Poemas neste tema
Liberdade
Carlos Nejar
Alforria
Pássaros somos
sem menor retorno.
Depois as asas doem
e as folhas tombam.
Aos poucos
vou comprando
a liberdade.
Os sapatos doem,
as roupas doem,
a morte
não tem dor,
doendo em nós.
Aos poucos
vou comprando
a liberdade.
De chofre
nada nasce
A vigilância
cobre nosso sono
com gaiolas e tômbolas.
E o comércio
do sonho
se dissolve.
Aos poucos
vou comprando
a eternidade.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
sem menor retorno.
Depois as asas doem
e as folhas tombam.
Aos poucos
vou comprando
a liberdade.
Os sapatos doem,
as roupas doem,
a morte
não tem dor,
doendo em nós.
Aos poucos
vou comprando
a liberdade.
De chofre
nada nasce
A vigilância
cobre nosso sono
com gaiolas e tômbolas.
E o comércio
do sonho
se dissolve.
Aos poucos
vou comprando
a eternidade.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
1 178
1
Castro Alves
Estrofes do Solitário
Basta de covardia! A hora soa...
Voz ignota e fatídica revoa,
Que vem... Donde? De Deus.
A nova geração rompe da terra,
E, qual Minerva armada para a guerra,
Pega a espada... olha os céus.
Sim, de longe, das raias do futuro,
Parte um grito, p'ra — os homens surdo, obscuro,
Mas para — os moços, não!
É que, em meio das lutas da cidade,
Não ouvis o clarim da Eternidade,
Que troa n'amplidão!
Quando as praias se ocultam na neblina,
E como a garça, abrindo a asa latina,
Corre a barca no mar,
Se então sem freios se despenha o norte,
É impossível — parar... volver — é morte...
Só lhe resta marchar.
E o povo é como — a barca em plenas vagas,
A tirania — é o tremedal das plagas,
O porvir — a amplidão.
Homens! Esta lufada que rebenta
É o furor da mais lôbrega tormenta...
— Ruge a revolução.
E vós cruzais os braços... Covardia!
E murmurais com fera hipocrisia:
— É preciso esperar...
Esperar? Mas o quê? Que a populaça,
Este vento que os tronos despedaça,
Venha abismos cavar?
Ou quereis, como a sátrapa arrogante,
Que o porvir, n'ante-sala, espere o instante
Em que o deixeis subir?!
Oh! parai a avalanche, o sol, os ventos,
O oceano, o condor, os elementos...
Porém nunca o porvir!
(...)
Desvario das frontes coroadas!
Na página das púrpuras rasgadas
Ninguém mais estudou!
E no sulco do tempo, embalde dorme
A cabeça dos reis — semente enorme
Que a multidão plantou!...
No entanto fora belo nesta idade
Desfraldar o estandarte da igualdade,
De Byron ser o irmão...
E pródigo — a esta Grécia brasileira,
Legar no testamento — uma bandeira,
E ao mundo — uma nação.
Soltar ao vento a inspiração de Graco
Envolver-se no manto de 'Spartaco,
Dos servos entre a grei;
Lincoln — o Lázaro acordar de novo,
E da tumba da ignomínia erguer um povo,
Fazer de um verme — um rei!
Depois morrer — que a vida está completa,
— Rei ou tribuno, César ou poeta,
Que mais quereis depois?
Basta escutar, do fundo lá da cova,
Dançar em vossa lousa a raça nova
Libertada por vós...
Imagem - 00290010
Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
Voz ignota e fatídica revoa,
Que vem... Donde? De Deus.
A nova geração rompe da terra,
E, qual Minerva armada para a guerra,
Pega a espada... olha os céus.
Sim, de longe, das raias do futuro,
Parte um grito, p'ra — os homens surdo, obscuro,
Mas para — os moços, não!
É que, em meio das lutas da cidade,
Não ouvis o clarim da Eternidade,
Que troa n'amplidão!
Quando as praias se ocultam na neblina,
E como a garça, abrindo a asa latina,
Corre a barca no mar,
Se então sem freios se despenha o norte,
É impossível — parar... volver — é morte...
Só lhe resta marchar.
E o povo é como — a barca em plenas vagas,
A tirania — é o tremedal das plagas,
O porvir — a amplidão.
Homens! Esta lufada que rebenta
É o furor da mais lôbrega tormenta...
— Ruge a revolução.
E vós cruzais os braços... Covardia!
E murmurais com fera hipocrisia:
— É preciso esperar...
Esperar? Mas o quê? Que a populaça,
Este vento que os tronos despedaça,
Venha abismos cavar?
Ou quereis, como a sátrapa arrogante,
Que o porvir, n'ante-sala, espere o instante
Em que o deixeis subir?!
Oh! parai a avalanche, o sol, os ventos,
O oceano, o condor, os elementos...
Porém nunca o porvir!
(...)
Desvario das frontes coroadas!
Na página das púrpuras rasgadas
Ninguém mais estudou!
E no sulco do tempo, embalde dorme
A cabeça dos reis — semente enorme
Que a multidão plantou!...
No entanto fora belo nesta idade
Desfraldar o estandarte da igualdade,
De Byron ser o irmão...
E pródigo — a esta Grécia brasileira,
Legar no testamento — uma bandeira,
E ao mundo — uma nação.
Soltar ao vento a inspiração de Graco
Envolver-se no manto de 'Spartaco,
Dos servos entre a grei;
Lincoln — o Lázaro acordar de novo,
E da tumba da ignomínia erguer um povo,
Fazer de um verme — um rei!
Depois morrer — que a vida está completa,
— Rei ou tribuno, César ou poeta,
Que mais quereis depois?
Basta escutar, do fundo lá da cova,
Dançar em vossa lousa a raça nova
Libertada por vós...
Imagem - 00290010
Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
2 385
1
José Bonifácio de Andrada e Silva
Ode aos Baianos
(...)
Duas vezes, Bahianos, me escolhestes
Para a voz levantar a pró da pátria
Na assembléia geral; mas duas vezes
Foram baldados votos.
Porém enquanto me animar o peito,
Este sopro de vida, que ainda dura
O nome da Bahia, agradecido
Repetirei com júbilo.
Amei a liberdade, e a independência
Da doce cara pátria, a quem o Luso
Oprimia sem dó, com riso e mofa —
Eis o meu crime todo.
Cingida a fronte de sangrentos loiros
Horror jamais inspirará meu nome;
Nunca a viúva há de pedir-me o esposo,
Nem seu pai a criança.
Nunca aspirei a flagelar humanos —
Meu nome acabe, para sempre acabe,
Se para o libertar do eterno olvido
Forem precisos crimes.
Morrerei no desterro em terra estranha,
Que no Brasil só vis escravos medram —
Para mim o Brasil não é mais pátria,
Pois faltou a justiça.
(...)
Publicado no livro Poesias (1861).
