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Poemas neste tema

Noite e Lua

Giacomo Leopardi

Giacomo Leopardi

XXXVII - Ouve, Melisso

ALCETA
Ouve, Melisso: vou contar-te um sonho
Desta noite que me retorna à mente
Ao remirar a lua. Eu estava
À janela voltada para o prado,
Olhando o alto: e eis que de repente
A lua se destaca; e pareceu-me
Que quanto mais se aproximava caindo,
Mais crescesse ao olhar; até que veio
A dar um golpe em meio ao prado; e era
Grande que nem um balde, e de centelhas
Vomitava uma névoa, estrilando
Tão forte como quando um carvão vivo
Entra na água e se apaga. Desse modo
A lua, como disse, em meio ao prado
Se apagava embaçando pouco a pouco,
E os relvados queimavam ao redor.
Então mirando o céu vi que restava
Como um lampejo ou rastro, como um nicho,
O ponto abandonado; de tal sorte
Que fiquei frio por dentro; e ainda temo.
MELISSO
E bem deves temer, que coisa fácil
Foi a lua cair em teu relvado.
ALCETA
Será? Não vemos amiúde estrelas
Caindo no verão?
MELISSO
Há tantos astros,
Que pouco dano é cair um ou outro
Deles, e mil restarem. Mas sozinha
Está no céu a lua, que ninguém
Nunca avistou cair senão em sonho.
(O assombro noturno, Recanati, 1819)
:
XXXVII - "ODI, MELISSO"
ALCETA
Odi, Melisso: io vo' contarti un sogno
Di questa notte, che mi torna a mente
In riveder la luna. Io me ne stava
Alla finestra che risponde al prato,
Guardando in alto: ed ecco all'improvviso
Distaccasi la luna; e mi parea
Che quanto nel cader s'approssimava,
Tanto crescesse al guardo; infin che venne
A dar di colpo in mezzo al prato; ed era
Grande quanto una secchia, e di scintille
Vomitava una nebbia, che stridea
Sì forte come quando un carbon vivo
Nell'acqua immergi e spegni. Anzi a quel modo
La luna, come ho detto, in mezzo al prato
Si spegneva annerando a poco a poco,
E ne fumavan l'erbe intorno intorno.
Allor mirando in ciel, vidi rimaso
Come un barlume, o un'orma, anzi una nicchia,
Ond'ella fosse svelta; in cotal guisa,
Ch'io n'agghiacciava; e ancor non m'assicuro.
MELISSO
E ben hai che temer, che agevol cosa
Fora cader la luna in sul tuo campo.
ALCETA
Chi sa? non veggiam noi spesso di state
Cader le stelle?
MELISSO
Egli ci ha tante stelle,
Che picciol danno è cader l'una o l'altra
Di loro, e mille rimaner. Ma sola
Ha questa luna in ciel, che da nessuno
Cader fu vista mai se non in sogno.
(Lo spavento notturno, Recanati, 1819)
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1 016
Juan L. Ortiz

Juan L. Ortiz

Fui ao rio...

Fui ao rio e o sentia
próximo de mim, diante de mim.
Os ramos tinham vozes
que não chegavam a mim.
A corrente dizia
coisas que eu não entendia.
Quase me angustiava.
Queria compreendê-lo,
sentir o que nele o céu pálido e vago dizia
com suas primeiras sílabas alargadas,
mas não conseguia.
Retornava.
– Era eu o que retornava? –
na angústia vaga
de sentir-me só entre as coisas, últimas e secretas.
De repente senti o rio em mim,
corria em mim
com suas margens trêmulas de sinais,
com seus fundos reflexos apenas estrelados.
Corria em mim o rio com suas ramagens.
Eu era um rio ao anoitecer
e suspiravam em mim as árvores
e se apagavam em mim as veredas e o capim.
Me atravessava um rio, me atravessava um rio!
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Fui al río...
Juan L. Ortiz
Fui al río, y lo sentía
cerca de mí, enfrente de mí.
Las ramas tenían voces
que no llegaban hasta mí.
La corriente decía
cosas que no entendía.
Me angustiaba casi.
Quería comprenderlo,
sentir qué decía el cielo vago y pálido en él
con sus primeras sílabas alargadas,
pero no podía.
Regresaba
—¿Era yo el que regresaba?—
en la angustia vaga
de sentirme solo entre las cosas últimas y secretas.
De pronto sentí el río en mí,
corría en mí
con sus orillas trémulas de señas,
con sus hondos reflejos apenas estrellados.
Corría el río en mí con sus ramajes.
Era yo un río en el anochecer,
y suspiraban en mí los árboles,
y el sendero y las hierbas se apagaban en mí.
Me atravesaba un río, me atravesaba un río!
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Miklós Radnóti

Miklós Radnóti

Céu espumante

No céu que espuma, a lua oscila.
Estar vivo me causa espécie.
A morte assídua espreita a Idade:
quem ela encontre, empalidece.
O ano grita e depois desmaia.
(Gritara olhando ao seu redor.)
Que outono ronda-me de novo?
Que inverno embotado de dor?
Sangrava o bosque; mesmo as horas
sangravam no vaivém dos dias.
Ventos riscavam, sobre a neve,
cifras enormes e sombrias.
Já vi de tudo; o ar me esmaga
com seu peso; um silêncio cresce
ruidoso, cálido e me abraça
como fez antes que eu nascesse.
Detenho-me junto de um tronco
que agita iroso as frondes plenas
e estende um galho. Há de esganar-me?
Não é fraqueza ou medo – apenas
cansaço. Calo. E o galho apalpa
os meus cabelos, mudo, aflito.
Cabe esquecer – mas não há nada
de que já tenha me esquecido.
Espuma afoga a lua; o miasma
estria os céus, verde e agressivo.
Sem pressa, enrolo com cuidado
o meu cigarro. Eu estou vivo.
(tradução de Nelson Ascher)
:
Tajtékos ég
Miklós Radnóti
Tajtékos égen ring a hold,
csodálkozom, hogy élek.
Szorgos halál kutatja ezt a kort
s akikre rálel, mind olyan fehérek.
Körülnéz néha s felsikolt az év,
körülnéz, aztán elalél.
Micsoda osz lapul mögöttem ujra
s micsoda fájdalomtól tompa tél!
Vérzett az erdo és a forgó
idoben vérzett minden óra.
Nagy és sötétlo számokat
írkált a szél a hóra.
Megértem azt is, ezt is,
súlyosnak érzem a levegot,
neszekkel teljes, langyos csönd ölel,
mint születésem elott.
Megállok itt a fa tövében,
lombját zúgatja mérgesen.
Lenyúl egy ág. Nyakonragad?
nem vagyok gyáva, gyönge sem,
csak fáradt. Hallgatok. S az ág is
némán motoz hajamban és ijedten.
Feledni kellene, de én
soha még semmit sem feledtem.
A holdra tajték zúdúl, az égen
sötétzöld sávot von a méreg.
Cigarettát sodrok magamnak,
lassan, gondosan. Élek.
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