Poemas neste tema
Vida e Existência
Junqueira Freire
A Freira
Eu jovem freira, bem triste choro
Aqui cosida co'a cruz de Deus.
Aqui sozinha, ninguém não sabe
Dos meus desejos, dos males meus.
Qual no deserto se praz a rola,
Cuidam que a freira seja feliz.
E a pobre freira, dentro da cela,
Ninguém não sabe que se maldiz.
Enquanto a vida não se desdobra,
E apenas rompe, róseo botão,
A freira insone prateia de astros,
Povoa de anjos sua solidão.
Uma palavra que ela profere
É sempre um ente que ela criou.
Uma florzinha que colhe acaso
É uma amiga que ela encontrou.
Conversa à noite co'a estrela vésper,
Ama o opaco de seu clarão.
E sente chamas que julga dores,
E o peito aperta co'a nívea mão.
Ela não sabe que a estrela vésper
Influi nas almas lascivo ardor:
Que, não sem causa, no tempo antigo,
A estrela vésper chamou-se — Amor.
A estrela vésper produz nas virgens
Estranho incêndio, vulcão fatal:
Quer seja freira — do Cristo filha,
Quer seja antiga pagã vestal.
A estrela vésper... Fugi, meninas,
Fugi dos raios do seu candor.
A estrela vésper influi volúpia,
A estrela vésper chama-se — Amor.
(...)
Publicado no livro Inspirações do Claustro (1855).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.25-2
Aqui cosida co'a cruz de Deus.
Aqui sozinha, ninguém não sabe
Dos meus desejos, dos males meus.
Qual no deserto se praz a rola,
Cuidam que a freira seja feliz.
E a pobre freira, dentro da cela,
Ninguém não sabe que se maldiz.
Enquanto a vida não se desdobra,
E apenas rompe, róseo botão,
A freira insone prateia de astros,
Povoa de anjos sua solidão.
Uma palavra que ela profere
É sempre um ente que ela criou.
Uma florzinha que colhe acaso
É uma amiga que ela encontrou.
Conversa à noite co'a estrela vésper,
Ama o opaco de seu clarão.
E sente chamas que julga dores,
E o peito aperta co'a nívea mão.
Ela não sabe que a estrela vésper
Influi nas almas lascivo ardor:
Que, não sem causa, no tempo antigo,
A estrela vésper chamou-se — Amor.
A estrela vésper produz nas virgens
Estranho incêndio, vulcão fatal:
Quer seja freira — do Cristo filha,
Quer seja antiga pagã vestal.
A estrela vésper... Fugi, meninas,
Fugi dos raios do seu candor.
A estrela vésper influi volúpia,
A estrela vésper chama-se — Amor.
(...)
Publicado no livro Inspirações do Claustro (1855).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.25-2
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1
Alcides Villaça
Penélope
Minha irmã foi noiva longamente
que hoje borda e fia na janela,
penélope de próprio labirinto.
Eu mesmo na janela não diviso
senão a vaga espera, em gesto aéreo,
tecida apenas do desejo aflito
com que bordo seu noivo nos atrasos.
Não cabem nossos olhos nesta sala
tão grande, de paredes recuadas;
pois que se cruzem, se amem, se maltratem
com entender de si seus tempos vários.
Apanho teu novelo descuidado.
componho-o de novo, ao revés;
alcança-o teu colo, no bordado
de onde partiu e chega, já sem cor.
Teu noivo, nessa espera, longamente
não vem; o que te posso responder
(como profeta que olha à ré do corpo)
é que já não virá, em seu destino
entregue à solidão dos esperados.
E nós, nosso retrato se colore
daquele azul das horas cumuladas
com que à distância vemos, no bordado,
fio e agulha em linho descansando.
Teu corpo no caminho da janela
eternamente indo, e eu ficando.
In: VILLAÇA, Alcides. Viagem de trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Estação Anterior.
que hoje borda e fia na janela,
penélope de próprio labirinto.
Eu mesmo na janela não diviso
senão a vaga espera, em gesto aéreo,
tecida apenas do desejo aflito
com que bordo seu noivo nos atrasos.
Não cabem nossos olhos nesta sala
tão grande, de paredes recuadas;
pois que se cruzem, se amem, se maltratem
com entender de si seus tempos vários.
Apanho teu novelo descuidado.
componho-o de novo, ao revés;
alcança-o teu colo, no bordado
de onde partiu e chega, já sem cor.
Teu noivo, nessa espera, longamente
não vem; o que te posso responder
(como profeta que olha à ré do corpo)
é que já não virá, em seu destino
entregue à solidão dos esperados.
E nós, nosso retrato se colore
daquele azul das horas cumuladas
com que à distância vemos, no bordado,
fio e agulha em linho descansando.
Teu corpo no caminho da janela
eternamente indo, e eu ficando.
In: VILLAÇA, Alcides. Viagem de trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Estação Anterior.
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1
Álvaro Moreyra
Do Outono e do Silêncio
Ah como eu sinto o outono
nestes crepúsculos dispersos,
de solidão e de abandono!
nessas nuvens longínquas, agoureiras,
que têm a cor que um dia houve em meus
versos
e nas tuas olheiras...
