Poemas neste tema
Viagens e Horizontes
Francesca Angiolillo
Uma carta não enviada de Teerã
Tendo que me haver
com a dor
pergunto-me se existiria
a dor
em Teerã
existiria
em Teerã
a dor da sua perda
a dor dos dias azuis
que se foram
– tão azuis sobre
a rua vazia
tão vazia
a não ser por
você e eu
você a quem
dirijo estas palavras
viverá para sempre
quem a gente ama
não cessa nunca
de viver aqui
ou em Teerã
existiria em Teerã
a melodia confusa
do idioma farsi
a falar de ogivas
de reatores
de urânio
de água pesada
de minas escondidas
de explosões
nas montanhas
há montanhas em Teerã
e picos nevados
há inverno em Teerã
e há carros
muitos carros
que pronunciam sua pressa
sobre viadutos
ao redor de monumentos
através de túneis enormes
em Teerã
igualmente poderia falar
de um doce de
mel de
rosas
de gazelas
tudo seria indistinto
em Teerã
o vendedor diria
laranjas
e não saberíamos como se diz
laranjas
diria nozes melões tangerinas
diria cerejas pêssegos uvas
diria romãs de Teerã
e nada disso saberíamos dizer
ouviríamos nomes
terminados em
i
e em nenhum deles caberia
a redondilha menor
do seu nome
as ascendentes e descendentes
do seu nome
não marcariam página alguma
em Teerã
quiçá
não existisse
a marca que é
a falta do meu pai
em Teerã
imersa estaria eu
no balbucio
murmurejante
no acalanto
do sem sentido
em Teerã
até que me viesse pescar
um nítido
um claro
mérci
recordando o gesto
importado
de outra civilização tomado
de empréstimo
pela diplomacia persa
aquela que
fere
com um elogio
tão discretamente como quem
toma devagar seu café
num café da manhã
em Teerã
com a dor
pergunto-me se existiria
a dor
em Teerã
existiria
em Teerã
a dor da sua perda
a dor dos dias azuis
que se foram
– tão azuis sobre
a rua vazia
tão vazia
a não ser por
você e eu
você a quem
dirijo estas palavras
viverá para sempre
quem a gente ama
não cessa nunca
de viver aqui
ou em Teerã
existiria em Teerã
a melodia confusa
do idioma farsi
a falar de ogivas
de reatores
de urânio
de água pesada
de minas escondidas
de explosões
nas montanhas
há montanhas em Teerã
e picos nevados
há inverno em Teerã
e há carros
muitos carros
que pronunciam sua pressa
sobre viadutos
ao redor de monumentos
através de túneis enormes
em Teerã
igualmente poderia falar
de um doce de
mel de
rosas
de gazelas
tudo seria indistinto
em Teerã
o vendedor diria
laranjas
e não saberíamos como se diz
laranjas
diria nozes melões tangerinas
diria cerejas pêssegos uvas
diria romãs de Teerã
e nada disso saberíamos dizer
ouviríamos nomes
terminados em
i
e em nenhum deles caberia
a redondilha menor
do seu nome
as ascendentes e descendentes
do seu nome
não marcariam página alguma
em Teerã
quiçá
não existisse
a marca que é
a falta do meu pai
em Teerã
imersa estaria eu
no balbucio
murmurejante
no acalanto
do sem sentido
em Teerã
até que me viesse pescar
um nítido
um claro
mérci
recordando o gesto
importado
de outra civilização tomado
de empréstimo
pela diplomacia persa
aquela que
fere
com um elogio
tão discretamente como quem
toma devagar seu café
num café da manhã
em Teerã
632
Renato Rezende
Balada Das Barcas
As barcas
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
953
Renato Rezende
Outra Data
São bem piores do que as de Minas, essas latrinas de Uttar Pradesh. A câmera digital estava
presa no cinto, me esqueci, e quando me abaixei ela deslizou para dentro da privada,
inacreditavelmente suja, deixando apenas uma pontinha de alça para fora. Precisei pensar se
puxava ou não. As fotos de toda a viagem, a minha câmera... Puxei... A mão toda suja, a máquina
toda suja; a luz vazando por todos os lados!
presa no cinto, me esqueci, e quando me abaixei ela deslizou para dentro da privada,
inacreditavelmente suja, deixando apenas uma pontinha de alça para fora. Precisei pensar se
puxava ou não. As fotos de toda a viagem, a minha câmera... Puxei... A mão toda suja, a máquina
toda suja; a luz vazando por todos os lados!
1 073
Renato Rezende
N.S. de Guadalupe
Algo me entristece no México.
A grande cidade é um deserto.
Na Basílica, no alto do monte
onde a Diego apareceu a Virgem
eu ainda mais me entristeço.
(O sol se põe, distante e amarelo
como em Roma ou na velha Pérsia).
Há de ser a imagem singela
da Virgem entre pálidas rosas
estampada na tarde sem glória.
Cidade do México, novembro 1996
A grande cidade é um deserto.
Na Basílica, no alto do monte
onde a Diego apareceu a Virgem
eu ainda mais me entristeço.
(O sol se põe, distante e amarelo
como em Roma ou na velha Pérsia).
Há de ser a imagem singela
da Virgem entre pálidas rosas
estampada na tarde sem glória.
Cidade do México, novembro 1996
1 074
Renato Rezende
Álbum de Roma
Em certas fotos Roma revela
que é uma milenar cidade do oriente.
(Principalmente quando o sol
se avermelha, por trás do Vaticano
na hora do poente).
O oriente, o longínquo, o estrangeiro
está bem mais próximo
do que pensamos habitualmente.
Nova York, dezembro 1995
que é uma milenar cidade do oriente.
(Principalmente quando o sol
se avermelha, por trás do Vaticano
na hora do poente).
O oriente, o longínquo, o estrangeiro
está bem mais próximo
do que pensamos habitualmente.
