Poemas neste tema
Música
Herberto Helder
Todos Os Dedos da Mão 3
O sangue bombeado na loucura,
Do medo
ao modo de escrevê-lo, Entra
pelo papel dentro, Queima
tudo — os dias que se atrevem
no mundo: as massas de ouro:
o âmago,
Enterra-se de noite um diamante: e a terra
move-se, Coração fechado
fundo, Como se me furasse um tubo vocalmente
até às amígdalas,
Sopro pulmonar tornado paixão
de música
labialidade
inocência,
Áspero ligeiro ardido, Um lento
desenvolvimento: o que se escreve
acerbamente pontuado a fogo, A frase
a fala,
Ligado por veios pungentes ao grande
buraco da cabeça: à boca,
A cada poro que ao toque ilumina
os tecidos:
docemente os objectos: os animais
e a madeira, Calcinando
língua e dedos
até às unhas: o pêlo como o pêlo
numa estrela — sobre a fronte, Ou os braços que fulguram
como espadas no tronco,
A ponta das falangetas tremendo,
Uma golfada pelo rasgão vocal,
Crespa canção: o mover das mãos
em torno: e a pancada
cortada das artérias:
o pesadelo,
E é tão compacta a malha
da carne tão
rude, O fluxo que se
desenreda, Como se o corpo todo fosse uma veia,
Uma traqueia de onde irrompesse um som
— árduo árduo
e agudo,
E a boca respirando se tornasse
numa bolha,
O rosto como uma víscera,
Que brilhasse varada pelo sangue: alta
e ríspida: e brilhasse ainda
quando o dia transparente transpusesse:
porta
a porta:
tudo, As mãos: a cabeça
entre as mãos: a voz
entre fôlego e escrita, Nas cavernas
do mundo
Do medo
ao modo de escrevê-lo, Entra
pelo papel dentro, Queima
tudo — os dias que se atrevem
no mundo: as massas de ouro:
o âmago,
Enterra-se de noite um diamante: e a terra
move-se, Coração fechado
fundo, Como se me furasse um tubo vocalmente
até às amígdalas,
Sopro pulmonar tornado paixão
de música
labialidade
inocência,
Áspero ligeiro ardido, Um lento
desenvolvimento: o que se escreve
acerbamente pontuado a fogo, A frase
a fala,
Ligado por veios pungentes ao grande
buraco da cabeça: à boca,
A cada poro que ao toque ilumina
os tecidos:
docemente os objectos: os animais
e a madeira, Calcinando
língua e dedos
até às unhas: o pêlo como o pêlo
numa estrela — sobre a fronte, Ou os braços que fulguram
como espadas no tronco,
A ponta das falangetas tremendo,
Uma golfada pelo rasgão vocal,
Crespa canção: o mover das mãos
em torno: e a pancada
cortada das artérias:
o pesadelo,
E é tão compacta a malha
da carne tão
rude, O fluxo que se
desenreda, Como se o corpo todo fosse uma veia,
Uma traqueia de onde irrompesse um som
— árduo árduo
e agudo,
E a boca respirando se tornasse
numa bolha,
O rosto como uma víscera,
Que brilhasse varada pelo sangue: alta
e ríspida: e brilhasse ainda
quando o dia transparente transpusesse:
porta
a porta:
tudo, As mãos: a cabeça
entre as mãos: a voz
entre fôlego e escrita, Nas cavernas
do mundo
624
José Maria Cançado
Rumo à estação da ficção suprema
Que vêm fazer aqui
os lilases de abril de tom eliot
nos poros da estática estouradaça
da caixa de som do rap e do xote?
esse mantra do abril anglicano
na sirene ligada da língua saturno e onano
do rapper e seu programa de paupéria e glória
do terceiro-urbano?
Personas e máscaras dos poetas
do mundo inteiro, uni-vos
e no mesmo passo desuni-vos
no despaisado da vossa condição e lilases:
Tal qual a zona liberada,
num palco da periferia do Brasil,
como a composição de um novo terno
e de um vasto mundo conato,
por tom eliot, seu pelo lilás pentecostal,
e o sujeito marrento no palco,
se a realidade não escreve
nem jamais escreveu,
ela ensaia uma ficção suprema,
entrar e sair do seu lugar nos livros,
e realizar-se no destino emancipado do poema.
os lilases de abril de tom eliot
nos poros da estática estouradaça
da caixa de som do rap e do xote?
esse mantra do abril anglicano
na sirene ligada da língua saturno e onano
do rapper e seu programa de paupéria e glória
do terceiro-urbano?
Personas e máscaras dos poetas
do mundo inteiro, uni-vos
e no mesmo passo desuni-vos
no despaisado da vossa condição e lilases:
Tal qual a zona liberada,
num palco da periferia do Brasil,
como a composição de um novo terno
e de um vasto mundo conato,
por tom eliot, seu pelo lilás pentecostal,
e o sujeito marrento no palco,
se a realidade não escreve
nem jamais escreveu,
ela ensaia uma ficção suprema,
entrar e sair do seu lugar nos livros,
e realizar-se no destino emancipado do poema.