Tomba uma sombra roxa sobre a terra.
A mesma nuança em torno tudo encerra
nuns tons fanados de ametista.
Caem violetas...
Paisagem velha e nunca vista...
Paisagem próxima e tão distante...
A luz foge, esfacelando
em silhuetas
os troncos da alameda agonizante.
O outono é uma elegia
que as folhas plangem, pelo vento, em
bando...
E o outono me amargura e anestesia
com o silêncio...
Silêncio
das ressonâncias
esquecidas
que o fim do dia deixa sempre no ar...
Silêncio
irmão das covas, das ermidas,
incenso das distâncias,
onde a memória fica a ouvir perdidas
palavras que morreram sem falar...
Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).
In: MOREYRA, Álvaro. Lenda das rosas. São Paulo: Ed. Nacional, 1928. p.37-38. (Os Mais belos poemas de amor
nestes crepúsculos dispersos,
de solidão e de abandono!
nessas nuvens longínquas, agoureiras,
que têm a cor que um dia houve em meus
versos
e nas tuas olheiras...
Tomba uma sombra roxa sobre a terra.
A mesma nuança em torno tudo encerra
nuns tons fanados de ametista.
Caem violetas...
Paisagem velha e nunca vista...
Paisagem próxima e tão distante...
A luz foge, esfacelando
em silhuetas
os troncos da alameda agonizante.
O outono é uma elegia
que as folhas plangem, pelo vento, em
bando...
E o outono me amargura e anestesia
com o silêncio...
Silêncio
das ressonâncias
esquecidas
que o fim do dia deixa sempre no ar...
Silêncio
irmão das covas, das ermidas,
incenso das distâncias,
onde a memória fica a ouvir perdidas
palavras que morreram sem falar...
Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).
In: MOREYRA, Álvaro. Lenda das rosas. São Paulo: Ed. Nacional, 1928. p.37-38. (Os Mais belos poemas de amor
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1
Joaquim Manuel de Macedo
Amanhã há de rir-se no meu rosto, (Ato III, Cena VI)
(...)
Amanhã há de rir-se no meu rosto,
Ver-me em pé... respeitoso... de olhos baixos
Ouvindo, humilde, injurioso escárnio?...
Oh! Gil da Cunha, a confiança é cega;
O dia de amanhã ninguém conhece:
Quem sabe se um de nós amanhã morre?...
Amanhã!... esta frase é prova certa
De nosso orgulho vão; homem vaidoso,
Que hoje levantas insolente a fronte,
Amanhã por teu rosto o verme passa,
E o vil adulador que hoje te incensa
Amanhã cuspirá no teu cadáver!...
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.2, p.53. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
Amanhã há de rir-se no meu rosto,
Ver-me em pé... respeitoso... de olhos baixos
Ouvindo, humilde, injurioso escárnio?...
Oh! Gil da Cunha, a confiança é cega;
O dia de amanhã ninguém conhece:
Quem sabe se um de nós amanhã morre?...
Amanhã!... esta frase é prova certa
De nosso orgulho vão; homem vaidoso,
Que hoje levantas insolente a fronte,
Amanhã por teu rosto o verme passa,
E o vil adulador que hoje te incensa
Amanhã cuspirá no teu cadáver!...
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.2, p.53. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
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Joaquim Manuel de Macedo
Amanhã há de rir-se no meu rosto, (Ato III, Cena VI)
(...)
Amanhã há de rir-se no meu rosto,
Ver-me em pé... respeitoso... de olhos baixos
Ouvindo, humilde, injurioso escárnio?...
Oh! Gil da Cunha, a confiança é cega;
O dia de amanhã ninguém conhece:
Quem sabe se um de nós amanhã morre?...
Amanhã!... esta frase é prova certa
De nosso orgulho vão; homem vaidoso,
Que hoje levantas insolente a fronte,
Amanhã por teu rosto o verme passa,
E o vil adulador que hoje te incensa
Amanhã cuspirá no teu cadáver!...
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.2, p.53. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
Amanhã há de rir-se no meu rosto,
Ver-me em pé... respeitoso... de olhos baixos
Ouvindo, humilde, injurioso escárnio?...
Oh! Gil da Cunha, a confiança é cega;
O dia de amanhã ninguém conhece:
Quem sabe se um de nós amanhã morre?...
Amanhã!... esta frase é prova certa
De nosso orgulho vão; homem vaidoso,
Que hoje levantas insolente a fronte,
Amanhã por teu rosto o verme passa,
E o vil adulador que hoje te incensa
Amanhã cuspirá no teu cadáver!...
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.2, p.53. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
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1
Ronald de Carvalho
Filosofia
A realidade é apenas
um milagre da nossa fantasia...
Transforma numa Eternidade
o teu rápido instante de alegria!
Ama, chora, sorri... e dormirás sem penas,
porque foi bela a tua realidade.
Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.174. (Manancial, 44
um milagre da nossa fantasia...
Transforma numa Eternidade
o teu rápido instante de alegria!
Ama, chora, sorri... e dormirás sem penas,
porque foi bela a tua realidade.
Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.174. (Manancial, 44
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1
Carlos Felipe Moisés
A Paixão Segundo Camões
Transforma-se o amador em coisa alguma,
sem dolo, sem virtude, sem razão.
Por muito amar, dispersa o coração
e rói daquilo que é a alma nenhuma.
As esperanças perde, uma a uma,
de decifrar o rosto da paixão.
Sem rumo, ilhado entre o sim e o não,
perde-se no amor de um mar sem espuma.
Transforma-se o amador em coisa errante,
atira ao vento um grito enrouquecido
e busca se encontrar na coisa amada.
A pele rota, o gesto vacilante,
transforma-se, de amar como um perdido,
em sombra de si mesmo, ausência, nada.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
sem dolo, sem virtude, sem razão.
Por muito amar, dispersa o coração
e rói daquilo que é a alma nenhuma.
As esperanças perde, uma a uma,
de decifrar o rosto da paixão.
Sem rumo, ilhado entre o sim e o não,
perde-se no amor de um mar sem espuma.
Transforma-se o amador em coisa errante,
atira ao vento um grito enrouquecido
e busca se encontrar na coisa amada.
A pele rota, o gesto vacilante,
transforma-se, de amar como um perdido,
em sombra de si mesmo, ausência, nada.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
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1
Colombina
Espírito
Não! A verdade és tu! A tua flama pura
sobre a matéria e além dos séculos cintila!
Plasmas o sonho e dás à humana criatura
forças para vencer a própria triste argila.
Conduzes ao saber; a ti pertence a altura;
tudo que é belo vem da tua luz tranquila.
Sem ti seria o mundo uma caverna escura;
nem a morte cruel te vence ou te aniquila.
Revelação de Deus, de toda a sua imensa
sabedoria, que dizendo ao homem "Pensa!"
no cérebro lhe pôs a forja das idéias.
Sim, a verdade és tu, espírito que elevas
as criaturas; tu, que enches de luz as trevas,
transformando a miséria e a dor em epopéias!
Publicado no livro Distância: poemas de amor e de renúncia (1948). Poema integrante da série Luzes na Neblina.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
sobre a matéria e além dos séculos cintila!
Plasmas o sonho e dás à humana criatura
forças para vencer a própria triste argila.
Conduzes ao saber; a ti pertence a altura;
tudo que é belo vem da tua luz tranquila.
Sem ti seria o mundo uma caverna escura;
nem a morte cruel te vence ou te aniquila.
Revelação de Deus, de toda a sua imensa
sabedoria, que dizendo ao homem "Pensa!"
no cérebro lhe pôs a forja das idéias.
Sim, a verdade és tu, espírito que elevas
as criaturas; tu, que enches de luz as trevas,
transformando a miséria e a dor em epopéias!
Publicado no livro Distância: poemas de amor e de renúncia (1948). Poema integrante da série Luzes na Neblina.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
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1
Amadeu Amaral
22 - Em Meditação Introspectiva
Do fundo de meu ser, num arremesso
longo, parte uma voz turva e fremente.
Escuto-a já bramir, quando, em começo,
balbuciava uma prece, lentamente.
Acendo o lume da Razão, e desço
às cavernas profundas do Inconsciente.
A luz vacila e fuma; eu estremeço,
vendo só treva acumulada em frente.
Clamo, interrogo... Em vão. Silêncio em tudo.
Aos poucos, num luar distante, agora,
rondam vultos de sonho e de pecado.
E aflita, o colo branco a arfar desnudo,
uma princesa acorrentada chora
junto a um fosco antropóide acorrentado.
16 de setembro de 1922
Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.266. (Obras de Amadeu Amaral
longo, parte uma voz turva e fremente.
Escuto-a já bramir, quando, em começo,
balbuciava uma prece, lentamente.
Acendo o lume da Razão, e desço
às cavernas profundas do Inconsciente.
A luz vacila e fuma; eu estremeço,
vendo só treva acumulada em frente.
Clamo, interrogo... Em vão. Silêncio em tudo.
Aos poucos, num luar distante, agora,
rondam vultos de sonho e de pecado.
E aflita, o colo branco a arfar desnudo,
uma princesa acorrentada chora
junto a um fosco antropóide acorrentado.
16 de setembro de 1922
Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.266. (Obras de Amadeu Amaral
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1
Joaquim Manuel de Macedo
Canto I - A Rocha Negra
VI
(...)
Dizem que ali na turva penha imensa
Em velhas eras se acoutava insana
Mulher sabida em mágicas tremendas,
Que ensinam maus espíritos; formosa,
Inda aos cem anos moça como aos vinte,
Vê-la um momento era adorá-la sempre;
E amá-la eterno perdimento d'alma.
Gênio das trevas, só da lua amiga,
Fugia à luz do sol; mercê d'encantos,
Durante a noite mística pairava
No espaço em torno à rocha densa nuvem,
Em cujo seio toda se embebia,
Mal se abriam no céu rosas d'aurora;
Chamavam-a por isso a Nebulosa.
(...)
Tempo, que se não mede, assim vivera
Sempre moça e gentil, mau grado os anos;
Uma noite porém de tredo olvido
(Foi castigo de Deus) ao mar se atira,
Sem que antes repetisse as da cabala.
