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Poemas neste tema

Vida e Existência

Ferréz

Ferréz

Eu Queria Ter e Ser

Eu queria ter tipo um campo pra jogar com todos os meus amigos.

Eu queria ter tipo uma vida menos corrida.

Eu queria ter uma vida menos confusa.

Eu queria acordar vendo uma cachoeira, todo dia.

Eu queria poder tomar banho nela quando quisesse.

Eu queria poder parar de procurar o amor.

Eu queria poder dormir abraçadinho com alguém.

Eu queria poder morar dentro daquela musica do John Lennon.

Eu queria poder abrir a janela e olhar grandes montanhas forradas de verde.

Eu queria poder dizer que sou feliz.

Eu queria poder dar aula numa escolinha no interior, pra um monte de criança inocente.

Eu queria ter tipo uma mensagem que fizesse as pessoas desistirem de carrões, de grandes sonhos de consumo.

Eu queria ter tipo o poder de convencer que as pequenas coisas são as mais gostosas.

Eu queria ser tipo mais compreensivo.

Eu queria ser tipo mais amigo.

Eu queria ser tipo um morador de uma casinha dentro de um cenário qualquer.

Eu queria ser tipo um menino brincando de Falcon novamente.

Eu queria acordar só mais um dia vendo meu pai e minha mãe juntos.

Eu queria poder dizer a eles que estou indo bem na escola da vida.

Eu queria ter participado mais da vida familiar.

Eu queria ter podido dar mais condições a eles.

Eu queria poder trocar o que conquistei por um único olhar daquela menina.

Eu queria que minhas poesias a conquistassem.

Eu queria que pessoas como o Renato e o Cazuza tivessem tido o que tanto cantavam, o amor.

Eu queria ter conhecido o Plínio Marcos, o João Antônio, o Raul Seixas e o Chico Science.

Eu queria estar escrevendo o que eu queria ter um dia.

Eu queria ter nascido num cenário do Star Wars.

Eu queria ter conhecido a Emilia e o Visconde.

Eu queria ter um poço de pesca pra mim e pros meus amigos.

Eu queria ter tipo um máquina do tempo, para poupar tanto sofrimento.

Eu queria ter uma cabana, com gelo no teto e arvores em volta.

Eu queria nem saber o que é dinheiro.

Eu queria ser tipo um cara conquistador.

Eu queria ter a certeza que conquistadores são felizes.

Eu queria saber cantar.

Eu queria ser tipo um viajante.

Eu queria acordar com um grande café da manhã na minha cama.

Eu queria registrar aquele sorriso naquele dia para sempre.

Eu queria poder saber o que será do meu povo amanhã.

Eu queria poder saber porque ela não conseguiu ficar ao meu lado.

Eu queria saber a fórmula de um grande sucesso.

Eu queria saber porque a fórmula do fracasso é agradar todo mundo.

Eu queria ter um robozinho daqueles de plástico que minha mãe me dava em datas especiais.

Eu queria ver meu pai chegando e fingir que estava dormindo novamente.

Eu queria saber dizer mais coisas agradáveis.

Eu queria que todos comemorassem o Natal de verdade.

Eu queria um dia poder voar como um pássaro.

Eu queria ser tipo uma frota contra o mal.

Eu queria saber o que é o mal.

Eu queria ser tipo um cara em que as idéias valessem algo.

Eu queria ser tipo um cara que deixou algo pra alguém.

Eu queria poder mostrar aquele momento em que o menino dividiu com todo mundo o pão velho que comia numa viela.

Eu queria poder entender como os engravatados podem comer numa mesa onde o almoço é mais caro que o salário da maioria dos brasileiros e mesmo assim dormem tranqüilos.

Eu queria ser tipo um cara ingênuo, a ponto de acreditar em Papai Noel, duendes e na polícia.

Eu queria ser tipo um cara sem insônia, sem gastrite, sem dores tão fortes na alma.

Eu acho que ainda queria ser só um desenhista.

Eu acho que ainda queria ser só alguém num mundo legal.

Eu acho que ainda queria ser aquele menino que não via as coisas como elas eram.

Eu acho que ainda queria ser aquele chato que sempre levantava a mão primeiro na hora das perguntas.

Eu acho que ainda queria ser mais um da turma.

Eu acho que ainda queria brincar de banca de gibis com minha irmã.

Eu acho que ainda queria ser aquele menino que andava de banca em banca procurando aventuras em quadrinhos.

Eu acho que ainda queria ter a esperança boba de achar que poderia fazer a diferença nessa bagunça de mundo.

Eu acho que vou dormir.

Eu também acho que amanhã bem cedo vou procurar realizar pelo menos algo disso tudo, e você o que acha?


Publicada na revista Caros amigos, São Paulo, n. 58, jan. 2002
26 708 47
Ferréz

Ferréz

Eu Queria Ter e Ser

Eu queria ter tipo um campo pra jogar com todos os meus amigos.

Eu queria ter tipo uma vida menos corrida.

Eu queria ter uma vida menos confusa.

Eu queria acordar vendo uma cachoeira, todo dia.

Eu queria poder tomar banho nela quando quisesse.

