Poemas neste tema
Estações do Ano (Primavera, Verão, Outono, Inverno)
Lila Ripoll
Primavera
Setembro entrou pela janela adentro,
com um puro frescor de primavera.
Inunda-se de luz toda a paisagem
e o meu canto transborda à tua espera.
A doçura da tarde é uma carícia.
Entreabrem-se flores docemente.
As nuvens estão nítidas e imóveis
no céu azul aberto à minha frente.
Há murmúrios e vozes pela rua.
Frescos risos distraem meus ouvidos
e ficam borbulhando como fonte
ou como choque de cristais partidos.
A ternura contida de meu peito
ameaça transbordar dentro da tarde.
como um rio fugindo de seu leito.
Minha pobre ternura ignorada,
minha heróica ternura impressentida,
teima em mostrar-se como a primavera,
pensa em tocar de leve a tua vida.
É difícil ser poeta e ser mulher.
É difícil cantar sem revelar.
Pode o poeta contar o seu segredo,
mas a mulher o seu deve guardar.
A ternura contida de meu peito
ameaça transbordar dentro da tarde,
como um rio fugindo de seu leito.
Fecharei a janela à primavera
e calarei o poeta nesta tarde,
para que o sonho em nada me perturbe,
nem meu canto transborde à tua espera.
In: RIPOLL, Lila. Poemas e Canções. Porto Alegre: Horizonte, 1957. (Cadernos da Horizonte)
com um puro frescor de primavera.
Inunda-se de luz toda a paisagem
e o meu canto transborda à tua espera.
A doçura da tarde é uma carícia.
Entreabrem-se flores docemente.
As nuvens estão nítidas e imóveis
no céu azul aberto à minha frente.
Há murmúrios e vozes pela rua.
Frescos risos distraem meus ouvidos
e ficam borbulhando como fonte
ou como choque de cristais partidos.
A ternura contida de meu peito
ameaça transbordar dentro da tarde.
como um rio fugindo de seu leito.
Minha pobre ternura ignorada,
minha heróica ternura impressentida,
teima em mostrar-se como a primavera,
pensa em tocar de leve a tua vida.
É difícil ser poeta e ser mulher.
É difícil cantar sem revelar.
Pode o poeta contar o seu segredo,
mas a mulher o seu deve guardar.
A ternura contida de meu peito
ameaça transbordar dentro da tarde,
como um rio fugindo de seu leito.
Fecharei a janela à primavera
e calarei o poeta nesta tarde,
para que o sonho em nada me perturbe,
nem meu canto transborde à tua espera.
In: RIPOLL, Lila. Poemas e Canções. Porto Alegre: Horizonte, 1957. (Cadernos da Horizonte)
1 924
Lila Ripoll
Neve
A neve desce
fria e fina.
A neve cresce
e há neblina.
Neva na rua,
neva em meu peito.
Cai neve da lua
no mar,
e em meu leito.
A neve gela
meu pensamento.
Cai neve, neve
nos fios do vento.
A neve desce
pelo meu leito.
A neve cresce
sobre meu peito.
Cai neve, neve
cai e se adensa.
Cai neve, leve,
sobre quem pensa.
Publicado no livro Poemas e Canções (1957)
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.5
fria e fina.
A neve cresce
e há neblina.
Neva na rua,
neva em meu peito.
Cai neve da lua
no mar,
e em meu leito.
A neve gela
meu pensamento.
Cai neve, neve
nos fios do vento.
A neve desce
pelo meu leito.
A neve cresce
sobre meu peito.
Cai neve, neve
cai e se adensa.
Cai neve, leve,
sobre quem pensa.
Publicado no livro Poemas e Canções (1957)
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.5
1 619
Eudoro Augusto
Inscrição
Esta primavera
não é flor que se cheire.
Publicado no livro Dia sim dia não (1978).
In: ALVIM, Francisco. Poesias reunidas, 1968/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. p.164. (Claro enigma
não é flor que se cheire.
Publicado no livro Dia sim dia não (1978).
In: ALVIM, Francisco. Poesias reunidas, 1968/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. p.164. (Claro enigma
1 093
Neide Archanjo
40 [Ah, esta manhã tão clara
Ah, esta manhã tão clara
e teu corpo que se inclina para o mar.
Como conciliar a luz em teu olho,
as ondas deitadas mansamente, mansamente
e a tua imagem
longa gaivota
indo e vindo pela praia verde de sol,
tudo como numa marinha de Pancetti
que tenho dentro de mim?
Não há o que lembrar.
Falo desta luz que me ilumina
e que te alcança embora longe
porque é primavera aqui onde estou
e é primavera aí onde estás.
Pressinto a tua mansidão hoje
nesta manhã tão clara
e sempre te quis saber assim:
olhando o mar.