Nova York, dezembro 1995
991
Marília Garcia
plano b
hola, spleen, disse. nos cruzamos em
uma lagoa de atol. sentada no banco de trás
olhava pelo vidro azul cobalto
a 3000 quilômetros do ponto em
que o deixara.
hola, spleen, disse. você ainda vai me ver
três vezes antes do fim. uma linha esconde
outra linha, a voz esconde o que pré-
existe entre os dois. pensava na carta sem remetente
em alguma maneira de dizer pensava nas
esculturas sonoras (não havia
um plano c? para onde
seguia)
era como descobrir o sulco
fechado de um disco e ficar
rodando no loop daquela melodia
circular. precisa de uma língua
que defina isso
hola, spleen, disse.
mas não falava da latitude
no mapa, eram peixes
no fundo do oceano com a cartilagem
luminosa derretendo nos olhos
e a única preocupação quando
entrou era o som por detrás da voz dela:
saber se está triste há um ano
ou há 24 horas.
(na volta, passa a colecionar
objetos. a vingança começa num
aquário:
é como furar a realidade
com a realidade, ele dizia, ficar no quarto
medindo o nível do mar
para descobrir onde pôr
os peixes)
uma lagoa de atol. sentada no banco de trás
olhava pelo vidro azul cobalto
a 3000 quilômetros do ponto em
que o deixara.
hola, spleen, disse. você ainda vai me ver
três vezes antes do fim. uma linha esconde
outra linha, a voz esconde o que pré-
existe entre os dois. pensava na carta sem remetente
em alguma maneira de dizer pensava nas
esculturas sonoras (não havia
um plano c? para onde
seguia)
era como descobrir o sulco
fechado de um disco e ficar
rodando no loop daquela melodia
circular. precisa de uma língua
que defina isso
hola, spleen, disse.
mas não falava da latitude
no mapa, eram peixes
no fundo do oceano com a cartilagem
luminosa derretendo nos olhos
e a única preocupação quando
entrou era o som por detrás da voz dela:
saber se está triste há um ano
ou há 24 horas.
(na volta, passa a colecionar
objetos. a vingança começa num
aquário:
é como furar a realidade
com a realidade, ele dizia, ficar no quarto
medindo o nível do mar
para descobrir onde pôr
os peixes)
636
Ricardo Aleixo
Máquina zero
Quarto dia: entendo que o q
ue preciso, se q
uero mesmo continuar a p
erambular com alguma chance de êxito p
or uma cidade ( duas ) como Berlim, é
de sapatos de largo fôlego. Caminho ( penso e
nquanto caminho ), permeável a t
udo: ao frio sol cortante, às crianças t
urcas com seu comércio informal de b
rinquedos usados, à b
eleza sem rumo da adolescente que ( longas p
ernas abertas sobre um p
rosaico selim de bicicleta ) c
avalga o c
omeço da tarde, aos grafites que “d
ariam belas fotos”, à Topografia d
o Terror, às ruínas, ao r
asta que me saúda ( “R
asta!” ) na Wilhelmstrasse, às l
ascas do Muro na vitrine da pequena l
oja, ao a
marelo-zoom do metrô a
pontando na curva a
ntes do teatro, à
História,
ue preciso, se q
uero mesmo continuar a p
erambular com alguma chance de êxito p
or uma cidade ( duas ) como Berlim, é
de sapatos de largo fôlego. Caminho ( penso e
nquanto caminho ), permeável a t
udo: ao frio sol cortante, às crianças t
urcas com seu comércio informal de b
rinquedos usados, à b
eleza sem rumo da adolescente que ( longas p
ernas abertas sobre um p
rosaico selim de bicicleta ) c
avalga o c
omeço da tarde, aos grafites que “d
ariam belas fotos”, à Topografia d
o Terror, às ruínas, ao r
asta que me saúda ( “R
asta!” ) na Wilhelmstrasse, às l
ascas do Muro na vitrine da pequena l
oja, ao a
marelo-zoom do metrô a
pontando na curva a
ntes do teatro, à
História,
610
Ricardo Aleixo
UMA ALEGRIA
jamais minas gerais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
672
Horácio Costa
Ulysses
A
Homero está sentado na ponta de uma pirâmide e coroado (com louros) por
um anjo cor-de-rosa. Ao fundo, o perfeito frontão de um templo, sustentado por
colunas jônicas. Tudo isto contra o alvorecer (ou o entardecer?) de um dia imóvel.
A base da pirâmide é formada por uma caterva de intelectuais franceses, entre
os quais um delicioso Molière, que exibe o rosto literário mais bonito da história.
Boileau sente a solenidade do momento e impõe respeito aos passantes.
- As perucas que usavam naquele tempo, tens razão, parecem-se mesmo a
corvos. E quem é aquele lá?
Não sei. Ronsard, Froissart.
Ou o Barão de Münchhausen. A quantas falsidades não ficam expostos os
artistas quando representados? Por isto Homero está cego, como Borges ou a Justiça.
Melhor assim, noli lhe tangere. E não percebe que representaram osdedos de seus pés,
gordos e potentes, como uma dezena de falos em repouso.
Feto, larva, mito, filho, Ulisses vive em seu peito: uma tatuagem a fogo, igual
as que ornam torsos de marinheiros nos cinco continentes e mandada fazer, talvez,
num humilde bordel do Pireu. Neste ato, vendados estão os demais outros: ninguém
percebe a marca persistente, da qual o sangue não pára de escorrer.
B
Me colaram no tempo, me puseram uma alma viva e um corpo desconjuntado.
Mandei me amarrassem ao mastro central do barco; só assim veria e ouviria coisas
que homem nenhum sobreviveu para narrar a seu biógrafo. Programada é minha
infelicidade; a realista cicatriz que trago no rosto dará consolo a Auerbach --neste
universo nada se cria, tudo se transforma, ou pelo menos esta é a bíblia dos críticos
literários--. O barco desfila diante de sereias como se icebergs.