Satânicas palavras; tarde as lembra...
Mais tarde as balbucia... os pés se molham...
Vai sentindo afundar-se... em vão braceja...
Ruge a tormenta... súbito revolto
A juba monstruosa o mar encrespa,
E no abismo e no céu jogam madrias;
D'encontro à rocha-negra bravas ondas
O corpo arrojão da esquecida maga;
Debalde a miseranda estende os braços;
Se à pedra quer ligar-se, as mãos lhe faltam,
Pelo dorso escabroso escorregando,
As unhas lasca em vão e fere os dedos;
Uma, dez, vinte vezes... sempre o mesmo,
Dúbia esperança, e desengano certo!...
Volve os olhos ao céu... cintila aurora;
Quebra-se à luz do sol de todo o encanto;
Ai da fada gentil!... solta no espaço
A nuvem protetora, mago asilo,
Vai fugindo a embeber-se no horizonte,
Como no mar imenso abandonada
Erma barquinha que a corrente alonga!...
Não pode mais com a vida... perde as forças...
Um derradeiro arranco... inda é baldado...
Último foi: — abriu medonha boca
O pego vingador, e absorveu-a,
Dando-lhe cova aos pés da rocha-negra.
V
Ninguém da maga diz que o corpo exânime
Boiasse à flor das águas; um mistério
Foi sua vida, igual mistério a morte:
Contam muitos, porém, que nas desoras
Das noites em que a lua aclara a terra.
No turvo cimo da tremenda rocha
Vem sentar-se a cismar branco fantasma:
Que tão profundos ais longos desata,
Como nunca exalara humano seio;
Que há frio gelador da rocha em torno.
Esse fantasma... é ela; e canta e chora,
E com pérfido choro e tredos cantos,
Os incautos atrai, que ao mar se arrojam
De súbita loucura arrebatados,
Ou por negros contratos se escravizam
Ao império fatal da Nebulosa.
Imagem - 01210002
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.3-6
NOTA: O "Canto I - A Rocha Negra" é composto de 36 parte
(...)
Dizem que ali na turva penha imensa
Em velhas eras se acoutava insana
Mulher sabida em mágicas tremendas,
Que ensinam maus espíritos; formosa,
Inda aos cem anos moça como aos vinte,
Vê-la um momento era adorá-la sempre;
E amá-la eterno perdimento d'alma.
Gênio das trevas, só da lua amiga,
Fugia à luz do sol; mercê d'encantos,
Durante a noite mística pairava
No espaço em torno à rocha densa nuvem,
Em cujo seio toda se embebia,
Mal se abriam no céu rosas d'aurora;
Chamavam-a por isso a Nebulosa.
(...)
Tempo, que se não mede, assim vivera
Sempre moça e gentil, mau grado os anos;
Uma noite porém de tredo olvido
(Foi castigo de Deus) ao mar se atira,
Sem que antes repetisse as da cabala.
Satânicas palavras; tarde as lembra...
Mais tarde as balbucia... os pés se molham...
Vai sentindo afundar-se... em vão braceja...
Ruge a tormenta... súbito revolto
A juba monstruosa o mar encrespa,
E no abismo e no céu jogam madrias;
D'encontro à rocha-negra bravas ondas
O corpo arrojão da esquecida maga;
Debalde a miseranda estende os braços;
Se à pedra quer ligar-se, as mãos lhe faltam,
Pelo dorso escabroso escorregando,
As unhas lasca em vão e fere os dedos;
Uma, dez, vinte vezes... sempre o mesmo,
Dúbia esperança, e desengano certo!...
Volve os olhos ao céu... cintila aurora;
Quebra-se à luz do sol de todo o encanto;
Ai da fada gentil!... solta no espaço
A nuvem protetora, mago asilo,
Vai fugindo a embeber-se no horizonte,
Como no mar imenso abandonada
Erma barquinha que a corrente alonga!...
Não pode mais com a vida... perde as forças...
Um derradeiro arranco... inda é baldado...
Último foi: — abriu medonha boca
O pego vingador, e absorveu-a,
Dando-lhe cova aos pés da rocha-negra.
V
Ninguém da maga diz que o corpo exânime
Boiasse à flor das águas; um mistério
Foi sua vida, igual mistério a morte:
Contam muitos, porém, que nas desoras
Das noites em que a lua aclara a terra.
No turvo cimo da tremenda rocha
Vem sentar-se a cismar branco fantasma:
Que tão profundos ais longos desata,
Como nunca exalara humano seio;
Que há frio gelador da rocha em torno.
Esse fantasma... é ela; e canta e chora,
E com pérfido choro e tredos cantos,
Os incautos atrai, que ao mar se arrojam
De súbita loucura arrebatados,
Ou por negros contratos se escravizam
Ao império fatal da Nebulosa.
Imagem - 01210002
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.3-6
NOTA: O "Canto I - A Rocha Negra" é composto de 36 parte
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1
Arnaldo Antunes
Estou cego a todas as músicas
Estou cego a todas as músicas,
Não ouvi mais o cantar da musa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o peito que me cobre a blusa.