Não há onde buscar lembranças,
senão naquelas lembranças
agora retomadas nesta manhã tão clara
em que vejo nítida e precisamente
em frente ao mar
a imagem que me aprisiona e mata docemente
que me aprisiona e mata docemente
em frente a outro mar.
In: ARCHANJO, Neide. Quixote largo e foxtrote. São Paulo: Ed. do Escritor, 1975
e teu corpo que se inclina para o mar.
Como conciliar a luz em teu olho,
as ondas deitadas mansamente, mansamente
e a tua imagem
longa gaivota
indo e vindo pela praia verde de sol,
tudo como numa marinha de Pancetti
que tenho dentro de mim?
Não há o que lembrar.
Falo desta luz que me ilumina
e que te alcança embora longe
porque é primavera aqui onde estou
e é primavera aí onde estás.
Pressinto a tua mansidão hoje
nesta manhã tão clara
e sempre te quis saber assim:
olhando o mar.
Não há onde buscar lembranças,
senão naquelas lembranças
agora retomadas nesta manhã tão clara
em que vejo nítida e precisamente
em frente ao mar
a imagem que me aprisiona e mata docemente
que me aprisiona e mata docemente
em frente a outro mar.
In: ARCHANJO, Neide. Quixote largo e foxtrote. São Paulo: Ed. do Escritor, 1975
1 124
Augusto Massi
Siesta
O sangue fluindo,
texto longínquo,
ritmos na sombra.
Sol latejando no escuro,
vulva do pensamento:
mar, mulheres, mormaço.
No edifício do verão
repousa o doce móbile
da mente: é só soprar.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
texto longínquo,
ritmos na sombra.
Sol latejando no escuro,
vulva do pensamento:
mar, mulheres, mormaço.
No edifício do verão
repousa o doce móbile
da mente: é só soprar.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 008
Orides Fontela
Poemetos
a) manhã
Ninguém ainda. As rosas me saúdam
e eu saúdo o silêncio
das rosas.
b) ausência
Aqui ninguém
e nuvens.
c) ave
Asas suspensas em
instanteluz.
d) lua
Integralidade.
Fixidez.
e) Narciso
A flor a água a face
a flor a água
a flor.
f) primavera
Da não-espera
acontecem as
flores.
g) lago
Tensão
fria
da água: paz - em - ser.
h) espera
As janelas abertas.
A porta apenas encostada...
i) vaso
mas incomunicante.
j) fim
A ausência das rosas. O caminho
Já sem ninguém, para o silêncio.
Publicado no livro Helianto (1973).
In: FONTELA, Orides. Trevo, 1969/1988. Il. Mira Schendel. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
Ninguém ainda. As rosas me saúdam
e eu saúdo o silêncio
das rosas.
b) ausência
Aqui ninguém
e nuvens.
c) ave
Asas suspensas em
instanteluz.
d) lua
Integralidade.
Fixidez.
e) Narciso
A flor a água a face
a flor a água
a flor.
f) primavera
Da não-espera
acontecem as
flores.
g) lago
Tensão
fria
da água: paz - em - ser.
h) espera
As janelas abertas.
A porta apenas encostada...
i) vaso
mas incomunicante.
j) fim
A ausência das rosas. O caminho
Já sem ninguém, para o silêncio.
Publicado no livro Helianto (1973).
In: FONTELA, Orides. Trevo, 1969/1988. Il. Mira Schendel. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 778
Pedro Kilkerry
Evoé, 1910
Primavera! — versos, vinhos...
Nós, primaveras em flor.
E ai! corações, cavaquinhos
Com quatro cordas de Amor!
Requebrem árvores — ufa! —
Como as mulheres, ligeiro!
Como um pandeiro que rufa
O Sol, no monte, é um pandeiro!
E o campo de ouro transborda...
Ó Primavera, um vintém!
Onde é que se compra a corda
Da desventura, também?
Agora, um rio, água esparsa...
Nas águas claras de um rio,
Lavem-se penas à garça
Do riso, branco e sadio!
E o dedo estale, na prima...
Que primaveras, e em flor!
Ai! corações, uma rima
Por quatro versos de Amor!
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
Nós, primaveras em flor.
E ai! corações, cavaquinhos
Com quatro cordas de Amor!
Requebrem árvores — ufa! —
Como as mulheres, ligeiro!
Como um pandeiro que rufa
O Sol, no monte, é um pandeiro!
E o campo de ouro transborda...
Ó Primavera, um vintém!
Onde é que se compra a corda
Da desventura, também?
Agora, um rio, água esparsa...
Nas águas claras de um rio,
Lavem-se penas à garça
Do riso, branco e sadio!
E o dedo estale, na prima...
Que primaveras, e em flor!
Ai! corações, uma rima
Por quatro versos de Amor!