O porto não existe, não passa de um happy-end.
Homero, tão hábil, ver nunca atinou que Ninguém é meu exato nome.
C
- E aquele ali?
- E aquilo lá?
- E isto aqui?
Quem sabe. Verdadeiramente te importa, e porque? Não te bastam as estrelas,
uma pirâmide de vrais génies inoubliables, o peso da noite? Pois bem, afirmaste aos
quatro ventos meu ceticismo, meu "niilismo" virou conversation piece, teu
pedantismo crucifica, a mim atribuíste a culpa. Ato seguido, foste expiar-te em outro
texto, sei lá, em Leiria: sim, em Leiria, e topaste com outro vagido fragmentário,
outras interrogações.
E agora caminhas insaciável pelo museu.
- E esta sombra, que significa?
Nada.
Homero está sentado na ponta de uma pirâmide e coroado (com louros) por
um anjo cor-de-rosa. Ao fundo, o perfeito frontão de um templo, sustentado por
colunas jônicas. Tudo isto contra o alvorecer (ou o entardecer?) de um dia imóvel.
A base da pirâmide é formada por uma caterva de intelectuais franceses, entre
os quais um delicioso Molière, que exibe o rosto literário mais bonito da história.
Boileau sente a solenidade do momento e impõe respeito aos passantes.
- As perucas que usavam naquele tempo, tens razão, parecem-se mesmo a
corvos. E quem é aquele lá?
Não sei. Ronsard, Froissart.
Ou o Barão de Münchhausen. A quantas falsidades não ficam expostos os
artistas quando representados? Por isto Homero está cego, como Borges ou a Justiça.
Melhor assim, noli lhe tangere. E não percebe que representaram osdedos de seus pés,
gordos e potentes, como uma dezena de falos em repouso.
Feto, larva, mito, filho, Ulisses vive em seu peito: uma tatuagem a fogo, igual
as que ornam torsos de marinheiros nos cinco continentes e mandada fazer, talvez,
num humilde bordel do Pireu. Neste ato, vendados estão os demais outros: ninguém
percebe a marca persistente, da qual o sangue não pára de escorrer.
B
Me colaram no tempo, me puseram uma alma viva e um corpo desconjuntado.
Mandei me amarrassem ao mastro central do barco; só assim veria e ouviria coisas
que homem nenhum sobreviveu para narrar a seu biógrafo. Programada é minha
infelicidade; a realista cicatriz que trago no rosto dará consolo a Auerbach --neste
universo nada se cria, tudo se transforma, ou pelo menos esta é a bíblia dos críticos
literários--. O barco desfila diante de sereias como se icebergs.
O porto não existe, não passa de um happy-end.
Homero, tão hábil, ver nunca atinou que Ninguém é meu exato nome.
C
- E aquele ali?
- E aquilo lá?
- E isto aqui?
Quem sabe. Verdadeiramente te importa, e porque? Não te bastam as estrelas,
uma pirâmide de vrais génies inoubliables, o peso da noite? Pois bem, afirmaste aos
quatro ventos meu ceticismo, meu "niilismo" virou conversation piece, teu
pedantismo crucifica, a mim atribuíste a culpa. Ato seguido, foste expiar-te em outro
texto, sei lá, em Leiria: sim, em Leiria, e topaste com outro vagido fragmentário,
outras interrogações.
E agora caminhas insaciável pelo museu.
- E esta sombra, que significa?
Nada.
679
Mailson Furtado Viana
a estante deslocou a sala
a estante deslocou a sala
pro canto
tudo de importante
lá está
de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio
são só vistos
pela estante
que ali não pisou
na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)
dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar
pro canto
tudo de importante
lá está
de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio
são só vistos
pela estante
que ali não pisou
na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)
dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar
667
Mailson Furtado Viana
as sandálias ao canto
as sandálias ao canto
guardam teus passos
e não sabem pra diante
o horizonte
guardam caminhos
guardam distâncias
guardam a próxima esquina
guardam o fim do mundo
__________que nelas começa
guardam teus passos
e não sabem pra diante
o horizonte
guardam caminhos
guardam distâncias
guardam a próxima esquina
guardam o fim do mundo
__________que nelas começa
728
Paulo Teixeira
1063 TWENTY-SIXTH ST. SANTA MONICA
(Brecht na Califórnia)
Pede-se-nos complacência
para com os bons selvagens,
se olham com expressão amável
e vazia a nobreza romana banida
de uma vez para o Ponto.
Aqui prossegue uma existência insular
essa Weimar das sombras,
com a sua moral rígida e os costumes austeros,
as disputas vãs e recorrentes
sobre os sentidos que toma a guerra
na Europa, como se aí um outro vivesse
o prolongamento das suas vidas amputadas
nesta margem leve e frívola da América.
Ei-la reduzida a assistir de longe,
com um oceano e um continente de permeio,
às mortes na família.
Trocam currículos e carreiras,
affidavit e declarações de rendimentos válidas por cinco anos,
pelo direito de habitar este litoral de palmeiras
e limoeiros de meridional Itália,
mas onde a musa se não demora
a soprar ventos da Cítia
entre barcos, redes de pesca
e ninfas de praia (californianas).
Vieram para morrer entre os Getas,
adeptos do surf & da bricolage,
entre casinos, estúdios de cinema
e poços de petróleo.
Sabemos como a vida imita os filmes.
Os mitos no tempo da física
são como as estrelas poeira sem brilho
num mundo de luz artificial
e poesia impossível —
pois como compor uma ode
ao deus menor que move,
acima do rumor de pneumáticos e motores,
os mecanismos da sorte
em Sunset Boulevard?
Pede-se-nos complacência
para com os bons selvagens,
se olham com expressão amável
e vazia a nobreza romana banida
de uma vez para o Ponto.
