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Filhos

Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 14

Não se sabe bem então como é.
Como ciência rudimentar existe o terror, máquina apocalíptica do pressentimento.
Este saber desordenado instala-se no sonho, é aí que trepida um velho motor furioso.
É o coração, imagine-se — um órgão de profecia.
As altas coisas anunciadas vão à procura de personagens, e então aparecem o Pai e a Mãe: rostos demoníacos.
Conseguiram desprender-se da idade, da podridão, do crime de se haver amado a sua morte.
São figuras para todas as traições.
É terrível ser o filho, isto sabe-se — é a maligna sabedoria, enquanto pode não ser esquecida.
Com os labirintos dá-se isto: há que percorrê-los.
Então os pais agarram na infidelidade, cada um pelo seu lado, devorando-a.
Sabe-se, entretanto, que a infidelidade não pode ser de duas pessoas, porque tem de haver sempre traidor e traído.
É uma regra — foi banida a verdade dupla.
O papel monumental pertence à mulher — é sempre assim, sempre.
Possui a grandeza do destino, ela — é a terra, a sua cegueira superior, a clarividência.
E quando trai, com o corpo curvo e receptivo como a terra, é-lhe concedido o direito da mentira redonda — ela é a terra.
O pai parece ter morrido, sepultado nos terrenos da angústia — símbolo arcaico, metáfora pulverizada pela tremenda força compressora da terra — a dúplice, a ambígua, a feminina, a pactuante e protectora do filho atormentado pela embriaguez dos crimes.
E a mulher escreve no pergaminho: minha é a inocência.
E o filho recebe o legado — deita-se para dormir com ele, encosta-o ao coração, essa palavra de inocência que circula na circulação do sangue dele, o filho adormecido.
As justiças elegeram os pelotões de execução que esperam fora das câmaras, no pátio, em frente do muro onde se encostará o condenado, para receber no coração negro a bala libertadora.
Bastará talvez que o filho desenrole a palavra escrita pela mulher: inocência.
Nunca o fará, e chora pela última vez, enche o último instante com o valor duplo da inocência — palavra onde se juntaram mãe e filho, os amantes no crime.
A mãe é aquela face do enigma, no centro do labirinto, face da catástrofe, luz horrível que se recolhe como um ramo de flores venenosas.
Resta ao filho caminhar lentamente com a sua festa negra: o segredo que se não revela, o amor maldito, incesto, canto da sua glória tenebrosa.
E quando todos se meteram pelos anos dentro, caíram de podres, desapareceram, e os lugares foram esquecidos, e os tempos, e os antigos modos de trair e mentir e criar um enigma — então fica o filho, o órfão, com a verdadeira morte instalada no seu coração de homem, para com essa morte poder gritar:
Eu sou o crime, levanto-me com o meu crime, e então sou inocente, e atravesso o mundo para instaurar os novos lugares, o silêncio e as palavras sem culpa.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 12

