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Poemas neste tema

Solidão

Castro Alves

Castro Alves

Pedro Ivo

Sonhava nesta geração bastarda
Glórias e liberdade!...
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Era um leão sangrento, que rugia,
Da glória nos clarins se embriagava,
E vossa gente pálida recuava,
Quando ele aparecia.
ÁLVARES DE AZEVEDO


I

Rebramam os ventos... Da negra tormenta
Nos montes de nuvens galopa o corcel...
Relincha — troveja... galgando no espaço
Mil raios desperta co'as patas revel.

É noite de horrores... nas grunas celestes,
Nas naves etéreas o vento gemeu...
E os astros fugiram, qual bando de garças
Das águas revoltas do lago do céu.

E a terra é medonha... As árvores nuas
Espectros semelham fincados de pé,
Com os braços de múmias, que os ventos retorcem,
Tremendo a esse grito, que estranho lhes é.

Desperta o infinito... Co'a boca entreaberta
Respira a borrasca do largo pulmão.
Ao longe o oceano sacode as espáduas
— Encélado novo calcado no chão.

É noite de horrores... Por ínvio caminho
Um vulto sombrio sozinho passou,
Co'a noite no peito, co'a noite no busto
Subiu pelo monte, — nas cimas parou.

Cabelos esparsos ao sopro dos ventos,
Olhar desvairado, sinistro, fatal,
Diríeis estátua roçando nas nuvens,
P'ra qual a montanha se fez pedestal.

Rugia a procela — nem ele escutava!...
Mil raios choviam — nem ele os fitou!
Com a destra apontando bem longe a cidade,
Após largo tempo sombrio falou!...

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Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986

NOTA: Poema composto de 5 partes, datado de Recife, maio de 1865
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Sousândrade

Sousândrade

Canto Quinto

Noite. Está reclinado o Guesa Errante,
Olhando, — as grandes selvas se aclararam
À fogueira que acesa foi distante...
— Gritam das ruínas! as soidões gritaram!

E luzente na noite, para as chamas
Voa longo sibilo, serpentinos,
No ar desatando laços repentinos,
Fósfor nas bruno-lúcidas escamas,

E à fogueira lançou-se, do ar alado,
Surucucu-de-fogo! — árido ouvidos
Eram crebos funestos estalidos
Dos seus dúcteis anéis, o incêndio ateado!

Oh! quanto a chama e a cobra, tormentosas,
Uma à outra envolviam-se raivando
Por mútua antipatia! e mais lutando,
Mais, deslocando-se achas resinosas,

Em labareda as chamas se laceram,
Que ao meio delas, rúbida, convulsa,
S'esmalta a cobra e relampeia e pulsa,
Desdobrada espiral! — Emudeceram

Do Guesa os servos, que dispersos foram
E brandando e bradando amedrontados;
Grupam-se ao longo; enquanto os apagados
Incêndios vêem braseiros que descoram.

Mas, desondeando pela terra o açoite,
A cobra, em todo o orgulho de serpente,
Alça o colo; e ciciando, e lentamente,
O Guesa a vê passar través da noite;

E luminosa e qual se então se houvesse,
Vencidas chamas, acendido nelas,
Traço de luz, lhe nota as malhas belas
Do vermelhão, que às iras resplandece.

Ora apagou-se; e dum brunido umbrio,
Penetrou das ruínas na caverna:
Lá, viva tocha o crânio, vela eterna;
Os viandantes a vêem — quem nunca a viu?

Umbrosa e tarda, à do silêncio guarda,
Oh! paz e amor ao gênio bom dos lares,
Que a luz ofende, que importuna acende
Pródigo filho, a dor destes lugares!

E esta Equidade eterna, que aos céus dera
O raio serpentino, deu à terra
A serpente radiante — açoite e açoite,
Ou relâmpago, ou ação fugaz da noite.

A dor foi longa, viu-se a pausa que houve —
E continua a Guesa, tristemente
A fronte a alevantar, que tão pendente
Taciturna caía —
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In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888

NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
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Raul Pompéia

Raul Pompéia

Inverno

Ya la esperanza a los hombres
Para siempre abandonó:
Los recuerdos son tan solo
Pasto de su corazon.