563
Alice Vieira
Taxidermias
(para o Frederico Klumb, por ocasião de um tropeço-comum)
que tenho eu com a gênese da beleza
tempestade de aço
se tens meu corpo e todos os seus agudos sinais
angústia dúplice
quantos nomes serão necessários
para que não tomes mais os meus órgãos
de assalto, para que não sejas o invólucro
impiedoso de todas as noites
para que não venças em teu propósito de minha
implosão fragmentária
quantos nomes serão necessários para que tuas dobras
não ultrapassem a vertigem comum dos dedos
Vênus tripartite, convocação ao delírio e à
sutura, assim não, mulher, você desata
uma música diferente de todas as outras (minha)
– Shostakóvitch? Por que tão agressiva
se inevitável, quem te adivinha a escala cromática
para que teu incômodo cumpra a inscrição
visível em minha pele
e eu te reconstitua – palha a palha –
com todo o teu direito a uma constelação
do desassossego?
que tenho eu com a gênese da beleza
tempestade de aço
se tens meu corpo e todos os seus agudos sinais
angústia dúplice
quantos nomes serão necessários
para que não tomes mais os meus órgãos
de assalto, para que não sejas o invólucro
impiedoso de todas as noites
para que não venças em teu propósito de minha
implosão fragmentária
quantos nomes serão necessários para que tuas dobras
não ultrapassem a vertigem comum dos dedos
Vênus tripartite, convocação ao delírio e à
sutura, assim não, mulher, você desata
uma música diferente de todas as outras (minha)
– Shostakóvitch? Por que tão agressiva
se inevitável, quem te adivinha a escala cromática
para que teu incômodo cumpra a inscrição
visível em minha pele
e eu te reconstitua – palha a palha –
com todo o teu direito a uma constelação
do desassossego?
693
Jogral Lourenço
Ua moça namorada
Ua moça namorada
dizia un cantar d'amor.
E diss'ela: "Nostro Senhor,
hoj'eu foss'aventurada
que oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo!"
A moça ben parecia,
e en sa voz manselia "
cantou e diss'a menia:
"Prouguess'a Santa Maria
que oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo!"
Cantava mui de coraçon
e mui fremosa estava.
E disse, quando cantava:
"Peç'eu a Deus por pediçon
qu'oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo!
dizia un cantar d'amor.
E diss'ela: "Nostro Senhor,
hoj'eu foss'aventurada
que oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo!"
A moça ben parecia,
e en sa voz manselia "
cantou e diss'a menia:
"Prouguess'a Santa Maria
que oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo!"
Cantava mui de coraçon
e mui fremosa estava.
E disse, quando cantava:
"Peç'eu a Deus por pediçon
qu'oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo!
697
Matilde Campilho
Veleiro
Bem: as palmeiras brilham mais que o ouro. Walter Benjamin tinha razão sobre os círculos — quanto mais se roda em volta do amor, mais o amor se expande. A filosofia é uma matemática muito esclarecedora e qualquer dia ainda vai salvar o mundo. Bem, quatrocentos anos depois e você & eu ainda somos uma espécie de Ferris Bueller’s Day Off. Ó, você viu os coros dos meninos na avenida? A alegria é um carro de bombeiros todo enfeitado de penas e cavalos bravos, atravessando tudo. A liberdade se faz inteira debaixo da palavra, entre um músico Tang e um jarro de Oaxaca. Os continentes se aproximam docemente e, como você me explicou, o selvagem europeu ainda vai soltar seu esplendor. Acredito muito naquilo que ninguém mais espera, principalmente depois que dei de caras com o dorso da baleia solitária. Todo canto tem um tom, e a maioria dos mamíferos se agrupam pelo reconhecimento de uma musicalidade comum. Sim, o fadista vai escolher o fadista, e as manadas de baleia costumam espalhar seu sopro de cerca de 20 hertz por oceanos infinitos. Em comunhão. Mas imagine você que em 1989 alguém descobriu uma baleia que canta solitária e a 52 hertz — sem primos, sem irmãos, sem melhor amigo, sem ilha onde fazer um pit stop. Ninguém vocaliza sua frequência, ouvido nenhum escuta seus 52 pontos. Há milagres. Depois do surgimento da baleia solitária, depois dos círculos de Benjamin, depois do desdobramento do poema XIX, depois do berlinde de Seymour Glass sendo girado no dedo do jogador de basquete, me diga, como não acreditar no brilho natural que diariamente resplandece no peito da terra? Bem, seu rosto de espanto frente ao sorvete de morango numa tarde de domingo é a manobra que puxa o lustro à pele do planeta. Benzinho, estamos invertendo a poesia de Eliot. Estamos curando o resfriado de Madame Sosostris, e esta coisa da alegria ainda vai dar muito certo. Seja como for, dê por onde der, seguimos usando o colar de pérolas que é feito dos olhos do marinheiro fenício. No que depender do amor, para além da paixão e para além do desejo: ninguém mais se afogará.
