Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Paulo Colina
Solitude
Dentro desta noite cúmplice
tudo se funde
em meus ouvidos:
o assobio plano do vento
e as ondas pontuais das vozes
e gargalhadas
no interior dos bares.
Já estive em três deles. E até agora,
nenhuma cadeira me aqueceu direito;
nada do que bebi me caiu bem.
As horas se arrastam ao rés dos edifícios
do centro capital,
alheios à soturna clausura das palavras
dentro de mim.
Pelas ruas,
cada ponto de ônibus
é um cão vadio roendo silêncios.
Meu peito é um vão
por onde toda a cidade transita.
948
Bella Akhmadúlina
Separação
Hoje nos separamos para sempre
e isso faz o mundo transformar-se.
Tudo nele anuncia a traição:
os rios vão se afastando das margens,
as nuvens vão se afastando do céu,
a mão direita olha para a esquerda
e arrogante diz: “Vou embora, adeus!”
Abril não mais prepara o mês de maio,
mês de maio que nunca mais verás,
e as flores se desfolham, feitas pó.
É a derrota do azul para o amarelo!
Já as últimas flores se esturricam,
comprimento e largura não há mais,
o branco, em estertor, já agoniza,
deixando um arco-íris de orfãzinhas.
A natureza afoga em sua tristeza,
a maré baixa sobe pela margem,
calam-se os sons e isso porque nós,
você e eu, pra sempre nos deixamos.
/// tradução de Lauro Machado Coelho, incluída no volume Poesia Soviética (São Paulo: Algol Editora, 2007).
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1 001
Maura Lopes Cançado
permitam-me destruir o livro do Sagan
1
pausa:
permitam-me destruir o livro do Sagan.
É a seda pura que deve nos envolver; ter
música, no momento do beijo.
Inclinada, a rosa lembrará a brisa,
as grades rendadas, o jardim.
Além do mar, outros casais existem.
A noite nos destrói pelas esquinas (repetindo-se
e envelhecendo como almas.
2
Vim do sonho: um monge louco,
olímpico, acordou-me.
Homem de vestes alvas, onde chegará meu braço,
alongando-se, misturando-se às algas:
Sou leve, sílfide talvez, e no voo,
pareço rosa recuada.
Ninguém me salvará
da mentira que sou.
Senhor de vestes sombrias, quantos mundos visitei?
Minh'alma, nua, ela se permuta com a rocha.
Se alguém me procurar,
não pertenço a ninguém.
Senhor, quero um breviário
de contos infantis: carochinha (para ler no pátio
cinzento, prisão da rainha)
Senhor, falo coisas da vida, vim do sonho
ou da loucura?
Senhor, que dor é essa
abrigando meu amor?
3
Fizeram muros altos cinzentos,
esconderam a terra; mas o quadrado azul está presente -
sempre.
Senhora rainha do Egito, dai-me pálpebras pesadas
de mistérios piramidais.
Quantas são? Onde a bola ou sou bola?
Santos coroados cantam, que vestidos rasgados não são
nódoas.
Senhora rainha do Egito, meus versos falam de areia quente,
e faraós, onde Cleópatra dançava,
Por que falar de calor
se vitrais já cintilavam no pátio?
Vidro
é saudade de louco
casado com grades.
4.
Cimento armado e é bezerro de ouro
pedindo pausas.
Esta cidade tem meus olhos,
sabem por que perdi-me?
Quando a cidade cresceu
morei no terceiro andar.
O dia brigou com a luz, eu,
incoerente, juntei-me às palavras,
subindo de elevador
1 079
Henriqueta Lisboa
De súbito cessou a vida
De súbito cessou a vida.
Foram simples palavras breves.
Tudo continuou como estava.
O mesmo teto, o mesmo vento,
o mesmo espaço, os mesmos gestos,
Porém como que eternizados.
Unção, calor, surpresa, risos
tudo eram chapas fotográficas
há muito tempo reveladas.
Todas as cousas tinham sido
e se mantinham sem reserva
numa sucessão automática.
Passos caminhavam no assoalho,
talheres batiam nos dentes,
janelas se abriam, fechavam.
Vinham noites e vinham luas,
madrugadas com sino e chuva.
Sapatos iam na enxurrada.
Meninas chegavam gritando.
Nasciam flores de esmeralda
no asfalto! mas sem esperança.
Jornais prometiam com zelo
em grandes tópicos vermelhos
o fim de uma guerra. Guerra?
Os que não sabiam falavam.
