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Poemas neste tema

Amor Romântico

Domingos Caldas Barbosa

Domingos Caldas Barbosa

Lundum em Louvor de uma Brasileira Adotiva

Eu vi correndo hoje o Tejo
Vinha soberbo e vaidoso;
Só por ter nas suas margens
O meigo Lundum gostoso.

Que lindas voltas que fez
Estendido pela praia
Queria beijar-lhe os pés.

Se o Lundum bem conhecera
Quem o havia cá dançar;
De gosto mesmo morrera
Sem poder nunca chegar.

Ai rum rum
Vence fandangos e gigas
A chulice do Lundum.

Quem me havia de dizer
Mas a coisa é verdadeira;
Que Lisboa produziu
Uma linda Brasileira.

Ai beleza
As outras são pela pátria
Esta pela Natureza.

Tomara que visse a gente
Como nhanhá dança aqui;
Talvez que o seu coração
Tivesse mestre d'ali.

Ai companheiro
Não será ou sim será
O jeitinho é Brasileiro.

Uns olhos assim voltados
Cabeça inclinada assim,
Os passinhos assim dados
Que vêm entender com mim.

Ai afeto
Lundum entendeu com eu
A gente está bem quieto.

Um lavar em seco a roupa
Um saltinho cai não cai;
O coração Brasileiro
A seus pés caindo vai.

Ai esperanças
É nas chulices de lá
Mas é de cá nas mudanças.

Este Lundum me dá vida
Quando o vejo assim dançar;
Mas temo se continua.
Que Lundum me há de matar.

Ai lembrança
Amor me trouxe o Lundum
Para meter-me na dança.

Nhanhá faz um pé de banco
Com seus quindins, seus popôs,
Tinha lançado os seus laços
Aperta assim mais os nós.

Oh! doçura
As lobedas de nhanhá
Apertam minha ternura.

Logo que nhanhá saiu
Logo que nhanhá dançou,
O cravo que tinha ao peito
Envergonhado murchou.

Ai que peito
Se quiser flores bem novas
Aqui tem Amor perfeito.

Pois segue as danças de lá
Os de lá deve querer;
E se tem de lá melindres
Nunca tenha malmequer.

Ai delírio
Ela semeia saudades
De enxerto no meu martírio.

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Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).

In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15)

NOTA: Chulice: de chulo; no texto, graças, malícias. Nhanhá: tratamento dado às meninas e às moças pelos escravos. Quindins: dengues, meiguices, encantos. Popôs: possivelmente "dengues". Lobedas: possivelmente "fitas". Melindre: planta também conhecida como beijo-de-frad
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Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

O Poeta e a Guerra

As noites de amor são minutos
Mas só em você me refugio de você.
Azul cobalto, azul cerúleo, azul turquesa
Ultramarino
E verde e verde e verde e amarelo
As noites de amor são minutos
Chegam inchadas de esperança
Vão-se dobradas de saudades
Roxos da madrugada
Vagidos da primeira vida
Quando eu me canso de você
É em você que eu descanso
Onde estou? Quem sou eu?
No estupor do remorso
na exaustão da tarefa
no entusiasmo viril
na depressão e na lama
ora esponja sensível
ora pedra bonita,
diamante ou argila,
Ariel, Cáliban,
Onde estou? Quem sou eu?
Oh por mais que saia de mim,
é em mim que torno a cair,
o mundo gira, rodopia,
num expressionismo de fogo.
Quem pensa em amor, meu bem,
sem coberta e sem comida
quem pensa em amor, perdido
pelas estradas sem fim?
O quarto ruiu sob as bombas
o bosque do idílio queimou
todos os beijos se crestaram.
Encolho-me todo no canto
mais profundo de mim mesmo.
Aí é que encontro você
de novo e sempre você;
aí é que longe dos outros
posso gozar esse amor
sonegado ao ódio de todos,
posso ter essa riqueza
roubada à miséria de todos.
Oh bem da gente, arisco bem da gente,
agora que tenho você
bem presa dentro de mim,
irei deixar o mal alheio
libertá-la de mim e prender-me?
Fecho os olhos raivosos para o mundo
tampo os ouvidos ao fragor da guerra.
As noites de amor são minutos
vão-se dobradas de saudades...
Ah, plantaremos outros bosques
Ah, construiremos outro quarto
para os beijos que não crestaram...
E talvez então escapemos
à maldição da desgraça
contra os felizes do amor!
Azul cobalto, azul cerúleo, azul turquesa
Ultramarino...