Já a mim nenhuma cena soa
Nem o céu se me desabotoa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como a língua cobre de saliva
Cada dente que sai da gengiva.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o sangue cobre a carne crua,
Como a pele cobre a carne viva,
Como a roupa cobre a pele nua.
Estou cego a todas as músicas.
E se eu canto é como um som que sua.
In: ANTUNES, Arnaldo. Tudos. 3.ed. São Paulo: Iluminuras, 199
Não ouvi mais o cantar da musa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o peito que me cobre a blusa.
Já a mim nenhuma cena soa
Nem o céu se me desabotoa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como a língua cobre de saliva
Cada dente que sai da gengiva.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o sangue cobre a carne crua,
Como a pele cobre a carne viva,
Como a roupa cobre a pele nua.
Estou cego a todas as músicas.
E se eu canto é como um som que sua.
In: ANTUNES, Arnaldo. Tudos. 3.ed. São Paulo: Iluminuras, 199
2 729
1
Artur de Azevedo
Soneto
Recitado por Dias Braga no espetáculo
comemorativo do 50o. aniversário do
falecimento de Martins Pena.
De Martins Pena foi bem triste a sorte:
Moço, bem moço, quando o seu talento
Desabrochava n'um deslumbramento,
Caiu, ferido pela mão da morte!
Era, entretanto, um lutador, um forte,
E, como não merece o esquecimento,
Que a nossa festa, ao menos um momento,
O seu risonho espírito conforte.
Quem o amou e o leu em vão procura
O seu nome na placa de uma esquina
Ou sobre a pedra de uma sepultura!
Porém, voltando à brasileira cena,
Há de brilhar a estrela peregrina
Que se chamou Luiz Carlos Martins Pena!
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
comemorativo do 50o. aniversário do
falecimento de Martins Pena.
De Martins Pena foi bem triste a sorte:
Moço, bem moço, quando o seu talento
Desabrochava n'um deslumbramento,
Caiu, ferido pela mão da morte!
Era, entretanto, um lutador, um forte,
E, como não merece o esquecimento,
Que a nossa festa, ao menos um momento,
O seu risonho espírito conforte.
Quem o amou e o leu em vão procura
O seu nome na placa de uma esquina
Ou sobre a pedra de uma sepultura!
Porém, voltando à brasileira cena,
Há de brilhar a estrela peregrina
Que se chamou Luiz Carlos Martins Pena!
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
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1
Artur de Azevedo
Soneto
Recitado por Dias Braga no espetáculo
comemorativo do 50o. aniversário do
falecimento de Martins Pena.
De Martins Pena foi bem triste a sorte:
Moço, bem moço, quando o seu talento
Desabrochava n'um deslumbramento,
Caiu, ferido pela mão da morte!
Era, entretanto, um lutador, um forte,
E, como não merece o esquecimento,
Que a nossa festa, ao menos um momento,
O seu risonho espírito conforte.
Quem o amou e o leu em vão procura
O seu nome na placa de uma esquina
Ou sobre a pedra de uma sepultura!
Porém, voltando à brasileira cena,
Há de brilhar a estrela peregrina
Que se chamou Luiz Carlos Martins Pena!
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
comemorativo do 50o. aniversário do
falecimento de Martins Pena.
De Martins Pena foi bem triste a sorte:
Moço, bem moço, quando o seu talento
Desabrochava n'um deslumbramento,
Caiu, ferido pela mão da morte!
Era, entretanto, um lutador, um forte,
E, como não merece o esquecimento,
Que a nossa festa, ao menos um momento,
O seu risonho espírito conforte.
Quem o amou e o leu em vão procura
O seu nome na placa de uma esquina
Ou sobre a pedra de uma sepultura!
Porém, voltando à brasileira cena,
Há de brilhar a estrela peregrina
Que se chamou Luiz Carlos Martins Pena!
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
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1
Antonio Fernando De Franceschi
Corpo
"... o único roteiro é o corpo. O corpo."
João Gilberto Noll
o corpo quer ordena sem recusa da vontade
a implacada ira seu domínio sabe altíssimo
sobre toda resistência quer o corpo em sanha
o outro corpo que no enlace o corpo assanha
e é fúria o doce nome seu jubiloso corpo
livre de amarras ou temores na aguda hora
que sempre mais e muito o infrene corpo quer
e a seu regaço incita em febre o corpo alheio
e logo é quieto o escuro abismo intranscendido
pois só o corpo aplaca o corpo em seu roteiro
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
João Gilberto Noll
o corpo quer ordena sem recusa da vontade
a implacada ira seu domínio sabe altíssimo
sobre toda resistência quer o corpo em sanha
o outro corpo que no enlace o corpo assanha
e é fúria o doce nome seu jubiloso corpo
livre de amarras ou temores na aguda hora
que sempre mais e muito o infrene corpo quer
e a seu regaço incita em febre o corpo alheio
e logo é quieto o escuro abismo intranscendido
pois só o corpo aplaca o corpo em seu roteiro
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
1 472
1
Sílvio Romero
Outra [Parlendas
Dinglin, dingues, Maria Pires?