1 496
Pedro Amigo de Sevilha
Um Cantar Novo D'amigo
Um cantar novo d'amigo
querrei agora aprender,
que fez ora meu amigo,
e cuido log'entender,
no cantar que diz que fez
por mi, se o por mi fez.
Um cantar d'amig'há feito,
e, se mi o disser alguém
dereito como el é feito,
cuid'eu entender mui bem,
no cantar que diz que fez
por mi, se o por mi fez.
O cantar éste mui dito,
pero que o eu nom sei,
mais, pois mi o houverem dito,
cuid'eu que entend[er]ei,
no cantar que diz que fez
por mi, se o por mi fez.
querrei agora aprender,
que fez ora meu amigo,
e cuido log'entender,
no cantar que diz que fez
por mi, se o por mi fez.
Um cantar d'amig'há feito,
e, se mi o disser alguém
dereito como el é feito,
cuid'eu entender mui bem,
no cantar que diz que fez
por mi, se o por mi fez.
O cantar éste mui dito,
pero que o eu nom sei,
mais, pois mi o houverem dito,
cuid'eu que entend[er]ei,
no cantar que diz que fez
por mi, se o por mi fez.
540
Pedro Amigo de Sevilha
Lourenço Nom Mi Quer Creer
Lourenço nom mi quer creer,
pero que o conselho bem,
do que el nom sabe fazer;
e pero, se mi creess'en,
de três cousas, que bem direi,
podia per i com el-rei
e com outros bem guarecer.
E quero-lh'eu logo dizer
ũa antr'as cousas que el tem
que sabe melhor: e saber
podedes que nom sabe rem
trobar, ca trobador nom há
eno mundo, nem haverá,
a que s'el queira conhocer.
E bem com'el faz do trobar,
assi jura, se veess'i
Pero Sem com el[e] cantar
e Pero Bodin'outrossi
e quantos cantadores som:
por todos diz el ca nom
lhis quer end'avantada dar.
Ainda de seu citolar
vos direi eu quanto lh'oí:
diz que o nom podem passar
todos quantos andam aqui;
e por esto lhi conselh'eu
que leix'esto, que nom é seu,
em que lhi vam todos travar.
E eu que lh'o conselho dou
que leix'est'a que se filhou,
diz que ando pol'enganar!
pero que o conselho bem,
do que el nom sabe fazer;
e pero, se mi creess'en,
de três cousas, que bem direi,
podia per i com el-rei
e com outros bem guarecer.
E quero-lh'eu logo dizer
ũa antr'as cousas que el tem
que sabe melhor: e saber
podedes que nom sabe rem
trobar, ca trobador nom há
eno mundo, nem haverá,
a que s'el queira conhocer.
E bem com'el faz do trobar,
assi jura, se veess'i
Pero Sem com el[e] cantar
e Pero Bodin'outrossi
e quantos cantadores som:
por todos diz el ca nom
lhis quer end'avantada dar.
Ainda de seu citolar
vos direi eu quanto lh'oí:
diz que o nom podem passar
todos quantos andam aqui;
e por esto lhi conselh'eu
que leix'esto, que nom é seu,
em que lhi vam todos travar.
E eu que lh'o conselho dou
que leix'est'a que se filhou,
diz que ando pol'enganar!
564
Martim Soares
Foi Um Dia Lopo Jograr
Foi um dia Lopo jograr
a cas d'um infançom cantar;
e mandou-lh'ele por dom dar
três couces na garganta;
e fui-lh'escass', a meu cuidar,
segundo com'el canta.
Escasso foi o infançom
em seus couces partir em dom,
ca nom deu a Lop[o], entom,
mais de três na garganta;
e mais merece o jograrom,
segundo com'el canta.
a cas d'um infançom cantar;
e mandou-lh'ele por dom dar
três couces na garganta;
e fui-lh'escass', a meu cuidar,
segundo com'el canta.
Escasso foi o infançom
em seus couces partir em dom,
ca nom deu a Lop[o], entom,
mais de três na garganta;
e mais merece o jograrom,
segundo com'el canta.
1 969
Martim Soares
Lopo Jograr, És Gargantom
Lopo jograr, és gargantom
e sees trist'ao comer;
pero dous nojos, per razom
tenh'eu de chos homem sofrer:
mais vás no citolom rascar,
des i ar filhas-t'a cantar,
e estes nojos quatro som.
Come verde foucelegom,
cuidas tu i a guarecer
por nojos; mais nom é sazom
de chos querer homem sofrer:
ca irás um dia cantar
u cho farám todo quebrar
na cabeça o citolom.
e sees trist'ao comer;
pero dous nojos, per razom
tenh'eu de chos homem sofrer:
mais vás no citolom rascar,
des i ar filhas-t'a cantar,
e estes nojos quatro som.
Come verde foucelegom,
cuidas tu i a guarecer
por nojos; mais nom é sazom
de chos querer homem sofrer:
ca irás um dia cantar
u cho farám todo quebrar
na cabeça o citolom.