In: BONIFÁCIO, José. Poesias. Edição fac-similar da principe, de 1825, extremamente rara; com as poesias ajuntadas na edição de 1861, muito rara; com uma contribuição inédita. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1942. p.157-158. (Coleção Afrânio Peixoto)
NOTA: Poema composto de 136 quadra
Duas vezes, Bahianos, me escolhestes
Para a voz levantar a pró da pátria
Na assembléia geral; mas duas vezes
Foram baldados votos.
Porém enquanto me animar o peito,
Este sopro de vida, que ainda dura
O nome da Bahia, agradecido
Repetirei com júbilo.
Amei a liberdade, e a independência
Da doce cara pátria, a quem o Luso
Oprimia sem dó, com riso e mofa —
Eis o meu crime todo.
Cingida a fronte de sangrentos loiros
Horror jamais inspirará meu nome;
Nunca a viúva há de pedir-me o esposo,
Nem seu pai a criança.
Nunca aspirei a flagelar humanos —
Meu nome acabe, para sempre acabe,
Se para o libertar do eterno olvido
Forem precisos crimes.
Morrerei no desterro em terra estranha,
Que no Brasil só vis escravos medram —
Para mim o Brasil não é mais pátria,
Pois faltou a justiça.
(...)
Publicado no livro Poesias (1861).
In: BONIFÁCIO, José. Poesias. Edição fac-similar da principe, de 1825, extremamente rara; com as poesias ajuntadas na edição de 1861, muito rara; com uma contribuição inédita. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1942. p.157-158. (Coleção Afrânio Peixoto)
NOTA: Poema composto de 136 quadra
2 007
1
Moacyr Felix
O Poema
Ou se vive por inteiro
ou pela metade a gente
escreve a vida
que não viveu.
E o papel em branco então serve
como serve ao prisioneiro
a parede branca do cárcere.
O que não foi é o ser que é
no poema, esse ato mágico
de uma chama que não se vê
tanto mais quanto ela queima
no ar de uma cela vazia
o homem que é posto em pé
sobre os mortos do seu dia.
Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.2
ou pela metade a gente
escreve a vida
que não viveu.
E o papel em branco então serve
como serve ao prisioneiro
a parede branca do cárcere.
O que não foi é o ser que é
no poema, esse ato mágico
de uma chama que não se vê
tanto mais quanto ela queima
no ar de uma cela vazia
o homem que é posto em pé
sobre os mortos do seu dia.
Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.2
1 559
1
Osório Duque-Estrada
Hino Nacional Brasileiro
I
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.
Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!
Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.
Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!
II
Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!
Do que a terra mais garrida
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
"Nossos bosques têm mais vida",
"Nossa vida" no teu seio "mais amores".
Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro desta flâmula
— Paz no futuro e glória no passado.
Mas, se ergues da Justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!
Publicado no livro Hino Nacional Brasileiro (1922).
In: CORREA, Avelino A. Hinos e canções do Brasil. 5.ed. São Paulo: Ática, 1982. p.12-13
NOTA: Música de Francisco Manuel da Silva (composta para a coroação de D. Pedro II, em 1841). A letra de Osório Duque-Estrada foi vencedora do concurso para "a melhor composição poética que se adapte, com todo o rigor do ritmo, à música do Hino Nacional Brasileiro", em 1909, e oficializada em 1922. Citação de versos da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846) e de imagens do poema em prosa "Meditação" (capítulo III, parte IV), de Gonçalves Dias. Publicado no Diário Oficial de 02 set. 1971, seção 1, parte 1, Suplemento, anexo
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.
Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!
Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.
Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!
II
Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!
Do que a terra mais garrida
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
"Nossos bosques têm mais vida",
"Nossa vida" no teu seio "mais amores".
Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro desta flâmula
— Paz no futuro e glória no passado.
Mas, se ergues da Justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!
Publicado no livro Hino Nacional Brasileiro (1922).
In: CORREA, Avelino A. Hinos e canções do Brasil. 5.ed. São Paulo: Ática, 1982. p.12-13
NOTA: Música de Francisco Manuel da Silva (composta para a coroação de D. Pedro II, em 1841). A letra de Osório Duque-Estrada foi vencedora do concurso para "a melhor composição poética que se adapte, com todo o rigor do ritmo, à música do Hino Nacional Brasileiro", em 1909, e oficializada em 1922. Citação de versos da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846) e de imagens do poema em prosa "Meditação" (capítulo III, parte IV), de Gonçalves Dias. Publicado no Diário Oficial de 02 set. 1971, seção 1, parte 1, Suplemento, anexo
3 128
1
Sousa Caldas
Ode ao Homem Selvagem
(...)
Estrofe 4a.
Que Augusta imagem de esplendor subido
Ante mim se figura!
Nu; mas de graça e de valor vestido
O homem natural não teme a dura
Feia mão da Ventura:
No rosto a Liberdade traz pintada
De seus sérios prazeres rodeada.
(...)
Estrofe 5a.
Eu vejo o mole sono sussurrando
Dos olhos pendurar-se
Do frouxo Caraíba que, encostando
Os membros sobre a relva, sem turbar-se,
O Sol vê levantar-se,
E nas ondas, de Tétis entre os braços,
Entregar-se de Amor aos doces laços.
Antístrofe 5a.
Ó Razão, onde habitas?... na morada
Do crime furiosa,
Polida, mas cruel, paramentada
Com as roupas do Vício, ou na ditosa
Cabana virtuosa
Do selvagem grosseiro?... Dize... aonde?
Eu te chamo, ó filósofo! responde.
Epode 5a.
Qual o astro do dia,
Que nas altas montanhas se demora,
Depois que a luz brilhante e criadora,
Nos vales já sombria,
Apenas aparece; assim me prende
O Homem natural, e o Estro acende.
(...)
Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.398-399. (Textos, 2)
NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
Estrofe 4a.
Que Augusta imagem de esplendor subido
Ante mim se figura!
Nu; mas de graça e de valor vestido
O homem natural não teme a dura
Feia mão da Ventura:
No rosto a Liberdade traz pintada
De seus sérios prazeres rodeada.
(...)
Estrofe 5a.
Eu vejo o mole sono sussurrando
Dos olhos pendurar-se
Do frouxo Caraíba que, encostando
Os membros sobre a relva, sem turbar-se,
O Sol vê levantar-se,
E nas ondas, de Tétis entre os braços,
Entregar-se de Amor aos doces laços.
Antístrofe 5a.
Ó Razão, onde habitas?... na morada
Do crime furiosa,
Polida, mas cruel, paramentada
Com as roupas do Vício, ou na ditosa
Cabana virtuosa
Do selvagem grosseiro?... Dize... aonde?
Eu te chamo, ó filósofo! responde.
Epode 5a.
Qual o astro do dia,
Que nas altas montanhas se demora,
Depois que a luz brilhante e criadora,
Nos vales já sombria,
Apenas aparece; assim me prende
O Homem natural, e o Estro acende.
(...)
Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.398-399. (Textos, 2)
NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
2 553
1
Evaristo da Veiga
Soneto à Perfídia de Portugal
Brasil da Natureza encanto, amores
Do Despotismo o jugo mal sofrendo
Viu que lhe estava os braços estendendo
Lisia livre dos ferros opressores.
Eu quero unir-me com prisões de flores
Ao meu querido Irmão; eu só pretendo
Mútua ventura: Lisia assim dizendo,
Cai o Brasil nos braços seus traidores.
Então depondo a pérfida brandura
Ela lhe lança os ferros desumanos
E só de escravizá-lo trata, e cura
Mas; conhecendo os cônditos enganos
Do sono da letárgica doçura
O Brasil acordou: tremei Tiranos.
22 de fevereiro de 1822.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.9
Do Despotismo o jugo mal sofrendo
Viu que lhe estava os braços estendendo
Lisia livre dos ferros opressores.
Eu quero unir-me com prisões de flores
Ao meu querido Irmão; eu só pretendo
Mútua ventura: Lisia assim dizendo,
Cai o Brasil nos braços seus traidores.
Então depondo a pérfida brandura
Ela lhe lança os ferros desumanos
E só de escravizá-lo trata, e cura
Mas; conhecendo os cônditos enganos
Do sono da letárgica doçura
O Brasil acordou: tremei Tiranos.
22 de fevereiro de 1822.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.9
1 206
1
Mafalda Veiga
Passos
Sigo um azul perdido na distância
e um tempo a viajar pra outro lado
é tão incerto o gesto, é como a dança
de um sopro no vento, abandonado
Levo as mão vazias e a vontade
a força inteira do mundo a respirar
soltando dentro amarras à deriva
que me abrem braços noutro mar
Vou procurar rumos só meus
sem sentir mais nada
só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
O sol arde no branco das paredes
e o calor vai ficando para trás
já morreu dentro de mem o punho negro
de garras que apertavam sem matar
Sem medo de navegar enfim a sós
sem medo do que se vê na escuridão
corro atrás das chamas leves e furtivas
sem sentir mais nada
Só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
Corro atrás de ventos incontidos
sem ver mais ninguém
sem sentir mais nada
Só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
e um tempo a viajar pra outro lado
é tão incerto o gesto, é como a dança
de um sopro no vento, abandonado
Levo as mão vazias e a vontade
a força inteira do mundo a respirar
soltando dentro amarras à deriva
que me abrem braços noutro mar
Vou procurar rumos só meus
sem sentir mais nada
só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
O sol arde no branco das paredes
e o calor vai ficando para trás
já morreu dentro de mem o punho negro
de garras que apertavam sem matar
Sem medo de navegar enfim a sós
sem medo do que se vê na escuridão
corro atrás das chamas leves e furtivas
sem sentir mais nada
Só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
Corro atrás de ventos incontidos
sem ver mais ninguém
sem sentir mais nada
Só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
1 236
1
Augusto dos Anjos
Ave Libertas
Ao clarão irial da madrugada,
Da liberdade ao toque alvissareiro,
Banhou-se o coração do Brasileiro
Num eflúvio de luz auroreada.
É que baqueia a vida escravizada!
Já se ouvem os clangores do pregoeiro,
Como um Tritão, levando ao mundo inteiro
Da República a nova sublimada.
E ali, do despotismo entre os escombros,
Rola um drama que a Pátria exalça e doura
Numa auréola de paz imorredoura,
A República rola-lhe nos ombros;
Enquanto fora na trevosa agrura
Sucumbe o servilismo, e, esplendorosa,
A Liberdade assoma majestosa,
- Estrela d'Alva imaculada e pura!
É livre a Pátria outrora opressa e exangue!
Esse labéu que mancha a glória pública,
Que apouca o triunfo e que se chama sangue,
Manchar não pôde as aras da República.
Não! Que esse ideal puro, risonho,
Há de transpor sereno os penetrais
Da Pátria, e há de elevar-se neste sonho
Ao topo azul das Glórias Imortais!
Esplende, pois, oh! Redentora d'alma,
Oh! Liberdade, essa bendita e branca
Luz que os negrores da opressão espanca,
Essa luz etereal bendita e calma.
Vós, oh Pátria, fazei que destes brilhos,
Caia do Santuário lá da História,
Fulgente do valor da vossa glória,
A Bênção do valor dos vossos filhos!
Da liberdade ao toque alvissareiro,
Banhou-se o coração do Brasileiro
Num eflúvio de luz auroreada.
É que baqueia a vida escravizada!
Já se ouvem os clangores do pregoeiro,
Como um Tritão, levando ao mundo inteiro
Da República a nova sublimada.
E ali, do despotismo entre os escombros,
Rola um drama que a Pátria exalça e doura
Numa auréola de paz imorredoura,
A República rola-lhe nos ombros;
Enquanto fora na trevosa agrura
Sucumbe o servilismo, e, esplendorosa,
A Liberdade assoma majestosa,
- Estrela d'Alva imaculada e pura!
É livre a Pátria outrora opressa e exangue!
Esse labéu que mancha a glória pública,
Que apouca o triunfo e que se chama sangue,
Manchar não pôde as aras da República.
Não! Que esse ideal puro, risonho,
Há de transpor sereno os penetrais
Da Pátria, e há de elevar-se neste sonho
Ao topo azul das Glórias Imortais!
Esplende, pois, oh! Redentora d'alma,
Oh! Liberdade, essa bendita e branca
Luz que os negrores da opressão espanca,
Essa luz etereal bendita e calma.
Vós, oh Pátria, fazei que destes brilhos,
Caia do Santuário lá da História,
Fulgente do valor da vossa glória,
A Bênção do valor dos vossos filhos!
2 185
1
Bocage
Sanhudo, inexorável Despotismo
"Sanhudo, inexorável Despotismo
Monstro que em pranto, em sangue a fúria cevas,
Que em mil quadros horríficos te enlevas,
Obra da Iniquidade e do Ateísmo:
Assanhas o danado Fanatismo,
Porque te escore o trono onde te enlevas;
Por que o sol da Verdade envolva em trevas
E sepulte a Razão num denso abismo.
Da sagrada Virtude o colo pisas,
E aos satélites vis da prepotência
De crimes infernais o plano gizas,
Mas, apesar da bárbara insolência,
Reinas só no ext'rior, não tiranizas
Do livre coração a independência."
Monstro que em pranto, em sangue a fúria cevas,
Que em mil quadros horríficos te enlevas,
Obra da Iniquidade e do Ateísmo:
Assanhas o danado Fanatismo,
Porque te escore o trono onde te enlevas;
Por que o sol da Verdade envolva em trevas
E sepulte a Razão num denso abismo.
Da sagrada Virtude o colo pisas,
E aos satélites vis da prepotência
De crimes infernais o plano gizas,
Mas, apesar da bárbara insolência,
Reinas só no ext'rior, não tiranizas
Do livre coração a independência."
