantes
espantando os papagaios;
que em cada motor-de-linha
chegam novos garimpeiros;
que as vilas vão-se formando
nas margens, e em cada tenda
há muitas coisas a venda
e mulheres de aluguel
(brancas, louras, que adoecem
por rejeição natural);
que há muito cabra-da-peste
e cenas de faroeste,
cachaça, carne-de-lata,
cigarro, pilha, sardinha,
leite-moça, mosquiteiro,
lanterna, charque do Sul.
Entrega teu ouro, Amana,
quanto mais cedo melhor.
Quero que sejas tão pobre
que nem se lembrem que existes.
Depois do caso passado,
mesmo sabendo que és triste,
quero fazer um roçado,
levantar um tapiri,
deixar o mundo de lado
e morar perto de ti.
de repente se toldaram.
Chegaram dragas, pontões,
canoas, motores, balsas
abarrotadas de homens
falando gírias estranhas,
escafandros, pás, bateias,
mecanismos de sucção
a revolver-te as entranhas,
e o teu relevo de margens:
foi decifrado o segredo
do teu rico aluvião.
As cobiças pessoais
precisam catar o ouro
para urgências nacionais.
Cadê teus patos selvagens,
teus amenos inambus,
tangurupará voltando
(segundo registra a lenda)
de lutas com o japiim,
o som rouco das ciganas
a voz dos uirapurus,
o alarido dos guaribas,
os bandos de caititus,
os socós-boi meditando,
jacarés-pedra espiando,
tracajás quase dormindo
na beira, esquentando o sol?
Cadê tuas ariranhas,
tuas antas e capivaras,
teus tambaquis, tuas piranhas
pretas, teus pirarucus,
teus surubins, teus pacus,
araris e pirararas?
Vai, leva ao Parauari
(que também foi descoberto)
teu choro amargo de virgem
possuída sem amor.
Conta que há alto-falantes
espantando os papagaios;
que em cada motor-de-linha
chegam novos garimpeiros;
que as vilas vão-se formando
nas margens, e em cada tenda
há muitas coisas a venda
e mulheres de aluguel
(brancas, louras, que adoecem
por rejeição natural);
que há muito cabra-da-peste
e cenas de faroeste,
cachaça, carne-de-lata,
cigarro, pilha, sardinha,
leite-moça, mosquiteiro,
lanterna, charque do Sul.
Entrega teu ouro, Amana,
quanto mais cedo melhor.
Quero que sejas tão pobre
que nem se lembrem que existes.
Depois do caso passado,
mesmo sabendo que és triste,
quero fazer um roçado,
levantar um tapiri,
deixar o mundo de lado
e morar perto de ti.
1 497
1
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 30
Na serra aliamos as tendas, aquecemos
música. A luz é da tribo, a Grande Pedra
escuta. Somo xamãs foragidos da pele da
Cidade, despidos do Futuro junto ao rio.
Vamos aprender a fabricar-nos alimentos,
esquecer digitalmente o Sucesso, renascer as
mãos na utopia. Neste mundo deus vai dançar.
música. A luz é da tribo, a Grande Pedra
escuta. Somo xamãs foragidos da pele da
Cidade, despidos do Futuro junto ao rio.
Vamos aprender a fabricar-nos alimentos,
esquecer digitalmente o Sucesso, renascer as
mãos na utopia. Neste mundo deus vai dançar.
490
Renato Rezende
Fin Du Siècle
Estamos na Europa, em la campagne.
E somos dois homens num bosque.
Caminhamos.
Na clareira perto de um riacho
encontramos
as flores mais lindas
(minúsculas, amarelinhas!)
O quê fazer?
a) colhê-las para um bouquet
b) fotografá-las como um japonês
c) deixá-las em paz (o meio ambiente!)
None of the above:
Passamos por cima, normal
silenciosamente.
França, verão 1988 -- Nova York, 7 de março 1996
E somos dois homens num bosque.
Caminhamos.
Na clareira perto de um riacho
encontramos
as flores mais lindas
(minúsculas, amarelinhas!)
O quê fazer?
a) colhê-las para um bouquet
b) fotografá-las como um japonês
c) deixá-las em paz (o meio ambiente!)
None of the above:
Passamos por cima, normal
silenciosamente.
