Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Fernando Pessoa
SALUTE TO THE SUN’S ENTRY INTO ARIES
Now at the doorway of the coming year,
Ye nymphs do gather and the garlands twine
That heroes' sons will bear
Fifty years hence in their remembering hands
And of their fathers speak with shining eyes
And of the war that stained the lands.
Weave ye the garlands, for the fame will pass,
And their grandchildren of grandchildren will
No more remember, neither care
Who their ancestor was
Who did that old crown, now scarce a crown, bear
For all must pass, that Time may have his fill.
Weave ye the garlands therefore, for this hour
Will not survive beyond the memory
Of those yet near to it who have the power
The hour somewhat like what it was to see.
Weave ye the garlands, weave
That their memory may live
Awhile, and if that mean that fame is nought,
Weave still the garlands with a gentle thought,
For weaving them, know ye
What to Time's elder shades you yet may give.
The days are heavy with the blood of men,
The year reels like a shattered wall
When the wind comes out of the caves of night.
Our minds are equal with the shaking...
We know not on what power to call
Or which side of the Truth lies right.
Alas! alas! all sides are right in war,
And that impartial vision born of peace,
And that the Gods alone can have,
Lives only in our wish that dim wars mar,
Breathes only in the halls of our release
From all the human things for which we crave.
But these are thoughts, and life is grief and fear.
Weave ye the garlands, lest the coming year
Forget, like ye, the fallen to remember
And the victors to greet.
Weave ye the garlands made
Of some strange flower that lasts unto December
And lay them at Fate's unseen feet.
Ay, for not for the heroes nor the slain
Weave ye the garlands woven with your pain.
Not for the fallen do your cheeks awhile
Flush then grow pale and your proud pain smile.
Not for a man nor for a nation do
Your garlands outreach Time
Perhaps and in eternal regions chime
With the sense of their fame who were e'er true.
For Fate alone all garlands woven are.
Unto Fate's feet the rivers of our tears
Perennial run, nor is there aught more far
Alas! than mere Fate that outwits the sun,
And that in circles round its empty name
Carries the vain course of our sterile fame
And great men as great nations equal lead
Vainly around the frame
Of nothing, like a wind along a mead.
Yet, whether for some man or for no man,
Whether for personal hopes or Fate no one,
Your garlands weave, lest the year come und span
With days fame‑empty the task e'er begun.
Weave garlands, green glad garlands, garlands sad,
Garlands of all sorts, if they glory mean,
Carry your woven garlands to their grave...
The rest is something that cannot be had -
The void as of a ship sunk nor more seen
Beneath the wave.
Ye nymphs do gather and the garlands twine
That heroes' sons will bear
Fifty years hence in their remembering hands
And of their fathers speak with shining eyes
And of the war that stained the lands.
Weave ye the garlands, for the fame will pass,
And their grandchildren of grandchildren will
No more remember, neither care
Who their ancestor was
Who did that old crown, now scarce a crown, bear
For all must pass, that Time may have his fill.
Weave ye the garlands therefore, for this hour
Will not survive beyond the memory
Of those yet near to it who have the power
The hour somewhat like what it was to see.
Weave ye the garlands, weave
That their memory may live
Awhile, and if that mean that fame is nought,
Weave still the garlands with a gentle thought,
For weaving them, know ye
What to Time's elder shades you yet may give.
The days are heavy with the blood of men,
The year reels like a shattered wall
When the wind comes out of the caves of night.
Our minds are equal with the shaking...
We know not on what power to call
Or which side of the Truth lies right.
Alas! alas! all sides are right in war,
And that impartial vision born of peace,
And that the Gods alone can have,
Lives only in our wish that dim wars mar,
Breathes only in the halls of our release
From all the human things for which we crave.
But these are thoughts, and life is grief and fear.
Weave ye the garlands, lest the coming year
Forget, like ye, the fallen to remember
And the victors to greet.
