Poemas e Poesias Analíticas Sob Um Olhar Cotidiano

Poemas e Poesias Analíticas Sob Um Olhar Cotidiano

2026

O cotidiano não é apenas o suceder dos dias; para André Veiga, ele é a matéria-prima do espanto e da lucidez. Nesta coletânea, o autor veste a pele de um observador incansável que desacelera o ritmo acelerado das ruas para esmiuçar a engrenagem humana. Seus poemas operam como lentes de aumento que revelam o extraordinário escondido na rotina: a inocência fugaz da infância, a ironia sutil dos nossos hábitos coletivos e as pequenas hipocrisias que moldam o tecido social. A poesia de Veiga recusa a neutralidade. Ela analisa, questiona e confronta o leitor com o espelho de suas próprias escolhas. Da crítica ácida às nossas ruas sórdidas à ternura nostálgica pelos dias que já se foram, cada verso constrói um diálogo íntimo e cortante entre o indivíduo e o mundo que ele mesmo edificou. Nesta jornada lírica e reflexiva, o autor conduz o leitor por um amplo panorama das circunstâncias da vida. Vemos o homem enredado no peso inexorável dos relógios e na ilusão dos espelhos que tentam burlar o tempo, sufocado pela rotina de cimento das grandes cidades onde milhões cruzam calçadas no mais profundo silêncio. Vislumbramos a dança constante das máscaras sociais, o labirinto complexo das escolhas cotidianas e a ferrugem corrosiva do ódio e das mágoas que aprisionam a alma. Entre o ciclo implacável das estações, a sombra paralisante do medo e a pressa vã que consome a moeda do tempo, Veiga nos lembra da urgência de desapegar do supérfluo. Seus versos resgatam o voo da juventude, a busca infundável por paz nos lugares errados e a redescoberta do sagrado no café fumegante e no abraço simples. Ao final, a obra confronta o eco inevitável do fim, transformando a transitoriedade em um convite corajoso para desacelerar, examinar as marcas do tempo e perceber que, sob a aparente banalidade dos dias, pulsa uma poesia urgente, analítica e profundamente humana.

O Ciclo da Vida

Observo as crianças

E as vejo tão contentes

Sem importarem-se com os afazeres e compromissos da vida

Não têm a responsabilidade

Do alimento sobre a mesa

Da roupa nova para o passeio

Do calçado que irão ostentar aos colegas

 

Aproveitem bem esse período meus caros infantes

Pois chegará uma época

Em que terão saudades dessa regalia

Em que terão que tornarem-se atores no palco da vida

Terão que atuar no exigente Teatro do Labor

Em que submeterão-se a árduos e complicados trabalhos

 

Para que assim tenham como manterem-se

E poderem subsidiar os largos sorrisos de seus pequenos filhos

Que amanhã irão brincar

E vocês as olharão tão contentes

Pois essas crianças

Que amanhã serão seus filhos

 

Não se importarão com os afazeres e compromissos da vida

Não terão a responsabilidade do alimento sobre a mesa

Nem da roupa nova para o passeio

Nem do calçado que irão ostentar aos colegas

Promíscua Humanidade

Ora ora humanos cômicos

Que atrevem-se a criticar as ruas sórdidas

Ruas essas que vós mesmos sujastes

Com a podridão dos vossos atos inescrupulosos

 

Até quando dedicarão-se a praticar tais coisas

Infames vermes

Trogloditas por opção

De mentes mórbidas

E pensamentos caóticos

 

Ah se eu pudesse consertá-los

Faria convosco o que nunca consegui fazer a mim mesmo

Pois sofro dos mesmos males que vos acuso

E por isso peco em incriminá-los com veemência

 

O que cometemos hoje

É uma punição em forma de herança para os nossos descendentes

E o que mais nos machucará

Será vê-los explanarem em duras palavras

Sinônimos e termos arrojados e pesarosos

Quando se referirem a nós

 

Como hábito pertinente à nossa raça

Posso declarar que desde agora

Ouço os clamores descontentes de nós mesmos no futuro

Espantados e traumatizados com tais ações

Daqueles que deviam respeitar-nos

 

Como eles poderiam nos prestar honras caros comparsas

Se não respeitamos a geração deles

E o mundo que construímos para eles

Foi fundamentado em pilares putrefatos

 

Somente nos restará a dor imensurável

Que nos fará expurgar arrependimentos contínuos

Mas como é inerente a nós

A arte de imputar a outros

As nossas falhas

 

É bem provável que tenhamos a ousadia

De postergarmos a culpa

Para a próxima geração

Que débil

Iminentemente poderá cometer a insanidade

De acatar tal culpa

A Arte de Desapegar

Acumulamos coisas que o pó consome

dando aos objetos um alto nome

Esquecemos que a vida é apenas passagem

e que a alma viaja sem nenhuma bagagem

 