545
Martim Soares
Com Alguém É 'Qui Lopo Desfiado
Com alguém é 'qui Lopo desfiado,
a meu cuidar, ca lhi virom trager
um citolom mui gram sobarcado,
com que el sol muito mal a fazer;
e poilo ora assi virom andar,
nom mi creades, se o nom sacar
contra alguém, que foi mal dia nado.
Porque o veem atal, desaguisado,
non'o preçam nen'o querem temer;
mais tal passa cabo del, segurado,
que, se lhi Lopo cedo nom morrer,
já lhi querrá deante citolar
[...]
e pois verrá a morte, sem [seu] grado.
E pois [que] lhi Lop'houver citolado,
se i alguém chegar, polo prender,
diz que é mui corredor aficado;
e de mais, se cansar ou caer
e i alguém chegar polo filhar,
jura que alçará voz a cantar
- que nom haja quem dulte, mal pecado!
a meu cuidar, ca lhi virom trager
um citolom mui gram sobarcado,
com que el sol muito mal a fazer;
e poilo ora assi virom andar,
nom mi creades, se o nom sacar
contra alguém, que foi mal dia nado.
Porque o veem atal, desaguisado,
non'o preçam nen'o querem temer;
mais tal passa cabo del, segurado,
que, se lhi Lopo cedo nom morrer,
já lhi querrá deante citolar
[...]
e pois verrá a morte, sem [seu] grado.
E pois [que] lhi Lop'houver citolado,
se i alguém chegar, polo prender,
diz que é mui corredor aficado;
e de mais, se cansar ou caer
e i alguém chegar polo filhar,
jura que alçará voz a cantar
- que nom haja quem dulte, mal pecado!
647
Martim Soares
Foi a Cítola Temperar
Foi a cítola temperar
Lopo, que citolasse;
e mandarom-lh'algo dar,
em tal que a leixasse;
e el cantou log'entom,
e ar derom-lh'outro dom,
em tal que se calasse.
U a cítola temperou,
logo lh'o dom foi dado,
que a leixass', e el cantou;
e diss'um seu malado:
[- Pera leixar de cantar,]
ar dê-lh'alg', a quem pesar:
nom se cal'endoado.
E conselhava eu bem
a quem el dom pedisse,
desse-lho log'e, per rem,
seu cantar nom oísse,
ca est'é, ai, meu senhor,
o jogral braadador
que nunca bom som disse.
Lopo, que citolasse;
e mandarom-lh'algo dar,
em tal que a leixasse;
e el cantou log'entom,
e ar derom-lh'outro dom,
em tal que se calasse.
U a cítola temperou,
logo lh'o dom foi dado,
que a leixass', e el cantou;
e diss'um seu malado:
[- Pera leixar de cantar,]
ar dê-lh'alg', a quem pesar:
nom se cal'endoado.
E conselhava eu bem
a quem el dom pedisse,
desse-lho log'e, per rem,
seu cantar nom oísse,
ca est'é, ai, meu senhor,
o jogral braadador
que nunca bom som disse.
775
Lourenço
Lourenço Jograr, Hás Mui Gram Sabor
- Lourenço jograr, hás mui gram sabor
de citolares, ar queres cantar,
des i ar filhas-te log'a trobar
e teens-t'ora já por trobador;
e por tod'esto ũa rem ti direi:
Deus me confonda, se hoj'eu i sei
destes mesteres qual fazes melhor!
- Joam Garcia, sõo sabedor
de meus mesteres sempre deantar,
e vós andades por mi os desloar;
pero nom sodes tam desloador
que, com verdade, possades dizer
que meus mesteres nom sei bem fazer;
mais vós nom sodes i conhocedor.
- Lourenço, vejo-t'agora queixar:
pola verdade que quero dizer,
metes-me já por de mal conhocer,
mais en nom quero tigo pelejar;
e teus mesteres conhocer-tos-ei,
e dos mesteres verdade direi:
ess'é que foi com os lobos arar.
- Joam Garcia, no vosso trobar
acharedes muito que correger;
e leixade mi, que sei bem fazer
estes mesteres que fui começar;
ca no vosso trobar sei-m'eu com'é:
i há de correger, per bõa fé,
mais que nos meus, em que m'ides travar.
- Vês, Lourenç[o], ora m'assanharei,
pois mal i entenças, e tod'o farei
o citolom na cabeça quebrar.
- Joam Garcia, se Deus mi perdom,
mui gram verdade dig'eu na tençom;
e vós fazed'o que vos semelhar.
de citolares, ar queres cantar,
des i ar filhas-te log'a trobar
e teens-t'ora já por trobador;
e por tod'esto ũa rem ti direi:
Deus me confonda, se hoj'eu i sei
destes mesteres qual fazes melhor!
- Joam Garcia, sõo sabedor
de meus mesteres sempre deantar,
e vós andades por mi os desloar;
pero nom sodes tam desloador
que, com verdade, possades dizer
que meus mesteres nom sei bem fazer;
mais vós nom sodes i conhocedor.
- Lourenço, vejo-t'agora queixar:
pola verdade que quero dizer,
metes-me já por de mal conhocer,
mais en nom quero tigo pelejar;
e teus mesteres conhocer-tos-ei,
e dos mesteres verdade direi:
ess'é que foi com os lobos arar.
