Lista de Poemas

Poema em navegação aberta

o poema
envergonhado
afaga a América
em seu latino salto

deixa-se militante
em seu panfleto
livre do eu lírico
contrafeito

o poema apenas dorme
a forma em seus trejeitos
como se fora um bólide
dos conteúdos do peito
47

Da lógica retilínea da fome

a lógica engenheira,
posta em riste,
espalha razões
pelas marquises

alinhadas em prumo
em grave continência
cobrem, exatas, a fome
de retilíneos viventes

da marquise que vestem
com suas magras andaduras
nem percebem os cifrōes
e a palidez inata das ruas
6

Do sonhar como futuro

durmo as noites
como dias exaustos
em que me debruço no tempo
com ganas de astronauta

o sonho arquitetado
nas curvas do que durmo
é só um repetido recado
das coisas do futuro

sonhar é construir a vida
em cada caminho de tudo,
nos dias que sejam claros,
nas noites todas do mundo
11

Dos locais históricos da fala

no lugar da fala
consciência em vagas
de todos os cânticos
da palavra
as que teimam ouvir-se
as que partem da alma

largas estradas da vida
remoendo verbos pelas horas
como uma usina estendida
plantada nas costas da história
6

Da vivida volição dos tempos

decrete-se a vontade
na construção da vida
nave que o tempo voa
em todas as investidas

dize-la assim astronauta
sob a rédea dos ventos
é trama-la como pássaro
nas asas do pensamento

o mundo nunca descabe
da correnteza viva do tempo
20

Viagem

parto de mim
frequentemente
nos palcos do povo,
nos vincos do tempo

resto em mim
tão fortemente
nas manhãs que singro,
como outro, pelo tempo

estar chegando em mim
é estar partindo sempre
7

Palestinas pátrias

Toda manhã
tem um quê de palestina
de um tempo desordenado
que a luta às vezes ensina
em ter sempre no peito
esse jeito de oficina
que constrói um amor desregrado
pelo viés exato da vida
como se fora um infinito
guardado no bolso da camisa.

Palestinos e palestinas
somos em dias e vida
num tempo desprevenido
em que o homem caminha
ao contrário dos sentidos
vendo o que já não come
morrendo o que já não vive
como se viver fosse tanto
quanto olhar o que se disse

Palestinos seremos todos
no dia tanto da vida
quando o homem caminhe livre
todas as pátrias que viva.
7

Versos em larga complacência

o verbo
salpica a vida
nos confins que tange
em tudo que diga

montado em verso
dá-se mais ao arbítrio
de parecer infenso
aos alvoroços da vida

em verdade o verso discursa
a prontidão de todos os gritos
os que o dizem só na arte
e os que o levam ao infinito
7

Temporais acasos da vida

quando manhãs
as noites que sinta
ria largo do tempo
e seus labirintos

deixe-se no espaço
dos futuros que possa
voe as tardes nos olhos
como intensas gaivotas

tudo que abraça a vida
é só um descuido das horas
9

Matemáticas lides

matemático
o número sabe
desfazer-se de si
em negativas marcas

quadradas
as raízes
operam razōes
em seus limites

meus números
apenas dizem
os quantuns de mim
que ainda vivem
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.