Pendurada pelos cabelos, no meio do estúdio, há uma cabeça decepada que pensa: é este o meu filho?
Vejo-lhe o rosto apavorado, as mãos frágeis, e não consigo imaginar que pudessem erguer um cutelo de açougueiro.
Tem os olhos sofredores das crianças que percorrem os quartos, abrindo e fechando portas, esquecendo-se também de as fecharem.
Mas esses olhos de crianças deambulatórias enganam, e sobretudo porque este ser não é uma criança, é um homem.
Intriga-me a idade dele.
Não será um velho?
E se é uma doce criança, ou um homem tão fraco, ou se é um velho — para que subi eu das águas e atravessei a cidade, uma cabeça sem pernas, até chegar a este estúdio, e erguer-me apenas pela força do meu delírio, da minha astúcia e dor, e amarrar-me ao tecto pelos cabelos?
Teatral eu, sim — mas uma cabeça cheia de terrível amor.
Entre a janela e a porta, para lhe ocultar o mundo, para afundar os meus olhos nos olhos do filho.
Ele entra e hesita, existe ainda qualquer coisa fútil naquele coração que um dia desejou abandonar-se à luz.
Espera uma cidade com pequenas surpresas quotidianas, pensa em pessoas andando pelas ruas, arrabaldes com cavalos, e aragem passando nas árvores.
Julgo às vezes que ele nada conhece dos crimes.
Imagina libertações.
Procuro ajudá-lo com o horror da minha presença irremovível.
É bom no entanto lembrar que a sua cara se encostou à minha, e as suas lágrimas banharam o meu rosto que irrompeu do meio dos mortos.
Será sempre assim?, pensava ele, mas a ideia de um pacto nascia já dentre a confusão de todas as outras ideias.
E confunde tudo, ele, confunde as coisas todas, quando quer saber se o crime compensa.
Compensar seria para ele libertar-se dos profundos pactos do amor.
Mas as faunas e floras daqueles países que não há, consignadas na parede do estúdio, que são elas senão alusões aos mistérios do amor, metáforas do crime, deslocações subtis de sentido para chegar ao centro do próprio amor?
E eis-me aqui, pendurada por esta cabeleira que me esforcei por fazer crescer até ao rosto dele.
Eis-me tornada suspensa, voraz, aterradora, dando o melhor do meu conhecimento, da minha força — para que ele compreenda, este mau estudante.
Meu Deus, será sempre assim, sempre?
Estou cansada.
Duvido já da minha ciência, já quase me distraio às vezes de que o amor é para aterrorizar e matar.
Procuro sorrir, ser doce, utilizar um código humano.
Ele treme, talvez jovem demais ou excessivamente velho.
Uma cabeça pendurada não pode saber tudo.
Depois, falta-me o corpo — que ajuda a não ter cabeça, de quando em quando.
Sou forçada a possuir uma cabeça permanente, eu, cabeça.
Utilizo pequenos truques de teatro, oscilo, volto-me, torno-me maior.
É para aterrorizá-lo, afirmar categoricamente a minha realidade maravilhosa.
Mas ele tem terror do terror, não o recebe como alimento da sua própria vida.
Faz comparações tolas com a América do Sul, escapa-lhe a significação das coisas.
A grandeza que me concede é por comparação com o folclore.
Ah, mete-me no centro do teu coração, não durmas mais, caminha até ao fundo da angústia.
Não sou uma mestra-escola.
Sou a frontalidade do crime.
E ele cambaleia, treme, hesita, tem delicadas mãos de fantasista de paredes.
Eras tu quem me deveria erguer ao alto, com as tuas mãos fortes e ensanguentadas, com o teu negro coração cheio da minha eternidade.
Contudo, sou eu que me penduro pelos cabelos, fazendo teatro.
Se pudesses ouvir que nunca houve primaveras com cheiros vegetais, roupas idiotas a secar, casas altas no meio da luz.
Escuta: avança pelas trevas.
É um literato, este pobre diabo: leu o Apocalipse, o Inferno, Lautréamont, Rimbaud.
Não se leu a si próprio, não leu o mistério da minha aparição.
O que deseja, o fraco, é curar-se do pouco que ainda sabe.
E então eu sorrio, envergonhada de nós dois, aspirando às vezes a perder-me no esquecimento, não supor que houve um crime.
Talvez o crime não compense, sim, no outro sentido, talvez o crime não seja uma coisa exemplar, criadora.
Sou uma cabeça triste, envelheço.
Deixo-me balançar ao vento, quero libertar-me.
Pergunto mesmo: há realidade, amor, crime?
Este homem gastou-se no medo.
Encheu-se de ideias de salvação, penetrou-se de doçura — o que ele ama é a interpretação mais superficial da minha presença.
Gosta que eu sorria.
E talvez eu própria comece a gostar de sorrir, talvez deseje libertar-me da presença deste homem.
Hoje, quando ele estava encostado à porta, olhando-me nos olhos, perguntei se isto não terá fim.
Nunca mais, nunca mais?
Quem sabe se não se encontrará aí o segredo da minha aparição?
Suponho por instantes que foi ele quem me tirou do rio, quem me trouxe para aqui e me pendurou do tecto.
Talvez quisesse saber até que ponto eu suportaria um pacto.
Talvez eu seja uma criação sua.
Meu Deus, e se assim for, nunca mais me libertarei?
Haverá um pacto?
Que pacto?
Digo a verdade: não foi ele quem chorou com o rosto encostado à minha face gelada.
Fui eu.
E as minhas lágrimas caíam na cara dele, rolavam até à sua boca implacável.
Porque eu não sei, ele não pronuncia uma só palavra.
Meu Deus, será sempre assim? sempre, sempre?
Tenho medo desta tenebrosa cumplicidade que há entre nós dois, porque ele é um homem, um ser perigoso, e eu sou apenas uma cabeça de grand guignol.
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Renato Rezende