Publicado no livro Oh! Valsa Latejante...1922/1943: poemas (1943).

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.142-143. (Autores brasileiros, 19
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Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

À Beira do Caminho

Por essas tardes plácidas do campo,
— Tardes azuis de firmamento escampo,
Eu vou, través de longos carreadores,
Sentar-me num barranco, ermo e distante,
Sentindo o fresco aroma penetrante
Que vem da madressilva aberta em flores.

Tudo me entrista e punge nestas terras!
Os mesmos cafezais. As mesmas serras.
A mesma casa antiga da fazenda,
Que outrora viu, quando éramos meninos,
Nossos amores, nossos desatinos,
— Toda essa história descorada em lenda!

Quanta saudade! De manhã bem cedo,
Saíamos os dois pelo arvoredo,
De alma contente e exclamações na voz.
Como éramos apenas namorados,
E andássemos, a rir, de braços dados,
Os camponeses riam-se de nós!

Era dezembro. Florescia o milho,
Verde e glorioso como o nosso idílio.
Que lindas roças! Que estação aquela!
Toda a velha fazenda parecia,
Com sua larga e rústica alegria,
Mais cheia de aves, mais ruidosa e bela!

Ainda guardo, intata, na memória,
Aquela ingênua e deliciosa história,
Que foi o meu e o teu primeiro amor.
E ai! que recordação, que duro travo,
Lembrar que eu fui o teu rei o teu escravo,
Saber que fui eu teu servo e teu senhor!

E cismo... Cismo... A tarde vai tombando.
De lado a lado, claras, azulando,
Destacam-se as colinas no horizonte.
Tristonha, a várzea na amplidão se perde.
Lá em baixo um bambual sombrio e verde.
Um fio dágua. Uma arruinada ponte.

Assim, ao pôr do sol, triste e sozinho,
Sentado num barranco do caminho,
Sem que ninguém meu coração compreenda,
Olho a mata, olho os campos, olho a estrada
Ouvindo a melancólica toada
Que chora, ao longe, o piano da fazenda...


Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Moita de Rosas.

In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
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Silva Alvarenga

Silva Alvarenga

À Mangueira - Rondó XXXVII

Carinhosa e doce, ó Glaura,
Vem esta aura lisonjeira,
E a Mangueira já florida
Nos convida a respirar.

Sobre a relva o sol doirado
Bebe as lágrimas da Aurora,
E suave os dons de Flora
Neste prado vê brotar.

Ri-se a fonte: e bela e pura
Sai dos ásperos rochedos,
Os pendentes arvoredos
Com brandura a namorar.

Carinhosa e doce, ó Glaura,
Vem esta aura lisonjeira,
E a Mangueira já florida
Nos convida a respirar.

Com voz terna, harmoniosa
Canta alegre o passarinho,
Que defronte do seu ninho
Vem a esposa consolar.

Em festões os lírios trazem...
Ninfas, vinde... eu dou os braços;
Apertai de amor os laços,
Que me fazem suspirar.

Carinhosa e doce, ó Glaura,
Vem esta aura lisonjeira,
E a Mangueira já florida
Nos convida a respirar.

Vês das Graças o alvoroço?
Ah! prenderam entre flores
Os meus tímidos amores,
Que não posso desatar!

Como os cobre o casto pejo!
Mas os olhos inocentes
Inda mostram descontentes
O desejo de agradar.

Carinhosa e doce, ó Glaura,
Vem esta aura lisonjeira,
E a Mangueira já florida
Nos convida a respirar.

Vagaroso e com saudade,
Triste, lânguido e sombrio
Verdes bosques lava o rio
Sem vontade de os deixar.

Ao prazer as horas demos
Da Estação mais oportuna;
Que estes mimos da fortuna
Inda havemos de chorar.

Carinhosa e doce, ó Glaura,
Vem esta aura lisonjeira,
E a Mangueira já florida
Nos convida a respirar.


Publicado no livro Glaura: poemas eróticos de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, bacharel pela Universidade de Coimbra e professor de retórica no Rio de Janeiro. Na Arcádia, Alcindo Palmireno (1799).

In: ALVARENGA, Silva. Glaura: poemas eróticos. Pref. Afonso Arinos de Melo Franco. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943. (Biblioteca popular brasileira, 16
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