Aqui prossegue uma existência insular
essa Weimar das sombras,
com a sua moral rígida e os costumes austeros,
as disputas vãs e recorrentes
sobre os sentidos que toma a guerra
na Europa, como se aí um outro vivesse
o prolongamento das suas vidas amputadas
nesta margem leve e frívola da América.
Ei-la reduzida a assistir de longe,
com um oceano e um continente de permeio,
às mortes na família.
Trocam currículos e carreiras,
affidavit e declarações de rendimentos válidas por cinco anos,
pelo direito de habitar este litoral de palmeiras
e limoeiros de meridional Itália,
mas onde a musa se não demora
a soprar ventos da Cítia
entre barcos, redes de pesca
e ninfas de praia (californianas).
Vieram para morrer entre os Getas,
adeptos do surf & da bricolage,
entre casinos, estúdios de cinema
e poços de petróleo.
Sabemos como a vida imita os filmes.
Os mitos no tempo da física
são como as estrelas poeira sem brilho
num mundo de luz artificial
e poesia impossível —
pois como compor uma ode
ao deus menor que move,
acima do rumor de pneumáticos e motores,
os mecanismos da sorte
em Sunset Boulevard?
590
Paulo Teixeira
Carta do Pacífico
Rot ist der Abend auf der Insel von Palau
und die Schatten sinken —
Gottfried Benn
Querem-me de volta
deste posto avançado do Império
e eu quero ser só massa de gelo do Norte
à deriva em águas quentes.
Vaguear de ilha em ilha
seguindo a pista que os seus nomes
gravaram num mapa mudo,
tendo por religião esta imoralidade
amável de quem mostra as partes sem pudor,
e meditar sob um telhado em forma de cone
a um deus sem nome ainda.
Apanhar o que o mar traz à praia,
as mercadorias lançadas pelos vapores de passagem,
folhas de palma, mangas e papaias,
no bolso escondido um punhal malaio.
Podia morrer aqui — esplendidamente.
Proscrito, exilado,
banido eu mesmo da Fama,
só, mas valente e leal ao meu nome,
sem armas nem mea culpa,
com um grande vazio na memória —
sob outra constelação zodiacal.
Querem-me salvo e praticável
e eu desejo é estar à margem,
ser orla, limítrofe,
lá onde no molhe rebenta a onda
que vem de longe e chega aos pés da casa.
Nada me redime
e sei que nada mereço —
honras e comendas,
rendas e reparações de guerra.
A minha réplica preferida é a brisa.
Este o meu cavalete —
curvas, meandros,
uma enseada na hora
em que se atenuam os contornos
e se resolve, num misto de fumo e de névoa,
a última disposição atmosférica.
A floresta das chuvas
abriu clareiras de verde
no Pacífico azul.
O mundo é uma elegia distante
e a Europa: esta ficção retrospectiva.
und die Schatten sinken —
Gottfried Benn
Querem-me de volta
deste posto avançado do Império
e eu quero ser só massa de gelo do Norte
à deriva em águas quentes.
Vaguear de ilha em ilha
seguindo a pista que os seus nomes
gravaram num mapa mudo,
tendo por religião esta imoralidade
amável de quem mostra as partes sem pudor,
e meditar sob um telhado em forma de cone
a um deus sem nome ainda.
Apanhar o que o mar traz à praia,
as mercadorias lançadas pelos vapores de passagem,
folhas de palma, mangas e papaias,
no bolso escondido um punhal malaio.
Podia morrer aqui — esplendidamente.
Proscrito, exilado,
banido eu mesmo da Fama,
só, mas valente e leal ao meu nome,
sem armas nem mea culpa,
com um grande vazio na memória —
sob outra constelação zodiacal.
Querem-me salvo e praticável
e eu desejo é estar à margem,
ser orla, limítrofe,
lá onde no molhe rebenta a onda
que vem de longe e chega aos pés da casa.
Nada me redime
e sei que nada mereço —
honras e comendas,
rendas e reparações de guerra.
A minha réplica preferida é a brisa.
Este o meu cavalete —
curvas, meandros,
uma enseada na hora
em que se atenuam os contornos
e se resolve, num misto de fumo e de névoa,
a última disposição atmosférica.
A floresta das chuvas
abriu clareiras de verde
no Pacífico azul.
O mundo é uma elegia distante
e a Europa: esta ficção retrospectiva.
707
Paulo Teixeira
Uma Residência
Um ano depois de eu nascer,
Berlim era um convés de voo
com naves laterais e galeria
de ventilação, forças aerotransportáveis
e sereia de alarme aéreo.
Imagino Gombrowicz chegando,
espécie de nómada insolente,
com o cinismo prático
e as mil facetas da sua alma dialéctica,
proscrito uma vez mais,
por decisão unilateral,
para um ano longe da pampa.
A Alemanha era uma arte de decompor em partes
um direito adquirido com o nascimento,
e a cidade uma protuberância da guerra fria,
purga de ar de que ele podia seguir
as descargas luminosas no alto penhasco
onde o alojaram em Hohenzollerndamm.
Tivesse o dom de vaticinar
e saberia que era citado
a depor com o corpo a infância polaca
nos aromas que se libertam
de aceres e bétulas nas áleas do Tiergarten.
Uma dissidência terminava assim,
neste retiro verde e sossegado —
como um castigo corporal
ou qualquer coisa de congénito,
a Europa vinha ao seu encontro
e a morte com um odor característico
irrompia, longe da confusão e do caos,
por entre os néons e a névoa da pax americana.
Berlim era um convés de voo
com naves laterais e galeria
de ventilação, forças aerotransportáveis
e sereia de alarme aéreo.
Imagino Gombrowicz chegando,
espécie de nómada insolente,
com o cinismo prático
e as mil facetas da sua alma dialéctica,
proscrito uma vez mais,
por decisão unilateral,
para um ano longe da pampa.