Weave ye the garlands made
Of some strange flower that lasts unto December
And lay them at Fate's unseen feet.
Ay, for not for the heroes nor the slain
Weave ye the garlands woven with your pain.
Not for the fallen do your cheeks awhile
Flush then grow pale and your proud pain smile.
Not for a man nor for a nation do
Your garlands outreach Time
Perhaps and in eternal regions chime
With the sense of their fame who were e'er true.
For Fate alone all garlands woven are.
Unto Fate's feet the rivers of our tears
Perennial run, nor is there aught more far
Alas! than mere Fate that outwits the sun,
And that in circles round its empty name
Carries the vain course of our sterile fame
And great men as great nations equal lead
Vainly around the frame
Of nothing, like a wind along a mead.
Yet, whether for some man or for no man,
Whether for personal hopes or Fate no one,
Your garlands weave, lest the year come und span
With days fame‑empty the task e'er begun.
Weave garlands, green glad garlands, garlands sad,
Garlands of all sorts, if they glory mean,
Carry your woven garlands to their grave...
The rest is something that cannot be had -
The void as of a ship sunk nor more seen
Beneath the wave.
1 565
1
Bruno Kampel
Nova Era
Saberão os herdeiros do novo tempo
suar de angústia
chorar de ternura
tocar olhando
dizer calando?
Poderão os inquilinos do futuro
morrer de amor e renascer
pedir perdão por não saber
tender a mão sem exigir
gritar verdades sem temor?
Descobrirá o amanhã entrante
que herda carícias impotentes
promessas incumpridas
mentiras verdadeiras
e instantes decisivos?
Quererão os dias vindouros
escancarar a porta à esperança
ler o testamento do passado
e entender, e entender, e entender?...
Já veremos quanto saberá o futuro
já ouviremos o que dirão seus anos
e o que farão seus filhos
e suas máquinas
e seus líderes
e suas bombas
e seus hinos.
Já teremos tempo de saber
se o que sabe tem gosto a esperança
se o que diz ensina o caminho
se o que oferece vale o seu preço.
As respostas virão cravadas
no horizonte cibernético
no firmamento internáutico
na ignorância terapéutica
ocultando o essencial
do vital
do letal
do fatal.
Veremos o que queiram?...
Faremos o que digam?...
Seremos migalhas errantes
sobre a toalha do tempo?...
suar de angústia
chorar de ternura
tocar olhando
dizer calando?
Poderão os inquilinos do futuro
morrer de amor e renascer
pedir perdão por não saber
tender a mão sem exigir
gritar verdades sem temor?
Descobrirá o amanhã entrante
que herda carícias impotentes
promessas incumpridas
mentiras verdadeiras
e instantes decisivos?
Quererão os dias vindouros
escancarar a porta à esperança
ler o testamento do passado
e entender, e entender, e entender?...
Já veremos quanto saberá o futuro
já ouviremos o que dirão seus anos
e o que farão seus filhos
e suas máquinas
e seus líderes
e suas bombas
e seus hinos.
Já teremos tempo de saber
se o que sabe tem gosto a esperança
se o que diz ensina o caminho
se o que oferece vale o seu preço.
As respostas virão cravadas
no horizonte cibernético
no firmamento internáutico
na ignorância terapéutica
ocultando o essencial
do vital
do letal
do fatal.
Veremos o que queiram?...
Faremos o que digam?...
Seremos migalhas errantes
sobre a toalha do tempo?...
1 319
1
Fernando Pessoa
PEDROUÇOS
Quando eu era pequeno não sabia
Que cresceria.
Pelo menos não o sentia.
Naquela idade o tempo não existe.
Cada dia é a mesma mesa
Com o mesmo quintal ao fundo;
E quando se sente tristeza
Está tristeza, mas não se está triste.
Eu era assim
E todas as crianças d'este mundo
Assim foram antes de mim.