Renato Rezende

[Hosana]

Meu sexo se tornou uma rosa amarela
ereta e desabrochada

o seu uma vermelha?

Podemos viver sem o corpo
apenas mente

e sua matéria rara?

Qual a distância correta?

euforia e desamparo

Amamos melhor quando amamos em Presença?

Asa-palavra

Esse é um poema fora de órbita

Stella do Patrocínio:

Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo

Eu quero sempre, em suspenso

—Poucos meses de namoro. Para mim, não era sério; nunca era. Eu gostava dela, mas... para mim era um rolo. Ela sabia que eu já havia estado com homens. Não tinha se importado. Daí ela propôs.

—Eu sou de escorpião. Não nego: tenho inveja do pau. Sempre quis ser homem. Sou feminina, me cuido, me visto. Tenho vaidade. Mas sou decidida, sei o que quero.

—Eu nunca soube o que quero. Numa noite, depois de uma festa, ela propôs. Tive medo. Achei que depois ela ia sentir nojo de mim. Perguntei.

—Claro que não sentiria. Não; pelo contrário. Meu coração bateu forte. Ele estava se oferecendo para mim. Me senti grata.

—Foi improvisado. Demorou. Foi ótimo. A gente ama quem nos dá prazer, não é mesmo? Sentimos muito amor mesmo.

—Dormimos abraçados. Ela como se fosse homem.

—Depois mandamos fazer um consolo preso num cinto. Sob medida. Perdi a vergonha, e daí? Sempre soube o que quero. Tem vez que ando com isso o dia inteiro.

—Já anos de casados. Duas filhas. Feitas com prazer, a gente varia.

—A gente vai levando. Negociando. Dando um jeito. A vida é assim.

Quem quer se casar comigo?

Deus, quer se casar comigo?