A Alemanha era uma arte de decompor em partes
um direito adquirido com o nascimento,
e a cidade uma protuberância da guerra fria,
purga de ar de que ele podia seguir
as descargas luminosas no alto penhasco
onde o alojaram em Hohenzollerndamm.
Tivesse o dom de vaticinar
e saberia que era citado
a depor com o corpo a infância polaca
nos aromas que se libertam
de aceres e bétulas nas áleas do Tiergarten.
Uma dissidência terminava assim,
neste retiro verde e sossegado —
como um castigo corporal
ou qualquer coisa de congénito,
a Europa vinha ao seu encontro
e a morte com um odor característico
irrompia, longe da confusão e do caos,
por entre os néons e a névoa da pax americana.
733
Golgona Anghel
Meia-noite todo dia
Meia-noite todo dia
Tenho humor e vendo-o barato.
Muita gente gosta disto.
Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".
Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.
Tenho humor e vendo-o barato.
Muita gente gosta disto.
Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".
Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.
930
Golgona Anghel
Conheci o Sandy na esquina do talho
Conheci o Sandy na esquina do talho,
no Largo do Calvário,
Tinha o carro mal estacionado.
Estivemos depois juntos na China,
Durante a invasão japonesa;
e em França, no despontar da Segunda Guerra Mundial
No Vietname, habitámos a mesma galeria escura.
Passávamos a vida a classificar ruídos e
a medir com os pés
o crescimento do arroz.
Quando Boccacio desvia no Decameron
os sintomas da peste,
nós estávamos em Veneza a queimar em grandes piras
os tártaros abatidos pela doença.
Às vezes ouvem-se cães a ladrar,
às vezes é tarde e o tempo se torna circular,
a felicidade deixa então de fazer parte
do nosso sistema solar.
Mas o Sandy está calmo e ponderado.
Se não tivesse problemas de asma,
fumaria cachimbo.
Uma tarde, numa esplanada
Com vista para o passado que não passa,
no Jardim do Príncipe Real para ser mais exacto –
disse mantenham-se vivos,
façam isso por Michael Jackson.
no Largo do Calvário,
Tinha o carro mal estacionado.
Estivemos depois juntos na China,
Durante a invasão japonesa;
e em França, no despontar da Segunda Guerra Mundial
No Vietname, habitámos a mesma galeria escura.
Passávamos a vida a classificar ruídos e
a medir com os pés
o crescimento do arroz.
Quando Boccacio desvia no Decameron
os sintomas da peste,
nós estávamos em Veneza a queimar em grandes piras
os tártaros abatidos pela doença.
Às vezes ouvem-se cães a ladrar,
às vezes é tarde e o tempo se torna circular,
a felicidade deixa então de fazer parte
do nosso sistema solar.
Mas o Sandy está calmo e ponderado.
Se não tivesse problemas de asma,
fumaria cachimbo.
Uma tarde, numa esplanada
Com vista para o passado que não passa,
no Jardim do Príncipe Real para ser mais exacto –
disse mantenham-se vivos,
façam isso por Michael Jackson.
878
Nelly Sachs
ESTOU NO ESTRANGEIRO
Estou no estrangeiro
que é protegido pelo 8
o santo anjo do laço
Que está sempre a caminho
através de nossa carne
semeando a inquietude
e deixando o pó maduro para voar –
que é protegido pelo 8
o santo anjo do laço
Que está sempre a caminho
através de nossa carne
semeando a inquietude
e deixando o pó maduro para voar –
600
Giorgos Seferis
VIII
Mas que procuram nossas almas viajando
sobre conveses de navios arrasados
espremidas com mulheres amarelas e bebês que choram
sem poder distrair-se nem com os peixes-voadores
nem com as estrelas que os mastros apontam.
Gastas pelos discos dos fonógrafos
amarradas involuntariamente a peregrinações inexistentes
murmurando pensamentos quebrados de línguas
estrangeiras.
Mas que procura nossas almas viajando
nesses cascos podres
de porto em porto?
Movendo pedras quebradas, respirando
com mais dificuldade a cada dia o frescor do pinheiro,
nadando nas águas desse mar
e daquele mar,
sem tato
sem homens
em uma pátria que não é mais nossa
nem vossa.
Sabíamos que eram belas as ilhas
em algum lugar aqui perto que tateamos
um pouco mais baixo ou um pouco mais alto
um ínfimo espaço.
sobre conveses de navios arrasados
espremidas com mulheres amarelas e bebês que choram
sem poder distrair-se nem com os peixes-voadores
nem com as estrelas que os mastros apontam.
Gastas pelos discos dos fonógrafos
amarradas involuntariamente a peregrinações inexistentes
murmurando pensamentos quebrados de línguas
estrangeiras.
Mas que procura nossas almas viajando
nesses cascos podres
de porto em porto?
Movendo pedras quebradas, respirando
com mais dificuldade a cada dia o frescor do pinheiro,
nadando nas águas desse mar
e daquele mar,
sem tato
sem homens
em uma pátria que não é mais nossa
nem vossa.
Sabíamos que eram belas as ilhas
em algum lugar aqui perto que tateamos
um pouco mais baixo ou um pouco mais alto
um ínfimo espaço.
577
Armando Silva Carvalho
OS DOIS DE LANZAROTE
Eram um casal aéreo, cruzavam aeroportos,
digo eu o delator, o escriba acocorado, e sigo-os
nas suas fantasias voadoras,
açambarcando as nuvens, os romances,
toda a luta de classes
nas longas, estreitíssimas passagens dos jactos
pelo céu alucinante e cru.
Um casal a encher uma península.
Ruídos pérfidos perseguiam a sua alta rota revoltada,
a ela lambuzavam-lhe os vestidos, transparentes,
abertos sobre as nuvens.