O leve caminha com mais rapidez

enquanto o pesado tropeça na vez

Desapegar é preciso para entender

que o ser é bem mais do que o ter

 

O apego aprisiona o homem ao chão

fazendo do medo a sua prisão

Seguramos com força o que já se partiu

chorando o vento que o tempo sumiu

 

Mas soltar é um ato de graça e perdão

que liberta o passo e abre a visão

mostrando que a vida só flui com leveza

para quem compreende a devida grandeza

 

Deixe partir o que não quer ficar

aprenda com o rio a apenas passar

levando na alma a beleza do instante

e a leveza mansa de um ser viajante

A Busca Infindável

Procuramos a paz em lugares distantes

em bens materiais e em amores instantes

Corremos o mundo buscando a razão

sem perceber que ela habita o porão

 

Do nosso próprio e modesto interior

a paz não se compra com ouro ou valor

ela brota mansa de dentro da gente

quando aceitamos o fluxo presente

 

O externo engana com seu falso brilho

mostrando atalhos que levam ao trilho

da desilusão e do vazio profundo

que consome a alma neste vasto mundo

 

É preciso parar de correr e buscar

sentar em silêncio e apenas olhar

para o templo sagrado que há no peito

onde o divino habita perfeito

 

Pois a resposta que o mundo não dá

é o silêncio da alma que sabe habitar

o próprio refúgio de luz e de calma

curando as feridas de dentro da alma

A Dança das Horas

O relógio dita o compasso da dança 
onde o homem tropeça na própria ânsia
Passamos os dias correndo atrás
de um rumo incerto que nos desfaz

 

As horas desfilam em marcha veloz
ignorando o choro de nossa voz
Queremos comprar o que o tempo consome 
dando aos minutos um alto nome

 

Mas a vida não cabe na contagem fria 
de um calendário que esvazia o dia
Ela pulsa forte no instante exato
em que o ser humano compreende o ato

 

De simplesmente existir e sentir
sem ter a pressa de ir ou de vir
Pois a dança das horas só tem valor
quando embalada por paz e amor

 

E quando a música enfim calar
saberemos que soubemos dançar 
Não pelo ritmo que o mundo impôs 
mas pela alma que a vida expôs

A Dança das Máscaras

Na praça pública a festa começou

cada criatura o seu papel encenou

Sorrisos falsos na vitrine da dor

fingindo a graça de um falso calor

 

Ninguém ousa mostrar o rosto nu

temendo o julgamento de tu e de eu

Vivemos presos na representação

esquecendo o brilho do coração

 

A careta bonita esconde o pranto

enquanto o mundo exige o encanto

de uma alegria que não existe

no peito de quem caminha triste

 

Trocamos a verdade por aceitação

vendendo a alma por validação

sem perceber que a máscara pesada

só nos afasta da estrada amada

 

Até que caia o disfarce no chão

e sobre a alma em sua nudez e perdão

mostrando ao mundo que ser de verdade

é a única forma de ter liberdade

A Ferrugem do Ódio

Guardamos mágoas como tesouro raro

pagando por isso um preço amargo

O rancor corrói quem carrega o mal

em um cego ciclo frio e mortal

 

Perdoar é um ato de pura coragem

que liberta a alma dessa viagem

Quem solta a corda do velho passado

vive o presente mais sossegado

 

O ódio é um veneno que a gente bebe

esperando que o outro destino receba

Mas quem padece com a dor contida

é quem alimenta essa ferida

 

Soltar o passado é abrir a janela

para que entre a luz e a cor dela

Deixando o vento levar o rancor

que sufocava o peito de dor

 

A vida é curta demais para a rusga

para a ira cega que a alma esmaga

Melhor é a paz de quem sabe esquecer

e renascer livre para poder viver

A Ilusão do Espelho

Olhamos a face que o tempo moldou

buscando o jovem que o vento levou

As rugas contam histórias de dor

de perdas de lutas e de falso amor

 

Mas sob a carcaça que o mundo vê

resiste a alma que ainda quer crer

O espelho reflete o corpo cansado

mas nunca o sonho que foi sonhado

 

Julgamos a imagem que está no cristal

esquecendo o ser que é transcendental

A carne desaba e a beleza se vai

enquanto o homem tropeça e cai

 

E nessa busca por juventude vã

perdemos a graça de cada manhã

presos à vaidade que cega a visão

e empobrece o nosso coração

 

Até que os olhos aprendam a ver

que a verdadeira essência de ser

não reside na pele que o tempo desfaz

mas na paz que o espírito traz

A Moeda do Tempo

Gastamos os dias com tanta pressa

como se a vida fosse uma promessa

de eternidade neste chão fugaz

buscando o que o tempo já desfaz

 

