Poemas neste tema
Corpo
Elisa Lucinda
Pode café
Ela pede
Ela cora
Ela quer
Coar café na mira
de minhas elegantes meninas
E correr pela ladeira ume-descida
Calcinha coador pela manhã
Ela cede
Ela chora
Ela até
canta um sangrado tango
e me diz: Não me zango
em abrir geladeiras
Quando o que faz é o que quer
Ela mede
Ela mora
Se ela der
um grito no espaço
da cozinha
É que ela quer ser minha
e fugir
Se cair em desmaio
na sala
quer voltar pra senzala
E dançando um xote
apanhar com meu chicote
Mil lambidas
Mil lambadas
Ela em pele
Ela agora
Ela aqui
Me engole o ferrão do corpo
E sai zombando de mim
Ela cora
Ela quer
Coar café na mira
de minhas elegantes meninas
E correr pela ladeira ume-descida
Calcinha coador pela manhã
Ela cede
Ela chora
Ela até
canta um sangrado tango
e me diz: Não me zango
em abrir geladeiras
Quando o que faz é o que quer
Ela mede
Ela mora
Se ela der
um grito no espaço
da cozinha
É que ela quer ser minha
e fugir
Se cair em desmaio
na sala
quer voltar pra senzala
E dançando um xote
apanhar com meu chicote
Mil lambidas
Mil lambadas
Ela em pele
Ela agora
Ela aqui
Me engole o ferrão do corpo
E sai zombando de mim
2 002
1
Adélia Prado
O Amor No Éter
Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniços na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escavar-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniços na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escavar-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.
4 819
1
Angela Santos
Strip-Tease
Escancaro
para o mundo
o dentro de mim
em puras exibições de strip-tease da alma
Desnudo-me pelo avesso
adornado de sedas, rendas e cetins
e o avesso se contorce nas palavras
ao jeito de dançarina, comerciando prazer
Vislumbro plateias ávidas,
pupilas inchadas, linguas humidas avermelhadas
exibindo-se ante o languido
arquejar de minha alma
O dentro de mim realiza o sortilegio
o secreto desejo que me habita,
dispo-me inteira pelo avesso
e na nudez primordial da chegada
ofereço-me a visão da minha própria luxuria.
Nas palavras que são corpo, dor, prazer
no palco branco de uma página vazia
nos fluídos de tinta, que rasgam meu ser
na energia pura de clarões que me atravessa
atinjo o êxtase pelo avesso de mim.
para o mundo
o dentro de mim
em puras exibições de strip-tease da alma
Desnudo-me pelo avesso
adornado de sedas, rendas e cetins
e o avesso se contorce nas palavras
ao jeito de dançarina, comerciando prazer
Vislumbro plateias ávidas,
pupilas inchadas, linguas humidas avermelhadas
exibindo-se ante o languido
arquejar de minha alma
O dentro de mim realiza o sortilegio
o secreto desejo que me habita,
dispo-me inteira pelo avesso
e na nudez primordial da chegada
ofereço-me a visão da minha própria luxuria.
Nas palavras que são corpo, dor, prazer
no palco branco de uma página vazia
nos fluídos de tinta, que rasgam meu ser
na energia pura de clarões que me atravessa
atinjo o êxtase pelo avesso de mim.
1 404
1
Fernando Tavares Rodrigues
A Ti
Aos trista e sete anos do teu corpo,
Às vinte e quatro horas da tua carne
E ao desejo que , às vezes, é tão pouco
E ao amor que,mesmo assim, ainda arde
Ao ciíme da tua boca, quando calas
Ao silêncio dos teus olhos, quando choras
E aos teus braços nus, quando me abraças
E ao teu ventre que é tão breve quando parto.
E às tuas esperanças vãs que eu alimento
A ao ópio do teu sonho onde me tardo,
E a ti onde, afinal, não aconteço....
Às vinte e quatro horas da tua carne
E ao desejo que , às vezes, é tão pouco
E ao amor que,mesmo assim, ainda arde
Ao ciíme da tua boca, quando calas
Ao silêncio dos teus olhos, quando choras
E aos teus braços nus, quando me abraças
E ao teu ventre que é tão breve quando parto.
E às tuas esperanças vãs que eu alimento
A ao ópio do teu sonho onde me tardo,
E a ti onde, afinal, não aconteço....
1 261
1
Angela Santos
As Tuas Mãos
Nas
tuas mãos
está guardado um segredo
que eu procuro desvendar
nas tuas mãos
vislumbro o afago
que espanta o medo
Das tuas mãos
sobe uma melodia
que embebeda meus olhos
e as minhas se as tocam
cercam-nas como prisão
por tanto quererem
em si guardá-las
As tuas mãos
são o lugar onde termina
o abraço se me enlaças,
as tuas mãos guardam o toque de veludo,
e trémulas fazem explodir em mim
mil sois de Agosto
As tuas mãos tecem em seus
gestos delicadas rendas que eu cuido e guardo
para debruar o manto
que há - de cobrir
o teu corpo e o meu
Nas tuas mãos, se as toco
sinto o fogo que te abrasa a alma
o mesmo fogo que me toma e leva
na inexplicável vibração
que em nós soa.
