GUERRA DENTRO DA LUZ
Sem paz firmei a guerra dentro da luz
Estas mãos que têm o peso de uma vida
Num rosto calejado que ama sem jus
Que acaricia as lágrimas da dor sofrida.
Teus passos encurtou o meu destino
Em virtude das veredas em abrolhos
Estes pés descalços de um menino
Na ânsia de um homem em ferrolhos.
Faze-me equívoca a valia do amor
Encerre-me em cadeias amordaçado
Num coração crivado de desamor
Neste corpo há um marco entalhado.
Na frieza da constância da batalha
Em fraqueza se abate e se encurva
Rende o espírito na miséria e na falha
Nesta guerra sem paz que a luz é turva.
NO OLHO DA ESCURIDÃO
No arcabouço que sustenta os órgãos, em perfeita simetria os membros, tantos e tantas por aí, não há iguais, semelhanças sim. Memórias e pensamentos, rudimentos desde a fundação dos tempos, homens, mulheres e animais, todos providos de alma e espírito. Capacidades intelectuais humanas, instintos animais originam de homens e mulheres. Belezas, grandezas, e riquezas, elevadas criaturas, suas faces em suas molduras. Disparate à realidade do outro mundo, desprezadas belezas, pobrezas. Criaturas inumanas. Quem as abandona no olho da escuridão? Talvez as suas próprias sortes ou um destino fatídico. De que vale um rico sem o pão da alma e um miserável sem o perdão da fome? Quem governa o sentimento da maldade? Não o homem e sim o lobo que nele habita. As classes do desequilíbrio, malabarismos para ver um dia aceitável no olho da escuridão. Teus membros, teus órgãos, tua afeição; tuas vestes, teus calçados, tua imaginação; tua alma, teu espírito, tua aura longe da tua habitação, aonde se chega andando vai-se de avião, para quê adianta dois olhos no olho da escuridão, se se é humano e não um irracional com noturna visão, porque a fome, a sede, e a doença não pedem licença e não há quem convença um ventre vazio sem um pedaço de pão.
PARADOXO
A vida e o amor, vertentes complexas,
Viver para a morte, amar sem o sofrer.
Tudo a perder sem as ideias conexas,
Relações afetivas, aflições por querer.
Se morder com razão, sem razão ferir,
Chorar por perdão, sem perdão partir.
Ajoelhar-se no chão vendo lágrimas cair,
Estendendo as mãos e o outro a sorrir.
Um dia emoção, paz e tranquilidade,
Outro dia não bom, da paz tem saudade.
Sem solução mágica que se possa gerir,
Não há outro caminho para aonde seguir.
Comunhão de maneira discreta e certa,
Se a vida assim existir e o amor persistir.
Antes lutas amando, à solidão deserta.
Antes vida, à morte por um incerto porvir.
AO TRONCO DE UMA ÁRVORE
Ao tronco de uma árvore frondosa
Deitei e adormeci entre as folhagens,
Sonhei com enverdecidas paisagens
Banhadas ao sol de uma virgem fogosa.
Via por entre os ramos e galhos
Teus braços iluminando a alcançar,
Com a tua luz brilhante a tocar
Meu rosto empalidecido a acordar
Por teu calor meus agasalhos.
Era a criação mais linda afeiçoada
Toda resplandecente e dourada,
Do teu corpo emanava a aurora,
Era o início afora, hora apaixonada.
Envolveu-me nos lábios aquecidos,
Por tão quentes já havia despido
Das tristezas levadas nos sentidos,
Pois queimou-as o fogo concebido.
Cachos de fachos os teus cabelos,
Em teus olhos uma energia vivaz,
Uma entranha flamejante e veraz,
Entreguei-me à paixão sem apelos.
Saciou-me o coração com devoção,
Cuidando aos pássaros orquestrarem,
Ninando-me com uma linda canção.
Raios de sol após me acariciarem,
Foi-se luz do arrebol minha emoção.
Ipatinga, 14/11/2018
Erimar Lopes.
SENTENCIADO A MORRER DE FOME
Turbo-me quando imagino a ausência
Da tua presença dentro do nosso lar
Das lembranças que exalam a essência
Do teu amor que me faz tanto te amar.
Não penso mais, nem de mim saberia
Não sei aonde iria pois ficaria perdido
Tu és muito além do que eu queria
Se fosses de mim viveria desiludido.
