Poemas neste tema
Vida e Existência
Fernando Pinto do Amaral
Á Chegada do Inverno
Nem sempre
a vida acolhe ou alimenta
os nomes do passado, o seu abismo
repetido num sonho, na mais lenta
assombração, no mais íntimo sismo
Do que chamamos alma. Não existo
sem essa febre mansa que relembro
enquanto as nuvens cobrem tudo isto
com o frio escuro de um dezembro
Longe de mim, de ti, de qualquer lei
ou juízo a que dêmos um sentido:
o que finjo saber é o que não sei
e as palavras colam-se ao ouvido.
a vida acolhe ou alimenta
os nomes do passado, o seu abismo
repetido num sonho, na mais lenta
assombração, no mais íntimo sismo
Do que chamamos alma. Não existo
sem essa febre mansa que relembro
enquanto as nuvens cobrem tudo isto
com o frio escuro de um dezembro
Longe de mim, de ti, de qualquer lei
ou juízo a que dêmos um sentido:
o que finjo saber é o que não sei
e as palavras colam-se ao ouvido.
2 155
1
Hilda Hilst
III
Isso de
mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como que come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.
Não
tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.
mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como que come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.
Não
tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.
1 763
1
Ferreira Gullar
Lição de Um Gato Siamês
Só agora
sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade
O tempo fora
de mim
é relativo
mas não é o tempo vivo:
esse é eterno
porque efetivo
- dura eternamente
enquanto vivo
E como não vivo
além do eu vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)
sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade
O tempo fora
de mim
é relativo
mas não é o tempo vivo:
esse é eterno
porque efetivo
- dura eternamente
enquanto vivo
E como não vivo
além do eu vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)
3 448
1
Ferreira Gullar
Lição de Um Gato Siamês
Só agora
sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade
O tempo fora
de mim
é relativo
mas não é o tempo vivo:
esse é eterno
porque efetivo
- dura eternamente
enquanto vivo
E como não vivo
além do eu vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)
sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade
O tempo fora
de mim
é relativo
mas não é o tempo vivo:
esse é eterno
porque efetivo
- dura eternamente
enquanto vivo
E como não vivo
além do eu vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)
3 448
1
Ferreira Gullar
Lição de Um Gato Siamês
Só agora
sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade
O tempo fora
de mim
é relativo
mas não é o tempo vivo:
esse é eterno
porque efetivo
- dura eternamente
enquanto vivo
E como não vivo
além do eu vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)
sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade
O tempo fora
de mim
é relativo
mas não é o tempo vivo:
esse é eterno
porque efetivo
- dura eternamente
enquanto vivo
E como não vivo
além do eu vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)
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1
Giselle del Pino
Lembranças
Eu sou
agora toda a Europa.
Passei a vida a amarrar meus navios.
Sou o punhado de areia
Que coube na mão do mar.
Nasci da bruma,
Da vasta quimera,
Que mocidades em mim
Vieram e se foram.
Sou de Portugal a semente,
Da Espanha a volúpia,
Da França a espada,
Que a Inglaterra me beijou depois.
Sei que as cinzas baixam campa,
Na fúria dos séculos degredada.
E todos os vales de amores
Alumbram minha alma e meu coração.
Eu sou agora toda a América
De Brasis e miseráveis.
A minha vida está condenada ao porto,
A espera desta história
Recriada todo dia
Pela tela de espelhos
Em que minha alma se prendeu.
agora toda a Europa.
Passei a vida a amarrar meus navios.
Sou o punhado de areia
Que coube na mão do mar.
Nasci da bruma,
Da vasta quimera,
Que mocidades em mim
Vieram e se foram.
Sou de Portugal a semente,
Da Espanha a volúpia,
Da França a espada,
Que a Inglaterra me beijou depois.
Sei que as cinzas baixam campa,
Na fúria dos séculos degredada.
E todos os vales de amores
Alumbram minha alma e meu coração.
Eu sou agora toda a América
De Brasis e miseráveis.
A minha vida está condenada ao porto,
A espera desta história
Recriada todo dia
Pela tela de espelhos
Em que minha alma se prendeu.
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1
Angela Santos
Auscultação
Agora
paro mais vezes,
paro e perscruto o silencio…
escuto, sem saber bem o que oiço
Quem sabe se a voz do mundo,
como o correr silencioso de um rio,
a espraiar-se na foz de um poema,
palavra a palavra erguido
construindo um sentido.