tuas mãos
está guardado um segredo
que eu procuro desvendar
nas tuas mãos
vislumbro o afago
que espanta o medo
Das tuas mãos
sobe uma melodia
que embebeda meus olhos
e as minhas se as tocam
cercam-nas como prisão
por tanto quererem
em si guardá-las
As tuas mãos
são o lugar onde termina
o abraço se me enlaças,
as tuas mãos guardam o toque de veludo,
e trémulas fazem explodir em mim
mil sois de Agosto
As tuas mãos tecem em seus
gestos delicadas rendas que eu cuido e guardo
para debruar o manto
que há - de cobrir
o teu corpo e o meu
Nas tuas mãos, se as toco
sinto o fogo que te abrasa a alma
o mesmo fogo que me toma e leva
na inexplicável vibração
que em nós soa.
2 162
1
Joaquim Pessoa
Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.
Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.
Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.
Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.
Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.
2 756
1
Angela Santos
O Beijo
aberta,
entreaberta
um risco só que seja,
a boca,
desenhando desejo
lábios, língua
sopro, saliva…..
vermelha
túrgida
húmida
a tua na minha
boca
desagua.
entreaberta
um risco só que seja,
a boca,
desenhando desejo
lábios, língua
sopro, saliva…..
vermelha
túrgida
húmida
a tua na minha
boca
desagua.
1 141
1
Ana Luísa Amaral
Navegações Doentes
Tenho os sintomas todos:
navegam-me fluídos
e o devaneio em barcos de desejo
os sons de trovoada
mesmo tapando ouvidos:
esclerótica paixão que não domino
tenho os sintomas todos
e assim me reconheço
acamada, incurável: na parede do fundo
navegantes os barcos
navegam-me fluídos
e o devaneio em barcos de desejo
os sons de trovoada
mesmo tapando ouvidos:
esclerótica paixão que não domino
tenho os sintomas todos
e assim me reconheço
acamada, incurável: na parede do fundo
navegantes os barcos
4 225
1
Nauro Machado
Geografia Humana
Há em mim,
carne minha, os quatro cantos da liberdade.
No meu assoalho amanhece o sol de todas as direções.
Há em mim o rumo da raiz do multiplicado vento
Soprando aonde quer, porque quer a liberdade.
No oco do espaço o casario sua ao sol do tempo.
parto-me em trens, olho-me em fontes, divido-me em marmitas,
porque há em mim, carne minha, os quatro cantos da liberdade.
e até no último deles, o mais silencioso e esquivo deles,
o ainda virgem, o alheio a bispos e batismos de párocos,
agachado como um animal e útil como uma bilha no meio da sala,
encontrarei ainda o início de uma outra liberdade.
carne minha, os quatro cantos da liberdade.
No meu assoalho amanhece o sol de todas as direções.
Há em mim o rumo da raiz do multiplicado vento
Soprando aonde quer, porque quer a liberdade.
No oco do espaço o casario sua ao sol do tempo.
parto-me em trens, olho-me em fontes, divido-me em marmitas,
porque há em mim, carne minha, os quatro cantos da liberdade.
e até no último deles, o mais silencioso e esquivo deles,
o ainda virgem, o alheio a bispos e batismos de párocos,
agachado como um animal e útil como uma bilha no meio da sala,
encontrarei ainda o início de uma outra liberdade.
1 866
1
Jorge de Sena
Bucólica e Nâo
Há sempre poetas para fazer versos à terra,
às plantas, animais, num cheiro de bucólico,
mistura de verduras podres, resinas escorrendo,
flores perfumadas, terra humedecida, e o adocicado
e acre também estrume: é sexo o que cheiram?
Amor o que respiram? As ervas que no vento
se abaixam e se entesam, e o arvoredo erecto,
de ramos balançando mas retesos,
é de si mesmos sem baixar os olhos
ao longo do seu corpo e sem tocar-se
com as mãos- que lhes recordam?
E aqueles nós peludos de musgentos
em troncos. Ou no chão buracos de formigas,
e de si mesmos, fêmeas, que lhes lembram?
É orvalho em flores ou folhas ou nos troncos,
rios e regatos murmurantes- que serão?
Acaso podem ser opacos e leitosos,
Jorrando intermitentes num agudo jacto?
que terra o amor mostra que não seja
o amor que não se abriu ou não saltou,
o amor que não foi feito ou não se deu?
às plantas, animais, num cheiro de bucólico,
mistura de verduras podres, resinas escorrendo,
flores perfumadas, terra humedecida, e o adocicado
e acre também estrume: é sexo o que cheiram?
Amor o que respiram? As ervas que no vento
se abaixam e se entesam, e o arvoredo erecto,
de ramos balançando mas retesos,
é de si mesmos sem baixar os olhos
ao longo do seu corpo e sem tocar-se
com as mãos- que lhes recordam?
E aqueles nós peludos de musgentos
em troncos. Ou no chão buracos de formigas,
e de si mesmos, fêmeas, que lhes lembram?
É orvalho em flores ou folhas ou nos troncos,
rios e regatos murmurantes- que serão?