Dinglin, dingues, Estou fazendo papa.
Dinglin, dingues, Para Quem?
Dinglin, dingues, Para João Manco.
................Quem foi que o mancou?
Foi a pedra.
Cadê a pedra?
Está no mato.
Cadê o mato
O fogo queimou.
Cadê o fogo?
A água apagou.
Cadê a água?
O boi bebeu...
Cadê o boi?
Foi buscar milho.
Para quem?
Para a galinha.
Cadê a galinha?
Está pondo.
Cadê o ovo?
O padre o bebeu.
Cadê o padre?
Foi dizer missa.
Cadê a missa.
Já se acabou.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.295. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Dinglin, dingues, Estou fazendo papa.
Dinglin, dingues, Para Quem?
Dinglin, dingues, Para João Manco.
................Quem foi que o mancou?
Foi a pedra.
Cadê a pedra?
Está no mato.
Cadê o mato
O fogo queimou.
Cadê o fogo?
A água apagou.
Cadê a água?
O boi bebeu...
Cadê o boi?
Foi buscar milho.
Para quem?
Para a galinha.
Cadê a galinha?
Está pondo.
Cadê o ovo?
O padre o bebeu.
Cadê o padre?
Foi dizer missa.
Cadê a missa.
Já se acabou.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.295. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
2 648
1
Sérgio Milliet
Recordação
Elas entraram uma após outra
no harém das recordações
Gilberta dos lábios maus
Armanda dos vícios bons
Dulce dos seios maternais
Teresa das angústias vãs
Uma após outra elas entraram
na dança descompassada
Susana em passo de valsa
Maria quebrando um samba
Mas a tua melodia
oh coração solitário
nenhuma delas percebeu
Foram saindo por isso
cada qual para seu lado
Gilberta com seu marido
Armanda pro cemitério
Dulce descabelada
entre remorsos e ais
Teresa com sua angústia
Susana dizendo adeus
Maria se requebrando
e teu coração solitário
mais solitário ficou.
Os anos passaram, cansaste?
Qual! nas tardes de abril
nas noites de lua cheia
o mesmo enleio te prende
a mesma insatisfação.
Outros lábios procuras
outros seios, outras mãos,
outros nomes se inscrevem
no medo da solidão
Mas apenas a lista aumenta
pois nada sedimenta
no fundo de teu coração.
Publicado no livro Oh! Valsa Latejante...1922/1943: poemas (1943).
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.148-149. (Autores brasileiros, 19
no harém das recordações
Gilberta dos lábios maus
Armanda dos vícios bons
Dulce dos seios maternais
Teresa das angústias vãs
Uma após outra elas entraram
na dança descompassada
Susana em passo de valsa
Maria quebrando um samba
Mas a tua melodia
oh coração solitário
nenhuma delas percebeu
Foram saindo por isso
cada qual para seu lado
Gilberta com seu marido
Armanda pro cemitério
Dulce descabelada
entre remorsos e ais
Teresa com sua angústia
Susana dizendo adeus
Maria se requebrando
e teu coração solitário
mais solitário ficou.
Os anos passaram, cansaste?
Qual! nas tardes de abril
nas noites de lua cheia
o mesmo enleio te prende
a mesma insatisfação.
Outros lábios procuras
outros seios, outras mãos,
outros nomes se inscrevem
no medo da solidão
Mas apenas a lista aumenta
pois nada sedimenta
no fundo de teu coração.
Publicado no livro Oh! Valsa Latejante...1922/1943: poemas (1943).
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.148-149. (Autores brasileiros, 19
1 941
1
Sílvio Romero
Outra [Parlendas
(Sergipe, Rio de Janeiro e Pernambuco)
Amanhã é domingo,
Pé de cachimbo;
Galo monteiro
Pisou na areia;
A areia é fina
Que dá no sino;
O sino é douro
Que dá no besouro;
O besouro é de prata
Que dá na mata;
A mata é valente,
Que dá no tenente;
O tenente é mofino,
Que dá no menino;
Menino é valente
Que dá em toda gente.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.294. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Amanhã é domingo,
Pé de cachimbo;
Galo monteiro
Pisou na areia;
A areia é fina
Que dá no sino;
O sino é douro
Que dá no besouro;
O besouro é de prata
Que dá na mata;
A mata é valente,
Que dá no tenente;
O tenente é mofino,
Que dá no menino;
Menino é valente
Que dá em toda gente.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.294. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
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1
Carvalho Júnior
IV - O Perfume
A Artur de Oliveira
Unge-te a pela fina e setinosa
Um perfume sutil, insinuante,
Igual à planta da Ásia venenosa,
Cuja sombra atraiçoa o viandante;
O nardo, o benjoim e a tuberosa,
As tépidas essências do Levante,
Do Meio-Dia a flora luxuosa,
De cores e de aromas abundante,
Não disputam-lhe o passo, a primazia,
Nem produzem-me a lânguida apatia
Que em noites de verão, lentas, calmosas,
Sinto quando debruço-me em teu seio,
Afogando-me em morno devaneio
Num mar de sensações voluptuosas.