- Joam Garcia, no vosso trobar
acharedes muito que correger;
e leixade mi, que sei bem fazer
estes mesteres que fui começar;
ca no vosso trobar sei-m'eu com'é:
i há de correger, per bõa fé,
mais que nos meus, em que m'ides travar.
- Vês, Lourenç[o], ora m'assanharei,
pois mal i entenças, e tod'o farei
o citolom na cabeça quebrar.
- Joam Garcia, se Deus mi perdom,
mui gram verdade dig'eu na tençom;
e vós fazed'o que vos semelhar.
700
João Soares Coelho
Joam Soares, Comecei
- Joam Soares, comecei
de fazer ora um cantar,
vedes por quê: porque achei
boa razom pera trobar -
ca vej'aqui um jograrom
que nunca pode dizer som
nen'o ar pode citolar.
- Joam Peres, eu vos direi
por que o faz, a meu cuidar:
porque beve muit', [est'] eu sei;
e come fode, pois falar
nom pode; por esta razom
canta el mal; mais atal dom
bem dev'el de vós a levar.
- Joam Soares, responder
nom mi sabedes desto bem:
nom canta el mal por bever,
sabede, mais por ũa rem:
porque, des quando começou
a cantar, sempre mal cantou
e cantará, mentre viver.
- Joam Peres, por maldizer
vos foi esso dizer alguém,
ca, pelo vinh'e per foder,
perd'el o cantar e o sem;
mais bem sei eu que o miscrou
alguém convosc'e lhi buscou
mal, pois vos esso fez creer.
- Joam Coelho, el vos peitou
noutro dia, quando chegou,
pois ides del tal bem dizer.
- Joam Peres, já [eu] vos dou
quanto mi deu e mi mandou
e quanto mi há de remeter.
de fazer ora um cantar,
vedes por quê: porque achei
boa razom pera trobar -
ca vej'aqui um jograrom
que nunca pode dizer som
nen'o ar pode citolar.
- Joam Peres, eu vos direi
por que o faz, a meu cuidar:
porque beve muit', [est'] eu sei;
e come fode, pois falar
nom pode; por esta razom
canta el mal; mais atal dom
bem dev'el de vós a levar.
- Joam Soares, responder
nom mi sabedes desto bem:
nom canta el mal por bever,
sabede, mais por ũa rem:
porque, des quando começou
a cantar, sempre mal cantou
e cantará, mentre viver.
- Joam Peres, por maldizer
vos foi esso dizer alguém,
ca, pelo vinh'e per foder,
perd'el o cantar e o sem;
mais bem sei eu que o miscrou
alguém convosc'e lhi buscou
mal, pois vos esso fez creer.
- Joam Coelho, el vos peitou
noutro dia, quando chegou,
pois ides del tal bem dizer.
- Joam Peres, já [eu] vos dou
quanto mi deu e mi mandou
e quanto mi há de remeter.
642
Lourenço
Ua Moça Namorada
Ũa moça namorada
dizia um cantar d'amor,
e diss'ela: "Nostro Senhor,
hoj'eu foss'aventurada
que oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo".
A moça bem parecia
e em sa voz manselĩa
cantou e diss'a menĩa:
"Prouguess'a Santa Maria
que oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo".
Cantava mui de coraçom
e mui fremosa estava,
e disse, quando cantava:
"Peç'eu a Deus por pediçom
que oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo".
dizia um cantar d'amor,
e diss'ela: "Nostro Senhor,
hoj'eu foss'aventurada
que oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo".
A moça bem parecia
e em sa voz manselĩa
cantou e diss'a menĩa:
"Prouguess'a Santa Maria
que oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo".
Cantava mui de coraçom
e mui fremosa estava,
e disse, quando cantava:
"Peç'eu a Deus por pediçom
que oíss'o meu amigo
com'eu este cantar digo".
677
Lourenço
Três Moças Cantavam D'amor
Três moças cantavam d'amor,
mui fremosinhas pastores,
mui coitadas dos amores.
E diss'end'ũa, mia senhor:
- Dized'amigas comigo
o cantar do meu amigo.
Todas três cantavam mui bem,
come moças namoradas
e dos amores coitadas.
E diss'a por que perço o sem
- Dized'amigas comigo
o cantar do meu amigo.
Que gram sabor eu havia
de as oir cantar entom!
E prougue-mi de coraçom
quanto mia senhor dizia:
- Dized'amigas comigo
o cantar do meu amigo.
E se as eu mais oísse,
a que gram sabor estava!
E quam muito me pagava
de como mia senhor disse:
- Dized'amigas comigo
o cantar do meu amigo.
mui fremosinhas pastores,
mui coitadas dos amores.
E diss'end'ũa, mia senhor:
- Dized'amigas comigo
o cantar do meu amigo.
Todas três cantavam mui bem,
come moças namoradas
e dos amores coitadas.
E diss'a por que perço o sem
- Dized'amigas comigo
o cantar do meu amigo.