França, verão 1988 -- Nova York, 7 de março 1996
741
Jaime Rocha
RUÍNAS
É um espaço de morte onde vai um corvo
comer todas as manhãs. Poisa junto
ao amontoado de pedras e procura no meio
da vegetação algumas larvas e o cheiro
de outros corvos. É um cheiro novo, azeitado,
que consegue surpreender quem pára um carro
junto a uma montanha.
Nessas ruínas passa um rio que está sujo
e que mostra ao longo das margens mais
de duzentos peixes mortos. É um rio esverdeado
sem vegetação, apenas com uma baba, onde
os corvos vão beber. Tem sons que desaparecem
de repente. Dentro dessas ruínas existem vários
objectos de ferro, outros de plástico.
Tudo está ordenado conforme o seu tempo de uso
e o espaço que ocupam. A um canto que é o canto
mais antigo das ruínas existe já uma grande
quantidade de musgo e cogumelos castanhos
dispersos subindo por uma árvore. É a árvore
dos corvos e é dali que se vê o horizonte,
umas vezes deserto outras com um vento
acinzentado. Os objectos de plástico mudam
de sítio e de cor durante a noite. Quase sempre
são levados pelos ratos para um esconderijo
escavado na terra, sem saída.
É um rio podre, embora nas palavras se possa
inventar uma lenda com um monge de branco
e uma estátua enfeitada de organdi, cheirando
a tabaco. Quando está cheio, ele reflecte
as ruínas com exactidão, as cores, os volumes,
os ácidos, uma temperatura quase quente,
como se as pedras e o barro fervessem para dentro.
Quando seca, as crostas aparecem circulares,
levantadas pelos bichos. E toda a força da terra
então resplandece chamando os lenhadores
e os machados. Os corvos fogem no chão do rio.
Uma cobra de água rodopia da nascente para a foz,
amaciando as ruínas. Todo o espaço está morto
sem barcos, um corpo que é um osso apenas
e que aguarda a chuva.
Esse rio existe nas ruínas, não está desenhado
num livro. Os corvos que lá vão também existem
porque bebem a água todas as manhãs. E isso
é um alimento sedutor. Alguém escreveu a tinta
junto à árvore do canto mais antigo das ruínas.
É onde antes íam mulheres lavar a roupa
e se banhavam mergulhando com os corvos,
quase sempre para nunca mais voltar
comer todas as manhãs. Poisa junto
ao amontoado de pedras e procura no meio
da vegetação algumas larvas e o cheiro
de outros corvos. É um cheiro novo, azeitado,
que consegue surpreender quem pára um carro
junto a uma montanha.
Nessas ruínas passa um rio que está sujo
e que mostra ao longo das margens mais
de duzentos peixes mortos. É um rio esverdeado
sem vegetação, apenas com uma baba, onde
os corvos vão beber. Tem sons que desaparecem
de repente. Dentro dessas ruínas existem vários
objectos de ferro, outros de plástico.
Tudo está ordenado conforme o seu tempo de uso
e o espaço que ocupam. A um canto que é o canto
mais antigo das ruínas existe já uma grande
quantidade de musgo e cogumelos castanhos
dispersos subindo por uma árvore. É a árvore
dos corvos e é dali que se vê o horizonte,
umas vezes deserto outras com um vento
acinzentado. Os objectos de plástico mudam
de sítio e de cor durante a noite. Quase sempre
são levados pelos ratos para um esconderijo
escavado na terra, sem saída.
É um rio podre, embora nas palavras se possa
inventar uma lenda com um monge de branco
e uma estátua enfeitada de organdi, cheirando
a tabaco. Quando está cheio, ele reflecte
as ruínas com exactidão, as cores, os volumes,
os ácidos, uma temperatura quase quente,
como se as pedras e o barro fervessem para dentro.
Quando seca, as crostas aparecem circulares,
levantadas pelos bichos. E toda a força da terra
então resplandece chamando os lenhadores
e os machados. Os corvos fogem no chão do rio.
Uma cobra de água rodopia da nascente para a foz,
amaciando as ruínas. Todo o espaço está morto
sem barcos, um corpo que é um osso apenas
e que aguarda a chuva.
Esse rio existe nas ruínas, não está desenhado
num livro. Os corvos que lá vão também existem
porque bebem a água todas as manhãs. E isso
é um alimento sedutor. Alguém escreveu a tinta
junto à árvore do canto mais antigo das ruínas.