E a ele arrancavam-lhe os cabelos
agarrados ao cérebro.
Mas eles voam mais alto, no assombro, mais livres.
Só eu pareço agora um cão acabrunhado
nas coxias deste chão sem ar,
e os olhos presos naquela exuberância.
Eles são dois padrões erguidos na terra retalhada
pelos elegantes domadores da fala,
e do mar mediterrâneo.
Recordai, ó leitores, a exibição da ternura,
a estridência feliz dos abraços frente à multidão,
a imponência do sucesso a pulso.
Um velho, uma mulher madura, uma ilha vulcânica.
E o ar que acolhe os seus impulsos
com a firme decisão de fazer estremecer
o mundo.
digo eu o delator, o escriba acocorado, e sigo-os
nas suas fantasias voadoras,
açambarcando as nuvens, os romances,
toda a luta de classes
nas longas, estreitíssimas passagens dos jactos
pelo céu alucinante e cru.
Um casal a encher uma península.
Ruídos pérfidos perseguiam a sua alta rota revoltada,
a ela lambuzavam-lhe os vestidos, transparentes,
abertos sobre as nuvens.
E a ele arrancavam-lhe os cabelos
agarrados ao cérebro.
Mas eles voam mais alto, no assombro, mais livres.
Só eu pareço agora um cão acabrunhado
nas coxias deste chão sem ar,
e os olhos presos naquela exuberância.
Eles são dois padrões erguidos na terra retalhada
pelos elegantes domadores da fala,
e do mar mediterrâneo.
Recordai, ó leitores, a exibição da ternura,
a estridência feliz dos abraços frente à multidão,
a imponência do sucesso a pulso.
Um velho, uma mulher madura, uma ilha vulcânica.
E o ar que acolhe os seus impulsos
com a firme decisão de fazer estremecer
o mundo.
717
Giorgos Seferis
De Solstício de verão - VIII
Duro espelho o papel em branco
restitui apenas o que eras.
O papel em branco fala com a tua voz
a tua própria voz
não com a que te agrada;
tua música é a vida
que dissipaste.
Podes recuperá-la se quiseres
se te apegares ao que indiferente
te atira para trás
ao ponto de partida.
Viajaste, viste muitas luas muitos sóis
tocaste vivos e mortos
sentiste a dor do jovem
e o gemido da mulher
e o amargor do menino ainda imaturo —
o que sentiste rui sem fundamento
se não te confias ao vazio.
Talvez ali encontres o que julgavas já perdido:
o renovo da juventude, o justo sossobro da idade.
Tua vida é o que deste
esse vazio é o que deste
o papel em branco.
restitui apenas o que eras.
O papel em branco fala com a tua voz
a tua própria voz
não com a que te agrada;
tua música é a vida
que dissipaste.
Podes recuperá-la se quiseres
se te apegares ao que indiferente
te atira para trás
ao ponto de partida.
Viajaste, viste muitas luas muitos sóis
tocaste vivos e mortos
sentiste a dor do jovem
e o gemido da mulher
e o amargor do menino ainda imaturo —
o que sentiste rui sem fundamento
se não te confias ao vazio.
Talvez ali encontres o que julgavas já perdido:
o renovo da juventude, o justo sossobro da idade.
Tua vida é o que deste
esse vazio é o que deste
o papel em branco.
813
Tomas Tranströmer
A viagem
Na estação subterrânea.
Uma multidão entre placares
num pasmo de luz morta.
O comboio parou e recolheu
rostos e portefólios
Depois a escuridão. Sentámo-nos
nas carruagens como estátuas,
arrastados pelas cavernas.
Restrição, sonhos, restrição.
Em estações abaixo do nível do mar
vendiam-se notícias da escuridão.
Pessoas movendo-se tristemente
silenciosas debaixo do mostrador dos relógios.
O comboio carregando
roupas e almas
Olhares em todas as direcções
na viagem pela montanha.
Nenhuma mudança.
Junto à superfície começa
um zunido de abelhas – liberdade.
Saímos da terra.
A terra por uma vez bateu
asas e ficou quieta debaixo
de nós, estirada e verde.
Espigas de milho esvoaçavam
por cima das plataformas.
Terminal – eu
prossegui mais além.
Comigo quantos estavam? Quatro,
cinco, não mais.
Casas, estradas, céus,
enseadas azuis, montanhas
abrindo as suas janelas.
Uma multidão entre placares
num pasmo de luz morta.
O comboio parou e recolheu
rostos e portefólios
Depois a escuridão. Sentámo-nos
nas carruagens como estátuas,
arrastados pelas cavernas.
Restrição, sonhos, restrição.
Em estações abaixo do nível do mar
vendiam-se notícias da escuridão.
Pessoas movendo-se tristemente
silenciosas debaixo do mostrador dos relógios.
O comboio carregando
roupas e almas
Olhares em todas as direcções
na viagem pela montanha.
Nenhuma mudança.
Junto à superfície começa
um zunido de abelhas – liberdade.
Saímos da terra.
A terra por uma vez bateu
asas e ficou quieta debaixo
de nós, estirada e verde.
Espigas de milho esvoaçavam
por cima das plataformas.
Terminal – eu
prossegui mais além.
Comigo quantos estavam? Quatro,
cinco, não mais.
Casas, estradas, céus,
enseadas azuis, montanhas
abrindo as suas janelas.
696
Osman Lins
Visões do Movietone
Epígrafe
Viajantes de cristal,
as lentes nos contarão suas visões.
E logo,
tal um vendedor ansioso,
estende a nossos olhos
seu mostruário de imagens
colhido nas retinas transparentes.
Queremos de misérias e alegrias.
Aqui estamos.
§
Os caminhantes ociosos
Na estrada lívida,
multidões caminhavam.
Um violoncelo invisível lembra um cachorro cego,
vagando, à procura de um anjo.
Não o encontrará.