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
2 422
Emiliano Perneta
A Uma Desconhecida
Tua beleza é como essa tentação que passa,
Cujo encanto fugaz inda brilha e palpita,
Cheio de frutos bons, leve de aroma e graça,
De um aroma ideal, de uma graça esquisita.
Ainda ao tronco gentil o desejo estrelaça
As rosas do prazer e a doçura infinita;
Quanto, porém, a luz vai se tornando escassa...
Quanta folha caiu dessa árvore bendita!
Em te vendo passar, ó doce fim de outono,
Fechada na estamenha escura do abandono,
Como zéfiro fala ao ouvido da rosa!
Ah, pudesse eu falar-te, um dia, voluptuosa,
Sem palavras, assim como uma sombra estranha,
Como zéfiro fala ao ouvido da rosa!
Publicado no livro Setembro (1934).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Cujo encanto fugaz inda brilha e palpita,
Cheio de frutos bons, leve de aroma e graça,
De um aroma ideal, de uma graça esquisita.
Ainda ao tronco gentil o desejo estrelaça
As rosas do prazer e a doçura infinita;
Quanto, porém, a luz vai se tornando escassa...
Quanta folha caiu dessa árvore bendita!
Em te vendo passar, ó doce fim de outono,
Fechada na estamenha escura do abandono,
Como zéfiro fala ao ouvido da rosa!
Ah, pudesse eu falar-te, um dia, voluptuosa,
Sem palavras, assim como uma sombra estranha,
Como zéfiro fala ao ouvido da rosa!
Publicado no livro Setembro (1934).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
2 317
Odylo Costa Filho
As Aquarelas
Não penso azul, nem verde, nem vermelho,
nenhuma cor vejo isoladamente:
quero a vida total, como um espelho
a que não falte flor, folha ou semente.
A natureza, neste abril redondo,
esconde formas, seres, linhas, cores,
aqui e ali bizarramente pondo
manchas involuntárias, multicores.
Recuso-me a adotar bandeira ou marca.
Nada escolho. O mistério natural
me envolve inteiro. Em tuas aquarelas
tudo renasce — como quem da barca
do dilúvio, depois do temporal,
visse de novo a terra das janelas...
Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
nenhuma cor vejo isoladamente:
quero a vida total, como um espelho
a que não falte flor, folha ou semente.
A natureza, neste abril redondo,
esconde formas, seres, linhas, cores,
aqui e ali bizarramente pondo
manchas involuntárias, multicores.
Recuso-me a adotar bandeira ou marca.
Nada escolho. O mistério natural
me envolve inteiro. Em tuas aquarelas
tudo renasce — como quem da barca
do dilúvio, depois do temporal,
visse de novo a terra das janelas...
Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
1 349
Frei Francisco de São Carlos
Canto I [O torto Cajueiro se adornava
(...)
O torto Cajueiro se adornava
Das purpúreas folhinhas, que brotava.
Cobria-se de flores a mangueira,
E o ar embalsamava a laranjeira.
A sua fruta d'ouro, que em doçura
Vence a Aristeo, caía de madura.
O terno Sabiá buscando amores
Já saudava por entre os mil verdores
Do copado pomar, seu senhorio,
A chegada das águas, e do Estio.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.5-
O torto Cajueiro se adornava
Das purpúreas folhinhas, que brotava.
Cobria-se de flores a mangueira,
E o ar embalsamava a laranjeira.
A sua fruta d'ouro, que em doçura
Vence a Aristeo, caía de madura.
O terno Sabiá buscando amores
Já saudava por entre os mil verdores
Do copado pomar, seu senhorio,
A chegada das águas, e do Estio.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.5-
1 302
Pedro Nava
Noite de São João
A Mário de Andrade
São João São João
o sol quebrando em mil pedaços
caiu na terra
mil fogueiras pondo na noite
chios
e chispas
fiáus
e rechinos
Noite de São Joões-balões
noite cheia de fogueiras
e vem-cá-bitus
Noite lanhada de fogo
noite cristã
como sacis unhando panças pretas
cachimbando na barriga dos balões
saltitando no fogo vivo dos tições
Noite de buscapé
(do buscapé-pé-PÉ
que corre tanto
e como tonto
volta
e vira
em viravoltas rentes raspando o chão)
e o vento agudo
e uma navalha zás-trás
recortando bandeiras em tiras
em faixas finas
serpentes serpentinas
(um novelo assanhado de serpentes
acorda nas fogueiras
e elas se espicham tesas
e suas línguas acesas
lambem as folhas frescas
largas langues das bananeiras)
São João São João
e o frio tão frio
que a própria lua nua tem frio
e devagar a vagarosa
escorrega pelos cipós
e se esgueira
na pontinha dos pés
— Psiu!