É onde antes íam mulheres lavar a roupa
e se banhavam mergulhando com os corvos,
quase sempre para nunca mais voltar
743
Ademir Assunção
LENDA URBANA
Sombra Vermelha perseguia lenhadores
no coração da floresta.
Mas o coração da floresta parou.
Não há mais lenhadores.
Não há mais árvores.
Sombra Vermelha teve a pele coberta
por grossas escamas de petróleo.
Lili Maconha escuta vozes na secretária eletrônica,
vindas de muito longe.
As cortinas esfarrapadas tremulam levemente
ante a paisagem de escombros.
Cavalos de névoa são vistos trotando na Praça da Sé,
depois que o sino badala
as últimas blasfêmias da noite
e o breu desaba sobre o chafariz de água suja.
As paredes dos manicômios sangram óleo de caminhão.
no coração da floresta.
Mas o coração da floresta parou.
Não há mais lenhadores.
Não há mais árvores.
Sombra Vermelha teve a pele coberta
por grossas escamas de petróleo.
Lili Maconha escuta vozes na secretária eletrônica,
vindas de muito longe.
As cortinas esfarrapadas tremulam levemente
ante a paisagem de escombros.
Cavalos de névoa são vistos trotando na Praça da Sé,
depois que o sino badala
as últimas blasfêmias da noite
e o breu desaba sobre o chafariz de água suja.
As paredes dos manicômios sangram óleo de caminhão.
1 209
Charles Bukowski
Ele Atacou Os Moinhos de Vento, Sim
algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo
agora que as leiteiras gritam obscenidades
em dialetos diversos,
o moinho foi fechado,
há assassinatos em massa nas
lanchonetes,
o frade Tuck está ferrado,
os Estados Unidos aparecem em 17o nas
nações com maior longevidade do
indivíduo,
e ninguém limpa o para-brisa.
a besta dorme em Beverly Hills,
Van Gogh é um bilionário ausente,
o Homem de Marte dá um ás de
espadas,
Hollywood vira novela,
o cavalo cavalga o jóquei,
a puta chupa o congresso,
o gato tem só uma vida restante,
a rua sem saída é um psiquiatra,
a mesa está servida com fantasias da cabeça do peixe,
o sonho bate como um porrete na latrina
dos homens,
os sem-teto são roubados,
os dados são viciados,
a cortina está baixada,
os assentos estão vazios,
o vigia se suicidou,
as luzes estão apagadas,
ninguém espera por Godot
algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo,
absurdamente,
agora mesmo
na floresta em chamas
no mar moribundo
nos sonetos maçantes
e nos desperdiçados
nasceres do sol,
algo é necessário
aqui
além dessa música
podre,
dessas décadas ceifadas,
desse lugar desse jeito,
desse tempo,
o seu,
mutilado, cuspido
para longe,
as costas de um espelho, a
teta de uma porca;
semente sobre rocha,
fria,
nem mesmo a morte de
uma barata
agora.
ao extremo
agora que as leiteiras gritam obscenidades
em dialetos diversos,
o moinho foi fechado,
há assassinatos em massa nas
lanchonetes,
o frade Tuck está ferrado,
os Estados Unidos aparecem em 17o nas
nações com maior longevidade do
indivíduo,
e ninguém limpa o para-brisa.
a besta dorme em Beverly Hills,
Van Gogh é um bilionário ausente,
o Homem de Marte dá um ás de
espadas,
Hollywood vira novela,
o cavalo cavalga o jóquei,
a puta chupa o congresso,
o gato tem só uma vida restante,
a rua sem saída é um psiquiatra,
a mesa está servida com fantasias da cabeça do peixe,
o sonho bate como um porrete na latrina
dos homens,
os sem-teto são roubados,
os dados são viciados,
a cortina está baixada,
os assentos estão vazios,
o vigia se suicidou,
as luzes estão apagadas,
ninguém espera por Godot
algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo,
absurdamente,
agora mesmo
na floresta em chamas
no mar moribundo
nos sonetos maçantes
e nos desperdiçados
nasceres do sol,
algo é necessário
aqui
além dessa música
podre,
dessas décadas ceifadas,
desse lugar desse jeito,
desse tempo,
o seu,
mutilado, cuspido
para longe,
as costas de um espelho, a
teta de uma porca;
semente sobre rocha,
fria,
nem mesmo a morte de
uma barata
agora.