Acaso podem ser opacos e leitosos,
Jorrando intermitentes num agudo jacto?
que terra o amor mostra que não seja
o amor que não se abriu ou não saltou,
o amor que não foi feito ou não se deu?
3 731
1
Ana Cristina Cesar
Protuberância
Este sorriso
que muitos chamam de boca
É antes um chafariz, uma coisa louca
Sou amativa antes de tudo
Embora o mundo me condene
Devo falar em nariz(as pontas rimam por dentro)
Se nos determos amanhã
Pelo menos não haverá necessidades frugais nos espreitando
Quem me emprestar seu peito ma madrugada
E me consolar, talvez tal vez me ensine um assobio
Não sei se me querem, escondo-me sem impasses
E repitamos a amadora sou
Armadora decerto atrás das portas
Não abro para ninguém, e se a pena é lépida, nada me detém
É sem dúvida inútil o chuvisco de meus olhos
O círculo se abre em circunferências concêntricas que se
Fecham sobre si mesmas
No ano 2001 terei (2001-1952=) 49 anos e serei uma rainha
Rainha de quem, quê, não importa
E se eu morrer antes disso
Não verei a lua mais de perto
Talvez me irrite pisar no impisável
E a morte deve ser muito mais gostosa
Recheada com marchemélou
Uma lâmpada queimada me contempla
Eu dentro do templo chuto o tempo
Um palavra me delineia
VORAZ
E em breve a sombra se dilui,
Se perde o anjo.
que muitos chamam de boca
É antes um chafariz, uma coisa louca
Sou amativa antes de tudo
Embora o mundo me condene
Devo falar em nariz(as pontas rimam por dentro)
Se nos determos amanhã
Pelo menos não haverá necessidades frugais nos espreitando
Quem me emprestar seu peito ma madrugada
E me consolar, talvez tal vez me ensine um assobio
Não sei se me querem, escondo-me sem impasses
E repitamos a amadora sou
Armadora decerto atrás das portas
Não abro para ninguém, e se a pena é lépida, nada me detém
É sem dúvida inútil o chuvisco de meus olhos
O círculo se abre em circunferências concêntricas que se
Fecham sobre si mesmas
No ano 2001 terei (2001-1952=) 49 anos e serei uma rainha
Rainha de quem, quê, não importa
E se eu morrer antes disso
Não verei a lua mais de perto
Talvez me irrite pisar no impisável
E a morte deve ser muito mais gostosa
Recheada com marchemélou
Uma lâmpada queimada me contempla
Eu dentro do templo chuto o tempo
Um palavra me delineia
VORAZ
E em breve a sombra se dilui,
Se perde o anjo.
2 908
1
Hilda Hilst
II
E só
me veja
No não
merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos
Eu-alguém
travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).
Dorsos
de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.
E que jamais
perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.
me veja
No não
merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos
Eu-alguém
travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).
Dorsos
de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.
E que jamais
perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.
1 404
1
Reinaldo Ferreira
D Bailador-Bailarino
I
Esmorece a luz
Sobre o tablado.
Amolecido
E vencido,
D. Bailador-Bailarino
Devagar
Morre, também...
E o que resta da angústia do baile
É o corpo morto e tombado
Que lutou com a própria alma.
Lesta, desprende-se a cortina
Sobre a cruel pantomina.
Um silêncio geral...
Nem uma fala !...
No entanto, uma emoção sem par
Penetra os corações
E cada olhar
Revive as derradeiras comoções
Da dança singular.
Súbito, um frenesi
Percorre a multidão paralisada.
Uma flama irrompeu,
Deixou a sala incendiada,
E cada um reclama
E chama
E quer, inquisidor,
Que à ribalta apareça
D. Bailarino-Bailador !
D. Bailador-Bailarino !
D. Bailarino-Bailador !
II
Emocionante,
A pantomina
Termina.
Alado e áptero impulso
Atrai-lhe o corpo delgado
Para o reino da vertigem,
Pondo susto e maravilha
Em cada olhar deslumbrado.
Após
Com lento aprumo, sem pressa,
Regressa,
Pisa de novo o tablado
E dança.
Com segurança e majestade dança,
Como se no ar em que dança
Houvesse mais densidade,
De um verde vagar aquático.
Quem dirá que não tem asas
D. Bailarino-Bailador ?
Embalsamado - de fixo ! -,
Mumificado - de quieto ! -,
D. Bailarino
Comenta, do violino,
Gelado choro sem fim.
Mas no fim,
Com manso e dormente jeito,
As duas mãos voadoras
Cruza, pendentes, no peito.
Sob as pálpebras cerradas
É diferente o rosto moço;
Tomba-lhe então a cabeça,
Como se ao cabo e aos poucos
Se derretesse o pescoço.
Longínqua serenidade
Como que dimana e escorre
Da melancolia que morre,
Toda horizonte e além.
III
Ele é fauno, é flora amorável,
Ele é mito, ele é loiro, ele é palma,
É palavra carnal duma alma,
É o fixo, é o instável.
Ele é tarde de cinzas, é poente fantástico,
Ele é lívido Gólgota, paisagem lunar,
Ele é triste balaústre cismático
Em marmórea varanda, ao luar.