In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
Unge-te a pela fina e setinosa
Um perfume sutil, insinuante,
Igual à planta da Ásia venenosa,
Cuja sombra atraiçoa o viandante;
O nardo, o benjoim e a tuberosa,
As tépidas essências do Levante,
Do Meio-Dia a flora luxuosa,
De cores e de aromas abundante,
Não disputam-lhe o passo, a primazia,
Nem produzem-me a lânguida apatia
Que em noites de verão, lentas, calmosas,
Sinto quando debruço-me em teu seio,
Afogando-me em morno devaneio
Num mar de sensações voluptuosas.
In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
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1
Sérgio Milliet
Boxe
Para Oswaldo de Andrade
Glórias do ring
Descarga elétrica
diz o vizinho que o swimg fulminou
Carpentier! Carpentier! Carpentier!
E o campeão sorri ao lado do Ursus estendido
Eis Siki desafiante no tablado
e o hino nacional das ovações.
Músculos aços braços sem cansaços
O século vibra todo
na elegância desse xeque-mate
Fora o xadrez e os bilhares de ventres prudentes
as folhas mortas e os decadentes
Renascimento das Espartas sadias
para brilhos nunca dantes inventados
E temos o direito de parodiar Camões
porque somos os clássicos do futuro
ou no mínimo o futuro dos clássicos
(Boa piada!)
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Análogos.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.44. (Autores brasileiros, 19
Glórias do ring
Descarga elétrica
diz o vizinho que o swimg fulminou
Carpentier! Carpentier! Carpentier!
E o campeão sorri ao lado do Ursus estendido
Eis Siki desafiante no tablado
e o hino nacional das ovações.
Músculos aços braços sem cansaços
O século vibra todo
na elegância desse xeque-mate
Fora o xadrez e os bilhares de ventres prudentes
as folhas mortas e os decadentes
Renascimento das Espartas sadias
para brilhos nunca dantes inventados
E temos o direito de parodiar Camões
porque somos os clássicos do futuro
ou no mínimo o futuro dos clássicos
(Boa piada!)
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Análogos.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.44. (Autores brasileiros, 19
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1
Carvalho Júnior
I - Profissão de Fé
Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
Beleza de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.
Sofismas de mulher, ilusões óticas,
Raquíticos abortos de lirismo,
Sonhos de carne, compleições exóticas,
Desfazem-se perante o realismo.
Não servem-me esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais,
Almas de santa e corpo de alfenim.
Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.
In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
Beleza de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.
Sofismas de mulher, ilusões óticas,
Raquíticos abortos de lirismo,
Sonhos de carne, compleições exóticas,
Desfazem-se perante o realismo.
Não servem-me esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais,
Almas de santa e corpo de alfenim.
Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.
In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
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1
Carvalho Júnior
I - Profissão de Fé
Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
Beleza de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.
Sofismas de mulher, ilusões óticas,
Raquíticos abortos de lirismo,
Sonhos de carne, compleições exóticas,
Desfazem-se perante o realismo.
Não servem-me esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais,
Almas de santa e corpo de alfenim.
Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.
In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
Beleza de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.
Sofismas de mulher, ilusões óticas,
Raquíticos abortos de lirismo,
Sonhos de carne, compleições exóticas,
Desfazem-se perante o realismo.
Não servem-me esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais,
Almas de santa e corpo de alfenim.
Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.
In: CARVALHO JÚNIOR. Parisina. Pref. Arthur Barreiros. Rio de Janeiro: Tip. de Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879
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1
Santa Rita Durão
Canto II [Acaso soube que a Gupeva viera
LXXVII
(...)
Acaso soube que a Gupeva viera
Certa dama gentil brasiliana;
Que em Taparica um dia comprendera
Boa parte da língua lusitana;
Que português escravo ali tratara,
De quem a língua, pelo ouvir, tomara.
LXXVIII
Paraguaçu gentil (tal nome teve)
Bem diversa de gente tão nojosa,
De cor tão alva como a branca neve,
E donde não é neve, era de rosa;
O nariz natural, boca mui breve,
Olhos de bela luz, testa espaçosa;
De algodão tudo o mais, com manto espesso,
Quanto honesta encobriu, fez ver-lhe o preço.
(...)
LXXXI
Deseja vê-lo o forte lusitano,
Por que interprete a língua que entendia;
E toma por mercê do céu sob'rano
Ter como entenda o idioma da Bahia.
Mas, quando esse prodígio avista humano,
Contempla no semblante a louçania:
Pára um, vendo o outro, mudo e quedo,
Qual junto de um penedo outro penedo.
LXXXII
Só tu, tutelar anjo, que o acompanhas,
Sabes quanto a virtude ali se arrisca,
E as fúrias da paixão, que acende estranhas
Essa de insano amor doce faísca;
Ânsias no coração sentiu tamanhas
(Ânsias que nem na morte o tempo risca),
Que houvera de perder-se naquela hora,
Se não fora cristão, se herói não fora.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.64-65. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
(...)
Acaso soube que a Gupeva viera
Certa dama gentil brasiliana;
Que em Taparica um dia comprendera
Boa parte da língua lusitana;
Que português escravo ali tratara,
De quem a língua, pelo ouvir, tomara.