pra quentar na minha fogueira
São João São João
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
São João São João
o sol quebrando em mil pedaços
caiu na terra
mil fogueiras pondo na noite
chios
e chispas
fiáus
e rechinos
Noite de São Joões-balões
noite cheia de fogueiras
e vem-cá-bitus
Noite lanhada de fogo
noite cristã
como sacis unhando panças pretas
cachimbando na barriga dos balões
saltitando no fogo vivo dos tições
Noite de buscapé
(do buscapé-pé-PÉ
que corre tanto
e como tonto
volta
e vira
em viravoltas rentes raspando o chão)
e o vento agudo
e uma navalha zás-trás
recortando bandeiras em tiras
em faixas finas
serpentes serpentinas
(um novelo assanhado de serpentes
acorda nas fogueiras
e elas se espicham tesas
e suas línguas acesas
lambem as folhas frescas
largas langues das bananeiras)
São João São João
e o frio tão frio
que a própria lua nua tem frio
e devagar a vagarosa
escorrega pelos cipós
e se esgueira
na pontinha dos pés
— Psiu!
pra quentar na minha fogueira
São João São João
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
2 280
Gilka Machado
Verão
A Primavera veio
e se foi, mas deixou tremendo em cada seio
um rebento de amor. O Verão se acentua,
e, de manhã, bem cedo,
vêm dos silêncios amplos e sombrios
dos versudos moitais,
vêm do arvoredo,
murmúrios
macios
de cicios...
Há um mistério, um segredo
que sai dos íntimos refolhos
da alma dos animais,
das plantas, do minério,
– amoroso mistério
que as mulheres relatam pelos olhos.
Parece mais redonda
a curva da montanha, a curva da onda...
Por onde quer que a luz dos olhos entre
estranha tumescência encontra em cada ventre;
o claro e escampo céu, sobre as coisas aberto
da terra está mais perto
e está mais lindo,
como que pesado, como que caindo,
das entranhas contendo nos profundos
desvãos a gravidez de novos mundos.
Verão!
Que maravilha!
– a luz fervilha
em tudo:
nota-se do silêncio no veludo
uma palpitação
de existência no embrião;
partículas de Sol a água envolve, rolando,
partículas de Sol tremem, de quando em quando,
na fronderia, no ar;
partículas de Sol pululam pela estrada
que trilho, iluminada...
Creio que a luz esteja a desovar,
sinto-a vivendo, sinto-a vibrando
na minha pele, em cada membro, a cada
instante, e vago contaminada,
pelo gérmens vitais da procriação solar.
O dia lembra uma exaustão de amor...
Verão! Que acídia, que langor!...
Quem me dera também me desdobrar assim
como esse azul etéreo
que paira sobre mim
num lírico elastério!...
Por ti, Verão, todo meu corpo sente
ânsia de se expandir indefinidamente,
ânsia de se esticar, de se esticar
como as montanhas, como o mar,
em curvas lentas, no semiústo ambiente;
ânsia de distender
uma serpente
que carrego enroscada no meu ser.
Quero amor, quero ardência! A ti me exponho.
Verão, sou toda fecundidade!
– O calor me penetra, o Sol me invade
o senso,
e tudo em torno a mim se torna mais extenso,
tudo em que os olhos ponho:
o céu, o oceano, a mata...
E enquanto em gestação a Terra se dilata,
Dilata-se minha alma à gestação do Sonho.
Publicado no livro Mulher Nua (1922).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Rio de Janeiro: L. Christiano, 1992. p. 237-239
e se foi, mas deixou tremendo em cada seio
um rebento de amor. O Verão se acentua,
e, de manhã, bem cedo,
vêm dos silêncios amplos e sombrios
dos versudos moitais,
vêm do arvoredo,
murmúrios
macios
de cicios...
Há um mistério, um segredo
que sai dos íntimos refolhos
da alma dos animais,
das plantas, do minério,
– amoroso mistério
que as mulheres relatam pelos olhos.
Parece mais redonda
a curva da montanha, a curva da onda...
Por onde quer que a luz dos olhos entre
estranha tumescência encontra em cada ventre;
o claro e escampo céu, sobre as coisas aberto
da terra está mais perto
e está mais lindo,
como que pesado, como que caindo,
das entranhas contendo nos profundos
desvãos a gravidez de novos mundos.
Verão!
Que maravilha!
– a luz fervilha
em tudo:
nota-se do silêncio no veludo
uma palpitação
de existência no embrião;
partículas de Sol a água envolve, rolando,
partículas de Sol tremem, de quando em quando,
na fronderia, no ar;
partículas de Sol pululam pela estrada
que trilho, iluminada...
Creio que a luz esteja a desovar,
sinto-a vivendo, sinto-a vibrando
na minha pele, em cada membro, a cada
instante, e vago contaminada,
pelo gérmens vitais da procriação solar.