Eu queria poder parar de procurar o amor.

Eu queria poder dormir abraçadinho com alguém.

Eu queria poder morar dentro daquela musica do John Lennon.

Eu queria poder abrir a janela e olhar grandes montanhas forradas de verde.

Eu queria poder dizer que sou feliz.

Eu queria poder dar aula numa escolinha no interior, pra um monte de criança inocente.

Eu queria ter tipo uma mensagem que fizesse as pessoas desistirem de carrões, de grandes sonhos de consumo.

Eu queria ter tipo o poder de convencer que as pequenas coisas são as mais gostosas.

Eu queria ser tipo mais compreensivo.

Eu queria ser tipo mais amigo.

Eu queria ser tipo um morador de uma casinha dentro de um cenário qualquer.

Eu queria ser tipo um menino brincando de Falcon novamente.

Eu queria acordar só mais um dia vendo meu pai e minha mãe juntos.

Eu queria poder dizer a eles que estou indo bem na escola da vida.

Eu queria ter participado mais da vida familiar.

Eu queria ter podido dar mais condições a eles.

Eu queria poder trocar o que conquistei por um único olhar daquela menina.

Eu queria que minhas poesias a conquistassem.

Eu queria que pessoas como o Renato e o Cazuza tivessem tido o que tanto cantavam, o amor.

Eu queria ter conhecido o Plínio Marcos, o João Antônio, o Raul Seixas e o Chico Science.

Eu queria estar escrevendo o que eu queria ter um dia.

Eu queria ter nascido num cenário do Star Wars.

Eu queria ter conhecido a Emilia e o Visconde.

Eu queria ter um poço de pesca pra mim e pros meus amigos.

Eu queria ter tipo um máquina do tempo, para poupar tanto sofrimento.

Eu queria ter uma cabana, com gelo no teto e arvores em volta.

Eu queria nem saber o que é dinheiro.

Eu queria ser tipo um cara conquistador.

Eu queria ter a certeza que conquistadores são felizes.

Eu queria saber cantar.

Eu queria ser tipo um viajante.

Eu queria acordar com um grande café da manhã na minha cama.

Eu queria registrar aquele sorriso naquele dia para sempre.

Eu queria poder saber o que será do meu povo amanhã.

Eu queria poder saber porque ela não conseguiu ficar ao meu lado.

Eu queria saber a fórmula de um grande sucesso.

Eu queria saber porque a fórmula do fracasso é agradar todo mundo.

Eu queria ter um robozinho daqueles de plástico que minha mãe me dava em datas especiais.

Eu queria ver meu pai chegando e fingir que estava dormindo novamente.

Eu queria saber dizer mais coisas agradáveis.

Eu queria que todos comemorassem o Natal de verdade.

Eu queria um dia poder voar como um pássaro.

Eu queria ser tipo uma frota contra o mal.

Eu queria saber o que é o mal.

Eu queria ser tipo um cara em que as idéias valessem algo.

Eu queria ser tipo um cara que deixou algo pra alguém.

Eu queria poder mostrar aquele momento em que o menino dividiu com todo mundo o pão velho que comia numa viela.

Eu queria poder entender como os engravatados podem comer numa mesa onde o almoço é mais caro que o salário da maioria dos brasileiros e mesmo assim dormem tranqüilos.

Eu queria ser tipo um cara ingênuo, a ponto de acreditar em Papai Noel, duendes e na polícia.

Eu queria ser tipo um cara sem insônia, sem gastrite, sem dores tão fortes na alma.

Eu acho que ainda queria ser só um desenhista.

Eu acho que ainda queria ser só alguém num mundo legal.

Eu acho que ainda queria ser aquele menino que não via as coisas como elas eram.

Eu acho que ainda queria ser aquele chato que sempre levantava a mão primeiro na hora das perguntas.

Eu acho que ainda queria ser mais um da turma.

Eu acho que ainda queria brincar de banca de gibis com minha irmã.

Eu acho que ainda queria ser aquele menino que andava de banca em banca procurando aventuras em quadrinhos.

Eu acho que ainda queria ter a esperança boba de achar que poderia fazer a diferença nessa bagunça de mundo.

Eu acho que vou dormir.

Eu também acho que amanhã bem cedo vou procurar realizar pelo menos algo disso tudo, e você o que acha?


Publicada na revista Caros amigos, São Paulo, n. 58, jan. 2002
26 708 47
Castro Alves

Castro Alves

Vozes d'África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

(...)

Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

(...)

A Europa é sempre Europa, a gloriosa!...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista — corta o mármor de Carrara;
Poetisa — tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã!...

Sempre a láurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c'roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
O Universo após ela — doudo amante —
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.

.......................................

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
Talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...

(...)

Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: "La vai África embuçada
No seu branco albornoz..."

(...)

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!...

...........................................

(...)

Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir — Judeu maldito —
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa — arrebatada —
Amestrado falcão!...

Cristo! embalde morreste sobre um monte...
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
— Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

.........................................

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p'ra os crimes meus!...
Há dois mil anos... eu soluço um grito...
Escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...

São Paulo, 11 de junho de 1868.

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Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
90 393 34