Ele é fútil ficção, Pierrot
Suspirante, cintilante Arlequim,
Ele é tal artifício, mas tão gracioso
Que, se vivo inda fora, gostoso
O pintara Watteau.
Ele é renda, ele é asa, ele é pluma
E transcende o autor de que dança um adágio;
Mas também é tormenta, também é naufrágio;
É visão de afogado trazido na espuma;
Ele é amoroso de murcha coragem
Sorvendo, de longe, seus longos martírios;
Ele é D. Juan do sangue selvagem
A cuja passagem fenecem os lírios.
Ele é confluência das dúvidas todas
Hamleticamente dançando dilemas
Da jovem de Atenas, em véspera de bodas,
Tecendo, com rosas, fragrantes diademas.
Ele é fauno, mais fauno que o fauno
Ressuscitado
Por santo milagre de S. Debussy !
... E logo, converso, em outro bailado,
Pureza sem mancha seu gesto sorri.
Ele é sopro, ele é fumo na aragem,
Ele é fluido, ele é nimbo, é paisagem
No leito dormente de um rio
Em sonâmbulo estio.
Ele é aço, ele é mola, ele é pincho,
Ele é som de metal, ele é guincho,
Explosão e tambor,
O Bailador-Bailarino !
O Bailarino-Bailador !
IV
Ah ! bailador !
Ah ! bailarino !
A tua arte durou
Os olhos de quem te viu...
E tudo o mais é rescaldo
Do fogo que se extinguiu.
.......................
Ninguém teve
Mais efémero brilho
Nem triunfo mais breve...
Cabriola de chama
Na lenha que arde
E se extingue...
Relevos de nimbos,
Fantásticas formas
Fugazes, da tarde...
Corisco maluco !...
.......................
Ah ! florilégio do gesto,
Carne da música,
Antologia da atitude !...
V
Quando, entre as campas das puídas flores,
Que um outono qualquer arrebatou
A lascivos amores,
Passa, alta noite, um silvo aflito a cio,
E dos burgueses mausoléus, o frio, a prumo, orgulho vão,
Escorre, inda vivo, uma gordura à Lua,
Do Bailarino, desconjuntada,
A ossada
Acorda para o tormento
De não ter movimento...
IV
Que fantástica cena, a Eternidade !...
Vejo-te a dançar, Bailarino,
Vejo-te a dançar
Sem tréguas nem esperanças
À busca dum corpo
Não se incorpora a tua suavidade...
Busca-se um peso para a queda do fim...
.......................
Sem corpo, a Eternidade é bem cruel,
Se Deus nos deu uma alma que é pretexto,
Um mero cordel
Para o gesto...
Esmorece a luz
Sobre o tablado.
Amolecido
E vencido,
D. Bailador-Bailarino
Devagar
Morre, também...
E o que resta da angústia do baile
É o corpo morto e tombado
Que lutou com a própria alma.
Lesta, desprende-se a cortina
Sobre a cruel pantomina.
Um silêncio geral...
Nem uma fala !...
No entanto, uma emoção sem par
Penetra os corações
E cada olhar
Revive as derradeiras comoções
Da dança singular.
Súbito, um frenesi
Percorre a multidão paralisada.
Uma flama irrompeu,
Deixou a sala incendiada,
E cada um reclama
E chama
E quer, inquisidor,
Que à ribalta apareça
D. Bailarino-Bailador !
D. Bailador-Bailarino !
D. Bailarino-Bailador !
II
Emocionante,
A pantomina
Termina.
Alado e áptero impulso
Atrai-lhe o corpo delgado
Para o reino da vertigem,
Pondo susto e maravilha
Em cada olhar deslumbrado.
Após
Com lento aprumo, sem pressa,
Regressa,
Pisa de novo o tablado
E dança.
Com segurança e majestade dança,
Como se no ar em que dança
Houvesse mais densidade,
De um verde vagar aquático.
Quem dirá que não tem asas
D. Bailarino-Bailador ?
Embalsamado - de fixo ! -,
Mumificado - de quieto ! -,
D. Bailarino
Comenta, do violino,
Gelado choro sem fim.
Mas no fim,
Com manso e dormente jeito,
As duas mãos voadoras
Cruza, pendentes, no peito.
Sob as pálpebras cerradas
É diferente o rosto moço;
Tomba-lhe então a cabeça,
Como se ao cabo e aos poucos
Se derretesse o pescoço.
Longínqua serenidade
Como que dimana e escorre
Da melancolia que morre,
Toda horizonte e além.
III
Ele é fauno, é flora amorável,
Ele é mito, ele é loiro, ele é palma,
É palavra carnal duma alma,
É o fixo, é o instável.
Ele é tarde de cinzas, é poente fantástico,
Ele é lívido Gólgota, paisagem lunar,
Ele é triste balaústre cismático
Em marmórea varanda, ao luar.
Ele é fútil ficção, Pierrot
Suspirante, cintilante Arlequim,
Ele é tal artifício, mas tão gracioso
Que, se vivo inda fora, gostoso
O pintara Watteau.