O dia lembra uma exaustão de amor...
Verão! Que acídia, que langor!...
Quem me dera também me desdobrar assim
como esse azul etéreo
que paira sobre mim
num lírico elastério!...
Por ti, Verão, todo meu corpo sente
ânsia de se expandir indefinidamente,
ânsia de se esticar, de se esticar
como as montanhas, como o mar,
em curvas lentas, no semiústo ambiente;
ânsia de distender
uma serpente
que carrego enroscada no meu ser.
Quero amor, quero ardência! A ti me exponho.
Verão, sou toda fecundidade!
– O calor me penetra, o Sol me invade
o senso,
e tudo em torno a mim se torna mais extenso,
tudo em que os olhos ponho:
o céu, o oceano, a mata...
E enquanto em gestação a Terra se dilata,
Dilata-se minha alma à gestação do Sonho.
Publicado no livro Mulher Nua (1922).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Rio de Janeiro: L. Christiano, 1992. p. 237-239
2 153
Manuel Machado
Verão
Frutíferos
carregados.
Dourados
trigais...
Cristais
enfumaçados.
Queimados
arbusto
Sombria,
seca,
Vento do oriente
Paleta
completa:
verão.
carregados.
Dourados
trigais...
Cristais
enfumaçados.
Queimados
arbusto
Sombria,
seca,
Vento do oriente
Paleta
completa:
verão.
1 052
César Vallejo
Pedra preta sobre pedra branca
Morrerei em Paris com aguaceiro,
um dia do qual tenho já a lembrança.
Morrerei em Paris - e não me apresso -
talvez em uma quinta-feira, como é hoje, de outono.
Quinta-feira será, porque hoje, quinta, que proseio
estes versos, os úmeros hei posto
a mau e, jamais como hoje, hei voltado
com todo meu caminho, a ver-me só.
César Vallejo há morto, lhe batiam
todos sem que ele lhes faça nada
davam-lhe forte com um pau e duro
Também com uma corda, são testemunhos
os dias de quinta e os ossos úmeros,
a solidão, a chuva, os caminhos...
um dia do qual tenho já a lembrança.
Morrerei em Paris - e não me apresso -
talvez em uma quinta-feira, como é hoje, de outono.
Quinta-feira será, porque hoje, quinta, que proseio
estes versos, os úmeros hei posto
a mau e, jamais como hoje, hei voltado
com todo meu caminho, a ver-me só.
César Vallejo há morto, lhe batiam
todos sem que ele lhes faça nada
davam-lhe forte com um pau e duro
Também com uma corda, são testemunhos
os dias de quinta e os ossos úmeros,
a solidão, a chuva, os caminhos...
1 450
Emily Dickinson
Algo existe
Algo existe num dia de verão,
No lento apagar de suas chamas,
Que me implele a ser solene.
Algo, num meio-dia de verão,
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende.
Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -
E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil, de mim se escape.
No lento apagar de suas chamas,
Que me implele a ser solene.
Algo, num meio-dia de verão,
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende.
Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -
E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil, de mim se escape.
1 933
Carla Dias
Ausência
Bebi... sim...
de gole em gole, refrescou-se o silêncio
com a balbúrdia
da tua sofisticada
ausência.
Enveredou-se
pela trilha estreita,
Gritando,
voluptuosidade
ao inverno
e ao sol que gela.
Pouco a pouco,
reviram-se papéis
sobre a mesa
na hora do jantar.
Palavras sobrevoam
a fome latente.
Parece bonito,
mas quase arde.
Lentamente,
sedas se arrastam
pelo chão
da tua ausência.
Assim como meu corpo,
cravado em dúvidas,
no sofá,
retrata nosso momento fatal.
Não me traga
um rosto
quase pálido
de vida.
Traga-me
o perfume
engarrafado
no teu sorriso.
Assim
a ausência passa
e com ela
o grande perigo.
Perder...
de gole em gole, refrescou-se o silêncio
com a balbúrdia
da tua sofisticada
ausência.
Enveredou-se
pela trilha estreita,
Gritando,
voluptuosidade
ao inverno
e ao sol que gela.
Pouco a pouco,
reviram-se papéis
sobre a mesa
na hora do jantar.
Palavras sobrevoam
a fome latente.
Parece bonito,
mas quase arde.
Lentamente,
sedas se arrastam
pelo chão
da tua ausência.
Assim como meu corpo,
cravado em dúvidas,
no sofá,
retrata nosso momento fatal.
Não me traga
um rosto
quase pálido
de vida.
Traga-me
o perfume
engarrafado
no teu sorriso.
Assim
a ausência passa
e com ela
o grande perigo.
Perder...
975
Joaquim Pessoa
Outono
Uma lâmina de ar
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.