E se paro, e oiço, sinto "isto"…
e isto que sinto, como dize-lo?
isto que arranco a um lugar em mim,
ou a um lugar longe que de mim se acerca,
como voz que com o vento chegasse
quando eu em silencio posta.
Talvez que do coração
"isso" não seja mais que o sussurro,
colhido naquele instante
em que a mente se ausenta
para lhe dar voz.
paro mais vezes,
paro e perscruto o silencio…
escuto, sem saber bem o que oiço
Quem sabe se a voz do mundo,
como o correr silencioso de um rio,
a espraiar-se na foz de um poema,
palavra a palavra erguido
construindo um sentido.
E se paro, e oiço, sinto "isto"…
e isto que sinto, como dize-lo?
isto que arranco a um lugar em mim,
ou a um lugar longe que de mim se acerca,
como voz que com o vento chegasse
quando eu em silencio posta.
Talvez que do coração
"isso" não seja mais que o sussurro,
colhido naquele instante
em que a mente se ausenta
para lhe dar voz.
1 203
1
Hilda Hilst
VIII
Aquela
que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente
é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, "Esse"
Que bem me sabe inteira pertencida.
que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente
é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, "Esse"
Que bem me sabe inteira pertencida.
1 431
1
Hilda Hilst
VIII
Aquela
que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente
é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, "Esse"
Que bem me sabe inteira pertencida.
que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente
é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, "Esse"
Que bem me sabe inteira pertencida.
1 431
1
Lêdo Ivo
Gavião
O gavião sobrevoa
a plantação de tomate.
Meu irmão gavião
eu não aceito a morte.
Na partilha do mundo
não estarei ao teu lado.
Jamais admitirei
a usurpação do dia.
Só sei enfileirar-me
no cortejo da vida.
Meu caminho me leva
a floresta onde fluem
as fontes escondidas.
Mesmo longe adivinho
uma árvore que tenha
frescor de fruto ou ninho.
Gavião! Gavião!
embaixador do não,
o céu não pode
sepultura de pássaros.
a plantação de tomate.
Meu irmão gavião
eu não aceito a morte.
Na partilha do mundo
não estarei ao teu lado.
Jamais admitirei
a usurpação do dia.
Só sei enfileirar-me
no cortejo da vida.
Meu caminho me leva
a floresta onde fluem
as fontes escondidas.
Mesmo longe adivinho
uma árvore que tenha
frescor de fruto ou ninho.
Gavião! Gavião!
embaixador do não,
o céu não pode
sepultura de pássaros.
1 503
1
Angela Santos
Transparências
Na
bruma
de um qualquer horizonte
não me quero perder
pelo sonho se vislumbra já
novo oriente das descobertas.
Pedras raras, essências,
sedas naturais num corpo
porto e navio…
ò transparências matinais
aqui vos aguardo…
levantar ferros, navegar
esse é o destino.
bruma
de um qualquer horizonte
não me quero perder
pelo sonho se vislumbra já
novo oriente das descobertas.
Pedras raras, essências,
sedas naturais num corpo
porto e navio…
ò transparências matinais
aqui vos aguardo…
levantar ferros, navegar
esse é o destino.
738
1
Angela Santos
Transparências
Na
bruma
de um qualquer horizonte
não me quero perder
pelo sonho se vislumbra já
novo oriente das descobertas.
Pedras raras, essências,
sedas naturais num corpo
porto e navio…
ò transparências matinais
aqui vos aguardo…
levantar ferros, navegar
esse é o destino.
bruma
de um qualquer horizonte
não me quero perder
pelo sonho se vislumbra já
novo oriente das descobertas.
Pedras raras, essências,
sedas naturais num corpo
porto e navio…
ò transparências matinais
aqui vos aguardo…
levantar ferros, navegar
esse é o destino.
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1
Hilda Hilst
I
Que este
amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este
amor me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este
amor só me veja de partida.
amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este
amor me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este
amor só me veja de partida.
1 364
1
Nauro Machado
Geografia Humana
Há em mim,
carne minha, os quatro cantos da liberdade.
No meu assoalho amanhece o sol de todas as direções.
Há em mim o rumo da raiz do multiplicado vento
Soprando aonde quer, porque quer a liberdade.
