Frevança
o frevo, em ondas,
em confusa trança
tange o peito do povo
no colo da dança
em largo jeito,
solo da esperança,
o passo apressa o tempo
e a vida descansa
a música é o compasso
do palpitar da cidade
que deixa dentro do povo
esse gosto de saudade
Das idéias em rasante
a idéia
buliçosa
tocava no homem
em larga prosa
vestida de verbos
dançava fortemente
como um roldão virtual
nas paredes da mente
a idéia pulsando os desejos
em letras, palavras e cenas
furtivamente intrometida
deu-se aos versos do poema
Paisagem matinal
farsesca
a manhã desponta
com restos da noite
em suas sombras
o bem-te-vi,
entoando loas contritas,
assuntando o tempo,
tenta acordar a vida
e o homem, na calçada,
em larga inadimplência
tenta acordar da fome
em sua magra paciência
Retrato citadino
na fila, como postes,
largados pelas rua
os homens transitam
verdades e culpas
as dos débitos da fome
as dos créditos da luta
a realidade,
em voo rápido,
inunda a manhã
com seus contágios
humanos abraçados à vida
convivem todos seus percalços
e desabrocham a história
com a incerteza nos braços
Dos cifrões em distopia
o capital
assanha a cena
a sanha, a sina
de cifrar a fome
nas esquinas
a fome assanha a seiva
humana sina
de cifrar a cidade
no vazio das tripas
o futuro assanha a sina
da verdadeira sanha
das humanas cifras
Das providências temporais em curso
o futuro ilude
todo ato que não pude
avesso a si
e à quietude
o tempo transborda
os atos letais
de sua juventude
e derrama, impúbere,
todas as rimas
que o poema larga
em suas latitudes
nesse conversar a vida
arma-se a cara do futuro
Das ausências pressentidas
deixo a tempo
todos os anseios
nas tardes que cumpro
as manhãs que esqueço
os vincos da memória
espalhados pela vida
arquitetam ausências
nas fugas que insistem
arquiva-las em ordem
como paradigmas
desconfortam o tempo
como tempero da vida
Poema em solitária fala
o poema
é uma fresta
por onde, avulso,
intromete-se o poeta
dado assim ao verbo
às vezes, mesmo mudo
contrai a condição
de pretensa fala do tudo
o poema, entretanto,
é só um corrimão
onde o poeta sobe
escadas da solidão
as do sentir o mundo
e as de po-lo em ação
Lembrança
a saudade,
como um grande laço,
é um gesto navegante
dos barcos do passado
nos mares que trazemos
como um grito represado
vive na lembrança
como um desacato
do futuro que se ausenta
do presente navegado
Poema a La Negra
da garganta
em súbito espanto
a voz monta no tempo
em latino canto
a América flutuando
em bemóis crescentes
inventa Mercedes sorrindo
no colo do continente
e assim indígena, passarinho,
negra e vivente
Mercedes Sosa é discurso
de tudo que se sente
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.