Estrela
Eu-sou
Eu-posso

Flamirromper
Florchamejar
Borboleta-girassol
Luz-delírio

Oh, Goethe!
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Ademir Assunção

Ademir Assunção

JACK KEROUAC NA PRAIA BRAVA

sonhei com jack kerouac
sentado na varanda da casa
de waldemar cordeiro. eu acabara
de acordar e dei de cara
com aquele vulto imerso
na neblina. bem acima da copa
das árvores a lua cheia ardia
entre nuvens espessas, com sua
cara de gângster. eu disse: “ei, man,
onde é que vamos parar?” jack
deu uma longa tragada
no cigarro, fumaça branca na névoa
branca, e me estendeu
o copo de uísque.
continuou encarando a lua, pálido
como um fantasma. disse
que estava a bordo de um navio
mercante da marinha americana na costa
da indonésia até a semana passada.
perguntou se ainda havia hippies
nas ruas, feministas queimando sutiãs
em praça pública e negros
enforcados nos galhos de grossos carvalhos
no novo méxico. “oh, não, jack, isso
faz tanto tempo. agora eles mandam os jovens
negros pobres para a guerra no iraque.”
descemos até a mercearia da praia brava
atrás de umas latinhas de cerveja
e de uma garrafa de conhaque. no caminho
contei-lhe que leminski e itamar assumpção
estiveram nesta mesma casa no carnaval
de 1988. “oh, yeah”, disse jack. “os grandes
poetas são como as marés: engolem os
barcos dos imprudentes e lançam os destroços
na praia”. quando voltamos da mercearia,
minha filha de 16 anos lia jorge luis borges
e meu filho de 13 lia david goodis. nina
simone cantava just call me angel of the morning.
jack abriu uma lata de cerveja, bebeu
um longo gole olhando as folhas da mata
e disse a eles: “não deixem que os idiotas
calem sua voz. aquela voz que vem lá do fundo
de vocês mesmos. contem comigo
pro que der e vier”. minha filha
sussurrou no meu ouvido: “quem é esse
cara?” “jack kerouac”, eu respondi. “uau”,
ela balbuciou. meu filho levantou os olhos
do livro e gritou: “eddie acabou de acertar um
cruzado de direita na cara do leão de chácara”.
eu olhei para jack e em silêncio
fizemos um trato: “deixe-os viver. ainda é cedo
para contar-lhes sobre as mentiras do mundo”.
jack jogou pra dentro um bom gole
de conhaque e assentiu com a cabeça. a noite
estava fria. a lua continuava socando as nuvens
com sua cara de gângster mal-humorado.
1 018
Charles Bukowski

Charles Bukowski

4 Quarteirões

levei minha filha de carro até o auditório da escola
onde sua mãe deveria encontrá-la
as 5 da tarde.
eu a deixei descer do carro
e ela enfiou a cabeça pela janela
e me beijou
como sempre fazia.
ela estava com 8 anos. eu com 52.
duas mulheres gordas ficaram nos observando.
eu acenei até logo para minha filha
e enquanto ela caminhava até a entrada
uma das mulheres gordas perguntou-lhe,
"espere um minuto, quem era esse homem?"
e ela respondeu, "esse é meu pai".
então uma das gordas correu na minha direção:
"espere um minuto, pode me dar uma carona, só 4
quarteirões?"
"meu carro é muito sujo", eu disse.
"não quero me intrometer", ela disse,
entrando.
"é só seguir pela rodovia. não é longe."
segui pela rodovia.
"Marina", ela disse, "é uma menina muito boa, nós
todas gostamos de Marina."
"sim", eu disse, "ela é uma garota muito quieta e
educada."
"sim," ela respondeu, "sim, ela é."
"costumo ser muito quieto e atencioso também",
eu disse.
"bem", ela respondeu, "acho que se você não se
elogiar, então ninguém vai fazer isso, hahaha!"
"está ventando muito hoje", eu disse.
"agora", ela disse, "vá dois quarteirões para o norte, então vire
à direita."
"tudo certo", eu disse, "vou fazer."
"espero", ela disse, "que não o esteja levando para muito longe
do seu caminho. espero não estar me
intrometendo.
"a senhora conheceu a mãe de Marina?", eu perguntei.
"ah, sim", ela disse, "é uma pessoa adorável, mesmo,
uma pessoa adorável."
"tem certeza de que mais ninguém vai?" eu perguntei.
"vai o quê?", ela perguntou.
"elogiar você se você não se elogiar a si mesmo", eu
respondi.
"bem", ela disse, "são mais 3 quarteirões,
então o senhor dobra à direita."
eu subi 3 quarteirões e dobrei à
direita.
"agora", ela disse, "está vendo esse caminhão com a porta
bem aberta?"
"estou vendo", eu disse.
"é só o senhor parar bem ao lado do caminhão e eu
desço do carro."
estacionei ali e ela desceu
do carro.
"com certeza quero lhe agradecer", ela disse,
"e espero não me haver
intrometido."
"eu a vejo por aí", eu disse.
"cuide-se bem."
eu segui em frente e entrei de novo à direita
em uma rua de mão única. o oceano estava
lá. não havia nenhum veleiro
à vista. vagamente eu pensei em
peixes voadores
e os dispensei como um mito.
fiz o balão
na primeira oportunidade
e segui de volta
para Los Angeles.
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