1 977
1
Roberto Juarroz
Poema 55, quinta poesia vertical
Um amor mais além do amor
Por cima do rito do vínculo
Mais além do jogo sinistro
Da solidão e a companhia
Um amor que não necessite regresso
Porém tampouco partida
Um amor não submetido
As chamas de ir e de voltar
De estar despertos ou dormidos
De chamar ou calar
Um amor para estar juntos
Ou para não está-lo
Porém também para todas as posições
Intermedias
Um amor como abrir os olhos
E talvez também como fechá-los.
Por cima do rito do vínculo
Mais além do jogo sinistro
Da solidão e a companhia
Um amor que não necessite regresso
Porém tampouco partida
Um amor não submetido
As chamas de ir e de voltar
De estar despertos ou dormidos
De chamar ou calar
Um amor para estar juntos
Ou para não está-lo
Porém também para todas as posições
Intermedias
Um amor como abrir os olhos
E talvez também como fechá-los.
1 480
1
Virgínia Schall
Evocação feminina
(Dedico este poema às poetas Bárbara Heliodora, Cecília Meireles,
Henriqueta Lisboa (in memoria) e especialmente à poeta e amiga
Stella Leonardos, através das quais evoco todas as mulheres
poetas de todos os tempos, cujas vozes estiveram caladas por tantos
séculos.)
Minha voz
rasga véus
cortinas
de dentro
de sempre
desfaz penumbras
e acorda
Bárbaras, Cecílias, Stellas
Henriquetas, Heliodoras
E suas vozes
em minhas palavras
alteiam
celebram encontros
de amores tantos
salpicam sândalos
no ar.
Sagas passadas
chagas em sangue
vertem
e vibram
amantes perenes
somos todas
onipresentes
Minhas mãos
tão femininas
mãos de mulher
madura, menina
sonham
acariciam ternas
lúcidas lembranças
pedaços de dias
franjas de ausências
melancolias
Em suas palmas
conchas
de lágrimas oceânicas
verdejam prantos
horas molhadas
de sofrimento,
surdas, caladas.
O silêncio da solidão
é memória
reverbera
fantasias, ilusões,
onde desaguar
como abraçar
tamanha paixão?
Mãos entrelaçadas
tecem séculos
em teia
de fios farpados
prisão de anjos
eternizados
Somos etéreas
flores fugazes
pirilampos da vida
pela vida
alinhavadas
Assim evoco
Bárbara, Cecília, Stella
Henriqueta, Heliodora
cantemos juntas
à nossa felicidade
brindemos uníssonas
à nossa liberdade!
Henriqueta Lisboa (in memoria) e especialmente à poeta e amiga
Stella Leonardos, através das quais evoco todas as mulheres
poetas de todos os tempos, cujas vozes estiveram caladas por tantos
séculos.)
Minha voz
rasga véus
cortinas
de dentro
de sempre
desfaz penumbras
e acorda
Bárbaras, Cecílias, Stellas
Henriquetas, Heliodoras
E suas vozes
em minhas palavras
alteiam
celebram encontros
de amores tantos
salpicam sândalos
no ar.
Sagas passadas
chagas em sangue
vertem
e vibram
amantes perenes
somos todas
onipresentes
Minhas mãos
tão femininas
mãos de mulher
madura, menina
sonham
acariciam ternas
lúcidas lembranças
pedaços de dias
franjas de ausências
melancolias
Em suas palmas
conchas
de lágrimas oceânicas
verdejam prantos
horas molhadas
de sofrimento,
surdas, caladas.
O silêncio da solidão
é memória
reverbera
fantasias, ilusões,
onde desaguar
como abraçar
tamanha paixão?
Mãos entrelaçadas
tecem séculos
em teia
de fios farpados
prisão de anjos
eternizados
Somos etéreas
flores fugazes
pirilampos da vida
pela vida
alinhavadas
Assim evoco
Bárbara, Cecília, Stella
Henriqueta, Heliodora
cantemos juntas
à nossa felicidade
brindemos uníssonas
à nossa liberdade!
977
1
Ana C. Pozza
Profissão: Mulher
Do lar?!
Só se for dinheiro
Recheando a minha carteira!
Eu sou mulher!
Mulher por inteiro.
Mulher inteira.
Prefiro ser
Louca,
Des-va-i-ra-da
A ser
Isaura,
Mulher escravizada!
Só se for dinheiro
Recheando a minha carteira!
Eu sou mulher!
Mulher por inteiro.
Mulher inteira.
Prefiro ser
Louca,
Des-va-i-ra-da
A ser
Isaura,
Mulher escravizada!
975
1
Pedro Tierra
A Hora dos Ferreiros
Quando
o sol ferir
com punhais de fogo
e forja
a exata hora dos ferreiros,
varrei o pó da oficina
e a mansidão dos terreiros,
libertai a alma dos bronzes
e dos meninos
desatada em som
e nessa aguda solidão
que em ondas se apazigua
ponta de espinho antigo -
na carne
do coração.
Convocai enxadas,
foices, forcados, facões,
grades, cutelos, machados,
afeitos ao rigor da terra
e da procura
e, por fim, as mãos,
resignadas,
multiplicadas no cereal maduro.
Mãos talhadas em silêncio
e ternura,
que plantam a cada dia
sementes de liberdade
e colhem ao fim da tarde
celeiros de escravidão.
Esgotou-se o tempo de semear
e inventou-se a hora do martelo.
Retorcei na bigorna outros anelos
e a força incandescente deste mar
de ferros levantados.
Esgotou-se o tempo de consentir
e pôs-se a andar
a multidão dos saqueados
contra os cercados do medo.
Homens de terra
e relâmpago!
Convertei em fuzis vossos arados,
armai com farpas e pontas
a paz de vossas espigas.
o sol ferir
com punhais de fogo
e forja
a exata hora dos ferreiros,
varrei o pó da oficina
e a mansidão dos terreiros,
libertai a alma dos bronzes
e dos meninos
desatada em som
e nessa aguda solidão
que em ondas se apazigua
ponta de espinho antigo -
na carne
do coração.
Convocai enxadas,
foices, forcados, facões,
grades, cutelos, machados,
afeitos ao rigor da terra
e da procura
e, por fim, as mãos,
resignadas,
multiplicadas no cereal maduro.
Mãos talhadas em silêncio
e ternura,
que plantam a cada dia
sementes de liberdade
e colhem ao fim da tarde
celeiros de escravidão.
Esgotou-se o tempo de semear
e inventou-se a hora do martelo.
Retorcei na bigorna outros anelos
e a força incandescente deste mar
de ferros levantados.
Esgotou-se o tempo de consentir
e pôs-se a andar
a multidão dos saqueados
contra os cercados do medo.
Homens de terra
e relâmpago!
Convertei em fuzis vossos arados,
armai com farpas e pontas
a paz de vossas espigas.
1 896
1
Nauro Machado
Geografia Humana
Há em mim,
carne minha, os quatro cantos da liberdade.
No meu assoalho amanhece o sol de todas as direções.
Há em mim o rumo da raiz do multiplicado vento
Soprando aonde quer, porque quer a liberdade.