2 295
Eduardo Valente da Fonseca
As mulheres admiráveis da cidade
Colho as nêsperas de outono e dou-vos as nêsperas de outono
mulheres admiráveis da cidade.
As avenidas são primaveris
e vós sabeis que a vida é apenas isto,
este tempo de viver entre as flores,
os pássaros, as horas e as palavras dos companheiros, lábios amorosos
descendo amaciantes sobre a pele dos vossos corpos frescos.
Colho por isso as nêsperas de outono açucaradas
entre guindastes, transito e cimento
e as disponho em vossas férteis mãos
de gestos admiráveis sobre os homens.
mulheres admiráveis da cidade.
As avenidas são primaveris
e vós sabeis que a vida é apenas isto,
este tempo de viver entre as flores,
os pássaros, as horas e as palavras dos companheiros, lábios amorosos
descendo amaciantes sobre a pele dos vossos corpos frescos.
Colho por isso as nêsperas de outono açucaradas
entre guindastes, transito e cimento
e as disponho em vossas férteis mãos
de gestos admiráveis sobre os homens.
1 052
Angela Santos
Spring Cleaning
Há
dias em que se acorda com o ímpeto da limpeza e ordenação
do espaço que nos rodeia. De repente nos damos conta do que ao
longo do tempo sem têm acumulado ao nosso redor, silenciosamente
e já sem utilidade, papeis e objetos.
E sem saber
como nem porquê, despertamos para as coisas mais ou menos inúteis
que por esquecimento, preguiça, ou pelo simples hábito
de as ver naquele lugar, fomos deixando invadir o nosso espaço,
isso que agora só vemos como lixo.
Até
as idéias viram lixo e nesses momentos em que a irreprimível
vontade de colocar as coisas no seu lugar reaparece, sentimos que é
necessário agendar, priorizar, limpar os gavetões mesmo
os da memória e da vida.
Abrindo
os armários, damos conta de que aquele vestido já não
condiz com a cor que trazemos por dentro, e aquele amontoado de papeis
com informação, só foi útil num determinado
momento; aquele outro objeto que alguém nos ofereceu, juntamente
com outros que fomos acumulando, ao longo do tempo, hoje os olhamos
e sentimos estarem somente ocupando espaço, fora da gente.
Até
o odor de coisas velhas assoma, e no ambiente que nos rodeia parece
estar faltando alguma coisa. Dá vontade de queimar incenso, colocar
flores por toda a casa.
E olhando
as estantes onde repousam meus livros, meus velhos discos de vinil e
os modernos Cds, me pareceu não ser aquele o local ideal para
os deixar e logo ali imaginei o espaço ideal para onde gostaria
de transladá-los. Assim acontece a quem compartilhando o espaço
onde vive, precisa se habituar a todos esses objetos que não
chegam pela sua própria mão ou escolha. Conviver é
ceder e a partilha de espaço nos obriga a respeitar a forma como
os outros o ocupam também.
Organizar
o espaço...ordenar a vida. Naquele momento isso me pareceu importante
movida pela vontade de refrescar e renovar. Aqui onde estou a desorganização,
é um estado quase permanente. Me incomoda a organização
excessiva. É como se um certo "fora de ordem" se tenha tornado
imprescindível ao meu equilíbrio. A organização
rígida é algo que afronto dentro de mim. Inconscientemente
vejo nessa excessiva ordenação das coisas, um modo de
ficar presa aos lugares, e eu sei que ainda não piso o lugar
onde quero criar raízes. Vivo numa dimensão "inter-espacial",
entre o lugar real e o lugar das projeções. Entre os dois
procuro lançar a ponte que torne o espaço da projeção
nesse outro o lugar : o da realidade vivida.
E porque
de limpeza, de ordenação de refrescar, se pretendia aludir,
me vem á memória a muito comum frase entre os ingleses
: "Spring Cleaning", a refrescada geral a dar a tudo com o anuncio
da Primavera. Tudo isto vem ao caso, porque neste lado do mundo, já
se sente que a Primavera em breve se anunciará e com ela chegará
o emergir silencioso das coisas em germinação, aguardando
o momento de irromperem.
"Spring
Cleaning", poderia ser esse o nome a dar a esse ímpeto que
despertou comigo, hoje: refrescar, renovar, retirar do caminho objetos
que nos prendem ao ontem, sobretudo ao ontem que murchou, desimpedir
o caminho de impecilhos que nos tolhem o caminhar , mudar atitudes,
romper com indecisões, olhar as pessoas nos olhos, colocar os
pingos nos "is", escrever preto no branco e mais importante que tudo
: cumprir o inadiável, com a mesma força misteriosa com
que irrompem as coisas acoitadas no seio da terra, que explodem com
a chegada da Primavera.
dias em que se acorda com o ímpeto da limpeza e ordenação
do espaço que nos rodeia. De repente nos damos conta do que ao
longo do tempo sem têm acumulado ao nosso redor, silenciosamente
e já sem utilidade, papeis e objetos.