O quintal grande estava dividido
Por uma frágil grade, alta, de tiras
Cruzadas, de madeirinhas,
Em horta e em jardim.
Meu coração anda esquecido,
Mas não minha visão. De ela não tires
Tempo, esse quadro onde o feliz que eu fui
Dá-me uma felicidade ainda minha!
Inútil o teu frio curso flui
Para quem das lembranças se acarinha.
Que cresceria.
Pelo menos não o sentia.
Naquela idade o tempo não existe.
Cada dia é a mesma mesa
Com o mesmo quintal ao fundo;
E quando se sente tristeza
Está tristeza, mas não se está triste.
Eu era assim
E todas as crianças d'este mundo
Assim foram antes de mim.
O quintal grande estava dividido
Por uma frágil grade, alta, de tiras
Cruzadas, de madeirinhas,
Em horta e em jardim.
Meu coração anda esquecido,
Mas não minha visão. De ela não tires
Tempo, esse quadro onde o feliz que eu fui
Dá-me uma felicidade ainda minha!
Inútil o teu frio curso flui
Para quem das lembranças se acarinha.
1 836
1
Bruno Kampel
Noite em claro
Olheiras perplexas
deliram perguntas
que roem as unhas
das horas que passam
e estas insones
qual arame farpado
bordam respostas de pedra
que convidam ao quebranto
que doem sem clemência
que ferem sem vergonha
e morrem sem vontade
enquanto a madrugada
esvai-se gota a gota
e o perfil da aurora
entre um bocejo e outro
pendura-se nos olhos
da noite que agoniza
ao passo que a alvorada
cumprindo seu destino
floresce pontualmente
e inventa um novo dia.
deliram perguntas
que roem as unhas
das horas que passam
e estas insones
qual arame farpado
bordam respostas de pedra
que convidam ao quebranto
que doem sem clemência
que ferem sem vergonha
e morrem sem vontade
enquanto a madrugada
esvai-se gota a gota
e o perfil da aurora
entre um bocejo e outro
pendura-se nos olhos
da noite que agoniza
ao passo que a alvorada
cumprindo seu destino
floresce pontualmente
e inventa um novo dia.
824
1
Fernando Pessoa
Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega —
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega —
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.
2 387
1
Joseph Brodsky
M.B.
Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde
para respirar o ar fresco que vinha do oceano.
O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro
e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano.
Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,
tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,
divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro
e, a julgar pelas cartas, tomaste-te aflitivamente idiota.
Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,
em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora
não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda
distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.
Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome
já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,
só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos
de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.
Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre – salvo talvez
numa fotografia - de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?
Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez
dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.
Tradução de Carlos Leite. Paisagem Com Inundação (Lisboa: Edições Cotovia, 2001).
1 321
1
Rui Knopfli
Certidão de óbito
Um tempo de lanças nuas
espera por nós, riso
cruel de maxilas em riste.
Entanto a vida desabrocha
tenra e tépida,
fruto e flor na ânsia secular
de quem tanto esperou em vão.
Para nós, todavia,
o tempo é de lanças impiedosas,
de lâminas em cuja brancura
se adivinha já um indício
do nosso sangue. Deste tempo
sobrou-nos a acerado das lanças:
este o quinhão ácido que nos coube
e que mastigamos resignadamente.
Entanto, num levedar de ternura,
frágil e muito bela, a vida desponta
na negra polpa de outros dedos.
Para nós, o prémio do aço,
a estrela da pólvora, a comenda do fogo.
Para nós a consolação do sorriso triste
e da amargura sabida. Falamo-nos
e nas palavras mais comuns
há rituais de depedida. Falamos
e as palavras que dizemos
dizem adeus.
espera por nós, riso
cruel de maxilas em riste.
Entanto a vida desabrocha
tenra e tépida,
fruto e flor na ânsia secular
de quem tanto esperou em vão.