Que gram sabor eu havia
de as oir cantar entom!
E prougue-mi de coraçom
quanto mia senhor dizia:
- Dized'amigas comigo
o cantar do meu amigo.
E se as eu mais oísse,
a que gram sabor estava!
E quam muito me pagava
de como mia senhor disse:
- Dized'amigas comigo
o cantar do meu amigo.
778
Juião Bolseiro
Fez Ua Cantiga D'amor
Fez ũa cantiga d'amor
ora meu amigo por mi,
que nunca melhor feita vi,
mais, como x'é mui trobador,
fez ũas lirias no som
que mi sacam o coraçom.
Muito bem se soube buscar
por mi ali, quando a fez,
em loar-mi muit'e meu prez,
mais, de pram, por xe mi matar,
fez ũas lirias no som
que mi sacam o coraçom.
Per bõa fé, bem baratou
de a por mi bõa fazer,
e muito lho sei gradecer,
mais vedes de que me matou:
fez ũas lirias no som
que mi sacam o coraçom.
ora meu amigo por mi,
que nunca melhor feita vi,
mais, como x'é mui trobador,
fez ũas lirias no som
que mi sacam o coraçom.
Muito bem se soube buscar
por mi ali, quando a fez,
em loar-mi muit'e meu prez,
mais, de pram, por xe mi matar,
fez ũas lirias no som
que mi sacam o coraçom.
Per bõa fé, bem baratou
de a por mi bõa fazer,
e muito lho sei gradecer,
mais vedes de que me matou:
fez ũas lirias no som
que mi sacam o coraçom.
497
João Garcia de Guilhade
Lourenço, Pois Te Quitas de Rascar
Lourenço, pois te quitas de rascar
e desemparas o teu citolom,
rogo-te que nunca digas meu som
e jamais nunca mi farás pesar;
ca per trobar queres já guarecer;
e farás-m'ora desejos perder
do trobador que trobou do Juncal.
Ora cuid'eu [a] cobrar o dormir
que perdi: sempre, cada que te vi
rascar no cep'e tanger, nom dormi;
mais, poilo queres já de ti partir,
pois guarecer [buscas i] per trobar,
Lourenço, nunca irás a logar
u tu nom faças as gentes riir.
E vês, Lourenço, se Deus mi perdom,
pois que me tolhes do cepo pavor
e de cantar, farei-t'eu sempr'amor,
e tenho que farei mui gram razom;
e direi-ti qual amor t'eu farei:
jamais nunca teu cantar oírei
que en nom ria mui de coraçom;
Ca vês, Lourenço, muito mal prendi
de teu rascar, e do cep'e de ti;
mais, pois t'en quitas, tudo ti perdom.
e desemparas o teu citolom,
rogo-te que nunca digas meu som
e jamais nunca mi farás pesar;
ca per trobar queres já guarecer;
e farás-m'ora desejos perder
do trobador que trobou do Juncal.
Ora cuid'eu [a] cobrar o dormir
que perdi: sempre, cada que te vi
rascar no cep'e tanger, nom dormi;
mais, poilo queres já de ti partir,
pois guarecer [buscas i] per trobar,
Lourenço, nunca irás a logar
u tu nom faças as gentes riir.
E vês, Lourenço, se Deus mi perdom,
pois que me tolhes do cepo pavor
e de cantar, farei-t'eu sempr'amor,
e tenho que farei mui gram razom;
e direi-ti qual amor t'eu farei:
jamais nunca teu cantar oírei
que en nom ria mui de coraçom;
Ca vês, Lourenço, muito mal prendi
de teu rascar, e do cep'e de ti;
mais, pois t'en quitas, tudo ti perdom.
725
João Garcia de Guilhade
Muito Te Vejo, Lourenço, Queixar
- Muito te vejo, Lourenço, queixar
pola cevada e polo bever,
que to nom mando dar a teu prazer;
mais eu to quero fazer melhorar:
pois que t'agora citolar oí
e cantar, mando que to dem assi
bem como o tu sabes merecer.
- Joam Garcia, se vos en pesar
de que me queix[e] em vosso poder,
o melhor que podedes i fazer:
nom mi mandedes a cevada dar
mal, nen'o vinho, que mi nom dam i
tam bem com[o m']eu sempre mereci,
ca vos seria grave de fazer.
- Lourenço, a mim grave nom será
de te pagar tanto que mi quiser:
pois ante mi fezisti teu mester,
mui bem entendo e bem vejo já
como te pagu'; e logo o mandarei
pagar a [um] gram vilão que hei,
se um bom pao na mão tever.
- Joam Garcia, tal paga achará
em vós o jograr, quand'a vós veer,
mais outr'a quem [meu] mester fezer,
que m'en entenda, mui bem [mi] fará,
que panos ou algo merecerei;
e vossa paga ben'a leixarei
e pagad'[a] outro jograr qualquer.
- Pois, Lourenço, cala-t'e calar-m'-ei
e todavia tigo mi averrei,
e do meu filha quanto chi m'eu der.