E sem saber
como nem porquê, despertamos para as coisas mais ou menos inúteis
que por esquecimento, preguiça, ou pelo simples hábito
de as ver naquele lugar, fomos deixando invadir o nosso espaço,
isso que agora só vemos como lixo.
Até
as idéias viram lixo e nesses momentos em que a irreprimível
vontade de colocar as coisas no seu lugar reaparece, sentimos que é
necessário agendar, priorizar, limpar os gavetões mesmo
os da memória e da vida.
Abrindo
os armários, damos conta de que aquele vestido já não
condiz com a cor que trazemos por dentro, e aquele amontoado de papeis
com informação, só foi útil num determinado
momento; aquele outro objeto que alguém nos ofereceu, juntamente
com outros que fomos acumulando, ao longo do tempo, hoje os olhamos
e sentimos estarem somente ocupando espaço, fora da gente.
Até
o odor de coisas velhas assoma, e no ambiente que nos rodeia parece
estar faltando alguma coisa. Dá vontade de queimar incenso, colocar
flores por toda a casa.
E olhando
as estantes onde repousam meus livros, meus velhos discos de vinil e
os modernos Cds, me pareceu não ser aquele o local ideal para
os deixar e logo ali imaginei o espaço ideal para onde gostaria
de transladá-los. Assim acontece a quem compartilhando o espaço
onde vive, precisa se habituar a todos esses objetos que não
chegam pela sua própria mão ou escolha. Conviver é
ceder e a partilha de espaço nos obriga a respeitar a forma como
os outros o ocupam também.
Organizar
o espaço...ordenar a vida. Naquele momento isso me pareceu importante
movida pela vontade de refrescar e renovar. Aqui onde estou a desorganização,
é um estado quase permanente. Me incomoda a organização
excessiva. É como se um certo "fora de ordem" se tenha tornado
imprescindível ao meu equilíbrio. A organização
rígida é algo que afronto dentro de mim. Inconscientemente
vejo nessa excessiva ordenação das coisas, um modo de
ficar presa aos lugares, e eu sei que ainda não piso o lugar
onde quero criar raízes. Vivo numa dimensão "inter-espacial",
entre o lugar real e o lugar das projeções. Entre os dois
procuro lançar a ponte que torne o espaço da projeção
nesse outro o lugar : o da realidade vivida.
E porque
de limpeza, de ordenação de refrescar, se pretendia aludir,
me vem á memória a muito comum frase entre os ingleses
: "Spring Cleaning", a refrescada geral a dar a tudo com o anuncio
da Primavera. Tudo isto vem ao caso, porque neste lado do mundo, já
se sente que a Primavera em breve se anunciará e com ela chegará
o emergir silencioso das coisas em germinação, aguardando
o momento de irromperem.
"Spring
Cleaning", poderia ser esse o nome a dar a esse ímpeto que
despertou comigo, hoje: refrescar, renovar, retirar do caminho objetos
que nos prendem ao ontem, sobretudo ao ontem que murchou, desimpedir
o caminho de impecilhos que nos tolhem o caminhar , mudar atitudes,
romper com indecisões, olhar as pessoas nos olhos, colocar os
pingos nos "is", escrever preto no branco e mais importante que tudo
: cumprir o inadiável, com a mesma força misteriosa com
que irrompem as coisas acoitadas no seio da terra, que explodem com
a chegada da Primavera.
664
Angela Santos
Anunciação
Pior
que tudo
foi o inverno ter chegado
assim de repente,
quando ansiava ainda
manhãs de estio
Pior que tudo, este vento
varrendo dos sentidos
toda a volúpia
Pior que tudo
é este sentir-me estrangeira,
estar dentro e fora da festa…
Lá ao longe eu oiço
musica.. rufares.. alarido
e os convivas chamando
a entrar na dança
e a beber da taça
que colheu o dia.
que tudo
foi o inverno ter chegado
assim de repente,
quando ansiava ainda
manhãs de estio
Pior que tudo, este vento
varrendo dos sentidos
toda a volúpia
Pior que tudo
é este sentir-me estrangeira,
estar dentro e fora da festa…
Lá ao longe eu oiço
musica.. rufares.. alarido
e os convivas chamando
a entrar na dança
e a beber da taça
que colheu o dia.
985
Jorge Viegas
Sonho Azul
Voando
fechado no tempo,
Encontro momentos à muito perdidos.
Nos vales do paraíso
Infiltro a magia da liberdade
Nas veias da imaginação
E navego pela leveza do esplendor.