983
Charles Bukowski
29 Uvas Geladas
o processo de aprender é tortuoso
todos esses moinhos de vento
toda essa transição sangrenta
pias tampadas
mentes de papel higiênico
a mentira do amor, aquela puta pelada
cães com mais almas do que aqueles milionários de Pittsburgh
homens arruinados que achavam a graça mais eterna do que astuciosa
o processo de viver é curto demais e longo demais
longo demais para os velhos que nunca descobrem
curto demais para os velhos que descobriram
prematuro demais para os jovens que nunca sabem
excessivo demais para os jovens que descobrem
o processo de continuar é possível
com ajuda de álcool ou droga ou sexo
ou ouro ou golfe ou música sinfônica,
ou caça de cervos ou aprender a dançar a galinha maluca
ou ver um jogo de beisebol ou apostar num cavalo
ou tomar 6 banhos quentes por dia
ou insistir na ioga
ou virar um batista ou um violonista
ou ganhar uma massagem ou ler os quadrinhos
ou se masturbar ou comer 29 uvas geladas
ou discutir sobre John Cage ou ir ao zoológico
ou fumar charutos ou mostrar seu peru para garotinhas no parque
ou ser negro e comer uma garota branca
ou ser branco e comer uma garota negra
ou passear com um cão ou alimentar um gato ou xingar aos gritos uma criança
ou fazer as palavras cruzadas ou sentar no parque
ou frequentar faculdade ou pedalar uma bicicleta ou comer espaguete
ou ir a leituras de poesia ou ler poesia em público
ou ir ao cinema ou votar ou viajar à Índia ou
Nova York ou surrar alguém
ou polir prataria ou lustrar os sapatos
ou escrever uma carta ou encerar o carro
ou comprar um carro novo ou um tapetinho
ou uma camisa vermelha com bolinhas brancas
ou deixar crescer a barba ou cortar rente o cabelo
ou ficar parado na esquina suando com cara de inteligente
o processo de continuar é possível.
o processo de aprender é tortuoso
todas as pessoas sem esperança
e sem jamais saber
a flor silvestre é o tigre que comanda o universo
o tigre é a flor silvestre que comanda o universo
e as loucas e incomparáveis criaturas humanas com almas de barata
que sou chamado a amar e odiar e ter em convívio,
essas deverão verdadeiramente um dia sumir
na força de dinossauro de sua feiura
para que o sol não se sinta tão mal assim
para que o mar possa expelir os navios e o óleo e a merda
para que o céu possa se limpar da mesquinha cobiça delas
para que a noite possa se distinguir do dia
para que a traição possa virar o mais ínfimo dos anacronismos
para que o amor, provável iniciador de tudo, possa ter outro início
e durar e durar e durar e durar e durar e durar e
durar e durar e durar e durar
todos esses moinhos de vento
toda essa transição sangrenta
pias tampadas
mentes de papel higiênico
a mentira do amor, aquela puta pelada
cães com mais almas do que aqueles milionários de Pittsburgh
homens arruinados que achavam a graça mais eterna do que astuciosa
o processo de viver é curto demais e longo demais
longo demais para os velhos que nunca descobrem
curto demais para os velhos que descobriram
prematuro demais para os jovens que nunca sabem
excessivo demais para os jovens que descobrem
o processo de continuar é possível
com ajuda de álcool ou droga ou sexo
ou ouro ou golfe ou música sinfônica,
ou caça de cervos ou aprender a dançar a galinha maluca
ou ver um jogo de beisebol ou apostar num cavalo
ou tomar 6 banhos quentes por dia
ou insistir na ioga
ou virar um batista ou um violonista
ou ganhar uma massagem ou ler os quadrinhos
ou se masturbar ou comer 29 uvas geladas
ou discutir sobre John Cage ou ir ao zoológico
ou fumar charutos ou mostrar seu peru para garotinhas no parque
ou ser negro e comer uma garota branca
ou ser branco e comer uma garota negra
ou passear com um cão ou alimentar um gato ou xingar aos gritos uma criança
ou fazer as palavras cruzadas ou sentar no parque
ou frequentar faculdade ou pedalar uma bicicleta ou comer espaguete
ou ir a leituras de poesia ou ler poesia em público
ou ir ao cinema ou votar ou viajar à Índia ou
Nova York ou surrar alguém
ou polir prataria ou lustrar os sapatos
ou escrever uma carta ou encerar o carro
ou comprar um carro novo ou um tapetinho
ou uma camisa vermelha com bolinhas brancas
ou deixar crescer a barba ou cortar rente o cabelo
ou ficar parado na esquina suando com cara de inteligente
o processo de continuar é possível.