- Joam Garcia, nom vos filharei
algo, e mui bem vos citolarei,
e conhosco mui bem [o] trobar.
- O chufar, Dom Lourenço, [o] chufar!
pola cevada e polo bever,
que to nom mando dar a teu prazer;
mais eu to quero fazer melhorar:
pois que t'agora citolar oí
e cantar, mando que to dem assi
bem como o tu sabes merecer.
- Joam Garcia, se vos en pesar
de que me queix[e] em vosso poder,
o melhor que podedes i fazer:
nom mi mandedes a cevada dar
mal, nen'o vinho, que mi nom dam i
tam bem com[o m']eu sempre mereci,
ca vos seria grave de fazer.
- Lourenço, a mim grave nom será
de te pagar tanto que mi quiser:
pois ante mi fezisti teu mester,
mui bem entendo e bem vejo já
como te pagu'; e logo o mandarei
pagar a [um] gram vilão que hei,
se um bom pao na mão tever.
- Joam Garcia, tal paga achará
em vós o jograr, quand'a vós veer,
mais outr'a quem [meu] mester fezer,
que m'en entenda, mui bem [mi] fará,
que panos ou algo merecerei;
e vossa paga ben'a leixarei
e pagad'[a] outro jograr qualquer.
- Pois, Lourenço, cala-t'e calar-m'-ei
e todavia tigo mi averrei,
e do meu filha quanto chi m'eu der.
- Joam Garcia, nom vos filharei
algo, e mui bem vos citolarei,
e conhosco mui bem [o] trobar.
- O chufar, Dom Lourenço, [o] chufar!
670
João Garcia de Guilhade
Lourenço Jograr, Hás Mui Gram Sabor
- Lourenço jograr, hás mui gram sabor
de citolares, ar queres cantar,
des i ar filhas-te log'a trobar
e teens-t'ora já por trobador;
e por tod'esto ũa rem ti direi:
Deus me confonda, se hoj'eu i sei
destes mesteres qual fazes melhor!
- Joam Garcia, sõo sabedor
de meus mesteres sempre deantar,
e vós andades por mi os desloar;
pero nom sodes tam desloador
que, com verdade, possades dizer
que meus mesteres nom sei bem fazer;
mais vós nom sodes i conhocedor.
- Lourenço, vejo-t'agora queixar:
pola verdade que quero dizer,
metes-me já por de mal conhocer,
mais en nom quero tigo pelejar;
e teus mesteres conhocer-tos-ei,
e dos mesteres verdade direi:
ess'é que foi com os lobos arar.
- Joam Garcia, no vosso trobar
acharedes muito que correger;
e leixade mi, que sei bem fazer
estes mesteres que fui começar;
ca no vosso trobar sei-m'eu com'é:
i há de correger, per bõa fé,
mais que nos meus, em que m'ides travar.
- Vês, Lourenç[o], ora m'assanharei,
pois mal i entenças, e tod'o farei
o citolom na cabeça quebrar.
- Joam Garcia, se Deus mi perdom,
mui gram verdade dig'eu na tençom;
e vós fazed'o que vos semelhar.
de citolares, ar queres cantar,
des i ar filhas-te log'a trobar
e teens-t'ora já por trobador;
e por tod'esto ũa rem ti direi:
Deus me confonda, se hoj'eu i sei
destes mesteres qual fazes melhor!
- Joam Garcia, sõo sabedor
de meus mesteres sempre deantar,
e vós andades por mi os desloar;
pero nom sodes tam desloador
que, com verdade, possades dizer
que meus mesteres nom sei bem fazer;
mais vós nom sodes i conhocedor.
- Lourenço, vejo-t'agora queixar:
pola verdade que quero dizer,
metes-me já por de mal conhocer,
mais en nom quero tigo pelejar;
e teus mesteres conhocer-tos-ei,
e dos mesteres verdade direi:
ess'é que foi com os lobos arar.
- Joam Garcia, no vosso trobar
acharedes muito que correger;
e leixade mi, que sei bem fazer
estes mesteres que fui começar;
ca no vosso trobar sei-m'eu com'é:
i há de correger, per bõa fé,
mais que nos meus, em que m'ides travar.
- Vês, Lourenç[o], ora m'assanharei,
pois mal i entenças, e tod'o farei
o citolom na cabeça quebrar.
- Joam Garcia, se Deus mi perdom,
mui gram verdade dig'eu na tençom;
e vós fazed'o que vos semelhar.
792
João Airas de Santiago
O Meu Amigo Novas Sabe Já
O meu amigo novas sabe já
daquestas cortes que s'ora fará[m],
ricas e nobres dizem que serám,
e meu amigo bem sei que fará
um cantar em que dirá de mim bem;
ou o fará ou já o feito tem.
Loar-mi-á muito e chamar-mi-á senhor,
ca muit'há gram sabor de me loar;
a muitas donas fará gram pesar,
mais el fará, com'é mui trobador,
um cantar em que dirá de mim bem;
ou o fará ou já o feito tem.