Quem não sentia tinha o pranto.
(O pranto era ainda o recurso
de velhas cousas coniventes.)
Nem o menor sinal de vida.
Tão-só no fundo espelho a face
lívida, a face lívida.
de A face lívida (1945)
Foram simples palavras breves.
Tudo continuou como estava.
O mesmo teto, o mesmo vento,
o mesmo espaço, os mesmos gestos,
Porém como que eternizados.
Unção, calor, surpresa, risos
tudo eram chapas fotográficas
há muito tempo reveladas.
Todas as cousas tinham sido
e se mantinham sem reserva
numa sucessão automática.
Passos caminhavam no assoalho,
talheres batiam nos dentes,
janelas se abriam, fechavam.
Vinham noites e vinham luas,
madrugadas com sino e chuva.
Sapatos iam na enxurrada.
Meninas chegavam gritando.
Nasciam flores de esmeralda
no asfalto! mas sem esperança.
Jornais prometiam com zelo
em grandes tópicos vermelhos
o fim de uma guerra. Guerra?
Os que não sabiam falavam.
Quem não sentia tinha o pranto.
(O pranto era ainda o recurso
de velhas cousas coniventes.)
Nem o menor sinal de vida.
Tão-só no fundo espelho a face
lívida, a face lívida.
de A face lívida (1945)
1 145
Christine Lavant
Eu quero partir com os loucos o pão,
Eu quero partir com os loucos o pão,
migalhas diárias do desespero grande,
também o sino em meio ao peito,
ali onde o pombo aninha-se
e tem seu refúgio minúsculo
no ermo sobre as águas.
Residi por anos como pedra
no chão das coisas.
Eu ouvi, porém, o sino
sussurrar teu segredo
nos peixes com asas.
Hei-de aprender a voar e nadar,
deixar o pedregoso sob as pedras,
aconchegar em madrepérola
a melancolia, elevar aflição, ira.
Minhas asas são mais velhas
que tua paciência, minhas asas
vão à frente da coragem
que tomou sobre os ombros o louco.
Eu quero partir com os loucos o pão,
ali no ermo assustador do pombo,
onde o sino triparte o maior desespero
ao som tríplice do teu nome.
708
Sebastião Alba
A palhota
Espanta não ver nada
que se coma e caçarolas
As aranhas debandaram
não há moscas
até o humor secou
nas espinhas largadas
Vive-se como?
Donde a modeladora energia
que põe a carne?
Ladino um rato
como na infância o quereríamos
rói os bambus a viga
as horas urdem
e um opaco cisco indizível
aduz as proporções laqueia
a quietação à roda.
992
Tchicaya U Tam'si
O sangue ruim (andante)
I
Brota tua canção – Sangue ruim – como viver
o lixo à flor da alma, ser de carne lamento
a atrocidade do sangue flor de estrela, encarniçado
Serpentes na noite silvavam como cobres
Anágua mil sóis ressaca para um canto de órgãos
meu sangue se dispersou pois um solerte amanhã
falará de minha terra tudo como um belo destino
não iremos mais chorar sob o céu gris dos necrotérios
Eu serei a gaivota a morte por falta de sorte
Uma grande forca erguida reposta para as penas
ergue-me alto e confiante com roupas de festa
Chora o infortúnio virá enternecer os diamantes
Teu sangue te espanca, ó meus corações esbaforidos
Eu sou negro filho solar à mão com cantar demente.
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Le mauvais sang (andante)
Tchicaya U Tam´si
I
Pousse ta chanson – Mauvais sang – comment vivre
l’ordure à fleur de l’âme, être a chair regret
l’atrocité du sang fleur d’étoile, nargué
Des serpentes dans la nuit sifflaient comme des cuivres
Cotillon mille soleils ressac pour un chant d’orgues
mon sang s’est disperse car un preux demain
dira sur ma ville tout comme un beau destin
nous n’irons plus pleurer sous le ciel gris des morgues
Je serai la mouette la morte par déveine
Un grand gibet levé remise pour les peines
m’emporte haut et fier en habits festonnés
Pleure le malheur viendra ternir les diamants
Ton sang te matraque, ô mes coeurs époumonés
Je suis noir fils solaire à main le chant demente.
(1955)
893
Henriqueta Lisboa
Não a face dos mortos
Não a face dos mortos.
Nem a face
dos que não coram
aos açoites
da vida.
Porém a face
lívida
dos que resistem
pelo espanto.
