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Poemas neste tema

Vida e Existência

Juó Bananére

Juó Bananére

O Lobo i o Gordeirigno

Fabula di Lafontana
Traduçó Du Bananére

Un dia n'un riberó
Chi tê lá nu Billezinho,
Bebia certa casió
Un bunito gorderinho.

Abebia o gorderigno,
Chetigno come un jurití,
Quano du matto vizigno
Un brutto lobo sai.

O lobo assí che inxergô
O pobre gordêro bibeno,
O zoglios arrigalô
I lógo giá fui dizeno:

— Olá! Ó sô gargamano!
Intó vucê non stá veno,
Che vucê mi stá sujano
A agua che io stô bibeno!?

— Ista é una brutta galunia
Che o signore stá livantáno!
Vamos xamá as tistimunia,
Fui o gordêro aparlano...

Non vê intô Incelencia,
Che du lado d'imbaixo stó io
I che nessun ribêro ne rio,
Non górre nunca p'ra cima?

— Eh! non quero sabê di nada!
Si vucê non sugió a agua,
Fui vucê chi a simana passada
Andó dizeno que io sô un pau d'agua.

— Mio Deuse! che farsidade!
Che genti maise mentirosa,
Come cuntá istas prosa,
Si tegno seis dia d'indade?!

— Si non fui vucê chi aparlô,
Fui un molto apparicido,
Chi tambê tigna o pello cumprido
I di certo chi é tuo ermô.

— Giuro, ó inlustre amigo,
Che istu tambê é invençó!
Perché é verdade o che digo,
Che nunca tive un ermô.

— Pois se non fui tuo ermó,
Cabemos con ista mixida;
Fui di certo tuo avó
Che mexê c'oa migna vida.

I avendo accussi parlato,
Apigó nu gorderigno,
Carregó illo p'ru matto
I cumeu illo intirigno.

MORALE: O que vale nista vida é o muque!


In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
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Alphonsus de Guimaraens

Alphonsus de Guimaraens

IV - Noiva

N'as-tu pas senti le gout des éternelles amours?
H. DE BALZAC

Noiva... minha talvez... pode bem ser que o sejas.
Não me disseste ao certo o dia em que voltavas.
O céu é claro como o teto das igrejas:
Vens de lá com certeza. Humildes como escravas,

Curvadas ainda estão as estrelas morosas;
E bem se vê que algum excelso vulto branco
Passou por elas, entre arcarias de rosas,
Revolto o manto de ouro, afagando-lhe o flanco.

Há tanto tempo que te espero, e espero embalde...
Não sabia que assim tão diferente vinhas.
Tinhas negro o cabelo: entanto a nuvem jalde,
Que o doura todo, o faz tão outro do que tinhas!

Quando morreste, o sol era morto, e ainda agora
Para mim se prolonga essa noite de guerra...
Acaso vens com o teu olhar de eterna aurora
Aclará-la outra vez, vindo de novo à terra?

Vejo-te a imagem tão destacada no fundo
Deste meu sonho, que é como se eu não sonhasse...
Cheio da nostalgia estelar de outro mundo,
Tem as mágoas de um astro o palor da tua face.

Caminhas, e os teus pés sublimes nem de leve
Tocam a flor do solo: o ar impalpável pisas.
Ora se abaixa, ou se ergue o teu corpo de neve...
Parece que te vão berçando auras e brisas.

O peristilo arcual da tua boa se move:
Soabre-se: a fulva luz que a ilumina contemplo...
Falas: como me pasma e inebria e comove
Toda a púrpura real do interior desse templo!

Parece que um hinal de suaves litanias
Acompanha a tua voz nas palavras que soltas.
Não sabia que assim tão outra voltarias:
Eras de negro olhar, de olhar azul tu voltas.

Que me admira se vens de olhar azul e louro
Cabelo? Não é a mesma a tua formosura?
Voltas do céu, e a cor celestial é azul e é ouro,
E é todo este clarão que a imagem te moldura.

Noiva... minha talvez... e por que não? Setembro
Volta. Setembro é o mês das laranjeiras castas.
Vens de grinalda branca, a voar... Ah! bem me lembro.
A veste com que foste é a mesma que hoje arrastas.

Foste de branco e vens de branco ainda trajada.
A túnica nupcial que em níveas dobras desce
Pelo teu corpo, tem a brancura sagrada
Dos alvos corporais do altar exposto à prece.

O parélio do gênio imortal que te anima
Surge no resplandor que te aureola a cabeça.
Atenta escutas os meus versos rima a rima,
E mandas que em cada um a tua Alma apareça.

Quero abraçar-te e nada abraço... O que me assombra
É que te vejo e não te encontro com os meus braços.
Morta, beijei-te um dia: hoje tu és uma sombra
Exilada do céu para seguir-me os passos.

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Publicado no livro Dona Mística, 1892/1894 (1899). Poema integrante da série IV - Noiva.

In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 105-106. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
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Bruno de Menezes

Bruno de Menezes

Marujada

Fragatas, marujos pintados de entrudo,
gageiro subindo no mastro de proa,
piloto crioulo cantando a manobra
na cadência da onda, ao rumor da mareta.

É um brigue lendário... A "Nau Catarineta"...
Um cruzador do Império...

— "Seu imediato!
— Pronto seu comandante!
— Mande suspendê ferro que são
hora da partida!..."

E as fragatas em coro tatuadas gingando...
suspendem o ferro mesmo sustêm a força da amarra.

(1) "Alerta marinhêro
vâmo o terro levantá
as hora não chegada
do "Tupi" si arritirá".

E o rufo batuca na lufa-lufa a vela estrebucha ao vento
[que bufa...

Navio pirata... Veleiro corsário em mar alto...
Barca onde só vem mestiço.

Regamboleios de fragatas no arrastão da marujada
meia-lua em ronda longa escorregando no convés.

Pintados de entrudo! Oficiais e a marinhagem!
Revolta tumulto a bordo... O imediato posto a ferros...

Os trovões os relâmpagos o vento,
o mar brabo e a invocação à Virgem Mãe dos Navegantes:

(2) "Sinhor do Mar
Rainha das Ondas
livrai-nos da morte
nas ondas do mar...

É a cerração... Vida de bordo numa sala
que palpita de emoção e a maresia faz tremer.

A embarcação joga sem rumo...

Pintados de entrudo!

Rodelas de carmim... brancuras de alvaiade...

O comandante de espadim dragonas gorro e apito
... tinha a melhor fragata!

Mas na hora em que na adriça,
cessada a tempestade,
a bandeira subia garbosa no mastro,
eles pensavam que era certo e davam vivas ao Brasil!


Publicado no livro Batuque: poemas (1939).

In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.229-230. (Lendo o Pará, 14
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