En'aquestas cortes que faz el-rei
loará mim e meu [bom] parecer
e dirá quanto bem poder dizer
de mim, amigas, e fará, bem sei,
um cantar em que dirá de mim bem;
ou o fará ou já o feito tem.
Ca o virom cuidar, e sei eu bem
que nom cuidava já em outra rem.
daquestas cortes que s'ora fará[m],
ricas e nobres dizem que serám,
e meu amigo bem sei que fará
um cantar em que dirá de mim bem;
ou o fará ou já o feito tem.
Loar-mi-á muito e chamar-mi-á senhor,
ca muit'há gram sabor de me loar;
a muitas donas fará gram pesar,
mais el fará, com'é mui trobador,
um cantar em que dirá de mim bem;
ou o fará ou já o feito tem.
En'aquestas cortes que faz el-rei
loará mim e meu [bom] parecer
e dirá quanto bem poder dizer
de mim, amigas, e fará, bem sei,
um cantar em que dirá de mim bem;
ou o fará ou já o feito tem.
Ca o virom cuidar, e sei eu bem
que nom cuidava já em outra rem.
500
Estêvão da Guarda
Rui Gonçálviz, Pero Vos Agravece
Rui Gonçálviz, pero vos agravece
porque vos travou em vosso cantar
Joan'Eanes, vej'eu el queixar
de qual deosto lhi de vós recrece:
u lhi fostes trobar de mal dizer
em tal guisa que bem pod'entender
quem quer o mal que a olho parece.
Por en partid'este feito de cedo,
ca de maldizer nom tirades prol;
e como s'en Joan'Eanes dol,
já de vós perdeu vergonha e medo:
ca entend'el que se dev'a sentir
de mal dizer que a seu olho vir
que pode log'acertar com seu dedo.
Pois sodes entendud'e [bom ra]vista,
sabed'agora catar tal razom
per que venha este feit'a perdom;
e por parardes milhor a conquista
outorgad'ora, senhor, que nos praz:
se mal dizer no vosso cantar jaz
que o poedes tod'à nossa vista.
porque vos travou em vosso cantar
Joan'Eanes, vej'eu el queixar
de qual deosto lhi de vós recrece:
u lhi fostes trobar de mal dizer
em tal guisa que bem pod'entender
quem quer o mal que a olho parece.
Por en partid'este feito de cedo,
ca de maldizer nom tirades prol;
e como s'en Joan'Eanes dol,
já de vós perdeu vergonha e medo:
ca entend'el que se dev'a sentir
de mal dizer que a seu olho vir
que pode log'acertar com seu dedo.
Pois sodes entendud'e [bom ra]vista,
sabed'agora catar tal razom
per que venha este feit'a perdom;
e por parardes milhor a conquista
outorgad'ora, senhor, que nos praz:
se mal dizer no vosso cantar jaz
que o poedes tod'à nossa vista.
595
Afonso X
Com'eu Em Dia de Páscoa Querria Bem Comer
Com'eu em dia de Páscoa querria bem comer,
assi querria bom som [e] ligeiro de dizer
pera meestre Joam.
Assi com[o] eu querria comer de bom salmom,
assi querria Avangelh'e mui pequena Paixom
pera meestre Joam.
Como [eu] querria comer que me soubesse bem,
assi queria bom som [d]e seculorum amen
pera meestre Joam.
Assi com'eu beveria [do] bom vinho d'Ourens,
assi querria bom som de Cunctipotens
pera meestre Joam.
assi querria bom som [e] ligeiro de dizer
pera meestre Joam.
Assi com[o] eu querria comer de bom salmom,
assi querria Avangelh'e mui pequena Paixom
pera meestre Joam.
Como [eu] querria comer que me soubesse bem,
assi queria bom som [d]e seculorum amen
pera meestre Joam.
Assi com'eu beveria [do] bom vinho d'Ourens,
assi querria bom som de Cunctipotens
pera meestre Joam.
625
Virgílio Martinho
Biografia Inventada
Sou Úrsula, chamo-me Luísa,
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
1 102
Ricardo Aleixo
Elsie sings the
Elsie Houston
morre no fim:
pílulas para dor-
mir. Mas a voz
dela escapa do
corpo sem vida
dela na forma
de um som
de cor tão cla-
rescura e rara
(Uirapuru no
breu da jângal
– ou sereia
no fundo do
mar – cantan-
do só para nin-
guém ouvir)
que ouvi-la
agora será per-
correr com
ela uma longa
trilha ao revés
(e de reveses
) até a gar-
ganta da qual
naquele vinte
do dois de mil
novecentos e
quarenta e três
ela escapará
morre no fim:
pílulas para dor-
mir. Mas a voz
dela escapa do
corpo sem vida
dela na forma
de um som
de cor tão cla-
rescura e rara
(Uirapuru no
breu da jângal
– ou sereia
no fundo do
mar – cantan-
do só para nin-
guém ouvir)
que ouvi-la
agora será per-
correr com
ela uma longa
trilha ao revés
(e de reveses
) até a gar-
ganta da qual
naquele vinte
do dois de mil
novecentos e
quarenta e três
ela escapará
706