Para nós, todavia,
o tempo é de lanças impiedosas,
de lâminas em cuja brancura
se adivinha já um indício
do nosso sangue. Deste tempo
sobrou-nos a acerado das lanças:
este o quinhão ácido que nos coube
e que mastigamos resignadamente.
Entanto, num levedar de ternura,
frágil e muito bela, a vida desponta
na negra polpa de outros dedos.
Para nós, o prémio do aço,
a estrela da pólvora, a comenda do fogo.
Para nós a consolação do sorriso triste
e da amargura sabida. Falamo-nos
e nas palavras mais comuns
há rituais de depedida. Falamos
e as palavras que dizemos
dizem adeus.
1 996
1
João Apolinário
A pressa de chegar...
A pressa de chegar
correr correr
sem poder esperar
Chegar para morrer
–
A pressa de chegar
O desvario obtuso
O medo de parar
gasto pelo uso
de estar
–
A pressa de chegar
A pressa a louca pressa
de poder encontrar
aquilo que me esqueça
de levar
–
A pressa de chegar
correr correr
sem poder esperar
Chegar para morrer
.
.
.
correr correr
sem poder esperar
Chegar para morrer
–
A pressa de chegar
O desvario obtuso
O medo de parar
gasto pelo uso
de estar
–
A pressa de chegar
A pressa a louca pressa
de poder encontrar
aquilo que me esqueça
de levar
–
A pressa de chegar
correr correr
sem poder esperar
Chegar para morrer
.
.
.
1 458
1
Vasco Graça Moura
Vita Brevis
a vida breve, revele-a
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,
é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
a tentar deixá-la escrita
mas não conta o que escapou
pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,
nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz.
a pulsação que lateja
no efémero da camélia,
ou no lustro da cereja,
é a do coração que dita
a dor que lhe sobejou
a tentar deixá-la escrita
mas não conta o que escapou
pelo espelho, quando a máscara
vai perdendo o frenesim,
e agora tanto lhe faz: para
o caso é mesmo assim,
nem há lixa ou aguarrás
que apague as marcas que traz.
2 798
1
Adalgisa Nery
Instante
O espanto abriu meu pensamento
Com idioma vindo do delírio,
Dos receios indefesos, dos louvores sem raízes,
No perdão oferecido sem razão.
O espanto abriu meu pensamento
Na noite carregada de lamentos
Em linguagem universal
Fluindo do eco perdido
Com passos de presságio amanhecendo.
Corpos florindo na pele da terra
Acendendo vida nas rosas e nos vermes,
Aumentando a potência do limo,
Preparando a primavera nos campos,
Ventres irrigando secas raízes,
Cogumelos róseos crescendo
Na umidade das faces.
Coagulação de prantos na semente
Das constelações adivinhadas.
E no faminto inconsciente, o tempo
Sorvendo com fúria o seu sustento
No insondável silêncio de mim mesma.
(Adalgisa Nery)
Com idioma vindo do delírio,
Dos receios indefesos, dos louvores sem raízes,
No perdão oferecido sem razão.
O espanto abriu meu pensamento
Na noite carregada de lamentos
Em linguagem universal
Fluindo do eco perdido
Com passos de presságio amanhecendo.
Corpos florindo na pele da terra
Acendendo vida nas rosas e nos vermes,
Aumentando a potência do limo,
Preparando a primavera nos campos,
Ventres irrigando secas raízes,
Cogumelos róseos crescendo
Na umidade das faces.
Coagulação de prantos na semente
Das constelações adivinhadas.
E no faminto inconsciente, o tempo
Sorvendo com fúria o seu sustento
No insondável silêncio de mim mesma.
(Adalgisa Nery)
1 866
1
Jaime Gil de Biedma
Não Voltarei a Ser Jovem
Que é certo a vida passa
só se começa a compreender mais tarde
— como todos os jovens, decidi
levar a minha vida por diante.
Deixar marca eu queria
e partir entre aplausos
— envelhecer, morrer, eram somente
as dimensões do teatro.