Não a face da madrugada
na exaustão
dos soluços.
Mas a face do lago
sem reflexos
quando as águas
entranha.
Não a face da estátua
fria de lua e zéfiro.
Mas a face do círio
que se consome
lívida
no ardor.
de A face lívida (1945)
Nem a face
dos que não coram
aos açoites
da vida.
Porém a face
lívida
dos que resistem
pelo espanto.
Não a face da madrugada
na exaustão
dos soluços.
Mas a face do lago
sem reflexos
quando as águas
entranha.
Não a face da estátua
fria de lua e zéfiro.
Mas a face do círio
que se consome
lívida
no ardor.
de A face lívida (1945)
1 033
Gerard Reve
Poema para o Doutor Trimbos
"Vinho barato, masturbação e cinema,"
escreve Céline.
O vinho acabou, não há cinemas aqui.
A existência torna-se tão monocórdica.
:
Gedicht voor Dokter Trimbos
"Goedkope wijn, masturbatie, bioscoop,"
schrijft Céline.
De wijn is op, en bioscopen zijn hier niet.
Het bestaan wordt wel eenzijdig.
escreve Céline.
O vinho acabou, não há cinemas aqui.
A existência torna-se tão monocórdica.
:
Gedicht voor Dokter Trimbos
"Goedkope wijn, masturbatie, bioscoop,"
schrijft Céline.
De wijn is op, en bioscopen zijn hier niet.
Het bestaan wordt wel eenzijdig.
1 015
Sebastião Alba
Último poema
(ao Jorge Viegas)
Nestes lugares desguarnecidos
e ao alto limpos no ar
como as bocas dos túmulos
de que nos serve já polir mais símbolos?
De que nos serve já aos telhados
canelar as águas de gritos
e com eles varrer o céu
(ou com os feixes de luar que devolvemos)?
É ou não o último voo
bíblico da pomba?
Que sem horizonte a esperamos
em nossa arca onde há milénios se acumulam
os ramos podres da esperança.
Nestes lugares desguarnecidos
e ao alto limpos no ar
como as bocas dos túmulos
de que nos serve já polir mais símbolos?
De que nos serve já aos telhados
canelar as águas de gritos
e com eles varrer o céu
(ou com os feixes de luar que devolvemos)?
É ou não o último voo
bíblico da pomba?
Que sem horizonte a esperamos
em nossa arca onde há milénios se acumulam
os ramos podres da esperança.
1 170
Henriqueta Lisboa
É estranho que, após o pranto
É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares,
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilhas, ó náufrago.
É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.
É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.
deA flor da morte (1949).
1 010
Jack Spicer
Para Mac
Estrela-do-mar morta numa praia
Com seus cinco braços
Representando os cinco sentidos
Representando as piadas que não contamos um ao outro
Chame a terra de chão
Chame as pessoas de humanas
Mas deixe a criatura estirada
No chão dos nossos sentidos
Como um amor
Prefigurado no mar
Que morreu
E foi à água
Todos os oceanos
De emoções. Todos os oceanos de emoções
Estão cheios de tais estrelas
Por que
Esta que está morta teria tamanha importância?
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
For Mac
A dead starfish on a beach
He has five branches
Representing the five senses
Representing the jokes we did not tell each other
Call the earth flat
Call other people human
But let the creature lie
Flat upon our senses
Like a love
Prefigured in the sea
That died
And went to water
All the oceans
Of emotion. All the oceans of emotion
Are full of such fish
Why
Is this dead one of such importance?
Com seus cinco braços
Representando os cinco sentidos
Representando as piadas que não contamos um ao outro
Chame a terra de chão
Chame as pessoas de humanas
Mas deixe a criatura estirada
No chão dos nossos sentidos
Como um amor
Prefigurado no mar
Que morreu
E foi à água
Todos os oceanos
De emoções. Todos os oceanos de emoções
Estão cheios de tais estrelas
Por que
Esta que está morta teria tamanha importância?
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
For Mac
A dead starfish on a beach
He has five branches
Representing the five senses
Representing the jokes we did not tell each other
Call the earth flat
Call other people human
But let the creature lie
Flat upon our senses
Like a love
Prefigured in the sea
That died
And went to water
All the oceans
Of emotion. All the oceans of emotion
Are full of such fish
Why
Is this dead one of such importance?
767
Gerard Reve
Canção da bebida
Agora é a hora de deixar de beber.
Parar de uma vez, é preciso.
Foi com certeza o bastante.