Ele é renda, ele é asa, ele é pluma
E transcende o autor de que dança um adágio;
Mas também é tormenta, também é naufrágio;
É visão de afogado trazido na espuma;
Ele é amoroso de murcha coragem
Sorvendo, de longe, seus longos martírios;
Ele é D. Juan do sangue selvagem
A cuja passagem fenecem os lírios.
Ele é confluência das dúvidas todas
Hamleticamente dançando dilemas
Da jovem de Atenas, em véspera de bodas,
Tecendo, com rosas, fragrantes diademas.
Ele é fauno, mais fauno que o fauno
Ressuscitado
Por santo milagre de S. Debussy !
... E logo, converso, em outro bailado,
Pureza sem mancha seu gesto sorri.
Ele é sopro, ele é fumo na aragem,
Ele é fluido, ele é nimbo, é paisagem
No leito dormente de um rio
Em sonâmbulo estio.
Ele é aço, ele é mola, ele é pincho,
Ele é som de metal, ele é guincho,
Explosão e tambor,
O Bailador-Bailarino !
O Bailarino-Bailador !
IV
Ah ! bailador !
Ah ! bailarino !
A tua arte durou
Os olhos de quem te viu...
E tudo o mais é rescaldo
Do fogo que se extinguiu.
.......................
Ninguém teve
Mais efémero brilho
Nem triunfo mais breve...
Cabriola de chama
Na lenha que arde
E se extingue...
Relevos de nimbos,
Fantásticas formas
Fugazes, da tarde...
Corisco maluco !...
.......................
Ah ! florilégio do gesto,
Carne da música,
Antologia da atitude !...
V
Quando, entre as campas das puídas flores,
Que um outono qualquer arrebatou
A lascivos amores,
Passa, alta noite, um silvo aflito a cio,
E dos burgueses mausoléus, o frio, a prumo, orgulho vão,
Escorre, inda vivo, uma gordura à Lua,
Do Bailarino, desconjuntada,
A ossada
Acorda para o tormento
De não ter movimento...
IV
Que fantástica cena, a Eternidade !...
Vejo-te a dançar, Bailarino,
Vejo-te a dançar
Sem tréguas nem esperanças
À busca dum corpo
Não se incorpora a tua suavidade...
Busca-se um peso para a queda do fim...
.......................
Sem corpo, a Eternidade é bem cruel,
Se Deus nos deu uma alma que é pretexto,
Um mero cordel
Para o gesto...
2 100
1
Herberto Sales
Bruma Rubra
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome da indermida nudez de tuas formas,
que em seus túmidos relevos
são meu repasto e minha bilha.
Na bruma rubra,
buscando teu corpo
em ti me encontro.
E contigo parto em noturna cavalgada,
num dorcel de linho e plumas.
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome de tua alma.
busco teu corpo,
na fome da indermida nudez de tuas formas,
que em seus túmidos relevos
são meu repasto e minha bilha.
Na bruma rubra,
buscando teu corpo
em ti me encontro.
E contigo parto em noturna cavalgada,
num dorcel de linho e plumas.
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome de tua alma.
1 393
1
Paulo Mendes Campos
Amor Condusse Noi Ad Nada
Quando o olhar adivinhando a vida
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida
As mãos que se procuram ficam presas
Os dedos estreitados lembram garras
Da ave de rapina quando agarra
A carne de outras aves indefesas
A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece
O rosto a outro rosto desafia
A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece
E triste volta a si com sede e fome.
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida
As mãos que se procuram ficam presas
Os dedos estreitados lembram garras
Da ave de rapina quando agarra
A carne de outras aves indefesas
A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece
O rosto a outro rosto desafia
A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece
E triste volta a si com sede e fome.
1 098
1
José Carlos Souza Santos
Moço Bonito
obs: neste poema, o poeta se traveste
em mulher, para cantar o que vai
no peito da amada.
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
chega junto dos meus olhos
quero ver a tua luz
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
me deixe ver a poeira do caminho
trazida nas mãos e nos bolsos
e nos gestos cansados que percebo
por baixo
do verde nesses olhos tristes
Chega mais perto
moço bonito,
quero ver os signos tatuados
no teu rosto,
quero ver os caminhos desandados
enquanto não me alcançaste em tua busca
Me deixa tocar teu corpo
quero senti-lo, vibrar no toque
da minha mão renascida em você...moço bonito,
Me deixa roçar tua boca
do gosto de pêssego esquecida, pois
não me tinha revelado ainda em fruto, em mel
antes de me alcançar madura, para o teu gosto...
moço bonito.
Em troca disso tudo
te deixo renascer na seiva da minha lava,
te deixo amanhar o amanhã que descobristes
depois de caminhos tantos,
me faço em ouro negro nos olhos
p´ra combinar com a esperança
que vejo brilhar nos teus
moço bonito,
Me toma e me leva,
me vista de sonhos...moço bonito,
faça dos nossos passos
a asa de um passarinho,
me dê o canto da tua voz na minha floresta
nunca ouvido,
me diga palavras doces em sussurros de cachoeiras
murmuradas.
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
em mulher, para cantar o que vai
no peito da amada.
