Lista de Poemas

Andares alheios

na multidão
estou composto:
um tanto de mim
o todo do outro

dou-me ao passo
do andar alheio
nos ombros da estrada
em que me atrevo

nada como trafegar
sem as curvas do medo
5

Do viver em códigos

haverá um tempo
em que o tempo
não será um código
de contar os tempos
em solilóquio

porque de tê-lo
só como invólucro
dar-se-á à vida
um destino lógico:

viver desde quando
não se meçam os detalhes
pedras impeditivas
das ondas da vontade
5

Notícias em vazão vivente

no jornal da vida
sempre publico
os atos do futuro
em que me digo

trazê-los revoltos
na vontade
é só um trejeito
de alguma liberdade

as larguras do sentir
são manchetes vastas
dos futuros que alinho
no frontispício da alma
5

Vivente natureza em humanos gestos

de oito bilhões
ditos viventes
restem como multidão
tão impunemente
assim como razão
por que se sente
um jeito exato de povo
preso em correntes
na vital contradição
de cada consequência

oito bilhões é só um tempo
de arranjar o pensamento
e trafegar a vontade
no colo intenso do vento

oito bilhões
é só um dizer da natureza
dando fala de si
no colo de si mesma
5

Lago dos cisnes em detalhe

no palco,
desarvorado,
o cisne cambaleia
as curvas de seu fado

suas asas,
naus amarguradas,
voam todos os voos
dos bemóis em que se cala

e de repente, o cisne voa tanto
que a bailarina desmaia
e deixa os sonhos do povo
voando pela sala
5

Gerência das horas em largo riso

quando a noite vier
que o tempo salte
como um pássaro cantante
nas rugas da face

e deixe-se errante
pelos risos que nascem
de todos os rompantes
que a vida grasse

o acúmulo de horas
é apenas disfarce
de quem ri a história
pela própria face
3

Dos bordados anônimos do universo

a nuvem atômica, no espaço,
brincando de infinito
emudece a via láctea
em seu próprio grito

no telescópio
a imagem, no homem, pulsa
todas as ilações
da intensa e virtuosa luta

a vida é a distância exata
entre o universo e sua tecitura
6

Da infantil usina de atos coletivos

quando usina farta,
nos vincos da memória,
a criança constrói a vida
abraçada à história
não que lhe importe
o sentido do fato
mas que ressoe no tempo
como um sentimento inato

construir o bem de si
é despejar-se no espaço
e molhar-se do outro
nas constâncias dos atos
3

Das andanças de mim

saio de mim
adredemente
tudo que me deixa
é um passado insistente
que pincela de futuro
o peito do presente
e no deixar-me em trânsito
pelos becos dos momentos
abarco a realidade
como um sentimento
um jeito abraçado
de navegar o tempo
4

Caminhares em desejo manifesto

dos caminhos que trago
escondido dos passos
ressoam todos os rumos
em que me desabraço

a vontade de ir
deflagra nas estradas
uma grave consequência
de todas as passadas
arrumar nos pés o desejo

e embrenhar-se de si e de outros
nos ombros das caminhadas
3

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.