A multidão caminha, estonteada,
e para eles não existem más estradas.
São as solteironas dos caminhos:
não podem mais escolher.
e realizam entre nós aquelas núpcias tristes
Vão e vão
Itinerantes,
nada levam em suas mãos
— até as suas almas deixaram,
na urgência de partir,
em suas terras natais.
Nada levam, nada fazem,
senão vir, silenciosos,
pelos lívidos caminhos.
Nada fazem, os ociosos.
§
Conferência à Beira Mar
Quatro figurões descem do avião
e são conduzidos em automóveis hermeticamente fechados para negociar a paz.
Trazem os bolsos cheios de preocupações e um menino morto no coração parado.
Vão de negro e lúgubres:
os respectivos consulados não concederam passaportes aos seus sorrisos.
— e um clandestino,
foi confiscado pela Guarda Aduaneira
e vendido em leilão a um agente de seguros.
As lâmpadas fotográficas reluzem à sua passagem,
como relâmpagos sem voz
(Oh! Como são breves
e mais inconstantes que os refletores antiaéreos!)
Os figurões se encontram
e três deles erguem os braços
quando o representante norte-americano lhes apresenta a estrela de xerife.
Mas estão junto ao mar,
à sombra de um para-sol cujos gomos são feitos com retalhos de bandeiras
e o xerife joga às ondas seu distintivo astral
que se transforma em estrela do mar
— quem sabe se futura Estrela Dalva?
Cada um fala uma língua e o intérprete é mudo.
Mas de manso,
inofensivo réptil,
crescente luz,
canção que se aproxima,
o mar avança, cresce, envolve-os.
E as quatro cabeças sob a barraca de praia
lembram a Rosa dos Ventos e os quatro pontos cardiais.
E a paz?
Afogou-se.
§
As Bestas Messiânicas
Domingo de sinos presumíveis
e explorações mirins nos arrabaldes do sonho.
Crianças tornam aos portões do Paraíso Perdido
e agora outra vez reconquistado.
Jardim Zoológico —
selva gentil, deserto ameno, polos temperados
A larga piscina é um mar ameninado.
Latitudes se encontram como as varetas de um leque,
como, num bar, marinheiros que não se entendem,
cada um contando a sua lembrança e a sua canção.
As focas zombadoras brilham como nuvens de aurora
e, para as gazelas,
a planície perdida deve ter um gosto pungente
. . . . . . . . . . . [e irrecuperável de infância morta.
Os coelhos, mesmo vivos, já parecem vítimas.
Os elefantes são pausas.
Esplende forte, sacra,
a majestade dos tigres e leões,
e na tranquilidade de uns e outros há um displicente
como se as grades fossem mitos.
São todos sós, são todos exilados.
E das jaulas, do mar ameninado,
de seus exílios, de suas nostalgias,
gritam as bestas,
apostólicas,
sem que ninguém as ouça:
“Deixai vir a mim as criancinhas
e com elas o seu deslumbramento.”
§
A Experiência Ardente
Pássaro sem cântico.
esquife desabitado,
que apreensões de vivos
não ligam a terra,
o avião sem piloto
segue.
Logo mais o atingirão,
matarão o que está morto.
Cálculos matemáticos sopesam as possibilidades da morte,
com precisão infinitesimal
como se buscassem o peso de uma pétala.
Seguros como um deus,
as equações preparam o tiro
e os diagramas fixam o desenrolar da emboscada.
E o tiro embarca
vai ao encontro do pássaro sem cântico.
Fulgem os céus,
choram as asas partidas,
imobiliza-se a hélice com um tremor de criança baleada.
E flor de chamas,
tomba em silencio o morto assassinado.,
com lentidão de túnica vazia.
§
A Moda Sempre Vária
Com um ar de bonecas mecânicas
modelos parisienses condescendem em ostentar as últimas criações da Primavera.
Aos olhos de colegiais, costureiras de subúrbio,
. . . . . . . [mães de família deficitárias e criaturas neutras para quem
. . . . . . . [a moda encalhou no último figurino comprado a já esgarço,
desfilam vestidos que mais parecem ironias.
E ninguém olha os manequins.
Todos contemplam os vestidos,
do mesmo modo que um menino,
há muitos anos,
contemplava as nuvens,
sempre alheias, sempre várias,
além das torres da igreja,
onde os vitrais sorriam nas missas do domingo
e onde as meninas, em maio, eram arcanjos de fitas no cabelo.
Viajantes de cristal,
as lentes nos contarão suas visões.
E logo,
tal um vendedor ansioso,
estende a nossos olhos
seu mostruário de imagens
colhido nas retinas transparentes.
Queremos de misérias e alegrias.
Aqui estamos.
§
Os caminhantes ociosos
Na estrada lívida,
multidões caminhavam.
Um violoncelo invisível lembra um cachorro cego,
vagando, à procura de um anjo.
Não o encontrará.
A multidão caminha, estonteada,
e para eles não existem más estradas.
São as solteironas dos caminhos:
não podem mais escolher.
e realizam entre nós aquelas núpcias tristes
Vão e vão
Itinerantes,
nada levam em suas mãos
— até as suas almas deixaram,
na urgência de partir,
em suas terras natais.
Nada levam, nada fazem,
senão vir, silenciosos,
pelos lívidos caminhos.
Nada fazem, os ociosos.
§
Conferência à Beira Mar
Quatro figurões descem do avião
e são conduzidos em automóveis hermeticamente fechados para negociar a paz.
Trazem os bolsos cheios de preocupações e um menino morto no coração parado.
Vão de negro e lúgubres:
os respectivos consulados não concederam passaportes aos seus sorrisos.
— e um clandestino,
foi confiscado pela Guarda Aduaneira
e vendido em leilão a um agente de seguros.
As lâmpadas fotográficas reluzem à sua passagem,
como relâmpagos sem voz
(Oh! Como são breves
e mais inconstantes que os refletores antiaéreos!)