o processo de aprender é tortuoso
todas as pessoas sem esperança
e sem jamais saber
a flor silvestre é o tigre que comanda o universo
o tigre é a flor silvestre que comanda o universo
e as loucas e incomparáveis criaturas humanas com almas de barata
que sou chamado a amar e odiar e ter em convívio,
essas deverão verdadeiramente um dia sumir
na força de dinossauro de sua feiura
para que o sol não se sinta tão mal assim
para que o mar possa expelir os navios e o óleo e a merda
para que o céu possa se limpar da mesquinha cobiça delas
para que a noite possa se distinguir do dia
para que a traição possa virar o mais ínfimo dos anacronismos
para que o amor, provável iniciador de tudo, possa ter outro início
e durar e durar e durar e durar e durar e durar e
durar e durar e durar e durar
671
Charles Bukowski
Poema Para Dante
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
eu queria que você pudesse
ver. por certo tempo
tivemos o poder de
explodir a terra
e agora estamos descobrindo
o poder de abandoná-
la. mas a maioria terá de
ficar e
morrer. ou pela Bomba
ou então pelo refugo de ossos
empilhados
e outros recipientes vazios,
e merda e vidro e fumaça,
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
e as pessoas ainda contemplam rosas
pedalam bicicletas
batem relógio de ponto
compram casas e pinturas e carros;
as pessoas continuam a
copular
em todos os lugares, e os jovens olham em volta
e gritam
que este deveria ser um lugar melhor,
como sempre fizeram,
e aí ficaram velhos
e entraram no mesmo jogo sujo.
só que agora
todos os jogos sujos dos séculos
se somaram a um placar que parece quase
impossível de reverter.
alguns ainda tentam –
nós os chamamos de santos, poetas, loucos, tolos.
Dante, bebê, ó Dante, bebê,
você devia ver a gente
agora.
é aqui agora.
eu queria que você pudesse
ver. por certo tempo
tivemos o poder de
explodir a terra
e agora estamos descobrindo
o poder de abandoná-
la. mas a maioria terá de
ficar e
morrer. ou pela Bomba
ou então pelo refugo de ossos
empilhados
e outros recipientes vazios,
e merda e vidro e fumaça,
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
e as pessoas ainda contemplam rosas
pedalam bicicletas
batem relógio de ponto
compram casas e pinturas e carros;
as pessoas continuam a
copular
em todos os lugares, e os jovens olham em volta
e gritam
que este deveria ser um lugar melhor,
como sempre fizeram,
e aí ficaram velhos
e entraram no mesmo jogo sujo.
só que agora
todos os jogos sujos dos séculos
se somaram a um placar que parece quase
impossível de reverter.
alguns ainda tentam –
nós os chamamos de santos, poetas, loucos, tolos.
Dante, bebê, ó Dante, bebê,
você devia ver a gente
agora.
1 542
Marina Colasanti
Naquela praça
Era um banheiro o que eu queria
naquela praça aplastrada de sol
não uma andorinha morta.
Tirar a poeira das sandálias
molhar a testa e os pulsos
qualquer torneira serviria.
Mas sentei à sombra da árvore
e da sombra colhi o fruto cego
fervente de formigas.
Uma andorinha morta
não está entre aquelas que
na infância
fingíamos buscar na estação
em princípios de maio
para dizer "a primavera chegou",
migrantes vindas da África
- como eu
portadoras de cheiro de deserto
e invisível areia nas asas.
Uma andorinha morta
não volta com o sol
ao próprio ninho
como as que vi no Estoril
barreando casa
entre telha e calha
a mesma casa e telha
a mesma calha
antes entregue ao outono.