No oco do espaço o casario sua ao sol do tempo.
parto-me em trens, olho-me em fontes, divido-me em marmitas,
porque há em mim, carne minha, os quatro cantos da liberdade.
e até no último deles, o mais silencioso e esquivo deles,
o ainda virgem, o alheio a bispos e batismos de párocos,
agachado como um animal e útil como uma bilha no meio da sala,
encontrarei ainda o início de uma outra liberdade.
carne minha, os quatro cantos da liberdade.
No meu assoalho amanhece o sol de todas as direções.
Há em mim o rumo da raiz do multiplicado vento
Soprando aonde quer, porque quer a liberdade.
No oco do espaço o casario sua ao sol do tempo.
parto-me em trens, olho-me em fontes, divido-me em marmitas,
porque há em mim, carne minha, os quatro cantos da liberdade.
e até no último deles, o mais silencioso e esquivo deles,
o ainda virgem, o alheio a bispos e batismos de párocos,
agachado como um animal e útil como uma bilha no meio da sala,
encontrarei ainda o início de uma outra liberdade.
1 897
1
Susana Pestana
Fascinação
Entre os becos da tua vida
Descanso na tua esquina
somos dois distraídos
acumulados nas águas mornas
Porque me fascinas!
Numa organização aflita
Dispo-te entre ramos debotados
nas luzes de um sol traidor
Lentamente assustador
Aonde me fascinas!
Quero-te à beira de uma árvore
Num mar que não me pertence
A tua ausência desliza
como pingos de uma água visitada
Como me fascinas!
Vi-te respirar num rochedo vivo
O teu olhar resultou num suspiro demorado
Estás nas metades abertas
Num esconderijo de necessidades
E me fascinas, liberdade.
Descanso na tua esquina
somos dois distraídos
acumulados nas águas mornas
Porque me fascinas!
Numa organização aflita
Dispo-te entre ramos debotados
nas luzes de um sol traidor
Lentamente assustador
Aonde me fascinas!
Quero-te à beira de uma árvore
Num mar que não me pertence
A tua ausência desliza
como pingos de uma água visitada
Como me fascinas!
Vi-te respirar num rochedo vivo
O teu olhar resultou num suspiro demorado
Estás nas metades abertas
Num esconderijo de necessidades
E me fascinas, liberdade.
937
1
Susana Pestana
Huila
África
adormecida
nas pétalas capturadas da vida.
Sonho com o vermelho da terra
Nas cores de um planalto esquecido.
Mãe minha, mostra-me paz
nunca tocada e muita vez prometida.
Afasta essa mão branca
deixa-me dormir
nesta noite violada.
adormecida
nas pétalas capturadas da vida.
Sonho com o vermelho da terra
Nas cores de um planalto esquecido.
Mãe minha, mostra-me paz
nunca tocada e muita vez prometida.
Afasta essa mão branca
deixa-me dormir
nesta noite violada.
974
1
Pedro Xisto
Haicai
ao lado da lua
neste pinheiro vetusto
uma ave noturna
abro após as sombras
de par em par as vidraças:
alçam vôo as pombas
neste pinheiro vetusto
uma ave noturna
abro após as sombras
de par em par as vidraças:
alçam vôo as pombas
3 069
1
Valéria Lamego
A musa contra o ditador
A musa contra o ditador
Nos autoritários anos 30, a poeta lutou na imprensa pela democracia
e contra o ensino religioso
especial para a Folha
"Cecília, és tão forte e tão frágil.
Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta." Manuel Bandeira (em "Improviso", no
livro Belo Belo) Cecília Meireles na década de 30 rompeu
com todos os tabus de uma sociedade ao defender uma política menos
casuísta e uma educação moderna.
Por meio de seus artigos sobre política, educação
e cultura, Cecília nos oferece uma outra face daquela que foi considerada
a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira.
Sinônimo de ilha e isolamento (para Sérgio Milliet), a escritora
cuja poesia não estava "inserida no drama coletivo de sua geração"
(para o crítico Mário da Silva Brito), em sua trajetória
intelectual a Cecília Meireles que deixou suas marcas foi uma defensora
da idéia universal de democracia, num período em que a incoerência
e as paixões pelo autoritarismo arrastaram jovens intelectuais.
Coleção de inimigos
A estréia de Cecília Meireles na redação de
um jornal se dá em 30, década marcada pela transição
de duas grandes guerras e, no Brasil, pela revolução de outubro.
Na imprensa pipocavam jornais de adesão ao novo regime. Assim surgiu
o "Diário de Notícias", em junho de 1930.
Mais do que um simples matutino, o jornal de Orlando Dantas e Nóbrega
da Cunha trazia uma seção diária dedicada à
educação e à política, a "Página de
Educação", cuja diretora era então a jovem poeta.
Jornalista liberal, partidária incansável das liberdades
individuais, em seus 960 artigos publicados na "Página", entre junho
de 1930 e janeiro de 1933, lutou pela instauração de uma
república democrática, bem diferente daquela regida pelo
populismo autoritário do regime que se descortinava após
a revolução.
Crítica ferrenha das atitudes de Vargas, a quem se referia como
"Sr. ditador", Cecília realizava em sua "Página" uma espécie
de jornalismo "enragé". Ao sustentar uma idéia de nação
menos ufanista, colecionou inimigos e desafetos de suas convicções
sobre liberdade, dentre eles o ministro da Educação Francisco
Campos e o crítico católico Alceu de Amoroso Lima, que anos
depois em seu livro de memórias, "Companheiros de Viagem", de 1971,
reconheceu na poeta "uma grande figura feminina do modernismo".
A truculência ideológica do período nos encarrega de
mostrar, no entanto, que as perseguições por motivos ideológicos,
políticos e, por que não, estéticos, acompanharam
a estreante Cecília ao longo dos anos 30. E parecem acompanhá-la
até os dias de hoje, devido a leitura equivocada que se faz de sua
obra e de um desconhecimento total sobre sua passagem pela política
nos anos seguintes à Revolução de 30 e, mais tarde,
durante o período do Estado Novo.
Partidária dos princípios da Escola Nova, a escola moderna
do filósofo norte-americano John Dewey, junto com Anísio
Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho, Cecília assistiu
à ascensão de um estado autoritário e de uma Igreja
Católica que tentava recuperar seu poder após 40 anos de
uma república laica, com ares positivistas.
A Revolução de 30 traz para a Igreja Católica a possibilidade
de reaver o poder _embora sua popularidade fosse incontestável.
Em 1931, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida é consagrada padroeira
do Brasil em grande festejo popular. E em 12 de outubro, também
de 1931, a título de comemoração de um ano de revolução,
é inaugurada, no Rio de Janeiro, Distrito Federal, a imagem mor
da fidelidade católica de um regime: o Cristo Redentor.