No oco do espaço o casario sua ao sol do tempo.
parto-me em trens, olho-me em fontes, divido-me em marmitas,
porque há em mim, carne minha, os quatro cantos da liberdade.
e até no último deles, o mais silencioso e esquivo deles,
o ainda virgem, o alheio a bispos e batismos de párocos,
agachado como um animal e útil como uma bilha no meio da sala,
encontrarei ainda o início de uma outra liberdade.
carne minha, os quatro cantos da liberdade.
No meu assoalho amanhece o sol de todas as direções.
Há em mim o rumo da raiz do multiplicado vento
Soprando aonde quer, porque quer a liberdade.
No oco do espaço o casario sua ao sol do tempo.
parto-me em trens, olho-me em fontes, divido-me em marmitas,
porque há em mim, carne minha, os quatro cantos da liberdade.
e até no último deles, o mais silencioso e esquivo deles,
o ainda virgem, o alheio a bispos e batismos de párocos,
agachado como um animal e útil como uma bilha no meio da sala,
encontrarei ainda o início de uma outra liberdade.
1 867
1
Nauro Machado
Geografia Humana
Há em mim,
carne minha, os quatro cantos da liberdade.
No meu assoalho amanhece o sol de todas as direções.
Há em mim o rumo da raiz do multiplicado vento
Soprando aonde quer, porque quer a liberdade.
No oco do espaço o casario sua ao sol do tempo.
parto-me em trens, olho-me em fontes, divido-me em marmitas,
porque há em mim, carne minha, os quatro cantos da liberdade.
e até no último deles, o mais silencioso e esquivo deles,
o ainda virgem, o alheio a bispos e batismos de párocos,
agachado como um animal e útil como uma bilha no meio da sala,
encontrarei ainda o início de uma outra liberdade.
carne minha, os quatro cantos da liberdade.
No meu assoalho amanhece o sol de todas as direções.
Há em mim o rumo da raiz do multiplicado vento
Soprando aonde quer, porque quer a liberdade.
No oco do espaço o casario sua ao sol do tempo.
parto-me em trens, olho-me em fontes, divido-me em marmitas,
porque há em mim, carne minha, os quatro cantos da liberdade.
e até no último deles, o mais silencioso e esquivo deles,
o ainda virgem, o alheio a bispos e batismos de párocos,
agachado como um animal e útil como uma bilha no meio da sala,
encontrarei ainda o início de uma outra liberdade.
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1
Silvaney Paes
Moribundo diante de um Padre
Conhecendo
mais à dor...
Dela, devo tirar-lhe pálidos goles de gozo
E delirar em derradeiros instantes de riso,
Para que vossas piedosas intenções
Restem guardadas para uma outra alma,
Alienada de vosso rabanho.
E desde já,
Abro mão de ocultas baixezas,
Pois que declaro, sempre desejei
Fosse a vossa hora antes da minha.
E nada podeis ofertar a este moribundo...
Haja que, de nada mais careço.
Como crer em vosso falhado Deus Cristão?
Ele já foi a ilusão temporã deste peregrino
E por isso fui falhado homem de falhada sorte,
Mas, se agora me falha teimosa fibra,
Que dantes conduzia ralo líquido em mim,
Não haverá de falhar-me a morte onde falhou-me a vida.
E careço somente nela crer por ora.
Se neste instante derradeiro,
Em achando que blasfemo contra vosso senhor,
Pois que, lhe encomende o somatório de minhas faltas
E que profira zangada sentença.
Já cumpri todas as penas,
Nos meus cotidianos infernos e purgatórios,
Bem diante de vossos cegos olhos e surdos ouvidos
mais à dor...
Dela, devo tirar-lhe pálidos goles de gozo
E delirar em derradeiros instantes de riso,
Para que vossas piedosas intenções
Restem guardadas para uma outra alma,
Alienada de vosso rabanho.
E desde já,
Abro mão de ocultas baixezas,
Pois que declaro, sempre desejei
Fosse a vossa hora antes da minha.
E nada podeis ofertar a este moribundo...
Haja que, de nada mais careço.
Como crer em vosso falhado Deus Cristão?
Ele já foi a ilusão temporã deste peregrino
E por isso fui falhado homem de falhada sorte,
Mas, se agora me falha teimosa fibra,
Que dantes conduzia ralo líquido em mim,
Não haverá de falhar-me a morte onde falhou-me a vida.
E careço somente nela crer por ora.
Se neste instante derradeiro,
Em achando que blasfemo contra vosso senhor,
Pois que, lhe encomende o somatório de minhas faltas
E que profira zangada sentença.