Talvez seja daquelas que
em céus romanos
já não traçam o ideograma
de suas asas
porque no campo
todos os insetos tombaram
a poder de agrotóxico
e elas não têm mais
o que comer.
Uma andorinha morta é irmã
e a mesma
que pousou junto à estátua do Príncipe Feliz
mensageira traída pelo afeto
e pelo frio
despojo a ser descartado num dia
e incorporado
no outro
ao imperecível coração de chumbo.
Era água o que eu queria
mas entre goles de sol
uma andorinha
fez seu ninho em mim.
naquela praça aplastrada de sol
não uma andorinha morta.
Tirar a poeira das sandálias
molhar a testa e os pulsos
qualquer torneira serviria.
Mas sentei à sombra da árvore
e da sombra colhi o fruto cego
fervente de formigas.
Uma andorinha morta
não está entre aquelas que
na infância
fingíamos buscar na estação
em princípios de maio
para dizer "a primavera chegou",
migrantes vindas da África
- como eu
portadoras de cheiro de deserto
e invisível areia nas asas.
Uma andorinha morta
não volta com o sol
ao próprio ninho
como as que vi no Estoril
barreando casa
entre telha e calha
a mesma casa e telha
a mesma calha
antes entregue ao outono.
Talvez seja daquelas que
em céus romanos
já não traçam o ideograma
de suas asas
porque no campo
todos os insetos tombaram
a poder de agrotóxico
e elas não têm mais
o que comer.
Uma andorinha morta é irmã
e a mesma
que pousou junto à estátua do Príncipe Feliz
mensageira traída pelo afeto
e pelo frio
despojo a ser descartado num dia
e incorporado
no outro
ao imperecível coração de chumbo.
Era água o que eu queria
mas entre goles de sol
uma andorinha
fez seu ninho em mim.
1 118
Marina Colasanti
Dai de beber a quem
A água que tomo
não aflora do chão
não escorre em regato,
eu a resgato de um vidro a
um outro vidro
prisioneira que estava
trancada como um gênio
na garrafa.
Esqueço as fontes
oblitero os poços.
Em busca d'água vou
sem mãos em concha
ou cântaro
água com aditivos
e com griffe
assinalada em código de barras
que colho da gôndola
e pago
na saída.
não aflora do chão
não escorre em regato,
eu a resgato de um vidro a
um outro vidro
prisioneira que estava
trancada como um gênio
na garrafa.
Esqueço as fontes
oblitero os poços.
Em busca d'água vou
sem mãos em concha
ou cântaro
água com aditivos
e com griffe
assinalada em código de barras
que colho da gôndola
e pago
na saída.
1 208
Marina Colasanti
JARDINAGEM ABAIXO DO EQUADOR
Deve ser erro meu
querer jardim lá onde a natureza
só pretende selva.
Gramados, convenhamos,
são coisa de europeu
com galgos gamos
e um castelo ao fundo
erva aparada em
séculos de cascos
coturnos e
sapatinhos de damas
séculos de batalhas
e sangue nas raizes.
Aqui a batalha que travo
é muito outra,
luta contra as daninhas
contra as pragas
sempre mais fortes do que grama
ou flores.
Arranco e arranco
despedaçando em vão as pobres unhas.
Onças, tamanduás, serpentes e gambás
riem de mim
no escuro não distante.
E me pergunto se não sou eu
a praga
nessa insistencia cega em extirpar
quem aqui nasce e vive
de direito.
querer jardim lá onde a natureza
só pretende selva.
Gramados, convenhamos,
são coisa de europeu
com galgos gamos
e um castelo ao fundo
erva aparada em
séculos de cascos
coturnos e
sapatinhos de damas
séculos de batalhas
e sangue nas raizes.
Aqui a batalha que travo
é muito outra,
luta contra as daninhas
contra as pragas
sempre mais fortes do que grama
ou flores.
Arranco e arranco
despedaçando em vão as pobres unhas.
Onças, tamanduás, serpentes e gambás
riem de mim
no escuro não distante.
E me pergunto se não sou eu
a praga
nessa insistencia cega em extirpar
quem aqui nasce e vive
de direito.
1 073
Affonso Romano de Sant'Anna
Na 5.ª Avenida
Sou um homem de 47 anos
andando na 5.ª avenida de Nova York
e vivo num mundo onde todos se devoram.