O ataque ao ministro
A inclusão do ensino religioso nas escolas públicas, em 1931,
por um decreto de Vargas, despertou a poeta e seus companheiros para a
verdadeira face da Revolução de 30. Um movimento, diga-se
de passagem, totalmente apoiado pelo grupo em seus primórdios.
Na batalha contra o decreto do ensino religioso, Francisco Campos foi figura
central das críticas da poeta.
"Os senhores viram o caso do sr. Francisco Campos", escreve no artigo "A
Hora do Espetáculo", "veio precedido de uma fama extraordinária
de menino prodígio. A cada passo era citada a reforma de ensino
mineira, que nós sempre aplaudimos com restrições,
como a obra glorificada do sábio de Indaiá. A reforma já
trazia no seu bojo agourento, o fantasma do clericalismo. Que foi que fez
como ministro da Educação? Anunciou uma reforma que apareceu
aos pedaços, confusa, como arrancada a ferros do seu cérebro
reputado genial. Todos os jornais protestaram, protestaram os interessados,
um por um, e o ministro ficou indo e vindo entre o Rio e Minas, como se
não tivesse a responsabilidade formidável do cargo que lhe
deram e com o qual, infelizmente, não se contentou. E ainda arranjou
o decreto sobre o ensino religioso, como a última e desgraçada
manobra para se inutilizar como ministro da Educação...".
A laicidade da escola, bem como a co-educação dos sexos e
a manutenção de uma escola pública livre dos arbítrios
da família e da igreja eram as principais bandeiras de Cecília
na "Página". Princípios esses encarados com verdadeira ojeriza
pelo porta-voz da Igreja Católica, o crítico Alceu Amoroso
Lima. No artigo "Absolutismo Pedagógico", de março de 1932,
sobre o Manifesto da Educação lançado pelo grupo da
Escola Nova, Alceu afirma: "Cinco são os meios que recomenda a nossa
NEP (1) para a obtenção dos seus dois filhos _o biologismo
e o estadismo pedagógicos: ruptura do quadro familiar, laicidade,
gratuidade, obrigatoriedade e co-educação".
A campanha de Meireles, na imprensa, não se limitava a defender
o programa liberal da Escola Nova. Seguida por um desejo irrefreável
de combate aos medalhões e à politicagem reinante, Cecília,
sem dúvida, se fazia ouvir no Palácio do Catete. "O sr. Francisco
Campos", dizia ela, "parece que resolveu dar cada dia prova mais convincente
de que não entende mesmo nada, absolutamente, de pedagogia. Que
a sua pedagogia é uma pedagogia de ministro, isto é, politicagem...".
Qualquer atitude sectária valia para a poeta-jornalista um artigo
reflexivo. E assim o fez quando Manuel Bandeira, convidado a participar
do júri do Salão de Belas-Artes de 1931, recebeu severas
críticas dos pintores acadêmicos. "Há uma coisa que
parece ter desagradado: a inclusão de um poeta numa comissão
de belas-artes. Talvez, se fosse um poeta parnasiano, acadêmico,
cheio de lugares-comuns e de preocupações pronominais, o
descontentamento fosse menor. Trata-se, porém, de Manuel Bandeira."
Cansada da política
A "Página de Educação" encerra para Cecília
em janeiro de 1933, quando um cansaço tremendo com as manobras políticas
do governo e o estado da educação no Rio de Janeiro a tomam
por completo. A poeta chega mesmo a manifestar em sua correspondência
o "horror" que lhe causava o jornalismo em sua vida.
Entretanto, logo após sua despedida da "Página de Educação",
Cecília Meireles volta aos jornais. Desta vez para o carioca "A
Nação", no qual foi contratada com um senão: poderia
escrever sobre tudo, menos sobre política!
Durante toda a sua vida a poeta se dedica ao jornalismo. Na década
de 40 escreve para "A Manhã" uma coluna semanal s
Nos autoritários anos 30, a poeta lutou na imprensa pela democracia
e contra o ensino religioso
especial para a Folha
"Cecília, és tão forte e tão frágil.
Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta." Manuel Bandeira (em "Improviso", no
livro Belo Belo) Cecília Meireles na década de 30 rompeu
com todos os tabus de uma sociedade ao defender uma política menos
casuísta e uma educação moderna.
Por meio de seus artigos sobre política, educação
e cultura, Cecília nos oferece uma outra face daquela que foi considerada
a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira.
Sinônimo de ilha e isolamento (para Sérgio Milliet), a escritora
cuja poesia não estava "inserida no drama coletivo de sua geração"
(para o crítico Mário da Silva Brito), em sua trajetória
intelectual a Cecília Meireles que deixou suas marcas foi uma defensora
da idéia universal de democracia, num período em que a incoerência
e as paixões pelo autoritarismo arrastaram jovens intelectuais.
Coleção de inimigos
A estréia de Cecília Meireles na redação de
um jornal se dá em 30, década marcada pela transição
de duas grandes guerras e, no Brasil, pela revolução de outubro.
Na imprensa pipocavam jornais de adesão ao novo regime. Assim surgiu
o "Diário de Notícias", em junho de 1930.
Mais do que um simples matutino, o jornal de Orlando Dantas e Nóbrega
da Cunha trazia uma seção diária dedicada à
educação e à política, a "Página de
Educação", cuja diretora era então a jovem poeta.
Jornalista liberal, partidária incansável das liberdades
individuais, em seus 960 artigos publicados na "Página", entre junho
de 1930 e janeiro de 1933, lutou pela instauração de uma
república democrática, bem diferente daquela regida pelo
populismo autoritário do regime que se descortinava após
a revolução.
Crítica ferrenha das atitudes de Vargas, a quem se referia como
"Sr. ditador", Cecília realizava em sua "Página" uma espécie
de jornalismo "enragé". Ao sustentar uma idéia de nação
menos ufanista, colecionou inimigos e desafetos de suas convicções
sobre liberdade, dentre eles o ministro da Educação Francisco
Campos e o crítico católico Alceu de Amoroso Lima, que anos
depois em seu livro de memórias, "Companheiros de Viagem", de 1971,
reconheceu na poeta "uma grande figura feminina do modernismo".
A truculência ideológica do período nos encarrega de
mostrar, no entanto, que as perseguições por motivos ideológicos,
políticos e, por que não, estéticos, acompanharam
a estreante Cecília ao longo dos anos 30. E parecem acompanhá-la
até os dias de hoje, devido a leitura equivocada que se faz de sua
obra e de um desconhecimento total sobre sua passagem pela política
nos anos seguintes à Revolução de 30 e, mais tarde,
durante o período do Estado Novo.
Partidária dos princípios da Escola Nova, a escola moderna
do filósofo norte-americano John Dewey, junto com Anísio
Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho, Cecília assistiu
à ascensão de um estado autoritário e de uma Igreja
Católica que tentava recuperar seu poder após 40 anos de
uma república laica, com ares positivistas.
A Revolução de 30 traz para a Igreja Católica a possibilidade
de reaver o poder _embora sua popularidade fosse incontestável.