Consola-me então, ó Espírito,
nesta noite de 20 para 21 de julho de 1965,
em desespero profundo, e cercado de Trevas.
:
Drinklied
Nu moet ik van de drank af.
Het moet maar eens uit zjin.
Het is wel genoeg geweest.
Troost mij toch, o Geest,
in de nacht van 20 op 21 juli 1965,
in diepe ontzetting, en omringd door Duisternis.
809
John Berryman
14
A vida, amigos, é um tédio. Não devemos dizê-lo.
Afinal, o céu se acende, o verde mar anseia,
nós mesmos acendemos e ansiamos,
e ademais disse-me a mãe em pequeno
(repetidamente) 'Confessar-se entendiado
significa que não tens
Recursos Interiores´. Concluo agora que não tenho
recursos interiores, pois estou entediado às profundas.
As gentes me entediam,
a literatura me entedia, especialmente a grande literatura,
Henry me entendia, com seus apertos& apuros
tão graves quanto os de Aquiles,
que ama as gentes e a arte valorosa, que me entendiam.
E as plácidas colinas,& o gim, parecem uma chatice
e de algum modo um cachorro
levou-se a si próprio& ao rabo consideravelmente embora
para as montanhas ou o mar ou o céu, deixando
para trás: a mim, balanço.
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
Dream Song 14
John Berryman
Life, friends, is boring. We must not say so.
After all, the sky flashes, the green sea yearns,
we ourselves flash and yearn,
and moreover my mother told me as a boy
(repeatingly) 'Ever to confess you're bored
means you have no
Inner Resources.' I conclude now I have no
inner resources, because I am heavy bored.
Peoples bore me,
literature bores me, especially great literature,
Henry bores me, with his plights& gripes
as bad as achilles,
who loves people and valiant art, which bores me.
And the tranquil hills,& gin, look like a drag
and somehow a dog
has taken itself& his tail considerably away
into mountains or sea or sky, leaving
behind: me, wag.
736
John Berryman
29
Sentou-se, certa vez, no coração de Henry algo
tão pesado, que se tivesse cem anos
&mais, & aos prantos, insone, por todo esse tempo
Henry não poderia tornar o Bem.
Recomeça e sempre em seus ouvidos,
a pequena tosse em algum lugar, um odor, um badalo.
E há outra coisa que ele tem em mente
como um grave rosto de Siena, milenar
não conseguiria borrar sua censura quieta e perfilada. Horrendo,
olhos abertos, ele atenta, cego.
Todos os sinos dizem: tarde demais. Isto não se pranteia:
pensar.
Mas nunca Henry, conforme pensara,
dá cabo de alguém e esquarteja seu corpo
e esconde os bocados onde possam encontrá-la.
Ele sabe: verificou a todos,& ninguém está desaparecido.
Com freqüência, ao amanhecer, ele faz as contas.
Ninguém nunca está desaparecido.
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
Dream Song 29
John Berryman
There sat down, once, a thing on Henry's heart
só heavy, if he had a hundred years
&more, & weeping, sleepless, in all them time
Henry could not make good.
Starts again always in Henry's ears
the little cough somewhere, an odour, a chime.
And there is another thing he has in mind
like a grave Sienese face a thousand years
would fail to blur the still profiled reproach of. Ghastly,
with open eyes, he attends, blind.
All the bells say: too late. This is not for tears;
thinking.
But never did Henry, as he thought he did,
end anyone and hacks her body up
and hide the pieces, where they may be found.
He knows: he went over everyone,& nobody's missing.
Often he reckons, in the dawn, them up.
Nobody is ever missing.
1 107
Maria Ângela Alvim
Estou e não me respondo
Estou e não me respondo.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.
E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.
Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.
Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.
E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.
Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.
Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.
909
Lois Pereiro
Cero a la izquierda
O corredor de fondo perde o alento
fuxindo dunha vida inzada de renuncias
da súa liturxia obesa e oleosa,
mediocre nos seus comunais fracasos,
bágoas de xelo, indignación contida
non deu chegado a tempo de exercer
a súa rebelión,
nin de levar a cabo
a súa vinganza definitiva
contra un mundo inxusto, homicida, e cruel,
pola inutilidade da súa propia vida
solitario, enfermo e fatigado,
a morte anticipouse e chegou antes.
939
Leónidas Lamborghini
O sabotador arrependido
No meu rosto está escrita a aceita
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita
Eu era o braço direito agora não sou nada
Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita
Eu era o braço direito agora não sou nada
Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.