Porém, passou o tempo
e a verdade mais amarga assoma:
envelhecer, morrer,
é o argumento único da obra.
(dePoemas Póstumos)
1 211
1
Emily Dickinson
695
Como se o Mar se apartasse
E mostrasse um Mar além –
E este – um outro – e os Três
Apenas fossem a suspeita –
De um suceder de Mares –
Não tocados por nenhuma Praia –
Eles mesmos sendo a Orla de Mares a vir –
Eis aí – a Eternidade –
1 460
1
Natália Correia
O Espírito
Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.
1 512
1
Mário Dionísio
Branco de neve
Branco de neve
branco de leite
branco de cal
branco de lua
Contra branco outro branco
Um outro branco ainda sobre um novo branco
de espuma
com areia quase branca
Toda a ternura a fadiga a mágoa imensa
do branco contra branco sobre branco
na brancura mergulha branca flui
Branco entre limos
Branco entre mastros
Por túneis brancos ruas brancas sombras brancas
maciamente o branco longamente inventa branco
na crua branca amargura dos anos cegos Brancos
branco de leite
branco de cal
branco de lua
Contra branco outro branco
Um outro branco ainda sobre um novo branco
de espuma
com areia quase branca
Toda a ternura a fadiga a mágoa imensa
do branco contra branco sobre branco
na brancura mergulha branca flui
Branco entre limos
Branco entre mastros
Por túneis brancos ruas brancas sombras brancas
maciamente o branco longamente inventa branco
na crua branca amargura dos anos cegos Brancos
1 751
1
Edgar Allan Poe
Um sonho num sonho
Este beijo em tua fronte deponho!
Vou partir. E bem pode, quem parte,
francamente aqui vir confessar-te
que bastante razão tinhas, quando
comparaste meus dias a um sonho.
Se a esperança se vai, esvoaçando,
que me importa se é noite ou se é dia...
ente real ou visão fugidia?
De maneira qualquer fugiria.
O que vejo, o que sou e suponho
não é mais do que um sonho num sonho.
Fico em meio ao clamor, que se alteia
de uma praia, que a vaga tortura.
Minha mão grãos de areia segura
com bem força, que é de ouro essa areia.
São tão poucos! Mas, fogem-me, pelos
dedos, para a profunda água escura.
Os meus olhos se inundam de pranto.
Oh! meu Deus! E não posso retê-los,
se os aperto na mão, tanto e tanto?
Ah! meu Deus! E não posso salvar
um ao menos da fúria do mar?
O que vejo, o que sou e suponho
será apenas um sonho num sonho?
Vou partir. E bem pode, quem parte,
francamente aqui vir confessar-te
que bastante razão tinhas, quando
comparaste meus dias a um sonho.
Se a esperança se vai, esvoaçando,
que me importa se é noite ou se é dia...
ente real ou visão fugidia?
De maneira qualquer fugiria.
O que vejo, o que sou e suponho
não é mais do que um sonho num sonho.
Fico em meio ao clamor, que se alteia
de uma praia, que a vaga tortura.
Minha mão grãos de areia segura
com bem força, que é de ouro essa areia.
São tão poucos! Mas, fogem-me, pelos
dedos, para a profunda água escura.
Os meus olhos se inundam de pranto.
Oh! meu Deus! E não posso retê-los,
se os aperto na mão, tanto e tanto?
Ah! meu Deus! E não posso salvar
um ao menos da fúria do mar?
O que vejo, o que sou e suponho
será apenas um sonho num sonho?
2 445
1
Emílio de Menezes
Tarde na Praia
A Leal de Souza
Quando, à primeira vez, lhe vi a grandeza,
Foi nos tempos da longe meninice.
E quedei-me à mudez de quem sentisse
A alma de pasmos e terrores presa.
Depois, na mocidade, a olhá-lo, disse:
É moço o mar na força e na beleza!