Em 1931, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida é consagrada padroeira
do Brasil em grande festejo popular. E em 12 de outubro, também
de 1931, a título de comemoração de um ano de revolução,
é inaugurada, no Rio de Janeiro, Distrito Federal, a imagem mor
da fidelidade católica de um regime: o Cristo Redentor.
O ataque ao ministro
A inclusão do ensino religioso nas escolas públicas, em 1931,
por um decreto de Vargas, despertou a poeta e seus companheiros para a
verdadeira face da Revolução de 30. Um movimento, diga-se
de passagem, totalmente apoiado pelo grupo em seus primórdios.
Na batalha contra o decreto do ensino religioso, Francisco Campos foi figura
central das críticas da poeta.
"Os senhores viram o caso do sr. Francisco Campos", escreve no artigo "A
Hora do Espetáculo", "veio precedido de uma fama extraordinária
de menino prodígio. A cada passo era citada a reforma de ensino
mineira, que nós sempre aplaudimos com restrições,
como a obra glorificada do sábio de Indaiá. A reforma já
trazia no seu bojo agourento, o fantasma do clericalismo. Que foi que fez
como ministro da Educação? Anunciou uma reforma que apareceu
aos pedaços, confusa, como arrancada a ferros do seu cérebro
reputado genial. Todos os jornais protestaram, protestaram os interessados,
um por um, e o ministro ficou indo e vindo entre o Rio e Minas, como se
não tivesse a responsabilidade formidável do cargo que lhe
deram e com o qual, infelizmente, não se contentou. E ainda arranjou
o decreto sobre o ensino religioso, como a última e desgraçada
manobra para se inutilizar como ministro da Educação...".
A laicidade da escola, bem como a co-educação dos sexos e
a manutenção de uma escola pública livre dos arbítrios
da família e da igreja eram as principais bandeiras de Cecília
na "Página". Princípios esses encarados com verdadeira ojeriza
pelo porta-voz da Igreja Católica, o crítico Alceu Amoroso
Lima. No artigo "Absolutismo Pedagógico", de março de 1932,
sobre o Manifesto da Educação lançado pelo grupo da
Escola Nova, Alceu afirma: "Cinco são os meios que recomenda a nossa
NEP (1) para a obtenção dos seus dois filhos _o biologismo
e o estadismo pedagógicos: ruptura do quadro familiar, laicidade,
gratuidade, obrigatoriedade e co-educação".
A campanha de Meireles, na imprensa, não se limitava a defender
o programa liberal da Escola Nova. Seguida por um desejo irrefreável
de combate aos medalhões e à politicagem reinante, Cecília,
sem dúvida, se fazia ouvir no Palácio do Catete. "O sr. Francisco
Campos", dizia ela, "parece que resolveu dar cada dia prova mais convincente
de que não entende mesmo nada, absolutamente, de pedagogia. Que
a sua pedagogia é uma pedagogia de ministro, isto é, politicagem...".
Qualquer atitude sectária valia para a poeta-jornalista um artigo
reflexivo. E assim o fez quando Manuel Bandeira, convidado a participar
do júri do Salão de Belas-Artes de 1931, recebeu severas
críticas dos pintores acadêmicos. "Há uma coisa que
parece ter desagradado: a inclusão de um poeta numa comissão
de belas-artes. Talvez, se fosse um poeta parnasiano, acadêmico,
cheio de lugares-comuns e de preocupações pronominais, o
descontentamento fosse menor. Trata-se, porém, de Manuel Bandeira."
Cansada da política
A "Página de Educação" encerra para Cecília
em janeiro de 1933, quando um cansaço tremendo com as manobras políticas
do governo e o estado da educação no Rio de Janeiro a tomam
por completo. A poeta chega mesmo a manifestar em sua correspondência
o "horror" que lhe causava o jornalismo em sua vida.
Entretanto, logo após sua despedida da "Página de Educação",
Cecília Meireles volta aos jornais. Desta vez para o carioca "A
Nação", no qual foi contratada com um senão: poderia
escrever sobre tudo, menos sobre política!
Durante toda a sua vida a poeta se dedica ao jornalismo. Na década
de 40 escreve para "A Manhã" uma coluna semanal s
774
1
Renato Russo
A Fonte
O que há de errado comigo ?
Não consigo encontrar abrigo
Meu país é campo inimigo
E você que finge que vê, mas não vê
Lave suas mãos que é à sua porta que irão bater
Mas antes você verá seus pequenos filhos
Trazendo novidades
Quantas crianças foram mortas dessa vez ?
Não faça com os outros o que você não quer
Que seja feito com você
Você finge não ver
E isso dá câncer
Não sei mais do que sou capaz
Esperança, teus lençóis têm cheiro de doença
E veja que da fonte
Sou os quil"metros adiante
Celebro todo dia
Minha vida e meus amigos
Eu acredito em mim
E continuo limpo
Você acha que sabe
Mas você não vê que a maldade é prejuízo
O que há de errado comigo ?
Eu não sei de nada e continuo limpo
Do lado do cipreste branco
À esquerda da entrada do inferno
Está a fonte do esquecimento
Vou mais além, não bebo dessa água
Chego ao lago da memória
Que tem água pura e fresca
E digo aos guardiões da entrada:
- Sou filho da Terra e do Céu
Dai-me de beber, que tenho uma sede sem fim
Olhe nos meus olhos, sou o Homem-Tocha
Me tira essa vergonha
Me liberta dessa culpa
Me arranca esse ódio
Me livra desse medo
Olhe nos meus olhos, sou o Homem-Tocha
E esta é uma canção de amor
E esta é uma canção de amor
E esta é uma canção de amor
Não consigo encontrar abrigo
Meu país é campo inimigo
E você que finge que vê, mas não vê
Lave suas mãos que é à sua porta que irão bater
Mas antes você verá seus pequenos filhos
Trazendo novidades
Quantas crianças foram mortas dessa vez ?
Não faça com os outros o que você não quer
Que seja feito com você
Você finge não ver
E isso dá câncer
Não sei mais do que sou capaz
Esperança, teus lençóis têm cheiro de doença
E veja que da fonte
Sou os quil"metros adiante
Celebro todo dia
Minha vida e meus amigos
Eu acredito em mim
E continuo limpo
Você acha que sabe
Mas você não vê que a maldade é prejuízo
O que há de errado comigo ?
Eu não sei de nada e continuo limpo
Do lado do cipreste branco
À esquerda da entrada do inferno
Está a fonte do esquecimento
Vou mais além, não bebo dessa água
Chego ao lago da memória
Que tem água pura e fresca
E digo aos guardiões da entrada:
- Sou filho da Terra e do Céu
Dai-me de beber, que tenho uma sede sem fim
Olhe nos meus olhos, sou o Homem-Tocha
Me tira essa vergonha
Me liberta dessa culpa
Me arranca esse ódio
Me livra desse medo
Olhe nos meus olhos, sou o Homem-Tocha
E esta é uma canção de amor
E esta é uma canção de amor
E esta é uma canção de amor
1 952
1
Newton de Freitas
Amo a Luz
Deixa! que a luz invada o meu quarto todinho.