O bem mais precioso não tem valor

em notas de banco ou falso esplendor

o tempo é vida que escapa da mão

deixando saudades na solidão

 

Compramos bugigangas que o pó consome

dando às coisas um altivo nome

enquanto os minutos fogem ligeiros

zombando da pressa de nós mortais primeiros

 

Riqueza real não se guarda no cofre

mas no peito de quem ama e sofre

de quem aproveita o abraço e o olhar

antes que o tempo venha tudo apagar

 

Por isso gaste seus dias com quem tem valor

regando a vida com paz e amor

pois quando a ampulheta enfim esvaziar

só o que foi sentido é que vai ficar

A Rotina no Mundo de Cimento

As torres de aço tocam o céu

enquanto o homem caminha no véu

da ilusão diária que o faz esquecer

o verdadeiro motivo de seu viver

 

O despertador toca a mesma canção

alimentando a engrenagem da ilusão

E assim se vão os anos e os dias

trocando a vida por meras porfias

 

Nos trens lotados de rostos sem cor

viaja a pressa a angústia e a dor

Ninguém se olha e  ninguém quer saber

para onde corre a força do ser

 

As horas de trabalho consomem a luz

enquanto a rotina carrega a cruz

de uma existência que perdeu o sentido

no meio do asfalto cinzento e ruído

 

Até que a noite recubra a cidade

e o homem desperte de sua vaidade

pensando se vale a pena esse fardo

de viver o dia sem rumo e sem marco

A Semente do Amanhã

Lançamos sementes no solo incerto

sem saber se o fruto virá de perto

O futuro é um livro que está por vir

mas insistimos em nos ferir

com as lembranças do que passou

com o rancor que o peito machucou

 

A vida exige coragem e fé

para manter o homem de pé

Cada escolha é um ato de plantio

que enfrenta o vento a fome e o frio

 

O que colhemos na estação tardia

é reflexo exato da nossa porfia

do cuidado que tivemos ao regar

os sonhos que ousamos realizar

 

Por isso é preciso plantar com amor

mesmo sabendo que há espinhos e dor

pois só a semente lançada na terra

faz brotar a paz que o mundo encerra

 

E quando o tempo colher o que foi dado

veremos que o esforço valeu cada lado

deixando frutos de luz e de bem

para quem vier depois de nós também

A Sombra do Medo

O medo tranca a porta da frente

paralisando a alma da gente

Deixamos de viver por receio de errar

sem perceber que o navio precisa navegar

 

O mar revolto assusta o marinheiro

mas é na tempestade que o homem inteiro

mostra a força que tem para vencer

e o verdadeiro sentido de ser

 

Quem teme a vida não ousa provar

o doce sabor de tentar e arriscar

Fica na margem assistindo o barco passar

chorando o sonho que deixou de sonhar

 

A coragem não é a ausência de pavor

mas a ousadia de enfrentar a dor

dando o primeiro passo na escuridão

com a certeza acesa no coração

 

Pois a vida pertence a quem tem ousadia

de transformar o medo em poesia

vencendo a sombra que tenta impedir

a alma livre de sorrir e florir

Labirinto de Escolhas

Cada encruzilhada exige uma direção

um ato de coragem da nossa razão

Escolhemos caminhos de espinhos e flor

pagando o preço de cada dor

 

O erro ensina o que o acerto esconde

e a alma pergunta ao vento para onde

Mas a resposta não vem de fora

ela nasce no peito de quem chora e implora

 

Caminhamos tateando na penumbra

enquanto a incerteza nos deslumbra

com falsas promessas de rumos fáceis

que cobram tributos caros e frágeis

 

Não há caminho plano sem tropeço

nem direção que não tenha um preço

O que nos define não é o destino

mas o passo firme de adulto ou menino

 

E no fim das contas a trilha percorrida

revela o mapa de nossa ferida

mostrando que o labirinto escolheu

o homem forte que em nós nasceu

O Ciclo das Estações

A primavera traz flores e cor
o frio inverno traz trevas e dor
Assim é a vida em seu eterno girar 
ensinando a gente a recomeçar

 

Não há tristeza que dure para sempre 
nem alegria que fique latente
Tudo passa e tudo se transforma no chão 
trazendo paz para o coração

 

O outono derruba a folha cansada 
preparando a terra para a jornada 
de um novo ciclo que vai nascer 
quando a vida inteira voltar a florescer

 

Compreender o tempo é aceitar a mudança
renovar no peito a terna esperança
de que cada fase tem sua razão
na grande escola da evolução

 

E assim seguimos na dança do mundo 
mergulhando fundo no tempo fecundo 
sabendo que a vida é um eterno vir a ser 
onde é preciso aprender a morrer e a nascer

