Sapateiro em militância
o sapateiro
engraxando a vida
dava-se ao tempo
como comunista
e nesse ímpeto
ao ter-se liberto
construía sapatos
e alguns panfletos
Chico do Baita
inventava em tudo
as andaduras fartas
dos calçados do futuro
Frevo em trânsito corrente
o frevo
dá-se assim como vício
de escrever pelas pernas
o retrato do infinito
tangendo o povo na rua
nos bemóis que explicita
escreve um tempo de riso
no peito largo da vida
e nessa humana corrente
apressa o jeito de Olinda
Lagrimas em largo gesto
a menina, na fome,
quando chorava,
chovia no mundo
pedaços da alma
rasgando a face,
em vergonha intensa,
as lágrimas eram vasto grito
nos ombros das consciências
a menina era um engenho
faminto de todas as moendas
Gestual lembrança
a saudade
é um jogo do tempo
em deixar-se tanto
quando menos
dói no espaço
como uma pedra quântica
deixada ao léu
nas curvas da esperança
a saudade é só um gesto
que o pensamento dança
Neves do sertão em sol disposto
a neve,
gelando a escuridão,
tangia a noite de Kurkino
em grave imensidão
os olhos
tangidos pelo vento
jogavam a memória
ao encontro do tempo
no meio da Rússia, p(r)ensado,
um sertão rangia o pensamento
imagens
o espelho
é só um retrato
do que a mente vê
em seus recatos
esconde-se da vida
como um eremita
das imagens que inventa
nos olhos que habita
o espelho é uma vontade
posta nos reflexos da vida
Temporais atitudes
não importa
que a manhã não venha
trago a tarde na algibeira
e as noites que convenham
o tempo, assim relativo,
nas velocidades em que tombe
sempre deixará o perto
nas vontades do longe
caminha-lo é só um desfrute
nos passos em que se tange
Culposa resenha em conceito
o martelo das culpas
esquece a vontade
de comete-las tantas
no vão da liberdade
as que sejam privadas
as que invadam a cidade
te-las em depósito
deitadas no desejo
é como eximir-se
nos desvãos do medo
a culpa é só um jeito tardio
de aprisionar o cedo
indígena menção da vergonha
o yanomami, em ossos,
discursa a pele
como uma navalha magra
no punho da terra
carne
na pouquidão de ainda vida
escreve no tempo
uma vergonha infinita
da ação dos homens ruge
a suja condição de parasitas
Parto em visão nascente
às portas do mundo
na materna guarita
o tempo pinça a vontade
de abraçar-se à vida
o ser, ainda encoberto,
deixa-se em transe
a ouvir os gritos imensos
de quem lhe tange
exausto,
engole a vida com espanto
e procura instalar-se pela história
no discurso do seu pranto
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.