Acendo a tocha da reflexão
Embalo os sentimentos nos fluidos do silêncio
E abro a janela da criação
Vem comigo desvendar os mistérios da primavera
Delicadamente sentada no brilho das águas cristalinas,
Vaguear por entre os sons da inocência
E saborear a profundidade da beleza do carinho.
Vem decifrar as doces linhas dos enigmas
Que se escondem na beleza dos murmúrios do vento
E nas cores quentes do por do sol.
Vem percorrer as ondas do magnetismo absorvente
Do brilho dos olhares apaixonados pela sensual motivação
Da união de dois sentimentos.
Vem absorver essas gotas criadoras de sonhos interruptos
Que derrubam montanhas inexploráveis
Criando riachos por onde deslizas delicadamente deitada.
Vem provar o amor.
fechado no tempo,
Encontro momentos à muito perdidos.
Nos vales do paraíso
Infiltro a magia da liberdade
Nas veias da imaginação
E navego pela leveza do esplendor.
Acendo a tocha da reflexão
Embalo os sentimentos nos fluidos do silêncio
E abro a janela da criação
Vem comigo desvendar os mistérios da primavera
Delicadamente sentada no brilho das águas cristalinas,
Vaguear por entre os sons da inocência
E saborear a profundidade da beleza do carinho.
Vem decifrar as doces linhas dos enigmas
Que se escondem na beleza dos murmúrios do vento
E nas cores quentes do por do sol.
Vem percorrer as ondas do magnetismo absorvente
Do brilho dos olhares apaixonados pela sensual motivação
Da união de dois sentimentos.
Vem absorver essas gotas criadoras de sonhos interruptos
Que derrubam montanhas inexploráveis
Criando riachos por onde deslizas delicadamente deitada.
Vem provar o amor.
1 692
Lucas Tenório
A uma Nau
Flutua... flutua e me leva aos esquadros
Ó nau dos meus sonhos, mágica e bela...
Pinta-me a natureza em doirada tela
E traz-me à presença o mais belo dos quadros.
Viaja comigo até o fim do horizonte,
Onde se acaba o arco-íris em policromia
E dos últimos fachos dessa luz do dia,
me apresente o luar, às nuvens defronte.
Que as horas me esqueçam, e que siga em vão...
Que seja primavera em toda a estação
E pássaros cantem melodias queridas.
Pois que ao morrer, ó minha singela nave,
Quero levar-te esse tempo para uma nova vida
E contigo vagar por toda a eternidade.
Ó nau dos meus sonhos, mágica e bela...
Pinta-me a natureza em doirada tela
E traz-me à presença o mais belo dos quadros.
Viaja comigo até o fim do horizonte,
Onde se acaba o arco-íris em policromia
E dos últimos fachos dessa luz do dia,
me apresente o luar, às nuvens defronte.
Que as horas me esqueçam, e que siga em vão...
Que seja primavera em toda a estação
E pássaros cantem melodias queridas.
Pois que ao morrer, ó minha singela nave,
Quero levar-te esse tempo para uma nova vida
E contigo vagar por toda a eternidade.
697
Reinaldo Ferreira
O essencial é ter o vento
O essencial é ter o vento.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma dúzia ou mesmo dúzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dirão que o preciso, o urgente,
É ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não:
O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cadáver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Verão,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo
Que não fique sopro ou brisa
Nas mãos de um concorrente
Incompetente.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma dúzia ou mesmo dúzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dirão que o preciso, o urgente,
É ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não:
O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cadáver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Verão,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo
Que não fique sopro ou brisa
Nas mãos de um concorrente
Incompetente.
1 497
Reinaldo Ferreira
A tua mão é que desperta Abril
A tua mão é que desperta Abril
E, só de lhe tocar, reveste a rosa
E o vento vem, à tua mão airosa,
Como o cordeiro vem ao seu redil
É a tua mão que nos ascende, às mil,
Estrela por estrela, a clara noite oleosa
E nela, a vasta vaga procelosa
Semelha avena mansa e pastoril.
Oh! mão que nos semeias maravilhas,
Afastas do naufrágio as gastas quilhas
E deténs o trovão que nos assombra!
Oh! mão de alado gesto poderoso!
Entre todos sou eu quem, mais ansioso,
Aguarda que me cubra a tua sombra!
E, só de lhe tocar, reveste a rosa
E o vento vem, à tua mão airosa,
Como o cordeiro vem ao seu redil
É a tua mão que nos ascende, às mil,
Estrela por estrela, a clara noite oleosa
E nela, a vasta vaga procelosa
Semelha avena mansa e pastoril.
Oh! mão que nos semeias maravilhas,
Afastas do naufrágio as gastas quilhas
E deténs o trovão que nos assombra!
Oh! mão de alado gesto poderoso!
Entre todos sou eu quem, mais ansioso,
Aguarda que me cubra a tua sombra!
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