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
chega junto dos meus olhos
quero ver a tua luz
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
me deixe ver a poeira do caminho
trazida nas mãos e nos bolsos
e nos gestos cansados que percebo
por baixo
do verde nesses olhos tristes
Chega mais perto
moço bonito,
quero ver os signos tatuados
no teu rosto,
quero ver os caminhos desandados
enquanto não me alcançaste em tua busca
Me deixa tocar teu corpo
quero senti-lo, vibrar no toque
da minha mão renascida em você...moço bonito,
Me deixa roçar tua boca
do gosto de pêssego esquecida, pois
não me tinha revelado ainda em fruto, em mel
antes de me alcançar madura, para o teu gosto...
moço bonito.
Em troca disso tudo
te deixo renascer na seiva da minha lava,
te deixo amanhar o amanhã que descobristes
depois de caminhos tantos,
me faço em ouro negro nos olhos
p´ra combinar com a esperança
que vejo brilhar nos teus
moço bonito,
Me toma e me leva,
me vista de sonhos...moço bonito,
faça dos nossos passos
a asa de um passarinho,
me dê o canto da tua voz na minha floresta
nunca ouvido,
me diga palavras doces em sussurros de cachoeiras
murmuradas.
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
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1
Jonas da Silva
Paisagens da Carne
O teu corpo lirial, do alvor de Sete-estrelo,
É uma verde floresta em cuja sombra e solo
Passam deusas pagãs de aljava a tiracolo,
Há rouxinóis de aroma em teu loiro cabelo.
Muita vez sob a ação de infernal pesadelo
Se transforma o teu vulto em paisagens do polo
E cuido ver na alvura hibernal do teu colo
A refração do luar nas montanhas de gelo.
E na alucinação de apaixonado creio
Ver dois ursos, do Sol aos mortiços lampejos,
Dois ursos de rubis nos botões do teu seio.
E do gelo polar entre as pratas e espelhos
Vejo ao longe os viris esquimaus dos meus beijos
Lança em punho, em caçada a esses ursos vermelhos
É uma verde floresta em cuja sombra e solo
Passam deusas pagãs de aljava a tiracolo,
Há rouxinóis de aroma em teu loiro cabelo.
Muita vez sob a ação de infernal pesadelo
Se transforma o teu vulto em paisagens do polo
E cuido ver na alvura hibernal do teu colo
A refração do luar nas montanhas de gelo.
E na alucinação de apaixonado creio
Ver dois ursos, do Sol aos mortiços lampejos,
Dois ursos de rubis nos botões do teu seio.
E do gelo polar entre as pratas e espelhos
Vejo ao longe os viris esquimaus dos meus beijos
Lança em punho, em caçada a esses ursos vermelhos
950
1
Tasso da Silveira
Sonho Vago
Ó branca e luminosa!
Na alcova quieta e silenciosa
que a penhumbra parece transformar
Num ambiente imaginário
De cidade lacustre ou num aquário,
Teu corpo claro, fino, gransparente,
A se mover preguiçosamente
Como a ondular...
Lembra, nessa nudez que as sombras ilumina,
Sonâmbulo país de águas e brumas,
Visão de uma paisagem submarina,
Em que andas a flutuar...
Como no meio de algas e de espumas
- Uma ninfa, sereia ou estrela-do-mar.
Vendo-te assim, meio acordado,
Eu me deixo embalar
Num esquisito, incomparável gozo,
De deleites estranhos inundado.
Crendo que vou contigo a mergulhar,
Num sonho lvoluptuoso,
Por entre espaços fluidos de veludo,
-Um país de perfumes e de encanto -
Em que de um vago luar o tênue manto
Amacia tudo...
II
Quantas imaagens brancas me sugeres!
- Magnólia, flor dos Alpes, nebulosa...
- Branca lua perdida entre as mulheres!
- Garça, vela no mar, alvor de rosa!
Ao vê-lo assim, tão claro e leve, eu plenso
Que o teu corpo, a florir na luz cendrada,
Sonha, dentro da noite, o sonho imenso
Que as rosas brancas sonham na alvorada.
Na alcova quieta e silenciosa
que a penhumbra parece transformar
Num ambiente imaginário
De cidade lacustre ou num aquário,
Teu corpo claro, fino, gransparente,
A se mover preguiçosamente
Como a ondular...
Lembra, nessa nudez que as sombras ilumina,
Sonâmbulo país de águas e brumas,
Visão de uma paisagem submarina,
Em que andas a flutuar...
Como no meio de algas e de espumas
- Uma ninfa, sereia ou estrela-do-mar.
Vendo-te assim, meio acordado,
Eu me deixo embalar
Num esquisito, incomparável gozo,
De deleites estranhos inundado.
Crendo que vou contigo a mergulhar,
Num sonho lvoluptuoso,
Por entre espaços fluidos de veludo,
-Um país de perfumes e de encanto -
Em que de um vago luar o tênue manto
Amacia tudo...
II
Quantas imaagens brancas me sugeres!
- Magnólia, flor dos Alpes, nebulosa...
- Branca lua perdida entre as mulheres!