Deixai! Nem que a chuva inunde este campo em redor;
Nem que o vento frio açoite o meu corpo cansado;
Nem que a luz me beije demoradamente.
Eu amo a luz que é ósculo de Deus;
A luz, que é ciência e liberdade!
Sorrio à noite quando um raio de luar
Vem enfeitar o meu sono,
intruso que salta pela minha janela
Porque sabe, talvez, que eu tenho a alma grande
E adoro as ilusões abençoadas.
Quando eu estiver morrendo, direi como Goethe
"Mais luz", e os que me assistirem hão de abrir as janelas
Senão eu os amaldiçoarei no derradeiro instante.
Mas quem sabe como será o meu momento final?
Quem sabe se haverá sol na minha última hora?
Deixai que a luz invada o meu quarto todinho;
A luz que é o beijo de Deus a tocar-me nos olhos,
A luz que traz a poesia para os meus sonhos,
Deixai que a luz espante esta minha tristeza.
Deixai! Nem que a chuva inunde este campo em redor;
Nem que o vento frio açoite o meu corpo cansado;
Nem que a luz me beije demoradamente.
Eu amo a luz que é ósculo de Deus;
A luz, que é ciência e liberdade!
Sorrio à noite quando um raio de luar
Vem enfeitar o meu sono,
intruso que salta pela minha janela
Porque sabe, talvez, que eu tenho a alma grande
E adoro as ilusões abençoadas.
Quando eu estiver morrendo, direi como Goethe
"Mais luz", e os que me assistirem hão de abrir as janelas
Senão eu os amaldiçoarei no derradeiro instante.
Mas quem sabe como será o meu momento final?
Quem sabe se haverá sol na minha última hora?
Deixai que a luz invada o meu quarto todinho;
A luz que é o beijo de Deus a tocar-me nos olhos,
A luz que traz a poesia para os meus sonhos,
Deixai que a luz espante esta minha tristeza.
877
1
Mendes de Carvalho
S Romão
S. Romão é a terra e o mar
T. o vento o luar a noite total e o sol.
Em S. Romão cada um é rei de si mesmo
e lá os reis a valer não têm qualquer realidade
Em S. Romão podemos ficar ao sol
podemos perder-nos dentro da noite
podemos não fazer coisíssima nenhuma
podemos erguer um hino à preguiça
podemos ficar budamente de mãos na barriga
podemos ter poesia que não venha nos livros
podemos ter um cão nosso conhecido
sem nunca nos ter sido apresentado
um cão sem coleira que ladra à lua
livremente cão esquecido do fisco.
O nome deste lugar anfíbio é fictício
para que não o descubram os turistas
que andam sempre com o nariz no ar
e não seja enviado em cartaz para o estrangeiro
e nem sequer o descubra o Manuel Bandeira
que é amigo do rei de Pasárgada
e este não sabe andar sem comitiva
para que nenhum americano vá construir uma pousada
para week-end vinícola.
Em S. Romão não há pintores paisagistas
nem hoteleiros
nem urbanistas.
Em S. Romão ninguém pensa salvar o mundo
o que só acontece às pessoas perdidas de todo
e aos escritores neorealísticamente locais
que conhecem todas as misérias por fora.
S. Romão não é porto de abrigo
Desde já aviso à navegação.
Não há faroleiro os rochedos são perigosos
o mar sem distância é aventura
promessa de peixe
certeza de fome.
T. o vento o luar a noite total e o sol.
Em S. Romão cada um é rei de si mesmo
e lá os reis a valer não têm qualquer realidade
Em S. Romão podemos ficar ao sol
podemos perder-nos dentro da noite
podemos não fazer coisíssima nenhuma
podemos erguer um hino à preguiça
podemos ficar budamente de mãos na barriga
podemos ter poesia que não venha nos livros
podemos ter um cão nosso conhecido
sem nunca nos ter sido apresentado
um cão sem coleira que ladra à lua
livremente cão esquecido do fisco.
O nome deste lugar anfíbio é fictício
para que não o descubram os turistas
que andam sempre com o nariz no ar
e não seja enviado em cartaz para o estrangeiro
e nem sequer o descubra o Manuel Bandeira
que é amigo do rei de Pasárgada
e este não sabe andar sem comitiva
para que nenhum americano vá construir uma pousada
para week-end vinícola.
Em S. Romão não há pintores paisagistas
nem hoteleiros
nem urbanistas.
Em S. Romão ninguém pensa salvar o mundo
o que só acontece às pessoas perdidas de todo
e aos escritores neorealísticamente locais
que conhecem todas as misérias por fora.
S. Romão não é porto de abrigo
Desde já aviso à navegação.
Não há faroleiro os rochedos são perigosos
o mar sem distância é aventura
promessa de peixe
certeza de fome.
989
1
Mário Donizete Massari
Dimensão das horas
Dimensão das horas
nos caminhos do homem
fogo nas retinas
paixões, fadiga . . .
"a vida tragada e
consumida em
memoráveis porres
de melancolia . . ."
cinzas na avenida
e o homem caminha
Flutua no ar
qual bêbado no seu
mundo
por que não dizer lindo,
pois qualquer mundo é lindo
quando se é livre e
não lhe cobram por isso.
E a vida se molda
na dimensão das horas
vadias . . .
nos caminhos do homem
fogo nas retinas
paixões, fadiga . . .
"a vida tragada e
consumida em
memoráveis porres
de melancolia . . ."
cinzas na avenida
e o homem caminha
Flutua no ar
qual bêbado no seu
mundo
por que não dizer lindo,
pois qualquer mundo é lindo
quando se é livre e
não lhe cobram por isso.
E a vida se molda
na dimensão das horas
vadias . . .
964
1
Valéry Larbaud
Helenismo
Não sei por onde vou, por onde passo.
Caminho pelo tempo como um cego
E aquilo que mais quero já renego
Num ceticismo cheio de cansaço.
Sou livre: não mantenho nenhum laço
Além do que me prende ao mesmo ego.
E não tem porto o mar onde navego
Seguindo rotas que por sonhos traço.
Nem sei se é morte a vida ou vida a morte:
A realidade é um vinho muito forte
Que me entontece e deixa adormecido.
Por isso eu amo a Lua e o seu perfume
E sigo sendo o tal bípede implume
Que descreveu um grego falecido.
Caminho pelo tempo como um cego
E aquilo que mais quero já renego
Num ceticismo cheio de cansaço.
Sou livre: não mantenho nenhum laço
Além do que me prende ao mesmo ego.
E não tem porto o mar onde navego
Seguindo rotas que por sonhos traço.
Nem sei se é morte a vida ou vida a morte:
A realidade é um vinho muito forte
Que me entontece e deixa adormecido.
Por isso eu amo a Lua e o seu perfume
E sigo sendo o tal bípede implume
Que descreveu um grego falecido.
951
1