794
Maria Ângela Alvim
Quero crer-me este sentido
Quero crer-me este sentido
de longa memória branca.
Sobre ele não lembrar,
- ficar, ficar,
no encontro de tudo em pouco:
o tempo se refez no instante
deste espaço, superfície,
chão que nem me sustenta
(dura sou, eu, e dura amargura é a minha).
Não, não me lembrarei,
seria pensar começos
e outros fins - ó lunares
lembranças, doridos passos
(muitos fui acompanhando
de longe e mais me pisaram
aqui, ali, onde sei).
Estou? Se estou me consentem
os gestos e os movimentos?
Nenhum ruído se atenta
que dentro não fosse ouvido.
E tudo em mim se repete
enquanto durante e sempre
a lembrança vai baixando
a seu leito mais dormente.
Os pensamentos seriam
roteiros menos sofridos?
Deixá-los que se solveram
nestes noturnos tormentos
da mente se procurando,
da idéia, refluindo
sobre dúvida, distância
e certeza, aéreo marco
de um repouso em si medido.
Deixá-los. Deixar-me enquanto
existe um consenso oculto.
Pensarei que desvivi
num limite-lucidez
lá e, no entanto, aqui.
de longa memória branca.
Sobre ele não lembrar,
- ficar, ficar,
no encontro de tudo em pouco:
o tempo se refez no instante
deste espaço, superfície,
chão que nem me sustenta
(dura sou, eu, e dura amargura é a minha).
Não, não me lembrarei,
seria pensar começos
e outros fins - ó lunares
lembranças, doridos passos
(muitos fui acompanhando
de longe e mais me pisaram
aqui, ali, onde sei).
Estou? Se estou me consentem
os gestos e os movimentos?
Nenhum ruído se atenta
que dentro não fosse ouvido.
E tudo em mim se repete
enquanto durante e sempre
a lembrança vai baixando
a seu leito mais dormente.
Os pensamentos seriam
roteiros menos sofridos?
Deixá-los que se solveram
nestes noturnos tormentos
da mente se procurando,
da idéia, refluindo
sobre dúvida, distância
e certeza, aéreo marco
de um repouso em si medido.
Deixá-los. Deixar-me enquanto
existe um consenso oculto.
Pensarei que desvivi
num limite-lucidez
lá e, no entanto, aqui.
845
Akiko Yosano
Tanka III
“Kyoto é um lugar
de dolorosas recordações...”
escrevi até aí
quando olhei para baixo
e notei a brancura do rio Kamo
843
Pentti Saarikoski
XXXV
eu nunca estarei à altura dos meus poemas
eu tusso eu ofego
enquanto eles respiram livremente
eu caminho por aí de olhar fixo
eles conhecem seu próprio valor
me ridicularizam
à noite eles saem aos berros às ruas
mas de dia sentam-se comportados no escritório
batendo à mesa com um lápis dizendo
qual o seu número?
eu me decepcionei com todos eles
eu não os criei à minha imagem e semelhança?
eles deviam fazer propaganda de mim mesmo
e o que eles estão fazendo?
sorrindo com desdém
enquanto uma delegação de poetas europeus os aplaude
eu desmaio num banco de parque a cagar nas calças
quando estou doente eles vêm me ver? não
quando estiver morto
trarão flores ao meu túmulo? oh não
eles não têm órgãos internos
eles não envelhecem
eu encolho enquanto crescem
eu morro
e eles vivem com a bunda virada pra lua
615
Maria Ângela Alvim
Sempre distante amor e perto anseio
Sempre distante amor e perto anseio,
e triste descambar do adeus e a ida
em promessa que apenas prometida
tanto levou do ser que o fez alheio.
De outra morte morrer, opõe receio?
Morre um morto após si, já em seguida
à perda ao largo de alma tão perdida?
Mortos são os que morrem vida em meio.
São os vivos de amor, que amor esquece,
e, súbito, na morte amadurece
antes de tudo mais que vai morrendo.
Feridos numa dor que está vivendo
no arrastar em gemido e em passo tardo,
ter sido, mais que ser, terrível fardo.
e triste descambar do adeus e a ida
em promessa que apenas prometida
tanto levou do ser que o fez alheio.
De outra morte morrer, opõe receio?
Morre um morto após si, já em seguida
à perda ao largo de alma tão perdida?
Mortos são os que morrem vida em meio.
São os vivos de amor, que amor esquece,
e, súbito, na morte amadurece
antes de tudo mais que vai morrendo.