Os figurões se encontram
e três deles erguem os braços
quando o representante norte-americano lhes apresenta a estrela de xerife.
Mas estão junto ao mar,
à sombra de um para-sol cujos gomos são feitos com retalhos de bandeiras
e o xerife joga às ondas seu distintivo astral
que se transforma em estrela do mar
— quem sabe se futura Estrela Dalva?
Cada um fala uma língua e o intérprete é mudo.
Mas de manso,
inofensivo réptil,
crescente luz,
canção que se aproxima,
o mar avança, cresce, envolve-os.
E as quatro cabeças sob a barraca de praia
lembram a Rosa dos Ventos e os quatro pontos cardiais.
E a paz?
Afogou-se.
§
As Bestas Messiânicas
Domingo de sinos presumíveis
e explorações mirins nos arrabaldes do sonho.
Crianças tornam aos portões do Paraíso Perdido
e agora outra vez reconquistado.
Jardim Zoológico —
selva gentil, deserto ameno, polos temperados
A larga piscina é um mar ameninado.
Latitudes se encontram como as varetas de um leque,
como, num bar, marinheiros que não se entendem,
cada um contando a sua lembrança e a sua canção.
As focas zombadoras brilham como nuvens de aurora
e, para as gazelas,
a planície perdida deve ter um gosto pungente
. . . . . . . . . . . [e irrecuperável de infância morta.
Os coelhos, mesmo vivos, já parecem vítimas.
Os elefantes são pausas.
Esplende forte, sacra,
a majestade dos tigres e leões,
e na tranquilidade de uns e outros há um displicente
como se as grades fossem mitos.
São todos sós, são todos exilados.
E das jaulas, do mar ameninado,
de seus exílios, de suas nostalgias,
gritam as bestas,
apostólicas,
sem que ninguém as ouça:
“Deixai vir a mim as criancinhas
e com elas o seu deslumbramento.”
§
A Experiência Ardente
Pássaro sem cântico.
esquife desabitado,
que apreensões de vivos
não ligam a terra,
o avião sem piloto
segue.
Logo mais o atingirão,
matarão o que está morto.
Cálculos matemáticos sopesam as possibilidades da morte,
com precisão infinitesimal
como se buscassem o peso de uma pétala.
Seguros como um deus,
as equações preparam o tiro
e os diagramas fixam o desenrolar da emboscada.
E o tiro embarca
vai ao encontro do pássaro sem cântico.
Fulgem os céus,
choram as asas partidas,
imobiliza-se a hélice com um tremor de criança baleada.
E flor de chamas,
tomba em silencio o morto assassinado.,
com lentidão de túnica vazia.
§
A Moda Sempre Vária
Com um ar de bonecas mecânicas
modelos parisienses condescendem em ostentar as últimas criações da Primavera.
Aos olhos de colegiais, costureiras de subúrbio,
. . . . . . . [mães de família deficitárias e criaturas neutras para quem
. . . . . . . [a moda encalhou no último figurino comprado a já esgarço,
desfilam vestidos que mais parecem ironias.
E ninguém olha os manequins.
Todos contemplam os vestidos,
do mesmo modo que um menino,
há muitos anos,
contemplava as nuvens,
sempre alheias, sempre várias,
além das torres da igreja,
onde os vitrais sorriam nas missas do domingo
e onde as meninas, em maio, eram arcanjos de fitas no cabelo.
501
Ademir Assunção
AUTO-RETRATO
talvez, uma noite
retorne
cansado das batalhas
e das festas
nada
nas mãos
muito pouco
nos bolsos
os olhos cheios
de imagens
os ouvidos loucos
de sons
shows dos stones
desenhos de escher
a pele tocada
por mulheres chocantes
vagabundo
cruzando estradas
ítacas
revisitadas
exausto das guerras
um dia, talvez
retorne
sem lenço
sem retoques
talhos
no rosto
cicatrizes
na pele da alma
a paisagem
se dissolvendo
velho, arqueado
o sapato
todo furado
e dois versos
na camiseta:
eis a vida
que não vendo
retorne
cansado das batalhas
e das festas
nada
nas mãos
muito pouco
nos bolsos
os olhos cheios
de imagens
os ouvidos loucos
de sons
shows dos stones
desenhos de escher
a pele tocada
por mulheres chocantes
vagabundo
cruzando estradas
ítacas
revisitadas
exausto das guerras
um dia, talvez
retorne
sem lenço
sem retoques
talhos
no rosto
cicatrizes
na pele da alma
a paisagem
se dissolvendo
velho, arqueado
o sapato
todo furado
e dois versos
na camiseta:
eis a vida
que não vendo
1 108
Everardo Norões
Café
Desencarno arábias
de uma xícara morna
de café.
E um fio negro
me assedia a boca.
(Através da janela
o galho de pitanga
ostenta seu adorno
encarnado).
Viajo
pelo negror do pó:
Dar-El-Salam,
Bombaim,
Áden
(sem Nizan, sem Rimbaud):
as colinas ocres,
a poeira dos dias.
De onde vem o grão
dessa saudade?
Desentranho arábias
dessa xícara fria.
Enquanto aguardo o dia
que não chega.
Desacordo e sorvo
a sombra morna
do que sou
na borra
do café.
de uma xícara morna
de café.
E um fio negro
me assedia a boca.
(Através da janela
o galho de pitanga
ostenta seu adorno
encarnado).
Viajo
pelo negror do pó:
Dar-El-Salam,
Bombaim,
Áden
(sem Nizan, sem Rimbaud):
as colinas ocres,
a poeira dos dias.
De onde vem o grão
dessa saudade?
Desentranho arábias
dessa xícara fria.
Enquanto aguardo o dia
que não chega.
Desacordo e sorvo
a sombra morna
do que sou
na borra
do café.
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