Mas, ao dia apagado e à noite acesa,
Hoje o sinto entre as brumas da velhice.
Distanciado de escarpas e barrancos,
Vejo a morrer-me aos pés, calmo, ao abrigo
Das grandes fúrias e os hostis arrancos.
E ao contemplá-lo assim, tristonho digo,
Vendo-lhe, à espuma, os meus cabelos brancos:
O velho mar envelheceu comigo!
Publicado no livro Últimas rimas (1917).
In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 198
Quando, à primeira vez, lhe vi a grandeza,
Foi nos tempos da longe meninice.
E quedei-me à mudez de quem sentisse
A alma de pasmos e terrores presa.
Depois, na mocidade, a olhá-lo, disse:
É moço o mar na força e na beleza!
Mas, ao dia apagado e à noite acesa,
Hoje o sinto entre as brumas da velhice.
Distanciado de escarpas e barrancos,
Vejo a morrer-me aos pés, calmo, ao abrigo
Das grandes fúrias e os hostis arrancos.
E ao contemplá-lo assim, tristonho digo,
Vendo-lhe, à espuma, os meus cabelos brancos:
O velho mar envelheceu comigo!
Publicado no livro Últimas rimas (1917).
In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 198
2 081
1
Gonçalves Crespo
O Relógio
Ebúrneo é o mostrador: as horas são de prata
Lê-se a firma Breguet por baixo do gracioso
Rendilhado ponteiro; a tampa é enorme e chata:
Nela o esmalte produz um quadro delicioso.
Repara: eis um salão: casquilho malicioso
Das festas cortesãs o mimo, a flor, a nata,
Junto a um cravo sonoro a alegre voz desata.
Uma fidalga o escuta ébria de amor e gozo.
Rasga-se ampla a janela; ao longe o olhar descobre
O correto jardim e o parque extenso e nobre.
As nuvens no alto céu flutuam como espumas.
Da paisagem no fundo, em lago transparente,
Onde se espelha o azul e o laranjal frondente,
Um cisne à luz do sol estende as níveas plumas.
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
Lê-se a firma Breguet por baixo do gracioso
Rendilhado ponteiro; a tampa é enorme e chata:
Nela o esmalte produz um quadro delicioso.
Repara: eis um salão: casquilho malicioso
Das festas cortesãs o mimo, a flor, a nata,
Junto a um cravo sonoro a alegre voz desata.
Uma fidalga o escuta ébria de amor e gozo.
Rasga-se ampla a janela; ao longe o olhar descobre
O correto jardim e o parque extenso e nobre.
As nuvens no alto céu flutuam como espumas.
Da paisagem no fundo, em lago transparente,
Onde se espelha o azul e o laranjal frondente,
Um cisne à luz do sol estende as níveas plumas.
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
2 107
1
Olegário Mariano
Castelos na Areia
— Que iluminura é aquela, fugidia,
Que o poente à beira-mar beija e incendeia?
— É apenas a criação da fantasia: —
São castelos na areia.
Andam, tontas de sol, brincando as crianças
Como abelhas que voaram da colmeia.
Erguem torreões fictícios de esperanças...
São castelos na areia.
Ao canto de um jardim adormecido:
"Por que não crês no afeto que me enleia?
E as palavras que eu disse ao teu ouvido?"
— São castelos na areia.
E o tempo vai tecendo, da desgraça,
Na roca do destino, a eterna teia.
— "E os beijos que trocamos?" — Tudo passa,
São castelos na areia.
Coração! Por que bates com ansiedade?
Que dor é a grande dor que te golpeia?
Ouve as palavras da Fatalidade:
Ventura, Amor, Sonho, Felicidade,
São castelos na areia.
Publicado no livro Castelos na Areia: poemas (1923).
In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
Que o poente à beira-mar beija e incendeia?
— É apenas a criação da fantasia: —
São castelos na areia.
Andam, tontas de sol, brincando as crianças
Como abelhas que voaram da colmeia.