- Garça, vela no mar, alvor de rosa!
Ao vê-lo assim, tão claro e leve, eu plenso
Que o teu corpo, a florir na luz cendrada,
Sonha, dentro da noite, o sonho imenso
Que as rosas brancas sonham na alvorada.
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1
Roberto Freire
Pra quem ainda vier a me amar
Quero dizer que te amo só de amor. Sem idéias, palavras,
pensamentos. Quero fazer que te amo só de amor. Com sentimentos, sentidos,
emoções. Quero curtir que te amo só de amor. Olho no olho, cara a cara,
corpo a corpo. Quero querer que te amo só de amor.
São sombras as palavras no papel. Claro-escuros projetados pelo
amor, dos delírios e dos mistérios do prazer. Apenas sombras as palavras no
papel.
Ser-não-ser refratados pelo amor no sexo e nos sonhos dos amantes.
Fátuas sombras as palavras no papel.
Meu amor te escrevo feito um poema de carne, sangue, nervos e sêmen.
São versos que pulsam, gemem e fecundam. Meu poema se encanta feito o amor
dos bichos livres às urgências dos cios e que jogam, brincam, cantam e
dançam fazendo o amor como faço o poema.
Quero a vida as claras superfícies onde terminam e começam meus
amores. Eu te sinto na pele, não no coração. Quero do amor as tenras
superfícies onde a vida é lírica porque telúrica, onde sou épico porque
ébrio e lúbrico. Quero genitais todas as nossas superfícies.
Não há limites para o prazer, meu grnade amor, mas virá sempre
antes, não depois da excitação. Meu grande amor, o infinito é um recomeço.
Não há limites para se viver um grande amor. Mas só te amo porque me dás o
gozo e não gozo mais porque eu te amo. Não há limites para o fim de um
grande amor.
Nossa nudez, juntos, não se completa nunca, mesmo quando se tornam
quentes e congestionadas, úmidas e latejantes todas as mucosas. A nudez a
dois não acontece nunca, porque nos vestimos um com o corpo do outro, para
inventar deuses na solidão do nós. Por isso a nudez, no amor, não satisfaz
nunca.
Porque eu te amo, tu não precisas de mim. Porque tu me amas, eu não
preciso de ti. No amor, jamais nos deixamos de completar. Somos, um para o
outro, deliciosamente desnecessários.
O amor é tanto, não quanto. Amar é enquanto, portanto. Ponto.
pensamentos. Quero fazer que te amo só de amor. Com sentimentos, sentidos,
emoções. Quero curtir que te amo só de amor. Olho no olho, cara a cara,
corpo a corpo. Quero querer que te amo só de amor.
São sombras as palavras no papel. Claro-escuros projetados pelo
amor, dos delírios e dos mistérios do prazer. Apenas sombras as palavras no
papel.
Ser-não-ser refratados pelo amor no sexo e nos sonhos dos amantes.
Fátuas sombras as palavras no papel.
Meu amor te escrevo feito um poema de carne, sangue, nervos e sêmen.
São versos que pulsam, gemem e fecundam. Meu poema se encanta feito o amor
dos bichos livres às urgências dos cios e que jogam, brincam, cantam e
dançam fazendo o amor como faço o poema.
Quero a vida as claras superfícies onde terminam e começam meus
amores. Eu te sinto na pele, não no coração. Quero do amor as tenras
superfícies onde a vida é lírica porque telúrica, onde sou épico porque
ébrio e lúbrico. Quero genitais todas as nossas superfícies.
Não há limites para o prazer, meu grnade amor, mas virá sempre
antes, não depois da excitação. Meu grande amor, o infinito é um recomeço.
Não há limites para se viver um grande amor. Mas só te amo porque me dás o
gozo e não gozo mais porque eu te amo. Não há limites para o fim de um
grande amor.
Nossa nudez, juntos, não se completa nunca, mesmo quando se tornam
quentes e congestionadas, úmidas e latejantes todas as mucosas. A nudez a
dois não acontece nunca, porque nos vestimos um com o corpo do outro, para
inventar deuses na solidão do nós. Por isso a nudez, no amor, não satisfaz
nunca.
Porque eu te amo, tu não precisas de mim. Porque tu me amas, eu não
preciso de ti. No amor, jamais nos deixamos de completar. Somos, um para o
outro, deliciosamente desnecessários.
O amor é tanto, não quanto. Amar é enquanto, portanto. Ponto.
2 102
1
Pedro Kilkerry
Ad veneris lacrimas
Em meus nervos, a arder, a alma é volúpia... Sinto
Que Amor embriaga a Íon e a pele de ouro. Estua,
Deita-se Íon: enrodilha a cauda o meu Instinto
aos seus rosados pés... Nyx se arrasta, na rua...
Canta a lâmpada brônzea? O ouvido aos sons extinto
Acorda e ouço a voz ou da alâmpada ou sua
O silêncio anda à escuta. Abre um luar de Corinto
Aqui dentro a lamber Hélada nua, nua.
Íon treme, estremece. Adora o ritmo louro
Da áurea chama, a estorcer os gestos com que crava
Finas frechas de luz na cúpula aquecida...