Já cumpri todas as penas,
Nos meus cotidianos infernos e purgatórios,
Bem diante de vossos cegos olhos e surdos ouvidos
715
1
Silvaney Paes
Moribundo diante de um Padre
Conhecendo
mais à dor...
Dela, devo tirar-lhe pálidos goles de gozo
E delirar em derradeiros instantes de riso,
Para que vossas piedosas intenções
Restem guardadas para uma outra alma,
Alienada de vosso rabanho.
E desde já,
Abro mão de ocultas baixezas,
Pois que declaro, sempre desejei
Fosse a vossa hora antes da minha.
E nada podeis ofertar a este moribundo...
Haja que, de nada mais careço.
Como crer em vosso falhado Deus Cristão?
Ele já foi a ilusão temporã deste peregrino
E por isso fui falhado homem de falhada sorte,
Mas, se agora me falha teimosa fibra,
Que dantes conduzia ralo líquido em mim,
Não haverá de falhar-me a morte onde falhou-me a vida.
E careço somente nela crer por ora.
Se neste instante derradeiro,
Em achando que blasfemo contra vosso senhor,
Pois que, lhe encomende o somatório de minhas faltas
E que profira zangada sentença.
Já cumpri todas as penas,
Nos meus cotidianos infernos e purgatórios,
Bem diante de vossos cegos olhos e surdos ouvidos
mais à dor...
Dela, devo tirar-lhe pálidos goles de gozo
E delirar em derradeiros instantes de riso,
Para que vossas piedosas intenções
Restem guardadas para uma outra alma,
Alienada de vosso rabanho.
E desde já,
Abro mão de ocultas baixezas,
Pois que declaro, sempre desejei
Fosse a vossa hora antes da minha.
E nada podeis ofertar a este moribundo...
Haja que, de nada mais careço.
Como crer em vosso falhado Deus Cristão?
Ele já foi a ilusão temporã deste peregrino
E por isso fui falhado homem de falhada sorte,
Mas, se agora me falha teimosa fibra,
Que dantes conduzia ralo líquido em mim,
Não haverá de falhar-me a morte onde falhou-me a vida.
E careço somente nela crer por ora.
Se neste instante derradeiro,
Em achando que blasfemo contra vosso senhor,
Pois que, lhe encomende o somatório de minhas faltas
E que profira zangada sentença.
Já cumpri todas as penas,
Nos meus cotidianos infernos e purgatórios,
Bem diante de vossos cegos olhos e surdos ouvidos
715
1
Giselle del Pino
Desperta
Desperta,
amor, das plácidas
Margens de meus braços.
Desperta do gozo pleno
Dos meus e dos teus ais.
O tempo corre pra longe
E dormes a noite que te prometi.
Se afago teu corpo, insaciável,
É que careço do tempo que perdi.
Desperta, amor,
Já vem tão logo outro dia,
E distante reviverei teus apelos,
E por amor tecerei nossos dias,
Que passados,
Tem pressa do futuro.
Desperta, amor,
Amanhã não estarei dentro de ti.
E se me levo longe,
Eu sei que ainda estarei por perto,
E por certo ainda,
Habitarás em mim.
amor, das plácidas
Margens de meus braços.
Desperta do gozo pleno
Dos meus e dos teus ais.
O tempo corre pra longe
E dormes a noite que te prometi.
Se afago teu corpo, insaciável,
É que careço do tempo que perdi.
Desperta, amor,
Já vem tão logo outro dia,
E distante reviverei teus apelos,
E por amor tecerei nossos dias,
Que passados,
Tem pressa do futuro.
Desperta, amor,
Amanhã não estarei dentro de ti.
E se me levo longe,
Eu sei que ainda estarei por perto,
E por certo ainda,
Habitarás em mim.
1 016
1
Lya Luft
Guardei-me para Ti
Guardei-me
para ti como um segredo
Que eu mesma não desvendei:
Há notas nesta guitarra que não toquei,
Há praias na minha ilha que nem andei.
É preciso que me tomes, além do riso e do olhar,
Naquilo que não conheço e adivinhei;
É preciso que me ensines a canção do que serei
E me cries com teu gesto
Que nem sonhei.
para ti como um segredo
Que eu mesma não desvendei:
Há notas nesta guitarra que não toquei,
Há praias na minha ilha que nem andei.