Erguem torreões fictícios de esperanças...
São castelos na areia.
Ao canto de um jardim adormecido:
"Por que não crês no afeto que me enleia?
E as palavras que eu disse ao teu ouvido?"
— São castelos na areia.
E o tempo vai tecendo, da desgraça,
Na roca do destino, a eterna teia.
— "E os beijos que trocamos?" — Tudo passa,
São castelos na areia.
Coração! Por que bates com ansiedade?
Que dor é a grande dor que te golpeia?
Ouve as palavras da Fatalidade:
Ventura, Amor, Sonho, Felicidade,
São castelos na areia.
Publicado no livro Castelos na Areia: poemas (1923).
In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
1 836
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Alphonsus de Guimaraens
XL [O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é só como um deserto.
Quem sabe quando vem as horas calmas?
Quem sabe se a ventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto.
O que nos cerca é a fugitiva imagem
Do que sentimos, do que longe vemos,
Sempre sofrendo, sempre em vassalagem.
A vida é um barco a voar. Soltem-se os remos...
Cada um de nós da morte é servo e pajem:
Somos felizes só porque morremos.
Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Sonetos / Pulvis.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 350. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é só como um deserto.
Quem sabe quando vem as horas calmas?
Quem sabe se a ventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto.
O que nos cerca é a fugitiva imagem
Do que sentimos, do que longe vemos,
Sempre sofrendo, sempre em vassalagem.
A vida é um barco a voar. Soltem-se os remos...
Cada um de nós da morte é servo e pajem:
Somos felizes só porque morremos.
Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Sonetos / Pulvis.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 350. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
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Raul de Leoni
Decadência
Afinal, é o costume de viver
Que nos faz ir vivendo para a frente.
Nenhuma outra intenção, mas, simplesmente
O hábito melancólico de ser...
Vai-se vivendo... é o vício de viver...
E se esse vício dá qualquer prazer à gente,
Como todo prazer vicioso é triste e doente,
Porque o Vício é a doença do Prazer...
Vai-se vivendo... vive-se demais,
E um dia chega em que tudo que somos
É apenas a saudade do que fomos...
Vai-se vivendo... e muitas vezes nem sentimos
Que somos sombras, que já não somos mais nada
Do que os sobreviventes de nós mesmos!...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
Que nos faz ir vivendo para a frente.
Nenhuma outra intenção, mas, simplesmente
O hábito melancólico de ser...
Vai-se vivendo... é o vício de viver...
E se esse vício dá qualquer prazer à gente,
Como todo prazer vicioso é triste e doente,
Porque o Vício é a doença do Prazer...
Vai-se vivendo... vive-se demais,
E um dia chega em que tudo que somos
É apenas a saudade do que fomos...
Vai-se vivendo... e muitas vezes nem sentimos
Que somos sombras, que já não somos mais nada
Do que os sobreviventes de nós mesmos!...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
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Eduardo Alves da Costa
O Poeta Eduardo Leva seu Cão Raivoso a Passear
Eduardo, louco em férias, poeta disfarçado em
burocrata, levanta-se todos os dias com
péssimo humor, para ser devorado pelo
relógio de ponto.
Obediente, amável, prestativo, conhece a fisionomia
dos carimbos, sabe de cor o roteiro
dos papéis e sente uma vontade secreta de
atear fogo aos arquivos.
Adora olhar pela janela. Está sempre olhando
pela janela, muito embora nada aconteça.
Acredita nos homens, entregaria sua vida por
eles, porque é um tolo, um humanista
impenitente, um amante das grandes causas,
um aprendiz de santo, um sofredor pela
miséria alheia, uma vítima do melodramático,
um desprotegido contra a chantagem
emocional, com uma farpa da cruz atravessada
no coração.
Espera ansioso o momento de lutar pelo proletariado
mas não compreende como se
resolverá o problema de acomodar os milhões
de traseiros num único trono. E se prepara,
desde logo, para enfrentar os burocratas,
os donos do poder e o pelotão de fuzilamento.