Querem cantar de Íon os dois seios, em coro...
Mas sua alma - por Zeus! - na água azul doutra Vida
Lava os meus sonhos, treme em seus olhos, escrava.
Que Amor embriaga a Íon e a pele de ouro. Estua,
Deita-se Íon: enrodilha a cauda o meu Instinto
aos seus rosados pés... Nyx se arrasta, na rua...
Canta a lâmpada brônzea? O ouvido aos sons extinto
Acorda e ouço a voz ou da alâmpada ou sua
O silêncio anda à escuta. Abre um luar de Corinto
Aqui dentro a lamber Hélada nua, nua.
Íon treme, estremece. Adora o ritmo louro
Da áurea chama, a estorcer os gestos com que crava
Finas frechas de luz na cúpula aquecida...
Querem cantar de Íon os dois seios, em coro...
Mas sua alma - por Zeus! - na água azul doutra Vida
Lava os meus sonhos, treme em seus olhos, escrava.
1 924
1
Raquel Naveira
Cheia de Graça
Maria era cheia de graça...
A graça estaria na sua forma?
No seu corpo longilíneo de garça,
No seu cabelo
Esgarçando feito véu?
No seu aspecto singeloe níveo
De esposa imaculada?
Na composição
De cada uma de suas partes
Formando um todo harmonioso?
Na expressão dos olhos,
Nos gestos,
Nos movimentos de quem sabe
Recolher água em cântaros
Para beber
E banhar-se?
A graça estaria no espírito?
Seria beleza invisível,
Estilo de ser,
Dons e virtudes
Escorrendo como caudas de cometas?
Gazela,
Bailarina,
Camélia,
Que graça seria a dela?
Que milagre inspirado
Era Maria
Cheia de graça!
A graça estaria na sua forma?
No seu corpo longilíneo de garça,
No seu cabelo
Esgarçando feito véu?
No seu aspecto singeloe níveo
De esposa imaculada?
Na composição
De cada uma de suas partes
Formando um todo harmonioso?
Na expressão dos olhos,
Nos gestos,
Nos movimentos de quem sabe
Recolher água em cântaros
Para beber
E banhar-se?
A graça estaria no espírito?
Seria beleza invisível,
Estilo de ser,
Dons e virtudes
Escorrendo como caudas de cometas?
Gazela,
Bailarina,
Camélia,
Que graça seria a dela?
Que milagre inspirado
Era Maria
Cheia de graça!
967
1
João Augusto Sampaio
Gaia
Três seios tem Gaia no Morro de São Paulo
Seno/cosseno: Primeira Praia
Seno/cosseno: Segunda Praia
Seno/cosseno: Terceira Praia
Seno/cosseno: Primeira Praia
Seno/cosseno: Segunda Praia
Seno/cosseno: Terceira Praia
935
1
Renata Pallottini
Por Ti Deixei
"Portanto, deixa o homem
a seu pai e a sua mãe,
e se une a sua mulher;
e são uma só carne."
Gênesis, 2:24
Por ti deixei, do meu rebanho lento
a alva timidez; da minha casa
o fogo acolhedor tornado brasa
e a brasa morta transformada em pranto.
Das mãos de minha mãe ficou-me o manto,
da boca de meu pai restou-me a frase
e estes meus olhos são cisternas rasas
onde à tardinha vem beber o vento.
Ponho a teus pés o meu desejo triste
que se renova numa força eterna,
e te ofereço uma faqueza a mais;
pedaço do meu tronco que partiste,
carne, que foste um pouco de meu cerne!
À minha própria carne tornarás.
a seu pai e a sua mãe,
e se une a sua mulher;
e são uma só carne."
Gênesis, 2:24
Por ti deixei, do meu rebanho lento
a alva timidez; da minha casa
o fogo acolhedor tornado brasa
e a brasa morta transformada em pranto.
Das mãos de minha mãe ficou-me o manto,
da boca de meu pai restou-me a frase
e estes meus olhos são cisternas rasas
onde à tardinha vem beber o vento.
Ponho a teus pés o meu desejo triste
que se renova numa força eterna,
e te ofereço uma faqueza a mais;
pedaço do meu tronco que partiste,
carne, que foste um pouco de meu cerne!
À minha própria carne tornarás.
1 424
1
Pedro Homem de Mello
Poema
Noite. Fundura. A treva
E mais doce talvez...
E uma ânsia de nudez
Sacode os filhos de Eva.
Não a nudez apenas
Dos corpos sofredores
Mas a das almas plenas
De indecisos amores.
A voz do sangue grita
E a das almas responde!
Labareda infinita
Que nas sombras se esconde.
Mas quase sem ruído,
Na carne ao abandono
O hálito do sono
Desce como um vestido...
E mais doce talvez...
E uma ânsia de nudez
Sacode os filhos de Eva.
Não a nudez apenas
Dos corpos sofredores
Mas a das almas plenas
De indecisos amores.
A voz do sangue grita
E a das almas responde!
Labareda infinita
Que nas sombras se esconde.
Mas quase sem ruído,
Na carne ao abandono
O hálito do sono
Desce como um vestido...
1 941
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