J. DE ESPRONCEDA.
(El Diablo mundo).

Inverno! inverno! inverno!
Tristes nevoeiros, frios negrumes da longa treva boreal,
descampados de gelo cujo limite escapa-nos sempre, desesperadamente,
para lá do horizonte, perpétua solidão inóspita, onde apenas se ouve
a voz do vento que passa uivando como uma legião de lobos, através da
cidade de catedrais e túmulos de cristal na planície, fantasmas que a
miragem povoam e animam, tudo isto: decepções, obscuridade, solidão,
desespero e a hora invisível que passa como o vento, tudo isto é o
frio inverno da vida.
Há no espírito o luto profundo daquele céu de bruma dos lugares
onde a natureza dorme por meses, à espera do sol avaro que não vem.
Nem ao menos a letargia acorda ao clarão de falsas auroras, nem
uma vez ao menos a cúpula unida das névoas abre um postigo para o
outro céu, a região dos astros. Nada! Nada! Procuramos encontrar
fora de nós alguma coisa do que nos falta e os pobres olhos cansados
não vão além dos cabelos brancos que caem pela fronte; sofre-se
o desengano do invernado que da fria choupana contasse ver a seara
loura dos bons dias por entre as franjas de neve que os tetos babam
ao frio.

Tudo sombrio e triste. Triste o derradeiro consolo do inverno que
embriaga entretanto como o último vinho dos condenados: a recordação
dos dias idos, a acerba saudade da primavera.


Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série II - Amar.

In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.53. (Vera Cruz, 324c
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Franz Kafka

Franz Kafka

O Exame

Sou um criado, mas não há trabalho para mim. Sou medroso e não me ponho em evidência; nem sequer me coloco em fila com os outros, mas isto é apenas uma das causas de minha falta de ocupação; também é possível que minha falta de ocupação nada tenha a ver com isso; o mais importante é, em todo caso, que não sou chamado a prestar serviço; outros foram chamados e não fizeram mais gestões que eu; e talvem nem mesmo tenham tido alguma vez o desejo de serem chamados, enquanto que eu o senti, às vêzes, muito intensamente. Assim permaneço, pois, no catre, no quarto de criados, o olhar fixo nas vigas do teto, durmo, desperto e, em seguida, torno a adormecer. Às vêzes cruzo até a taverna onde servem cerveja azêda; algumas vêzes por desfastio emborquei um copo, mas depois volto a beber. Gosto de sentar-me ali por que, atrás da pequena janela fechada e sem que ninguém me descubra, posso olhar as janelas de nossa casa. Não se vê grande coisa; sôbre a rua, dão, segundo creio, apenas as janelas dos corredores, e além do mais, não daqueles que conduzem aos aposentos dos senhores; é possível também que eu me engane; alguém o sustentou certa vez, sem que eu lhe perguntasse, e a impressão geral da fachada o confirma. Apenas de vez em quando são abertas as janelas, e quando isso acontece, o faz um criado, o qual, então, se inclina também sôbre o parapeito para olhar para baixo um instantinho. São, pois, corredores onde não se pode ser surpreendido. Além do mais não conheço esses criados; os que são ocupados permanentemente na parte de cima, dormem em outro lugar; não em meu quarto. Uma vez, ao chegar à hospedaria, um hóspede ocupava já o meu posto de observação; não me atrevi a olhar diretamente para onde estava e quis voltar-me na porta para sair em seguida. Mas o hóspede me chamou e, assim, então, percebi que era também um criado ao qual eu tinha visto alguma vez e em alguma parte, embora sem tar falado nunca com ele até aquele dia. -Por que queres fugir? Senta-te aqui e bebe. Eu pago. Sentei-me, pois. Perguntou-me algo, mas não pude responder-lhe; não compreendia sequer as perguntas. Pelo menos eu disse: -Talvez agora te aborreça o fato de ter-me convidado. Vou-me, pois. E quis erguer-me. Mas ele estendeu a mão por cima da mesa e me manteve em meu lugar. -Fica-te!,disse. Isto era somente um exame. Aquele que não respondesse às perguntas está aprovado no exame.

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