Dos arcos do povo
o arco-íris,
escrito no vento,
parece assinatura
das léguas do tempo
flui nos olhos
como exata ponte
nas cores que lança
no horizonte
assim como um recado
ninguém sabe de onde
o arco do povo
inscrito nas ruas
é a assinatura civil
dos arco-íris da luta
do samba em passos e medidas
o sambista
pisando suas mágoas
enche o ritmo dos olhos
que inventa pelo asfalto
tece tambores oníricos
na marcação das batidas
e marca todos os agogos
das correntezas da vida
o sambista é só um transeunte
engravidando de rumo a avenida
Onírica rapsódia
o futuro,
quando posto na vida
como tempo decidido,
em que não haja mais sonhos
com homens em seus vincos
mas astronaves perfurando
o infinito em seus instintos
haverá saudades - quem sabe?
de um sonho mais corriqueiro
que use apenas a liberdade
de dormir todos os desejos
nos ombros da vontade
Do menino de Alepo
em Alepo, nos escombros
o menino carrega o futuro
abraçado nos sonhos
o choro é só o peso
das lágrimas como chafariz
de espantar o medo
nas ruínas de Alepo
o menino aponta a vida
como um largo enredo
que os homens estejam meninos
para borrar as tardes do cedo
Carnaval em pugna judicante
o carnaval
habita o juízo,
vara mental e judicial
de todos os desígnios
o habeas corpus
é rápido e preventivo
gestor da farta liberdade
da fruição dos sentidos
ao homem cabe viver
em calendário restrito
as absolviçōes terrenas
do peso dos conflitos
eis que em largas datas
não se alcança armistícios
Dos enredos da noite
a noite, imitando a vida,
subitamente declara
esse jeito manso da África
pelo vão da praça
o céu pinta todas as sombras
em construído aparato
como se fora o continente
jogado em seus traços
a noite teima em não deixar-se manhã
dormindo essa africana paisagem
e joga no peito dos homens
uma intensa ânsia de liberdade
do rumo do destino
a estrada,
veia do futuro,
aponta o destino
em seu curso
tece-lo nos passos
como construção
é passea-lo contrito
em sua amplidão
deixa-lo soltar-se
em sua vontade
é distrato do rumo
da liberdade
rurais avisos das palavras
a traça ataca
o cerne da palavra
o poema lavra
o roçado do nada
gesto de verbo
como enxada
o poeta
camponês de si,
semeia a palavra
e sobe os leirōes
em que se basta
o poema em urbana coerência
deixa-se plantio em rural gramática
Gaia em peleja desatada
Gaia, devastada,
dói em si
pelas estradas
treme, exausta,
nos rumores que solta
em suas falas:
os gritos dos ventos;
os arrepios das matas
Gaia constrói as manhãs
como um tempo exato
que entorna o futuro e os homens
no vão de seus braços
Paisagem
a cachoeira,
debruçada no tempo,
tangia, gritando, o rio
nas correrias do vento
a vida,
escorrendo pelos olhos,
pintava de alegria
a alma farta do povo
a cachoeira rugia na mata
um jeito manso de alvoroço
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.