Odeia os delegados, representantes, procuradores,
emissários, substitutos, intermediários,
signatários e mensageiros.
(...)
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
burocrata, levanta-se todos os dias com
péssimo humor, para ser devorado pelo
relógio de ponto.
Obediente, amável, prestativo, conhece a fisionomia
dos carimbos, sabe de cor o roteiro
dos papéis e sente uma vontade secreta de
atear fogo aos arquivos.
Adora olhar pela janela. Está sempre olhando
pela janela, muito embora nada aconteça.
Acredita nos homens, entregaria sua vida por
eles, porque é um tolo, um humanista
impenitente, um amante das grandes causas,
um aprendiz de santo, um sofredor pela
miséria alheia, uma vítima do melodramático,
um desprotegido contra a chantagem
emocional, com uma farpa da cruz atravessada
no coração.
Espera ansioso o momento de lutar pelo proletariado
mas não compreende como se
resolverá o problema de acomodar os milhões
de traseiros num único trono. E se prepara,
desde logo, para enfrentar os burocratas,
os donos do poder e o pelotão de fuzilamento.
Odeia os delegados, representantes, procuradores,
emissários, substitutos, intermediários,
signatários e mensageiros.
(...)
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
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Olga Savary
Caiçuçáua
Sempre o verão
e algum inverno
nesta cidade sem outono
e pouca primavera:
tudo isto te vê entrar
em mim todo inteiro
e eu em fogo vou bebendo
todos os teus rios
com uma insaciável sede
que te segue às estações
no dia aceso.
Em tua água sim está meu tempo,
meu começo. E depois nem poder ordenar:
te acalma, minha paixão.
In: SAVARY, Olga. Linha d'água. Pref. Felipe Fortuna. Il. Kazuo Wakabayashi. São Paulo: Massao Ohno; Niterói: Hipocampo, 1987.
NOTA: Do tupi = amor, amad
e algum inverno
nesta cidade sem outono
e pouca primavera:
tudo isto te vê entrar
em mim todo inteiro
e eu em fogo vou bebendo
todos os teus rios
com uma insaciável sede
que te segue às estações
no dia aceso.
Em tua água sim está meu tempo,
meu começo. E depois nem poder ordenar:
te acalma, minha paixão.
In: SAVARY, Olga. Linha d'água. Pref. Felipe Fortuna. Il. Kazuo Wakabayashi. São Paulo: Massao Ohno; Niterói: Hipocampo, 1987.
NOTA: Do tupi = amor, amad
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Carlos Nejar
Alforria
Pássaros somos
sem menor retorno.
Depois as asas doem
e as folhas tombam.
Aos poucos
vou comprando
a liberdade.
Os sapatos doem,
as roupas doem,
a morte
não tem dor,
doendo em nós.
Aos poucos
vou comprando
a liberdade.
De chofre
nada nasce
A vigilância
cobre nosso sono
com gaiolas e tômbolas.
E o comércio
do sonho
se dissolve.
Aos poucos
vou comprando
a eternidade.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
sem menor retorno.
Depois as asas doem
e as folhas tombam.
Aos poucos
vou comprando
a liberdade.
Os sapatos doem,
as roupas doem,
a morte
não tem dor,
doendo em nós.
Aos poucos
vou comprando
a liberdade.
De chofre
nada nasce
A vigilância
cobre nosso sono
com gaiolas e tômbolas.
E o comércio
do sonho
se dissolve.
Aos poucos
vou comprando
a eternidade.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
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Augusto Frederico Schmidt
Ouço uma Fonte
Ouço uma fonte
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.
É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.
É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.
É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.
É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.
É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!
Publicado no livro Fonte invisível (1949).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.
É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.
É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.
É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.
É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.
É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!
Publicado no livro Fonte invisível (1949).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956
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