O Eco do Fim

Quando a cortina final se fechar

e o corpo na terra vier a repousar

o que restará de nossa passagem

será o carinho deixado na imagem

 

Daqueles que amamos de coração

A vida se resume a esta lição

viver de modo a deixar na memória

uma bonita e eterna história

 

O pó retorna ao silêncio do chão

enquanto a alma ganha a amplidão

livre do peso que o mundo impôs

durante os anos que o tempo desfez após

 

Não tema a morte que há de vir

pois ela é o ciclo a se cumprir

a última página de um belo livro

escrito com tinta de amor e vibro

 

O que importa não é quanto tempo durou

mas a intensidade com que se amou

deixando no mundo um rastro de luz

que o eco do tempo jamais reduz

O Espelho do Tempo

Olhamos os anos que já se passaram

as marcas profundas que em nós deixaram

O rosto mudou, o passo travou

mas o sonho antigo em nós restou

 

O espelho do tempo não mente jamais

ele mostra a herança de nossos ais

as rugas da luta e a calma na face

de quem aprendeu o que o tempo desfaz

 

A juventude é um sopro veloz

que canta no peito e ecoa a voz

de quem teve pressa de conquistar

o mundo inteiro sem hesitar

 

Mas a maturidade traz o dom raro

de ver o tesouro que estava amaro

transformando a pressa em contemplação

e a ânsia do mundo em aceitação

 

E ao ver o reflexo que o tempo moldou

agradecemos a estrada que nos levou

até este porto de paz e de abrigo

onde o velho homem é nosso amigo

O Peso do Relógio

Os ponteiros avançam sem pedir licença

ditando o ritmo da nossa existência

Corremos atrás do vento

buscando o tempo que escapa no momento

 

A vida passa em um sopro ligeiro

transformando em pó o nosso dinheiro

E no fim da estrada o que fica guardado

é apenas o eco do que foi amado

 

O relógio não para de tique-taquear

lembrando a todos que é preciso aceitar

que cada segundo que foge na mão

já não retorna para o coração

 

Carregamos o fardo dos dias que vão

sempre buscando uma nova razão

mas o tempo soberano e tirano

zomba dos planos do ser humano

 

Até que o dia se encerre afinal

e compreendamos o ciclo mortal

vendo que o tempo não nos pertence

pois tudo passa e a alma silencia e vence

O Sagrado Cotidiano

Procuramos milagres em terras distantes

em luzes divinas e em fogos reinantes

sem perceber que o sagrado reside

no gesto simples que o dia divide

 

Na xícara de café fumegante

no abraço apertado de um ente amante

no raio de sol que ilumina a janela

está a vida em sua cor mais bela

 

O extraordinário mora na rotina

na graça invisível que nos ilumina

transformando o pó do dia comum

em ouro puro para cada um

 

Basta abrir os olhos e desacelerar

parar a pressa para poder enxergar

que a grande magia da existência

habita na calma dessa essência

 

Por isso celebre o dia de hoje

sem esperar que o futuro o aloje

pois o milagre maior e sagrado

é o agora vivo por Deus 

que te foi entregue e dado

O Silêncio na Cidade Grande

O barulho das ruas ensurdece a mente

enquanto a alma padece ausente

Milhões de passos cruzam a calçada

mas a solidão caminha dada e dada

 

Ninguém conhece a dor do vizinho

cada um segue o seu próprio caminho

Na multidão densa o que há de mais forte

é o frio silêncio que beija a morte

 

As janelas fechadas guardam segredos

e medos ocultos e profundos enredos

As luzes acesas iluminam a dor

de um mundo carente de paz e amor

 

O progresso avança com passos de gigante

mas deixa o homem cada vez mais distante

de sua essência, de sua própria raiz

vagueando perdido no que quis

 

E no meio do caos que o dia traz

o silêncio da alma clama por paz

buscando um refúgio longe do chão

onde o barulho não reine na amplidão

O Voo da Juventude

Os dias dourados da infância passaram

as asas dos sonhos no vento voaram

Restou a saudade daquela inocência

a doce e breve e frágil essência

 

Hoje o peso do mundo nas costas recai

e a gente tropeça e levanta e cai

aprendendo a duras penas que crescer

é perder o encanto para poder viver

 

O tempo da festa cedeu lugar

às obrigações que mandam cobrar

o imposto dos anos é a conta da lida

na dura arena da própria vida

 

Mas mesmo no meio de tanto labor

resta no peito um resquício de amor

a brasa viva que insiste em queimar

e nos lembra o tempo de sonhar

 

Pois a juventude não mora no corpo que passa

mas na alma que guarda a eterna graça

a coragem limpa de quem quer sorrir

e a força bonita de resistir

Poemas e Poesias Analíticas Sob Um Olhar Cotidiano · André Veiga - Poemas e Poesias · 2026
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