LXXVIII
Paraguaçu gentil (tal nome teve)
Bem diversa de gente tão nojosa,
De cor tão alva como a branca neve,
E donde não é neve, era de rosa;
O nariz natural, boca mui breve,
Olhos de bela luz, testa espaçosa;
De algodão tudo o mais, com manto espesso,
Quanto honesta encobriu, fez ver-lhe o preço.
(...)
LXXXI
Deseja vê-lo o forte lusitano,
Por que interprete a língua que entendia;
E toma por mercê do céu sob'rano
Ter como entenda o idioma da Bahia.
Mas, quando esse prodígio avista humano,
Contempla no semblante a louçania:
Pára um, vendo o outro, mudo e quedo,
Qual junto de um penedo outro penedo.
LXXXII
Só tu, tutelar anjo, que o acompanhas,
Sabes quanto a virtude ali se arrisca,
E as fúrias da paixão, que acende estranhas
Essa de insano amor doce faísca;
Ânsias no coração sentiu tamanhas
(Ânsias que nem na morte o tempo risca),
Que houvera de perder-se naquela hora,
Se não fora cristão, se herói não fora.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.64-65. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
3 190
1
Junqueira Freire
O Remorso da Inocente
III
Cisma a virgem mansamente
Em pensamentos do céu,
Mais cândida que as rolinhas,
Mais cândida que seu véu.
E cismava: — Ai! que eu não seja
Tão pura no meu amor:
Tão pura — como este raio
Da lâmpada do Senhor! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Já para Deus menos bela,
Como a bonina que murcha,
Que eu arranco da capela! —
E cismava: — Ai! que eu não tenha
Um crime, sem eu saber!
Qual será? — Ontem de noite
Eu não pude adormecer! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Menos linda ao meu Senhor!
Já hoje eu corri do claustro:
Dos mortos tive temor... —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Ré de um crime que eu não sei,
Bem como o inseto escondido
Na rosa qu'ontem cortei! —
Ei-la, a cisma da donzela,
Da filha da solidão.
Ei-lo, o remorso que esconde
Nas dobras do coração.
Publicado no livro Inspirações do Claustro (1855).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.11
NOTA: Poema composto de quatro parte
Cisma a virgem mansamente
Em pensamentos do céu,
Mais cândida que as rolinhas,
Mais cândida que seu véu.
E cismava: — Ai! que eu não seja
Tão pura no meu amor:
Tão pura — como este raio
Da lâmpada do Senhor! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Já para Deus menos bela,
Como a bonina que murcha,
Que eu arranco da capela! —
E cismava: — Ai! que eu não tenha
Um crime, sem eu saber!
Qual será? — Ontem de noite
Eu não pude adormecer! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Menos linda ao meu Senhor!
Já hoje eu corri do claustro:
Dos mortos tive temor... —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Ré de um crime que eu não sei,
Bem como o inseto escondido
Na rosa qu'ontem cortei! —
Ei-la, a cisma da donzela,
Da filha da solidão.
Ei-lo, o remorso que esconde
Nas dobras do coração.
Publicado no livro Inspirações do Claustro (1855).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.11
NOTA: Poema composto de quatro parte
6 635
1
Junqueira Freire
O Remorso da Inocente
III
Cisma a virgem mansamente
Em pensamentos do céu,
Mais cândida que as rolinhas,
Mais cândida que seu véu.
E cismava: — Ai! que eu não seja
Tão pura no meu amor:
Tão pura — como este raio
Da lâmpada do Senhor! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Já para Deus menos bela,
Como a bonina que murcha,
Que eu arranco da capela! —
E cismava: — Ai! que eu não tenha
Um crime, sem eu saber!
Qual será? — Ontem de noite
Eu não pude adormecer! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Menos linda ao meu Senhor!
Já hoje eu corri do claustro:
Dos mortos tive temor... —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Ré de um crime que eu não sei,
Bem como o inseto escondido
Na rosa qu'ontem cortei! —
Ei-la, a cisma da donzela,
Da filha da solidão.
Ei-lo, o remorso que esconde
Nas dobras do coração.
Publicado no livro Inspirações do Claustro (1855).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.11
NOTA: Poema composto de quatro parte
Cisma a virgem mansamente
Em pensamentos do céu,
Mais cândida que as rolinhas,
Mais cândida que seu véu.
E cismava: — Ai! que eu não seja
Tão pura no meu amor:
Tão pura — como este raio
Da lâmpada do Senhor! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Já para Deus menos bela,
Como a bonina que murcha,
Que eu arranco da capela! —
E cismava: — Ai! que eu não tenha
Um crime, sem eu saber!
Qual será? — Ontem de noite
Eu não pude adormecer! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Menos linda ao meu Senhor!
Já hoje eu corri do claustro:
Dos mortos tive temor... —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Ré de um crime que eu não sei,
Bem como o inseto escondido
Na rosa qu'ontem cortei! —
Ei-la, a cisma da donzela,
Da filha da solidão.
Ei-lo, o remorso que esconde
Nas dobras do coração.
Publicado no livro Inspirações do Claustro (1855).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.11
NOTA: Poema composto de quatro parte
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