É preciso que me tomes, além do riso e do olhar,
Naquilo que não conheço e adivinhei;
É preciso que me ensines a canção do que serei
E me cries com teu gesto
Que nem sonhei.
3 397
1
Hilda Hilst
II
E só
me veja
No não
merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos
Eu-alguém
travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).
Dorsos
de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.
E que jamais
perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.
me veja
No não
merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos
Eu-alguém
travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).
Dorsos
de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.
E que jamais
perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.
1 404
1
Hilda Hilst
II
E só
me veja
No não
merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos
Eu-alguém
travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).
Dorsos
de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.
E que jamais
perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.
me veja
No não
merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos
Eu-alguém
travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).
Dorsos
de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.
E que jamais
perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.
1 404
1
Florbela Espanca
Pequenina
À Maria Helena Falcão Risques
És pequenina e ris... A boca breve
É um pequeno idílio cor-de-rosa...
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!
Doce quimera que a nossa alma deve
Ao Céu que assim te fez tão graciosa!
Que nesta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!
O ver o teu olhar faz bem à gente...
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores
Quando o teu nome diz, suavemente...
Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dores
Que fizeram de mim isto que sou!
És pequenina e ris... A boca breve
É um pequeno idílio cor-de-rosa...
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!
Doce quimera que a nossa alma deve
Ao Céu que assim te fez tão graciosa!
Que nesta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!
O ver o teu olhar faz bem à gente...
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores
Quando o teu nome diz, suavemente...
Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dores
Que fizeram de mim isto que sou!
5 781
1
Florbela Espanca
Pequenina
À Maria Helena Falcão Risques
És pequenina e ris... A boca breve
É um pequeno idílio cor-de-rosa...
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!
Doce quimera que a nossa alma deve
Ao Céu que assim te fez tão graciosa!
Que nesta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!
O ver o teu olhar faz bem à gente...
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores
Quando o teu nome diz, suavemente...
Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dores
Que fizeram de mim isto que sou!
És pequenina e ris... A boca breve
É um pequeno idílio cor-de-rosa...
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!
Doce quimera que a nossa alma deve
Ao Céu que assim te fez tão graciosa!
Que nesta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!
O ver o teu olhar faz bem à gente...
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores
Quando o teu nome diz, suavemente...
Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dores
Que fizeram de mim isto que sou!
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Pedro Tierra
Os Novos Materiais
Se Deus
está morto
e o Papa tenta, em vão, ressuscitá-lo
com os poderes do Novo Catecismo ...
Se Fukuyama,
que nunca se cobriu de nee
e não sabe os labirintos do Tempo - como o monte Fuji -
decretou o fim da História
e a História aparentemente se resigna ...
Se foi abolida a luta de classes,
embora os cidadãos comuns,
em defesa dos seus muros,
matem mais pobres e negros
que o crime organizado ...
Se no coração dos Andes
povos se curvam, colhem a folha
mascam,
vencem o sorache
e produzem a coca
como condição para seguir vivendo ...
Se é rigorosamente normal
assassinar crianças
que escaparam do frio,
da fome, da cola de sapateiro,
nas Candelárias do meu país ...
Se ruíram todas as utopias
e a ferocidade reduziu
a geografia dos homens
ao exato limite da pele ..
Se a AIDS converteu o gozo essencial
numa condenação
e o sêmen, o sangue
- os rios da vida -
no veneno indecifrável
da morte ...
está morto
e o Papa tenta, em vão, ressuscitá-lo
com os poderes do Novo Catecismo ...
Se Fukuyama,
que nunca se cobriu de nee
e não sabe os labirintos do Tempo - como o monte Fuji -
decretou o fim da História
e a História aparentemente se resigna ...
Se foi abolida a luta de classes,
embora os cidadãos comuns,
em defesa dos seus muros,
matem mais pobres e negros
que o crime organizado ...
Se no coração dos Andes
povos se curvam, colhem a folha
mascam,
vencem o sorache
e produzem a coca
como condição para seguir vivendo ...
Se é rigorosamente normal
assassinar crianças
que escaparam do frio,
da fome, da cola de sapateiro,
nas Candelárias do meu país ...
Se ruíram todas as utopias
e a ferocidade reduziu
a geografia dos homens
ao exato limite da pele ..
Se a AIDS converteu o gozo essencial
numa condenação
e o sêmen, o sangue
- os rios da vida -
no veneno indecifrável
da morte ...
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