Aonde andasse proclamaria teu nome
Estaria sentenciado a padecer frustração
E como corpo fadado a morrer de fome
Imploraria a ti conclamando uma porção.
Que me alimentasse e a vida me trouxesse
Absolvendo-me de um estado de inanição
Que me fortificasse e minha alma sustesse
Deliberando uma nova chance ao meu coração.
PRECIOSAS
É a terra que consome calada,
Em teu seio, sulcos, e ocos,
É o choro que aguça a risada
Do inimigo fugindo aos sufocos.
São as marcas numa face oculta
Que não mostra ressentimentos,
Em um corpo que tanto labuta
Pela preciosa coroa aos ventos.
Com a morte na forca ao relento
Sorve a vida preciosa porção,
Fortalece ao instinto sangrento
Aniquilando sem qualquer reação.
Ao oponente só resta a junção
Da preciosa gama de saberes
Para conservar o seu coração
Livre e isento de certos prazeres.
Se necessário o faz querer viver
Pela rica e preciosa sabedoria,
Se não convém debalde morrer
Pelas mãos do inimigo à revelia.
NO LIMIAR DO AMOR QUE NÃO SE PERDEU
Foi-se a luz que antes brilhava doirada,
Ocultou-se tamanha grandeza amada.
Era um pomar carregado de delícias,
Árvores frutíferas de todas as espécies.
Onde os homens provaram as primícias
Alegrando seus corações com benesses.
É o fruto mais desejado que a vida,
O amor puro sem máculas que prevalece.
Em verdade o colo doce que a fornece,
A pedra e a fonte mais preciosa e cristalina.
Perdura-se no tempo e está guardado,
Esse amor poderoso que à vida conduz.
Que os homens o crucificaram calado e,
As mulheres choraram-no ao pé da cruz.
GARIMPO
As mãos calejadas, o rosto sofrido, a pele queimada pelo sol
Um jugo pesado, trabalho forçado, batalhando pelo pão
O trajeto é difícil, há grandes perigos feito peixe ao anzol
A distância é longa, muito se anda, e não há condução.
Alegria não há, se o sorrir é chorar por consolação
Ai Deus meu! Nos mande um socorro e livra-nos do Seol
O que se colhe é pouco, o que sobra é sufoco na imaginação
No mínimo uma nuvem que aplaque o fogo deste quente sol.
Nossos lombos já estão trilhados, nossos pés trincados na carne
O que nos alivia é saber que a agonia vai-se ao fim do dia
Mina o sangue misturado com o nosso suor na ferida que arde.
Nesta terra de loucos onde o ouro é para poucos sem piedade
Os oprimidos e as máquinas, sem lei de verdade que te auxilia
A ganância do homem pelo metal precioso implica maldade.
SEM CURA
O que será de mim se a vida prolongar?
Continuarei ferido sem cura ainda assim.
Em tristeza e solidão, sem sentir o chão,
Andando a voar numa nostálgica ilusão.
Em contar estrelas perdidas, sentado,
Malogrado, num badalado botequim,
Onde os bêbados à noite hão destilado,
Em suas gargantas as suas fracas almas.
Misturadas a bebidas fortes, gargalhando,
Com os sorrisos vazios de hálitos etílicos.
Don’t make sense uma noite sem doses,
Esperada lucidez com ondas calmas,
Se o mar da vida está levando revolto,
Em suas águas dores e suspiros poéticos.
TRANSIÇÃO
Sinto as minhas vistas escurecidas, estão cansadas fracas em mim, as minhas mãos já não têm mais a firmeza, estão trêmulas em mim, fui contido pelo tempo, gasto pelos vícios, nem foram tantos anos, me perdoe meu amor eu não quero morrer assim como um caule sem luz, uma flor que seca, um pendão sem pátria ao vento. Com ressentimento por te ferir perdoa este que te implora, dá-lhe redenção. Meu coração foi ferido, ele dói, a dor é forte, fraca fonte dentro de mim, recorrer ao passado desta triste vida meu amor não me trará vigor, me ame e diga que cuidará deste que vos clama até chegar a hora que o gosto de nada se sente, que os ouvidos ouvirão o sussurro do silêncio da separação. Meu amor, aquele que corria veloz agora pende a sua alma, veja, este que ainda vos fala, ouça, e prometa as petições antes que sinta a certeza do abraço frio daquela que o desprenderá.