Feridos numa dor que está vivendo
no arrastar em gemido e em passo tardo,
ter sido, mais que ser, terrível fardo.
921
Vitorino Nemésio
26.
O anoitecer situa as coisas na minha alma
Como as cadeiras arrumadas
Quando os amigos partiram.
Meus degraus ainda têm a passada do adeus,
Lá quando uma palavra cria tudo,
E o resto, fechada a porta,
É posto nas mãos de Deus.
Então, à minha janela,
Tudo repousa e larga o aro dos conjuntos,
Tudo vem, com um gesto secreto e confiado,
Pedir-me o molde e o amor do isolamento,
Como se um desconhecido
Passasse e pedisse lume
E eu, sem reparar, lho estendesse:
Quando quisesse conhecê-lo,
Só a minha brasa ao longe,
Na noite que se faz pelo peso dos rios
E vive de fogo dado.
Assim nocturno, sou
O suporte de quem não tem para consciência,
Que é como não ter para pão:
As coisas cegas
Prendem-se a mim,
Ao meu olhar, que é único na noite
Pelo seu grande alcance de humildade,
E fico cheio delas,
Como estes sítios ermos, junto de uma cidade,
Cemitérios de tudo, lugares para cães e bidons velhos;
Fico cheio da pobreza e do sinal das coisas,
Como um retrato de gente pobre é pobre e gauche
(Vale a recordação),
Mas sinto-me, ao mesmo tempo, seco e cheio de tacto
Como se fosse o seu bordão.
Como as cadeiras arrumadas
Quando os amigos partiram.
Meus degraus ainda têm a passada do adeus,
Lá quando uma palavra cria tudo,
E o resto, fechada a porta,
É posto nas mãos de Deus.
Então, à minha janela,
Tudo repousa e larga o aro dos conjuntos,
Tudo vem, com um gesto secreto e confiado,
Pedir-me o molde e o amor do isolamento,
Como se um desconhecido
Passasse e pedisse lume
E eu, sem reparar, lho estendesse:
Quando quisesse conhecê-lo,
Só a minha brasa ao longe,
Na noite que se faz pelo peso dos rios
E vive de fogo dado.
Assim nocturno, sou
O suporte de quem não tem para consciência,
Que é como não ter para pão:
As coisas cegas
Prendem-se a mim,
Ao meu olhar, que é único na noite
Pelo seu grande alcance de humildade,
E fico cheio delas,
Como estes sítios ermos, junto de uma cidade,
Cemitérios de tudo, lugares para cães e bidons velhos;
Fico cheio da pobreza e do sinal das coisas,
Como um retrato de gente pobre é pobre e gauche
(Vale a recordação),
Mas sinto-me, ao mesmo tempo, seco e cheio de tacto
Como se fosse o seu bordão.
1 287
Vitorino Nemésio
Poema de Outra Viagem ao Porto
Noite movida, meu corpo é uma hora antes
Caixa de sangue pronta a amplo socorro.
Eu vou como as manhãs e as sarjas aos doentes:
Sou eu mesmo que morro.
Falto como o menino à vida, escola de ermos.
Quem me dará meus anos, se os perdi?
Só Deus tem paz onde homens gume e fogo,
Do mais não resolvi.
Aqui lá de astro quem
Sobre as águas adusto,
Que nem vendo direi se cumpro ou rego flor?
Tu darás às palavras o que é delas
Como altura com vidros dá janelas
E amor é quando se tem.
Assim te reproduzes.
No redondo das rosas adianto
Como tempo é minha alma por jardim.
Agora não sei mais. Vou para o Porto
Timbre de honra é morar limpo no espanto.
Eu pessoalmente morto.
Caixa de sangue pronta a amplo socorro.
Eu vou como as manhãs e as sarjas aos doentes:
Sou eu mesmo que morro.
Falto como o menino à vida, escola de ermos.
Quem me dará meus anos, se os perdi?
Só Deus tem paz onde homens gume e fogo,
Do mais não resolvi.
Aqui lá de astro quem
Sobre as águas adusto,
Que nem vendo direi se cumpro ou rego flor?
Tu darás às palavras o que é delas
Como altura com vidros dá janelas
E amor é quando se tem.
Assim te reproduzes.
No redondo das rosas adianto
Como tempo é minha alma por jardim.
Agora não sei mais. Vou para o Porto
Timbre de honra é morar limpo no espanto.
Eu pessoalmente morto.
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