Acabei de ver uma exposição mostrando
como Picasso, Braque, Brancusi, Modigliani, Giacometti e Wlaminck
se apropriaram da arte africana
e se apropriavam eles mesmos
da arte uns dos outros.
De Gauguin e suas figuras da Polinésia
Picasso tirou suas “Duas mulheres sentadas”.
– “Eu não procuro, eu acho” – dizia ele
e assim ia devorando artistas e mulheres.
Esta manhã li
que o deserto do Saara avança 6 a 12 milhas por mês.
Só em 1984 avançou 125 milhas
ameaçando engolir Sahel.
Como são vorazes os artistas e desertos!
Não é tão longe a África nem tão longe a Polinésia!
Ali na esquina, um cidadão acaba de matar
dois jovens canibais que o atacaram
e, nos jornais, virou herói.
andando na 5.ª avenida de Nova York
e vivo num mundo onde todos se devoram.
Acabei de ver uma exposição mostrando
como Picasso, Braque, Brancusi, Modigliani, Giacometti e Wlaminck
se apropriaram da arte africana
e se apropriavam eles mesmos
da arte uns dos outros.
De Gauguin e suas figuras da Polinésia
Picasso tirou suas “Duas mulheres sentadas”.
– “Eu não procuro, eu acho” – dizia ele
e assim ia devorando artistas e mulheres.
Esta manhã li
que o deserto do Saara avança 6 a 12 milhas por mês.
Só em 1984 avançou 125 milhas
ameaçando engolir Sahel.
Como são vorazes os artistas e desertos!
Não é tão longe a África nem tão longe a Polinésia!
Ali na esquina, um cidadão acaba de matar
dois jovens canibais que o atacaram
e, nos jornais, virou herói.
1 099
Affonso Romano de Sant'Anna
Mudam-Se Os Tempos
Estão, de novo, mudando o mundo
sem minha permissão
(embora a cumplicidade obrigatória).
Expulsam as raposas e castores de suas tocas
e trocam de endereço as oliveiras.
Há muito já obrigavam os pássaros a portar gravatas
e forçavam os peixes a nadar de costas.
Ontem de manhã arredondaram o último quadrado
e hoje à meia-noite
prometem aprisionar a fugitiva elipse.
sem minha permissão
(embora a cumplicidade obrigatória).
Expulsam as raposas e castores de suas tocas
e trocam de endereço as oliveiras.
Há muito já obrigavam os pássaros a portar gravatas
e forçavam os peixes a nadar de costas.
Ontem de manhã arredondaram o último quadrado
e hoje à meia-noite
prometem aprisionar a fugitiva elipse.
575
Pablo Neruda
XXIII - Os homens
Porque si coincidíssemos ali
como os elefantes moribundos
dispostos ao oxigênio total,
se armados os saciados e os famintos,
os árabes e os bretões, os de Tehuantepec
e os de Hamburgo, os duros de Chicago e os senegaleses,
todos, si compreendêssemos que ali guardam as chaves
da respiração, do equilíbrio
baseados na verdade da pedra e do vento,
se assim fosse e corressem as raças despovoando as nações,
se navegássemos em tropel até a Ilha,
se todos ficassem sábios de repente e fossemos
a Rapa Nui, a mataríamos,
a mataríamos com imensas pisadas, com dialetos,
escarros, batalhas, religiões,
y ali também acabaria o ar,
cairiam ao solo as estátuas,
virariam mastros sujos os narizes de pedra
y tudo morreria amargamente.
como os elefantes moribundos
dispostos ao oxigênio total,
se armados os saciados e os famintos,
os árabes e os bretões, os de Tehuantepec
e os de Hamburgo, os duros de Chicago e os senegaleses,
todos, si compreendêssemos que ali guardam as chaves
da respiração, do equilíbrio
baseados na verdade da pedra e do vento,
se assim fosse e corressem as raças despovoando as nações,
se navegássemos em tropel até a Ilha,
se todos ficassem sábios de repente e fossemos
a Rapa Nui, a mataríamos,
a mataríamos com imensas pisadas, com dialetos,
escarros, batalhas, religiões,
y ali também acabaria o ar,
cairiam ao solo as estátuas,
virariam mastros sujos os narizes de pedra
y tudo morreria amargamente.
1 243